sábado, julho 24
Afinal a TVI não é manipulável
sexta-feira, julho 23
Esguicho rectal
A resiliência natural e as aves mortas
Em artigo publicado há cinco dias no Times e aqui transcrito com links e referências, Matt Ridley põe o desastre em perspectiva com acidentes do mesmo género e comenta o provável exagero da cobertura mediática.
The final lesson is that the environmental threats that matter are the slow, continuous ones, not the telegenic sensations like oil spills. BP’s spill is known to have killed just over 1,300 birds so far. Just one wind farm, at Altamont Pass in California, was until recently known to kill perhaps 1,300 birds of prey every year. If BP really wants to kill birds, it should indeed go beyond petroleum and into wind, an industry that kills far more rare birds per joule of energy produced than oil does.
O enigma de Coelho
De facto, não há. O "SNS grátis" é um problema mal posto. Não há, nem haverá. O que há é um SNS falido. A tímida redução de que tem sido objecto é apenas um início. O seu custo incomportável pela dimensão da dívida torná-lo-á, por via das novas medidas que o governo será obrigado a tomar a curto prazo, tendencialmente desmantelável tal como existe. As classes que ainda têm algum guito terão de passar sem férias em Cancun e prescindir dos LCDs panorâmicos, para pagar cuidados médicos e hospitalares. Lamentavelmente, os que nem férias têm (quem sabe se por estarem no desemprego) ficarão também pior servidos. Resultado de políticas de gastar sem fazer as contas.
Quanto ao "ensino público", o trabalho de o desacreditar até ficar de rastos tem vindo a ser exercido meticulosamente por todos os governos recentes, merecendo destaque a "paixão" de Guterres pela educação à la Benavente e o empurrão decisivo para o abismo dado por Lurdes Rodrigues. As universidades não estão esquecidas: com o prestimoso auxílio da Europa e de Bolonha, estão agora afogadas em papelada e burocracia, e pressionadas para conceder o sucesso obrigatório em coisas a que agora se chama licenciaturas.
Tudo isto continuará a sua marcha, com ou sem Coelho e independentemente do texto da Constituição. Sem que o problema premente de como crescer e como tornar viável a economia do país seja tocado. Sem que seja alterada a situação imoral em que uma classe e uma faixa etária se apossaram dos empregos estáveis e decidiram gastar o que não tinham, deixando à geração seguinte o fardo das dívidas, da luta pelo trabalho precário e o aviso de que é melhor precaverem-se para a sobrevivência com uma amostra de reforma depois de trabalharem até aos 70 anos.
As propostas de Coelho são inúteis. Não respondem ao problema principal. O corte nos gastos far-se-á sem elas e mesmo sem Coelho: basta esperar que Sócrates, num dia não muito distante, tenha uma nova revelação de que o mundo voltou a mudar. Talvez até seja obrigado a descobrir que o recurso ao aumento de impostos não altera o caminho para o desastre.
Finalmente, parece que a expressão poética Razões Atendíveis (que a engenharia do nosso direito logo se encarregaria de domesticar) foi lucidamente posta de lado. De facto, mais vale deixá-la livre para título de uma pequena novela, em discreta homenagem a Capote.
quarta-feira, julho 21
Curiosidade
sábado, julho 17
Falta de assunto
No tempo dos CDs começaram a desaparecer-me discos em números alarmantes, e os empréstimos estão longe de explicar tudo. A senhora da limpeza não é suspeita: eu sei bem que estações de rádio ela sintoniza enquanto acaricia suavemente o pó, e não costumam dar Shostakovitch nem Cole Porter. Nem sequer Carl Orff.
Em vez de sonhar com as músicas perdidas, tento agora recuperá-las voltando a comprar os discos. Sinal de bem estar na vida, certamente. Mas nem sempre é fácil: nesta época de consumos rápidos, as reedições não são fáceis de encontrar. Que sorte nada disto ter importância.
terça-feira, julho 13
A fortuna
Primeiro foram as notícias de que era pai. Nos últimos dias o véu tem vindo a ser levantado: já não se fala só de mãe desconhecida, mas também de barriga alugada. O caso não é original mas o mistério reaviva-se: porque é que um homem desejado paga aqueles milhões para ser pai? E como acreditar que era mesmo isso que queria e que o faz sentir feliz, como ele lacónica e formalmente tem anunciado?
Cristiano está a mostrar ao mundo, simplesmente, como a fortuna lhe permite ser afortunado num sentido novo e subversivo. Não é para todos, mas está reservada a um punhado como ele, a possibilidade de separar brutalmente o sexo, como prazer, da função reprodutiva. De gozar as alegrias da paternidade sem ter de suportar por um só momento a alteração que uma gravidez provocaria na imaculada linha de anca da namorada ou amante. O poder do dinheiro vem assim fazer coro com os hábitos da natureza. O desperdício de fluido seminal é tão conspícuo como o pólen na primavera. O casamento de Ronaldo, quando for, não é para procriação coisa nenhuma. Está muito à frente.
sábado, julho 10
96.6, onda em extinção
Em Portugal não há crítica de rádio. As estações debitam playlists ou palavreado, certamente há resultados de audimetria, mas não é claro quem gosta ou deixa de gostar ou por que desígnios algumas emissoras encerram e outras nascem ou se mantêm no ar.
Agora no lugar do RCP ressuscitam as músicas dos anos 60 e 70. Admito que se trate de resposta aos anseios de um nicho de audiência com núcleo forte nos velhotes que nunca mudaram de ideias nem de gosto na vida. Para mim é uma má notícia: O RCP foi uma estação de rádio diferente da cinzenta maioria das outras. Realizou com sucesso o projecto de ser uma rádio de conversa, o que não é coisa menor. A conversa no RCP era pelo menos mediamente interessante, às vezes inteligente e frequentemente bem humorada. O mesmo se pode dizer do comentário em política e economia.
