Já que se falou no poder das palavras, é interessante assistir também à sua queda em desgraça. O Science Museum rebaptiza a exposição sobre "ciência do clima" e redefine o seu conteúdo. De um posicionamento em forma de câmara de sustos e horrores, passa a assumir uma atitude mais neutra.
Quanto tempo demorará a chegar às escolas e às universidades a mesma contenção?
segunda-feira, março 29
domingo, março 28
Neolíngua
A Local Government Association publicou a lista de 250 neo-palavras (algumas não tão neo) que devem ser banidas da comunicação com a população por parte das entidades do sector público. A ideia é que o destino dado aos impostos deve ser explicado aos contribuintes em inglês. Segue uma amostra de vocábulos desaconselhados:
Core principles
Sustainable
Output
Outsourced
Overarching
Synergies
Paradigm
Parameter
Democratic legitimacy
Indicators
Partnership
Multidisciplinary
Transparency
Proactive
Social contracts
Value-added
Social exclusion
Subsidiarity
Imagina-se a dificuldade em construir comunicados, relatórios ou discursos sem estas muletas. Tal como, aqui entre nós, em relação a expressões como
investir na qualificação
inserção profissional
conhecimento global
aposta nas novas tecnologias
redes tecnológicas de nova geração
energias renováveis
responder àquilo que são os desafios
reforço da estabilidade política
plataforma programática
reduzir as desigualdades
relançar a economia e promover o emprego
consolidar uma trajectória de crescimento sustentado
investimento público modernizador
linhas prioritárias de alta velocidade
diálogo social estruturado e consequente
rigor no controlo da despesa
As neo-expressões têm um valor inestimável para os seus usuários. Elas constroem significado de duvidoso conteúdo. Menos de metade do auditório descodifica-as, com ou sem aprovação, e os outros ficam consolados porque alguém compreendeu ou julgou compreender.
Core principles
Sustainable
Output
Outsourced
Overarching
Synergies
Paradigm
Parameter
Democratic legitimacy
Indicators
Partnership
Multidisciplinary
Transparency
Proactive
Social contracts
Value-added
Social exclusion
Subsidiarity
Imagina-se a dificuldade em construir comunicados, relatórios ou discursos sem estas muletas. Tal como, aqui entre nós, em relação a expressões como
investir na qualificação
inserção profissional
conhecimento global
aposta nas novas tecnologias
redes tecnológicas de nova geração
energias renováveis
responder àquilo que são os desafios
reforço da estabilidade política
plataforma programática
reduzir as desigualdades
relançar a economia e promover o emprego
consolidar uma trajectória de crescimento sustentado
investimento público modernizador
linhas prioritárias de alta velocidade
diálogo social estruturado e consequente
rigor no controlo da despesa
As neo-expressões têm um valor inestimável para os seus usuários. Elas constroem significado de duvidoso conteúdo. Menos de metade do auditório descodifica-as, com ou sem aprovação, e os outros ficam consolados porque alguém compreendeu ou julgou compreender.
terça-feira, março 23
Tudo está bem se acabar bem
Em matéria de permissividade no cinema, a Malásia já chegou aos anos 30. Do século XX, é bom que se entenda. De facto, agora são permitidas nos filmes personagens gays, sob a condição de que no final se arrependam e se transformem em virtuosos heteros. Embora beijos e apalpadelas continuem rigorosamente proibidos para todos os sexos, isto representa um passo gigantesco em termos de abrandamento da censura islâmica: a medida não impõe, por exemplo, que as personagens homo acabem sepultadas sob um muro, nem sequer que pelo meio tenham que pagar multas e ser chicoteadas. O que é essencial é que o filme plasme a vitória do bem sobre o mal . Por exemplo, o cinema passa a poder mostrar também corridas ilegais desde que os prevaricadores sejam apanhados ou morram no fim.
Parece apesar de tudo que os autores de scripts para filmes ficam limitados a um modelo rígido. Se num filme um acelera ilegal se tornar gay antes de crashar, a censura deixará passar?
