domingo, junho 26

Dois pontos sobre rodas


A curiosa notícia sobre os ciclistas nus suscita duas reflexões.

Primeira: que moral poderá estar a ser ofendida com esta iniciativa? Atendendo a que estamos em 2011, só pode estar em foco a obrigação de os cidadãos se protegerem dos ultra-violetas e outros efeitos deletérios do calor, como a Autoridade Nacional de Protecção Civil não se cansa de recomendar com os seus alertas coloridos.

Segunda: tentando interpretar correctamente a moral do dia que corre, ao recomendar o uso de cremes solares, o Presidente da Câmara de Lisboa assume competências inesperadas e está a dar uma sugestão aos novos governantes. A ANPC pode ser desmantelada já.

(Imagem. J Roybal)

sábado, junho 25

Mini-preços, mini-duração

Madrid é diferente. Micro-teatro por dinero é uma novidade de sucesso. Por apenas 3€, pode ver-se teatro e tomar uma bebida. Mas não menos importante é a duração das peças: 15 minutos. O produto interessa a todos: aos que têm poucos euros no bolso e aos que, tendo muitos, não podem convertê-los nesse bem mais precioso que é o tempo. Sem esquecer os pobres ou ricos que por conformação genética adormecem ao fim de 20 minutos de declamações. Que grande potencial tem a ideia.

sexta-feira, junho 24

"Um diálogo Pos-moderno: um interdito linguistico em abismo " - 4 anos depois

Por via de uma citação do on, um post antigo tem um comentário novo.

Democratização do copianço

Os exames nacionais envolvem uma operação policial de grande envergadura, com entrega simultânea de pacotes de enunciados, mantidos em grande segredo até ao momento aprazado, nas escolas de todo um país. É assim em Portugal como é também em França. É preciso recuar a 13 de Outubro de 1307 para se encontrar uma acção comparável, quando o ministro Guillaume de Nogaret organizou a prisão dos Templários.

Mas agora os tempos são outros... Um exercício do exame de Matemática para o ensino secundário em França foi divulgado na véspera. Os jornais dão grande destaque ao assunto.

O autor da divulgação, que escreve com muitos erros de francês, garante no site que o exercício vai mesmo sair e encoraja os internautas a tentar resolvê-lo: garante que não se arrependerão. E desafia: se não acreditam, ao menos utilizem-no como treino.

Enquanto alguns já reclamam a repetição do exame de Matemática, o caso vai dar que pensar. O sistema utilizado é muito dispendioso e o peso do exame na nota final é diminuto, argumentam os que se queixam da desadequação do modelo que, afirmam, nem garante a equidade a nível do país.

segunda-feira, junho 20

A PP, o IA e o VIP

Tão pouco tempo e tanto que há para aprender. Ontem dei-me conta de que há uma coisa chamada Psicologia Positiva (PP) que parece que é uma ciência. Foi inventada em 1998 por Martin Seligman e tem por objectivo mostrar uma outra face da Psicologia. Grosseiramente descrito, o lema é: abaixo o divã e o escavar de memórias macabras; em vez disso procurem-se as raizes do génio e do talento e promova-se a valorização das experiências positivas e a busca da felicidade. Se a comparação me é permitida, e pedindo desculpa pelo simplismo do meu entendimento, é como se tivéssemos um novo género de canalizador que entra em acção quando os canos estão em perfeitas condições.

Fiquei a saber de tudo isto num programa da Antena 1, com a presença de uma investigadora que é pioneira da introdução em Portugal dos métodos da PP: o Inquérito Apreciativo (IA), o V.I.P. (valores, influências e projectos) e o World Café. Fiquei com vontade de saber mais e fui pesquisar. Eu explico rapidamente: o IA pode assumir a forma concreta de Máquina do Tempo, em que as pessoas são chamadas a escrever as suas experiências gratificantes em post-it de cores diferentes, que colam em papel de cenário numa parede. Com o V.I.P. descrevem o que lhes evocam os valores, influências e projectos enquanto desenham círculos concêntricos. No World Café promovem-se conversas sobre temas agradáveis à volta de uma mesa com uns acepipes.

De acordo com a literatura publicada, tudo isto é comprovadamente eficaz, podendo os resultados, decorrentes de intervenções concretas em algumas organizações, ser classificados de "surpreendentes". Se assim é, só posso ficar feliz.

Mesmo que pareça que estou a brincar com o assunto, esclareço desde já que não é o caso, até porque descobri que a mesma investigadora faz uma recomendação que recolhe toda a minha simpatia e apoio, sem qualquer réstea de ironia: o uso sistemático do humor a nível das organizações. Advoga que se saiba rir de nós próprios e dos nossos maiores insucessos, que as organizações formem pessoal em competências humorísticas e que o humor seja progressivamente introduzido em notas informativas, circulares e discursos. Já fico bem disposto só de imaginar esse mundo novo. Venham as directivas, já!

quinta-feira, junho 16

Philo

...dire la vérité est utile à celui à qui on la dit, mais désavantageux à ceux qui la disent, parce qu’ils se font haïr. (...)
Personne ne parle de nous en notre présence comme il en parle en notre absence. L’union qui est entre les hommes n’est fondée que sur cette mutuelle tromperie ; et peu d’amitiés subsisteraient, si chacun savait ce que son ami dit de lui lorsqu’il n’y est pas,
quoiqu’il en parle alors sincèrement et sans passion.
L’homme n’est donc que déguisement, que mensonge et hypocrisie, et en soi-même
et à l’égard des autres. Il ne veut donc pas qu’on lui dise la vérité. Il évite de la
dire aux autres ; et toutes ces dispositions, si éloignées de la justice et de la raison,
ont une racine naturelle dans son coeur.
 
Este é um dos textos que hoje sairam em exames nacionais de Filosofia realizados em França. Países cultos são outra coisa: ministros, políticos e outras figuras públicas são chamados a resolver as questões do exame e lá se desenrascam como podem, e até o povo responde ao desafio enviando as suas respostas em versão SMS. O país inteiro discute se a arte é mais importante que a ciência, se a igualdade sacrifica a liberdade ou se uma hipótese científica é demonstrável. Numa palavra, discutem-se os assuntos verdadeiramente importantes. E tudo sem usar calculadora! 

segunda-feira, junho 13

Petit scandale colatéral

Com os pequenos ou médios escândalos que têm os costumes sexuais em pano de fundo, saltam para os jornais os pequenos ou médios escândalos colaterais. Em França, o caso dos rumores sobre um antigo ministro trazidos à cena por outro antigo ministro evoluiu para acusações e recriminações, continuando em alta o escrutínio feito aos deveres profissionais e ao salário de Luc Ferry na Universidade de Paris VII. Ferry não deu aulas neste ano lectivo, mantendo o salário, que acumula com um adicional pelas funções exercidas como presidente do Observatório da Sociedade. Tudo legal, diz Ferry, pois a afectação a funções públicas está prevista e regulada. Não é bem assim, replica Paris VII: a lei de autonomia universitária que entrou em vigor em Setembro de 2010 veio mudar as coisas. O enredo, agora frente ao cenário dos chorudos salários em funções públicas de utilidade misteriosa, presta-se bem a todos os populismos e oportunismos, tanto mais visíveis quanto melhor observarmos as famiglias políticas que defendem e atacam. A moral pode bem ser substituida pela correcção dos procedimentos administrativos e pelas fidelidades ideológicas, se é que ainda há restos de ideologia. Entretanto, no Figaro de hoje, o número de comentários sobre o salário de Ferry já é 3 vezes maior que o número de comentários sobre o caso que originou o rumor.

sexta-feira, junho 10

Weiner show

Terão mudado assim tanto os padrões morais em meia dúzia de anos? A pergunta de William Saletan faz todo o sentido. É verdade que o caso Weiner evoluiu de mal a pior: da tentativa de negação inicial passou-se à exposição da mentira, à confirmação de que o congressista terá enviado pela net fotos da sua nudez a mais de uma mulher, e sabe-se agora que tudo isto se passou ao mesmo tempo que a esposa de Weiner espera um bebé. Pecadilho sem grande relevo, dirão alguns. Menos grave do que as fraquezas de Clinton na sala oval, talvez. Daí que se assista com surpresa à forte demarcação que conhecidas figuras do Partido Democrata estão a fazer em relação a Weiner, com apelos à demissão.

Muitos que começaram por apoiá-lo ficaram irritados depois de se saber que o homem afinal tinha mentido, e julgam que a perda do lugar é bem merecida, mais por ser um mentiroso do que por espalhar na net fotos das suas partes.

Seja como for, parece que a personagem central deste reality show não merece a piedade dos espectadores. Porque, se tivermos paciência para fazer um flash-back até 1991, ficamos a saber que o nosso homem saltou para a política usando métodos desprezíveis, que passaram por ataques caluniosos anónimos aos seus concorrentes e pelo apelo à hostilidade racial.

Para Weiner não vai ser fácil o caminho da demissão. Pela simples razão de que é um político de aviário, que nunca teve uma profissão na vida real e não sabe fazer mais nada.

quarta-feira, junho 8

A reacção do silêncio

É notícia nos jornais e rádios em França, por via de um artigo do Canard Enchaîné: o presidente da Universidade de Paris 7 convoca Luc Ferry hoje mesmo para que se explique. Segundo o artigo, o filósofo e professor está ausente do serviço há meses, continuando a receber o salário bruto de 4.499 euros. (Faz lembrar aqueles preços que nos anúncios terminam em 9 para parecer que estão longe da centena seguinte.) Quando os adeptos de todos os encobrimentos querem mostrar que ninguém pode lançar pedras, ficamos ao menos a saber quanto recebe um professor universitário em França.

domingo, junho 5

Duas mulheres?

