Em conversa com Francis Fukuyama, Peter Thiel expõe convicções pouco politicamente correctas.
Vivemos num mundo em que a previsibilidade e os modelos deterministas cederam lugar aos modelos probabilísticos, que na verdade tiram substância a qualquer planeamento racional. O desenvolvimento tecnológico, motor de progresso até aos anos 50 e 60, tem vindo a desacelerar. Regulamentação exagerada da actividade científica tem o efeito de tornar mais fácil o trabalho em finanças e informática do que nas engenharias, onde é necessário experimentar com coisas reais. A ciência sofre os efeitos de uma politização intensa, estando a competição por projectos de investigação sujeita a um processo burocrático com efeitos tóxicos. Temos hoje 100 vezes mais cientistas per capita do que em 1920, mas com produtividade inferior.
Thiel, que vê no sistema educacional, rodeado de incentivos que lhe exageram o valor, uma borbulha que não tardará a rebentar, não se entusiasma com as escolas privadas, que na prática vivem à sombra dos subsídios do sistema estatal. Decepcionado com o desempenho das universidades criadas nos últimos 20 anos, desistiu do projecto de criar uma nova e em vez disso instituiu bolsas destinadas à criação de empresas.
Com Leo Strauss, pensa que o domínio da "correcção política", responsável pela censura de verdades que deveriam ser ditas, é o nosso maior problema político.
domingo, fevereiro 26
A avaliação nas universidades, ou os metricadores
Desde que há uma nova legislação para o Ensino Superior, as universidades vivem mergulhadas em tarefas de avaliação esgotantes e insensatas.
Para dar cumprimento ao legislado, cada uma desenhou a sua grelha de avaliação do pessoal docente, assente em parâmetros e fórmulas de complexidade variável, cuja aplicação envolve um esforço e dispêndio de tempo gigantescos. No final os resultados têm reduzida utilidade prática e um potencial efeito nocivo em termos do ambiente de trabalho.
A ilusão de que é possível classificar a qualidade por meio de grelhas muito finas e analíticas é também aplicada na selecção de candidatos aos consursos para as posições de carreira. O que está em curso é a tentativa de redução dos júris a uma manada obediente de metricadores (eu sei que o termo não existe), com a agravante de que a imposição de maioria externa no júri impede qualquer escola de contratar quem melhor se ajusta a determinado objectivo de desenvolvimento. Autonomia universitária? Ora, ora.
Este estado de coisas é possível por duas razões principais. Uma é a existência de instrumentos como o Excel que permitem, apesar de tudo, terminar as contas necessárias a uma avaliação com os avaliadores ainda vivos. Outra é uma daquelas ideias tão subrepticiamente disseminadas que nem damos por ela: é que toda a frenética actividade avaliativa parece grátis. E beneficia de uma comparação muito a gosto dos tempos actuais: também nas empresas privadas se avalia, por isso vamos nós fazer o mesmo. Fica por esclarecer sob que condições uma empresa não sustentada por impostos conseguiria manter-se se decisse ocupar o seu pessoal em tarefas avaliativas de tal envergadura em vez de dedicar-se à produção.
Poderia ser diferente? Sim, poderia. Revendo a sério o Estatuto da Carreira Docente Universitária. O que seria uma maçada para qualquer ministro, dado o previsível choque com lóbis amigos e inimigos.
Para dar cumprimento ao legislado, cada uma desenhou a sua grelha de avaliação do pessoal docente, assente em parâmetros e fórmulas de complexidade variável, cuja aplicação envolve um esforço e dispêndio de tempo gigantescos. No final os resultados têm reduzida utilidade prática e um potencial efeito nocivo em termos do ambiente de trabalho.
A ilusão de que é possível classificar a qualidade por meio de grelhas muito finas e analíticas é também aplicada na selecção de candidatos aos consursos para as posições de carreira. O que está em curso é a tentativa de redução dos júris a uma manada obediente de metricadores (eu sei que o termo não existe), com a agravante de que a imposição de maioria externa no júri impede qualquer escola de contratar quem melhor se ajusta a determinado objectivo de desenvolvimento. Autonomia universitária? Ora, ora.
Este estado de coisas é possível por duas razões principais. Uma é a existência de instrumentos como o Excel que permitem, apesar de tudo, terminar as contas necessárias a uma avaliação com os avaliadores ainda vivos. Outra é uma daquelas ideias tão subrepticiamente disseminadas que nem damos por ela: é que toda a frenética actividade avaliativa parece grátis. E beneficia de uma comparação muito a gosto dos tempos actuais: também nas empresas privadas se avalia, por isso vamos nós fazer o mesmo. Fica por esclarecer sob que condições uma empresa não sustentada por impostos conseguiria manter-se se decisse ocupar o seu pessoal em tarefas avaliativas de tal envergadura em vez de dedicar-se à produção.
Poderia ser diferente? Sim, poderia. Revendo a sério o Estatuto da Carreira Docente Universitária. O que seria uma maçada para qualquer ministro, dado o previsível choque com lóbis amigos e inimigos.
sábado, fevereiro 25
O fim do "Público" em papel
Deixando em lágrimas e orfandade a opinião trotskista e mais sectária do país vizinho, o Público anuncia o fecho da sua edição em papel. Nascido para servir de contraponto ao El País quando este achasse oportuno incomodar o PSOE e Zapatero, alimentado com subsídios do governo de então, a sua razão de ser está esgotada. A capacidade de atrair investidores também. Jaume Roures, presidente da Mediapro e accionista maioritário do jornal, culpa a crise, o digital e a política de esquerda pelo insucesso do projecto. Roures, ex-trotskista com currículo de preso político, está em Hollywood por causa da nomeação de Midnight in Paris para os óscares. Roures é co-produtor do filme. Boa sorte para o Midnight, que é bem bonito e humorado.
quarta-feira, fevereiro 22
Da invisibilidade
Ontem o jornal das 21 da SIC Notícias entrevistou o cineasta Miguel Gomes, agora premiado internacionalmente.
