sábado, fevereiro 13

Asserções

A lei islâmica viola as regras de segurança nos aeroportos, ou é ao contrário, depende de quem diz o quê.

Um ranking de Universidades

Está disponível no site de um laboratório do Consejo Superior de Investigaciones Científicas um ranking das Universidades.

A lista das primeiras universidades portuguesas pela ordem em que surgem no ranking é a seguinte. Entre parênteses está a POSIÇÃO MUNDIAL seguida dos parâmetros SIZE, VISIBILITY, RICH FILES, SCHOLAR, utilizados na construção do ranking.



Universidade do Porto (214 236 301 273 89)


Universidade do Minho (275 331 351 420 84)


Universidade Técnica de Lisboa (323 296 559 218 160)


Universidade de Coimbra (324 281 429 429 158)


Universidade de Lisboa (484 653 631 482 350)


Universidade Nova de Lisboa (501 468 764 440 396)


Universidade de Aveiro (810 526 1,085 850 1,009)


Universidade Católica Portuguesa (858 1,560 480 1,958 1,110)

terça-feira, janeiro 12

Fermat

Há precisamente 345 anos, terminava o tempo de Pierre de Fermat, a quem ficámos a dever, entre outras contribuições de relevo, os fundamentos da optimização, e em cujo trabalho assentou em grande parte o cálculo infinitesimal desenvolvido por Newton.

Com o seu método dos máximos e mínimos, interpretou a lei da refracção da luz, descoberta por Snell, à luz de um problema de mínimo. A elegância do resultado oculta o mistério da suposta intencionalidade da natureza, subjacente à formulação variacional.

Conto de Verão



Terminou neste inverno o tempo de Eric Rohmer. Do que dele vi guardo uma memória particularmente agradável do Conto de Verão: não sei se lhe chame uma obra prima, mas é de certeza uma pequena joia. Não virado para os "grandes dramas" da existência humana, é uma enciclopédia das suaves alegrias e desilusões que compõem a simplicidade aparente dos dias. Dos diálogos perfeitos e da magistral encenação recorda-se o nome do lugar (Dinard) e das pessoas: Gaspard, com uma licenciatura fresca em matemática, a namorada e as outras duas (Lena, Margot, Solène), e ainda uma praia fria e corações por vezes quentes. Por fim, a impossibilidade de escolha que leva Gaspard a optar por comprar um gravador. (De bobines, na época.) Não era happy end nem triste também. Só a vida a rolar.

sábado, janeiro 9

A derrota das palavras

Ontem foi um dia memorável para os que se ocupam da burocracia da educação ao mais alto nível. Palmas para a nova ministra, que surge com imagem de quem negocia com flexibilidade e que no final dá conta do resultado na voz embaladora e arredondada de quem conta um conto. Palmas para aqueles homens que fazem o papel de representantes dos professores, por poderem dizer que a ministra cedeu, permitindo que os "bons" cheguem ao topo da carreira depois de 40 anos de exercício.

Sucesso sem grande custo imediato para uma e outros. Mas sem interesse nenhum para a qualidade do ensino e provavelmente com um impacto marginal para os professores: com o que já se sabe que é a vida nas escolas e com o que mais por aí se poderá arranjar, o fim virá antes do topo, porque poucos vão aguentar os tais 40 anos.

De um ponto de vista mais orwelliano e estruturalista, confirma-se após todo o processo que fica a perder a palavra "Bom". Independentemente de sabermos se a avaliação utilizará critérios adequados para atribuir as classificações, o que é certo é que "Bom" passará a significar "assim-assim", "menos mau", "sofrível". Isso é o que já sucede no âmbito mais restrito da classificação das unidades de investigação (onde, diga-se de passagem, os critérios correspondem a realidades mais nítidas do que no caso da avaliação de professores). Aí toda a gente interiorizou que um centro de investigação "Bom" é apenas uma cruz que a universidade tem de tolerar à espera de dias melhores.

domingo, janeiro 3

AVATAR



Por muito desprezo que tenha pela carga de ideologia vulgar que o impregna e pela pobreza do argumento, por muito que o meu nariz tenha sido massacrado sob o peso dos óculos para 3D, e mesmo apesar de alguma dor de cabeça proveniente da profundidade do campo visual (a única que o filme comporta), seria uma piada fácil e desonesta dizer que este filme em relevo não é relevante. É-o, sem dúvida, porque a sua mensagem chega a muita gente. Chega, em particular, a muitas crianças - as mais indefesas diante deste brinquedo, esta stunning visual experience, como gostam de dizer os críticos.

