domingo, outubro 17
Da Galiza a Portugal: viagem impagável
Dois exemplos emblemáticos são suficientes para ilustrar esta apreciação.
A saga da avaliação dos professores, nos anos recentes, terminou com uma cedência em toda a linha. A avaliação era necessária, mas o modo como os tristes iluminados que habitam os gabinetes da 5 de Outubro tentaram conduzi-la foi exactamente o que todos os sindical-oportunistas necessitavam para uma oposição de sucesso.
O caso das SCUTs é mais complexo e espraia-se por um período temporal maior. Começa com a gestação oportunista do conceito e desemboca agora na portagem mais cara e caótica do mundo. Aos preços desincentivadores soma-se a criação de dificuldades ao pagamento. As consequências estão para se ver, mas como de costume ninguém se deve ter dado ao trabalho de aplicar o simples bom senso numa pré-avaliação. Para já, o aeroporto Sá Carneiro e o IKEA de Matosinhos são apenas dois pólos de atracção importantes em relação à Galiza, que podem acabar muito penalizados. Mas todo o comércio do norte vai ser com certeza gravemente afectado. A bem das Estradas de Portugal.
sexta-feira, outubro 8
Quem está de parabéns?

¿Dicen eso? Es magnífico. Me alegro mucho. ¡Ojalá fuera verdad. En efecto, de eso va mi obra, de la resistencia del individuo ante el poder, de la lucha de los hombres por salvar su individualidad en un mundo en el que la libertad está tan acosada. Esa nota expresa muy bien lo que yo pienso.
"Isso" que é? Mario Vargas Llosa refere-se à cautelosa frase com que a Academia Sueca justifica a atribuição do Nobel, transcrita em todos os jornais ontem:
...pela sua cartografia das estruturas do poder e as suas incisivas imagens da resistência individual, da revolta e da derrota.
Digna de uma badana escrita com a competência de quem pesa todas as letras, neste caso talvez para resistir a críticas dos que consideram Llosa um "neocon" imerecedor do prémio que julgavam definitivamente colado ao preconceito que cultivam, a frasezinha não evoca o génio efabulador do premiado. De qualquer modo, a Academia Sueca está de parabéns.
terça-feira, outubro 5
Carboncausto
O filminho chama-se No Pressure. Se o virmos sem ler o que já muito dele se disse, a primeira impressão desorienta. Parece-nos que os religiosos das PGA (perturbações globais antropogénicas - para usar o nome de invenção mais recente) estão a ser tratados e expostos a ridículo como eco-nazis. Mas como a mensagem tem o pendor convencional, não ficam dúvidas sobre o sentido da encenação: fazer ir pelos ares criancinhas e adultos indiferentes ao carbono que nos rodeia é de rebentar a rir para os fanáticos que idealizaram o argumento. A ideia de fundo nada tem de original. Hitler, Mao e outros grandes mestres na demonização de grupos praticamente esgotaram o assunto. Actualmente até Bin Laden acolhe a causa ecológica, sem se aperceber da blasfémia em que resvala: se Alá quer grelhar o planeta, quem se julga ele para o contrariar? A estupidez do activismo actual não poderia produzir senão dejectos como este filme. Quando se é incapaz de distinguir o humor do ridículo, está dado o sinal: a causa é abalada pela qualidade dos aderentes.
Os promotores viram-se obrigados a publicar um pedido de desculpas no Guardian e retiraram o video. Inutilmente, porque novas cópias aparecem. Patrocinadores, como a Sony, distanciaram-se da iniciativa.
A propósito e num tom mais sério: A BBC entrevista Richard Lindzen aqui.
segunda-feira, outubro 4
A saída
domingo, outubro 3
Já sinto o cheiro a mar
I can smell the sea air. Ah, the sea! The blessedest thing that God
created in the seven days. The rest of my
days I’m going to spend on the sea. And when I die I’m going to die
there on the sea, that sea. One day, out on the ocean, I will die. I will
die, with my hand in the hand of some good-looking nice ship’s doctor
with a small blond moustache. And he’ll have a silver watch and he’ll
look at me. And he’ll look at his silver watch and sadly say: “Poor
lady.” I’ll be buried at sea, dropped overboard sewn up in a clean
white shroud.
At the stroke of noon in the blaze
of summer into an ocean as blue as my first love’s eyes.
(Renee Fleming no papel de Blanche, em Um eléctrico chamado desejo, ópera de André Prévin, 1998. Acto III, cena 4.)
Como será que conseguem?
domingo, setembro 26
As virtudes

Numa crónica inspirada e bem humorada no PÚBLICO de ontem, Pedro Mexia disseca a translacção de significado sofrida, nos nossos dias, pelos pecados capitais. Algo de semelhante se poderá dizer das virtudes. Estas andarão ainda mais pelos caminhos do esquecimento.
Prudência, na era do hedonismo e do multi-endividamento, é uma ideia hoje reduzida ao uso do preservativo. A Temperança entra em colisão permanente com os nossos "direitos": resta-lhe hoje o papel pífio de barreira ao consumo de gorduras, açúcar, sal e tabaco. A frasezinha de Wilde no Lady Windermere's Fan desferiu sobre a Força machadada de que nunca se haveria de recompôr. A Justiça acomoda-se ao acatamento das decisões formais dos tribunais (quando nos convém).
Isto para já não falar das chamadas teologais. Fé, hoje, é exercer a vulgaridade do "pensamento positivo" e a crença na culpa da nossa espécie por desencadear todas os desastres que as novas igrejas anunciam. Esperança é conceito que só aflora quando alguém diz que o seu clube vai ganhar por 3-1 ou que "desta vez" vamos à final de um europeu ou mundial. Quanto à Caridade, São Paulo bem se enganou, quando previu que no fim dos tempos, não havendo já necessidade de fé nem esperança, permaneceria aquela. Se dela sobram résteas é só para os animaizinhos e os espaços verdes: o nosso semelhante que se desenrasque ou o estado que cuide dele, pois para isso pagamos.
(Na reprodução: Alegoria da Temperança, Luca Giordano, National Gallery.)
domingo, setembro 12
Aniversário: o mistério de Elisa Claps
Brincando, brincando...
sábado, setembro 11
terça-feira, setembro 7
A curiosa tabela
1 - Finland (63%)
2 - Iceland (57%)
2 - Slovakia (57%)
4 - Poland (50%)
5 - New Zealand (48%)
6 - Denmark (47%)
7 - Ireland (46%)
8 - Portugal (45%)
9 - Netherlands (41%)
9 - Norway (41%)
11 - Sweden (40%)
12 - Japan (39%)
13 - United States (37%)
13 - Czech Republic (36%)
15 - United Kingdom (35%)
A estatística não fala da qualidade dos cursos que foram contabilizados. Mas nós queremos lá saber. Afinal o que interessa são os números e não as pessoas (isto é, como saem da universidade). Ou era ao contrário? Não, isso só se aplica noutros contextos.
Os doces trailers silenciosos
O filme pode não ser brilhante, podemos ter a sensação de que o realizador foi filmando a banalidade de umas vidas enquanto o orçamento lhe permitiu, mas temos obrigação moral de proteger esta espécie em extinção: os filmes cujos trailers não nos danificam a audição com fortes percussões entre cada frase. Assim do género:
This is the story of noble warriors...
PAM! PAM!
