sexta-feira, abril 22
O Holocausto Espanhol
Esta madrugada, por causa do mau tempo, Sevilha não pode exibir os excessos a que costuma entregar-se na véspera de sexta-feira santa. Laranja é o cheiro das ruas de Sevilha, é certo, mas no tempo de páscoa sobrepõem-se-lhe exóticos incensos. Nas lojas sevilhanas de electrónica as montras estão atafulhadas com televisores onde se repete a saída de uma nossa senhora ao som de fanfarras.
Extravagâncias bonitas. Nada como os horrores que se viveram em 1936-39, a que o historiador Paul Preston dedicou dez anos de estudo. O livro sai em breve e já tem nome: O Holocausto Espanhol. Não parece exagero: 50 mil mortos pelos republicanos e mais de 150 mil pelos insurgentes, cada lado exercendo a violência de acordo com padrões próprios e até geograficamente distintos. Violência premeditada e sistemática dos franquistas, com técnicas tenebrosas como o "carro da caveira" e o surgimento de verdadeiros monstros humanos. Abordando tanto o terror revolucionário como a repressão golpista, Preston não poupa Carrillo às responsabilidades por Paracuellos. Campo de experiências de anarquistas, fascistas, comunistas e nazis, da intervenção de Hitler e Mussolini, com referência distante a Estaline e lugar para uma simpatia discreta de Salazar, na guerra acabou por germinar o ovo tenebroso do extermínio preconcebido. Eliminar sin escrúpulos ni vacilación a todos los que no piensen como nosotros, disse o General Mola.
sábado, abril 16
Não fosse a falta de tempo, estaria na próxima semana em Santiago para o festival de músicas contemplativas. A Catedral faz 800 anos.
sexta-feira, abril 15
Cetáceos pop
Foi publicado ontem no Current Biology um artigo sobre o canto das baleias. Os autores referem um fenómeno que consideram de transmissão cultural naquela espécie, referindo como os temas se propagam para leste ao longo do Pacífico Sul, em ondas culturais que por sua vez revolucionam os motivos sonoros.
Os êxitos em voga no momento podem ser escutados na aplicação publicada com este artigo do ABC online.
Os êxitos em voga no momento podem ser escutados na aplicação publicada com este artigo do ABC online.
quinta-feira, abril 14
Uma pista no deserto
De acordo com notícias de ontem, parece ter sido inaugurado o novo aeroporto de Beja com um voo patrocinado por autarquias. Para além deste voo a brincar, não se vislumbram projectos de futuro a sério. O episódio encerra, num simbolismo de estarrecer, a tragédia portuguesa dos anos recentes. A viabilidade prometida era afinal a transformação de uma câmara municipal em empresa de aeronáutica civil. Neste enquadramento compreende-se que até o TGV possa vir a ser rentável: tudo é possível com uma adequada subida de impostos, pelo menos durante algum tempo.
O Santiago desconfia com razão, prometendo voltar ao assunto daqui a um ano.
Há umas fotos bonitas do aeroporto aqui.
O Santiago desconfia com razão, prometendo voltar ao assunto daqui a um ano.
Há umas fotos bonitas do aeroporto aqui.
domingo, abril 10
Se voltarão não sabemos, mas eles estiveram aí
Em Março de 1950, Guy Hottel, o agente responsável pelo Washington Field Office, enviou um memorando em que se referia informação da Força Aérea segundo a qual discos voadores tinham caido em Roswell, N.M., tendo sido recuperados.
Eram descritos como tendo forma circular e aproximadamente 15 metros de diâmetro. Cada um era ocupado por três corpos de forma humana com menos de um metro de altura, vestidos com tecido metálico de textura muito fina.
Em dias como hoje, sentimos necessidade de alguma narrativa sólida em que acreditar.
(Notícia do Salt Lake Tribune.)
quinta-feira, novembro 18
Cada um é o que é
Portugal é diferente da Irlanda, disse ontem Teixeira dos Santos.
Espanha não é Irlanda, nem Grécia, nem Portugal, escreve hoje o EL PAÍS.
É tudo verdade. O problema é que Portugal tem precisamente o problema de ser Portugal, e, mutatis mutandis, o mesmo se dirá de Espanha.