À saída pensei: Cameron poderia ao menos ter ultrapassado o excessivo convencionalismo se no final tivesse deixado sobreviver o Jake humano e não o avatar, e se o amor de Jake e Neytiri tivesse persistido para lá da fronteira das espécies. Mas um minuto de reflexão mostra que isso seria impossível: poria em dúvida o profundo ódio que o filme destila a tudo o que é humano.

Fico por aqui, porque muito mais interessante do que qualquer coisa que eu pudesse acrescentar é a discussão gerada por yosoyhayek no La Libertad y la Ley.

sábado, janeiro 2

Mensagens de ano novo

As mensagens de ano novo de importantes figuras públicas contêm excrescências deslocadas. Tal como um corpo vivo, um texto tem a capacidade de desenvolver tumores. O Papa e o cardeal patriarca de Lisboa assumem a causa das degraças globais que espreitam e apelam a uma responsabilidade ecológica mais ampla e aprofundada e à salvaguarda do planeta. D. Manuel Clemente, também eco-preocupado, assume uma causa do PCP e declara desejar um mundo menos consumista. Com esta confusão de papeis, só vagas linhas permitem entre-ler a hecatombe que nos aguarda com a dissolução da família, que sai completamente desvalorizada. Assunto nada prioritário a que, de resto, o Presidente também se referiu de raspão.

sexta-feira, janeiro 1

Um conto moral

Depois da Accenture e da Gillette, a empresa de telecomunicações AT&T anuncia também a rescisão do contrato com Tiger Woods.

As empresas certamente não agem por considerações morais, porque não costumam tê-las, mas sim pelos resultados de sondagens sobre a aceitação pública da imagem que querem assumir. Esta história simples exibe dois aspectos interessantes do nosso património cultural que vale a pena notar: um, a elevada consideração que dispensamos ao casamento e ao compromisso monogâmico subjacente; outro, o tabu (surpreendente, sobretudo nos tempos que correm) que consiste em não aceitar que a nossa natureza é proclive à poligamia e à infidelidade.

O que sobra é positivo: que o amor monogâmico e fiel é uma coisa bonita, insusceptível mesmo, na ordem contemporânea das coisas, de troca por bens materiais. Paradoxalmente, é a imagem do amor fiel que tem valor de troca. A tal ponto que talvez quem a compre espere com ela apagar o rasto dos seus pecados e fraquezas, como a colaboração em gravações ilegais de comunicações telefónicas e internet ou a actividade persistente de suborno (lobbying, se preferirmos termos mais suaves). Que as escapadelas de Woods deitem por terra a sua utilidade branqueadora diz tudo sobre a gravidade da traição. Bígamos e devassos, arrepiem caminho enquanto é tempo. Ou então não se casem, se quiserem ser patrocinados por uma qualquer AT&T.

quinta-feira, dezembro 31

Os PIIGS da fringe

O NYTimes de ontem traz um artigo sombrio sobre o que podem esperar alguns "países fracos" da Europa.

At that point, the laggards on the union’s fringe — Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain (the so-called Piigs) — will face even tougher choices to cope with what looks like several more years of stagnant economies, high unemployment and gaping budget deficits.

...on the periphery, the hangover from more than five years of a credit-infused boom shows little sign of diminishing.

Ireland, the first economy to stumble, has taken the most severe fiscal action, cutting public wages sharply. A new Greek government, punished by the rough treatment of bond investors no longer willing to countenance soft promises of reform, is just now promising steep spending cuts. But it is not clear whether the political system in Greece will accept them.

Meanwhile, Spain, to the frustration of many major lenders, seems to be putting off difficult fiscal questions in the hope that its economy will soon recover.

Critics of the euro zone contend that weak governments in the peripheral economies, facing high unemployment and restive voters, will not have the stomach to hold down wages, pensions and public expenditures.

“Are these people serious about reform, or are they just telling people what they want to hear?” asked Edward Hugh, a British-trained macroeconomist who lives in Barcelona and has been critical of Spain’s unwillingness to take difficult economic decisions.