... known as the keepers of the imortal army...
PAM! PAM! PAM!
...they have sworn to crush all evil...
PAM! PAM! PAM! PAM!
... now they're coming near you... in 3D!
PAM! PAM! PAM! PAM!
PAM! PAM! PAM! PAM!
(pode continuar até 10 pancadas nos tímpanos)
Os exemplos são aos milhares. Não posto nenhum por respeito aos 5 leitores do blogue.
O discurso
O discurso de estado é introduzido no tratado de Lisboa. Nos Estados Unidos, o discurso sobre o estado da União tem normalmente uma audiência de milhões de tele-espectadores. Não sei se aqui as televisões lhe deram algum destaque. As notícias sobre o discurso de hoje focam-se essencialmente num aspecto anedótico: com receio de ver o parlamento vazio e na impossibilidade de contratar figurantes, a Comissão tinha previsto multar os parlamentares faltosos na quantia de 100 €. Uma coima modesta, considerando a maçada em perspectiva. A ideia acabou por não vingar, porque houve ameaças de abandono da sala a meio do discurso e queixas de ataque à liberdade dos parlamentares. Afinal o hemiciclo encheu.
segunda-feira, setembro 6
Ter 25 anos na Ucrânia
domingo, setembro 5
O aceitável é sustentável?
Uma sondagem a inquirir se gostariam que lhes saisse o euromilhões ou se não se importavam de morrer um pouco mais cedo poderia ajudar a formar uma ideia sobre a clarividência das massas.
As mudanças estão a ser conduzidas pelo ministro Woerth: o tal que já tem direito a um "sub-caso" com o seu nome dentro do "caso" Bettencourt, tão grossos são os salpicos que o atingem, com novas revelações todos os dias. Que triste democracia, em que as medidas desagradáveis, que tocam no bolso dos cidadãos, são anunciadas e assumidas por gente sem idoneidade moral.
sábado, setembro 4
Duas mulheres
Entretanto, à superfície, durante uma vigília de apoio aos soterrados, Marta é surpreendida ao ver a fotografia de Yonni no cartaz empunhado por Susana Valenzuela.
Esse é o meu marido! gritou.
Quero lá saber! responde Susana. Estamos apaixonados há cinco anos, vou esperar por ele.
Também eu! tu não és legítima.
Se a história é verdadeira desejo a Yonni que rapidamente possa sentir na pele o amor ou a raiva dos quatro braços que o esperam.
sexta-feira, setembro 3
Conversa em Tabriz

O filho mais velho de Sakineh Mohammadi Ashtiani, agora com 22 anos, fala por telemóvel, de Tabriz, sobre o caso da sua mãe a Bernard-Henry Levi. Garante que a mãe não pode ter tido responsabilidade na morte do pai; que o verdadeiro assassino, Taheri, está em liberdade, porque os filhos de Sakineh se comoveram com as súplicas da filha de três anos de Taheri e o perdoaram; que a mãe foi violada antes da sua recente aparição na tv; que assistiu ao castigo da mãe com 99 chicotadas quando tinha dezasseis anos; que a pressão internacional deveria aumentar e que a Turquia e o Brasil são países-chave; que a execução da mãe pode estar próxima e que o adjunto do poder judicial em Tabriz está a fazer esforços para comutar a pena de lapidação para enforcamento.
quinta-feira, setembro 2
Breaking news
O título exorbita. Quando lemos a notícia, apercebemo-nos de que, embora num contexto novo, se trata de um remake da célebre frase de Laplace em resposta a Napoleão: "Je n'avais pas besoin de cette hypothèse-là". Estava-se mesmo no fim do século 18 e acabava de ser publicada a Mécanique céleste.
Actualização em 4 de Setembro: entretanto, Deus já respondeu a Hawking. (Via The Reference Frame)
terça-feira, agosto 31
Adjectivos
Nestes tempos de homogeneização, por vezes somos tentados a pensar que o mundo é igual em toda a parte e nenhuma deslocação nos causará surpresa. Felizmente não é bem assim. É verdade que os Starbucks e as Zaras são iguais em todas as cidades, que os filmes mainstream aparecem ao mesmo tempo em todas as salas com cheiro a pipoca por esse planeta, mas há espaço para pequenas diferenças que nos afagam a curiosidade. Em Londres, por exemplo, cidade visitadíssima, para além de se poder gozar a frescura dos 19º em agosto, ficamos a saber, enquanto descemos as escadas do metro, quantos parafusos nelas foram usados ou que Sweet Charity é o grande musical em cena. Em Lisboa temos de nos contentar com pensamentos dispersos de Sócrates, Cesário Verde ou filósofos pós-modernos que vêm pouco a propósito da viagem.
Há, pois, teatro. No Apollo da Shaftesbury Avenue revive-se todos os dias às 7:30pm o drama quase perfeito que Miller arquitectou em 1947: All My Sons, uma parábola sobre a responsabilidade, a honra, os afectos que tornam a morte impossível de aceitar ou os que a partir dela desabrocham com indiferença, as armadilhas da vida que podiam fazer o sonho americano resvalar para o pesadelo.
A versão de Howard Davies é uma cerimónia teatral de sobriedade e rigor, entrecortados pelas actuações penetrantes de David Suchet e Zoe Wanamaker. Ela, sobretudo, comunica com o público nos momentos certos até ao arrepio na pele.
É bom lembrar a sinopse: certas coisas não podem acontecer porque Deus não permite, mas acontecem mesmo assim, e um pai é sempre um pai.
Os adjectivos da crítica:
THE TELEGRAPH
stunning production
extraordinary power emotional depth
Zoë Wanamaker is outstanding
THE GUARDIAN
tremendous acting
EVENING STANDARD
poised and poignant (Zoe)
lovely geniality (David)
THE INDEPENDENT
emotionally searching, expertly acted
splendid self-conviction.
superlative (Zoe)
THE SUNDAY TIMES
excellent acting
compelling moral drama, rich characterisation
quarta-feira, agosto 25
Disfarce
Que te meta cuatro goles el 'SuperrequeteBarça' en el Camp Nou es una cosa, por mucho que uno claudique en el túnel de vestuarios, pero que te vengan unos brasileños disfrazados de portugueses y te enseñen, uno por uno, los fundamentos de este deporte, es cosa seria.
Deselegantes, estes consumidores de estrelas portuguesas.
Curiosidades numéricas
Confirma-se: as nossas estatísticas oficiais dão-lhe destaque.
A estatística homóloga do Reino Unido não salienta o mesmo indicador (que também lhe daria vantagem: 1.6 contra 1.1), mas sim a variação relativamente ao trimestre precedente.
Se cá se tivesse feito a mesma opção, o número a aparecer nas primeiras páginas, 0.2, resultaria bem menos inflamatório dos entusiasmos.
O quadro completo está aqui, mostrando que estamos nitidamente à frente da Hungria, da Grécia e da Letónia, mas parecendo aconselhar moderação no optimismo, uma vez que os cortes no orçamento e as medidas de austeridade podem implicar uma desaceleração rápida do impulso inicial.
segunda-feira, agosto 23
Súplicas e sentenças
Enquanto isto, na Arábia Saudita um juiz procura saber junto dos hospitais do reino se é possível danificar, num ponto preciso, a espinal medula de um criminoso em julgamento. O réu terá provocado a paralisia de Abdul-Aziz Al-Mutairi após uma agressão com arma branca. Merece, por isso, ficar também tetraplégico, a menos que Al-Mutairi venha aceitar ser ressarcido em dinheiro.
