sábado, setembro 3

É tempo de sair da EU

Não, não é para nós. É o tema do debate promovido pelo Spectator na Royal Geographical Society, em Londres, no próximo dia 20 de Setembro. Está anunciada para já a presença de três partidários do "divórcio amigável" e dois defensores das vantagens de permanecer na união.

terça-feira, agosto 30

al-Megrahi

Já que nos posts anteriores, sobre a situação na Líbia, a personagem tem sido várias vezes citada, é oportuno referir esta notícia de há dois dias, segundo a qual al-Megrahi se encontra em coma.

Actualização. Como previ, já há quatro versões para a vida ou a morte de Hana.

segunda-feira, agosto 29

Saif

Com o seu discurso inflamado e caótico de 20 de Fevereiro na TV líbia, Saif, o segundo filho de Gaddafi, desiludiu muitos dos que lhe tinham sido próximos. Personagem de relevo na família que se julgava dona da Líbia e que como tal agia, o jovem trintão Saif era apontado como sucessor do pai no comando do poder. Nele se depositavam piedosas esperanças de liberalização do regime e instauração de uma democracia. Mas em 20 de Fevereiro Saif declarou-se ao lado de Muammar e prometeu apenas luta e sangue.

Al-Hawni, um intelectual seu amigo e confidente durante onze anos, chegou a escrever o discurso que Saif à última hora rejeitou. Os laços familiares e de clã foram mais fortes do que o apego aos valores da democracia, aprendidos na Europa mas certamente colados com cuspo. Aprendizagem mesmo assim suficiente para concluir um PhD na LSE em 2008, com a tese "The role of the civil society in the democratization of global governance institutions".

Al-Hawni descreve Saif como "generoso" mas "privado de bom senso político". Ilustra a apreciação com as declarações de Saif quando viajou com Al-Megrahi para a Líbia em 2009, anunciando aos quatro ventos que tudo estivera combinado com altos responsáveis britânicos e que a libertação do terrorista tinha por trás um negócio de petróleo. Enfim, uma boa pessoa que ninguém gostaria de ter como confidente.

Quem não fica bem na foto é a LSE. O caso levou à demissão do Professor David Held, que só por meias palavras dá a entender que orientou a dissertação de Saif. Uma série de incomodidades, sabendo-se que Gaddafi doou 2,5 milhões de dólares à LSE em 2009 através da Qaddafi International Charity and Development Foundation, de que Saif é presidente.

Foi através dos imensos fundos que controla que Saif contratou mercenários no norte de África para combaterem ao lado das forças leais ao regime em extinção. A investigação do caso por um procurador do TPI está bastante avançada. Dizia Saif, nos tempos de boa vida na Europa, que ambicionava para o seu país todas as liberdades possíveis, como as que por exemplo se gozam na Holanda. Quem sabe se o destino lhe reserva uma viagem a Haia, mas não em liberdade.

A história toda vem contada por Philippe Sands na Vanity Fair.

That's Mathematics!

sábado, agosto 27

Hana

Com a guerra a Gaddafi nas primeiras páginas, o nome de Hana volta à cena pública. Da primeira vez envolto em tragédia, agora sob a forma de episódio folhetinesco ou reviravolta não confirmada.

É antigo o ódio entre Gaddafi e os Estados Unidos. O apoio do ditador a acções terroristas determinou um bombardeamento sobre a Líbia em 15 de Abril de 1986, por ordem do presidente Ronald Reagan. A operação foi cirúrgica e complexa, levada a cabo de noite, com a participação de dois porta aviões e perto de uma centena de aviões, atingindo quatro alvos em simultâneo. Alguns dos aviões partiram de bases britânicas da RAF e tiveram de contornar a linha de costa europeia, porque a França recusou autorização para uso do seu espaço aéreo e nisso foi seguida por Espanha e Portugal.

Em resultado dos ataques aéreos teria falecido Hana, filha adoptiva de Gaddafi, então com 15 meses. Ontem, uma notícia do Irish Times sustentava que afinal Hana está viva, mencionando documentação agora descoberta.  Parece que tem uma licenciatura em medicina e exercia a profissão em Tripoli. Se é verdade, ainda bem para ela. O Corriere della Sera dá outros pormenores. Quanto à encenação, se de facto disso se tratou, enquadra-se bem no enredo envolvente. Pode até ser uma de várias versões que ainda nos serão servidas, deixando a verdade à escolha do espectador.

terça-feira, agosto 23

Sopra um vento novo em Tripoli?

Grita-se vitória às portas de Tripoli: “Allah Akhbar!”. Os rebeldes podem ter razão. É impossível provar que não foi Allah quem guiou por vias tortas os navios e os aviões da NATO.

Ao olhar para a semelhança das multidões agora em júbilo com as que ainda há pouco vitoriavam o ditador, Robert Fisk recorda com amarga ironia o "Ils sont les mêmes" de De Gaulle. E sugere algumas coisas curiosas que podem estar para acontecer: o acesso aos dossiers do petróleo e das relações com governantes ocidentais, e mesmo o destino a dar a Abdulbaset al-Megrahi, o supostamente-com-os-pés-prá-cova condenado pelo atentado de Lockerbie, libertado da Escócia há precisamente dois anos com uma esperança de vida de três meses. Ainda se discute no Reino Unido esta libertação, havendo vozes a favor do regresso à prisão  e também os que advogam que a culpabilidade foi fabricada por uma conspiração. Quando a ficção se ocupar disto, vai ter que trabalhar bem para superar os enigmas da realidade, mas fios de enredo não lhe vão faltar. Por agora, esperemos que alguma coisa de bom aconteça à Líbia nos tempos que já estão aqui.

sábado, agosto 20

Livros de que não gostámos

Na sequência deste post, encontrei também esta curiosa e extensa discussão sobre o possivelmente duvidoso prestígio que rodeia algumas grandes obras literárias. Lá tornam a bater no Ulysses e no Quixote, há quem diga que Dante é uma seca e que o Quarteto de Alexandria é de fugir logo que se abre. O Grande Gatsby também é zurzido. Catcher in the Rye tem setas para baixo. Entre os comentadores, dá-se bola preta ao Corão mas a Bíblia salva-se. Fogo também sobre Não Matem a Cotovia, Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazov e a Viagem ao Fim da Noite.

Números e jornalismo programático

Num blog do Guardian, Andrew Brown reflecte sobre a atitude dos jornais e das tvs, que deram mais importância a 5000 contestatários do que a um milhão e meio de apoiantes de um acontecimento. Uma coisa já esperada, de resto, pois os jornalistas de programa preferem à realidade os preconceitos próprios.
Depois dos recentes motins de Londres, os jornalistas de programa não tiveram tempo de adaptar e recentrar a atenção: compreendem mal que uns milhões encham ruas e praças sem destruir e incendiar casas e lojas.

sexta-feira, agosto 19

Os livros que não lemos

As pessoas públicas que supõem dever mostrar-se kultas aparecem por vezes nas entrevistas citando livros que leram. Por vezes as citações são tão artificiais ou desajeitadas que ficamos logo a duvidar da koltura das ditas. Seria bem mais interessante, numa reviravolta para um procedimento de verdade, abrirem-nos a lista longa dos livros que não leram porque não foram capazes.

E nós, pessoas anónimas? Que grandes livros deixámos por ler? Serão os "grandes livros" realmente grandes? Não falamos da extensão, mas também ela terá um papel nas razões por que os deixámos na estante depois de um manuseio breve. As horas que nos foram atribuidas para permanência neste planeta estão longe de ser sufucientes para lermos tudo o que quereríamos, e agora ainda por cima consumimos tempo com blogs e livros de caras. Mas para além do número de páginas, pode haver outro problema com um livro: ou ele não nos agarra no início ou nós não nos deixamos prender.

A questão foi posta por Umberto Eco num blog do Guardian. Nas respostas e comentários, os leitores referem os livros onde tiveram dificuldade em entrar, ou que abandonaram mesmo. Da lista constam  Ulysses, Don Quixote, Moby Dick, Guerra e Paz, Crime e Castigo e até a Bovary e os Cem anos de Solidão. Destes, eu só li os três últimos e foram inúteis as tentativas de entrar nos dois primeiros. Um comentador aconselha para o Ulysses a seguinte receita: começar pelo capítulo 4; pode-se sempre voltar atrás se se quiser. Quanto à Moby Dick, salte-se a introdução que não faz falta nenhuma. Não sei se irei seguir o conselho. A Bíblia, aprende-se também com os comentadores, como outros grandes livros de poesia, é para ler aos bocados, espreitando aqui e ali.

Excitações

À informação mainstream, naturalmente mais excitada com os indignados anti-papa do que com a visita de Ratzinger a Madrid, não escapa qualquer indício de ameaça ultra que possa levar a etiqueta de "católica". Nos últimos dias os jornais falaram de um terrorista mexicano que se preparava para atacar a marcha dos indignados contra a presença dos que esperavam o papa, e imediatamente o sujeito foi rotulado como seria de esperar. O homem em questão não bate bem da bola e parece ser mais simplesmente um homofóbico empedernido. Claro que isto não contradiz, de modo nenhum, em princípio, que seja um militante católico ultra. Mas o esvaziamento posterior da notícia é bem descrito, no comentário de ontem, pelo Elentir, que fez uma investigação exaustiva do caso. Acontece que o suposto terrorista ultra-católico tinha como referência um blog ultra-esquerdista, coisa de que os jornais excitados não falaram.