Felizmente que em matéria de reformas e decisões difíceis, podemos estar descansados porque cá em Tugal já se tratou disso tudo. Uf! Espanha que se cuide.

terça-feira, dezembro 29

Professores e ministérios

A nova ministra das normas para as escolas e das carreiras dos professores encontrou-se ontem com os sindicatos deles. Continua a discussão da avaliação e do estatuto da carreira. A impressão com que se fica é que se vão repetir os erros da política do ministério anterior. Sejamos claros: a tarefa de M. Lurdes Rodrigues, que esta ministra "simpática" tem a incumbência de continuar, é a de reduzir a despesa incomportável com os docentes em tempo que, para mais, é de crise. Trata-se então de embrulhar o pacote de medidas numa capa que o possa justificar perante aqueles que votam. A ministra anterior avançou com a divisão da carreira e o processo de avaliação. Ambas são medidas não só razoáveis como necessárias. A maneira como ambas foram postas em prática foi desastrosa. Mostrou (tal como outras medidas - ocorre-me o plano para a Matemática) que M. L. Rodrigues nunca percebeu por onde passa a linha divisória do que há de mau e de bom nas escolas e no sistema de ensino.

Agora o governo abre mão da divisão da carreira, ao mesmo tempo que tenta entupir a progressão nos escalões. Medidas erradíssimas. Ao não admitir duas categorias de professores aceita-se que todos se equivalem potencialmente, como se nas escolas não houvesse necessidade de exercer tarefas com carácter de liderança ou supervisão, que deveriam estar a cargo dos professores mais competentes e experientes. Maior salário e maior responsabilidade seria uma combinação fácil de explicar a todos. A vida seria mais fácil nas escolas se determinado trabalho fosse concentrado nas mãos dos mais responsabilizados para o fazer, em vez de se pôr todos os professores numa roda viva de reuniões e grelhas a preencher. Por outro lado, fazendo depender as progressões de avaliações bianuais, já se antevê um mecanismo pesado e sufocante que vai continuar a ser contestado e a prejudicar, no terreno, o ensino - a única coisa de que ne nunca se fala, certamente, nestas reuniões entre ministras e sindicatos.

segunda-feira, dezembro 28

World crumbling apart



Com o mundo a desmoronar-se à nossa volta, logo escolhemos este momento para nos apaixonarmos, diz Ilse a Rick em Casablanca. O tema do desmoronamento do mundo à volta das pessoas resulta óptimo na boca de personagens do cinema, sobretudo a preto e branco e com vozearia da Gestapo em fundo, como no caso daquela cena. Também pode ser usado com sucesso em textos de badanas: ...retrato de um tempo cruel e de uma sociedade em rotura, onde as personagens não encontram escape do mundo que parece desmoronar-se à sua volta...

Tudo isto tem a sua estética e o seu lugar. Mas o desmoronamento está francamente a mais nas mensagens políticas de Natal no Portugal de 2009:

... em que se celebra esse núcleo essencial na estrutura da nossa sociedade que é a família. Nunca será demais realçar a sua importância na coesão social, necessária ao progresso social que todos desejamos. E é nas épocas em que por vezes julgamos que tudo se desmorona à nossa volta que ganham especial importância os laços de solidariedade, de afectos e de apoio que podemos encontrar na família.

A época podia ser melhor, mas alto lá. Não há bárbaros a caminho das cidades nem cheira a guerra civil. Manuela tem de ser mais crítica com o teor literário das suas mensagens.

Quanto ao resto, está menos mal.

As leituras mais imediatistas dirão que o desmoronamento é uma referência ao fim do mundo, trazido por uns novos casamentos que por aí se anunciam. Mas, embora o texto seja algo críptico, estão lá todas as razões básicas para, pelo contrário, os apoiar. Sim, se estruturação e afecto são tão essenciais na nossa vida, só um coração de pedra poderia querer negá-los a uma parte, mesmo que minoritária, dos cidadãos. E se há quem não queira passar por coração empedernido são as personagens da política. O sentido só pode ser então: tenham calma, que dos escombros da velha família emergirá uma outra, fresquíssima vicejante e universal.

Domingo em Teerão



Ontem gritou-se nas ruas de Teerão "Este é o mês do sangue, Khamenei será derrubado."

sábado, dezembro 26

Utopias fixes


Não sei como ninguém se lembrou disto para tema musical da cimeira de Copenhaga. O clima regulado por decreto. (Musical de Alan Jay Lerner e Frederic Loewe, versão em filme de 1967, Richard Harris e Vanessa Redgrave).

quinta-feira, dezembro 24

quarta-feira, dezembro 23

Estilhaços de minaretes

Os jornais franceses de hoje relatam o episódio que terá ocorrido ontem na reunião dos deputados da maioria, onde se discutiria a proibição do "véu integral". O antigo ministro da justiça Pascal Clément terá dito

no dia em que houver tantos minaretes como catedrais em França, já não será a França

A frase provocou a indignação e a saída da secretária de estado Nora Berra. Clément já tem a folha feita na wikipédia, que não brinca em serviço ("controverse").
Até aqui tudo normal: as atitudes dos europeus face ao Islão, com certeza não por acaso, dão sinal de uma divisão que não é a da brecha partidária tradicional. O que encontro de curioso no relato é o comentário de Nora. Fica em francês que é mais bonito, com sublinhado meu.