Espanha não é Irlanda, nem Grécia, nem Portugal, escreve hoje o EL PAÍS.
É tudo verdade. O problema é que Portugal tem precisamente o problema de ser Portugal, e, mutatis mutandis, o mesmo se dirá de Espanha.
domingo, novembro 14
quinta-feira, novembro 11
Insolência
Não há pachorra. Há bocado, na SIC notícias, Vítor Ramalho foi entrevistado a propósito da independência de Angola. Falou dos gloriosos tempos da Casa do Império, que criou condições para a juventude de então tomar consciência do problema colonial. Até aí tudo bem. Depois lamentou que a juventude de agora esteja a leste desse caldo do ambiente da época. Mas porque havia a juventude de agora estar preocupada com isso? Não basta já aos vintes e trintas terem de suportar uma geração de gerontes que se apossou dos empregos para a vida, deixando-lhes em testamento um futuro com trabalho e reforma incerta, mais um saquinho de dívidas para pagar enquanto forem vivos? Teriam ainda de comungar as glórias destes cotas que se estão nas tintas para o fardo que deixam em herança?
domingo, novembro 7
A mim parece-me
O PÚBLICO de ontem revelava que nos meios jurídicos se debate com ardor a constitucionalidade da redução dos salários na função pública. Há até um conhecido causídico a quem parece que não é coisa constitucional e assim o escreveu, a pedido de um grupo de professores, num texto a que se dá o nome de parecer. Parece aos envolvidos na discussão que conflituam o direito ao salário, os princípios da igualdade e da confiança, e o da proibição do retrocesso, com o princípio da urgência e o da necessidade de atenuar o défice. O princípio da igualdade parece espezinhado porque os cortes atingem apenas trabalhadores do estado.
A adesão aos formalismos da lei é também um modo de negar a realidade. A quem estas coisas parecem, qualquer ideia de que não há pagamentos com os cofres vazios deve parecer simplesmente inadmissível, por não ser mencionada nos únicos textos que conhecem de trás para a frente.
O mesmo lapso selectivo afecta as classes altas ou médio-altas da nossa função pública, desagradadas com os cortes que as vão atingir. Nem só o governo e o primeiro ministro têm vivido em estado de recusa da realidade, mentindo a si mesmos e aos outros. Uns minutos de reflexão permitiriam antecipar, pelo menos desde há dois anos, que os salários teriam que descer. Não falo sequer dos salários escandalosos de altos cargos, que excedem os dos salários congéneres em paises mais ricos e com situação económica mais sólida. Basta pensar num exemplo concreto, menos dado a controvérsias, para nos apercebermos da ilusão em que temos vivido: os professores universitários são pagos em Portugal, desde os governos Guterres, ao mesmo nível do que sucede em paises como a França ou a Alemanha. Isto tem sido visto como natural, ao mesmo tempo que se aceita que a generalidade das profissões no sector privado se aguente com vencimentos em proporção com o estado das economias. O voluntarismo estatal quis fazer figura sem fazer as contas. Entretanto, é na Alemanha e na França que se fabricam os popós que nós conduzimos e as máquinas de lavar que adornam as casas que possuimos em excesso.
A adesão aos formalismos da lei é também um modo de negar a realidade. A quem estas coisas parecem, qualquer ideia de que não há pagamentos com os cofres vazios deve parecer simplesmente inadmissível, por não ser mencionada nos únicos textos que conhecem de trás para a frente.
O mesmo lapso selectivo afecta as classes altas ou médio-altas da nossa função pública, desagradadas com os cortes que as vão atingir. Nem só o governo e o primeiro ministro têm vivido em estado de recusa da realidade, mentindo a si mesmos e aos outros. Uns minutos de reflexão permitiriam antecipar, pelo menos desde há dois anos, que os salários teriam que descer. Não falo sequer dos salários escandalosos de altos cargos, que excedem os dos salários congéneres em paises mais ricos e com situação económica mais sólida. Basta pensar num exemplo concreto, menos dado a controvérsias, para nos apercebermos da ilusão em que temos vivido: os professores universitários são pagos em Portugal, desde os governos Guterres, ao mesmo nível do que sucede em paises como a França ou a Alemanha. Isto tem sido visto como natural, ao mesmo tempo que se aceita que a generalidade das profissões no sector privado se aguente com vencimentos em proporção com o estado das economias. O voluntarismo estatal quis fazer figura sem fazer as contas. Entretanto, é na Alemanha e na França que se fabricam os popós que nós conduzimos e as máquinas de lavar que adornam as casas que possuimos em excesso.