O Padre Arthur, amigo dos ciganos, veio dizer um pouco mais tarde que apenas pretendia que Deus falasse a Sarkozy. Que lhe falasse ao coração, talvez.
Entretanto, um hospital saudita terá já dado resposta afirmativa ao juiz, não se sabendo embora se se disponibiliza a realizar a implantação da tetraplegia.
Não menos surpreendente, no entanto, é o grau de aprovação que mereceram as orações de Arthur entre os leitores -- presumivelmente laicos, na sua maioria -- que comentam no Liberation, e a desilusão neles provocada pela sua explicação posterior; e a franca adesão à sharia que se pode constatar também nos comentários dos leitores do Daily Mail.
domingo, agosto 22
Pobre Professor Hauser
Uma vida por um lugar no parque
Agora sabemos que tudo pode ser um sintoma de doença. Há três hipóteses sérias, segundo o ABC, todas devidamente descritas e classificadas no DSM-IV short circuiting, impulse control disorder ou borderline personality disorder. Os médicos de família lá nos vão servindo para tratar os problemas da hipertensão, do fígado, da mama ou da próstata, mas o dignóstico e tratamento das doenças da alma, essa críptica zona do corpo que mais escapa ao mundo das evidências, exige a experiência de um psicoterapeuta. Não há nada aqui para sorrir. Podemos por vezes escarnecer dos preciosismos e classificações dos manuais de psiquiatria e do seu possível efeito desculpabilizante, mas, com aqueles nomezinhos ou com outros, as perturbações existem e podem matar.
terça-feira, agosto 17
segunda-feira, agosto 16
Penúria de ricos
O problema não é, obviamente, exclusivamente de Espanha. O aumento do número de pensionistas e os números do desemprego são dados que afectam em maior ou menor medida os países europeus. Problema difícil, mas é impossível ficarmos sem a impressão de que ou não se pensou nele antes ou não se procuram os métodos mais adequados para o resolver.
Der Ring des Nibelungen
O Anel em Bayreuth: a história, uma sinopse e o espectáculo dos aficcionados, tudo contado por Mario Vargas Llosa no El País. Imperdível a crónica deste grande mestre da escrita: Os deuses morrem em Bayreuth.
terça-feira, agosto 10
Os desincentivos a ensinar
A TLEBS é um acto de arrogância de certa classe académica que frivolamente acolhe encomendas de ministérios de educação insensíveis à realidade.
Não é por acaso que, se há uma área da vida onde o risco de estupidificação é notavelmente elevado, essa área é a da educação entendida como "ciência". Felizmente há sempre quem mantenha alguma sanidade intelectual, mas o sistema está feito para eliminar os desvios. A falta de exigência, inadequação e degradação dos programas, em particular, leva a que os professores progressivamente percam a sensibilidade aos conteúdos da sua disciplina e em vez disso os reduzam a formatos burocráticos, susceptíveis de repartir por grelhas.
Imaginemos que um estudante conclui o 2º ciclo de Matemática com bons resultados e pretende fazer carreira no ensino básico ou secundário. Ele irá ter de passar pela máquina trituradora dos cursos de educação, que o farão regressar ao nível da escola primária, onde se debita ideologia e se desincentiva a crítica, onde lhe vão propor metodologias inventadas com grande economia de bom senso. Carreira adiante, terá de sofrer acções de formação onde, com poucas excepções, lhe servirão matérias espúrias ou simplesmente embrutecedoras. Como efeito disuasor é difícil imaginar melhor.
segunda-feira, agosto 9
Um caso bicudo
Ser um cidadão em pleno, ou o melhor que se possa, tomar a seu cargo a própria responsabilidade, os seus deveres e os seus direitos… Isso dá muitíssimo trabalho.
É perseguição, diz Pilar. Por causa da guerra do Iraque. Ou então é Pilar a travar a sua guerra: dívidas e juros de mora transmitem-se aos herdeiros.
A história é simples: Saramago instala-se em Espanha amargado com a conduta de um governo português. Mas o amor pátrio é mais forte e por isso decide pagar os seus impostos em Portugal, apesar de a carga fiscal ser maior. De qualquer maneira o assunto agora é entre administrações fiscais de cá e de lá: entendam-se nos tribunais sobre essa coisa menor da residência fiscal e salvaguarde-se que ninguém é obrigado a uma dupla tributação. Porque não me passa pela cabeça, nem com certeza a ninguém, que Saramago tenha omitido rendimentos. Se se confirma que há dívidas em Espanha, talvez faça sentido que o fisco espanhol reclame do nosso uma transferência. De repente dou por mim a temer pela casinha dos Bicos.
domingo, agosto 8
Um tempo perdido

No PÚBLICO de ontem, José Vieira Mendes lamenta que já não haja cinemas de reprise em Lisboa e tem saudades do Europa e do Paris. Eu também. Entusiasma-se com a recuperação do Europa pela CML e vê aí um futuro radioso para a cultura em Campo de Ourique. Eu tenho dúvidas. O São Jorge também foi "recuperado" mas praticamente não tem programação, como a consulta da página-internet, ou da da própria EGEAC, mostra logo. Claro que há uns "festivais" de vez em quando, alguns menos interessantes do que outros. Mas a realidade é que as pessoas agora, em geral, não querem ver filmes como o faziam nos anos 60 ou 70.
Nesse tempo era normal que as salas organizassem os seus ciclos de reposição, que no verão eram obrigatórios, e permitiam ver ou rever filmes de qualidade. O Europa era uma excelente sala de cinema, dispondo de condições técnicas que infelizmente já não existem em Lisboa: projecção de 70mm, uma qualidade de imagem hoje inexistente nas salas comerciais. Nunca poderemos rever aqui o West Side Story ou a Cleopatra como foram produzidos no seu tempo.
O problema é que agora temos os filmes que queremos enlatados em casa, a poucos metros da cozinha e do frigorífico. Os cinéfilos saudosos não se podem queixar: têm uma Cinematoca com programação estimável e não muito concorrida, num lugar central de Lisboa, servida por metro. Claro que encerra em Agosto: férias são férias e ver cinema é trabalho. Mas que justificação haverá para plantar tocas em todos os bairros? Não estou a ver a malta de Campo de Ourique a curtir entusiasmada na rua Almeida e Sousa.
(Foto: Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian)
sexta-feira, agosto 6
Pânicos gauleses e de todos nós
No Libération o artigo está reservado aos assinantes e o Le Monde não o apresenta na página de acolhimento. Os detalhes podem ler-se, claro, no Figaro.