Agora ficaremos, em vez disso, com mais um gira-discos. Em Portugal nunca tivemos uma Radio 4 ou uma France Culture. A conversa ficará a cargo das Antena 2+1 e da TSF, onde a programação com base na palavra oscila quase toda entre o pretensiosismo insuportável e umas intervenções institucionais tão suporíferas como a leitura do Diário da República. E destas não nos livraremos jamais. A nossa factura da electricidade e, talvez, a publicidade, cá estarão para lhes garantir longuíssimas vidas.
quinta-feira, julho 8
Sangre y goooool
Mesmo para um conhecedor do idioma espanhol, a interpretação desta frase não é simples. Nesse grande país de contrários, que talvez exista nos corações até ao próximo domingo, há mais vida para além dos relatos de fútbol. Há as narrativas dos encierros, por exemplo, como os que nos últimos dias animam as festas de San Fermín em Pamplona. Claro que ontem as ruas ficaram desertas às 20.15 de lá, mas antes disso já tinha havido sangre y banderillas. Depois, foi a explosão do grito España! nas calles de muitas cidades, imprecando a Alemanha: ela que engula a crise.
Ontem só um pequeno país, situado na borda da Europa, fazia frente à arrogância do vizinho.
Senhora Transparência

Foi anunciada a formação de uma coligação de governo centro-direita na Eslováquia. Presidido por Iveta Radicova, que prometeu lutar contra a corrupção galopante (que frase original que acabo de escrever) num país onde o anterior chefe do governo tinha afirmado que, a escolher entre dois projectos de igual dimensão e interesse, não hesitaria em optar por aquele que fosse proposto por apoiantes seus. Uma afirmação inócua, afinal: o normal é escolher o projecto dos apoiantes mesmo que ele não tenha interesse nenhum ou seja até nefasto. (Deve haver por aí exemplos mas por acaso não me ocorre nenhum.)
O governo da Senhora Transparência prometeu estabilizar as finanças do país, contrariar o altíssimo desemprego (14%) e avisou na campanha eleitoral que os eslovacos estão a viver acima das suas possibilidades. Mas nem tudo serão rosas - vamos ver se o governo se aguenta, mesmo resistindo, como está também prometido, à legalização da marijuana e à generalização do casamento das pessoas que querem casar.
sexta-feira, julho 2
Survival of the Beautiful
Discutível como é, a proposta de criar leis para defender os menos atraentes é de sucesso duvidoso. Que partidos ou lobbies vão querer assumir a causa de um grupo com o qual ninguém se vai identificar sem relutância? A coisa só pode interessar a quem ganharia com a subida de nível de litigância: os advogados (feios, bem entendido) que aqui encontrariam um nicho de actividade promissor.
Na verdade estas ideias podem reduzir-se a uma operação promocional da autora. Porque há outros números (felizmente, há sempre um estudo que nos dá alívio). Se gordura não é formosura, parece que pelo menos é felicidade, o que já não é mau.
quarta-feira, junho 23
N11

Não são efeitos especiais, é uma espectacular imagem construída a partir de fotos do Hubble à região N11 da Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia já aqui ao lado, onde fervilham estrelas jovens. A agradecer a: NASA, ESA e Jesús Maíz Apellániz (Instituto de Astrofísica de Andalucía). Ver também aqui um video com belíssimo zoom da Via Láctea ao N11.
sábado, junho 19
Literaturas
Cette guerre n'est pas limitée au territoire malheureux de notre pays. Cette guerre n'est pas tranchée par la bataille de France. Cette guerre est une guerre mondiale. Toutes les fautes, tous les retards, toutes les souffrances, n'empêchent pas qu'il y a, dans l'univers, tous les moyens nécessaires pour écraser un jour nos ennemis. Foudroyés aujourd'hui par la force mécanique, nous pourrons vaincre dans l'avenir par une force mécanique supérieure. Le destin du monde est là.
Era um tempo em que o discurso político tinha qualidade literária. E, quem sabe, produzido pelo próprio orador, não por assessores treinados em argumentos para teleponto. Nas Memórias, escreveu de Gaulle, sobre a sua aclamação em 1944:
Je vais donc, ému et tranquille, au milieu de l'exultation indicible de la foule, sous la tempête des voix qui font retentir mon nom, tâchant, à mesure, de poser mes regards sur chaque flot de cette marée afin que la vue de tous ait pu entrer dans mes yeux, élevant et abaissant les bras pour répondre aux acclamations.
Não é Proust mas não desmerece o culto da língua. E sobre Pétain:
Mais, hélas ! les années par-dessous l’enveloppe, avaient rongé son caractère. L’âge le livrait aux manœuvres de gens habiles à se couvrir de sa majestueuse lassitude. La vieillesse est un naufrage. Pour que rien ne nous fût épargné, la vieillesse du maréchal Pétain allait s’identifier avec le naufrage de la France.
De Gaulle acaba por ter, em 2010, uma afinidade com Saramago: por decisão do ministério da educação francês, a sua obra vai ser lida no liceu, nos programas terminais de estudos literários. Os sindicatos e associações de professores já se levantam em protesto, atribuindo à medida intenções de propaganda ideológica, invocando que a qualidade literária do texto não está à altura dos estudos em questão. Alguns vultos das letras contrariam esta visão: é obra de um escritor, sim. Corre uma petição para que se acabe com a confusão entre história e literatura. Muitas personalidades da inteligência francesa vêem ao palco dar as suas opiniões a favor ou contra: há depoimentos para todos os gostos nas páginas do Libération, do Figaro, do Le Parisien.
Os franceses que resolvam a questão. Saudavelmente, não me recordo de alguém entre nós ter posto em causa o estudo do Memorial do Convento nas escolas secundárias. O que para mim é um mistério. Não por qualquer razão ideológica, que estaria condenada ao fracasso perante a cultura, dita progressista, dominante, mas por razões literárias: causa-me um certo estupor que se dê a ler uma obra sofisticada, que recria a organização frásica da língua com um propósito encantatório, hipnotisante, perfeitamente sucedido, à massa de alunos que saem das escolas confundindo à com há e pensando que tomas-te é o passado de um verbo. A idade avançada não tem grandes encantos, mas proporcionou-me a saída da escola a tempo de ler o Memorial só por prazer, sem ter que me preocupar em classificar o narrador como homodiegético ou heterodiegético ou reflectir sobre se o verdadeiro protagonista do romance é o povo trabalhador.
sábado, junho 12
A ineficácia da tortura
Rui Pedro Soares disse ainda na sua intervenção que, no processo, não conheceu qualquer elemento que contrarie a ideia de que o primeiro-ministro falou verdade ao Parlamento quando disse que desconhecia as intenções da PT.
“As semelhanças entre este relatório e os julgamentos da inquisição não são pura coincidência”, rematou o antigo administrador da Portugal Telecom.