Casaram-se ontem em Nancy e augura-se-lhes um futuro feliz. São duas mulheres lésbicas, dizem elas, uma das quais possivelmente um homem. É fácil perceber: Stéphane gostaria de ser chamada Stéphanie. Afirma aos jornalistas que fez cirurgia para mudar de sexo mas esconde a documentação às autoridades, o que lhe permitiu casar com a jovem Elise dentro da lei desse estado antiquado que ocupa o hexágono para lá dos Pirinéus. Porque quem existe em face da lei é o homem que Stéphane foi. Para lá da publicidade conseguida, a história é fascinante, porque na realidade não temos provas de nada do que as duas dizem. As notícias limitam-se a reproduzir a versão do casal. Stéphane-nie e Elise podem estar, simplesmente, a gozar-nos. Mas a estorieta do homem que se torna mulher porque ama uma mulher que gosta de mulheres é sem dúvida bonita, com ou sem ironia.

quarta-feira, junho 1

Onde de choque

Depois de DSK, houve o caso Tron. Em Espanha, um senador acusado de abuso de menores vai apresentar a demissão. Mas é em França que a discussão se faz ao rubro pela calada. Há dois dias, num programa do Canal+, o ex-ministro Luc Ferry acusou, sem o nomear,  um anterior ministro de actos de pedofilia praticados em Marrocos. A revelação não o é assim tanto: lendo o que se escreveu sobre o caso percebe-se que todos sabem não só quem é o inominado como também da existência dos tais rumores. A imprensa é enviesadamente cautelosa no que escreve, seja fechando as caixas de comentários , seja desinteressando-se da substância dos (alegados) factos e mobilizando-se contra o mensageiro.

terça-feira, maio 31

Desaparecimentos

Isto é uma dúvida que me assalta há muito tempo, mas fiquei a saber que não sou um caso isolado. Por coincidência, recentemente mais de uma pessoa me confidenciou o seu estupor perante o facto. As máquinas de lavar engolerão peúgas? Parece que não é tão incomum, no fim da lavagem, aparecer apenas uma peúga onde devia estar um par. Mas se a máquina se abotoa com uma peúga de vez em quando, não deveria notar-se algum efeito de entupimento? E porquê peúgas, porque não lenços? Ou também os surripia e não notamos porque não vão aos pares? Não tenho resposta mas pelo que tenho vindo a saber trata-se de um mito urbano bem disseminado.

domingo, maio 29

Promoções

Fábio Coentrão é um dos melhores do mundo: é Ronaldo quem o diz. O novo talento português é objecto de uma campanha de venda que poderá render umas dezenas de milhões de euros ao Benfica. Ao lateral esquerdo juntou-se ontem a campanha de um partido português. Desinteressadamente, com certeza: apenas se aproveitou a oportunidade para obter uns autógrafos do craque. O partido exibiu abundantemente a sua simpatia e adesão ao jogador.

Promover as nossas estrelas e escutar o que têm para nos dizer é um caminho justo e compreensível. Já agora, o que não se compreende é por que razão os media silenciam o entusiasmo de Luís Figo pelas energias renováveis. Desde o verão de 2009, nunca mais a sua mensagem passou nos jornais, vá-se lá saber porquê.

Qual é a palavra difícil?


Quando Stephen Sondheim escreveu letras para West Side Story, era natural ouvir uma rapariga bonita e apaixonada dizer que se sentia gay. As palavras tiveram entretanto o seu curso de vida, determinado pelos utilizadores. É curioso como houve o cuidado de reescrever o poema, substituindo o dia pela noite para rimar com outra coisa.

Qualquer pretexto é bom para lembrar as minhas obras primas de estimação, e o WSS é uma delas. Hoje o motivo foi esta sondagem da Gallup: "os americanos estimam, em média, em 25% a percentagem de gays e lésbicas". Mesmo que descontemos a ambiguidade do significado das palavras, o resultado choca com a percepção comum da realidade e com alguns dados empíricos. Eu tenho a certeza de que no espírito dos inquiridos  a palavra "gay" não evocou o estado de alma da Maria do WSS. Conjecturo que anda em pano de fundo causa mais prosaica: uma percentagem razoável de cidadãos não sabe o significado de "percentagem". As fracções são um assunto difícil para o qual as escolas não têm muito tempo. É a matemática, silly people.

segunda-feira, maio 23

Viva Sevilla





Lo traigo andado.
La Macarena y todo
lo traigo andado.

Lo traigo andado;
cara como la tuya
no la he encontrado.

La Macarena y todo
lo traigo andado.

Ay río de Sevilla,
qué bien pareces.
lleno de velas blancas
y ramas verdes.

Federico Garcia Lorca, Canção No.6, "Sevillanas del siglo XVIII", Trece canciones espanolas antiguas.

terça-feira, maio 17

Found in translation

A presunção de inocência é uma atitude civilizada por que vale a pena batermo-nos sempre. Mas dar-lhe valor e acatá-la não implica que abdiquemos das nossas intuições e do simples bom senso de tentar compreender a realidade através das explicações mais simples. Frequentemente, os que gritam "cabala" quando os factos não lhes são agradáveis têm de se contorcer em explicações tão complicadas que acabam, eles, por parecer autores de cabala. Os exemplos são abundantes. Dito isto, e esperando para ver o que dá o recente caso DSK, parece que Bernard-Henry Lévy poderá ter ido longe demais no que escreveu ontem sobre DSK. David O'Hare dá aqui uma "tradução" abreviada* e com algum humor:


DSK is my friend, and I am Bernard-Henri Lévy. How dare these people of no importance treat him as though he has been credibly accused of a violent crime! He has a wife, with whom I, BHL, have dined, at parties with witty and charming Important People, and to speak publicly of any of this is victimizing her. To show my loyalty to this member of my privileged and superb tribe, I am going to make up nonsense about how rooms are cleaned in New York hotels, and assert, in my most magisterial way, that the US criminal justice system has a presumption of guilt. I have been to America, and I know about these things. The idea that a chambermaid is permitted in that vile country to accuse a Man of Great Importance! That a servant is permitted to trip up the great enterprise of my beloved French socialism! That if my seductive, charming, friend DSK, who loves the ladies, especially his own three, has forced himself on women they are supposed to be seen as victims – the nerve!

*não dispensa a leitura do documento original.

(Via um comentário no Harry's Place)

Adenda: Pelo menos [BHL] não mencionou Dreyfus, comenta Maureen Daud no NYT.

domingo, maio 15

A kultura

Se o espectáculo das eleições anteriores não deixou saudades, o das próximas é já insuportável. Já teria sido tempo de o parlamento tomar as iniciativas de mudança para que não fôssemos obrigados à tortura do longo período de caça ao voto (campanha e pré) quando é necessário substituir os representantes dos partidos.

Com abundância de discursos repetitivos, demagogia, mentiras, inépcia política e algumas espertezas, a penosa função convoca como subprodutos uma ou outra questão relativamente interessante, com destaque para o aparente mistério da resiliência do PS, que se apresenta nas sondagens como um dos possíveis vencedores.

Mistério pequeno, sim. Por um lado, as intervenções frouxas ou desastradas do principal adversário na contenda chegam para determinar a opção de muitos votantes pelo mal que já conhecem e que passam a encarar como menor. Mas antes de tudo não se pode ignorar que permeia a atmosfera mental tuguesa uma adesão afectiva, inconsciente, tornada estrutural, aos ideários subscritos por organizações catalogadas como "esquerda", e paralelamente uma rejeição visceral do que é descrito como "direita". Na verdade estas etiquetas obsoletas e inapropriadas funcionam quase como o equivalente da distinção entre o bem e o mal. O engano começa, naturalmente, nas palavras.

É particularmente curiosa a atitude das classes com maior grau de instrução em relação a estas categorias. Na verdade, um sub-sintoma interessante daquele estado mental é a associação que parte apreciável da "inteligentsia" faz entre orientação política e "cultura". Se entre as classes baixa e média-baixa será o receio do "ainda pior" a determinar certa orientação de voto, entre as classes instruídas a simples ideia de ajudar a eleger, digamos, o actual principal adversário do PM, causa alergias e calafrios. Porquê? Porque a "direita" está, aos olhos destes cidadãos, pejada de bimbos desprezíveis. Desde violinos de Chopin até ao lapso na citação de Sartre, passando pelas confusões sobre cantos dos Lusíadas ou sobre More e Mann, os pequeninos incidentes da vida parecem dar-lhes razão. Aquelas pessoas da "direita" são assim mesmo: encenam mal ou não se dão ao trabalho de encenar. Exibem sem pudor o gosto suburbano plasmado nos nomes que dão às vivendas ou nas massamás que habitam. Os "inteligentes" (isto é, os que entre linhas lêem) desprezam-nos por isso. Com o vício de serem sempre avaliados pelos "pares", irrompe neles urticária só de pensarem em dar apoio a tão desprezível gente, com a qual não se misturariam.

Quantos dos que se riram do Santana, no entanto, estariam informados sobre o catálogo das obras de Chopin? E porquê parar em Chopin, ou nos Lusíadas? Porque não recuar a Ockeghem, ou ir até Szymanowski, aos trios com piano de Shostakovich, à Recherche? Quantos dos que escarneceram por procuração estariam em condições de fazer o comentário apropriado sem teleponto?