Miguel Gomes reafirmou o que já tinha dito noutros lugares: que é essencial que o cinema português seja subsidiado para que se possa manter esta "liberdade artística" tão característica dos nossos filmes e que tanto é apreciada lá fora. O que torna possível esta liberdade é o facto de se poder fazer filmes independentes do poder político e económico, diz ele. (E sobretudo da bilheteira também, esqueceu-se de acrescentar. Ver mais adiante.)
Explicou melhor na entrevista porque é que não são os impostos dos portugueses que subsidiam o cinema. São as taxas sobre operadores de audiovisual, produtoras de dvd, receitas de bilheteira.
Sublinhou ainda que o cinema português tem gozado de liberdade de criação, sem pressões por parte do poder instituído. Como se consegue essa liberdade dependendo de subsídios? perguntou o jornalista. Gomes explicou tudo cristalinamente, uma vez mais: o cinema português actua como elemento de contra-poder mas não preocupa muito a classe política porque tem pouca visibilidade. (Entenda-se, é visto por pouca gente.) Ah, ok quanto à invisibilidade do cinema português. Quanto á invisibilidade específica do cinema que poderia preocupar a classe política, julgo que a explicação é outra: é que tal cinema simplesmente não existe.
Miguel Gomes reafirmou o que já tinha dito noutros lugares: que é essencial que o cinema português seja subsidiado para que se possa manter esta "liberdade artística" tão característica dos nossos filmes e que tanto é apreciada lá fora. O que torna possível esta liberdade é o facto de se poder fazer filmes independentes do poder político e económico, diz ele. (E sobretudo da bilheteira também, esqueceu-se de acrescentar. Ver mais adiante.)
Explicou melhor na entrevista porque é que não são os impostos dos portugueses que subsidiam o cinema. São as taxas sobre operadores de audiovisual, produtoras de dvd, receitas de bilheteira.
Sublinhou ainda que o cinema português tem gozado de liberdade de criação, sem pressões por parte do poder instituído. Como se consegue essa liberdade dependendo de subsídios? perguntou o jornalista. Gomes explicou tudo cristalinamente, uma vez mais: o cinema português actua como elemento de contra-poder mas não preocupa muito a classe política porque tem pouca visibilidade. (Entenda-se, é visto por pouca gente.) Ah, ok quanto à invisibilidade do cinema português. Quanto á invisibilidade específica do cinema que poderia preocupar a classe política, julgo que a explicação é outra: é que tal cinema simplesmente não existe.
domingo, fevereiro 19
Serviço público: sair do Facebook
Dizem que é assim: entrar no Facebook com o correo electrónico e password habitual.
Ir para https://ssl.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
ou
www.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
Aceitar e seguir o diálogo.
Depois, esperar 15 dias.
Detalhes aqui.
Ir para https://ssl.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
ou
www.facebook.com/help/contact.php?show_form=delete_account
Aceitar e seguir o diálogo.
Depois, esperar 15 dias.
Detalhes aqui.
quinta-feira, janeiro 19
Navios
Está na natureza humana salpicar de humor até os aspectos mais trágicos da vida. O terrível desastre do Costa Concordia ressuscita na net a citação atribuída por alguns a Winston Churchill:
There are 3 things I like about being on an Italian cruise ship. First, their cuisine is unsurpassed. Second, their service is superb. And then, in time of emergency, there is none of this nonsense about women and children first.
Mas é mais credível que se trate de uma tirada do Noel Coward, em registo mais ácido se possível:
I only travel on Italian ships; in the event of sinking, there’s none of that ‘women and children first’ nonsense!
Não sei se os italianos eram merecedores da piada. O último dos grandes naufrágios, antes da era do jacto, pertenceu ao transatlântico italiano Andrea Doria, com uma operação de salvamento competente e um custo em vidas moderado. A capa da Life, de 6 de Agosto de 1956, mostra o Andrea Doria visto do Île de France, a bordo do qual se encontrava o grande fotógrafo Loomis Dean. Dean fixou instantâneos de muitas celebridades do espectáculo e da moda. Entre elas o mordaz Noel Coward.
There are 3 things I like about being on an Italian cruise ship. First, their cuisine is unsurpassed. Second, their service is superb. And then, in time of emergency, there is none of this nonsense about women and children first.
Mas é mais credível que se trate de uma tirada do Noel Coward, em registo mais ácido se possível:
I only travel on Italian ships; in the event of sinking, there’s none of that ‘women and children first’ nonsense!
Não sei se os italianos eram merecedores da piada. O último dos grandes naufrágios, antes da era do jacto, pertenceu ao transatlântico italiano Andrea Doria, com uma operação de salvamento competente e um custo em vidas moderado. A capa da Life, de 6 de Agosto de 1956, mostra o Andrea Doria visto do Île de France, a bordo do qual se encontrava o grande fotógrafo Loomis Dean. Dean fixou instantâneos de muitas celebridades do espectáculo e da moda. Entre elas o mordaz Noel Coward.
domingo, janeiro 1
Um guião esgotado
Com as mudanças de governo recentes em Portugal e em Espanha, volta ao palco a encenação cansativa de uma novela baseada na cultura da irresponsabilização, na desfaçatez com que todos mentem e no desvalor das etiquetas que os partidos colam a si próprios.