Já circulam comentários a insinuar que Rui Pedro Soares não percebe nada de História. Eu, ao contrário, penso que ele sabe-a toda. Estas revelações vêm apenas sublinhar o que já se sabia: que não merecem qualquer credibilidade as declarações obtidas sob tortura. As dele - fragmentárias, tortuosas, testemunhas vivas da presença da polé e do ferro em brasa - são apenas um exemplo.
domingo, junho 6
6 de Junho, 1944

Thousands of Allied troops have begun landing on the beaches of Normandy in northern France at the start of a major offensive against the Germans.
The Prime Minister Winston Churchill has told MPs that Operation Neptune - the codename for the Normandy landings - is proceeding "in a thoroughly satisfactory manner".
He said the landing of airborne troops was "on a scale far larger than anything there has been so far in the world" and had taken place with extremely little loss.
The assault began shortly after midnight under the command of General Bernard Montgomery.
Timing of the Normandy landings was crucial. They were originally scheduled to take place in May - then postponed until June and put off again at the last minute for 24 hours by bad weather.
Upwards of 4,000 ships and several thousand smaller craft crossed the Channel to the northern coast of France.
Enemy reports say the landings took place between the port of Le Havre and the naval base at Cherbourg.
King George VI broadcast a message last night warning of the "supreme test" the Allies faced and he called on the nation to pray for the liberation of Europe.
BBC, 6 de Junho de 1944
O pensamento activista
¿Qué intereses defienden nuestros políticos? ¿Cuántos 11-M u 11-S necesitamos?
Tapial sublinhava então a legitimidade eleitoral do Hamas. Tapial e os que seguem a sua linha de pensamento deveriam explicar porque é que ninguém organiza protestos contra a destruição de casas em Gaza quando é o Hamas que avança com os bulldozers. Certamente atribuem a actual baixa aceitação do Hamas entre a população à ausência de discernimento daqueles selvagens a quem se chama palestinianos e que dão um jeitão como bandeira política.
sábado, junho 5
Duas Sarahs
Parece que alguns dos passageiros do Marmara procuravam o martírio. Colborne não teve oportunidade de se cruzar com nenhum. Pode até ser. Com tanto video que por aí circula, sabe-se lá quais são os encenados, para não falar dos censurados, os que nos escondem. Se ainda aparecer o da recepção inicial aos soldados israelitas a bordo do Marmara, com flores e buffet, não me admiro.
Os danos estão aí. Mas o delicado sistema de alianças e amizades impõe prudência na análise dos factos. No editorial de ontem do NY Times as advertências à Turquia e a Israel esforçam-se por aparecer em doses equilibradas.
quinta-feira, junho 3
Venez comme vous êtes
Os privados investem na sua imagem em face do que sabem que o público alvo aprecia. No fundo, copiam os governos e os partidos. Um banco traveste-se de Ronaldo. Os CTT (que não se sabe o que fazem agora além de venderem uns livros e uns telemóveis tristes) metem-nos volantes nas caixas de correio a informar que nos fornecem produtos amigos do ambiente. Manuais escolares dão um espaço generoso ao alarmismo ecológico, causa simpática a toda a gente boa e simples. O Mc Donald's acaba de lançar em França um anúncio "gay-friendly". Muito previsível: é o filho que esconde do pai a sua orientação, e não o contrário. Qualquer Almodóvar recusaria um argumento agora tão batido.
Que se trata de uma promoção de imagem é claro, já que toda a gente come, independentemente do que aprecia na cama.
Indício de verdadeira tolerância, hoje, será uma pessoa mostrar-se aberta a ir para a mesa com outra qualquer - mesmo alguém que habitualmente frequente os Mc Donald's.
Actualização: há sobre este mesmo anúncio um comentário interessante no Audacious Epigone.
Sitges, 3 de junho
terça-feira, maio 18
Evo e Benedito

O que o Papa tem que aturar. Um solteirão empedernido, que faz da sua irmã Esther a primeira dama do país, que declarou estar casado com a Bolívia porque precisa de ter todo o tempo para se dedicar à pátria, vem recomendar a Benedito XVI o fim do celibato na Igreja. Foi anteontem, no Vaticano, em que Evo teve 25 minutos de tempo de antena.
domingo, maio 16
Da cinzenta literatura
Não sei se sim ou não. Engraçado, no entanto, vindo do responsável de uma vasta equipa que invocou o sistema de revisão pelos pares não só para fazer passar um ponto de vista cada vez mais desacreditado publicamente, como para silenciar e banir do sistema as vozes discordantes.
Mas isto não interessa nada. Simplesmente, levou-me de link em link a conhecer uma faceta de Pachauri que ignorava por completo: o homem dedica-se mesmo à literatura. Publicou no início deste ano o seu primeiro romance, Return to Almora, que as badanas podem descrever assim:
For Sanjay Nath, life is calling. Literally. Haunted by the remembrances of his previous life, spent at Almora, Sanjay starts to long and more to return to his ‘home land.’ The usual mundane progression of life fails to keep him busy, and moved by personal tragedies and futility of human life, he ultimately gives up everything to chase meaning, memories, and peace.
Parece pouco sumarento como resumo, mas procurando encontra-se melhor. O livro tem um cunho autobiográfico e conta a história de Sanjay, um homem com preocupações ambientais e que já em criança surpreendera os pais ao revelar que a sua esposa na encarnação anterior ainda era viva. Narra a entrada na universidade, a perda da virgindade, a "possessão por uma lascívia nunca antes sentida"; mais tarde, o encontro com Shirley MacLaine (a própria) e a atracção incontrolável pelas mamas das alunas na universidade. O Telegraph ofereceu alguns excertos da prosa:
Afterwards she held him close. ‘Sandy, I’ve learned something for the first time today. You are absolutely superb after meditation. Why don’t we make love every time immediately after you have meditated?’
Sanjay saw a shapely dark-skinned girl lying on Vinay’s bed. He was overcome by a lust that he had never known before … He removed his clothes and began to feel Sajni’s body, caressing her voluptuous breasts.
mas desgraçadamente...
the excitement got the better of him, before he could even get started.
He enjoyed the sensation of gently pushing Susan’s shoulders back a few inches, an action that served to lift her breasts even higher (...) He was excited by the sight of her heaving breasts, as she breathed in and out deeply.