Por outro lado a ideia tem potencialidades para ser adaptada ao cinema ocidental contemporâneo. Por exemplo, talvez possamos voltar a ver num filme de Hollywood gajas e gajos que puxam descomplexadamente pelo seu cigarro e dão umas baforadas fotogénicas, desde que no final acabem todos encharcados em Champix. E, nas séries juvenis das tvis, miúdas e miúdos gordos e feios (se é que ainda há - pelo menos na televisão não passam), com a condição de no epílogo serem salvos por uma equipa de nutricionistas e cirurgiões de estética.
Parece apesar de tudo que os autores de scripts para filmes ficam limitados a um modelo rígido. Se num filme um acelera ilegal se tornar gay antes de crashar, a censura deixará passar?
Por outro lado a ideia tem potencialidades para ser adaptada ao cinema ocidental contemporâneo. Por exemplo, talvez possamos voltar a ver num filme de Hollywood gajas e gajos que puxam descomplexadamente pelo seu cigarro e dão umas baforadas fotogénicas, desde que no final acabem todos encharcados em Champix. E, nas séries juvenis das tvis, miúdas e miúdos gordos e feios (se é que ainda há - pelo menos na televisão não passam), com a condição de no epílogo serem salvos por uma equipa de nutricionistas e cirurgiões de estética.
Wash, rinse and spin
Enquanto a recessão continua em todo o mundo, são filmes como este que levarão as audiências à empatia com os sem emprego e a compreender a sua condição. Assim se refere Greg Sanderson, da BBC, ao filme de Frederico Teixeira de Sampayo que ganhou o concurso MyWorld do World Service. Demasiado optimista: a suavidade e o esquematismo da metáfora não encaixam na enormidade do drama.
domingo, março 14
Alicia Gámez
O nome de Alicia Gámez aparece nas notícias dos últimos dias. Para lá do drama pessoal do cativeiro desta e de outros sequestrados, o contexto é particularmente fascinante pela banalização do encobrimento da verdade e consequente impossibilidade prática de virmos algum dia a conhecê-la. Resta-nos, espectadores das mentiras ditas ou escritas, nos casos em que versões discordantes podem equivaler-se em versosimilhança, tomar partido por fé ou convicção ideológica.
Dizia o El País que, segundo os raptores, intitulados Al-Qaeda no Magrebe, a libertação de Alícia (agora irmã Aicha) se deveu ao seu estado de saúde e à sua conversão voluntária ao Islão. Mas o médico que a examinou no dia da libertação encontrou-a bem. O artigo do jornal não faz qualquer comentário sobre a conversão mas ele merece no mínimo dois. Primeiro, depois de cem dias de cativeiro, é tão verosímil uma livre conversão ao Islão como que o terramoto do Haiti seja uma manobra militar dos Estados Unidos. Depois, há esse outro aspecto interessante - e humilhante para Espanha - de o tempo da libertação coincidir com o aniversário do 11 de Março. Para além da mensagem do grupo terrorista ao povo espanhol, é credível num primeiro momento que lhes interessasse assinalar a data. Mas nem tudo joga tão certo. Apesar de não ser reconhecido pelo governo espanhol, fala-se do pagamento de resgate, um punhado de milhões de dólares. E por outro lado o comunicado AlQaedino afirma "Los detenidos en España [na sequência do 11 de Março] acusados de terrorismo, de los que se dice que están vinculados a nosotros, son personas inocentes, que no tienen ninguna relación con nosotros, ni de cerca, ni de lejos". Pelo menos por mera prudência intelectual, temos de conceder um lugar à hipótese de se tratar de um bando delinquente que vive de resgates, restando na esfera do impenetrável se a libertação naquela data foi imposição dos raptores, porque certamente quem paga tenta negociar as melhores condições. A quem interessa, afinal, a bofetada de assinalar o 11 de Março (que o Congreso acaba de tentar apagar, transferindo a homenagem às vítimas de terrorismo para 27 de Junho)? Os mistérios que persistem após o julgamento do 11 de Março são muitos e levam-nos a terreno onde nada é óbvio. Mesmo do lado do PP (supostamente o partido mais prejudicado com o acto e a gestão subsequente do processo) as vozes que polida e discretamente, na net, falam em "verdade jurídica" não explicam porque é que nunca, na assembleia de deputados, levantaram qualquer questão ou pediram algum esclarecimento. A questão do Goma-2 pode ficar para um futuro thriller, provavelmente com dois ou três finais diferentes.
