domingo, dezembro 9

O amor nos tempos de internet (13)

A ocultação de Matilde tinha-me arrasado. Depois de dois meses sem contacto, dava-a como perdida, mas acordava várias noites com o mesmo sonho: num jantar de amigos alguém me apresentava uma mulher que me encantava; havia cumplicidade nos nossos olhares mas nunca chegava a poder conversar com ela em privado. O jantar acabava consumando a separação. A mulher do sonho não tinha nenhuma semelhança física com a Matilde, mas ao despertar a identificação era clara.

O mês de Dezembro teve duas semanas pesadas. A Rita ultimamente não passava comigo mais do que três ou quatro dias por semana. O pai tinha sido operado a uma hérnia discal e o pretexto da convalescença deu-lhe um argumento cómodo para o afastamento. Sabíamos os dois que as coisas tendiam para o seu fim natural.


No primeiro fim de semana do mês só falei com a Rita por telefone. No sábado fui a Faro para trabalhar com o núcleo local da Companhia sobre os novos produtos em lançamento, e no domingo, no caminho de volta, aproveitei para cumprir uma promessa: almoçar em Lagos com um grande amigo de juventude que tinha ficado pelo Algarve. Tinha-se divorciado há meio ano e não nos víamos desde o meu primeiro casamento. O encontro estava combinado desde um mês atrás e, talvez devido ao declínio do relacionamento com a Rita, tinha achado desnecessário pô-la ao corrente disso.