Mas nem tudo são espinhos no lado da rosa. Lembramo-nos como há um ano atrás andávamos a lavar as mãos e desinfectar objectos com frequência doentia? Dos avisos e saboneteiras que de um momento para o outro inundaram as paredes? Pois. O governo francês está em cheque com a saída, ontem, de notícias sobre o relatório da comissão do Assembleia Nacional que critica fortemente a gestão da epidemia do século que o não foi (a gripe A). Aqui sim, o Libération e o L'Humanité atacam com unhas e dentes. O Libé titula com graça que a lei foi feita pelos laboratórios. A OMS não escapa, como não escapam os peritos técnicos, suspeitos de ligação à indústria. O L'Humanité chega a escrever que a comunidade científica, com as suas predições, mais parecia desejar a propagação do vírus, reflectindo uma espécie de "desejo de pandemia." Curiosamente, uma suspeita que o mesmo sector ideológico rejeita como blasfémia quando levantada sobre os indutores de outros pânicos da moda.
domingo, agosto 1
Agosto 1980

Amanhã será novamente tema de controvérsia em Itália: completar-se-ão 30 anos sobre a tragédia de Bologna. Às 10.25 de 2 de Agosto de 1980 explodiu na sala de espera da estação central uma potentíssima bomba que causaria 85 mortos, quase 200 feridos graves e estragos de grande monta.
Eram anos de chumbo e o terrorismo com origem nos extremos do espectro político estava à solta. No caso de Bologna as suspeitas incidiam sobre a extrema direita e movimentos neo-fascistas. Depois de um longo processo, foram condenados a prisão perpétua dois activistas de direita: Francesca Mambro e Valerio Fioravanti, com uma história confessada de participação em atentados de sangue, mas que sempre negaram a sua implicação no atentado de Bologna. Mais tarde foi também condenado outro neo-fascista, Luigi Cavardini.
Há dez anos, na passagem do 20º aniversário, comentava o primeiro ministro Amato que houvera mentiras, conivências e apoios a nível do Estado. Andreotti punha alguma água na fervura, dizendo que desvios sempre tinham existido, e que era preciso atender a que no aparelho dos serviços secretos dominava a convicção de que uma espécie de guerra santa anti-comunista era necessária e meritória.
No 30º aniversário, enquanto a Associação de Vítimas reclama a desclassificação dos arquivos que podem levar a compreender a dimensão da urdidura, vêm a público elementos de uma nova teoria sobre o atentado, onde surgem o grupo do célebre Carlos "o Chacal" e uma pista palestiniana. É Rosario Priore, ex-juiz de instrução de vários processos mediáticos, que descreve todo um cenário alternativo no livro "Intriga Internacional", de que é co-autor com Giovanni Fasanella. Mas, para Paolo Bolognesi, presidente da Associação de Vítimas, se bem que a continuação das investigações seja bem vinda, a pista alternativa é uma perda de tempo.
sexta-feira, julho 30
Pascal B.

Os nomes das personagens do folhetim tornaram-se bem notórios: Liliane e Françoise, Banier, Patrice de Maistre, Clare Thibout, Eric e Florence Woerth... e salpicos em Sarkozy e Philippe Courroye, Procurador da República de Nanterre e figura próxima do Presidente.
Ontem era o ministro Woerth que cozia em banho-maria, dando uma entrevista de 8 horas à polícia no seu gabinete. Ou, como dizem os jornais, sendo ouvido pela polícia. Do conteúdo pouco se sabe, a não ser que nega tudo o que pode inferir-se com razoável verosimilhança das gravações ilegais feitas à Sra Liliane e seus próximos.
Pascal B. é talvez o nome menos repetido, mas ele é o criador desta novela que deslizou rapidamente de um pequeno drama de costumes para o detonar de um escândalo fiscal e de estado. Irritado com o despedimento de colegas que deram com a língua nos dentes sobre o estado de saúde da Sra Bettencourt, o mordomo Pascal B. começou a servir o chá e o café com gravador incluído. A paciente recolha de diálogos durou um ano e foi transcrita para vários CDs. Por entre o tilintar das colheres de chá nas porcelanas da família, podemos ouvir conversas sobre o destino a dar a uma conta de 65 milhões de euros na Suiça... e muito mais. Digo podemos ouvir porque a divulgação não está limitada a transcrições nos jornais: no site do Mediapart, ligado ao PS, estão clips de audio disponíveis ao público. Tudo ilegal, claro. Por isso Pascal B. também terá o seu processozinho, estando acusado de intromissão na vida privada. Vida privada recheada de vidas públicas, uma maçada.
No poupar está o ganho
sábado, julho 24
Afinal a TVI não é manipulável
sexta-feira, julho 23
Esguicho rectal
A resiliência natural e as aves mortas
Em artigo publicado há cinco dias no Times e aqui transcrito com links e referências, Matt Ridley põe o desastre em perspectiva com acidentes do mesmo género e comenta o provável exagero da cobertura mediática.
The final lesson is that the environmental threats that matter are the slow, continuous ones, not the telegenic sensations like oil spills. BP’s spill is known to have killed just over 1,300 birds so far. Just one wind farm, at Altamont Pass in California, was until recently known to kill perhaps 1,300 birds of prey every year. If BP really wants to kill birds, it should indeed go beyond petroleum and into wind, an industry that kills far more rare birds per joule of energy produced than oil does.
O enigma de Coelho
De facto, não há. O "SNS grátis" é um problema mal posto. Não há, nem haverá. O que há é um SNS falido. A tímida redução de que tem sido objecto é apenas um início. O seu custo incomportável pela dimensão da dívida torná-lo-á, por via das novas medidas que o governo será obrigado a tomar a curto prazo, tendencialmente desmantelável tal como existe. As classes que ainda têm algum guito terão de passar sem férias em Cancun e prescindir dos LCDs panorâmicos, para pagar cuidados médicos e hospitalares. Lamentavelmente, os que nem férias têm (quem sabe se por estarem no desemprego) ficarão também pior servidos. Resultado de políticas de gastar sem fazer as contas.
Quanto ao "ensino público", o trabalho de o desacreditar até ficar de rastos tem vindo a ser exercido meticulosamente por todos os governos recentes, merecendo destaque a "paixão" de Guterres pela educação à la Benavente e o empurrão decisivo para o abismo dado por Lurdes Rodrigues. As universidades não estão esquecidas: com o prestimoso auxílio da Europa e de Bolonha, estão agora afogadas em papelada e burocracia, e pressionadas para conceder o sucesso obrigatório em coisas a que agora se chama licenciaturas.
Tudo isto continuará a sua marcha, com ou sem Coelho e independentemente do texto da Constituição. Sem que o problema premente de como crescer e como tornar viável a economia do país seja tocado. Sem que seja alterada a situação imoral em que uma classe e uma faixa etária se apossaram dos empregos estáveis e decidiram gastar o que não tinham, deixando à geração seguinte o fardo das dívidas, da luta pelo trabalho precário e o aviso de que é melhor precaverem-se para a sobrevivência com uma amostra de reforma depois de trabalharem até aos 70 anos.
As propostas de Coelho são inúteis. Não respondem ao problema principal. O corte nos gastos far-se-á sem elas e mesmo sem Coelho: basta esperar que Sócrates, num dia não muito distante, tenha uma nova revelação de que o mundo voltou a mudar. Talvez até seja obrigado a descobrir que o recurso ao aumento de impostos não altera o caminho para o desastre.
Finalmente, parece que a expressão poética Razões Atendíveis (que a engenharia do nosso direito logo se encarregaria de domesticar) foi lucidamente posta de lado. De facto, mais vale deixá-la livre para título de uma pequena novela, em discreta homenagem a Capote.
quarta-feira, julho 21
Curiosidade
sábado, julho 17
Falta de assunto
No tempo dos CDs começaram a desaparecer-me discos em números alarmantes, e os empréstimos estão longe de explicar tudo. A senhora da limpeza não é suspeita: eu sei bem que estações de rádio ela sintoniza enquanto acaricia suavemente o pó, e não costumam dar Shostakovitch nem Cole Porter. Nem sequer Carl Orff.