Dizia o El País que, segundo os raptores, intitulados Al-Qaeda no Magrebe, a libertação de Alícia (agora irmã Aicha) se deveu ao seu estado de saúde e à sua conversão voluntária ao Islão. Mas o médico que a examinou no dia da libertação encontrou-a bem. O artigo do jornal não faz qualquer comentário sobre a conversão mas ele merece no mínimo dois. Primeiro, depois de cem dias de cativeiro, é tão verosímil uma livre conversão ao Islão como que o terramoto do Haiti seja uma manobra militar dos Estados Unidos. Depois, há esse outro aspecto interessante - e humilhante para Espanha - de o tempo da libertação coincidir com o aniversário do 11 de Março. Para além da mensagem do grupo terrorista ao povo espanhol, é credível num primeiro momento que lhes interessasse assinalar a data. Mas nem tudo joga tão certo. Apesar de não ser reconhecido pelo governo espanhol, fala-se do pagamento de resgate, um punhado de milhões de dólares. E por outro lado o comunicado AlQaedino afirma "Los detenidos en España [na sequência do 11 de Março] acusados de terrorismo, de los que se dice que están vinculados a nosotros, son personas inocentes, que no tienen ninguna relación con nosotros, ni de cerca, ni de lejos". Pelo menos por mera prudência intelectual, temos de conceder um lugar à hipótese de se tratar de um bando delinquente que vive de resgates, restando na esfera do impenetrável se a libertação naquela data foi imposição dos raptores, porque certamente quem paga tenta negociar as melhores condições. A quem interessa, afinal, a bofetada de assinalar o 11 de Março (que o Congreso acaba de tentar apagar, transferindo a homenagem às vítimas de terrorismo para 27 de Junho)? Os mistérios que persistem após o julgamento do 11 de Março são muitos e levam-nos a terreno onde nada é óbvio. Mesmo do lado do PP (supostamente o partido mais prejudicado com o acto e a gestão subsequente do processo) as vozes que polida e discretamente, na net, falam em "verdade jurídica" não explicam porque é que nunca, na assembleia de deputados, levantaram qualquer questão ou pediram algum esclarecimento. A questão do Goma-2 pode ficar para um futuro thriller, provavelmente com dois ou três finais diferentes.
sábado, fevereiro 13
Asserções
A lei islâmica viola as regras de segurança nos aeroportos, ou é ao contrário, depende de quem diz o quê.
Um ranking de Universidades
Está disponível no site de um laboratório do Consejo Superior de Investigaciones Científicas um ranking das Universidades.
A lista das primeiras universidades portuguesas pela ordem em que surgem no ranking é a seguinte. Entre parênteses está a POSIÇÃO MUNDIAL seguida dos parâmetros SIZE, VISIBILITY, RICH FILES, SCHOLAR, utilizados na construção do ranking.
Universidade do Porto (214 236 301 273 89)
Universidade do Minho (275 331 351 420 84)
Universidade Técnica de Lisboa (323 296 559 218 160)
Universidade de Coimbra (324 281 429 429 158)
Universidade de Lisboa (484 653 631 482 350)
Universidade Nova de Lisboa (501 468 764 440 396)
Universidade de Aveiro (810 526 1,085 850 1,009)
Universidade Católica Portuguesa (858 1,560 480 1,958 1,110)
A lista das primeiras universidades portuguesas pela ordem em que surgem no ranking é a seguinte. Entre parênteses está a POSIÇÃO MUNDIAL seguida dos parâmetros SIZE, VISIBILITY, RICH FILES, SCHOLAR, utilizados na construção do ranking.
Universidade do Porto (214 236 301 273 89)
Universidade do Minho (275 331 351 420 84)
Universidade Técnica de Lisboa (323 296 559 218 160)
Universidade de Coimbra (324 281 429 429 158)
Universidade de Lisboa (484 653 631 482 350)
Universidade Nova de Lisboa (501 468 764 440 396)
Universidade de Aveiro (810 526 1,085 850 1,009)
Universidade Católica Portuguesa (858 1,560 480 1,958 1,110)
terça-feira, janeiro 12
Fermat
Há precisamente 345 anos, terminava o tempo de Pierre de Fermat, a quem ficámos a dever, entre outras contribuições de relevo, os fundamentos da optimização, e em cujo trabalho assentou em grande parte o cálculo infinitesimal desenvolvido por Newton.