Qu’un ancien garde des Sceaux tienne ces propos anti-laïcs dans une enceinte symbole de la République comme l’Assemblée nationale, c’est insupportable ! C’est ça la démocratie ?

A apreciação contém uma contradição insanável. É-se anti-laico por lamentar que as catedrais sejam ultrapassadas em número pelas mesquitas, mas não se é anti-laico por deixar andar até que as mesquitas ultrapassem em número as catedrais.

Coerência

Já chegou há uma semana ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, pela mão de Hafid Ouardiri, uma acção contra o resultado do referendo que determinou na Suiça a proibição da construção de minaretes.

Hafid Ouardiri é um apreciador dos mecanismos legais europeus. Já os usou em 1993 e em 2005 para conseguir a proibição da leitura pública de uma peça de Voltaire.

domingo, dezembro 13

Objectivos da política educativa



Instantes depois de uma reunião estratégica no ministério da educação...
Em www.e-faro.info.

sábado, dezembro 12

Badanas

Sempre me fascinou a literatura de badanas. Por vezes os editores transcreviam, na contra-capa ou nas orelhas dos livros, bocados de textos que iam buscar à crítica literária. Podia ser assim:

...explorando um cosmos inabitado, esta é talvez a sua novela mais ambiciosa... grande entretenimento... Tenho inveja de todos os que ainda não começaram a ler "...", porque os espera o prazer que eu já tive...

Actualmente a tendência vai mais no sentido de fabricar pequenos textos anónimos que constituem a apresentação da obra pelo editor. Possivelmente os profissionais desta mini-literatura frequentaram cursos de escrita criativa. Em certos casos prevalece o tom encomiástico:

Idealizado e concebido com magistral perícia, "..." é um périplo dos temas caros ao autor que, ao mesmo tempo que amplia o universo das suas personagens obsessivas, nos lega o testemunho de um tempo ensombrado pela incerteza e pela tragédia.

Mas por vezes surgem nas contra-capas obras primas que incorporam na perfeição a essência do livro:

"..." aborda os encobrimentos, artifícios e metáforas com que a memória tinge e decalca as camadas de realidade a que chamamos passado. Celebração do hedonismo imaturo de uma adolescência tardia, e ao mesmo tempo perífrase melancólica de uma idade adulta que não chegou a sê-lo, é uma implacável radiografia das ficções que interpomos entre a vida que nos coube e aquela que desejaríamos. Reconstruindo na voz dos narradores um carrossel de recordações ambíguas que habitam o terreno movediço entre o real e a efabulação do que não chegou a cumprir-se, o autor edifica um fresco enternecedor e cruel onde emergem o trágico e o cómico da condição humana. O subtil artifício literário mais não faz do que devolver-nos, em forma de arte, toda a verdade da pulsão amorosa e das paixões arrebatadoras, e o mecanismo da angústia que pode fazer do mundo um lugar inabitável.

Variações sobre um tema com IVA


O director da Europol já falou do assunto e o Telegraph referiu-se-lhe há dias: fraude de uns cinco biliões à volta do comércio das emissões de carbono. Está descrito no video da EUX.tv: uma companhia compra créditos de emissão num país europeu diferente daquele onde tem sede, depois os créditos são exportados e vendidos a intermediários ainda num outro país. Os intermediários cobram IVA mas não devolvem às autoridades fiscais aquele que receberam. Já se fazia com outros bens de consumo. Transformado o CO2 em coisa transaccionável, o crime fica com oportunidade para variar o tema.
(Via Desde el exilio.)

Alta quê?

Que sigla virá a ser usada para o nosso comboio de alta velocidade? Dá que pensar o exemplo de Itália, onde os comboios Frecciarossa demoram, na melhor das hipóteses, 52minutos a percorrer os 138 km entre Milão e Turim. Os preços em 2ª classe, no entanto, excedem o triplo dos do comboio normal, que demora 1:55. Basta consultar os horários na Trenitalia para ver. Não sei se é apenas o efeito das pequenas distâncias. Não sei se um comboio destes deverá chamar-se de alta velocidade ou de alto preço. É claro que nos enormes percursos ao longo da península italiana a poupança em tempo é atraente. Mas já agora seria interessante termos uma perspectiva realista dos tempos de viagem entre cidades projectados para as nossas futuras linhas.