Em vez de sonhar com as músicas perdidas, tento agora recuperá-las voltando a comprar os discos. Sinal de bem estar na vida, certamente. Mas nem sempre é fácil: nesta época de consumos rápidos, as reedições não são fáceis de encontrar. Que sorte nada disto ter importância.
terça-feira, julho 13
A fortuna
Primeiro foram as notícias de que era pai. Nos últimos dias o véu tem vindo a ser levantado: já não se fala só de mãe desconhecida, mas também de barriga alugada. O caso não é original mas o mistério reaviva-se: porque é que um homem desejado paga aqueles milhões para ser pai? E como acreditar que era mesmo isso que queria e que o faz sentir feliz, como ele lacónica e formalmente tem anunciado?
Cristiano está a mostrar ao mundo, simplesmente, como a fortuna lhe permite ser afortunado num sentido novo e subversivo. Não é para todos, mas está reservada a um punhado como ele, a possibilidade de separar brutalmente o sexo, como prazer, da função reprodutiva. De gozar as alegrias da paternidade sem ter de suportar por um só momento a alteração que uma gravidez provocaria na imaculada linha de anca da namorada ou amante. O poder do dinheiro vem assim fazer coro com os hábitos da natureza. O desperdício de fluido seminal é tão conspícuo como o pólen na primavera. O casamento de Ronaldo, quando for, não é para procriação coisa nenhuma. Está muito à frente.
sábado, julho 10
96.6, onda em extinção
Em Portugal não há crítica de rádio. As estações debitam playlists ou palavreado, certamente há resultados de audimetria, mas não é claro quem gosta ou deixa de gostar ou por que desígnios algumas emissoras encerram e outras nascem ou se mantêm no ar.
Agora no lugar do RCP ressuscitam as músicas dos anos 60 e 70. Admito que se trate de resposta aos anseios de um nicho de audiência com núcleo forte nos velhotes que nunca mudaram de ideias nem de gosto na vida. Para mim é uma má notícia: O RCP foi uma estação de rádio diferente da cinzenta maioria das outras. Realizou com sucesso o projecto de ser uma rádio de conversa, o que não é coisa menor. A conversa no RCP era pelo menos mediamente interessante, às vezes inteligente e frequentemente bem humorada. O mesmo se pode dizer do comentário em política e economia.
Agora ficaremos, em vez disso, com mais um gira-discos. Em Portugal nunca tivemos uma Radio 4 ou uma France Culture. A conversa ficará a cargo das Antena 2+1 e da TSF, onde a programação com base na palavra oscila quase toda entre o pretensiosismo insuportável e umas intervenções institucionais tão suporíferas como a leitura do Diário da República. E destas não nos livraremos jamais. A nossa factura da electricidade e, talvez, a publicidade, cá estarão para lhes garantir longuíssimas vidas.
quinta-feira, julho 8
Sangre y goooool
Mesmo para um conhecedor do idioma espanhol, a interpretação desta frase não é simples. Nesse grande país de contrários, que talvez exista nos corações até ao próximo domingo, há mais vida para além dos relatos de fútbol. Há as narrativas dos encierros, por exemplo, como os que nos últimos dias animam as festas de San Fermín em Pamplona. Claro que ontem as ruas ficaram desertas às 20.15 de lá, mas antes disso já tinha havido sangre y banderillas. Depois, foi a explosão do grito España! nas calles de muitas cidades, imprecando a Alemanha: ela que engula a crise.
Ontem só um pequeno país, situado na borda da Europa, fazia frente à arrogância do vizinho.
Senhora Transparência

Foi anunciada a formação de uma coligação de governo centro-direita na Eslováquia. Presidido por Iveta Radicova, que prometeu lutar contra a corrupção galopante (que frase original que acabo de escrever) num país onde o anterior chefe do governo tinha afirmado que, a escolher entre dois projectos de igual dimensão e interesse, não hesitaria em optar por aquele que fosse proposto por apoiantes seus. Uma afirmação inócua, afinal: o normal é escolher o projecto dos apoiantes mesmo que ele não tenha interesse nenhum ou seja até nefasto. (Deve haver por aí exemplos mas por acaso não me ocorre nenhum.)
O governo da Senhora Transparência prometeu estabilizar as finanças do país, contrariar o altíssimo desemprego (14%) e avisou na campanha eleitoral que os eslovacos estão a viver acima das suas possibilidades. Mas nem tudo serão rosas - vamos ver se o governo se aguenta, mesmo resistindo, como está também prometido, à legalização da marijuana e à generalização do casamento das pessoas que querem casar.
sexta-feira, julho 2
Survival of the Beautiful
Discutível como é, a proposta de criar leis para defender os menos atraentes é de sucesso duvidoso. Que partidos ou lobbies vão querer assumir a causa de um grupo com o qual ninguém se vai identificar sem relutância? A coisa só pode interessar a quem ganharia com a subida de nível de litigância: os advogados (feios, bem entendido) que aqui encontrariam um nicho de actividade promissor.
Na verdade estas ideias podem reduzir-se a uma operação promocional da autora. Porque há outros números (felizmente, há sempre um estudo que nos dá alívio). Se gordura não é formosura, parece que pelo menos é felicidade, o que já não é mau.
quarta-feira, junho 23
N11

Não são efeitos especiais, é uma espectacular imagem construída a partir de fotos do Hubble à região N11 da Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia já aqui ao lado, onde fervilham estrelas jovens. A agradecer a: NASA, ESA e Jesús Maíz Apellániz (Instituto de Astrofísica de Andalucía). Ver também aqui um video com belíssimo zoom da Via Láctea ao N11.
sábado, junho 19
Literaturas
Cette guerre n'est pas limitée au territoire malheureux de notre pays. Cette guerre n'est pas tranchée par la bataille de France. Cette guerre est une guerre mondiale. Toutes les fautes, tous les retards, toutes les souffrances, n'empêchent pas qu'il y a, dans l'univers, tous les moyens nécessaires pour écraser un jour nos ennemis. Foudroyés aujourd'hui par la force mécanique, nous pourrons vaincre dans l'avenir par une force mécanique supérieure. Le destin du monde est là.
Era um tempo em que o discurso político tinha qualidade literária. E, quem sabe, produzido pelo próprio orador, não por assessores treinados em argumentos para teleponto. Nas Memórias, escreveu de Gaulle, sobre a sua aclamação em 1944:
Je vais donc, ému et tranquille, au milieu de l'exultation indicible de la foule, sous la tempête des voix qui font retentir mon nom, tâchant, à mesure, de poser mes regards sur chaque flot de cette marée afin que la vue de tous ait pu entrer dans mes yeux, élevant et abaissant les bras pour répondre aux acclamations.
Não é Proust mas não desmerece o culto da língua. E sobre Pétain:
Mais, hélas ! les années par-dessous l’enveloppe, avaient rongé son caractère. L’âge le livrait aux manœuvres de gens habiles à se couvrir de sa majestueuse lassitude. La vieillesse est un naufrage. Pour que rien ne nous fût épargné, la vieillesse du maréchal Pétain allait s’identifier avec le naufrage de la France.