Com o seu método dos máximos e mínimos, interpretou a lei da refracção da luz, descoberta por Snell, à luz de um problema de mínimo. A elegância do resultado oculta o mistério da suposta intencionalidade da natureza, subjacente à formulação variacional.
Com o seu método dos máximos e mínimos, interpretou a lei da refracção da luz, descoberta por Snell, à luz de um problema de mínimo. A elegância do resultado oculta o mistério da suposta intencionalidade da natureza, subjacente à formulação variacional.
Conto de Verão

Terminou neste inverno o tempo de Eric Rohmer. Do que dele vi guardo uma memória particularmente agradável do Conto de Verão: não sei se lhe chame uma obra prima, mas é de certeza uma pequena joia. Não virado para os "grandes dramas" da existência humana, é uma enciclopédia das suaves alegrias e desilusões que compõem a simplicidade aparente dos dias. Dos diálogos perfeitos e da magistral encenação recorda-se o nome do lugar (Dinard) e das pessoas: Gaspard, com uma licenciatura fresca em matemática, a namorada e as outras duas (Lena, Margot, Solène), e ainda uma praia fria e corações por vezes quentes. Por fim, a impossibilidade de escolha que leva Gaspard a optar por comprar um gravador. (De bobines, na época.) Não era happy end nem triste também. Só a vida a rolar.
sábado, janeiro 9
A derrota das palavras
Ontem foi um dia memorável para os que se ocupam da burocracia da educação ao mais alto nível. Palmas para a nova ministra, que surge com imagem de quem negocia com flexibilidade e que no final dá conta do resultado na voz embaladora e arredondada de quem conta um conto. Palmas para aqueles homens que fazem o papel de representantes dos professores, por poderem dizer que a ministra cedeu, permitindo que os "bons" cheguem ao topo da carreira depois de 40 anos de exercício.
Sucesso sem grande custo imediato para uma e outros. Mas sem interesse nenhum para a qualidade do ensino e provavelmente com um impacto marginal para os professores: com o que já se sabe que é a vida nas escolas e com o que mais por aí se poderá arranjar, o fim virá antes do topo, porque poucos vão aguentar os tais 40 anos.
De um ponto de vista mais orwelliano e estruturalista, confirma-se após todo o processo que fica a perder a palavra "Bom". Independentemente de sabermos se a avaliação utilizará critérios adequados para atribuir as classificações, o que é certo é que "Bom" passará a significar "assim-assim", "menos mau", "sofrível". Isso é o que já sucede no âmbito mais restrito da classificação das unidades de investigação (onde, diga-se de passagem, os critérios correspondem a realidades mais nítidas do que no caso da avaliação de professores). Aí toda a gente interiorizou que um centro de investigação "Bom" é apenas uma cruz que a universidade tem de tolerar à espera de dias melhores.
Sucesso sem grande custo imediato para uma e outros. Mas sem interesse nenhum para a qualidade do ensino e provavelmente com um impacto marginal para os professores: com o que já se sabe que é a vida nas escolas e com o que mais por aí se poderá arranjar, o fim virá antes do topo, porque poucos vão aguentar os tais 40 anos.
De um ponto de vista mais orwelliano e estruturalista, confirma-se após todo o processo que fica a perder a palavra "Bom". Independentemente de sabermos se a avaliação utilizará critérios adequados para atribuir as classificações, o que é certo é que "Bom" passará a significar "assim-assim", "menos mau", "sofrível". Isso é o que já sucede no âmbito mais restrito da classificação das unidades de investigação (onde, diga-se de passagem, os critérios correspondem a realidades mais nítidas do que no caso da avaliação de professores). Aí toda a gente interiorizou que um centro de investigação "Bom" é apenas uma cruz que a universidade tem de tolerar à espera de dias melhores.
domingo, janeiro 3
AVATAR
Por muito desprezo que tenha pela carga de ideologia vulgar que o impregna e pela pobreza do argumento, por muito que o meu nariz tenha sido massacrado sob o peso dos óculos para 3D, e mesmo apesar de alguma dor de cabeça proveniente da profundidade do campo visual (a única que o filme comporta), seria uma piada fácil e desonesta dizer que este filme em relevo não é relevante. É-o, sem dúvida, porque a sua mensagem chega a muita gente. Chega, em particular, a muitas crianças - as mais indefesas diante deste brinquedo, esta stunning visual experience, como gostam de dizer os críticos.