É certo que não há deslizes destes, pelo menos tão notórios, entre os notáveis de "esquerda". Em primeiro lugar, eles cuidam muito mais da imagem e não brincam em serviço. O actual PM é exímio na pose. Cita Ortega y Gasset, refere Camões e Pessoa com a convicção de quem leu, e pode perfeitamente ter lido. Jorge Sampaio começou pelo Cavaleiro Andante, descobriu as virtudes do Frei Luís de Sousa e leu a Guerra e Paz e o Crime e Castigo, o que é perfeitamente verosímil. De Soares também não se duvida: com certeza leu muito e terá o "bom gosto" nas artes que a "inteligentsia" estima. O modo como se referem a uns e a outros revela que no imaginário dos intelectuais bem pensantes o quadro é mais ou menos assim: em casa de Soares, Sampaio e quiçá Sócrates escuta-se Pergolesi ou Mahler e há sempre um romance ou ensaio no sofá; em casa de PPCoelho ou Cavaco roda no gira-discos alguma música das Doce e na mesa de centro empilham-se as revistas de caras que só lemos com relutância no consultório.

Claro que cultura não é só literatura e música. Guterres sabia de Física e Matemática; Cavaco é professor de Economia. Tudo sopesado, que vantagens podemos aduzir de termos eleito tais pessoas? Tivemos mais sorte com os perfis de cultura mais humanista ou com os perfis mais técnicos? Olhando para o resultado, tivemos azar com todas.

Suspeito que a nossa "inteligentsia" pode estar equivocada no simplismo do quadro, como esteve no de outros. Afinal, há quinze anos que ela achava natural, por exemplo, que os universitários portugueses ganhassem tanto ou mais que os seus colegas de alguns países europeus, sem que o país tivesse que se dar à maçada de fabricar os popós e as máquinas de lavar que todo o mundo compra - até nós, a crédito.

Finalmente, de tanta suposta cultura e mesmo sem sair do âmbito restrito dela, não se colhe grande fruto. Há alguma ideia notável nos suporíferos discursos de Sampaio, por exemplo? Há tiradas infelizes, como a do défice para lá da vida (não foi isto que ele disse, não) ou simples truismos inócuos. Recentemente, citou uma frase de Pessoa (citação que Sócrates tem usado repetidamente) para condenação do pessimismo e elevação da auto-estima, como agora se diz. "Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma..." é uma citação inadequada: se estivéssemos a pensar mal de nós mesmos não acharíamos tão natural manter e merecer a vidinha bem acima das posses. Além disso, para apelar à vulgaridade do "pensamento positivo" não precisamos de invocar intelectuais nem poetas: as cartomantes e redactoras de zodíacos fazem-no com mais competência.

Pessoa disse do "escol" que ele se distinguia por ter a capacidade de criticar com ideias próprias, mas que podem não ser fundamentais. "A tragédia mental de Portugal presente é que (...) o nosso escol é estruturalmente provinciano." "O síndroma provinciano compreende, pelo menos (...) o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade(...)" "Os civilizados criam o progresso, (...), a modernidade; por isso não lhes atribuem importância de maior. (...) Quem não produz é que admira a produção." Quantas oportunidades perdidas para fazer umas citações menos redondas.

domingo, maio 8

Champanhe e candelabros

Faleceu no dia 16 de Abril o dono da célebre loja de Rodeo Drive, L.A., que fez fortuna e sucesso a vestir os mais ricos. "A roupa de homem mais cara do mundo" era o slogan. Só se atendia por marcação. O requinte e detalhes de atenção postos no serviço faziam a diferença. É o que conta este artigo do Washington Post, onde se regista também que a prazenteira escolha de pijamas, gravatas e perfumes decorria com a mistura de gozo e langor que o acompanhamento de champanhe servido por mordomos de luvas brancas permite adivinhar. Tudo iluminado por cintilantes candelabros de cristal. Uma ida à loja podia significar compras acima dos 5 milhões. Ocasionalmente, o faro para o negócio permitia-lhe quebrar regras, como quando admitiu um jovem casal que certa manhã rondava a loja, sem visita marcada: ficaram até à noite, gastaram 600 mil dólares, e voltaram no dia seguinte para gastar outros 250 mil.

Bijan Pakzad sempre deixou claro que para ser admitido como seu cliente pelo menos uma de três condições era necessária: ser rico, poderoso ou famoso. Para quem reunisse mais que uma, melhor. Vestiu Obama, Bush (parece que, dos presidentes americanos recentes, só Carter lhe escapou), Putin, Spielberg, Sinatra, Cary Grant, Stevie Wonder, Arnold Schwarzenegger e mais.

Tinha uma opinião bem definida sobre o que é um verdadeiro rico: alguém que bebe muito bom vinho ao jantar e chega à sua empresa de helicóptero. No entanto, talvez por tanto conhecer da riqueza comum, disse uma vez que a opulenta prosperidade, essa, só a pode exibir quem tem um amor feliz.

sexta-feira, abril 22

O Holocausto Espanhol


Esta madrugada, por causa do mau tempo, Sevilha não pode exibir os excessos a que costuma entregar-se na véspera de sexta-feira santa. Laranja é o cheiro das ruas de Sevilha, é certo, mas no tempo de páscoa sobrepõem-se-lhe exóticos incensos. Nas lojas sevilhanas de electrónica as montras estão atafulhadas com televisores onde se repete a saída de uma nossa senhora ao som de fanfarras.

Extravagâncias bonitas. Nada como os horrores que se viveram em 1936-39, a que o historiador Paul Preston dedicou dez anos de estudo. O livro sai em breve e já tem nome: O Holocausto Espanhol. Não parece exagero: 50 mil mortos pelos republicanos e mais de 150 mil pelos insurgentes, cada lado exercendo a violência de acordo com padrões próprios e até geograficamente distintos. Violência premeditada e sistemática dos franquistas, com técnicas tenebrosas como o "carro da caveira" e o surgimento de verdadeiros monstros humanos. Abordando tanto o terror revolucionário como a repressão golpista, Preston não poupa Carrillo às responsabilidades por Paracuellos. Campo de experiências de anarquistas, fascistas, comunistas e nazis, da intervenção de Hitler e Mussolini, com referência distante a Estaline e lugar para uma simpatia discreta de Salazar, na guerra acabou por germinar o ovo tenebroso do extermínio preconcebido. Eliminar sin escrúpulos ni vacilación a todos los que no piensen como nosotros, disse o General Mola.

sábado, abril 16


Não fosse a falta de tempo, estaria na próxima semana em Santiago para o festival de músicas contemplativas. A Catedral faz 800 anos.

sexta-feira, abril 15

Cetáceos pop

Foi publicado ontem no Current Biology um artigo sobre o canto das baleias. Os autores referem um fenómeno que consideram de transmissão cultural naquela espécie, referindo como os temas se propagam para leste ao longo do Pacífico Sul, em ondas culturais que por sua vez revolucionam os motivos sonoros.

Os êxitos em voga no momento podem ser escutados na aplicação publicada com este artigo do ABC online.

quinta-feira, abril 14

Uma pista no deserto

De acordo com notícias de ontem, parece ter sido inaugurado o novo aeroporto de Beja com um voo patrocinado por autarquias. Para além deste voo a brincar, não se vislumbram projectos de futuro a sério. O episódio encerra, num simbolismo de estarrecer, a tragédia portuguesa dos anos recentes. A viabilidade prometida era afinal a transformação de uma câmara municipal em empresa de aeronáutica civil. Neste enquadramento compreende-se que até o TGV possa vir a ser rentável: tudo é possível com uma adequada subida de impostos, pelo menos durante algum tempo.

O Santiago desconfia com razão, prometendo voltar ao assunto daqui a um ano.

Há umas fotos bonitas do aeroporto aqui.

quinta-feira, novembro 18

Cada um é o que é

Portugal é diferente da Irlanda, disse ontem Teixeira dos Santos.

Espanha não é Irlanda, nem Grécia, nem Portugal, escreve hoje o EL PAÍS.

É tudo verdade. O problema é que Portugal tem precisamente o problema de ser Portugal, e, mutatis mutandis, o mesmo se dirá de Espanha.

quinta-feira, novembro 11

Insolência

Não há pachorra. Há bocado, na SIC notícias, Vítor Ramalho foi entrevistado a propósito da independência de Angola. Falou dos gloriosos tempos da Casa do Império, que criou condições para a juventude de então tomar consciência do problema colonial. Até aí tudo bem. Depois lamentou que a juventude de agora esteja a leste desse caldo do ambiente da época. Mas porque havia a juventude de agora estar preocupada com isso? Não basta já aos vintes e trintas terem de suportar uma geração de gerontes que se apossou dos empregos para a vida, deixando-lhes em testamento um futuro com trabalho e reforma incerta, mais um saquinho de dívidas para pagar enquanto forem vivos? Teriam ainda de comungar as glórias destes cotas que se estão nas tintas para o fardo que deixam em herança?

domingo, novembro 7

A mim parece-me

O PÚBLICO de ontem revelava que nos meios jurídicos se debate com ardor a constitucionalidade da redução dos salários na função pública. Há até um conhecido causídico a quem parece que não é coisa constitucional e assim o escreveu, a pedido de um grupo de professores, num texto a que se dá o nome de parecer. Parece aos envolvidos na discussão que conflituam o direito ao salário, os princípios da igualdade e da confiança, e o da proibição do retrocesso, com o princípio da urgência e o da necessidade de atenuar o défice. O princípio da igualdade parece espezinhado porque os cortes atingem apenas trabalhadores do estado.

A adesão aos formalismos da lei é também um modo de negar a realidade. A quem estas coisas parecem, qualquer ideia de que não há pagamentos com os cofres vazios deve parecer simplesmente inadmissível, por não ser mencionada nos únicos textos que conhecem de trás para a frente.