O enredo é mais ou menos estável: em cena estão dois partidos, cujos nomes têm um significado escorregadio e equívoco e por isso vamos designar simplesmente por A e B. O partido com etiqueta A é substituido por outro com a etiqueta B. Tomada a posse, B descobre um défice ou uns buracões muito maiores do que o previsto e desata a anunciar que tem muita pena mas não pode deixar de fazer umas maldades de que em campanha tinha prometido abster-se. Os figurões de A aproveitam para pôr a boca no trombone para desancar nos B. Com toda a lata e falta de vergonha, os que alegremente contribuiram para arruinar a situação com uma gestão que bondosamente podemos chamar de inepta, criticam os recém-chegados dizendo que assim não se consegue recuperar a economia, que as medidas são necessárias mas não são bem aquelas. O cidadão-espectador não sabe com quem há-de indispor-se mais. Por um lado parece incrível que não se soubesse o resultado das contas e que ele depois surja por milagre em tão pouco tempo. Parece haver iniciativas que deveriam ter precedência e ficam por tomar. Por outro, os derrotados não conseguem explicar porque é que o seu programa, que tiveram oportunidade de aplicar uns largos anos, não permitiu caminhar para a resolução dos problemas mas antes pelo contrário, e ainda por cima na etapa final dos seus governos enveredaram pelas políticas mais próprias dos B.
Esta coreografia lamentável é acompanhada em fundo por um coro que, contraditoriamente, entoa uma melodia da amnésia: estamos numa fossa mas não há culpados de nada, não vá alguma coisa cair-nos em cima. A responsabilidade quer-se colectiva, como recomendam os discursos redondos de algumas das nossas figurinhas públicas.
Em Espanha a tontice chega ao ponto em que o novo governo condecora ministros do anterior. Com a atribuição do colar da ordem de Isabel a Católica a Zapatero (o governante que por conveniência política consolidou a fragmentação do país e hostilizou abertamente a Igreja, enquanto criava essa inutilidade oportunista chamada Aliança de Civilizações) nem se percebe se estamos perante uma gaffe ou uma traquinice humorística. Como refere com graça um comentador no Libertad Digital, um paralelo apropriado seria condecorar o conde Drácula com um crucifixo e uma coroa de alhos.
O enredo é mais ou menos estável: em cena estão dois partidos, cujos nomes têm um significado escorregadio e equívoco e por isso vamos designar simplesmente por A e B. O partido com etiqueta A é substituido por outro com a etiqueta B. Tomada a posse, B descobre um défice ou uns buracões muito maiores do que o previsto e desata a anunciar que tem muita pena mas não pode deixar de fazer umas maldades de que em campanha tinha prometido abster-se. Os figurões de A aproveitam para pôr a boca no trombone para desancar nos B. Com toda a lata e falta de vergonha, os que alegremente contribuiram para arruinar a situação com uma gestão que bondosamente podemos chamar de inepta, criticam os recém-chegados dizendo que assim não se consegue recuperar a economia, que as medidas são necessárias mas não são bem aquelas. O cidadão-espectador não sabe com quem há-de indispor-se mais. Por um lado parece incrível que não se soubesse o resultado das contas e que ele depois surja por milagre em tão pouco tempo. Parece haver iniciativas que deveriam ter precedência e ficam por tomar. Por outro, os derrotados não conseguem explicar porque é que o seu programa, que tiveram oportunidade de aplicar uns largos anos, não permitiu caminhar para a resolução dos problemas mas antes pelo contrário, e ainda por cima na etapa final dos seus governos enveredaram pelas políticas mais próprias dos B.
Esta coreografia lamentável é acompanhada em fundo por um coro que, contraditoriamente, entoa uma melodia da amnésia: estamos numa fossa mas não há culpados de nada, não vá alguma coisa cair-nos em cima. A responsabilidade quer-se colectiva, como recomendam os discursos redondos de algumas das nossas figurinhas públicas.
Em Espanha a tontice chega ao ponto em que o novo governo condecora ministros do anterior. Com a atribuição do colar da ordem de Isabel a Católica a Zapatero (o governante que por conveniência política consolidou a fragmentação do país e hostilizou abertamente a Igreja, enquanto criava essa inutilidade oportunista chamada Aliança de Civilizações) nem se percebe se estamos perante uma gaffe ou uma traquinice humorística. Como refere com graça um comentador no Libertad Digital, um paralelo apropriado seria condecorar o conde Drácula com um crucifixo e uma coroa de alhos.
sábado, dezembro 31
A traição de Rosa T.
Despertou uma curiosidade natural, ao surgir há dois dias nos jornais, o caso subitamente famoso da acção de divórcio movida em Roma por Antonio C., agora com 99 anos, contra a sua mulher, Rosa T., de 96, com quem casara em 1934 e de quem tem cinco filhos.
O motivo desta crise conjugal leva-nos a 2002 quando, ao remexer o fundo de uma gaveta, Antonio descobre um maço de cartas escritas pela mulher ao amante, cerca de 1940. Rosa confirma a traição ocorrida sessenta anos antes, mas Antonio não perdoa e sai de casa. Regressa algum tempo depois mas a convivência do casal parece irremediavelmente destroçada.