À saída pensei: Cameron poderia ao menos ter ultrapassado o excessivo convencionalismo se no final tivesse deixado sobreviver o Jake humano e não o avatar, e se o amor de Jake e Neytiri tivesse persistido para lá da fronteira das espécies. Mas um minuto de reflexão mostra que isso seria impossível: poria em dúvida o profundo ódio que o filme destila a tudo o que é humano.
Fico por aqui, porque muito mais interessante do que qualquer coisa que eu pudesse acrescentar é a discussão gerada por yosoyhayek no La Libertad y la Ley.
sábado, janeiro 2
Mensagens de ano novo
As mensagens de ano novo de importantes figuras públicas contêm excrescências deslocadas. Tal como um corpo vivo, um texto tem a capacidade de desenvolver tumores. O Papa e o cardeal patriarca de Lisboa assumem a causa das degraças globais que espreitam e apelam a uma responsabilidade ecológica mais ampla e aprofundada e à salvaguarda do planeta. D. Manuel Clemente, também eco-preocupado, assume uma causa do PCP e declara desejar um mundo menos consumista. Com esta confusão de papeis, só vagas linhas permitem entre-ler a hecatombe que nos aguarda com a dissolução da família, que sai completamente desvalorizada. Assunto nada prioritário a que, de resto, o Presidente também se referiu de raspão.
sexta-feira, janeiro 1
Um conto moral
Depois da Accenture e da Gillette, a empresa de telecomunicações AT&T anuncia também a rescisão do contrato com Tiger Woods.
As empresas certamente não agem por considerações morais, porque não costumam tê-las, mas sim pelos resultados de sondagens sobre a aceitação pública da imagem que querem assumir. Esta história simples exibe dois aspectos interessantes do nosso património cultural que vale a pena notar: um, a elevada consideração que dispensamos ao casamento e ao compromisso monogâmico subjacente; outro, o tabu (surpreendente, sobretudo nos tempos que correm) que consiste em não aceitar que a nossa natureza é proclive à poligamia e à infidelidade.
O que sobra é positivo: que o amor monogâmico e fiel é uma coisa bonita, insusceptível mesmo, na ordem contemporânea das coisas, de troca por bens materiais. Paradoxalmente, é a imagem do amor fiel que tem valor de troca. A tal ponto que talvez quem a compre espere com ela apagar o rasto dos seus pecados e fraquezas, como a colaboração em gravações ilegais de comunicações telefónicas e internet ou a actividade persistente de suborno (lobbying, se preferirmos termos mais suaves). Que as escapadelas de Woods deitem por terra a sua utilidade branqueadora diz tudo sobre a gravidade da traição. Bígamos e devassos, arrepiem caminho enquanto é tempo. Ou então não se casem, se quiserem ser patrocinados por uma qualquer AT&T.
As empresas certamente não agem por considerações morais, porque não costumam tê-las, mas sim pelos resultados de sondagens sobre a aceitação pública da imagem que querem assumir. Esta história simples exibe dois aspectos interessantes do nosso património cultural que vale a pena notar: um, a elevada consideração que dispensamos ao casamento e ao compromisso monogâmico subjacente; outro, o tabu (surpreendente, sobretudo nos tempos que correm) que consiste em não aceitar que a nossa natureza é proclive à poligamia e à infidelidade.