QI e genes


Uma das explicações mais provocatórias para as variações de QI a nível de grandes agregados (estados, nações) é que as diferenças resultam de diferenças genéticas. É difícil, no entanto, encontrar estudos empíricos que suportem esta hipótese. Com estas considerações começa o resumo deste artigo aceite para publicação na Intelligence. Segundo os autores, trata-se de um dos primeiros estudos com o objectivo de suprir aquela ausência na literatura. Os autores usaram o agregado escola e estudaram as diferenças de QI médio em confronto com as distribuições de genes associados à dopamina (há resultados consolidados sobre as relações entre dopamina e capacidades cognitivas). Com todos os cuidados na interpretação dos resultados, a conclusão é que as variações de QI são resultado de factores genéticos. O Inductivist comenta que os resultados contradizem o ponto de vista de que 1) a raça é uma construção social e 2) diferenças de QI entre brancos e negros não têm a ver com diferenças genéticas.





quarta-feira, agosto 17

Canção da má sorte

Em 2008, uma bolha do lado de lá trouxe-nos uma vaga de pouca sorte.
Agora estamos nós (na insólita companhia da primavera árabe e do tsunami no Japão) a dar pouca sorte aos outros.
E temos que nos aturar mutuamente, porque não há para onde fugir.
Estas poucas sortes foram previstas, lá e cá, por umas pessoas designadas como radicais, loucos ou bota-abaixo.
Em prol da verdade, todos os candidatos a líder em futuras campanhas eleitorais devem acrescentar "if we are lucky" ao "we can".
Com muita sorte qualquer um se safa bem. Nem precisa de habilidade e bom senso.

segunda-feira, agosto 15

O mistério das livrarias

Contam vários relatos que os intervenientes nos distúrbios em Londres trataram as livrarias com total indiferença. Destruiram e assaltaram sem cerimónias restaurantes, lojas de roupa desportiva e de material electrónico. Queimaram carros e edifícios. Apoderaram-se de ténis, playstations, flatscreens e o que mais apetece ter. Mas livros, nada. Os danos em livrarias foram marginais. Em face deste curioso dado empírico, o Huffington Post avança com duas engenhosas tentativas de explicação para a sobrevivência das livrarias: respeito pelos livros ou total desinteresse por eles. Nos comentários ao artigo são colocadas hipóteses mais chãs mas carregadas de verosimilhança. Por exemplo: os livros são mais pesados e mais difíceis de vender do que tvs, gadgets electrónicos e calçado em moda. Ou então: a malta dos protestos não está habituada a ler textos com mais de 140 caracteres. Um comerciante de Brixton observou ao Financial Times, com alívio, que os assaltos privilegiaram o grande comércio: não houve motins, houve um "saque inteligente".

sexta-feira, agosto 12

Social disease



A partir do minuto 1:21, o génio, a arte e o humor de Stephen Sondheim e Leonard Bernstein mostram os gangs juvenis e as explicações que os adultos para eles inventaram (e de que eles se riem). Neste video a qualidade de som e imagem não é grande coisa mas há a vantagem de se poder apreciar a graça das palavras.

Agora uma curiosa versão de amadores:

E também é divertida esta interpretação:

domingo, agosto 7

Do onanismo terminológico

O PÚBLICO refere-se hoje ao caos do ensino do Português. A tenebrosa TLEBS não acabou: embora reduzida, regressa sob as vestes do novo dicionário terminológico. Mais do que as incompetências que muito têm vindo a prejudicar o ensino da Matemática através do desenho de programas e metodologias, as que vêm afectando o ensino da língua exibem com grande descaramento a loucura de que o planeamento do ensino básico foi, e continua, possesso. A estrutura da língua e a classificação em gramática são certamente matérias estimulantes e dignas, mas... será normal transformar um assunto em discussão entre especialistas, com aspectos inacabados e não consensuais, em matéria para o ensino básico??? Com a agravante de a coisa ser extensa, complicada, e em parte inútil. No longo rosário dos nomes propostos há agora modificadores, determinantes, sujeitos expletivos, complementos oblíquos. Mas a plasticidade da língua resistirá sempre à utopia da classificação universal. A solução proposta para o sujeito em chove muito continuará a ser discutível, tal como a ambiguidade se manterá nas formas vende-se casas e vendem-se casas. Já agora, não compro a classificação de ladrar como verbo unipessoal: isso impedir-me-ia de escrever ladras mas não mordes, e pode apetecer-me. Para lá dos exemplos contidos no documento, os professores e autores de manuais enfrentarão um oceano de dúvidas. Estas terminologias são claramente coisa para adultos e mesmo assim não devem ser impostas sem consentimento mútuo (sim, estou a repetir-me).

Como tudo isto poderia ser pouco, introduz-se ao mesmo tempo o acordo ortográfico. O novo acordo ortográfico com o grande Brasil em fundo dá imenso jeito para escrever sms. Poupam-se uns cês de vez em quando. Mas não foi suficientemente longe. Porquê escrever para em vez de pra? Poupava-se um a (que só os afetados pronunciam) e desaparecia a ambiguidade com a homónima pertencente ao verbo parar. Telefone pode passar a tfone e vizinho a vzinho, porque na região de Lisboa, onde estão os que fazem os acordos, ninguém pronuncia as vogais.  É tempo de simplificar a grafia do acento e escrever ahquele, ou ah, que é de teclagem mais simples, tipo pah. Abandone-se essa mariquice do acento grave, que só a três palavras convém.

sábado, agosto 6

A leitura no tempo da internet

A internet não é só uma ferramenta. É um utensílio que passa a ser prolongamento do nosso próprio corpo, do nosso próprio cérebro, o qual se vai também, de modo discreto, adaptando pouco a pouco a esse novo sistema de informar-se e de pensar, renunciando pouco a pouco às funções que esse sistema faz por ele e, por vezes, melhor que ele.

Mário Vargas Llosa discorre, em artigo no EL PAÍS, sobre os efeitos da internet nos hábitos de leitura e procura de informação. Há perguntas que ficarão muito tempo sem resposta. Quem vai dar-se ao trabalho de ler um livro de ponta a ponta, podendo encontrar na net resumos e comentários, provavelmente com qualidade? O número de horas a consumir com o Crime e Castigo (digamos) não é coisa negligenciável em presença de uma agenda preenchida. Que cavernícola vai sobrecarregar a memória com dados que a coreografia do teclado e do rato torna acessíveis em segundos? Para quê encher estantes com a sabedoria dos mestres e a erudição dos clássicos? O Google sabe mais.

Na verdade, possivelmente lemos mais agora, mas de forma mais fragmentada. A própria internet concorre consigo mesma. Como o tempo escasseia para ler todos os artigos que nos parecem interessantes, percorremo-los em diagonal e vamos em directo aos comentários, onde encontramos uma pré-avaliação do interesse do conteúdo, justificando ou não uma atenção mais demorada. Isto vale tanto para artigos de jornais e magazines online como para blogs. E até para coisas-tipo-facebook, embora nestas a dimensão do texto já esteja limitada pela formatação do sítio. Será o facebook a perspectiva mais aterradora do fim da leitura? Iremos acabar por consumir apenas a "boca" breve, comprimida, zipada, que é suportável pelo cérebro interneticamente modificado do leitor moderno?

sexta-feira, agosto 5

Bolha discreta

Subida acelerada do número de funcionários públicos em anos recentes. Pensões de aposentação e cobertura de serviços de saúde desenhados sob os pressupostos mais optimistas. Reformas aos 55 anos, cociente aposentados/activos já assustador e em perigoso crescimento. Certas vozes já pedem o adiamento da idade de aposentação para os 65 e o cálculo das pensões com base na carreira contributiva. Parece que falamos dos PIIGS ou algo assim, não? Nem por isso. Trata-se da bolha dos salários e direitos de funcionários públicos nos Estados Unidos, se acreditarmos neste artigo. É a nível municipal e local que a insustentabilidade da situação começa a exigir medidas.

quinta-feira, agosto 4

Parking livre da intromissão do estado

No Parking Jules Guesde, concessionado a uma construtora pela câmara de Marselha, as caixas automáticas começaram por aparecer frequentemente incendidas. Depois, violências e ameaças levaram ao abandono do parque por parte da empresa. Dezenas de queixas não tiveram qualquer resultado: concessionário e prefeitura não se entendem sobre a quem compete manter a segurança. Agora, o estacionamento faz-se sem bilhetes nem moedas em ranhuras ou quaisquer outras formalidades. Por cada carro que entra, 5 euros passam directamente para o saco dos okupas - jovens, diz o jornal, utilizando o código apropriado às estórias com acção em bairros sensíveis.

Descompressão



Agora que já sabemos que os Estados Unidos não entram em incumprimento este mês, apreciemos esta versão rap de um debate que será difícil encerrar em algum momento. A letra está aqui.

domingo, julho 31

Perdão

A execução da sentença estava marcada para esta manhã às 6:00. Num hospital de Teerão, Majid Movahedi iria receber dez gotas de ácido sulfúrico em cada olho, em presença de médicos especialistas. Condenado por ter cegado com ácido e desfigurado o rosto de Ameneh Bahrami, mulher que recusou a sua proposta de casamento, esperava há três anos a execução da sentença. A macabra história foi notícia várias vezes, ao sabor do andamento do processo. No último momento veio o perdão de Ameneh, quando Majid já soluçava de joelhos, aguardando a execução. As notícias de hoje referem também que a sentença adicional de prisão (12 anos) será cumprida a menos que o condenado entregue à vítima o valor monetário requerido como indemnização, equivalente a cerca de 150 000 €.

segunda-feira, julho 18

Final de ciclo

...su incapacidad en la gestión, los magros resultados de las reformas apenas incoadas, más el lastre y la impotencia de una legislatura agónica auguran un deterioro imparable al que resulta imprescindible poner fin cuanto antes. A este respecto, la fecha sugerida por algunos dirigentes socialistas para celebrar elecciones (finales de noviembre) es del todo tardía. Si de verdad Rodríguez Zapatero quiere rendir un último servicio a su país, debe hacerlo abandonando el poder cuanto antes y reconociendo la urgencia de que nuestro Gobierno recupere la credibilidad perdida. Los españoles en su conjunto, y los votantes socialistas en particular, se lo agradecerán.