De Gaulle acaba por ter, em 2010, uma afinidade com Saramago: por decisão do ministério da educação francês, a sua obra vai ser lida no liceu, nos programas terminais de estudos literários. Os sindicatos e associações de professores já se levantam em protesto, atribuindo à medida intenções de propaganda ideológica, invocando que a qualidade literária do texto não está à altura dos estudos em questão. Alguns vultos das letras contrariam esta visão: é obra de um escritor, sim. Corre uma petição para que se acabe com a confusão entre história e literatura. Muitas personalidades da inteligência francesa vêem ao palco dar as suas opiniões a favor ou contra: há depoimentos para todos os gostos nas páginas do Libération, do Figaro, do Le Parisien.
Os franceses que resolvam a questão. Saudavelmente, não me recordo de alguém entre nós ter posto em causa o estudo do Memorial do Convento nas escolas secundárias. O que para mim é um mistério. Não por qualquer razão ideológica, que estaria condenada ao fracasso perante a cultura, dita progressista, dominante, mas por razões literárias: causa-me um certo estupor que se dê a ler uma obra sofisticada, que recria a organização frásica da língua com um propósito encantatório, hipnotisante, perfeitamente sucedido, à massa de alunos que saem das escolas confundindo à com há e pensando que tomas-te é o passado de um verbo. A idade avançada não tem grandes encantos, mas proporcionou-me a saída da escola a tempo de ler o Memorial só por prazer, sem ter que me preocupar em classificar o narrador como homodiegético ou heterodiegético ou reflectir sobre se o verdadeiro protagonista do romance é o povo trabalhador.
sábado, junho 12
A ineficácia da tortura
Rui Pedro Soares disse ainda na sua intervenção que, no processo, não conheceu qualquer elemento que contrarie a ideia de que o primeiro-ministro falou verdade ao Parlamento quando disse que desconhecia as intenções da PT.
“As semelhanças entre este relatório e os julgamentos da inquisição não são pura coincidência”, rematou o antigo administrador da Portugal Telecom.
Já circulam comentários a insinuar que Rui Pedro Soares não percebe nada de História. Eu, ao contrário, penso que ele sabe-a toda. Estas revelações vêm apenas sublinhar o que já se sabia: que não merecem qualquer credibilidade as declarações obtidas sob tortura. As dele - fragmentárias, tortuosas, testemunhas vivas da presença da polé e do ferro em brasa - são apenas um exemplo.
domingo, junho 6
6 de Junho, 1944

Thousands of Allied troops have begun landing on the beaches of Normandy in northern France at the start of a major offensive against the Germans.
The Prime Minister Winston Churchill has told MPs that Operation Neptune - the codename for the Normandy landings - is proceeding "in a thoroughly satisfactory manner".
He said the landing of airborne troops was "on a scale far larger than anything there has been so far in the world" and had taken place with extremely little loss.
The assault began shortly after midnight under the command of General Bernard Montgomery.
Timing of the Normandy landings was crucial. They were originally scheduled to take place in May - then postponed until June and put off again at the last minute for 24 hours by bad weather.
Upwards of 4,000 ships and several thousand smaller craft crossed the Channel to the northern coast of France.
Enemy reports say the landings took place between the port of Le Havre and the naval base at Cherbourg.
King George VI broadcast a message last night warning of the "supreme test" the Allies faced and he called on the nation to pray for the liberation of Europe.
BBC, 6 de Junho de 1944
O pensamento activista
¿Qué intereses defienden nuestros políticos? ¿Cuántos 11-M u 11-S necesitamos?
Tapial sublinhava então a legitimidade eleitoral do Hamas. Tapial e os que seguem a sua linha de pensamento deveriam explicar porque é que ninguém organiza protestos contra a destruição de casas em Gaza quando é o Hamas que avança com os bulldozers. Certamente atribuem a actual baixa aceitação do Hamas entre a população à ausência de discernimento daqueles selvagens a quem se chama palestinianos e que dão um jeitão como bandeira política.
sábado, junho 5
Duas Sarahs
Parece que alguns dos passageiros do Marmara procuravam o martírio. Colborne não teve oportunidade de se cruzar com nenhum. Pode até ser. Com tanto video que por aí circula, sabe-se lá quais são os encenados, para não falar dos censurados, os que nos escondem. Se ainda aparecer o da recepção inicial aos soldados israelitas a bordo do Marmara, com flores e buffet, não me admiro.
Os danos estão aí. Mas o delicado sistema de alianças e amizades impõe prudência na análise dos factos. No editorial de ontem do NY Times as advertências à Turquia e a Israel esforçam-se por aparecer em doses equilibradas.
quinta-feira, junho 3
Venez comme vous êtes
Os privados investem na sua imagem em face do que sabem que o público alvo aprecia. No fundo, copiam os governos e os partidos. Um banco traveste-se de Ronaldo. Os CTT (que não se sabe o que fazem agora além de venderem uns livros e uns telemóveis tristes) metem-nos volantes nas caixas de correio a informar que nos fornecem produtos amigos do ambiente. Manuais escolares dão um espaço generoso ao alarmismo ecológico, causa simpática a toda a gente boa e simples. O Mc Donald's acaba de lançar em França um anúncio "gay-friendly". Muito previsível: é o filho que esconde do pai a sua orientação, e não o contrário. Qualquer Almodóvar recusaria um argumento agora tão batido.
Que se trata de uma promoção de imagem é claro, já que toda a gente come, independentemente do que aprecia na cama.
Indício de verdadeira tolerância, hoje, será uma pessoa mostrar-se aberta a ir para a mesa com outra qualquer - mesmo alguém que habitualmente frequente os Mc Donald's.
Actualização: há sobre este mesmo anúncio um comentário interessante no Audacious Epigone.
Sitges, 3 de junho
terça-feira, maio 18
Evo e Benedito

O que o Papa tem que aturar. Um solteirão empedernido, que faz da sua irmã Esther a primeira dama do país, que declarou estar casado com a Bolívia porque precisa de ter todo o tempo para se dedicar à pátria, vem recomendar a Benedito XVI o fim do celibato na Igreja. Foi anteontem, no Vaticano, em que Evo teve 25 minutos de tempo de antena.
domingo, maio 16
Da cinzenta literatura
Não sei se sim ou não. Engraçado, no entanto, vindo do responsável de uma vasta equipa que invocou o sistema de revisão pelos pares não só para fazer passar um ponto de vista cada vez mais desacreditado publicamente, como para silenciar e banir do sistema as vozes discordantes.
Mas isto não interessa nada. Simplesmente, levou-me de link em link a conhecer uma faceta de Pachauri que ignorava por completo: o homem dedica-se mesmo à literatura. Publicou no início deste ano o seu primeiro romance, Return to Almora, que as badanas podem descrever assim:
For Sanjay Nath, life is calling. Literally. Haunted by the remembrances of his previous life, spent at Almora, Sanjay starts to long and more to return to his ‘home land.’ The usual mundane progression of life fails to keep him busy, and moved by personal tragedies and futility of human life, he ultimately gives up everything to chase meaning, memories, and peace.