O que sobra é positivo: que o amor monogâmico e fiel é uma coisa bonita, insusceptível mesmo, na ordem contemporânea das coisas, de troca por bens materiais. Paradoxalmente, é a imagem do amor fiel que tem valor de troca. A tal ponto que talvez quem a compre espere com ela apagar o rasto dos seus pecados e fraquezas, como a colaboração em gravações ilegais de comunicações telefónicas e internet ou a actividade persistente de suborno (lobbying, se preferirmos termos mais suaves). Que as escapadelas de Woods deitem por terra a sua utilidade branqueadora diz tudo sobre a gravidade da traição. Bígamos e devassos, arrepiem caminho enquanto é tempo. Ou então não se casem, se quiserem ser patrocinados por uma qualquer AT&T.
quinta-feira, dezembro 31
Os PIIGS da fringe
O NYTimes de ontem traz um artigo sombrio sobre o que podem esperar alguns "países fracos" da Europa.
At that point, the laggards on the union’s fringe — Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain (the so-called Piigs) — will face even tougher choices to cope with what looks like several more years of stagnant economies, high unemployment and gaping budget deficits.
...on the periphery, the hangover from more than five years of a credit-infused boom shows little sign of diminishing.
Ireland, the first economy to stumble, has taken the most severe fiscal action, cutting public wages sharply. A new Greek government, punished by the rough treatment of bond investors no longer willing to countenance soft promises of reform, is just now promising steep spending cuts. But it is not clear whether the political system in Greece will accept them.
Meanwhile, Spain, to the frustration of many major lenders, seems to be putting off difficult fiscal questions in the hope that its economy will soon recover.
Critics of the euro zone contend that weak governments in the peripheral economies, facing high unemployment and restive voters, will not have the stomach to hold down wages, pensions and public expenditures.
“Are these people serious about reform, or are they just telling people what they want to hear?” asked Edward Hugh, a British-trained macroeconomist who lives in Barcelona and has been critical of Spain’s unwillingness to take difficult economic decisions.
Felizmente que em matéria de reformas e decisões difíceis, podemos estar descansados porque cá em Tugal já se tratou disso tudo. Uf! Espanha que se cuide.
At that point, the laggards on the union’s fringe — Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain (the so-called Piigs) — will face even tougher choices to cope with what looks like several more years of stagnant economies, high unemployment and gaping budget deficits.
...on the periphery, the hangover from more than five years of a credit-infused boom shows little sign of diminishing.
Ireland, the first economy to stumble, has taken the most severe fiscal action, cutting public wages sharply. A new Greek government, punished by the rough treatment of bond investors no longer willing to countenance soft promises of reform, is just now promising steep spending cuts. But it is not clear whether the political system in Greece will accept them.
Meanwhile, Spain, to the frustration of many major lenders, seems to be putting off difficult fiscal questions in the hope that its economy will soon recover.
Critics of the euro zone contend that weak governments in the peripheral economies, facing high unemployment and restive voters, will not have the stomach to hold down wages, pensions and public expenditures.
“Are these people serious about reform, or are they just telling people what they want to hear?” asked Edward Hugh, a British-trained macroeconomist who lives in Barcelona and has been critical of Spain’s unwillingness to take difficult economic decisions.
Felizmente que em matéria de reformas e decisões difíceis, podemos estar descansados porque cá em Tugal já se tratou disso tudo. Uf! Espanha que se cuide.
terça-feira, dezembro 29
Professores e ministérios
A nova ministra das normas para as escolas e das carreiras dos professores encontrou-se ontem com os sindicatos deles. Continua a discussão da avaliação e do estatuto da carreira. A impressão com que se fica é que se vão repetir os erros da política do ministério anterior. Sejamos claros: a tarefa de M. Lurdes Rodrigues, que esta ministra "simpática" tem a incumbência de continuar, é a de reduzir a despesa incomportável com os docentes em tempo que, para mais, é de crise. Trata-se então de embrulhar o pacote de medidas numa capa que o possa justificar perante aqueles que votam. A ministra anterior avançou com a divisão da carreira e o processo de avaliação. Ambas são medidas não só razoáveis como necessárias. A maneira como ambas foram postas em prática foi desastrosa. Mostrou (tal como outras medidas - ocorre-me o plano para a Matemática) que M. L. Rodrigues nunca percebeu por onde passa a linha divisória do que há de mau e de bom nas escolas e no sistema de ensino.