EL PAÍS, 18 de Julho.

domingo, julho 17

As palavras de Catarina de L.

Então reparo, esmagado sobre uma pilha, o livro que me é por demais caro (...)
Os Elementos, do Senhor Euclides. Erguido entre os demais tratados como o grande farol sobre os templos de Alexandria. Prelúdio e epílogo de todo o conhecimento. Tão verdadeiro e incontestado quanto os Evangelhos. (...) Perene para além de qualquer sétima maravilha.
Assim começa o Senhor Euclides a sua lição magistral:


"Definição: o ponto é aquilo que não tem parte alguma."


E logo outra voz acorre em minha lembrança: "Vede, dona Catarina, como o ínclito Descartes glosa a maravilhosa percepção do Senhor Euclides. Se o ponto subsiste retirando-lhe as partes, também eu emirjo por de mim apartar o que não sou. (...)"

Assim discorria em 1658 Catarina de L., dada à luz por José Gonçalves Gomes em 2011. "A Casa Ancestral de L." é editado por Eucleia e foi ontem apresentado publicamente. Escrito com virtude e elegância, o texto liberta palavras preciosas da sua reclusão forçada nos dicionários e nas tabelas de conjugação verbal. Além disso, Catarina tem muito que contar.

domingo, julho 3

Maus dias para a ficção: o caso ND?

Com a concorrência feroz da realidade, ou pelo menos de como os media a interpretam e contam,  a ficção vai ter que suar para ganhar público. Quem perderá tempo com as bocejantes novelas que as nossas tvs inventam quando mesmo ao lado as notícias nos servem folhetins como o do caso Strauss-Kahn?

Se o enredo já era rico em sexo, dinheiro, poder e teorias de conspiração, agora surge enriquecido com proventos da droga, contas bancárias e muita mentira. Não é de menor importância que aquilo que naturalmente era descrito como o caso DSK pareça de súbito muito mais apropriadamente "O caso ND" (sim, os jornais franceses já publicam o nome da empregada de limpeza que acusou Dominique de violação). Numa reviravolta que com certeza será motivo de estudo para aspirantes a ficcionista de sucesso, a vítima inicial deixa de surgir como pobre e abusada. Movimentando milhares de dólares nas suas contas bancárias e estabelecendo, através dos seus quatro telemóveis, os contactos com traficantes, terá confidenciado ao companheiro, actualmente preso, que sabia muito bem o que estava a fazer ao acusar DSK. A investigação sobre ND veio a revelar que ela quando mente não brinca em serviço. Pelo contrário, as queixas com que deu substância ao pedido de entrada nos USA foram cuidadosamente ensaiadas escutando numa cassete uma vítima autêntica. Descredibilizada a acusadora, resta que alguma coisa embaraçosa para DSK, incluindo derramamento de fluido genético, se terá passado no Sofitel. De acordo com as simpatias de cada um, os jornais branqueiam ou atacam as personagens principais. Segundo o New York Post, a mulher tem longa carreira na prostituição. No Daily Mail ficamos a saber que duas meninas de uma agência de acompanhantes de Manhattan se queixaram da rudeza de DSK: parece que o homem se portava como um animal. A agência chama-se Wicked Models (risos).

Entretanto, a atrapalhação risível dos socialistas franceses vai no sentido de reabrir o caminho à candidatura de Dominique às presidenciais.

Como na boa ficção de suspense, a novela não tem personagens boazinhas. Não sabemos com quem nos identificar, e se sabemos não dizemos. No Parisien, uma sondagem mostra que 49% dos franceses, ou 60% dos franceses de gauche, querem ver DSK de volta à política. Isto não pode ser só efeito da embirração com Sarko. Se os franceses querem DSK como presidente, é porque o merecem.

terça-feira, junho 28

O paraíso ao virar da esquina: num país perto de si


Una estación de Alta velocidad por AlbaceteTeVe

14 de Maio, em campanha eleitoral: alguém anuncia a ligação de Albacete por alta velocidade à linha Madrid-Sevilha e que o tempo de percurso Toledo-Cuenca-Albacete iria ser ainda mais reduzido, passando a fazer-se em apenas 1 hora e meia. Boas perspectivas para Albacete, que ficaria a pouco mais de duas horas das praias.

28 de Junho: a RENFE anuncia o encerramento da linha de alta velocidade Toledo-Albacete, por falta de procura (média diária de 9 passageiros, um movimento um pouco acima do do nosso neo-aeroporto). O director do serviço de passageiros afirma que a empresa foi ao encontro das aspirações dos "alcaldes" locais, que converteram a alta velocidade em símbolo do desenvolvimento regional.

domingo, junho 26

Antes filho que boy

O caso passou-se em Grândola e foi referido há três dias nos jornais. Suspeito que não contém nada de realmente novo nem original, mas a singularidade das justificações do Presidente da Câmara de Grândola é interessante e merece alguma atenção.

A nomeação do filho como adjunto foi maduramente pensada e assenta na qualificação académica muito pontuada da pessoa (não especificada) que o filho representa, e que o Presidente garante conhecer há 29 anos. Não invento nada, é o que a notícia diz. Mas não nos percamos em elocubrações improdutivas: este discurso críptico pode reflectir simplesmente um problema de redacção. Mais significativo é que temos aqui um invulgar exemplo de coragem. Apesar das gigantescas pressões que podemos imaginar, o autarca resistiu a nomear um boy, e avançou directamente para a família, arriscando-se, e aos seus, a uma bateria de críticas. Ainda mais, está a obrigar o filho a trocar pelas ingratas funções públicas uma actividade profissional (supõe-se que promissora) em empresas do sector privado ligadas à área do desenvolvimento e turismo. É  preciso ter coragem e ser limpo para fazer esta nomeação", afirma Beato. Concordo em absoluto.

Dois pontos sobre rodas


A curiosa notícia sobre os ciclistas nus suscita duas reflexões.

Primeira: que moral poderá estar a ser ofendida com esta iniciativa? Atendendo a que estamos em 2011, só pode estar em foco a obrigação de os cidadãos se protegerem dos ultra-violetas e outros efeitos deletérios do calor, como a Autoridade Nacional de Protecção Civil não se cansa de recomendar com os seus alertas coloridos.

Segunda: tentando interpretar correctamente a moral do dia que corre, ao recomendar o uso de cremes solares, o Presidente da Câmara de Lisboa assume competências inesperadas e está a dar uma sugestão aos novos governantes. A ANPC pode ser desmantelada já.

(Imagem. J Roybal)

sábado, junho 25

Mini-preços, mini-duração

Madrid é diferente. Micro-teatro por dinero é uma novidade de sucesso. Por apenas 3€, pode ver-se teatro e tomar uma bebida. Mas não menos importante é a duração das peças: 15 minutos. O produto interessa a todos: aos que têm poucos euros no bolso e aos que, tendo muitos, não podem convertê-los nesse bem mais precioso que é o tempo. Sem esquecer os pobres ou ricos que por conformação genética adormecem ao fim de 20 minutos de declamações. Que grande potencial tem a ideia.

sexta-feira, junho 24

"Um diálogo Pos-moderno: um interdito linguistico em abismo " - 4 anos depois

Por via de uma citação do on, um post antigo tem um comentário novo.

Democratização do copianço

Os exames nacionais envolvem uma operação policial de grande envergadura, com entrega simultânea de pacotes de enunciados, mantidos em grande segredo até ao momento aprazado, nas escolas de todo um país. É assim em Portugal como é também em França. É preciso recuar a 13 de Outubro de 1307 para se encontrar uma acção comparável, quando o ministro Guillaume de Nogaret organizou a prisão dos Templários.

Mas agora os tempos são outros... Um exercício do exame de Matemática para o ensino secundário em França foi divulgado na véspera. Os jornais dão grande destaque ao assunto.

O autor da divulgação, que escreve com muitos erros de francês, garante no site que o exercício vai mesmo sair e encoraja os internautas a tentar resolvê-lo: garante que não se arrependerão. E desafia: se não acreditam, ao menos utilizem-no como treino.

Enquanto alguns já reclamam a repetição do exame de Matemática, o caso vai dar que pensar. O sistema utilizado é muito dispendioso e o peso do exame na nota final é diminuto, argumentam os que se queixam da desadequação do modelo que, afirmam, nem garante a equidade a nível do país.

segunda-feira, junho 20

A PP, o IA e o VIP

Tão pouco tempo e tanto que há para aprender. Ontem dei-me conta de que há uma coisa chamada Psicologia Positiva (PP) que parece que é uma ciência. Foi inventada em 1998 por Martin Seligman e tem por objectivo mostrar uma outra face da Psicologia. Grosseiramente descrito, o lema é: abaixo o divã e o escavar de memórias macabras; em vez disso procurem-se as raizes do génio e do talento e promova-se a valorização das experiências positivas e a busca da felicidade. Se a comparação me é permitida, e pedindo desculpa pelo simplismo do meu entendimento, é como se tivéssemos um novo género de canalizador que entra em acção quando os canos estão em perfeitas condições.