Por acaso até consta que o lançamento do livro na Índia teve o patrocínio de grandes empresas a quem o TERI, instituto que Pachauri dirige, tem atribuído prémios e distinções, e também de um Banco que já em 2007 tinha apontado as alterações climáticas como uma das áreas-chave de investimento no futuro e que, compreensivelmente, tem subsidiado estudos de climatologia.
Como humilde espectador sem autoridade para avaliar a literatura sobre o clima, tenho de me limitar às minhas intuições para escolher os pontos de vista que julgo credíveis e formar o meu julgamento pessoal sobre o que se esconde por trás das deixas de quem fala. Também não faço crítica literária e muito menos a partir de meia dúzia de linhas, mas a impressão que fica é que não iria perder tempo a ler uma página sequer do livro. Claro que um cientista não tem que ser um bom escritor de romances, mas Pachauri acaba por sugerir, talvez sem dar conta, por intermédio da sua vida real, um enredo fascinante para um thriller: um bando de magnatas e especuladores aparecem a apoiar a novela de qualidade duvidosa de um escritor medíocre - o leitor não despegará do livro até saber porquê.
sábado, maio 15
sexta-feira, maio 14
quarta-feira, maio 12
O poder das forças exteriores
terça-feira, maio 11
Poderes da fé

A majority of Roman Catholics in the United States are critical of the way Pope Benedict XVI and the Vatican have handled the reports of sexual abuse by priests, but have confidence in the Vatican to make changes to prevent abuse in the future, according to a New York Times/CBS News poll released Tuesday. (NY Times, 4 de Maio.)
Bem sei que hoje em dia toda a gente sabe inglês mas depois de ler o artigo apetece-me fazer uma tradução livre enriquecida:
Apesar de termos dado o nosso melhor para deitar abaixo o Papa Benedito XVI, a maioria dos católicos nos EEUU, tendo embora uma visão crítica do modo como ele e o Vaticano lidaram com as acusações de abuso sexual por padres, mantêm confiança nas instituições da Igreja e não parecem pretender abandoná-la em número significativo.
Assim, 64% dos inquiridos na nossa recente sondagem acham que a Igreja tem tido da parte dos media um tratamento mais duro do que o dado a outras religiões; 79% declaram intenção de manter as contribuições financeiras para a Igreja, 82% não terão as suas práticas religiosas afectadas e lamentavelmente apenas 9% admitem colocar a questão de deixar a Igreja. A liderança do actual papa é vista positivamente por 43% da amostra, sendo 17% os que a vêem com desfavor.
Não fico nada surpreendido com estes resultados. No nosso país assistimos nos anos recentes, na esfera laica da sociedade, a episódios com alguma semelhança (salvaguardadas as diferenças de alcance e dimensão), que não tiveram efeitos visíveis no apoio popular a determinado grupo político.
A imagem do papa, para os católicos, vai buscar os seus fundamentos bem para além do homem circunstancial. Como a adesão a um partido, ideologia ou grupo tem as suas raizes em algo imaterial que transcende a importância dos executantes do momento. Elas dão substância ao "eu" que acredita.* Por isso, renunciar a uma crença poderá doer tanto como perder um bocado de nós. Se é verdade que sem fé não há explicações que cheguem para nada, em presença da fé qualquer explicação é supérflua.
*Coisa que Benedito contraditoriamente finge não compreender, ao declarar em Lisboa que espiritualidade não é do domínio privado.
domingo, maio 9
HI(V)PÓTESES
Mas Charlton terá ido longe demais ao aceitar para publicação, em dois dias apenas, um artigo de Peter Duesberg, professor em Berkeley, o mais célebre negador da relação HIV-SIDA. (Por pressão da comunidade científica, a Elsevier acabou por retirar o artigo do jornal.) O artigo refuta que o HIV tenha sido a causa de morte de milhares de sul-africanos durante a presidência de Mbecki e contesta o efeito dos anti-retrovirais na diminuição da mortalidade dos infectados. Acresce, para opacidade da situação, que o co-autor David Rasnick terá sido responsável por experiências ilegais com a finalidade aparente de promover vitaminas como tratamento alternativo aos ARV.
Em consequência, Duesberg é actualmente objecto de um inquérito da universidade à sua conduta científica. O caso vem descrito no AidsTruth e é interessante observar os negacionistas à defesa e ao ataque, como se vê na longa discussão que se segue ao artigo de Jon Cartwright no Times Higher Education, que publica também o depoimento de Bruce Charlton: a importância de divulgar ideias radicais.
quarta-feira, maio 5
Scajola II
Para compreender esta fala é preciso recordar que o ministro garante ter comprado a casita por 600 000 euros, parecendo não entender nada sobre o preço de um apartamento de luxo com 180 m2 no centro de Roma. Afinal parece admitir agora que uma parcela importante do preço terá sido paga por mão benemérita.
As notícias divulgadas nos últimos dias sobre o pagamento parecem bem fundadas, mas os advogados do construtor envolvido continuam a sustentar que não houve irregularidade.
Os jornais que apoiam o governo começam a tratar o assunto com pinças.
Se a nova lei sobre escutas proposta pelo ministro Alfano estivesse já em vigor ninguém teria sabido nada disto.
sábado, maio 1
Num jornal ou numa TV perto de si
Nas notícias italianas de hoje está em destaque o ministro Claudio Scajola. "Vou em frente e tenho a consciência tranquila". Tem também o apoio e a solidariedade do governo e do primeiro ministro, que lhe terá dito, vai trabalhar descansado que tudo isto é só uma bola de sabão. "Isto" agora é o falatório sobre suspeitas de favorecimento na compra de um apartamento para a filha, com vista para o Coliseu, uma coisa a caminho do milhão de euros. A polícia chegou lá através da investigação de outro caso. O homem, de resto, tem um currículo impressionante. O "episódio" que elejo como preferido é aquele em que convenceu a Alitalia a lançar um voo diário entre Roma e Albenga, sua cidade natal (o voo, que andou sempre de aviões vazios, fechou quase tão depressa como abriu). Os apoiantes incondicionais vêem em tudo isto uma manobra da "sinistra" e desafiam: mas mostrem lá as provas? Os mais prudentes acham que se deve aguardar pelas iniciativas da justiça.
sexta-feira, abril 30
Santissima Trinità
As imagens de uma praça de Lisboa, com foto do Papa ao fundo, no TG5, e a voz-off a lembrar-me que devo mais de 18000 € ao estrangeiro, colocam-me em estado de negação. Talvez seja um pesadelo, mas tarda a hora de acordar.