Parece pouco sumarento como resumo, mas procurando encontra-se melhor. O livro tem um cunho autobiográfico e conta a história de Sanjay, um homem com preocupações ambientais e que já em criança surpreendera os pais ao revelar que a sua esposa na encarnação anterior ainda era viva. Narra a entrada na universidade, a perda da virgindade, a "possessão por uma lascívia nunca antes sentida"; mais tarde, o encontro com Shirley MacLaine (a própria) e a atracção incontrolável pelas mamas das alunas na universidade. O Telegraph ofereceu alguns excertos da prosa:
Afterwards she held him close. ‘Sandy, I’ve learned something for the first time today. You are absolutely superb after meditation. Why don’t we make love every time immediately after you have meditated?’
Sanjay saw a shapely dark-skinned girl lying on Vinay’s bed. He was overcome by a lust that he had never known before … He removed his clothes and began to feel Sajni’s body, caressing her voluptuous breasts.
mas desgraçadamente...
the excitement got the better of him, before he could even get started.
He enjoyed the sensation of gently pushing Susan’s shoulders back a few inches, an action that served to lift her breasts even higher (...) He was excited by the sight of her heaving breasts, as she breathed in and out deeply.
Por acaso até consta que o lançamento do livro na Índia teve o patrocínio de grandes empresas a quem o TERI, instituto que Pachauri dirige, tem atribuído prémios e distinções, e também de um Banco que já em 2007 tinha apontado as alterações climáticas como uma das áreas-chave de investimento no futuro e que, compreensivelmente, tem subsidiado estudos de climatologia.
Como humilde espectador sem autoridade para avaliar a literatura sobre o clima, tenho de me limitar às minhas intuições para escolher os pontos de vista que julgo credíveis e formar o meu julgamento pessoal sobre o que se esconde por trás das deixas de quem fala. Também não faço crítica literária e muito menos a partir de meia dúzia de linhas, mas a impressão que fica é que não iria perder tempo a ler uma página sequer do livro. Claro que um cientista não tem que ser um bom escritor de romances, mas Pachauri acaba por sugerir, talvez sem dar conta, por intermédio da sua vida real, um enredo fascinante para um thriller: um bando de magnatas e especuladores aparecem a apoiar a novela de qualidade duvidosa de um escritor medíocre - o leitor não despegará do livro até saber porquê.
sábado, maio 15
sexta-feira, maio 14
quarta-feira, maio 12
O poder das forças exteriores
terça-feira, maio 11
Poderes da fé

A majority of Roman Catholics in the United States are critical of the way Pope Benedict XVI and the Vatican have handled the reports of sexual abuse by priests, but have confidence in the Vatican to make changes to prevent abuse in the future, according to a New York Times/CBS News poll released Tuesday. (NY Times, 4 de Maio.)
Bem sei que hoje em dia toda a gente sabe inglês mas depois de ler o artigo apetece-me fazer uma tradução livre enriquecida:
Apesar de termos dado o nosso melhor para deitar abaixo o Papa Benedito XVI, a maioria dos católicos nos EEUU, tendo embora uma visão crítica do modo como ele e o Vaticano lidaram com as acusações de abuso sexual por padres, mantêm confiança nas instituições da Igreja e não parecem pretender abandoná-la em número significativo.
Assim, 64% dos inquiridos na nossa recente sondagem acham que a Igreja tem tido da parte dos media um tratamento mais duro do que o dado a outras religiões; 79% declaram intenção de manter as contribuições financeiras para a Igreja, 82% não terão as suas práticas religiosas afectadas e lamentavelmente apenas 9% admitem colocar a questão de deixar a Igreja. A liderança do actual papa é vista positivamente por 43% da amostra, sendo 17% os que a vêem com desfavor.
Não fico nada surpreendido com estes resultados. No nosso país assistimos nos anos recentes, na esfera laica da sociedade, a episódios com alguma semelhança (salvaguardadas as diferenças de alcance e dimensão), que não tiveram efeitos visíveis no apoio popular a determinado grupo político.
A imagem do papa, para os católicos, vai buscar os seus fundamentos bem para além do homem circunstancial. Como a adesão a um partido, ideologia ou grupo tem as suas raizes em algo imaterial que transcende a importância dos executantes do momento. Elas dão substância ao "eu" que acredita.* Por isso, renunciar a uma crença poderá doer tanto como perder um bocado de nós. Se é verdade que sem fé não há explicações que cheguem para nada, em presença da fé qualquer explicação é supérflua.
*Coisa que Benedito contraditoriamente finge não compreender, ao declarar em Lisboa que espiritualidade não é do domínio privado.
domingo, maio 9
HI(V)PÓTESES
Mas Charlton terá ido longe demais ao aceitar para publicação, em dois dias apenas, um artigo de Peter Duesberg, professor em Berkeley, o mais célebre negador da relação HIV-SIDA. (Por pressão da comunidade científica, a Elsevier acabou por retirar o artigo do jornal.) O artigo refuta que o HIV tenha sido a causa de morte de milhares de sul-africanos durante a presidência de Mbecki e contesta o efeito dos anti-retrovirais na diminuição da mortalidade dos infectados. Acresce, para opacidade da situação, que o co-autor David Rasnick terá sido responsável por experiências ilegais com a finalidade aparente de promover vitaminas como tratamento alternativo aos ARV.
Em consequência, Duesberg é actualmente objecto de um inquérito da universidade à sua conduta científica. O caso vem descrito no AidsTruth e é interessante observar os negacionistas à defesa e ao ataque, como se vê na longa discussão que se segue ao artigo de Jon Cartwright no Times Higher Education, que publica também o depoimento de Bruce Charlton: a importância de divulgar ideias radicais.
quarta-feira, maio 5
Scajola II
Para compreender esta fala é preciso recordar que o ministro garante ter comprado a casita por 600 000 euros, parecendo não entender nada sobre o preço de um apartamento de luxo com 180 m2 no centro de Roma. Afinal parece admitir agora que uma parcela importante do preço terá sido paga por mão benemérita.
As notícias divulgadas nos últimos dias sobre o pagamento parecem bem fundadas, mas os advogados do construtor envolvido continuam a sustentar que não houve irregularidade.
Os jornais que apoiam o governo começam a tratar o assunto com pinças.
Se a nova lei sobre escutas proposta pelo ministro Alfano estivesse já em vigor ninguém teria sabido nada disto.
sábado, maio 1
Num jornal ou numa TV perto de si
Nas notícias italianas de hoje está em destaque o ministro Claudio Scajola. "Vou em frente e tenho a consciência tranquila". Tem também o apoio e a solidariedade do governo e do primeiro ministro, que lhe terá dito, vai trabalhar descansado que tudo isto é só uma bola de sabão. "Isto" agora é o falatório sobre suspeitas de favorecimento na compra de um apartamento para a filha, com vista para o Coliseu, uma coisa a caminho do milhão de euros. A polícia chegou lá através da investigação de outro caso. O homem, de resto, tem um currículo impressionante. O "episódio" que elejo como preferido é aquele em que convenceu a Alitalia a lançar um voo diário entre Roma e Albenga, sua cidade natal (o voo, que andou sempre de aviões vazios, fechou quase tão depressa como abriu). Os apoiantes incondicionais vêem em tudo isto uma manobra da "sinistra" e desafiam: mas mostrem lá as provas? Os mais prudentes acham que se deve aguardar pelas iniciativas da justiça.
sexta-feira, abril 30
Santissima Trinità
As imagens de uma praça de Lisboa, com foto do Papa ao fundo, no TG5, e a voz-off a lembrar-me que devo mais de 18000 € ao estrangeiro, colocam-me em estado de negação. Talvez seja um pesadelo, mas tarda a hora de acordar.