Fiquei a saber de tudo isto num programa da Antena 1, com a presença de uma investigadora que é pioneira da introdução em Portugal dos métodos da PP: o Inquérito Apreciativo (IA), o V.I.P. (valores, influências e projectos) e o World Café. Fiquei com vontade de saber mais e fui pesquisar. Eu explico rapidamente: o IA pode assumir a forma concreta de Máquina do Tempo, em que as pessoas são chamadas a escrever as suas experiências gratificantes em post-it de cores diferentes, que colam em papel de cenário numa parede. Com o V.I.P. descrevem o que lhes evocam os valores, influências e projectos enquanto desenham círculos concêntricos. No World Café promovem-se conversas sobre temas agradáveis à volta de uma mesa com uns acepipes.

De acordo com a literatura publicada, tudo isto é comprovadamente eficaz, podendo os resultados, decorrentes de intervenções concretas em algumas organizações, ser classificados de "surpreendentes". Se assim é, só posso ficar feliz.

Mesmo que pareça que estou a brincar com o assunto, esclareço desde já que não é o caso, até porque descobri que a mesma investigadora faz uma recomendação que recolhe toda a minha simpatia e apoio, sem qualquer réstea de ironia: o uso sistemático do humor a nível das organizações. Advoga que se saiba rir de nós próprios e dos nossos maiores insucessos, que as organizações formem pessoal em competências humorísticas e que o humor seja progressivamente introduzido em notas informativas, circulares e discursos. Já fico bem disposto só de imaginar esse mundo novo. Venham as directivas, já!

quinta-feira, junho 16

Philo

...dire la vérité est utile à celui à qui on la dit, mais désavantageux à ceux qui la disent, parce qu’ils se font haïr. (...)
Personne ne parle de nous en notre présence comme il en parle en notre absence. L’union qui est entre les hommes n’est fondée que sur cette mutuelle tromperie ; et peu d’amitiés subsisteraient, si chacun savait ce que son ami dit de lui lorsqu’il n’y est pas,
quoiqu’il en parle alors sincèrement et sans passion.
L’homme n’est donc que déguisement, que mensonge et hypocrisie, et en soi-même
et à l’égard des autres. Il ne veut donc pas qu’on lui dise la vérité. Il évite de la
dire aux autres ; et toutes ces dispositions, si éloignées de la justice et de la raison,
ont une racine naturelle dans son coeur.
 
Este é um dos textos que hoje sairam em exames nacionais de Filosofia realizados em França. Países cultos são outra coisa: ministros, políticos e outras figuras públicas são chamados a resolver as questões do exame e lá se desenrascam como podem, e até o povo responde ao desafio enviando as suas respostas em versão SMS. O país inteiro discute se a arte é mais importante que a ciência, se a igualdade sacrifica a liberdade ou se uma hipótese científica é demonstrável. Numa palavra, discutem-se os assuntos verdadeiramente importantes. E tudo sem usar calculadora! 

segunda-feira, junho 13

Petit scandale colatéral

Com os pequenos ou médios escândalos que têm os costumes sexuais em pano de fundo, saltam para os jornais os pequenos ou médios escândalos colaterais. Em França, o caso dos rumores sobre um antigo ministro trazidos à cena por outro antigo ministro evoluiu para acusações e recriminações, continuando em alta o escrutínio feito aos deveres profissionais e ao salário de Luc Ferry na Universidade de Paris VII. Ferry não deu aulas neste ano lectivo, mantendo o salário, que acumula com um adicional pelas funções exercidas como presidente do Observatório da Sociedade. Tudo legal, diz Ferry, pois a afectação a funções públicas está prevista e regulada. Não é bem assim, replica Paris VII: a lei de autonomia universitária que entrou em vigor em Setembro de 2010 veio mudar as coisas. O enredo, agora frente ao cenário dos chorudos salários em funções públicas de utilidade misteriosa, presta-se bem a todos os populismos e oportunismos, tanto mais visíveis quanto melhor observarmos as famiglias políticas que defendem e atacam. A moral pode bem ser substituida pela correcção dos procedimentos administrativos e pelas fidelidades ideológicas, se é que ainda há restos de ideologia. Entretanto, no Figaro de hoje, o número de comentários sobre o salário de Ferry já é 3 vezes maior que o número de comentários sobre o caso que originou o rumor.

sexta-feira, junho 10

Weiner show

Terão mudado assim tanto os padrões morais em meia dúzia de anos? A pergunta de William Saletan faz todo o sentido. É verdade que o caso Weiner evoluiu de mal a pior: da tentativa de negação inicial passou-se à exposição da mentira, à confirmação de que o congressista terá enviado pela net fotos da sua nudez a mais de uma mulher, e sabe-se agora que tudo isto se passou ao mesmo tempo que a esposa de Weiner espera um bebé. Pecadilho sem grande relevo, dirão alguns. Menos grave do que as fraquezas de Clinton na sala oval, talvez. Daí que se assista com surpresa à forte demarcação que conhecidas figuras do Partido Democrata estão a fazer em relação a Weiner, com apelos à demissão.

Muitos que começaram por apoiá-lo ficaram irritados depois de se saber que o homem afinal tinha mentido, e julgam que a perda do lugar é bem merecida, mais por ser um mentiroso do que por espalhar na net fotos das suas partes.

Seja como for, parece que a personagem central deste reality show não merece a piedade dos espectadores. Porque, se tivermos paciência para fazer um flash-back até 1991, ficamos a saber que o nosso homem saltou para a política usando métodos desprezíveis, que passaram por ataques caluniosos anónimos aos seus concorrentes e pelo apelo à hostilidade racial.

Para Weiner não vai ser fácil o caminho da demissão. Pela simples razão de que é um político de aviário, que nunca teve uma profissão na vida real e não sabe fazer mais nada.

quarta-feira, junho 8

A reacção do silêncio

É notícia nos jornais e rádios em França, por via de um artigo do Canard Enchaîné: o presidente da Universidade de Paris 7 convoca Luc Ferry hoje mesmo para que se explique. Segundo o artigo, o filósofo e professor está ausente do serviço há meses, continuando a receber o salário bruto de 4.499 euros. (Faz lembrar aqueles preços que nos anúncios terminam em 9 para parecer que estão longe da centena seguinte.) Quando os adeptos de todos os encobrimentos querem mostrar que ninguém pode lançar pedras, ficamos ao menos a saber quanto recebe um professor universitário em França.

domingo, junho 5

Duas mulheres?

Casaram-se ontem em Nancy e augura-se-lhes um futuro feliz. São duas mulheres lésbicas, dizem elas, uma das quais possivelmente um homem. É fácil perceber: Stéphane gostaria de ser chamada Stéphanie. Afirma aos jornalistas que fez cirurgia para mudar de sexo mas esconde a documentação às autoridades, o que lhe permitiu casar com a jovem Elise dentro da lei desse estado antiquado que ocupa o hexágono para lá dos Pirinéus. Porque quem existe em face da lei é o homem que Stéphane foi. Para lá da publicidade conseguida, a história é fascinante, porque na realidade não temos provas de nada do que as duas dizem. As notícias limitam-se a reproduzir a versão do casal. Stéphane-nie e Elise podem estar, simplesmente, a gozar-nos. Mas a estorieta do homem que se torna mulher porque ama uma mulher que gosta de mulheres é sem dúvida bonita, com ou sem ironia.

quarta-feira, junho 1

Onde de choque

Depois de DSK, houve o caso Tron. Em Espanha, um senador acusado de abuso de menores vai apresentar a demissão. Mas é em França que a discussão se faz ao rubro pela calada. Há dois dias, num programa do Canal+, o ex-ministro Luc Ferry acusou, sem o nomear,  um anterior ministro de actos de pedofilia praticados em Marrocos. A revelação não o é assim tanto: lendo o que se escreveu sobre o caso percebe-se que todos sabem não só quem é o inominado como também da existência dos tais rumores. A imprensa é enviesadamente cautelosa no que escreve, seja fechando as caixas de comentários , seja desinteressando-se da substância dos (alegados) factos e mobilizando-se contra o mensageiro.

terça-feira, maio 31

Desaparecimentos

Isto é uma dúvida que me assalta há muito tempo, mas fiquei a saber que não sou um caso isolado. Por coincidência, recentemente mais de uma pessoa me confidenciou o seu estupor perante o facto. As máquinas de lavar engolerão peúgas? Parece que não é tão incomum, no fim da lavagem, aparecer apenas uma peúga onde devia estar um par. Mas se a máquina se abotoa com uma peúga de vez em quando, não deveria notar-se algum efeito de entupimento? E porquê peúgas, porque não lenços? Ou também os surripia e não notamos porque não vão aos pares? Não tenho resposta mas pelo que tenho vindo a saber trata-se de um mito urbano bem disseminado.

domingo, maio 29

Promoções

Fábio Coentrão é um dos melhores do mundo: é Ronaldo quem o diz. O novo talento português é objecto de uma campanha de venda que poderá render umas dezenas de milhões de euros ao Benfica. Ao lateral esquerdo juntou-se ontem a campanha de um partido português. Desinteressadamente, com certeza: apenas se aproveitou a oportunidade para obter uns autógrafos do craque. O partido exibiu abundantemente a sua simpatia e adesão ao jogador.

Promover as nossas estrelas e escutar o que têm para nos dizer é um caminho justo e compreensível. Já agora, o que não se compreende é por que razão os media silenciam o entusiasmo de Luís Figo pelas energias renováveis. Desde o verão de 2009, nunca mais a sua mensagem passou nos jornais, vá-se lá saber porquê.

Qual é a palavra difícil?


Quando Stephen Sondheim escreveu letras para West Side Story, era natural ouvir uma rapariga bonita e apaixonada dizer que se sentia gay. As palavras tiveram entretanto o seu curso de vida, determinado pelos utilizadores. É curioso como houve o cuidado de reescrever o poema, substituindo o dia pela noite para rimar com outra coisa.