Concentro-me então numa história de horror a que o alinhamento dá destaque a seguir. Começou há 17 anos e voltou às notícias nas últimas semanas.
No dia 12 de Setembro de 1993, a jovem Elisa Claps foi vista pela última vez no interior da Igreja da Santíssima Trinità em Potenza. Durante anos, nada se soube da rapariga e o padre da Trinità (entretanto falecido) sempre foi pouco colaborante com a investigação.
O corpo de Elisa foi encontrado no tecto da igreja no passado dia 17 de Março, durante obras de restauro. Há um suspeito, Danilo Restivo, e a autópsia revela que Elisa foi esfaqueada, violada e sufocada. O que se passou na manhã de 12 de Setembro continua por explicar.
À porta da Santissima Trinità, coroas de flores recordam Elisa em permanência.
quarta-feira, abril 28
Céus de chumbo
Hoje foi penoso acordar. Nas primeiras páginas dos jornais, desde o local Il Resto del Carlino até ao New York Times, há o nome Portugal. Por agora em subtítulo, mas com tendência perigosamente ascendente. Défices e PECs ameaçam estar connosco para além da vida. Alguém se deve ter enganado na ordem das palavras.
segunda-feira, abril 26
domingo, abril 11
Crash - a realidade
Mas, tal como em inúmeros outros casos a que assistimos frequentemente, os "scripts" (fabricados para o cinema ou para mascarar factos inconvenientes) têm o defeito fatal de serem menos credíveis. À sua artificialidade sobrecarregada de excrescências inúteis, o real contrapõe o engenho onde as peças encaixam naturalmente.
Sabemos que houve três tentativas de aterragem anteriores. Sabemos que Kaczyński não era exactamente um tipo de bom feitio e podemos imaginar a ansiedade da delegação em comparecer na cerimónia. E sabe-se que em Agosto de 2008, outro piloto do avião de Kaczyński foi ameaçado de despedimento quando se recusava a aterrar em Tbilisi durante a guerra entre a Geórgia e a Rússia.
quinta-feira, abril 8
Asteroide na madrugada
O asteroide 2010 GA6 passará na próxima madrugada perto de nós, a uma distância da ordem da órbita lunar. O GA6 mede 22 metros, atingirá a distância mínima da Terra às 00:06 de sexta feira e viaja a 12.14 km/seg.
domingo, abril 4
Em busca das semanas perdidas
Nós temos que acabar com os offshores... agora é os submarinos, já não me lembro o que foi a semana passada, há duas semanas ainda menos... uma boa parte dessas porcarias (...) que a mim pessoalmente me repugnam (...) passam pelos offshores.
Qual é a preocupação? É só deixar passar mais uma semana e João terá esquecido tudo.
sábado, abril 3
Protecção pelos ímpares
Não há outra maneira de ler as coisas: o Le Monde de 1 de Abril dá conta, sem blague, da carta de 400 climatólogos à ministra do ensino superior e da investigação e às cúpulas dos principais organismos públicos ligados à investigação científica. Que preocupa os 400? A exposição pública recente de dois outros cientistas, Claude Allègre (ex-ministro) e Vincent Courtillot, que se têm manifestado no sentido de "denegrir as ciências do clima". Irrita-os particularmente o livro Imposturas Climáticas que Allègre acaba de publicar, e, em menor grau, o livro Nova viagem ao centro da Terra de Courtillot. Os signatários pedem às autoridades que exprimam publicamente "confiança nos seus trabalhos" face aos detractores.
Nous sommes véritablement ulcérés de voir la présentation continuelle et réitérée de données fausses, de graphiques faux. C'est pour nous une situation extraordinaire à laquelle nous ne sommes pas préparés
Ontem, o Le Monde publica uma resposta de Courtillot, que reafirma a essência do que tem vindo a dizer: que o IPCC não é detentor da verdade.
Os 400 afirmam, a certo passo,
Dans tous les cas, la publication de ces affirmations témoigne d’un sentiment d’impunité totale de la part de leurs auteurs,
curioso vocabulário que nos leva a pensar em episódios da história da ciência de há uns séculos atrás.
Não sabemos que atitude vão tomar os órgãos de poder interpelados, mas não será de ânimo leve que irão apoiar os peticionários. Basta lembrarem-se do grande "sucesso" nas recentes eleições locais, para o qual a prometida taxa de carbono pode ter dado uma ajudinha. Há mais olhos abertos à medida que o tempo passa.
Azar de vidente
A notícia veio para os jornais europeus entre 31 de março e 1 de Abril. No Figaro, muitos leitores comentavam que era invenção, só podia. Nem só Ali andou distraído.
A demagogia selectiva
As notícias não são novas, mas dá que pensar, em sentido inverso, que Vara ganhe 1 Belmiro e Rui Pedro 4. Atendendo, claro, às competências, ou ausência delas, que julgamos conhecer, para não falar do trajecto de cada um em direcção ao seu lugar dourado. Louçã, preocupado apenas com o abstracto pecado da rrriqueza, mistura tudo.
E pode intuir-se porque é que parou em Belmiro. O capitalista de cartola é o ícone mais rendoso para a audiência do discurso. Fica-se com curiosidade de saber se Louçã fica muito irritado, por exemplo, com os Obamas ou Belmiros que ganha Cristiano Ronaldo. Ou se nao fala nisso para não indispôr admiradores. E nem quero imaginar o seu desconforto ao constatar que a simples condição de estrela pode justificar um alegado contrato com outro ídolo de massas, com o valor de vários Obama, do qual se sabe, ou se julga saber, por vias tortas. Ou talvez, simplesmente, haja assuntos incómodos de que o líder do Bloco nem queira ouvir falar.
Tiro ao Papa
No meio do ruído, e passando sobre o óbvio de que responsáveis por crimes devem ser punidos segundo a lei, alguns factos igualmente óbvios passam por sê-lo menos. A começar pelo empenho entusiástico na presente campanha da imprensa e meios de informação esquerdizada (isto é, quase todos). O que é inteiramente natural e compreensível, já que aí se espelha o sentir dos eleitorados ocidentais contemporâneos. Basta olhar para países como a Espanha aqui ao lado ou, para lá do oceano, os Estados Unidos, onde estão colocados no poder governos que não escondem a sua hostilidade ao catolicismo. Estamos, como tem sido dito, a assistir ao cumprimento de uma agenda dos ditos meios?