Costumo acreditar que a realidade sempre supera a ficção em riqueza e coerência de detalhes, mas este caso suspende por momentos tal axioma.
A cronaca evoca irresistivelmente a trama de Boquitas Pintadas, obra prima de Manuel Puig que merecia muito mais destaque do que o que tem obtido. Nené, uma das heroínas do livro, a quem as voltas da vida impedem de viver o seu amor por Juan Carlos, acaba por casar com Donato Massa, um homem rico mas de quem não gosta. O seu amor antigo continua vivo, e ao saber da morte de Juan Carlos entra em contacto epistolar com a mãe do falecido, em quem se apoia para confidenciar como vive frustrada o seu casamento, e pede o reenvio das cartas de Juan Carlos, devolvidas no fim do namoro. As cartas de Nené caem em mãos de Celina, irmã de Juan Carlos, invejosa e má como as cobras, amarga com a vida por motivo do seu insucesso com os homens. Celina nunca suportara que Nené namorasse o irmão: desprezava-a por ser mais pobre, invejava-lhe a beleza e atribuia-lhe, pelos encontros em noites geladas, a culpa da tuberculose que destruiria Juan Carlos. Vinga-se então, enviando a Massa as cartas de Nené e a Nené as cartas de Juan Carlos. Descoberta, Nené sai de casa mas sabemos no último episódio que regressa e que o casal viveu reconciliado até que uma doença grave acaba com Nené aos 52 anos. O último trecho do romance sublinha que Donato perdoou à esposa e termina com o Senhor Massa a queimar as cartas de amor de Juan Carlos e Nené. As cartas de Nené ardem tranquilamente, mas as de Juan Carlos resistem e encrespam-se, deixando ler fragmentos de linhas onde ardem promessas amorosas que nunca puderam ser cumpridas.
A ficção parece ficar a ganhar. A história de Nené surge mais rica que a de Rosa T. e o tempero do perdão confere-lhe um final amargamente redentor. Mas a verdade é que da história de Rosa T. sabemos só as poucas linhas que os jornais contaram.
O motivo desta crise conjugal leva-nos a 2002 quando, ao remexer o fundo de uma gaveta, Antonio descobre um maço de cartas escritas pela mulher ao amante, cerca de 1940. Rosa confirma a traição ocorrida sessenta anos antes, mas Antonio não perdoa e sai de casa. Regressa algum tempo depois mas a convivência do casal parece irremediavelmente destroçada.
Costumo acreditar que a realidade sempre supera a ficção em riqueza e coerência de detalhes, mas este caso suspende por momentos tal axioma.
A cronaca evoca irresistivelmente a trama de Boquitas Pintadas, obra prima de Manuel Puig que merecia muito mais destaque do que o que tem obtido. Nené, uma das heroínas do livro, a quem as voltas da vida impedem de viver o seu amor por Juan Carlos, acaba por casar com Donato Massa, um homem rico mas de quem não gosta. O seu amor antigo continua vivo, e ao saber da morte de Juan Carlos entra em contacto epistolar com a mãe do falecido, em quem se apoia para confidenciar como vive frustrada o seu casamento, e pede o reenvio das cartas de Juan Carlos, devolvidas no fim do namoro. As cartas de Nené caem em mãos de Celina, irmã de Juan Carlos, invejosa e má como as cobras, amarga com a vida por motivo do seu insucesso com os homens. Celina nunca suportara que Nené namorasse o irmão: desprezava-a por ser mais pobre, invejava-lhe a beleza e atribuia-lhe, pelos encontros em noites geladas, a culpa da tuberculose que destruiria Juan Carlos. Vinga-se então, enviando a Massa as cartas de Nené e a Nené as cartas de Juan Carlos. Descoberta, Nené sai de casa mas sabemos no último episódio que regressa e que o casal viveu reconciliado até que uma doença grave acaba com Nené aos 52 anos. O último trecho do romance sublinha que Donato perdoou à esposa e termina com o Senhor Massa a queimar as cartas de amor de Juan Carlos e Nené. As cartas de Nené ardem tranquilamente, mas as de Juan Carlos resistem e encrespam-se, deixando ler fragmentos de linhas onde ardem promessas amorosas que nunca puderam ser cumpridas.
A ficção parece ficar a ganhar. A história de Nené surge mais rica que a de Rosa T. e o tempero do perdão confere-lhe um final amargamente redentor. Mas a verdade é que da história de Rosa T. sabemos só as poucas linhas que os jornais contaram.
sexta-feira, dezembro 30
Recaptured time story
O cast the uma produção de West Side Story em 2007 recebe, em ensaio informal, 22 membros do cast original (1957). Em cinquenta anos os corpos perdem elegância e agilidade, as vozes frescura e firmeza. Mas, apesar do contraste, a passagem do tempo não apaga o entusiasmo com que se encarnam estas palavras, esta música e esta coreografia extraordinárias. Estão aqui a Maria e a Anita originais, bem como alguns dos Jets. Quando já se foi Jet, pode-se voltar a sê-lo meio século depois.
(Descoberto em neoneocon)
domingo, dezembro 25
Entre as pedras e a forca: uma questão de jurisprudência
O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani já deu a volta aos jornais do mundo. A Amnistia Internacional promoveu acções de protesto e houve abaixo-assinados pela anulação da sentença. Sakineh, que se encontra a cumprir uma sentença de 10 anos de prisão e parece que já levou 99 chicotadas, enfrenta duas condenações à morte: uma por lapidação, correspondente ao crime de adultério, e outra por enforcamento, dado estar condenada também por cumplicidade no homicídio do marido.