Choques
Os resultados das eleições primárias nos Estados Unidos incluem por acréscimo um ou outro pequeno choque cultural. Desta vez, dada a atenção que o tema merece dos jornais, falou-se da talvez inesperadamente alta proporção de pessoas homossexuais que votaram republicano. O Washington Post dedica uma coluna ao assunto, com base em resultados de um inquérito à boca das urnas. Depois, Ann Althouse comentou a coluna. Que o caso provoca alguma surpresa, incredulidade, ou até indignação, não há dúvida: basta ler os comentários dos leitores, anexos aos dois artigos. A revelação de que pessoas homossexuais possam ser movidas pelas mesmas preocupações que as outras pode significar a derrocada de uma certa arquitectura do mundo, fabricada em livros e artigos que brotaram da imaginação. A mesma surpresa com que Sarah Palin terá recebido a notícia de que afinal os nossos antepassados não deram grandes passeios ao lado de manadas de dinossauros, nos frondosos bosques de há 6000 anos.
Cleópatra na rádio (II)
Passa agora a segunda parte, na Antena 2 da RDP. Com autoria de Bernardo Sena.
Já não se fazem barcos nem música assim.
sábado, novembro 6
Nomes galaicos
Com os noticiários das rádios espanholas de hoje, veio-me à lembrança o botafumeiro, o esquisito pêndulo forçado da catedral de Santiago de Compostela. Agora é uma curiosidade que dá espectáculo nas missas. No passado terá tido a nobre utilidade de tornar a vida suportável dentro na enorme nave que acolhia monges e peregrinos num mundo sem duche nem bidés. Claro que podiam lavar as partes no Lavacollas, mas dali à catedral muito havia que suar ainda pelos toscos caminhos. Lavacollas é o nome do rio e da povoação que dão nome ao aeroporto de Santiago. Só pronunciável, ainda hoje (sobretudo diante do papa), por graça da evolução morfológica, que disfarçou as ressonâncias originais do rude vocábulo.
segunda-feira, novembro 1
A Presidenta
Este post não tem nada de político. É tão só uma manifestação de surpresa pela irrupção de um vocábulo novo na língua portuguesa, em consequência da eleição de Wilma. Em espanhol já se usava la presidenta, por causa da Cristina, mas é evidentemente um feminino forçado. Nunca ninguém disse la estudianta. Em francês a estrutura da língua distingue président e présidente, como em étudiant. Mas em português, para sermos honestos, devemos então passar também a dizer presidento, mesmo que não haja senhoras a concorrer à próxima eleição (embora haja sempre a possibilidade de vermos ressurgir aquela conhecida militanta de esquerda). E mais: nem só as mulheres têm direito a ter os seus amantos. Os homens quererão amantas, para não dar azo a dichotes. E, como vem aí o natal, não nos esqueçamos de pensar numas prendinhas para os nossos entos e as nossas entas queridas.
domingo, outubro 31
O que diz Tammy
Tammy Bruce escreveu no Guardian sobre a sua condição de homossexual e conservadora. Em resumo, conta que encontra um apoio mais genuino nos ambientes conservadores do que nos meios liberais -- onde, diz ela, a tolerância é uma etiqueta e é exercida por obrigação, valendo exclusivamente para aspectos seleccionados do comportamento ou das convicções.
O que diz Tammy vale o que vale. O que dizem os seus detractores também. São interessantes os comentários.
O que diz Tammy vale o que vale. O que dizem os seus detractores também. São interessantes os comentários.