Em parte sim, sendo claro que isso não desculpa ninguém e que os factos são dignos de notícia.
É curioso que se arrume tudo sob a classificação de pedofilia, quando é muito possível que "pederastia" fosse também um termo adequado, dependendo da idade dos molestados. O que, em termos de consequências legais, não é a mesma coisa. O pecado da pedofilia constitui o reduto onde é admissível criticar a homossexualidade de um ponto de vista politicamente correcto. É significativo que organizações de activismo gay venham apelar à punição exemplar dos responsáveis católicos quando, nas horas vagas, pedem o abaixamento da idade de consentimento ou se insurgem contra o consideram condenações excessivas. A questão não é tanto de tiro como de alvo.
Curiosidades estatísticas:
Número de queixas de abuso sexual de crianças nos EEUU, por padres católicos, entre 1950 e 2002: 10667
Número de professores envolvidos em delito de abuso sexual de crianças entre 2001 e 2005 nos EEUU: 2500
segunda-feira, março 29
As palavras em queda
Quanto tempo demorará a chegar às escolas e às universidades a mesma contenção?
domingo, março 28
Neolíngua
Core principles
Sustainable
Output
Outsourced
Overarching
Synergies
Paradigm
Parameter
Democratic legitimacy
Indicators
Partnership
Multidisciplinary
Transparency
Proactive
Social contracts
Value-added
Social exclusion
Subsidiarity
Imagina-se a dificuldade em construir comunicados, relatórios ou discursos sem estas muletas. Tal como, aqui entre nós, em relação a expressões como
investir na qualificação
inserção profissional
conhecimento global
aposta nas novas tecnologias
redes tecnológicas de nova geração
energias renováveis
responder àquilo que são os desafios
reforço da estabilidade política
plataforma programática
reduzir as desigualdades
relançar a economia e promover o emprego
consolidar uma trajectória de crescimento sustentado
investimento público modernizador
linhas prioritárias de alta velocidade
diálogo social estruturado e consequente
rigor no controlo da despesa
As neo-expressões têm um valor inestimável para os seus usuários. Elas constroem significado de duvidoso conteúdo. Menos de metade do auditório descodifica-as, com ou sem aprovação, e os outros ficam consolados porque alguém compreendeu ou julgou compreender.
terça-feira, março 23
Tudo está bem se acabar bem
Parece apesar de tudo que os autores de scripts para filmes ficam limitados a um modelo rígido. Se num filme um acelera ilegal se tornar gay antes de crashar, a censura deixará passar?
Por outro lado a ideia tem potencialidades para ser adaptada ao cinema ocidental contemporâneo. Por exemplo, talvez possamos voltar a ver num filme de Hollywood gajas e gajos que puxam descomplexadamente pelo seu cigarro e dão umas baforadas fotogénicas, desde que no final acabem todos encharcados em Champix. E, nas séries juvenis das tvis, miúdas e miúdos gordos e feios (se é que ainda há - pelo menos na televisão não passam), com a condição de no epílogo serem salvos por uma equipa de nutricionistas e cirurgiões de estética.
Wash, rinse and spin
Enquanto a recessão continua em todo o mundo, são filmes como este que levarão as audiências à empatia com os sem emprego e a compreender a sua condição. Assim se refere Greg Sanderson, da BBC, ao filme de Frederico Teixeira de Sampayo que ganhou o concurso MyWorld do World Service. Demasiado optimista: a suavidade e o esquematismo da metáfora não encaixam na enormidade do drama.
domingo, março 14
Alicia Gámez
Dizia o El País que, segundo os raptores, intitulados Al-Qaeda no Magrebe, a libertação de Alícia (agora irmã Aicha) se deveu ao seu estado de saúde e à sua conversão voluntária ao Islão. Mas o médico que a examinou no dia da libertação encontrou-a bem. O artigo do jornal não faz qualquer comentário sobre a conversão mas ele merece no mínimo dois. Primeiro, depois de cem dias de cativeiro, é tão verosímil uma livre conversão ao Islão como que o terramoto do Haiti seja uma manobra militar dos Estados Unidos. Depois, há esse outro aspecto interessante - e humilhante para Espanha - de o tempo da libertação coincidir com o aniversário do 11 de Março. Para além da mensagem do grupo terrorista ao povo espanhol, é credível num primeiro momento que lhes interessasse assinalar a data. Mas nem tudo joga tão certo. Apesar de não ser reconhecido pelo governo espanhol, fala-se do pagamento de resgate, um punhado de milhões de dólares. E por outro lado o comunicado AlQaedino afirma "Los detenidos en España [na sequência do 11 de Março] acusados de terrorismo, de los que se dice que están vinculados a nosotros, son personas inocentes, que no tienen ninguna relación con nosotros, ni de cerca, ni de lejos". Pelo menos por mera prudência intelectual, temos de conceder um lugar à hipótese de se tratar de um bando delinquente que vive de resgates, restando na esfera do impenetrável se a libertação naquela data foi imposição dos raptores, porque certamente quem paga tenta negociar as melhores condições. A quem interessa, afinal, a bofetada de assinalar o 11 de Março (que o Congreso acaba de tentar apagar, transferindo a homenagem às vítimas de terrorismo para 27 de Junho)? Os mistérios que persistem após o julgamento do 11 de Março são muitos e levam-nos a terreno onde nada é óbvio. Mesmo do lado do PP (supostamente o partido mais prejudicado com o acto e a gestão subsequente do processo) as vozes que polida e discretamente, na net, falam em "verdade jurídica" não explicam porque é que nunca, na assembleia de deputados, levantaram qualquer questão ou pediram algum esclarecimento. A questão do Goma-2 pode ficar para um futuro thriller, provavelmente com dois ou três finais diferentes.
sábado, fevereiro 13
Asserções
Um ranking de Universidades
A lista das primeiras universidades portuguesas pela ordem em que surgem no ranking é a seguinte. Entre parênteses está a POSIÇÃO MUNDIAL seguida dos parâmetros SIZE, VISIBILITY, RICH FILES, SCHOLAR, utilizados na construção do ranking.