Qualquer pretexto é bom para lembrar as minhas obras primas de estimação, e o WSS é uma delas. Hoje o motivo foi esta sondagem da Gallup: "os americanos estimam, em média, em 25% a percentagem de gays e lésbicas". Mesmo que descontemos a ambiguidade do significado das palavras, o resultado choca com a percepção comum da realidade e com alguns dados empíricos. Eu tenho a certeza de que no espírito dos inquiridos  a palavra "gay" não evocou o estado de alma da Maria do WSS. Conjecturo que anda em pano de fundo causa mais prosaica: uma percentagem razoável de cidadãos não sabe o significado de "percentagem". As fracções são um assunto difícil para o qual as escolas não têm muito tempo. É a matemática, silly people.

segunda-feira, maio 23

Viva Sevilla





Lo traigo andado.
La Macarena y todo
lo traigo andado.

Lo traigo andado;
cara como la tuya
no la he encontrado.

La Macarena y todo
lo traigo andado.

Ay río de Sevilla,
qué bien pareces.
lleno de velas blancas
y ramas verdes.

Federico Garcia Lorca, Canção No.6, "Sevillanas del siglo XVIII", Trece canciones espanolas antiguas.

terça-feira, maio 17

Found in translation

A presunção de inocência é uma atitude civilizada por que vale a pena batermo-nos sempre. Mas dar-lhe valor e acatá-la não implica que abdiquemos das nossas intuições e do simples bom senso de tentar compreender a realidade através das explicações mais simples. Frequentemente, os que gritam "cabala" quando os factos não lhes são agradáveis têm de se contorcer em explicações tão complicadas que acabam, eles, por parecer autores de cabala. Os exemplos são abundantes. Dito isto, e esperando para ver o que dá o recente caso DSK, parece que Bernard-Henry Lévy poderá ter ido longe demais no que escreveu ontem sobre DSK. David O'Hare dá aqui uma "tradução" abreviada* e com algum humor:


DSK is my friend, and I am Bernard-Henri Lévy. How dare these people of no importance treat him as though he has been credibly accused of a violent crime! He has a wife, with whom I, BHL, have dined, at parties with witty and charming Important People, and to speak publicly of any of this is victimizing her. To show my loyalty to this member of my privileged and superb tribe, I am going to make up nonsense about how rooms are cleaned in New York hotels, and assert, in my most magisterial way, that the US criminal justice system has a presumption of guilt. I have been to America, and I know about these things. The idea that a chambermaid is permitted in that vile country to accuse a Man of Great Importance! That a servant is permitted to trip up the great enterprise of my beloved French socialism! That if my seductive, charming, friend DSK, who loves the ladies, especially his own three, has forced himself on women they are supposed to be seen as victims – the nerve!

*não dispensa a leitura do documento original.

(Via um comentário no Harry's Place)

Adenda: Pelo menos [BHL] não mencionou Dreyfus, comenta Maureen Daud no NYT.

domingo, maio 15

A kultura

Se o espectáculo das eleições anteriores não deixou saudades, o das próximas é já insuportável. Já teria sido tempo de o parlamento tomar as iniciativas de mudança para que não fôssemos obrigados à tortura do longo período de caça ao voto (campanha e pré) quando é necessário substituir os representantes dos partidos.

Com abundância de discursos repetitivos, demagogia, mentiras, inépcia política e algumas espertezas, a penosa função convoca como subprodutos uma ou outra questão relativamente interessante, com destaque para o aparente mistério da resiliência do PS, que se apresenta nas sondagens como um dos possíveis vencedores.

Mistério pequeno, sim. Por um lado, as intervenções frouxas ou desastradas do principal adversário na contenda chegam para determinar a opção de muitos votantes pelo mal que já conhecem e que passam a encarar como menor. Mas antes de tudo não se pode ignorar que permeia a atmosfera mental tuguesa uma adesão afectiva, inconsciente, tornada estrutural, aos ideários subscritos por organizações catalogadas como "esquerda", e paralelamente uma rejeição visceral do que é descrito como "direita". Na verdade estas etiquetas obsoletas e inapropriadas funcionam quase como o equivalente da distinção entre o bem e o mal. O engano começa, naturalmente, nas palavras.

É particularmente curiosa a atitude das classes com maior grau de instrução em relação a estas categorias. Na verdade, um sub-sintoma interessante daquele estado mental é a associação que parte apreciável da "inteligentsia" faz entre orientação política e "cultura". Se entre as classes baixa e média-baixa será o receio do "ainda pior" a determinar certa orientação de voto, entre as classes instruídas a simples ideia de ajudar a eleger, digamos, o actual principal adversário do PM, causa alergias e calafrios. Porquê? Porque a "direita" está, aos olhos destes cidadãos, pejada de bimbos desprezíveis. Desde violinos de Chopin até ao lapso na citação de Sartre, passando pelas confusões sobre cantos dos Lusíadas ou sobre More e Mann, os pequeninos incidentes da vida parecem dar-lhes razão. Aquelas pessoas da "direita" são assim mesmo: encenam mal ou não se dão ao trabalho de encenar. Exibem sem pudor o gosto suburbano plasmado nos nomes que dão às vivendas ou nas massamás que habitam. Os "inteligentes" (isto é, os que entre linhas lêem) desprezam-nos por isso. Com o vício de serem sempre avaliados pelos "pares", irrompe neles urticária só de pensarem em dar apoio a tão desprezível gente, com a qual não se misturariam.

Quantos dos que se riram do Santana, no entanto, estariam informados sobre o catálogo das obras de Chopin? E porquê parar em Chopin, ou nos Lusíadas? Porque não recuar a Ockeghem, ou ir até Szymanowski, aos trios com piano de Shostakovich, à Recherche? Quantos dos que escarneceram por procuração estariam em condições de fazer o comentário apropriado sem teleponto?

É certo que não há deslizes destes, pelo menos tão notórios, entre os notáveis de "esquerda". Em primeiro lugar, eles cuidam muito mais da imagem e não brincam em serviço. O actual PM é exímio na pose. Cita Ortega y Gasset, refere Camões e Pessoa com a convicção de quem leu, e pode perfeitamente ter lido. Jorge Sampaio começou pelo Cavaleiro Andante, descobriu as virtudes do Frei Luís de Sousa e leu a Guerra e Paz e o Crime e Castigo, o que é perfeitamente verosímil. De Soares também não se duvida: com certeza leu muito e terá o "bom gosto" nas artes que a "inteligentsia" estima. O modo como se referem a uns e a outros revela que no imaginário dos intelectuais bem pensantes o quadro é mais ou menos assim: em casa de Soares, Sampaio e quiçá Sócrates escuta-se Pergolesi ou Mahler e há sempre um romance ou ensaio no sofá; em casa de PPCoelho ou Cavaco roda no gira-discos alguma música das Doce e na mesa de centro empilham-se as revistas de caras que só lemos com relutância no consultório.

Claro que cultura não é só literatura e música. Guterres sabia de Física e Matemática; Cavaco é professor de Economia. Tudo sopesado, que vantagens podemos aduzir de termos eleito tais pessoas? Tivemos mais sorte com os perfis de cultura mais humanista ou com os perfis mais técnicos? Olhando para o resultado, tivemos azar com todas.

Suspeito que a nossa "inteligentsia" pode estar equivocada no simplismo do quadro, como esteve no de outros. Afinal, há quinze anos que ela achava natural, por exemplo, que os universitários portugueses ganhassem tanto ou mais que os seus colegas de alguns países europeus, sem que o país tivesse que se dar à maçada de fabricar os popós e as máquinas de lavar que todo o mundo compra - até nós, a crédito.

Finalmente, de tanta suposta cultura e mesmo sem sair do âmbito restrito dela, não se colhe grande fruto. Há alguma ideia notável nos suporíferos discursos de Sampaio, por exemplo? Há tiradas infelizes, como a do défice para lá da vida (não foi isto que ele disse, não) ou simples truismos inócuos. Recentemente, citou uma frase de Pessoa (citação que Sócrates tem usado repetidamente) para condenação do pessimismo e elevação da auto-estima, como agora se diz. "Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma..." é uma citação inadequada: se estivéssemos a pensar mal de nós mesmos não acharíamos tão natural manter e merecer a vidinha bem acima das posses. Além disso, para apelar à vulgaridade do "pensamento positivo" não precisamos de invocar intelectuais nem poetas: as cartomantes e redactoras de zodíacos fazem-no com mais competência.

Pessoa disse do "escol" que ele se distinguia por ter a capacidade de criticar com ideias próprias, mas que podem não ser fundamentais. "A tragédia mental de Portugal presente é que (...) o nosso escol é estruturalmente provinciano." "O síndroma provinciano compreende, pelo menos (...) o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade(...)" "Os civilizados criam o progresso, (...), a modernidade; por isso não lhes atribuem importância de maior. (...) Quem não produz é que admira a produção." Quantas oportunidades perdidas para fazer umas citações menos redondas.

domingo, maio 8

Champanhe e candelabros

Faleceu no dia 16 de Abril o dono da célebre loja de Rodeo Drive, L.A., que fez fortuna e sucesso a vestir os mais ricos. "A roupa de homem mais cara do mundo" era o slogan. Só se atendia por marcação. O requinte e detalhes de atenção postos no serviço faziam a diferença. É o que conta este artigo do Washington Post, onde se regista também que a prazenteira escolha de pijamas, gravatas e perfumes decorria com a mistura de gozo e langor que o acompanhamento de champanhe servido por mordomos de luvas brancas permite adivinhar. Tudo iluminado por cintilantes candelabros de cristal. Uma ida à loja podia significar compras acima dos 5 milhões. Ocasionalmente, o faro para o negócio permitia-lhe quebrar regras, como quando admitiu um jovem casal que certa manhã rondava a loja, sem visita marcada: ficaram até à noite, gastaram 600 mil dólares, e voltaram no dia seguinte para gastar outros 250 mil.