Sobre o assunto se pronunciou Malek Ajdar Sharifi, responsável provincial de justiça, em conversa com estudantes da universidade do Azerbaijão, explicando que a sentença de lapidação não foi executada na devida altura por ausência de meios, e que se aguarda sem pressa o parecer das altas instâncias sobre se é possível comutar a pena para o enforcamento.
Mohammad Javad Larijani, secretário geral do Conselho Iraniano para os Direitos Humanos, tranquilizou os indignados com a sentença, afirmando mesmo que o apedrejamento é mais um castigo que um método de execução, já que metade dos condenados acabam por sobreviver.
Sobre o assunto se pronunciou Malek Ajdar Sharifi, responsável provincial de justiça, em conversa com estudantes da universidade do Azerbaijão, explicando que a sentença de lapidação não foi executada na devida altura por ausência de meios, e que se aguarda sem pressa o parecer das altas instâncias sobre se é possível comutar a pena para o enforcamento.
Mohammad Javad Larijani, secretário geral do Conselho Iraniano para os Direitos Humanos, tranquilizou os indignados com a sentença, afirmando mesmo que o apedrejamento é mais um castigo que um método de execução, já que metade dos condenados acabam por sobreviver.
Os domésticos
No dia 1 de janeiro de 2012 muitos espanhóis poderão converter-se em empregadores e centos de milhares de postos de trabalho poderão ser criados. Tudo isto por efeito da entrada em vigor do novo sistema de segurança social dos empregados domésticos (mais de 90% dos quais são mulheres). Entre outras novidades, passa a ser direito destes trabalhadores um contrato escrito, mas fica de fora o direito a subsídio de desemprego. Como indicativo de quantias mínimas a pagar, 20 horas mensais importarão em 19,84€ de contribuição, dos quais 16,51 a cargo do empregador.
Teoricamente é assim. Num primeiro tempo, provavelmente o efeito será a destruição de postos de trabalho. Pelo menos no caso de baixos horários, é natural que o potencial empregador se recuse a ter mais trabalho com a burocracia do processo do que o que teria limpando a casa.
Teoricamente é assim. Num primeiro tempo, provavelmente o efeito será a destruição de postos de trabalho. Pelo menos no caso de baixos horários, é natural que o potencial empregador se recuse a ter mais trabalho com a burocracia do processo do que o que teria limpando a casa.
sábado, dezembro 24
O planeta Kim: uma tia no trono
Chora a Coreia do Norte a defunção do amado líder. Num frémito contido como o da locutora que o mundo viu a dar a notícia, em execução competente e rigorosa da discreta exibição da dor; ou em prantos desatados com que os cidadãos anónimos competirão entre si na demonstração de fidelidade à dinastia.
Entretanto, quem reinará? De acordo com os observadores desse estranho mundo, talvez o mais próximo do que o nosso imaginário poderia identificar como pertencendo a outro planeta, o menino Kim Jong-Un, designado pelo pai como sucessor, não tem idade nem experiência para ser aceite de imediato como herdeiro do trono. Pensamos que ronda os 27-28 anos, mas lá dentro a idade do miúdo nunca foi divulgada, por causa das coisas. Se fosse bonito ainda talvez passasse, mas, com aquela cara, ninguém no aparelho correrá a encher muros e paredes de fotos tristes. No entanto, o controlo do poder foi salvaguardado em vida por Kim Jong-Il, que o ano passado promoveu a sua irmã Kim Kyong-Hui a generala de quatro estrelas.
Gosto particularmente dela nesta foto, onde aparecia sentada ao lado do pai num banco de jardim. Agora já tem 65 anos. Mulher voluntariosa, apaixonou-se ou algo assim por Jang Song-Taek nos seus tempos de estudante. Jang era um sucesso entre o pessoal da faculdade porque cantava e dançava bem, mas nunca agradou ao papá Kim Il-Sung. Nada fez recuar Kim Kyong-Hui, que resistiu às pressões do pai e acabou por se casar com Jang em 1972. Apesar de uma desaparição de cena por volta de 2002, parece que por causa de problemas com o álcool, Hui não perdeu a confiança do irmão, que nos últimos anos se deixou fotografar na sua companhia e do cunhado. Hoje, Jang é o número 2 do comité de defesa nacional.
O casal teve uma filha e depois um filho. A filha exilou-se em Paris, mas a mãe nunca a deixou em paz, querendo-a sempre de volta para exercer funções na corte. A rapariga acabou por se suicidar.
Em 3 de Junho de 2010, a informação norte-coreana revelou que o presidente do partido, Yi Che-kang, falecera num acidente de trânsito. Acidentes de trânsito, num país sem carros, constituem uma maneira eufemística de mencionar execuções capitais. Sabendo-se que Yi era a segunda figura do estado e portanto rival de Jang, não será muito especulativo atribuir à pérfida Hui a montagem do acidente.
De acordo com a Wikipedia, Hui lançou-se agora nos negócios da restauração, possuindo uma hamburgeria em Pyongyang. Sendo de presumir que os palácios da capital regurgitam de conspiradores, suspeito que ainda vai haver notícias de que alguém teve uma indisposição fatal por causa da carne picada. A tia Hui é conhecida por não descansar em serviço e com certeza percebe de molhos.