Universidade do Porto (214 236 301 273 89)
Universidade do Minho (275 331 351 420 84)
Universidade Técnica de Lisboa (323 296 559 218 160)
Universidade de Coimbra (324 281 429 429 158)
Universidade de Lisboa (484 653 631 482 350)
Universidade Nova de Lisboa (501 468 764 440 396)
Universidade de Aveiro (810 526 1,085 850 1,009)
Universidade Católica Portuguesa (858 1,560 480 1,958 1,110)
terça-feira, janeiro 12
Fermat
Com o seu método dos máximos e mínimos, interpretou a lei da refracção da luz, descoberta por Snell, à luz de um problema de mínimo. A elegância do resultado oculta o mistério da suposta intencionalidade da natureza, subjacente à formulação variacional.
Conto de Verão

sábado, janeiro 9
A derrota das palavras
Sucesso sem grande custo imediato para uma e outros. Mas sem interesse nenhum para a qualidade do ensino e provavelmente com um impacto marginal para os professores: com o que já se sabe que é a vida nas escolas e com o que mais por aí se poderá arranjar, o fim virá antes do topo, porque poucos vão aguentar os tais 40 anos.
De um ponto de vista mais orwelliano e estruturalista, confirma-se após todo o processo que fica a perder a palavra "Bom". Independentemente de sabermos se a avaliação utilizará critérios adequados para atribuir as classificações, o que é certo é que "Bom" passará a significar "assim-assim", "menos mau", "sofrível". Isso é o que já sucede no âmbito mais restrito da classificação das unidades de investigação (onde, diga-se de passagem, os critérios correspondem a realidades mais nítidas do que no caso da avaliação de professores). Aí toda a gente interiorizou que um centro de investigação "Bom" é apenas uma cruz que a universidade tem de tolerar à espera de dias melhores.
domingo, janeiro 3
AVATAR
Por muito desprezo que tenha pela carga de ideologia vulgar que o impregna e pela pobreza do argumento, por muito que o meu nariz tenha sido massacrado sob o peso dos óculos para 3D, e mesmo apesar de alguma dor de cabeça proveniente da profundidade do campo visual (a única que o filme comporta), seria uma piada fácil e desonesta dizer que este filme em relevo não é relevante. É-o, sem dúvida, porque a sua mensagem chega a muita gente. Chega, em particular, a muitas crianças - as mais indefesas diante deste brinquedo, esta stunning visual experience, como gostam de dizer os críticos.
À saída pensei: Cameron poderia ao menos ter ultrapassado o excessivo convencionalismo se no final tivesse deixado sobreviver o Jake humano e não o avatar, e se o amor de Jake e Neytiri tivesse persistido para lá da fronteira das espécies. Mas um minuto de reflexão mostra que isso seria impossível: poria em dúvida o profundo ódio que o filme destila a tudo o que é humano.
Fico por aqui, porque muito mais interessante do que qualquer coisa que eu pudesse acrescentar é a discussão gerada por yosoyhayek no La Libertad y la Ley.
sábado, janeiro 2
Mensagens de ano novo
sexta-feira, janeiro 1
Um conto moral
As empresas certamente não agem por considerações morais, porque não costumam tê-las, mas sim pelos resultados de sondagens sobre a aceitação pública da imagem que querem assumir. Esta história simples exibe dois aspectos interessantes do nosso património cultural que vale a pena notar: um, a elevada consideração que dispensamos ao casamento e ao compromisso monogâmico subjacente; outro, o tabu (surpreendente, sobretudo nos tempos que correm) que consiste em não aceitar que a nossa natureza é proclive à poligamia e à infidelidade.
O que sobra é positivo: que o amor monogâmico e fiel é uma coisa bonita, insusceptível mesmo, na ordem contemporânea das coisas, de troca por bens materiais. Paradoxalmente, é a imagem do amor fiel que tem valor de troca. A tal ponto que talvez quem a compre espere com ela apagar o rasto dos seus pecados e fraquezas, como a colaboração em gravações ilegais de comunicações telefónicas e internet ou a actividade persistente de suborno (lobbying, se preferirmos termos mais suaves). Que as escapadelas de Woods deitem por terra a sua utilidade branqueadora diz tudo sobre a gravidade da traição. Bígamos e devassos, arrepiem caminho enquanto é tempo. Ou então não se casem, se quiserem ser patrocinados por uma qualquer AT&T.
quinta-feira, dezembro 31
Os PIIGS da fringe
At that point, the laggards on the union’s fringe — Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain (the so-called Piigs) — will face even tougher choices to cope with what looks like several more years of stagnant economies, high unemployment and gaping budget deficits.
...on the periphery, the hangover from more than five years of a credit-infused boom shows little sign of diminishing.
Ireland, the first economy to stumble, has taken the most severe fiscal action, cutting public wages sharply. A new Greek government, punished by the rough treatment of bond investors no longer willing to countenance soft promises of reform, is just now promising steep spending cuts. But it is not clear whether the political system in Greece will accept them.
Meanwhile, Spain, to the frustration of many major lenders, seems to be putting off difficult fiscal questions in the hope that its economy will soon recover.
Critics of the euro zone contend that weak governments in the peripheral economies, facing high unemployment and restive voters, will not have the stomach to hold down wages, pensions and public expenditures.
“Are these people serious about reform, or are they just telling people what they want to hear?” asked Edward Hugh, a British-trained macroeconomist who lives in Barcelona and has been critical of Spain’s unwillingness to take difficult economic decisions.
Felizmente que em matéria de reformas e decisões difíceis, podemos estar descansados porque cá em Tugal já se tratou disso tudo. Uf! Espanha que se cuide.
terça-feira, dezembro 29
Professores e ministérios
Agora o governo abre mão da divisão da carreira, ao mesmo tempo que tenta entupir a progressão nos escalões. Medidas erradíssimas. Ao não admitir duas categorias de professores aceita-se que todos se equivalem potencialmente, como se nas escolas não houvesse necessidade de exercer tarefas com carácter de liderança ou supervisão, que deveriam estar a cargo dos professores mais competentes e experientes. Maior salário e maior responsabilidade seria uma combinação fácil de explicar a todos. A vida seria mais fácil nas escolas se determinado trabalho fosse concentrado nas mãos dos mais responsabilizados para o fazer, em vez de se pôr todos os professores numa roda viva de reuniões e grelhas a preencher. Por outro lado, fazendo depender as progressões de avaliações bianuais, já se antevê um mecanismo pesado e sufocante que vai continuar a ser contestado e a prejudicar, no terreno, o ensino - a única coisa de que ne nunca se fala, certamente, nestas reuniões entre ministras e sindicatos.
segunda-feira, dezembro 28
World crumbling apart

Com o mundo a desmoronar-se à nossa volta, logo escolhemos este momento para nos apaixonarmos, diz Ilse a Rick em Casablanca. O tema do desmoronamento do mundo à volta das pessoas resulta óptimo na boca de personagens do cinema, sobretudo a preto e branco e com vozearia da Gestapo em fundo, como no caso daquela cena. Também pode ser usado com sucesso em textos de badanas: ...retrato de um tempo cruel e de uma sociedade em rotura, onde as personagens não encontram escape do mundo que parece desmoronar-se à sua volta...