Cleopatra na rádio
Passou há momentos na rádio a primeira parte de "Cleopatra". É verdade: num dos melhores programas da Antena 2, "Alex North - Um eléctrico chamado desejo", Bernardo Sena deu hoje a escutar a belíssima partitura de Alex North para este filme excessivo, extravagante, expoente de uma época do cinema e do kitch que não rejeita o bom gosto. A música vive, autónoma, na ausência das imagens. O "tema do amor" e o "tema da ambição" libertam-se em toda a sua força no alinhamento radiofónico. Carregam, discretos mas persuasivos, a exuberância das cores e dos movimentos.
Mario Vargas Llosa a propósito do Tea Party
Há uma semana, no EL PAÍS, Mário Vargas Llosa escreveu sobre o significado do Tea Party nas próximas eleições nos Estados Unidos. Aqui ficam as linhas-chave do artigo:
- Em face da evolução a que se assistiu no estado da economia depois da eleição de Obama, neste momento o Tea Party complica mais a vida aos Republicnos que aos Democratas.
- Apesar de infiltrado por extremistas, reaccionários, conspiracionistas e figuras de cariz intelectual deficiente, o movimento teve uma génese espontânea, procurando simbolicamente reerguer a bandeira dos colonos independentistas e tendo conseguido marcar a agenda do acontecer político.
- No cerne deste movimiento "há algo de são, realista, democrático e profundamente libertário. O temor do crescimiento desenfreado do Estado e da burocracia, cujos tentáculos se infiltram cada vez mais na vida privada dos cidadãos, cerceando e asfixiando a sua liberdade e as suas iniciativas; a apropriação por parte do sector público de funções ou serviços que a sociedade civil poderia assumir com mais eficácia e menos desperdício de recursos; a criação de sistemas atraentes de assistência social que só poderão ser financiados com subidas sistemáticas de impostos, o que se traduzirá na queda dos níveis de vida das classes médias e populares."
A necessidade de recuperar a responsabilidade individual, ameaçada de dissolução pela ocupação de todos os espaços de iniciativa e acção por um estado cada vez mais omnipresente nas sociedades contemporâneas, é "um sentimento justo que merece ser incorporado na agenda política, pois denuncia problemas reais que a cultura democrática enfrenta".
Vale a pena ler todo o artigo.
- Em face da evolução a que se assistiu no estado da economia depois da eleição de Obama, neste momento o Tea Party complica mais a vida aos Republicnos que aos Democratas.
- Apesar de infiltrado por extremistas, reaccionários, conspiracionistas e figuras de cariz intelectual deficiente, o movimento teve uma génese espontânea, procurando simbolicamente reerguer a bandeira dos colonos independentistas e tendo conseguido marcar a agenda do acontecer político.
- No cerne deste movimiento "há algo de são, realista, democrático e profundamente libertário. O temor do crescimiento desenfreado do Estado e da burocracia, cujos tentáculos se infiltram cada vez mais na vida privada dos cidadãos, cerceando e asfixiando a sua liberdade e as suas iniciativas; a apropriação por parte do sector público de funções ou serviços que a sociedade civil poderia assumir com mais eficácia e menos desperdício de recursos; a criação de sistemas atraentes de assistência social que só poderão ser financiados com subidas sistemáticas de impostos, o que se traduzirá na queda dos níveis de vida das classes médias e populares."
A necessidade de recuperar a responsabilidade individual, ameaçada de dissolução pela ocupação de todos os espaços de iniciativa e acção por um estado cada vez mais omnipresente nas sociedades contemporâneas, é "um sentimento justo que merece ser incorporado na agenda política, pois denuncia problemas reais que a cultura democrática enfrenta".
Vale a pena ler todo o artigo.
quarta-feira, outubro 27
Tiopental sódico
Tiopental sódico é um derivado de barbitúrico de baixa acção, que induz hipnose e anestesia, mas não analgesia. Provoca hipnose decorridos 30 a 40 segundos a injecção intravenosa.
Tem como indicação a indução de anestesia antes da administração de outros agentes anestésicos. Também é utilizado na fase inicial da execução por injecção letal, antes da administração dos químicos indutores de coma.
Por falta do produto no estado do Arizona, a execução de Jeffrey Landrigan esteve suspensa. As autoridades tinham recorrido a um fornecedor britânico para obtenção do tiopental, e um juiz federal ordenara a suspensão por entender que a droga poderia não satisfazer os requisitos exigidos nos EEUU.