Bijan Pakzad sempre deixou claro que para ser admitido como seu cliente pelo menos uma de três condições era necessária: ser rico, poderoso ou famoso. Para quem reunisse mais que uma, melhor. Vestiu Obama, Bush (parece que, dos presidentes americanos recentes, só Carter lhe escapou), Putin, Spielberg, Sinatra, Cary Grant, Stevie Wonder, Arnold Schwarzenegger e mais.

Tinha uma opinião bem definida sobre o que é um verdadeiro rico: alguém que bebe muito bom vinho ao jantar e chega à sua empresa de helicóptero. No entanto, talvez por tanto conhecer da riqueza comum, disse uma vez que a opulenta prosperidade, essa, só a pode exibir quem tem um amor feliz.

sexta-feira, abril 22

O Holocausto Espanhol


Esta madrugada, por causa do mau tempo, Sevilha não pode exibir os excessos a que costuma entregar-se na véspera de sexta-feira santa. Laranja é o cheiro das ruas de Sevilha, é certo, mas no tempo de páscoa sobrepõem-se-lhe exóticos incensos. Nas lojas sevilhanas de electrónica as montras estão atafulhadas com televisores onde se repete a saída de uma nossa senhora ao som de fanfarras.

Extravagâncias bonitas. Nada como os horrores que se viveram em 1936-39, a que o historiador Paul Preston dedicou dez anos de estudo. O livro sai em breve e já tem nome: O Holocausto Espanhol. Não parece exagero: 50 mil mortos pelos republicanos e mais de 150 mil pelos insurgentes, cada lado exercendo a violência de acordo com padrões próprios e até geograficamente distintos. Violência premeditada e sistemática dos franquistas, com técnicas tenebrosas como o "carro da caveira" e o surgimento de verdadeiros monstros humanos. Abordando tanto o terror revolucionário como a repressão golpista, Preston não poupa Carrillo às responsabilidades por Paracuellos. Campo de experiências de anarquistas, fascistas, comunistas e nazis, da intervenção de Hitler e Mussolini, com referência distante a Estaline e lugar para uma simpatia discreta de Salazar, na guerra acabou por germinar o ovo tenebroso do extermínio preconcebido. Eliminar sin escrúpulos ni vacilación a todos los que no piensen como nosotros, disse o General Mola.

sábado, abril 16


Não fosse a falta de tempo, estaria na próxima semana em Santiago para o festival de músicas contemplativas. A Catedral faz 800 anos.

sexta-feira, abril 15

Cetáceos pop

Foi publicado ontem no Current Biology um artigo sobre o canto das baleias. Os autores referem um fenómeno que consideram de transmissão cultural naquela espécie, referindo como os temas se propagam para leste ao longo do Pacífico Sul, em ondas culturais que por sua vez revolucionam os motivos sonoros.

Os êxitos em voga no momento podem ser escutados na aplicação publicada com este artigo do ABC online.

quinta-feira, abril 14

Uma pista no deserto

De acordo com notícias de ontem, parece ter sido inaugurado o novo aeroporto de Beja com um voo patrocinado por autarquias. Para além deste voo a brincar, não se vislumbram projectos de futuro a sério. O episódio encerra, num simbolismo de estarrecer, a tragédia portuguesa dos anos recentes. A viabilidade prometida era afinal a transformação de uma câmara municipal em empresa de aeronáutica civil. Neste enquadramento compreende-se que até o TGV possa vir a ser rentável: tudo é possível com uma adequada subida de impostos, pelo menos durante algum tempo.

O Santiago desconfia com razão, prometendo voltar ao assunto daqui a um ano.

Há umas fotos bonitas do aeroporto aqui.

quinta-feira, novembro 18

Cada um é o que é

Portugal é diferente da Irlanda, disse ontem Teixeira dos Santos.

Espanha não é Irlanda, nem Grécia, nem Portugal, escreve hoje o EL PAÍS.

É tudo verdade. O problema é que Portugal tem precisamente o problema de ser Portugal, e, mutatis mutandis, o mesmo se dirá de Espanha.

quinta-feira, novembro 11

Insolência

Não há pachorra. Há bocado, na SIC notícias, Vítor Ramalho foi entrevistado a propósito da independência de Angola. Falou dos gloriosos tempos da Casa do Império, que criou condições para a juventude de então tomar consciência do problema colonial. Até aí tudo bem. Depois lamentou que a juventude de agora esteja a leste desse caldo do ambiente da época. Mas porque havia a juventude de agora estar preocupada com isso? Não basta já aos vintes e trintas terem de suportar uma geração de gerontes que se apossou dos empregos para a vida, deixando-lhes em testamento um futuro com trabalho e reforma incerta, mais um saquinho de dívidas para pagar enquanto forem vivos? Teriam ainda de comungar as glórias destes cotas que se estão nas tintas para o fardo que deixam em herança?

domingo, novembro 7

A mim parece-me

O PÚBLICO de ontem revelava que nos meios jurídicos se debate com ardor a constitucionalidade da redução dos salários na função pública. Há até um conhecido causídico a quem parece que não é coisa constitucional e assim o escreveu, a pedido de um grupo de professores, num texto a que se dá o nome de parecer. Parece aos envolvidos na discussão que conflituam o direito ao salário, os princípios da igualdade e da confiança, e o da proibição do retrocesso, com o princípio da urgência e o da necessidade de atenuar o défice. O princípio da igualdade parece espezinhado porque os cortes atingem apenas trabalhadores do estado.

A adesão aos formalismos da lei é também um modo de negar a realidade. A quem estas coisas parecem, qualquer ideia de que não há pagamentos com os cofres vazios deve parecer simplesmente inadmissível, por não ser mencionada nos únicos textos que conhecem de trás para a frente.

O mesmo lapso selectivo afecta as classes altas ou médio-altas da nossa função pública, desagradadas com os cortes que as vão atingir. Nem só o governo e o primeiro ministro têm vivido em estado de recusa da realidade, mentindo a si mesmos e aos outros. Uns minutos de reflexão permitiriam antecipar, pelo menos desde há dois anos, que os salários teriam que descer. Não falo sequer dos salários escandalosos de altos cargos, que excedem os dos salários congéneres em paises mais ricos e com situação económica mais sólida. Basta pensar num exemplo concreto, menos dado a controvérsias, para nos apercebermos da ilusão em que temos vivido: os professores universitários são pagos em Portugal, desde os governos Guterres, ao mesmo nível do que sucede em paises como a França ou a Alemanha. Isto tem sido visto como natural, ao mesmo tempo que se aceita que a generalidade das profissões no sector privado se aguente com vencimentos em proporção com o estado das economias. O voluntarismo estatal quis fazer figura sem fazer as contas. Entretanto, é na Alemanha e na França que se fabricam os popós que nós conduzimos e as máquinas de lavar que adornam as casas que possuimos em excesso.

Choques

Os resultados das eleições primárias nos Estados Unidos incluem por acréscimo um ou outro pequeno choque cultural. Desta vez, dada a atenção que o tema merece dos jornais, falou-se da talvez inesperadamente alta proporção de pessoas homossexuais que votaram republicano. O Washington Post dedica uma coluna ao assunto, com base em resultados de um inquérito à boca das urnas. Depois, Ann Althouse comentou a coluna. Que o caso provoca alguma surpresa, incredulidade, ou até indignação, não há dúvida: basta ler os comentários dos leitores, anexos aos dois artigos. A revelação de que pessoas homossexuais possam ser movidas pelas mesmas preocupações que as outras pode significar a derrocada de uma certa arquitectura do mundo, fabricada em livros e artigos que brotaram da imaginação. A mesma surpresa com que Sarah Palin terá recebido a notícia de que afinal os nossos antepassados não deram grandes passeios ao lado de manadas de dinossauros, nos frondosos bosques de há 6000 anos.

Cleópatra na rádio (II)


Passa agora a segunda parte, na Antena 2 da RDP. Com autoria de Bernardo Sena.

Já não se fazem barcos nem música assim.

sábado, novembro 6

Nomes galaicos



Com os noticiários das rádios espanholas de hoje, veio-me à lembrança o botafumeiro, o esquisito pêndulo forçado da catedral de Santiago de Compostela. Agora é uma curiosidade que dá espectáculo nas missas. No passado terá tido a nobre utilidade de tornar a vida suportável dentro na enorme nave que acolhia monges e peregrinos num mundo sem duche nem bidés. Claro que podiam lavar as partes no Lavacollas, mas dali à catedral muito havia que suar ainda pelos toscos caminhos. Lavacollas é o nome do rio e da povoação que dão nome ao aeroporto de Santiago. Só pronunciável, ainda hoje (sobretudo diante do papa), por graça da evolução morfológica, que disfarçou as ressonâncias originais do rude vocábulo.

segunda-feira, novembro 1

A Presidenta

Este post não tem nada de político. É tão só uma manifestação de surpresa pela irrupção de um vocábulo novo na língua portuguesa, em consequência da eleição de Wilma. Em espanhol já se usava la presidenta, por causa da Cristina, mas é evidentemente um feminino forçado. Nunca ninguém disse la estudianta. Em francês a estrutura da língua distingue président e présidente, como em étudiant. Mas em português, para sermos honestos, devemos então passar também a dizer presidento, mesmo que não haja senhoras a concorrer à próxima eleição (embora haja sempre a possibilidade de vermos ressurgir aquela conhecida militanta de esquerda). E mais: nem só as mulheres têm direito a ter os seus amantos. Os homens quererão amantas, para não dar azo a dichotes. E, como vem aí o natal, não nos esqueçamos de pensar numas prendinhas para os nossos entos e as nossas entas queridas.

domingo, outubro 31

O que diz Tammy

Tammy Bruce escreveu no Guardian sobre a sua condição de homossexual e conservadora. Em resumo, conta que encontra um apoio mais genuino nos ambientes conservadores do que nos meios liberais -- onde, diz ela, a tolerância é uma etiqueta e é exercida por obrigação, valendo exclusivamente para aspectos seleccionados do comportamento ou das convicções.