Concentro-me então numa história de horror a que o alinhamento dá destaque a seguir. Começou há 17 anos e voltou às notícias nas últimas semanas.
No dia 12 de Setembro de 1993, a jovem Elisa Claps foi vista pela última vez no interior da Igreja da Santíssima Trinità em Potenza. Durante anos, nada se soube da rapariga e o padre da Trinità (entretanto falecido) sempre foi pouco colaborante com a investigação.
O corpo de Elisa foi encontrado no tecto da igreja no passado dia 17 de Março, durante obras de restauro. Há um suspeito, Danilo Restivo, e a autópsia revela que Elisa foi esfaqueada, violada e sufocada. O que se passou na manhã de 12 de Setembro continua por explicar.
À porta da Santissima Trinità, coroas de flores recordam Elisa em permanência.
quarta-feira, abril 28
Céus de chumbo
Hoje foi penoso acordar. Nas primeiras páginas dos jornais, desde o local Il Resto del Carlino até ao New York Times, há o nome Portugal. Por agora em subtítulo, mas com tendência perigosamente ascendente. Défices e PECs ameaçam estar connosco para além da vida. Alguém se deve ter enganado na ordem das palavras.
segunda-feira, abril 26
domingo, abril 11
Crash - a realidade
Mas, tal como em inúmeros outros casos a que assistimos frequentemente, os "scripts" (fabricados para o cinema ou para mascarar factos inconvenientes) têm o defeito fatal de serem menos credíveis. À sua artificialidade sobrecarregada de excrescências inúteis, o real contrapõe o engenho onde as peças encaixam naturalmente.
Sabemos que houve três tentativas de aterragem anteriores. Sabemos que Kaczyński não era exactamente um tipo de bom feitio e podemos imaginar a ansiedade da delegação em comparecer na cerimónia. E sabe-se que em Agosto de 2008, outro piloto do avião de Kaczyński foi ameaçado de despedimento quando se recusava a aterrar em Tbilisi durante a guerra entre a Geórgia e a Rússia.
quinta-feira, abril 8
Asteroide na madrugada
O asteroide 2010 GA6 passará na próxima madrugada perto de nós, a uma distância da ordem da órbita lunar. O GA6 mede 22 metros, atingirá a distância mínima da Terra às 00:06 de sexta feira e viaja a 12.14 km/seg.
domingo, abril 4
Em busca das semanas perdidas
Nós temos que acabar com os offshores... agora é os submarinos, já não me lembro o que foi a semana passada, há duas semanas ainda menos... uma boa parte dessas porcarias (...) que a mim pessoalmente me repugnam (...) passam pelos offshores.
Qual é a preocupação? É só deixar passar mais uma semana e João terá esquecido tudo.
sábado, abril 3
Protecção pelos ímpares
Não há outra maneira de ler as coisas: o Le Monde de 1 de Abril dá conta, sem blague, da carta de 400 climatólogos à ministra do ensino superior e da investigação e às cúpulas dos principais organismos públicos ligados à investigação científica. Que preocupa os 400? A exposição pública recente de dois outros cientistas, Claude Allègre (ex-ministro) e Vincent Courtillot, que se têm manifestado no sentido de "denegrir as ciências do clima". Irrita-os particularmente o livro Imposturas Climáticas que Allègre acaba de publicar, e, em menor grau, o livro Nova viagem ao centro da Terra de Courtillot. Os signatários pedem às autoridades que exprimam publicamente "confiança nos seus trabalhos" face aos detractores.
Nous sommes véritablement ulcérés de voir la présentation continuelle et réitérée de données fausses, de graphiques faux. C'est pour nous une situation extraordinaire à laquelle nous ne sommes pas préparés
Ontem, o Le Monde publica uma resposta de Courtillot, que reafirma a essência do que tem vindo a dizer: que o IPCC não é detentor da verdade.
Os 400 afirmam, a certo passo,
Dans tous les cas, la publication de ces affirmations témoigne d’un sentiment d’impunité totale de la part de leurs auteurs,
curioso vocabulário que nos leva a pensar em episódios da história da ciência de há uns séculos atrás.
Não sabemos que atitude vão tomar os órgãos de poder interpelados, mas não será de ânimo leve que irão apoiar os peticionários. Basta lembrarem-se do grande "sucesso" nas recentes eleições locais, para o qual a prometida taxa de carbono pode ter dado uma ajudinha. Há mais olhos abertos à medida que o tempo passa.
Azar de vidente
A notícia veio para os jornais europeus entre 31 de março e 1 de Abril. No Figaro, muitos leitores comentavam que era invenção, só podia. Nem só Ali andou distraído.
A demagogia selectiva
As notícias não são novas, mas dá que pensar, em sentido inverso, que Vara ganhe 1 Belmiro e Rui Pedro 4. Atendendo, claro, às competências, ou ausência delas, que julgamos conhecer, para não falar do trajecto de cada um em direcção ao seu lugar dourado. Louçã, preocupado apenas com o abstracto pecado da rrriqueza, mistura tudo.
E pode intuir-se porque é que parou em Belmiro. O capitalista de cartola é o ícone mais rendoso para a audiência do discurso. Fica-se com curiosidade de saber se Louçã fica muito irritado, por exemplo, com os Obamas ou Belmiros que ganha Cristiano Ronaldo. Ou se nao fala nisso para não indispôr admiradores. E nem quero imaginar o seu desconforto ao constatar que a simples condição de estrela pode justificar um alegado contrato com outro ídolo de massas, com o valor de vários Obama, do qual se sabe, ou se julga saber, por vias tortas. Ou talvez, simplesmente, haja assuntos incómodos de que o líder do Bloco nem queira ouvir falar.
Tiro ao Papa
No meio do ruído, e passando sobre o óbvio de que responsáveis por crimes devem ser punidos segundo a lei, alguns factos igualmente óbvios passam por sê-lo menos. A começar pelo empenho entusiástico na presente campanha da imprensa e meios de informação esquerdizada (isto é, quase todos). O que é inteiramente natural e compreensível, já que aí se espelha o sentir dos eleitorados ocidentais contemporâneos. Basta olhar para países como a Espanha aqui ao lado ou, para lá do oceano, os Estados Unidos, onde estão colocados no poder governos que não escondem a sua hostilidade ao catolicismo. Estamos, como tem sido dito, a assistir ao cumprimento de uma agenda dos ditos meios?
Em parte sim, sendo claro que isso não desculpa ninguém e que os factos são dignos de notícia.
É curioso que se arrume tudo sob a classificação de pedofilia, quando é muito possível que "pederastia" fosse também um termo adequado, dependendo da idade dos molestados. O que, em termos de consequências legais, não é a mesma coisa. O pecado da pedofilia constitui o reduto onde é admissível criticar a homossexualidade de um ponto de vista politicamente correcto. É significativo que organizações de activismo gay venham apelar à punição exemplar dos responsáveis católicos quando, nas horas vagas, pedem o abaixamento da idade de consentimento ou se insurgem contra o consideram condenações excessivas. A questão não é tanto de tiro como de alvo.
Curiosidades estatísticas:
Número de queixas de abuso sexual de crianças nos EEUU, por padres católicos, entre 1950 e 2002: 10667
Número de professores envolvidos em delito de abuso sexual de crianças entre 2001 e 2005 nos EEUU: 2500