O mesmo lapso selectivo afecta as classes altas ou médio-altas da nossa função pública, desagradadas com os cortes que as vão atingir. Nem só o governo e o primeiro ministro têm vivido em estado de recusa da realidade, mentindo a si mesmos e aos outros. Uns minutos de reflexão permitiriam antecipar, pelo menos desde há dois anos, que os salários teriam que descer. Não falo sequer dos salários escandalosos de altos cargos, que excedem os dos salários congéneres em paises mais ricos e com situação económica mais sólida. Basta pensar num exemplo concreto, menos dado a controvérsias, para nos apercebermos da ilusão em que temos vivido: os professores universitários são pagos em Portugal, desde os governos Guterres, ao mesmo nível do que sucede em paises como a França ou a Alemanha. Isto tem sido visto como natural, ao mesmo tempo que se aceita que a generalidade das profissões no sector privado se aguente com vencimentos em proporção com o estado das economias. O voluntarismo estatal quis fazer figura sem fazer as contas. Entretanto, é na Alemanha e na França que se fabricam os popós que nós conduzimos e as máquinas de lavar que adornam as casas que possuimos em excesso.

Choques

Os resultados das eleições primárias nos Estados Unidos incluem por acréscimo um ou outro pequeno choque cultural. Desta vez, dada a atenção que o tema merece dos jornais, falou-se da talvez inesperadamente alta proporção de pessoas homossexuais que votaram republicano. O Washington Post dedica uma coluna ao assunto, com base em resultados de um inquérito à boca das urnas. Depois, Ann Althouse comentou a coluna. Que o caso provoca alguma surpresa, incredulidade, ou até indignação, não há dúvida: basta ler os comentários dos leitores, anexos aos dois artigos. A revelação de que pessoas homossexuais possam ser movidas pelas mesmas preocupações que as outras pode significar a derrocada de uma certa arquitectura do mundo, fabricada em livros e artigos que brotaram da imaginação. A mesma surpresa com que Sarah Palin terá recebido a notícia de que afinal os nossos antepassados não deram grandes passeios ao lado de manadas de dinossauros, nos frondosos bosques de há 6000 anos.

Cleópatra na rádio (II)


Passa agora a segunda parte, na Antena 2 da RDP. Com autoria de Bernardo Sena.

Já não se fazem barcos nem música assim.

sábado, novembro 6

Nomes galaicos



Com os noticiários das rádios espanholas de hoje, veio-me à lembrança o botafumeiro, o esquisito pêndulo forçado da catedral de Santiago de Compostela. Agora é uma curiosidade que dá espectáculo nas missas. No passado terá tido a nobre utilidade de tornar a vida suportável dentro na enorme nave que acolhia monges e peregrinos num mundo sem duche nem bidés. Claro que podiam lavar as partes no Lavacollas, mas dali à catedral muito havia que suar ainda pelos toscos caminhos. Lavacollas é o nome do rio e da povoação que dão nome ao aeroporto de Santiago. Só pronunciável, ainda hoje (sobretudo diante do papa), por graça da evolução morfológica, que disfarçou as ressonâncias originais do rude vocábulo.

segunda-feira, novembro 1

A Presidenta

Este post não tem nada de político. É tão só uma manifestação de surpresa pela irrupção de um vocábulo novo na língua portuguesa, em consequência da eleição de Wilma. Em espanhol já se usava la presidenta, por causa da Cristina, mas é evidentemente um feminino forçado. Nunca ninguém disse la estudianta. Em francês a estrutura da língua distingue président e présidente, como em étudiant. Mas em português, para sermos honestos, devemos então passar também a dizer presidento, mesmo que não haja senhoras a concorrer à próxima eleição (embora haja sempre a possibilidade de vermos ressurgir aquela conhecida militanta de esquerda). E mais: nem só as mulheres têm direito a ter os seus amantos. Os homens quererão amantas, para não dar azo a dichotes. E, como vem aí o natal, não nos esqueçamos de pensar numas prendinhas para os nossos entos e as nossas entas queridas.

domingo, outubro 31

O que diz Tammy

Tammy Bruce escreveu no Guardian sobre a sua condição de homossexual e conservadora. Em resumo, conta que encontra um apoio mais genuino nos ambientes conservadores do que nos meios liberais -- onde, diz ela, a tolerância é uma etiqueta e é exercida por obrigação, valendo exclusivamente para aspectos seleccionados do comportamento ou das convicções.

O que diz Tammy vale o que vale. O que dizem os seus detractores também. São interessantes os comentários.

Cleopatra na rádio



Passou há momentos na rádio a primeira parte de "Cleopatra". É verdade: num dos melhores programas da Antena 2, "Alex North - Um eléctrico chamado desejo", Bernardo Sena deu hoje a escutar a belíssima partitura de Alex North para este filme excessivo, extravagante, expoente de uma época do cinema e do kitch que não rejeita o bom gosto. A música vive, autónoma, na ausência das imagens. O "tema do amor" e o "tema da ambição" libertam-se em toda a sua força no alinhamento radiofónico. Carregam, discretos mas persuasivos, a exuberância das cores e dos movimentos.

Mario Vargas Llosa a propósito do Tea Party

Há uma semana, no EL PAÍS, Mário Vargas Llosa escreveu sobre o significado do Tea Party nas próximas eleições nos Estados Unidos. Aqui ficam as linhas-chave do artigo:

- Em face da evolução a que se assistiu no estado da economia depois da eleição de Obama, neste momento o Tea Party complica mais a vida aos Republicnos que aos Democratas.

- Apesar de infiltrado por extremistas, reaccionários, conspiracionistas e figuras de cariz intelectual deficiente, o movimento teve uma génese espontânea, procurando simbolicamente reerguer a bandeira dos colonos independentistas e tendo conseguido marcar a agenda do acontecer político.

- No cerne deste movimiento "há algo de são, realista, democrático e profundamente libertário. O temor do crescimiento desenfreado do Estado e da burocracia, cujos tentáculos se infiltram cada vez mais na vida privada dos cidadãos, cerceando e asfixiando a sua liberdade e as suas iniciativas; a apropriação por parte do sector público de funções ou serviços que a sociedade civil poderia assumir com mais eficácia e menos desperdício de recursos; a criação de sistemas atraentes de assistência social que só poderão ser financiados com subidas sistemáticas de impostos, o que se traduzirá na queda dos níveis de vida das classes médias e populares."

A necessidade de recuperar a responsabilidade individual, ameaçada de dissolução pela ocupação de todos os espaços de iniciativa e acção por um estado cada vez mais omnipresente nas sociedades contemporâneas, é "um sentimento justo que merece ser incorporado na agenda política, pois denuncia problemas reais que a cultura democrática enfrenta".

Vale a pena ler todo o artigo.

quarta-feira, outubro 27

Tiopental sódico

Tiopental sódico é um derivado de barbitúrico de baixa acção, que induz hipnose e anestesia, mas não analgesia. Provoca hipnose decorridos 30 a 40 segundos a injecção intravenosa.

Tem como indicação a indução de anestesia antes da administração de outros agentes anestésicos. Também é utilizado na fase inicial da execução por injecção letal, antes da administração dos químicos indutores de coma.

Por falta do produto no estado do Arizona, a execução de Jeffrey Landrigan esteve suspensa. As autoridades tinham recorrido a um fornecedor britânico para obtenção do tiopental, e um juiz federal ordenara a suspensão por entender que a droga poderia não satisfazer os requisitos exigidos nos EEUU.
O Supremo Tribunal anulou a suspensão e a execução ocorreu hoje.

O único fornecedor do tiopental aprovado nos EEUU, uma companhia do Illinois, declarou que não concorda com o uso dado ao produto. "Não está indicado para a pena de morte."

domingo, outubro 24

O factor geográfico

Não se trata de superioridade biológica, nem de maior dinamismo cultural, nem de factores religiosos como a presença envolvente do cristianismo. Para Ian Morris, professor em Stanford e cujo livro mais recente tem o título "Why the West Rules", o importante é a geografia. Em voo esquemático, tudo começa com o aquecimento do planeta após a Idade do Gelo, que acabou por favorecer determinadas latitudes e não outras. A abundância de plantas e espécies domesticáveis favoreceu as zonas onde viriam brotar as culturas Greco-Romana, Judaica, Indiana e Chinesa. A partir do século XVI, o desenvolvimento da navegação favorece o "Ocidente", por estar mais póximo da América. É no "Ocidente" que a revolução científica e a revolução industrial têm lugar e vão determinar a supremacia e o domínio do mundo. E agora? Tendo as distâncias perdido relevo, o factor geográfico já não é o que era. O caminho está aberto para que China e Índia reassumam a liderança... por razões que já não são as mesmas.

quarta-feira, outubro 20

Estimando os submersos

No dia mundial da Estatística, o presidente do INE de Espanha conta como vão ser incorporados no PIB os sectores da prostituição e do contrabando.

domingo, outubro 17

Da Literatura

Conversa na Catedral será, se não o é já, reconhecido como um dos grandes romances do século XX. Com uma sofisticada arquitectura de texto e um enredo riquíssimo, povoado de personagens dotadas de vozes internas estilisticamente diversificadas, o romance joga com as sucessivas intromissões daquelas na acção, perturbando a cronologia linear e induzindo no leitor expectativa, erro e surpresa.

Se é verdade que a complexidade da narrativa atinge um ponto alto num trecho em que dezoito diálogos distintos se entrecruzam, não há dúvida sobre o papel central assumido pela fala de Don Fermín com Ambrosio, que se insinua logo a poucas páginas do início, seguida de uma outra fala pertencente ao diálogo entre Santiago e Ambrosio, como dois flashbacks cinematográficos sucessivos. Santiago, ou Zavalita, é filho de Don Fermín, empresário Odrista; Ambrosio trabalhara para Fermín como motorista e algo mais. Na cena inicial, Santiago e Ambrosio, que se tinham encontrado por acaso depois de muitos anos, conversavam na “Catedral” com cervejas pela frente.


-¿Lo hiciste por mí? -dijo don Fermín-. ¿Por mí, negro? Pobre infeliz, pobre loco.
-Le juro que no, niño -se ríe Ambrosio-. ¿Se está haciendo la burla de mí?