O que diz Tammy vale o que vale. O que dizem os seus detractores também. São interessantes os comentários.

Cleopatra na rádio



Passou há momentos na rádio a primeira parte de "Cleopatra". É verdade: num dos melhores programas da Antena 2, "Alex North - Um eléctrico chamado desejo", Bernardo Sena deu hoje a escutar a belíssima partitura de Alex North para este filme excessivo, extravagante, expoente de uma época do cinema e do kitch que não rejeita o bom gosto. A música vive, autónoma, na ausência das imagens. O "tema do amor" e o "tema da ambição" libertam-se em toda a sua força no alinhamento radiofónico. Carregam, discretos mas persuasivos, a exuberância das cores e dos movimentos.

Mario Vargas Llosa a propósito do Tea Party

Há uma semana, no EL PAÍS, Mário Vargas Llosa escreveu sobre o significado do Tea Party nas próximas eleições nos Estados Unidos. Aqui ficam as linhas-chave do artigo:

- Em face da evolução a que se assistiu no estado da economia depois da eleição de Obama, neste momento o Tea Party complica mais a vida aos Republicnos que aos Democratas.

- Apesar de infiltrado por extremistas, reaccionários, conspiracionistas e figuras de cariz intelectual deficiente, o movimento teve uma génese espontânea, procurando simbolicamente reerguer a bandeira dos colonos independentistas e tendo conseguido marcar a agenda do acontecer político.

- No cerne deste movimiento "há algo de são, realista, democrático e profundamente libertário. O temor do crescimiento desenfreado do Estado e da burocracia, cujos tentáculos se infiltram cada vez mais na vida privada dos cidadãos, cerceando e asfixiando a sua liberdade e as suas iniciativas; a apropriação por parte do sector público de funções ou serviços que a sociedade civil poderia assumir com mais eficácia e menos desperdício de recursos; a criação de sistemas atraentes de assistência social que só poderão ser financiados com subidas sistemáticas de impostos, o que se traduzirá na queda dos níveis de vida das classes médias e populares."

A necessidade de recuperar a responsabilidade individual, ameaçada de dissolução pela ocupação de todos os espaços de iniciativa e acção por um estado cada vez mais omnipresente nas sociedades contemporâneas, é "um sentimento justo que merece ser incorporado na agenda política, pois denuncia problemas reais que a cultura democrática enfrenta".

Vale a pena ler todo o artigo.

quarta-feira, outubro 27

Tiopental sódico

Tiopental sódico é um derivado de barbitúrico de baixa acção, que induz hipnose e anestesia, mas não analgesia. Provoca hipnose decorridos 30 a 40 segundos a injecção intravenosa.

Tem como indicação a indução de anestesia antes da administração de outros agentes anestésicos. Também é utilizado na fase inicial da execução por injecção letal, antes da administração dos químicos indutores de coma.

Por falta do produto no estado do Arizona, a execução de Jeffrey Landrigan esteve suspensa. As autoridades tinham recorrido a um fornecedor britânico para obtenção do tiopental, e um juiz federal ordenara a suspensão por entender que a droga poderia não satisfazer os requisitos exigidos nos EEUU.
O Supremo Tribunal anulou a suspensão e a execução ocorreu hoje.

O único fornecedor do tiopental aprovado nos EEUU, uma companhia do Illinois, declarou que não concorda com o uso dado ao produto. "Não está indicado para a pena de morte."

domingo, outubro 24

O factor geográfico

Não se trata de superioridade biológica, nem de maior dinamismo cultural, nem de factores religiosos como a presença envolvente do cristianismo. Para Ian Morris, professor em Stanford e cujo livro mais recente tem o título "Why the West Rules", o importante é a geografia. Em voo esquemático, tudo começa com o aquecimento do planeta após a Idade do Gelo, que acabou por favorecer determinadas latitudes e não outras. A abundância de plantas e espécies domesticáveis favoreceu as zonas onde viriam brotar as culturas Greco-Romana, Judaica, Indiana e Chinesa. A partir do século XVI, o desenvolvimento da navegação favorece o "Ocidente", por estar mais póximo da América. É no "Ocidente" que a revolução científica e a revolução industrial têm lugar e vão determinar a supremacia e o domínio do mundo. E agora? Tendo as distâncias perdido relevo, o factor geográfico já não é o que era. O caminho está aberto para que China e Índia reassumam a liderança... por razões que já não são as mesmas.

quarta-feira, outubro 20

Estimando os submersos

No dia mundial da Estatística, o presidente do INE de Espanha conta como vão ser incorporados no PIB os sectores da prostituição e do contrabando.

domingo, outubro 17

Da Literatura

Conversa na Catedral será, se não o é já, reconhecido como um dos grandes romances do século XX. Com uma sofisticada arquitectura de texto e um enredo riquíssimo, povoado de personagens dotadas de vozes internas estilisticamente diversificadas, o romance joga com as sucessivas intromissões daquelas na acção, perturbando a cronologia linear e induzindo no leitor expectativa, erro e surpresa.

Se é verdade que a complexidade da narrativa atinge um ponto alto num trecho em que dezoito diálogos distintos se entrecruzam, não há dúvida sobre o papel central assumido pela fala de Don Fermín com Ambrosio, que se insinua logo a poucas páginas do início, seguida de uma outra fala pertencente ao diálogo entre Santiago e Ambrosio, como dois flashbacks cinematográficos sucessivos. Santiago, ou Zavalita, é filho de Don Fermín, empresário Odrista; Ambrosio trabalhara para Fermín como motorista e algo mais. Na cena inicial, Santiago e Ambrosio, que se tinham encontrado por acaso depois de muitos anos, conversavam na “Catedral” com cervejas pela frente.


-¿Lo hiciste por mí? -dijo don Fermín-. ¿Por mí, negro? Pobre infeliz, pobre loco.
-Le juro que no, niño -se ríe Ambrosio-. ¿Se está haciendo la burla de mí?


Fermín dirige-se a Ambrosio; Ambrosio responde a Zavalita. A frase encerra um enigma (as razões do assassinato, por Ambrosio, de uma prostituta, Hortensia, ex-amante de um ministro no governo do ditador Odría) que irromperá repetidamente ao longo do romance e que só perto do final será esclarecido na sua totalidade. As aparições seguintes da frase contêm ou insinuam novas camadas de significado. Na segunda ocorrência Don Fermín já procura inculcar em Ambrosio a motivação do crime que para ele é mais conveniente:

-¿Qué desgracia te pasó en Pucallpa? -dice Santiago.
(…)
-¿Por mí, por mí? -dijo don Fermín-. ¿O lo hiciste por ti, para tenerme en tus manos,
pobre infeliz?


Mais adiante, Don Fermín parece estar a ceder às razões de Ambrosio,

-Está bien, no llores, no te arrodilles, te creo, lo hiciste por mí -dijo don Fermín-. ¿No pensaste que en vez de ayudarme podías hundirme para siempre? ¿Para qué te dio
cabeza Dios, infeliz?


Mas nos flashbacks seguintes volta ao ataque:


-Ya sé por qué lo hiciste, infeliz -dijo don Fermín-. No porque me sacaba plata, no
porque me chantajeaba.
(…)
-Sino por el anónimo que me mandó contándome lo de tu mujer -dijo don Fermín-. No
por vengarme a mí. Por vengarte tú, infeliz.


(… …)
-Creías que te iba a despedir por lo que me enteré del asunto de tu mujer -dijo don
Fermín-. Creíste que haciendo eso me tenías del pescuezo. También tú querías
chantajearme, infeliz.
(… …)
-Basta, basta -dijo don Fermín-. Déjate de llorar. ¿No fue así, no pensaste eso, no lo
hiciste por eso?
(… …)
-Bueno, está bien –dijo don Fermín-. No llores más, infeliz.
(…)
-Bueno, no querías chantajearme sino ayudarme -dijo don Fermín-. Harás lo que yo te
diga, bueno, me obedecerás. Pero basta, ya no llores más.
(…)
-No te desprecio, no te odio -dijo don Fermín-. Está bien, me tienes respeto, lo hiciste
por mí. Para que yo no sufriera, bueno. No eres un infeliz, está bien.
(…)
-Está bien, está bien -repetía don Fermín.


(… …)



-Debiste decírmelo desde el principio -dijo don Fermín-. Tengo una mujer, vamos a
tener un hijo, quiero casarme con ella. Debiste contarme todo, Ambrosio.

Depois, a conversa entre Don Fermín e Ambrosio aparece a entrecortar o diálogo de Ambrosio com Queta, outra prostituta a quem Ambrosio se abre sobre a sua relação com Don Fermín:

-Qué malos ratos habrás pasado. Ambrosio, cómo me habrás odiado -dijo don Fermín-.
Teniendo que disimular así lo de tu mujer, tantos años. ¿Cuántos, Ambrosio?
-Haciéndome sentir una basura, haciéndome sentir no sé qué -gimió Ambrosio,
golpeando la cama con fuerza y Queta se puso de pie de un salto.
-¿Creías que iba a resentirme contigo, pobre infeliz? -dijo don Fermín-. No, Ambrosio. Saca a tu mujer de esa casa, ten tus hijos. Puedes trabajar aquí todo el tiempo que quieras. Y olvídate de Ancón y de todo eso, Ambrosio.