O Supremo Tribunal anulou a suspensão e a execução ocorreu hoje.
O único fornecedor do tiopental aprovado nos EEUU, uma companhia do Illinois, declarou que não concorda com o uso dado ao produto. "Não está indicado para a pena de morte."
Tem como indicação a indução de anestesia antes da administração de outros agentes anestésicos. Também é utilizado na fase inicial da execução por injecção letal, antes da administração dos químicos indutores de coma.
Por falta do produto no estado do Arizona, a execução de Jeffrey Landrigan esteve suspensa. As autoridades tinham recorrido a um fornecedor britânico para obtenção do tiopental, e um juiz federal ordenara a suspensão por entender que a droga poderia não satisfazer os requisitos exigidos nos EEUU.
O Supremo Tribunal anulou a suspensão e a execução ocorreu hoje.
O único fornecedor do tiopental aprovado nos EEUU, uma companhia do Illinois, declarou que não concorda com o uso dado ao produto. "Não está indicado para a pena de morte."
domingo, outubro 24
O factor geográfico
Não se trata de superioridade biológica, nem de maior dinamismo cultural, nem de factores religiosos como a presença envolvente do cristianismo. Para Ian Morris, professor em Stanford e cujo livro mais recente tem o título "Why the West Rules", o importante é a geografia. Em voo esquemático, tudo começa com o aquecimento do planeta após a Idade do Gelo, que acabou por favorecer determinadas latitudes e não outras. A abundância de plantas e espécies domesticáveis favoreceu as zonas onde viriam brotar as culturas Greco-Romana, Judaica, Indiana e Chinesa. A partir do século XVI, o desenvolvimento da navegação favorece o "Ocidente", por estar mais póximo da América. É no "Ocidente" que a revolução científica e a revolução industrial têm lugar e vão determinar a supremacia e o domínio do mundo. E agora? Tendo as distâncias perdido relevo, o factor geográfico já não é o que era. O caminho está aberto para que China e Índia reassumam a liderança... por razões que já não são as mesmas.
quarta-feira, outubro 20
Estimando os submersos
No dia mundial da Estatística, o presidente do INE de Espanha conta como vão ser incorporados no PIB os sectores da prostituição e do contrabando.
domingo, outubro 17
Da Literatura
Conversa na Catedral será, se não o é já, reconhecido como um dos grandes romances do século XX. Com uma sofisticada arquitectura de texto e um enredo riquíssimo, povoado de personagens dotadas de vozes internas estilisticamente diversificadas, o romance joga com as sucessivas intromissões daquelas na acção, perturbando a cronologia linear e induzindo no leitor expectativa, erro e surpresa.
Se é verdade que a complexidade da narrativa atinge um ponto alto num trecho em que dezoito diálogos distintos se entrecruzam, não há dúvida sobre o papel central assumido pela fala de Don Fermín com Ambrosio, que se insinua logo a poucas páginas do início, seguida de uma outra fala pertencente ao diálogo entre Santiago e Ambrosio, como dois flashbacks cinematográficos sucessivos. Santiago, ou Zavalita, é filho de Don Fermín, empresário Odrista; Ambrosio trabalhara para Fermín como motorista e algo mais. Na cena inicial, Santiago e Ambrosio, que se tinham encontrado por acaso depois de muitos anos, conversavam na “Catedral” com cervejas pela frente.
-¿Lo hiciste por mí? -dijo don Fermín-. ¿Por mí, negro? Pobre infeliz, pobre loco.
-Le juro que no, niño -se ríe Ambrosio-. ¿Se está haciendo la burla de mí?
Fermín dirige-se a Ambrosio; Ambrosio responde a Zavalita. A frase encerra um enigma (as razões do assassinato, por Ambrosio, de uma prostituta, Hortensia, ex-amante de um ministro no governo do ditador Odría) que irromperá repetidamente ao longo do romance e que só perto do final será esclarecido na sua totalidade. As aparições seguintes da frase contêm ou insinuam novas camadas de significado. Na segunda ocorrência Don Fermín já procura inculcar em Ambrosio a motivação do crime que para ele é mais conveniente:
-¿Qué desgracia te pasó en Pucallpa? -dice Santiago.