Fermín dirige-se a Ambrosio; Ambrosio responde a Zavalita. A frase encerra um enigma (as razões do assassinato, por Ambrosio, de uma prostituta, Hortensia, ex-amante de um ministro no governo do ditador Odría) que irromperá repetidamente ao longo do romance e que só perto do final será esclarecido na sua totalidade. As aparições seguintes da frase contêm ou insinuam novas camadas de significado. Na segunda ocorrência Don Fermín já procura inculcar em Ambrosio a motivação do crime que para ele é mais conveniente:

-¿Qué desgracia te pasó en Pucallpa? -dice Santiago.
(…)
-¿Por mí, por mí? -dijo don Fermín-. ¿O lo hiciste por ti, para tenerme en tus manos,
pobre infeliz?


Mais adiante, Don Fermín parece estar a ceder às razões de Ambrosio,

-Está bien, no llores, no te arrodilles, te creo, lo hiciste por mí -dijo don Fermín-. ¿No pensaste que en vez de ayudarme podías hundirme para siempre? ¿Para qué te dio
cabeza Dios, infeliz?


Mas nos flashbacks seguintes volta ao ataque:


-Ya sé por qué lo hiciste, infeliz -dijo don Fermín-. No porque me sacaba plata, no
porque me chantajeaba.
(…)
-Sino por el anónimo que me mandó contándome lo de tu mujer -dijo don Fermín-. No
por vengarme a mí. Por vengarte tú, infeliz.


(… …)
-Creías que te iba a despedir por lo que me enteré del asunto de tu mujer -dijo don
Fermín-. Creíste que haciendo eso me tenías del pescuezo. También tú querías
chantajearme, infeliz.
(… …)
-Basta, basta -dijo don Fermín-. Déjate de llorar. ¿No fue así, no pensaste eso, no lo
hiciste por eso?
(… …)
-Bueno, está bien –dijo don Fermín-. No llores más, infeliz.
(…)
-Bueno, no querías chantajearme sino ayudarme -dijo don Fermín-. Harás lo que yo te
diga, bueno, me obedecerás. Pero basta, ya no llores más.
(…)
-No te desprecio, no te odio -dijo don Fermín-. Está bien, me tienes respeto, lo hiciste
por mí. Para que yo no sufriera, bueno. No eres un infeliz, está bien.
(…)
-Está bien, está bien -repetía don Fermín.


(… …)



-Debiste decírmelo desde el principio -dijo don Fermín-. Tengo una mujer, vamos a
tener un hijo, quiero casarme con ella. Debiste contarme todo, Ambrosio.

Depois, a conversa entre Don Fermín e Ambrosio aparece a entrecortar o diálogo de Ambrosio com Queta, outra prostituta a quem Ambrosio se abre sobre a sua relação com Don Fermín:

-Qué malos ratos habrás pasado. Ambrosio, cómo me habrás odiado -dijo don Fermín-.
Teniendo que disimular así lo de tu mujer, tantos años. ¿Cuántos, Ambrosio?
-Haciéndome sentir una basura, haciéndome sentir no sé qué -gimió Ambrosio,
golpeando la cama con fuerza y Queta se puso de pie de un salto.
-¿Creías que iba a resentirme contigo, pobre infeliz? -dijo don Fermín-. No, Ambrosio. Saca a tu mujer de esa casa, ten tus hijos. Puedes trabajar aquí todo el tiempo que quieras. Y olvídate de Ancón y de todo eso, Ambrosio.



É Queta que faz a chocante revelação do crime aos jornalistas de “La Crónica”, um dos quais Santiago, filho de Don Fermín:

-No veía a Hortensia hacía tres días -sollozó Queta-. Me enteré por los periódicos. Pero
yo sé, no estoy mintiendo.
(…)
-Hortensia sabía muchas cosas de un tipo de plata, ella se estaba muriendo de hambre,
sólo quería irse de aquí -sollozó Queta-. No era por maldad, era para irse y empezar de
nuevo, donde nadie la conociera. Ya estaba medio muerta cuando la mataron. De lo mal que se portó el perro de Bermúdez, de lo mal que se portaron todos cuando la vieron caída.
-Le sacaba plata, y el tipo la mandó matar para que no lo chantajeara más -recitó,
suavemente, Becerrita-. ¿Quién es el tipo que contrató al matón?
-No lo contrató, le hablaría -dijo Queta, mirando a Becerrita a los ojos-. Le hablaría y lo convencería. Lo tenía dominado, era como su esclavo. Hacía lo que quería con él.
-Yo me atrevo, yo lo publico -repitió Becerrita, a media voz-. Qué carajo, yo te creo,
Queta.
(…)- El matón es su cachero. Se llama Ambrosio.
(…)
-Hortensia le sacaba plata, lo amenazaba con su mujer, con contar por calles y plazas la historia de su chofer -rugió Queta-. No es mentira, en vez de pagarle el pasaje a México la mandó matar con su cachero. ¿Lo va a decir, lo va a publicar?

Mais adiante, Santiago comentará que o encontro com um colega poderá tê-lo salvo nesse dia de uma tragédia maior:

Sí, había sido una suerte encontrarlo, una suerte ir a parar a la plaza San Martín y no a la pensión de Barranco, una suerte no ir a llorar la boca contra la almohada en la soledad del cuartito, sintiendo que se había acabado el mundo y pensando en matarte o en matar al pobre viejo, Zavalita.

(…)

E sabemos pela sua voz interior a enormidade do choque:

No en el momento que lo supiste, Zavalita, sino ahí. Piensa: sino en el momento que supe que todo Lima sabía que era marica menos yo. Toda la redacción, Zavalita, menos tú.

É disto que Santiago Zavalita quer que Ambrosio fale, na cena inicial, que decorre muito depois dos acontecimentos que constituem o núcleo da acção. Santiago quer ouvir a confissão do próprio. Ambrosio esquiva-se, ignorando que Santiago já sabe tudo. O leitor não sabe ainda que Santiago sabe.

O 21º



Afinal, apenas dois braços o esperavam.

O pensamento normalizado, ou a ordem dos factores

O El País publica hoje um artigo preocupado com os pregadores radicais islâmicos lá em casa. Dá como exemplos dois imans, ou directores de rezas, um na Catalunha e outro em Madrid. Que dizem eles? Que os muçulmanos devem evitar o contacto com os que não pertencem à sua comunidade. Que as mulheres só podem sair de casa para o funeral do marido. Que as adúlteras devem ser mortas, para que não haja filhos de impuras. Que é uma vergonha tolerar que seis pessoas se envolvam sexualmente, que dois homens se casem ou se permita nudismo nas praias. E tudo isto porquê? Explicam os articulistas: por falta de formação. Só por ignorância aqueles ingénuos misturam religião com práticas extremistas importadas dos países de origem, acabando por confundi-las com ditames sagrados. Imagine-se que alguns até defendem a poligamia -- uma prática alheia ao Islão -- nas suas prédicas.

É, por isso, necessário investir na normalização, eu diria até profissionalização, da figura do iman, que garanta imunidade às tendências radicais. E porquê, já agora? De modo algum porque se entreveja hipotético risco de terrorismo, mas sim porque à medida que estas coisas se vão sabendo a islamofobia cresce e a exclusão social espreita.

Da Galiza a Portugal: viagem impagável

Por incompetência e falta de compreensão do mundo circundante, os tugas empenham-se em eleger sucessivos governos que os levam à penúria, e o país ao caos. Na verdade não têm tido, nem se vislumbram, grandes alternativas. Mas, no meio da mediocridade, os governos recentes do PS possuem o desvalor acrescentado da burrice, nuns casos, ou de uma mistura dela com oportunismo e avareza noutros, na abordagem aos problemas, que em consequência acabam sem solução, ou pior do que estavam, ou na simples perturbação do dia a dia com prejuizos sociais e económicos.

Dois exemplos emblemáticos são suficientes para ilustrar esta apreciação.

A saga da avaliação dos professores, nos anos recentes, terminou com uma cedência em toda a linha. A avaliação era necessária, mas o modo como os tristes iluminados que habitam os gabinetes da 5 de Outubro tentaram conduzi-la foi exactamente o que todos os sindical-oportunistas necessitavam para uma oposição de sucesso.

O caso das SCUTs é mais complexo e espraia-se por um período temporal maior. Começa com a gestação oportunista do conceito e desemboca agora na portagem mais cara e caótica do mundo. Aos preços desincentivadores soma-se a criação de dificuldades ao pagamento. As consequências estão para se ver, mas como de costume ninguém se deve ter dado ao trabalho de aplicar o simples bom senso numa pré-avaliação. Para já, o aeroporto Sá Carneiro e o IKEA de Matosinhos são apenas dois pólos de atracção importantes em relação à Galiza, que podem acabar muito penalizados. Mas todo o comércio do norte vai ser com certeza gravemente afectado. A bem das Estradas de Portugal.

sexta-feira, outubro 8

Quem está de parabéns?


¿Dicen eso? Es magnífico. Me alegro mucho. ¡Ojalá fuera verdad. En efecto, de eso va mi obra, de la resistencia del individuo ante el poder, de la lucha de los hombres por salvar su individualidad en un mundo en el que la libertad está tan acosada. Esa nota expresa muy bien lo que yo pienso.

"Isso" que é? Mario Vargas Llosa refere-se à cautelosa frase com que a Academia Sueca justifica a atribuição do Nobel, transcrita em todos os jornais ontem:

...pela sua cartografia das estruturas do poder e as suas incisivas imagens da resistência individual, da revolta e da derrota.

