domingo, julho 3

Maus dias para a ficção: o caso ND?

Com a concorrência feroz da realidade, ou pelo menos de como os media a interpretam e contam,  a ficção vai ter que suar para ganhar público. Quem perderá tempo com as bocejantes novelas que as nossas tvs inventam quando mesmo ao lado as notícias nos servem folhetins como o do caso Strauss-Kahn?

Se o enredo já era rico em sexo, dinheiro, poder e teorias de conspiração, agora surge enriquecido com proventos da droga, contas bancárias e muita mentira. Não é de menor importância que aquilo que naturalmente era descrito como o caso DSK pareça de súbito muito mais apropriadamente "O caso ND" (sim, os jornais franceses já publicam o nome da empregada de limpeza que acusou Dominique de violação). Numa reviravolta que com certeza será motivo de estudo para aspirantes a ficcionista de sucesso, a vítima inicial deixa de surgir como pobre e abusada. Movimentando milhares de dólares nas suas contas bancárias e estabelecendo, através dos seus quatro telemóveis, os contactos com traficantes, terá confidenciado ao companheiro, actualmente preso, que sabia muito bem o que estava a fazer ao acusar DSK. A investigação sobre ND veio a revelar que ela quando mente não brinca em serviço. Pelo contrário, as queixas com que deu substância ao pedido de entrada nos USA foram cuidadosamente ensaiadas escutando numa cassete uma vítima autêntica. Descredibilizada a acusadora, resta que alguma coisa embaraçosa para DSK, incluindo derramamento de fluido genético, se terá passado no Sofitel. De acordo com as simpatias de cada um, os jornais branqueiam ou atacam as personagens principais. Segundo o New York Post, a mulher tem longa carreira na prostituição. No Daily Mail ficamos a saber que duas meninas de uma agência de acompanhantes de Manhattan se queixaram da rudeza de DSK: parece que o homem se portava como um animal. A agência chama-se Wicked Models (risos).

Entretanto, a atrapalhação risível dos socialistas franceses vai no sentido de reabrir o caminho à candidatura de Dominique às presidenciais.

Como na boa ficção de suspense, a novela não tem personagens boazinhas. Não sabemos com quem nos identificar, e se sabemos não dizemos. No Parisien, uma sondagem mostra que 49% dos franceses, ou 60% dos franceses de gauche, querem ver DSK de volta à política. Isto não pode ser só efeito da embirração com Sarko. Se os franceses querem DSK como presidente, é porque o merecem.

1 comentário:

on disse...

Temos sempre os políticos que merecemos e a justiça que podemos pagar.