-Então conta lá.
-Primeiro vamos escolher os pratos.
-Então os senhores já se decidiram?
-Para mim é o arroz de marisco.
-Muito bem, o arrozinho, está uma delícia.
-E tu, Ângelo?
-As lulas são frescas?
-Estão óptimas, pode pedir à confiança.
-Então pode ser lulas para mim.
-As lulinhas, sim senhor. Já trago a carta de vinhos.
-Não traga, eu bebo um sumo de laranja e aqui o meu amigo uma cerveja. É que ainda tenho que ir para a estrada hoje. Pronto, agora já podes começar.
-Pois olha, o essencial já sabes: a estas horas a Lucília está com outro e eu para aqui sozinho.
-Pois, tu contaste. Mas como foi?
-Bom, se calhar fui eu que falhei em primeiro lugar. Acho eu. Nós nunca falámos disto, mas a Lucília começou a esfriar muito há para aí uns dois anos. Eu a princípio nem notei, porque chegava à noite tão cansado que depois do jantar adormecia encostado ao ombro dela.
-Lembro-me de me teres contado que estavas a… como é que tu disseste? pôr uma pedra na fase de macho latino da tua vida. Ah, ah.
-Sim. A idade e o trabalho. E talvez a rotina, embora eu gostasse muito da Lucília. E então aconteceu que ela começou a andar com um gajo, apesar de eu nunca ter conseguido provas a tempo.
-Como é que deste por isso?
-Descobri logo no princípio da coisa. Uma noite ao deitar recebeu uma mensagem no telemóvel e ficou muito nervosa. Disse que era uma colega a tentar trocar o turno com ela para o dia seguinte mas que só ia responder de manhã. Lembro-me de ter ficado muito surpreendido e de sensores alerta, mas na altura nem comentei.
-Ora aqui está a cervejinha e o suminho de laranja.
-Obrigado. E depois, houve mais suspeitas?
-Depois passei rapidamente às certezas. No dia seguinte ela foi para o trabalho no hospital e ligou-me à hora do almoço a dizer que talvez chegasse um pouco mais tarde, para substituir a colega.
-Podia ser verdade.
-Ela sabia que era dia de eu ir a Portimão levar umas encomendas. Mas o caso moía-me a pinha e não fui. Cheguei a casa cedo e liguei-lhe para propor jantarmos fora, mas tive que deixar mensagem porque não me atendeu.
-Podia estar mesmo ocupada.
-Acabou por chegar à meia noite, eu sem comer e sem sono pela primeira vez.
-Mas discutiste com ela?
-Ela percebeu que eu estava furioso mas não tive maneira de a culpar, não tinha provas, só suspeitas. Ela arranjava justificação para tudo.
-Então e quanto tempo se aguentou isso?
-Uns dois meses, com esta cena a repetir-se. Muitas vezes dizia para mim: que burro que és, Ângelo, se não descobres nada é porque é tudo imaginação tua. Doía-me muito, mas não tenho feitio para grandes discussões. A saída que encontrei para suportar a situação foi fazer o mesmo, e para mim era fácil, com as gajas que me aparecem lá na loja. Era só escolher, para todos os gostos e idades. Eu que lhes nunca dava saída, comecei a dar troco e acabei por me enrolar com uma inglesa que mora no Alvor. Ela já tinha vindo cá muitas vezes, andava sempre a mudar de cortinados e estores.
-É normal, ninguém aguenta o mesmo estore mais de um mês. Ah, ah, acabaste por te tornar um engatatão sem querer.
-Chama-se Dora, é uma beleza de mulher e o marido passa a maior parte do ano em Inglaterra. De maneira que a partir daí fui eu quem começou a chegar tarde.
-E gostavas de estar com ela?
-Uma maravilha. Só o meu inglês é que estava emperrado, o resto não.
-Mas levava-la para casa?
-Não, aí é que está. Íamos sempre para casa dela, à entrada do Alvor. E não vais acreditar, mas a Lucília descobriu-me pelo conta-quilómetros.
-O quê? Como é isso?
-Já se percebia que havia qualquer coisa no ar, e entre mim e a Lucília estava tudo frio. Um dia ao fim da tarde, quando saio do carro para tocar à porta da Dora no Alvor, dou com a Lucília. Ainda gozou comigo: ó Ângelo, vens de mãos a abanar, parece que te esqueceste da encomenda.
-Ah, ah, ao menos ela tem humor. Mas como é que ela…
-Pois, a Lucília é um génio. Explicou-me depois que tinha tomado nota das quilometragens vários dias e pelo desvio do normal concluiu que eu fazia uns 50 quilómetros a mais nos dias que lhe levantaram suspeitas. Só nessa altura é que percebi porque é que andava sempre a pedir-me para ir ao supermercado no meu carro. Fez as contas e à quarta tentativa apanhou-me logo. Tinha feito duas incursões em Vila do Bispo e aquela era a segunda no Alvor. Estacionava à entrada à espera de ver chegar o meu carro.
-Que mulher tão fina.
-Podes crer. No fim quem se lixou fui eu. Fui mesmo tanso. Depois aproveitou para me culpar de tudo, até disse que fui eu quem nunca quis um filho.
-Bom, ao menos nesse aspecto foi menos grave o divórcio.
-Pois, mas estou a pagar em euros. E por causa do receio de escândalo fiquei também sem a Dora.
-E afinal a Lucília está com quem?
-Um director de uma agência de um banco de Portimão. Mudou-se para lá.
-Mas é o tipo com quem tu achas que ela se envolveu?
-Não sei, suspeito que sim. Ele tem uma casa em Lagos, estás a ver.
-Ora então aqui estão as lulinhas para o senhor e o arroz de marisco para o seu amigo. E aqui está o azeite. Bom apetite.
-Essa história está a pedir alimento. Que cheiro tão bom, este arroz! No fundo não tens certezas... e uma mulher que faz o que a tua fez com o conta-quilómetros é porque está cheia de ciúmes.
-Sei lá. Acho mas é que ela procurou uma situação que desse para divorciar e ficar a ganhar com isso. Eu é que meti o pé na argola. Se continuo a lembrar-me disto ainda perco o apetite para as lulas.
-Ó Ângelo, isso nem parece teu. Depressa arranjas outra.
-Olha, mas então para me distrair das minhas desgraças conta-me lá como tem sido a tua vida. Porque é que não trouxeste a Rita?

1 comentário:

on disse...

Aleluia!

Quase periódica?