Digna de uma badana escrita com a competência de quem pesa todas as letras, neste caso talvez para resistir a críticas dos que consideram Llosa um "neocon" imerecedor do prémio que julgavam definitivamente colado ao preconceito que cultivam, a frasezinha não evoca o génio efabulador do premiado. De qualquer modo, a Academia Sueca está de parabéns.

terça-feira, outubro 5

Carboncausto



O filminho chama-se No Pressure. Se o virmos sem ler o que já muito dele se disse, a primeira impressão desorienta. Parece-nos que os religiosos das PGA (perturbações globais antropogénicas - para usar o nome de invenção mais recente) estão a ser tratados e expostos a ridículo como eco-nazis. Mas como a mensagem tem o pendor convencional, não ficam dúvidas sobre o sentido da encenação: fazer ir pelos ares criancinhas e adultos indiferentes ao carbono que nos rodeia é de rebentar a rir para os fanáticos que idealizaram o argumento. A ideia de fundo nada tem de original. Hitler, Mao e outros grandes mestres na demonização de grupos praticamente esgotaram o assunto. Actualmente até Bin Laden acolhe a causa ecológica, sem se aperceber da blasfémia em que resvala: se Alá quer grelhar o planeta, quem se julga ele para o contrariar? A estupidez do activismo actual não poderia produzir senão dejectos como este filme. Quando se é incapaz de distinguir o humor do ridículo, está dado o sinal: a causa é abalada pela qualidade dos aderentes.

Os promotores viram-se obrigados a publicar um pedido de desculpas no Guardian e retiraram o video. Inutilmente, porque novas cópias aparecem. Patrocinadores, como a Sony, distanciaram-se da iniciativa.

A propósito e num tom mais sério: A BBC entrevista Richard Lindzen aqui.

segunda-feira, outubro 4

A saída

Pode o euro sobreviver à crise agravada que aí vem, com a recessão que atingirá os países europeus mais endividados e obrigados a contrair a economia? Talvez, se alguém sair da zona. A Alemanha, por exemplo, deixando os PIIGS entregues à sua sorte. É Joseph Stiglitz (prémio Nobel, ex-conselheiro de Clinton) quem o diz.

domingo, outubro 3

Já sinto o cheiro a mar



I can smell the sea air. Ah, the sea! The blessedest thing that God
created in the seven days. The rest of my
days I’m going to spend on the sea. And when I die I’m going to die
there on the sea, that sea. One day, out on the ocean, I will die. I will
die, with my hand in the hand of some good-looking nice ship’s doctor
with a small blond moustache. And he’ll have a silver watch and he’ll
look at me. And he’ll look at his silver watch and sadly say: “Poor
lady.” I’ll be buried at sea, dropped overboard sewn up in a clean
white shroud.
At the stroke of noon in the blaze
of summer into an ocean as blue as my first love’s eyes.

(Renee Fleming no papel de Blanche, em Um eléctrico chamado desejo, ópera de André Prévin, 1998. Acto III, cena 4.)

Como será que conseguem?

Os brasileiros elegem hoje o Presidente da República, mas não só: antes do código do presidente têm de introduzir o do DEPUTADO ESTADUAL, depois o do DEPUTADO FEDERAL, em seguida o do SENADOR 1, mais o do SENADOR 2, e por fim ainda o do GOVERNADOR. Se fosse cá seriam necessários uns quatro domingos, certamente com diferentes campanhas pelo meio, e as eleições estariam prontas lá para Janeiro do ano que vem.

domingo, setembro 26

As virtudes



Numa crónica inspirada e bem humorada no PÚBLICO de ontem, Pedro Mexia disseca a translacção de significado sofrida, nos nossos dias, pelos pecados capitais. Algo de semelhante se poderá dizer das virtudes. Estas andarão ainda mais pelos caminhos do esquecimento.

Prudência, na era do hedonismo e do multi-endividamento, é uma ideia hoje reduzida ao uso do preservativo. A Temperança entra em colisão permanente com os nossos "direitos": resta-lhe hoje o papel pífio de barreira ao consumo de gorduras, açúcar, sal e tabaco. A frasezinha de Wilde no Lady Windermere's Fan desferiu sobre a Força machadada de que nunca se haveria de recompôr. A Justiça acomoda-se ao acatamento das decisões formais dos tribunais (quando nos convém).

Isto para já não falar das chamadas teologais. Fé, hoje, é exercer a vulgaridade do "pensamento positivo" e a crença na culpa da nossa espécie por desencadear todas os desastres que as novas igrejas anunciam. Esperança é conceito que só aflora quando alguém diz que o seu clube vai ganhar por 3-1 ou que "desta vez" vamos à final de um europeu ou mundial. Quanto à Caridade, São Paulo bem se enganou, quando previu que no fim dos tempos, não havendo já necessidade de fé nem esperança, permaneceria aquela. Se dela sobram résteas é só para os animaizinhos e os espaços verdes: o nosso semelhante que se desenrasque ou o estado que cuide dele, pois para isso pagamos.

(Na reprodução: Alegoria da Temperança, Luca Giordano, National Gallery.)

domingo, setembro 12

Aniversário: o mistério de Elisa Claps

Completam-se hoje 17 anos sobre o desaparecimento de Elisa Claps em Potenza. Era domingo também. O irmão mais velho de Elisa recorda que há responsabilidades de quem, sabendo, ocultou o que sabia, e dirige-se em particular ao bispo de Potenza. Tendo havido obras no tecto da Trinità, três anos após o desaparecimento da jovem, é difícil crer que ninguém tivesse visto nada, afirma Gildo Claps.

Brincando, brincando...

...O New York Times aponta-nos o verdadeiro inimigo. O título podia bem ser: O Ocidente em guerra com os engenheiros. Esta clarificação penetrante é de grande importância e não se compreende porque não lhe é dado relevo noutros meios de comunicação. É que agora não há desculpas para o que há a fazer. Desmantelar os estudos de engenharia, já!

sábado, setembro 11

terça-feira, setembro 7

A curiosa tabela

Esqueçamos que os juros sobre a dívida nos ameaçam. Portugal surge hoje relativamente bem colocado entre os países com maior percentagem de licenciados. Já batemos os grandes. Se for verdade o que nos sussurram há anos sobre a correlação deste indicador com a competitividade e o desenvolvimento, temos de estar confiantes e não desanimar. Mesmo que desse ponto de vista estritamente utilitário a tabela de classificação pareça estar ao contrário, com as possíveis excepções que podem ser erros de cálculo:

1 - Finland (63%)
2 - Iceland (57%)
2 - Slovakia (57%)
4 - Poland (50%)
5 - New Zealand (48%)
6 - Denmark (47%)
7 - Ireland (46%)
8 - Portugal (45%)
9 - Netherlands (41%)
9 - Norway (41%)
11 - Sweden (40%)
12 - Japan (39%)
13 - United States (37%)
13 - Czech Republic (36%)
15 - United Kingdom (35%)

A estatística não fala da qualidade dos cursos que foram contabilizados. Mas nós queremos lá saber. Afinal o que interessa são os números e não as pessoas (isto é, como saem da universidade). Ou era ao contrário? Não, isso só se aplica noutros contextos.

Os doces trailers silenciosos


O filme pode não ser brilhante, podemos ter a sensação de que o realizador foi filmando a banalidade de umas vidas enquanto o orçamento lhe permitiu, mas temos obrigação moral de proteger esta espécie em extinção: os filmes cujos trailers não nos danificam a audição com fortes percussões entre cada frase. Assim do género:

This is the story of noble warriors...

PAM! PAM!

... known as the keepers of the imortal army...

PAM! PAM! PAM!

...they have sworn to crush all evil...

PAM! PAM! PAM! PAM!

... now they're coming near you... in 3D!

PAM! PAM! PAM! PAM!
PAM! PAM! PAM! PAM!

(pode continuar até 10 pancadas nos tímpanos)

Os exemplos são aos milhares. Não posto nenhum por respeito aos 5 leitores do blogue.




O discurso

A estas horas já Barroso fez o seu (primeiro) discurso sobre o estado da União no Parlamento Europeu. Enquanto a França paralisa com os efeitos do anúncio de greve, o Presidente da CE veio tranquilizar-nos: estamos melhor que há um ano, e se nos afundarmos vamos todos juntos.

O discurso de estado é introduzido no tratado de Lisboa. Nos Estados Unidos, o discurso sobre o estado da União tem normalmente uma audiência de milhões de tele-espectadores. Não sei se aqui as televisões lhe deram algum destaque. As notícias sobre o discurso de hoje focam-se essencialmente num aspecto anedótico: com receio de ver o parlamento vazio e na impossibilidade de contratar figurantes, a Comissão tinha previsto multar os parlamentares faltosos na quantia de 100 €. Uma coima modesta, considerando a maçada em perspectiva. A ideia acabou por não vingar, porque houve ameaças de abandono da sala a meio do discurso e queixas de ataque à liberdade dos parlamentares. Afinal o hemiciclo encheu.

segunda-feira, setembro 6

Ter 25 anos na Ucrânia

O decréscimo populacional na Ucrânia atinge a taxa de 1,1% ao ano desde o início dos anos 90. Para estimular a natalidade, os deputados da região de Ternopol propõem a criação de um imposto, com taxa não inferior a 6%, incidindo sobre todos os homens que, tendo atingido os 25 anos, não tenham pelo menos uma criança a seu cargo. Esperam assim resolver, a curto prazo, o financiamento de orfanatos e escolas, e avisam que vai ser necessário ter em conta a bomba de relógio do envelhecimento global.

domingo, setembro 5

O aceitável é sustentável?

Enquanto em Espanha se anuncia a próxima subida da idade de reforma para os 67 anos, em França o governo fica-se pelo número 62, bastante mais modesto. Mesmo assim os protestos aumentam: segundo uma sondagem hoje publicada, está a ficar estreita a maioria dos que julgam aceitável a medida prevista. E uns esmagadores 70% apoiam as manifestações de protesto marcadas para a próxima terça-feira.