(…)
-¿Por mí, por mí? -dijo don Fermín-. ¿O lo hiciste por ti, para tenerme en tus manos,
pobre infeliz?
Mais adiante, Don Fermín parece estar a ceder às razões de Ambrosio,
-Está bien, no llores, no te arrodilles, te creo, lo hiciste por mí -dijo don Fermín-. ¿No pensaste que en vez de ayudarme podías hundirme para siempre? ¿Para qué te dio
cabeza Dios, infeliz?
Mas nos flashbacks seguintes volta ao ataque:
-Ya sé por qué lo hiciste, infeliz -dijo don Fermín-. No porque me sacaba plata, no
porque me chantajeaba.
(…)
-Sino por el anónimo que me mandó contándome lo de tu mujer -dijo don Fermín-. No
por vengarme a mí. Por vengarte tú, infeliz.
(… …)
-Creías que te iba a despedir por lo que me enteré del asunto de tu mujer -dijo don
Fermín-. Creíste que haciendo eso me tenías del pescuezo. También tú querías
chantajearme, infeliz.
(… …)
-Basta, basta -dijo don Fermín-. Déjate de llorar. ¿No fue así, no pensaste eso, no lo
hiciste por eso?
(… …)
-Bueno, está bien –dijo don Fermín-. No llores más, infeliz.
(…)
-Bueno, no querías chantajearme sino ayudarme -dijo don Fermín-. Harás lo que yo te
diga, bueno, me obedecerás. Pero basta, ya no llores más.
(…)
-No te desprecio, no te odio -dijo don Fermín-. Está bien, me tienes respeto, lo hiciste
por mí. Para que yo no sufriera, bueno. No eres un infeliz, está bien.
(…)
-Está bien, está bien -repetía don Fermín.
(… …)
-Debiste decírmelo desde el principio -dijo don Fermín-. Tengo una mujer, vamos a
tener un hijo, quiero casarme con ella. Debiste contarme todo, Ambrosio.
Depois, a conversa entre Don Fermín e Ambrosio aparece a entrecortar o diálogo de Ambrosio com Queta, outra prostituta a quem Ambrosio se abre sobre a sua relação com Don Fermín:
-Qué malos ratos habrás pasado. Ambrosio, cómo me habrás odiado -dijo don Fermín-.
Teniendo que disimular así lo de tu mujer, tantos años. ¿Cuántos, Ambrosio?
-Haciéndome sentir una basura, haciéndome sentir no sé qué -gimió Ambrosio,
golpeando la cama con fuerza y Queta se puso de pie de un salto.
-¿Creías que iba a resentirme contigo, pobre infeliz? -dijo don Fermín-. No, Ambrosio. Saca a tu mujer de esa casa, ten tus hijos. Puedes trabajar aquí todo el tiempo que quieras. Y olvídate de Ancón y de todo eso, Ambrosio.
É Queta que faz a chocante revelação do crime aos jornalistas de “La Crónica”, um dos quais Santiago, filho de Don Fermín:
-No veía a Hortensia hacía tres días -sollozó Queta-. Me enteré por los periódicos. Pero
yo sé, no estoy mintiendo.
(…)
-Hortensia sabía muchas cosas de un tipo de plata, ella se estaba muriendo de hambre,
sólo quería irse de aquí -sollozó Queta-. No era por maldad, era para irse y empezar de
nuevo, donde nadie la conociera. Ya estaba medio muerta cuando la mataron. De lo mal que se portó el perro de Bermúdez, de lo mal que se portaron todos cuando la vieron caída.
-Le sacaba plata, y el tipo la mandó matar para que no lo chantajeara más -recitó,
suavemente, Becerrita-. ¿Quién es el tipo que contrató al matón?
-No lo contrató, le hablaría -dijo Queta, mirando a Becerrita a los ojos-. Le hablaría y lo convencería. Lo tenía dominado, era como su esclavo. Hacía lo que quería con él.
-Yo me atrevo, yo lo publico -repitió Becerrita, a media voz-. Qué carajo, yo te creo,
Queta.