É Queta que faz a chocante revelação do crime aos jornalistas de “La Crónica”, um dos quais Santiago, filho de Don Fermín:

-No veía a Hortensia hacía tres días -sollozó Queta-. Me enteré por los periódicos. Pero
yo sé, no estoy mintiendo.
(…)
-Hortensia sabía muchas cosas de un tipo de plata, ella se estaba muriendo de hambre,
sólo quería irse de aquí -sollozó Queta-. No era por maldad, era para irse y empezar de
nuevo, donde nadie la conociera. Ya estaba medio muerta cuando la mataron. De lo mal que se portó el perro de Bermúdez, de lo mal que se portaron todos cuando la vieron caída.
-Le sacaba plata, y el tipo la mandó matar para que no lo chantajeara más -recitó,
suavemente, Becerrita-. ¿Quién es el tipo que contrató al matón?
-No lo contrató, le hablaría -dijo Queta, mirando a Becerrita a los ojos-. Le hablaría y lo convencería. Lo tenía dominado, era como su esclavo. Hacía lo que quería con él.
-Yo me atrevo, yo lo publico -repitió Becerrita, a media voz-. Qué carajo, yo te creo,
Queta.
(…)- El matón es su cachero. Se llama Ambrosio.
(…)
-Hortensia le sacaba plata, lo amenazaba con su mujer, con contar por calles y plazas la historia de su chofer -rugió Queta-. No es mentira, en vez de pagarle el pasaje a México la mandó matar con su cachero. ¿Lo va a decir, lo va a publicar?

Mais adiante, Santiago comentará que o encontro com um colega poderá tê-lo salvo nesse dia de uma tragédia maior:

Sí, había sido una suerte encontrarlo, una suerte ir a parar a la plaza San Martín y no a la pensión de Barranco, una suerte no ir a llorar la boca contra la almohada en la soledad del cuartito, sintiendo que se había acabado el mundo y pensando en matarte o en matar al pobre viejo, Zavalita.

(…)

E sabemos pela sua voz interior a enormidade do choque:

No en el momento que lo supiste, Zavalita, sino ahí. Piensa: sino en el momento que supe que todo Lima sabía que era marica menos yo. Toda la redacción, Zavalita, menos tú.

É disto que Santiago Zavalita quer que Ambrosio fale, na cena inicial, que decorre muito depois dos acontecimentos que constituem o núcleo da acção. Santiago quer ouvir a confissão do próprio. Ambrosio esquiva-se, ignorando que Santiago já sabe tudo. O leitor não sabe ainda que Santiago sabe.

O 21º



Afinal, apenas dois braços o esperavam.

O pensamento normalizado, ou a ordem dos factores

O El País publica hoje um artigo preocupado com os pregadores radicais islâmicos lá em casa. Dá como exemplos dois imans, ou directores de rezas, um na Catalunha e outro em Madrid. Que dizem eles? Que os muçulmanos devem evitar o contacto com os que não pertencem à sua comunidade. Que as mulheres só podem sair de casa para o funeral do marido. Que as adúlteras devem ser mortas, para que não haja filhos de impuras. Que é uma vergonha tolerar que seis pessoas se envolvam sexualmente, que dois homens se casem ou se permita nudismo nas praias. E tudo isto porquê? Explicam os articulistas: por falta de formação. Só por ignorância aqueles ingénuos misturam religião com práticas extremistas importadas dos países de origem, acabando por confundi-las com ditames sagrados. Imagine-se que alguns até defendem a poligamia -- uma prática alheia ao Islão -- nas suas prédicas.

É, por isso, necessário investir na normalização, eu diria até profissionalização, da figura do iman, que garanta imunidade às tendências radicais. E porquê, já agora? De modo algum porque se entreveja hipotético risco de terrorismo, mas sim porque à medida que estas coisas se vão sabendo a islamofobia cresce e a exclusão social espreita.

Da Galiza a Portugal: viagem impagável

Por incompetência e falta de compreensão do mundo circundante, os tugas empenham-se em eleger sucessivos governos que os levam à penúria, e o país ao caos. Na verdade não têm tido, nem se vislumbram, grandes alternativas. Mas, no meio da mediocridade, os governos recentes do PS possuem o desvalor acrescentado da burrice, nuns casos, ou de uma mistura dela com oportunismo e avareza noutros, na abordagem aos problemas, que em consequência acabam sem solução, ou pior do que estavam, ou na simples perturbação do dia a dia com prejuizos sociais e económicos.

Dois exemplos emblemáticos são suficientes para ilustrar esta apreciação.

A saga da avaliação dos professores, nos anos recentes, terminou com uma cedência em toda a linha. A avaliação era necessária, mas o modo como os tristes iluminados que habitam os gabinetes da 5 de Outubro tentaram conduzi-la foi exactamente o que todos os sindical-oportunistas necessitavam para uma oposição de sucesso.

O caso das SCUTs é mais complexo e espraia-se por um período temporal maior. Começa com a gestação oportunista do conceito e desemboca agora na portagem mais cara e caótica do mundo. Aos preços desincentivadores soma-se a criação de dificuldades ao pagamento. As consequências estão para se ver, mas como de costume ninguém se deve ter dado ao trabalho de aplicar o simples bom senso numa pré-avaliação. Para já, o aeroporto Sá Carneiro e o IKEA de Matosinhos são apenas dois pólos de atracção importantes em relação à Galiza, que podem acabar muito penalizados. Mas todo o comércio do norte vai ser com certeza gravemente afectado. A bem das Estradas de Portugal.

sexta-feira, outubro 8

Quem está de parabéns?


¿Dicen eso? Es magnífico. Me alegro mucho. ¡Ojalá fuera verdad. En efecto, de eso va mi obra, de la resistencia del individuo ante el poder, de la lucha de los hombres por salvar su individualidad en un mundo en el que la libertad está tan acosada. Esa nota expresa muy bien lo que yo pienso.

"Isso" que é? Mario Vargas Llosa refere-se à cautelosa frase com que a Academia Sueca justifica a atribuição do Nobel, transcrita em todos os jornais ontem:

...pela sua cartografia das estruturas do poder e as suas incisivas imagens da resistência individual, da revolta e da derrota.

Digna de uma badana escrita com a competência de quem pesa todas as letras, neste caso talvez para resistir a críticas dos que consideram Llosa um "neocon" imerecedor do prémio que julgavam definitivamente colado ao preconceito que cultivam, a frasezinha não evoca o génio efabulador do premiado. De qualquer modo, a Academia Sueca está de parabéns.

terça-feira, outubro 5

Carboncausto



O filminho chama-se No Pressure. Se o virmos sem ler o que já muito dele se disse, a primeira impressão desorienta. Parece-nos que os religiosos das PGA (perturbações globais antropogénicas - para usar o nome de invenção mais recente) estão a ser tratados e expostos a ridículo como eco-nazis. Mas como a mensagem tem o pendor convencional, não ficam dúvidas sobre o sentido da encenação: fazer ir pelos ares criancinhas e adultos indiferentes ao carbono que nos rodeia é de rebentar a rir para os fanáticos que idealizaram o argumento. A ideia de fundo nada tem de original. Hitler, Mao e outros grandes mestres na demonização de grupos praticamente esgotaram o assunto. Actualmente até Bin Laden acolhe a causa ecológica, sem se aperceber da blasfémia em que resvala: se Alá quer grelhar o planeta, quem se julga ele para o contrariar? A estupidez do activismo actual não poderia produzir senão dejectos como este filme. Quando se é incapaz de distinguir o humor do ridículo, está dado o sinal: a causa é abalada pela qualidade dos aderentes.

Os promotores viram-se obrigados a publicar um pedido de desculpas no Guardian e retiraram o video. Inutilmente, porque novas cópias aparecem. Patrocinadores, como a Sony, distanciaram-se da iniciativa.

A propósito e num tom mais sério: A BBC entrevista Richard Lindzen aqui.

segunda-feira, outubro 4

A saída

Pode o euro sobreviver à crise agravada que aí vem, com a recessão que atingirá os países europeus mais endividados e obrigados a contrair a economia? Talvez, se alguém sair da zona. A Alemanha, por exemplo, deixando os PIIGS entregues à sua sorte. É Joseph Stiglitz (prémio Nobel, ex-conselheiro de Clinton) quem o diz.

domingo, outubro 3

Já sinto o cheiro a mar



I can smell the sea air. Ah, the sea! The blessedest thing that God
created in the seven days. The rest of my
days I’m going to spend on the sea. And when I die I’m going to die
there on the sea, that sea. One day, out on the ocean, I will die. I will
die, with my hand in the hand of some good-looking nice ship’s doctor
with a small blond moustache. And he’ll have a silver watch and he’ll
look at me. And he’ll look at his silver watch and sadly say: “Poor
lady.” I’ll be buried at sea, dropped overboard sewn up in a clean
white shroud.
At the stroke of noon in the blaze
of summer into an ocean as blue as my first love’s eyes.

(Renee Fleming no papel de Blanche, em Um eléctrico chamado desejo, ópera de André Prévin, 1998. Acto III, cena 4.)

Como será que conseguem?

Os brasileiros elegem hoje o Presidente da República, mas não só: antes do código do presidente têm de introduzir o do DEPUTADO ESTADUAL, depois o do DEPUTADO FEDERAL, em seguida o do SENADOR 1, mais o do SENADOR 2, e por fim ainda o do GOVERNADOR. Se fosse cá seriam necessários uns quatro domingos, certamente com diferentes campanhas pelo meio, e as eleições estariam prontas lá para Janeiro do ano que vem.