Uma sondagem a inquirir se gostariam que lhes saisse o euromilhões ou se não se importavam de morrer um pouco mais cedo poderia ajudar a formar uma ideia sobre a clarividência das massas.

As mudanças estão a ser conduzidas pelo ministro Woerth: o tal que já tem direito a um "sub-caso" com o seu nome dentro do "caso" Bettencourt, tão grossos são os salpicos que o atingem, com novas revelações todos os dias. Que triste democracia, em que as medidas desagradáveis, que tocam no bolso dos cidadãos, são anunciadas e assumidas por gente sem idoneidade moral.

sábado, setembro 4

Duas mulheres

Não encontrei a história em jornais chilenos. É contada noutros sítios de língua espanhola. Então é assim: Yonni Barrios, 50 anos, mineiro com conhecimentos de enfermagem, é um dos homens que neste momento esperam resgate a 700 metros de profundidade. Tem-se dedicado a dar cuidados médicos aos colegas. É casado com Marta Salinas, de 56 anos.

Entretanto, à superfície, durante uma vigília de apoio aos soterrados, Marta é surpreendida ao ver a fotografia de Yonni no cartaz empunhado por Susana Valenzuela.

Esse é o meu marido! gritou.

Quero lá saber! responde Susana. Estamos apaixonados há cinco anos, vou esperar por ele.

Também eu! tu não és legítima.

Se a história é verdadeira desejo a Yonni que rapidamente possa sentir na pele o amor ou a raiva dos quatro braços que o esperam.

sexta-feira, setembro 3

Conversa em Tabriz



O filho mais velho de Sakineh Mohammadi Ashtiani, agora com 22 anos, fala por telemóvel, de Tabriz, sobre o caso da sua mãe a Bernard-Henry Levi. Garante que a mãe não pode ter tido responsabilidade na morte do pai; que o verdadeiro assassino, Taheri, está em liberdade, porque os filhos de Sakineh se comoveram com as súplicas da filha de três anos de Taheri e o perdoaram; que a mãe foi violada antes da sua recente aparição na tv; que assistiu ao castigo da mãe com 99 chicotadas quando tinha dezasseis anos; que a pressão internacional deveria aumentar e que a Turquia e o Brasil são países-chave; que a execução da mãe pode estar próxima e que o adjunto do poder judicial em Tabriz está a fazer esforços para comutar a pena de lapidação para enforcamento.

quinta-feira, setembro 2

Breaking news

Não criei o Universo nem tenho nada a ver com ele, garantiu Deus hoje à BBC, a propósito da apresentação do novo livro de Stephen Hawcking.

O título exorbita. Quando lemos a notícia, apercebemo-nos de que, embora num contexto novo, se trata de um remake da célebre frase de Laplace em resposta a Napoleão: "Je n'avais pas besoin de cette hypothèse-là". Estava-se mesmo no fim do século 18 e acabava de ser publicada a Mécanique céleste.

Actualização em 4 de Setembro: entretanto, Deus já respondeu a Hawking. (Via The Reference Frame)

terça-feira, agosto 31

Adjectivos



Nestes tempos de homogeneização, por vezes somos tentados a pensar que o mundo é igual em toda a parte e nenhuma deslocação nos causará surpresa. Felizmente não é bem assim. É verdade que os Starbucks e as Zaras são iguais em todas as cidades, que os filmes mainstream aparecem ao mesmo tempo em todas as salas com cheiro a pipoca por esse planeta, mas há espaço para pequenas diferenças que nos afagam a curiosidade. Em Londres, por exemplo, cidade visitadíssima, para além de se poder gozar a frescura dos 19º em agosto, ficamos a saber, enquanto descemos as escadas do metro, quantos parafusos nelas foram usados ou que Sweet Charity é o grande musical em cena. Em Lisboa temos de nos contentar com pensamentos dispersos de Sócrates, Cesário Verde ou filósofos pós-modernos que vêm pouco a propósito da viagem.

Há, pois, teatro. No Apollo da Shaftesbury Avenue revive-se todos os dias às 7:30pm o drama quase perfeito que Miller arquitectou em 1947: All My Sons, uma parábola sobre a responsabilidade, a honra, os afectos que tornam a morte impossível de aceitar ou os que a partir dela desabrocham com indiferença, as armadilhas da vida que podiam fazer o sonho americano resvalar para o pesadelo.

A versão de Howard Davies é uma cerimónia teatral de sobriedade e rigor, entrecortados pelas actuações penetrantes de David Suchet e Zoe Wanamaker. Ela, sobretudo, comunica com o público nos momentos certos até ao arrepio na pele.

É bom lembrar a sinopse: certas coisas não podem acontecer porque Deus não permite, mas acontecem mesmo assim, e um pai é sempre um pai.

Os adjectivos da crítica:

THE TELEGRAPH

stunning production
extraordinary power emotional depth
Zoë Wanamaker is outstanding

THE GUARDIAN
tremendous acting

EVENING STANDARD

poised and poignant (Zoe)
lovely geniality (David)

THE INDEPENDENT

emotionally searching, expertly acted
splendid self-conviction.
superlative (Zoe)

THE SUNDAY TIMES

excellent acting
compelling moral drama, rich characterisation

quarta-feira, agosto 25

Disfarce

Hoje apercebi-me de que o acontecimento do dia na Ibéria tem a ver com golos, bracarenses e sevilhanos. Ou não exactamente assim? Já não sei, depois de ver este comentário na Marca:

Que te meta cuatro goles el 'SuperrequeteBarça' en el Camp Nou es una cosa, por mucho que uno claudique en el túnel de vestuarios, pero que te vengan unos brasileños disfrazados de portugueses y te enseñen, uno por uno, los fundamentos de este deporte, es cosa seria.

Deselegantes, estes consumidores de estrelas portuguesas.

Curiosidades numéricas

Nos últimos dois dias o número 1.4 andou em alta.

Confirma-se: as nossas estatísticas oficiais dão-lhe destaque.

A estatística homóloga do Reino Unido não salienta o mesmo indicador (que também lhe daria vantagem: 1.6 contra 1.1), mas sim a variação relativamente ao trimestre precedente.

Se cá se tivesse feito a mesma opção, o número a aparecer nas primeiras páginas, 0.2, resultaria bem menos inflamatório dos entusiasmos.

O quadro completo está aqui, mostrando que estamos nitidamente à frente da Hungria, da Grécia e da Letónia, mas parecendo aconselhar moderação no optimismo, uma vez que os cortes no orçamento e as medidas de austeridade podem implicar uma desaceleração rápida do impulso inicial.

segunda-feira, agosto 23

Súplicas e sentenças

Pela sua iniciativa de expulsar ciganos, Sarkozy foi objecto de orações do Padre Arthur, o qual implorou a Deus que punisse o Presidente com um ataque de coração.

Enquanto isto, na Arábia Saudita um juiz procura saber junto dos hospitais do reino se é possível danificar, num ponto preciso, a espinal medula de um criminoso em julgamento. O réu terá provocado a paralisia de Abdul-Aziz Al-Mutairi após uma agressão com arma branca. Merece, por isso, ficar também tetraplégico, a menos que Al-Mutairi venha aceitar ser ressarcido em dinheiro.

O Padre Arthur, amigo dos ciganos, veio dizer um pouco mais tarde que apenas pretendia que Deus falasse a Sarkozy. Que lhe falasse ao coração, talvez.

Entretanto, um hospital saudita terá já dado resposta afirmativa ao juiz, não se sabendo embora se se disponibiliza a realizar a implantação da tetraplegia.

Não menos surpreendente, no entanto, é o grau de aprovação que mereceram as orações de Arthur entre os leitores -- presumivelmente laicos, na sua maioria -- que comentam no Liberation, e a desilusão neles provocada pela sua explicação posterior; e a franca adesão à sharia que se pode constatar também nos comentários dos leitores do Daily Mail.

domingo, agosto 22

Pobre Professor Hauser

Fazia tanto jeito que os macacos pensassem ou reagissem a estímulos como nós gostaríamos para compor uns artigos giros. Lá vão pelo cano abaixo um paper na Cognition e outro nos Proceedings of the Royal Society B. É o próprio director de Harvard que o confirma.

Uma vida por um lugar no parque

A história não tem nada de original. Na sequência da disputa de um lugar de estacionamento e de uma quase colisão, um homem de 76 anos sai do seu carro e dispara sobre a outra viatura, assassinando uma ocupante. Foi na sexta feira às 17.15, perto de Madrid.

Agora sabemos que tudo pode ser um sintoma de doença. Há três hipóteses sérias, segundo o ABC, todas devidamente descritas e classificadas no DSM-IV short circuiting, impulse control disorder ou borderline personality disorder. Os médicos de família lá nos vão servindo para tratar os problemas da hipertensão, do fígado, da mama ou da próstata, mas o dignóstico e tratamento das doenças da alma, essa críptica zona do corpo que mais escapa ao mundo das evidências, exige a experiência de um psicoterapeuta. Não há nada aqui para sorrir. Podemos por vezes escarnecer dos preciosismos e classificações dos manuais de psiquiatria e do seu possível efeito desculpabilizante, mas, com aqueles nomezinhos ou com outros, as perturbações existem e podem matar.

terça-feira, agosto 17

Sound track



Have fun.

segunda-feira, agosto 16

Penúria de ricos

Ao contrário do nosso, o governo de Zapatero anunciava há pouco tempo subida de impostos, sim, mas só para os mais ricos (categoria que, entende-se, ainda deixaria de fora ricos que bastem). A ideia seria criar um novo imposto para rendimentos superiores a 1 milhão de euros. Mas hoje é noticiado que esse objectivo não parece exequível. Os técnicos desaconselham uma medida que custaria mais do que os ganhos que iria permitir. Para além de aumentar a taxação dos ganhos com movimentos de capital, fala-se de um novo escalão do IRS (de lá) vizinho dos 50%. O problema é que há escassez de ricos, ou pelo menos de ricos tributáveis, já que apenas 8000 espanhóis declaram rendimentos superiores a 600 000€. Está-se mesmo a ver como vai acabar o filme: as medidas que ainda estão na forja irão afectar "menos ricos" com rendimentos na casa das centenas de milhares de euros e até "indigentes" que ganham um zero abaixo (e aqui já convivem vidas confortáveis com as de gente que luta para sobreviver).