Entretanto, quem reinará? De acordo com os observadores desse estranho mundo, talvez o mais próximo do que o nosso imaginário poderia identificar como pertencendo a outro planeta, o menino Kim Jong-Un, designado pelo pai como sucessor, não tem idade nem experiência para ser aceite de imediato como herdeiro do trono. Pensamos que ronda os 27-28 anos, mas lá dentro a idade do miúdo nunca foi divulgada, por causa das coisas. Se fosse bonito ainda talvez passasse, mas, com aquela cara, ninguém no aparelho correrá a encher muros e paredes de fotos tristes. No entanto, o controlo do poder foi salvaguardado em vida por Kim Jong-Il, que o ano passado promoveu a sua irmã Kim Kyong-Hui a generala de quatro estrelas.
Gosto particularmente dela nesta foto, onde aparecia sentada ao lado do pai num banco de jardim. Agora já tem 65 anos. Mulher voluntariosa, apaixonou-se ou algo assim por Jang Song-Taek nos seus tempos de estudante. Jang era um sucesso entre o pessoal da faculdade porque cantava e dançava bem, mas nunca agradou ao papá Kim Il-Sung. Nada fez recuar Kim Kyong-Hui, que resistiu às pressões do pai e acabou por se casar com Jang em 1972. Apesar de uma desaparição de cena por volta de 2002, parece que por causa de problemas com o álcool, Hui não perdeu a confiança do irmão, que nos últimos anos se deixou fotografar na sua companhia e do cunhado. Hoje, Jang é o número 2 do comité de defesa nacional.
O casal teve uma filha e depois um filho. A filha exilou-se em Paris, mas a mãe nunca a deixou em paz, querendo-a sempre de volta para exercer funções na corte. A rapariga acabou por se suicidar.
Em 3 de Junho de 2010, a informação norte-coreana revelou que o presidente do partido, Yi Che-kang, falecera num acidente de trânsito. Acidentes de trânsito, num país sem carros, constituem uma maneira eufemística de mencionar execuções capitais. Sabendo-se que Yi era a segunda figura do estado e portanto rival de Jang, não será muito especulativo atribuir à pérfida Hui a montagem do acidente.
De acordo com a Wikipedia, Hui lançou-se agora nos negócios da restauração, possuindo uma hamburgeria em Pyongyang. Sendo de presumir que os palácios da capital regurgitam de conspiradores, suspeito que ainda vai haver notícias de que alguém teve uma indisposição fatal por causa da carne picada. A tia Hui é conhecida por não descansar em serviço e com certeza percebe de molhos.
domingo, dezembro 18
As urdiduras de garín
O folhetim continua a pingar episódios todos os dias nos jornais espanhóis. As aventuras de Urdangarín no Instituto Nóos, em ligação com instituições de governo ou institutos ditos de utilidade pública, começam a ser reveladas com abundância de pormenores. É claro que tudo se reduz a sorver dinheiro do orçamento de estado ou de um governo autónomo para contas privadas sob a aparência de serviço público, mas naturalmente são os detalhes que emprestam à novela a vida com que palpita. É o caso do patrocínio a uma equipa de ciclismo falida no período 2004-2006, implicando a Fundación Illesport através do presidente das Baleares, terminando com a realização de contratos sem concurso público e muitos euros a mudar de mãos. Os investigadores dizem-se surpreendidos pela abundância de pistas deixadas pelos actores da novela, o que simplesmente indicia que sempre se julgaram totalmente impunes.
Pormenores à parte, nada de que não se soubesse, ou pelo menos se suspeitasse fortemente, há anos, quando Urdangarín foi despachado para Washington com um belo emprego na Telefónica. Dizem hoje os jornais que o movimento foi aconselhado por um assessor da real casa. Mas o dano está feito. Podem os títulos situacionistas vir dizer que Urdangarín "enganou o rei", podem as sondagens tranquilizantes vir dizer que o povo não perdeu confiança na monarquia, mas... se em 2006 já "se sabia", o rei não sabia?
Pormenores à parte, nada de que não se soubesse, ou pelo menos se suspeitasse fortemente, há anos, quando Urdangarín foi despachado para Washington com um belo emprego na Telefónica. Dizem hoje os jornais que o movimento foi aconselhado por um assessor da real casa. Mas o dano está feito. Podem os títulos situacionistas vir dizer que Urdangarín "enganou o rei", podem as sondagens tranquilizantes vir dizer que o povo não perdeu confiança na monarquia, mas... se em 2006 já "se sabia", o rei não sabia?
terça-feira, dezembro 13
O calvário dos honrados inocentes
Irá Urdangarin, ou duque de Palma, passar o Natal com a família? Com a real talvez não. Os mestres de cerimónias tratarão de evitar o ambiente espesso que pode surgir quando se recebe em casa alguém suspeito de desviar para paraísos fiscais uns milhões surripiados ao dinheiro público, a coberto da pureza de intenções de uma espécie de ONG. O problema é que as coisas vieram a saber-se por filtrações para os jornais, na sequência do inquérito aberto pela Procuradoria Anti-Corrupção das Baleares.´
Urdangarin declara-se pesaroso pelo seu porta-voz. Reafirma a sua honra e inocência. A Casa Real toma precauções, distancia-se e atreve-se a afirmar que a conduta do genro dos reis não parece exemplar. A Casa sabe muito bem que por enquanto não há culpados formais, mas perante a verosimilhança das sucessivas revelações, e na ausência de uma versão credível que inocente o rapaz, mais vale resguardar-se de danos futuros.