Agora o governo abre mão da divisão da carreira, ao mesmo tempo que tenta entupir a progressão nos escalões. Medidas erradíssimas. Ao não admitir duas categorias de professores aceita-se que todos se equivalem potencialmente, como se nas escolas não houvesse necessidade de exercer tarefas com carácter de liderança ou supervisão, que deveriam estar a cargo dos professores mais competentes e experientes. Maior salário e maior responsabilidade seria uma combinação fácil de explicar a todos. A vida seria mais fácil nas escolas se determinado trabalho fosse concentrado nas mãos dos mais responsabilizados para o fazer, em vez de se pôr todos os professores numa roda viva de reuniões e grelhas a preencher. Por outro lado, fazendo depender as progressões de avaliações bianuais, já se antevê um mecanismo pesado e sufocante que vai continuar a ser contestado e a prejudicar, no terreno, o ensino - a única coisa de que ne nunca se fala, certamente, nestas reuniões entre ministras e sindicatos.
Agora o governo abre mão da divisão da carreira, ao mesmo tempo que tenta entupir a progressão nos escalões. Medidas erradíssimas. Ao não admitir duas categorias de professores aceita-se que todos se equivalem potencialmente, como se nas escolas não houvesse necessidade de exercer tarefas com carácter de liderança ou supervisão, que deveriam estar a cargo dos professores mais competentes e experientes. Maior salário e maior responsabilidade seria uma combinação fácil de explicar a todos. A vida seria mais fácil nas escolas se determinado trabalho fosse concentrado nas mãos dos mais responsabilizados para o fazer, em vez de se pôr todos os professores numa roda viva de reuniões e grelhas a preencher. Por outro lado, fazendo depender as progressões de avaliações bianuais, já se antevê um mecanismo pesado e sufocante que vai continuar a ser contestado e a prejudicar, no terreno, o ensino - a única coisa de que ne nunca se fala, certamente, nestas reuniões entre ministras e sindicatos.
segunda-feira, dezembro 28
World crumbling apart

Com o mundo a desmoronar-se à nossa volta, logo escolhemos este momento para nos apaixonarmos, diz Ilse a Rick em Casablanca. O tema do desmoronamento do mundo à volta das pessoas resulta óptimo na boca de personagens do cinema, sobretudo a preto e branco e com vozearia da Gestapo em fundo, como no caso daquela cena. Também pode ser usado com sucesso em textos de badanas: ...retrato de um tempo cruel e de uma sociedade em rotura, onde as personagens não encontram escape do mundo que parece desmoronar-se à sua volta...
Tudo isto tem a sua estética e o seu lugar. Mas o desmoronamento está francamente a mais nas mensagens políticas de Natal no Portugal de 2009:
... em que se celebra esse núcleo essencial na estrutura da nossa sociedade que é a família. Nunca será demais realçar a sua importância na coesão social, necessária ao progresso social que todos desejamos. E é nas épocas em que por vezes julgamos que tudo se desmorona à nossa volta que ganham especial importância os laços de solidariedade, de afectos e de apoio que podemos encontrar na família.
A época podia ser melhor, mas alto lá. Não há bárbaros a caminho das cidades nem cheira a guerra civil. Manuela tem de ser mais crítica com o teor literário das suas mensagens.
Quanto ao resto, está menos mal.
As leituras mais imediatistas dirão que o desmoronamento é uma referência ao fim do mundo, trazido por uns novos casamentos que por aí se anunciam. Mas, embora o texto seja algo críptico, estão lá todas as razões básicas para, pelo contrário, os apoiar. Sim, se estruturação e afecto são tão essenciais na nossa vida, só um coração de pedra poderia querer negá-los a uma parte, mesmo que minoritária, dos cidadãos. E se há quem não queira passar por coração empedernido são as personagens da política. O sentido só pode ser então: tenham calma, que dos escombros da velha família emergirá uma outra, fresquíssima vicejante e universal.
Domingo em Teerão
Ontem gritou-se nas ruas de Teerão "Este é o mês do sangue, Khamenei será derrubado."
sábado, dezembro 26
Utopias fixes
Não sei como ninguém se lembrou disto para tema musical da cimeira de Copenhaga. O clima regulado por decreto. (Musical de Alan Jay Lerner e Frederic Loewe, versão em filme de 1967, Richard Harris e Vanessa Redgrave).
quinta-feira, dezembro 24
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