O problema não é, obviamente, exclusivamente de Espanha. O aumento do número de pensionistas e os números do desemprego são dados que afectam em maior ou menor medida os países europeus. Problema difícil, mas é impossível ficarmos sem a impressão de que ou não se pensou nele antes ou não se procuram os métodos mais adequados para o resolver.

Der Ring des Nibelungen


O Anel em Bayreuth: a história, uma sinopse e o espectáculo dos aficcionados, tudo contado por Mario Vargas Llosa no El País. Imperdível a crónica deste grande mestre da escrita: Os deuses morrem em Bayreuth.

terça-feira, agosto 10

Os desincentivos a ensinar

Ontem, no Jornal das 9 da SIC Notícias, a professora Maria do Carmo Vieira (entrevistada a propósito da publicação do seu livro "O Ensino do Português") veio recordar aspectos do que continua a correr mal. Um dos alvos maiores de crítica foi a adopção da TLEBS, e fê-lo em termos que me levaram a rever o que escrevi há quase quatro anos, quando concedia que a TLEBS é assunto para adultos. O ponto de vista de M. C. Vieira é que nem para adultos aquilo serve, dada a artificialidade da classificação e a própria infelicidade da escolha de designações.

A TLEBS é um acto de arrogância de certa classe académica que frivolamente acolhe encomendas de ministérios de educação insensíveis à realidade.

Não é por acaso que, se há uma área da vida onde o risco de estupidificação é notavelmente elevado, essa área é a da educação entendida como "ciência". Felizmente há sempre quem mantenha alguma sanidade intelectual, mas o sistema está feito para eliminar os desvios. A falta de exigência, inadequação e degradação dos programas, em particular, leva a que os professores progressivamente percam a sensibilidade aos conteúdos da sua disciplina e em vez disso os reduzam a formatos burocráticos, susceptíveis de repartir por grelhas.

Imaginemos que um estudante conclui o 2º ciclo de Matemática com bons resultados e pretende fazer carreira no ensino básico ou secundário. Ele irá ter de passar pela máquina trituradora dos cursos de educação, que o farão regressar ao nível da escola primária, onde se debita ideologia e se desincentiva a crítica, onde lhe vão propor metodologias inventadas com grande economia de bom senso. Carreira adiante, terá de sofrer acções de formação onde, com poucas excepções, lhe servirão matérias espúrias ou simplesmente embrutecedoras. Como efeito disuasor é difícil imaginar melhor.

segunda-feira, agosto 9

Um caso bicudo


Ser um cidadão em pleno, ou o melhor que se possa, tomar a seu cargo a própria responsabilidade, os seus deveres e os seus direitos… Isso dá muitíssimo trabalho.



É perseguição, diz Pilar. Por causa da guerra do Iraque. Ou então é Pilar a travar a sua guerra: dívidas e juros de mora transmitem-se aos herdeiros.

A história é simples: Saramago instala-se em Espanha amargado com a conduta de um governo português. Mas o amor pátrio é mais forte e por isso decide pagar os seus impostos em Portugal, apesar de a carga fiscal ser maior. De qualquer maneira o assunto agora é entre administrações fiscais de cá e de lá: entendam-se nos tribunais sobre essa coisa menor da residência fiscal e salvaguarde-se que ninguém é obrigado a uma dupla tributação. Porque não me passa pela cabeça, nem com certeza a ninguém, que Saramago tenha omitido rendimentos. Se se confirma que há dívidas em Espanha, talvez faça sentido que o fisco espanhol reclame do nosso uma transferência. De repente dou por mim a temer pela casinha dos Bicos.

domingo, agosto 8

Um tempo perdido



No PÚBLICO de ontem, José Vieira Mendes lamenta que já não haja cinemas de reprise em Lisboa e tem saudades do Europa e do Paris. Eu também. Entusiasma-se com a recuperação do Europa pela CML e vê aí um futuro radioso para a cultura em Campo de Ourique. Eu tenho dúvidas. O São Jorge também foi "recuperado" mas praticamente não tem programação, como a consulta da página-internet, ou da da própria EGEAC, mostra logo. Claro que há uns "festivais" de vez em quando, alguns menos interessantes do que outros. Mas a realidade é que as pessoas agora, em geral, não querem ver filmes como o faziam nos anos 60 ou 70.

Nesse tempo era normal que as salas organizassem os seus ciclos de reposição, que no verão eram obrigatórios, e permitiam ver ou rever filmes de qualidade. O Europa era uma excelente sala de cinema, dispondo de condições técnicas que infelizmente já não existem em Lisboa: projecção de 70mm, uma qualidade de imagem hoje inexistente nas salas comerciais. Nunca poderemos rever aqui o West Side Story ou a Cleopatra como foram produzidos no seu tempo.

O problema é que agora temos os filmes que queremos enlatados em casa, a poucos metros da cozinha e do frigorífico. Os cinéfilos saudosos não se podem queixar: têm uma Cinematoca com programação estimável e não muito concorrida, num lugar central de Lisboa, servida por metro. Claro que encerra em Agosto: férias são férias e ver cinema é trabalho. Mas que justificação haverá para plantar tocas em todos os bairros? Não estou a ver a malta de Campo de Ourique a curtir entusiasmada na rua Almeida e Sousa.

(Foto: Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian)

sexta-feira, agosto 6

Pânicos gauleses e de todos nós

Hoje não é preciso ir aos jornais de direita franceses para perceber que UMP e Sarkozy estão a viver umas horas de alívio. Uff! depois de meses com artigos a chatear por causa do folhetim L'Oreal, vem a saber-se que o povo está é preocupado com a insegurança e aprova claramente medidas recentemente anunciadas pelo Presidente e membros do governo e UMP. A taxa de aprovação entra em grande pelo eleitorado de esquerda. Ele é o retirar da nacionalidade francesa aos cidadãos de origem estrangeira culpados de poligamia ou excisão, que recolhe a aprovação de 62% dos eleitores de esquerda; ou aos delinquentes culpados de atentar contra a vida de agentes de polícia, que agrada a 50% dos mesmos; ele é o controle electrónico dos delinquentes reincidentes durante anos após o cumprimento das penas, que ganha o primeiro lugar com um apoio total de 89%!

No Libération o artigo está reservado aos assinantes e o Le Monde não o apresenta na página de acolhimento. Os detalhes podem ler-se, claro, no Figaro.

Mas nem tudo são espinhos no lado da rosa. Lembramo-nos como há um ano atrás andávamos a lavar as mãos e desinfectar objectos com frequência doentia? Dos avisos e saboneteiras que de um momento para o outro inundaram as paredes? Pois. O governo francês está em cheque com a saída, ontem, de notícias sobre o relatório da comissão do Assembleia Nacional que critica fortemente a gestão da epidemia do século que o não foi (a gripe A). Aqui sim, o Libération e o L'Humanité atacam com unhas e dentes. O Libé titula com graça que a lei foi feita pelos laboratórios. A OMS não escapa, como não escapam os peritos técnicos, suspeitos de ligação à indústria. O L'Humanité chega a escrever que a comunidade científica, com as suas predições, mais parecia desejar a propagação do vírus, reflectindo uma espécie de "desejo de pandemia." Curiosamente, uma suspeita que o mesmo sector ideológico rejeita como blasfémia quando levantada sobre os indutores de outros pânicos da moda.

domingo, agosto 1

Agosto 1980



Amanhã será novamente tema de controvérsia em Itália: completar-se-ão 30 anos sobre a tragédia de Bologna. Às 10.25 de 2 de Agosto de 1980 explodiu na sala de espera da estação central uma potentíssima bomba que causaria 85 mortos, quase 200 feridos graves e estragos de grande monta.

Eram anos de chumbo e o terrorismo com origem nos extremos do espectro político estava à solta. No caso de Bologna as suspeitas incidiam sobre a extrema direita e movimentos neo-fascistas. Depois de um longo processo, foram condenados a prisão perpétua dois activistas de direita: Francesca Mambro e Valerio Fioravanti, com uma história confessada de participação em atentados de sangue, mas que sempre negaram a sua implicação no atentado de Bologna. Mais tarde foi também condenado outro neo-fascista, Luigi Cavardini.

Há dez anos, na passagem do 20º aniversário, comentava o primeiro ministro Amato que houvera mentiras, conivências e apoios a nível do Estado. Andreotti punha alguma água na fervura, dizendo que desvios sempre tinham existido, e que era preciso atender a que no aparelho dos serviços secretos dominava a convicção de que uma espécie de guerra santa anti-comunista era necessária e meritória.

No 30º aniversário, enquanto a Associação de Vítimas reclama a desclassificação dos arquivos que podem levar a compreender a dimensão da urdidura, vêm a público elementos de uma nova teoria sobre o atentado, onde surgem o grupo do célebre Carlos "o Chacal" e uma pista palestiniana. É Rosario Priore, ex-juiz de instrução de vários processos mediáticos, que descreve todo um cenário alternativo no livro "Intriga Internacional", de que é co-autor com Giovanni Fasanella. Mas, para Paolo Bolognesi, presidente da Associação de Vítimas, se bem que a continuação das investigações seja bem vinda, a pista alternativa é uma perda de tempo.