Urdangarin declara-se pesaroso pelo seu porta-voz. Reafirma a sua honra e inocência. A Casa Real toma precauções, distancia-se e atreve-se a afirmar que a conduta do genro dos reis não parece exemplar. A Casa sabe muito bem que por enquanto não há culpados formais, mas perante a verosimilhança das sucessivas revelações, e na ausência de uma versão credível que inocente o rapaz, mais vale resguardar-se de danos futuros.
quinta-feira, dezembro 8
A Dívida explicada às crianças
Com matemática e tudo, está aqui.
Conselhos ao instrutor:
...have students write down their ideas down about why countries like Greece, Italy, Ireland and Portugal are considered “more worrisome,” ..., and why they owe so much money to other countries.
Termina com um exercício:
Explain that a conventional solution to a debt crisis is to loan money to a country loaded with debt so that its creditors can be paid. Make a list of the potential benefits and hazards of such action, addressing questions like “Where does the money come from?”, “What are the potential consequences for the lenders?” and ”What are the potential consequences for the borrowers?”
Atenção: esta actividade envolve conceitos que um adulto pode ter dificuldade em compreender.
Conselhos ao instrutor:
...have students write down their ideas down about why countries like Greece, Italy, Ireland and Portugal are considered “more worrisome,” ..., and why they owe so much money to other countries.
Termina com um exercício:
Explain that a conventional solution to a debt crisis is to loan money to a country loaded with debt so that its creditors can be paid. Make a list of the potential benefits and hazards of such action, addressing questions like “Where does the money come from?”, “What are the potential consequences for the lenders?” and ”What are the potential consequences for the borrowers?”
Atenção: esta actividade envolve conceitos que um adulto pode ter dificuldade em compreender.
domingo, dezembro 4
Denúncias da impureza
Nos Estados Unidos a vida não é fácil para um negro que aspire a altas funções sem ser em representação do Partido Democrático. É o que mostra a desistência de Herman Cain, após denúncias de aventuras extra-conjugais. Denúncias frágeis, mas com a suficiente verosimilhança para que uma imprensa, predominantemente favorável ao campo concorrente, executasse com êxito a sua função de desgaste.
Os Republicanos não saem bem do filme: com uma sucessão de candidatos fracos e já abatidos, sem possibilidade nem capacidade de resposta aos ataques que em campanha são inevitáveis e devem ser estudados, fica a nú a fraqueza e a mediocridade do partido.
Também não é animador, independentemente das posições políticas, o peso do conservadorismo americano onde o campo democrático se inclui sem pejo, cadinho onde medram as reacções hostis aos deslizes de alcova. Os cargos de topo arriscam-se a ficar reservados aos irrepreensivelmente castos, sintoma preocupante para a América e para o mundo. Como é que um cidadão, que nem venceu com êxito a provação das angústias e do stress que umas infidelidadezitas proporcionam, vai reagir à pressão infinitamente maior de comandar a nação por enquanto mais poderosa do planeta?
A denúncia alcoviteira é uma tentação enorme a que a Europa também não escapa. Hoje, no Journal du Dimanche, o próprio Ministro do Interior vem dar uma marretada na cabeça de um DSK já politicamente
moribundo, confirmando um facto de que se sabia à boca pequena e que não deu origem a qualquer acusação: que o antigo chefe do FMI teria sido apanhado há cinco anos num controlo policial no Bois de Boulogne. O enquadramento e os factos são diferentes, mas é extraordinário que o próprio responsável pelo Interior confirme quase gratuitamente (bastou perguntar) um facto da vida privada de um cidadão. Para responder à teoria absurda do complot Manhattaniano, não havia necessidade de ir tão longe.
Os Republicanos não saem bem do filme: com uma sucessão de candidatos fracos e já abatidos, sem possibilidade nem capacidade de resposta aos ataques que em campanha são inevitáveis e devem ser estudados, fica a nú a fraqueza e a mediocridade do partido.
Também não é animador, independentemente das posições políticas, o peso do conservadorismo americano onde o campo democrático se inclui sem pejo, cadinho onde medram as reacções hostis aos deslizes de alcova. Os cargos de topo arriscam-se a ficar reservados aos irrepreensivelmente castos, sintoma preocupante para a América e para o mundo. Como é que um cidadão, que nem venceu com êxito a provação das angústias e do stress que umas infidelidadezitas proporcionam, vai reagir à pressão infinitamente maior de comandar a nação por enquanto mais poderosa do planeta?
A denúncia alcoviteira é uma tentação enorme a que a Europa também não escapa. Hoje, no Journal du Dimanche, o próprio Ministro do Interior vem dar uma marretada na cabeça de um DSK já politicamente
moribundo, confirmando um facto de que se sabia à boca pequena e que não deu origem a qualquer acusação: que o antigo chefe do FMI teria sido apanhado há cinco anos num controlo policial no Bois de Boulogne. O enquadramento e os factos são diferentes, mas é extraordinário que o próprio responsável pelo Interior confirme quase gratuitamente (bastou perguntar) um facto da vida privada de um cidadão. Para responder à teoria absurda do complot Manhattaniano, não havia necessidade de ir tão longe.
domingo, novembro 27
Vária
No EL PAÍS:
Viagem ao coração das trevas, reportagem de Mário Vargas Llosa sobre o Congo e os seus horrores narráveis,
ainda Vargas Llosa, a propósito da feira do livro de Guadalajara, diz recear que a internet frivolize a literatura e que a cultura contemporânea se banalizou.