(…)- El matón es su cachero. Se llama Ambrosio.
(…)
-Hortensia le sacaba plata, lo amenazaba con su mujer, con contar por calles y plazas la historia de su chofer -rugió Queta-. No es mentira, en vez de pagarle el pasaje a México la mandó matar con su cachero. ¿Lo va a decir, lo va a publicar?
Mais adiante, Santiago comentará que o encontro com um colega poderá tê-lo salvo nesse dia de uma tragédia maior:
Sí, había sido una suerte encontrarlo, una suerte ir a parar a la plaza San Martín y no a la pensión de Barranco, una suerte no ir a llorar la boca contra la almohada en la soledad del cuartito, sintiendo que se había acabado el mundo y pensando en matarte o en matar al pobre viejo, Zavalita.
(…)
E sabemos pela sua voz interior a enormidade do choque:
No en el momento que lo supiste, Zavalita, sino ahí. Piensa: sino en el momento que supe que todo Lima sabía que era marica menos yo. Toda la redacción, Zavalita, menos tú.
É disto que Santiago Zavalita quer que Ambrosio fale, na cena inicial, que decorre muito depois dos acontecimentos que constituem o núcleo da acção. Santiago quer ouvir a confissão do próprio. Ambrosio esquiva-se, ignorando que Santiago já sabe tudo. O leitor não sabe ainda que Santiago sabe.
Se é verdade que a complexidade da narrativa atinge um ponto alto num trecho em que dezoito diálogos distintos se entrecruzam, não há dúvida sobre o papel central assumido pela fala de Don Fermín com Ambrosio, que se insinua logo a poucas páginas do início, seguida de uma outra fala pertencente ao diálogo entre Santiago e Ambrosio, como dois flashbacks cinematográficos sucessivos. Santiago, ou Zavalita, é filho de Don Fermín, empresário Odrista; Ambrosio trabalhara para Fermín como motorista e algo mais. Na cena inicial, Santiago e Ambrosio, que se tinham encontrado por acaso depois de muitos anos, conversavam na “Catedral” com cervejas pela frente.
-¿Lo hiciste por mí? -dijo don Fermín-. ¿Por mí, negro? Pobre infeliz, pobre loco.
-Le juro que no, niño -se ríe Ambrosio-. ¿Se está haciendo la burla de mí?
Fermín dirige-se a Ambrosio; Ambrosio responde a Zavalita. A frase encerra um enigma (as razões do assassinato, por Ambrosio, de uma prostituta, Hortensia, ex-amante de um ministro no governo do ditador Odría) que irromperá repetidamente ao longo do romance e que só perto do final será esclarecido na sua totalidade. As aparições seguintes da frase contêm ou insinuam novas camadas de significado. Na segunda ocorrência Don Fermín já procura inculcar em Ambrosio a motivação do crime que para ele é mais conveniente:
-¿Qué desgracia te pasó en Pucallpa? -dice Santiago.
(…)
-¿Por mí, por mí? -dijo don Fermín-. ¿O lo hiciste por ti, para tenerme en tus manos,
pobre infeliz?
Mais adiante, Don Fermín parece estar a ceder às razões de Ambrosio,
-Está bien, no llores, no te arrodilles, te creo, lo hiciste por mí -dijo don Fermín-. ¿No pensaste que en vez de ayudarme podías hundirme para siempre? ¿Para qué te dio
cabeza Dios, infeliz?
Mas nos flashbacks seguintes volta ao ataque:
-Ya sé por qué lo hiciste, infeliz -dijo don Fermín-. No porque me sacaba plata, no
porque me chantajeaba.
(…)
-Sino por el anónimo que me mandó contándome lo de tu mujer -dijo don Fermín-. No
por vengarme a mí. Por vengarte tú, infeliz.
(… …)
-Creías que te iba a despedir por lo que me enteré del asunto de tu mujer -dijo don
Fermín-. Creíste que haciendo eso me tenías del pescuezo. También tú querías
chantajearme, infeliz.
(… …)
-Basta, basta -dijo don Fermín-. Déjate de llorar. ¿No fue así, no pensaste eso, no lo
hiciste por eso?
(… …)
-Bueno, está bien –dijo don Fermín-. No llores más, infeliz.
(…)
-Bueno, no querías chantajearme sino ayudarme -dijo don Fermín-. Harás lo que yo te
diga, bueno, me obedecerás. Pero basta, ya no llores más.
(…)
-No te desprecio, no te odio -dijo don Fermín-. Está bien, me tienes respeto, lo hiciste
por mí. Para que yo no sufriera, bueno. No eres un infeliz, está bien.
(…)
-Está bien, está bien -repetía don Fermín.
(… …)
-Debiste decírmelo desde el principio -dijo don Fermín-. Tengo una mujer, vamos a
tener un hijo, quiero casarme con ella. Debiste contarme todo, Ambrosio.
Depois, a conversa entre Don Fermín e Ambrosio aparece a entrecortar o diálogo de Ambrosio com Queta, outra prostituta a quem Ambrosio se abre sobre a sua relação com Don Fermín:
-Qué malos ratos habrás pasado. Ambrosio, cómo me habrás odiado -dijo don Fermín-.
Teniendo que disimular así lo de tu mujer, tantos años. ¿Cuántos, Ambrosio?
-Haciéndome sentir una basura, haciéndome sentir no sé qué -gimió Ambrosio,
golpeando la cama con fuerza y Queta se puso de pie de un salto.
-¿Creías que iba a resentirme contigo, pobre infeliz? -dijo don Fermín-. No, Ambrosio. Saca a tu mujer de esa casa, ten tus hijos. Puedes trabajar aquí todo el tiempo que quieras. Y olvídate de Ancón y de todo eso, Ambrosio.
É Queta que faz a chocante revelação do crime aos jornalistas de “La Crónica”, um dos quais Santiago, filho de Don Fermín:
-No veía a Hortensia hacía tres días -sollozó Queta-. Me enteré por los periódicos. Pero
yo sé, no estoy mintiendo.
(…)
-Hortensia sabía muchas cosas de un tipo de plata, ella se estaba muriendo de hambre,
sólo quería irse de aquí -sollozó Queta-. No era por maldad, era para irse y empezar de
nuevo, donde nadie la conociera. Ya estaba medio muerta cuando la mataron. De lo mal que se portó el perro de Bermúdez, de lo mal que se portaron todos cuando la vieron caída.
-Le sacaba plata, y el tipo la mandó matar para que no lo chantajeara más -recitó,
suavemente, Becerrita-. ¿Quién es el tipo que contrató al matón?
-No lo contrató, le hablaría -dijo Queta, mirando a Becerrita a los ojos-. Le hablaría y lo convencería. Lo tenía dominado, era como su esclavo. Hacía lo que quería con él.
-Yo me atrevo, yo lo publico -repitió Becerrita, a media voz-. Qué carajo, yo te creo,
Queta.
(…)- El matón es su cachero. Se llama Ambrosio.
(…)
-Hortensia le sacaba plata, lo amenazaba con su mujer, con contar por calles y plazas la historia de su chofer -rugió Queta-. No es mentira, en vez de pagarle el pasaje a México la mandó matar con su cachero. ¿Lo va a decir, lo va a publicar?
Mais adiante, Santiago comentará que o encontro com um colega poderá tê-lo salvo nesse dia de uma tragédia maior:
Sí, había sido una suerte encontrarlo, una suerte ir a parar a la plaza San Martín y no a la pensión de Barranco, una suerte no ir a llorar la boca contra la almohada en la soledad del cuartito, sintiendo que se había acabado el mundo y pensando en matarte o en matar al pobre viejo, Zavalita.
(…)
E sabemos pela sua voz interior a enormidade do choque:
No en el momento que lo supiste, Zavalita, sino ahí. Piensa: sino en el momento que supe que todo Lima sabía que era marica menos yo. Toda la redacción, Zavalita, menos tú.
É disto que Santiago Zavalita quer que Ambrosio fale, na cena inicial, que decorre muito depois dos acontecimentos que constituem o núcleo da acção. Santiago quer ouvir a confissão do próprio. Ambrosio esquiva-se, ignorando que Santiago já sabe tudo. O leitor não sabe ainda que Santiago sabe.
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