Um editorial impiedoso para com o PSOE classifica a reflexão do partido após o 20 de Novembro como fantasia auto-justificativa: ninguém governou mal, apenas se culpa a crise internacional, ninguém é responsável.
Viagem ao coração das trevas, reportagem de Mário Vargas Llosa sobre o Congo e os seus horrores narráveis,
ainda Vargas Llosa, a propósito da feira do livro de Guadalajara, diz recear que a internet frivolize a literatura e que a cultura contemporânea se banalizou.
Um editorial impiedoso para com o PSOE classifica a reflexão do partido após o 20 de Novembro como fantasia auto-justificativa: ninguém governou mal, apenas se culpa a crise internacional, ninguém é responsável.
quinta-feira, novembro 24
As massas e a razão
Bajo las especies de sindicalismo y fascismo aparece por primera vez en Europa un tipo de hombre que
He aquí lo nuevo: el derecho a no tener razón, la razón de la sinrazón. Yo veo en ello la manifestación más palpable del nuevo modo de ser las masas, por haberse resuelto a dirigir la sociedad sin capacidad para ello. En su conducta política se revela la estructura del alma nueva de la manera más cruda y contundente; pero la clave está en el hermetismo intelectual. El hombre medio se encuentra con «ideas» dentro de sí, pero carece de la función de idear. Ni sospecha siquiera cuál es el elemento utilísimo en que las ideas viven. Quiere opinar. De aquí que sus «ideas» no sean efectivamente sino apetitos con palabras, como las romanzas musicales.
Ortega y Gasset, 1930no quiere dar razones ni quiere tener razón, sino que, sencillamente, se muestra resuelto a imponer sus opiniones.
He aquí lo nuevo: el derecho a no tener razón, la razón de la sinrazón. Yo veo en ello la manifestación más palpable del nuevo modo de ser las masas, por haberse resuelto a dirigir la sociedad sin capacidad para ello. En su conducta política se revela la estructura del alma nueva de la manera más cruda y contundente; pero la clave está en el hermetismo intelectual. El hombre medio se encuentra con «ideas» dentro de sí, pero carece de la función de idear. Ni sospecha siquiera cuál es el elemento utilísimo en que las ideas viven. Quiere opinar. De aquí que sus «ideas» no sean efectivamente sino apetitos con palabras, como las romanzas musicales.
Ortega y Gasset, 1930no quiere dar razones ni quiere tener razón, sino que, sencillamente, se muestra resuelto a imponer sus opiniones.
terça-feira, novembro 22
Este curioso mundo
Juan José Cortés é o pai da pequena Mari Luz, assassinada em 2008. Depois de uma aproximação ao PP, de quem chegou a ser consultor para a reforma do processo criminal, o partido deixou-o cair, provavelmente devido ao seu envolvimento num tiroteio entre familiares. Agora, Cortés está em vias de criar uma nova entidade religiosa, e o processo formal está muito adiantado. A nova congregação chama-se Iglesia Evangélica Ministerio Juan José Cortés e já tem 40 fiéis. Está tudo contado no El Mundo de ontem. Cortés termina assim a sua colaboração na Igreja Evangélica de Filadelfia, à qual pertencia há 17 anos. Na nova igreja espera ter mais margem de manobra para a criação de um novo espírito social, ao serviço dos cidadãos.
sábado, novembro 12
Um abusador "serial": caso para estudo
Um bocado longe de nós, caiu esta semana um treinador de sucesso. Joe Paterno, que conduziu a equipa de Penn State a muitas vitórias, foi despedido, arrastando consigo o presidente Graham Spanier. Motivo: a prisão, no sábado passado, de Jerry Sandusky, assistente de Paterno, acusado de numerosos actos de pedofilia.
Sandusky criou em 1977 uma instituição que recolhia e auxiliava rapazes pobres e com famílias disfuncionais. Alguns deles acabaram por ser suas (alegadas) vítimas.
Não há acusações sobre Paterno e Spanier, embora haja lugar a interrogações sobre o que o treinador sabia ou ocultava.
Quando o competente CEO anunciou os despedimentos, diz o The New Republic que a primeira pergunta dos jornalistas foi: quem é que irá treinar a equipa de futebol? E para os estudantes de Penn State a notícia foi devastadora: uma pequena multidão saiu à rua com vuvuzelas e vandalizou o que pode, em apoio de Paterno.
O júri do 32º estado elaborou um relatório de acusação disponível online. Índice: Introdução, Factos, Vítima 1, Vítima 2, Vítima 3, Vítima 4, Vítima 5, Vítima 6, Vítima 7, Vítima 8.
Sandusky criou em 1977 uma instituição que recolhia e auxiliava rapazes pobres e com famílias disfuncionais. Alguns deles acabaram por ser suas (alegadas) vítimas.
Não há acusações sobre Paterno e Spanier, embora haja lugar a interrogações sobre o que o treinador sabia ou ocultava.
Quando o competente CEO anunciou os despedimentos, diz o The New Republic que a primeira pergunta dos jornalistas foi: quem é que irá treinar a equipa de futebol? E para os estudantes de Penn State a notícia foi devastadora: uma pequena multidão saiu à rua com vuvuzelas e vandalizou o que pode, em apoio de Paterno.
O júri do 32º estado elaborou um relatório de acusação disponível online. Índice: Introdução, Factos, Vítima 1, Vítima 2, Vítima 3, Vítima 4, Vítima 5, Vítima 6, Vítima 7, Vítima 8.
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