Tudo isto tem a sua estética e o seu lugar. Mas o desmoronamento está francamente a mais nas mensagens políticas de Natal no Portugal de 2009:
... em que se celebra esse núcleo essencial na estrutura da nossa sociedade que é a família. Nunca será demais realçar a sua importância na coesão social, necessária ao progresso social que todos desejamos. E é nas épocas em que por vezes julgamos que tudo se desmorona à nossa volta que ganham especial importância os laços de solidariedade, de afectos e de apoio que podemos encontrar na família.
A época podia ser melhor, mas alto lá. Não há bárbaros a caminho das cidades nem cheira a guerra civil. Manuela tem de ser mais crítica com o teor literário das suas mensagens.
Quanto ao resto, está menos mal.
As leituras mais imediatistas dirão que o desmoronamento é uma referência ao fim do mundo, trazido por uns novos casamentos que por aí se anunciam. Mas, embora o texto seja algo críptico, estão lá todas as razões básicas para, pelo contrário, os apoiar. Sim, se estruturação e afecto são tão essenciais na nossa vida, só um coração de pedra poderia querer negá-los a uma parte, mesmo que minoritária, dos cidadãos. E se há quem não queira passar por coração empedernido são as personagens da política. O sentido só pode ser então: tenham calma, que dos escombros da velha família emergirá uma outra, fresquíssima vicejante e universal.
Domingo em Teerão
Ontem gritou-se nas ruas de Teerão "Este é o mês do sangue, Khamenei será derrubado."
sábado, dezembro 26
Utopias fixes
Não sei como ninguém se lembrou disto para tema musical da cimeira de Copenhaga. O clima regulado por decreto. (Musical de Alan Jay Lerner e Frederic Loewe, versão em filme de 1967, Richard Harris e Vanessa Redgrave).
quinta-feira, dezembro 24
quarta-feira, dezembro 23
Estilhaços de minaretes
no dia em que houver tantos minaretes como catedrais em França, já não será a França
A frase provocou a indignação e a saída da secretária de estado Nora Berra. Clément já tem a folha feita na wikipédia, que não brinca em serviço ("controverse").
Até aqui tudo normal: as atitudes dos europeus face ao Islão, com certeza não por acaso, dão sinal de uma divisão que não é a da brecha partidária tradicional. O que encontro de curioso no relato é o comentário de Nora. Fica em francês que é mais bonito, com sublinhado meu.
Qu’un ancien garde des Sceaux tienne ces propos anti-laïcs dans une enceinte symbole de la République comme l’Assemblée nationale, c’est insupportable ! C’est ça la démocratie ?
A apreciação contém uma contradição insanável. É-se anti-laico por lamentar que as catedrais sejam ultrapassadas em número pelas mesquitas, mas não se é anti-laico por deixar andar até que as mesquitas ultrapassem em número as catedrais.
Coerência
Hafid Ouardiri é um apreciador dos mecanismos legais europeus. Já os usou em 1993 e em 2005 para conseguir a proibição da leitura pública de uma peça de Voltaire.
domingo, dezembro 13
sábado, dezembro 12
Badanas
...explorando um cosmos inabitado, esta é talvez a sua novela mais ambiciosa... grande entretenimento... Tenho inveja de todos os que ainda não começaram a ler "...", porque os espera o prazer que eu já tive...
Actualmente a tendência vai mais no sentido de fabricar pequenos textos anónimos que constituem a apresentação da obra pelo editor. Possivelmente os profissionais desta mini-literatura frequentaram cursos de escrita criativa. Em certos casos prevalece o tom encomiástico:
Idealizado e concebido com magistral perícia, "..." é um périplo dos temas caros ao autor que, ao mesmo tempo que amplia o universo das suas personagens obsessivas, nos lega o testemunho de um tempo ensombrado pela incerteza e pela tragédia.
Mas por vezes surgem nas contra-capas obras primas que incorporam na perfeição a essência do livro:
"..." aborda os encobrimentos, artifícios e metáforas com que a memória tinge e decalca as camadas de realidade a que chamamos passado. Celebração do hedonismo imaturo de uma adolescência tardia, e ao mesmo tempo perífrase melancólica de uma idade adulta que não chegou a sê-lo, é uma implacável radiografia das ficções que interpomos entre a vida que nos coube e aquela que desejaríamos. Reconstruindo na voz dos narradores um carrossel de recordações ambíguas que habitam o terreno movediço entre o real e a efabulação do que não chegou a cumprir-se, o autor edifica um fresco enternecedor e cruel onde emergem o trágico e o cómico da condição humana. O subtil artifício literário mais não faz do que devolver-nos, em forma de arte, toda a verdade da pulsão amorosa e das paixões arrebatadoras, e o mecanismo da angústia que pode fazer do mundo um lugar inabitável.
Variações sobre um tema com IVA
O director da Europol já falou do assunto e o Telegraph referiu-se-lhe há dias: fraude de uns cinco biliões à volta do comércio das emissões de carbono. Está descrito no video da EUX.tv: uma companhia compra créditos de emissão num país europeu diferente daquele onde tem sede, depois os créditos são exportados e vendidos a intermediários ainda num outro país. Os intermediários cobram IVA mas não devolvem às autoridades fiscais aquele que receberam. Já se fazia com outros bens de consumo. Transformado o CO2 em coisa transaccionável, o crime fica com oportunidade para variar o tema.
(Via Desde el exilio.)
Alta quê?
quarta-feira, dezembro 9
terça-feira, dezembro 8
Propostas para teses de mestrado e doutoramento em coisas globais
Está fora de causa que a adesão a uma ou outra linha se faça com base racional. A crença na teoria apocalíptica está, aparentemente, legitimada pela ciência; mas não é de agora que a ciência está dividida sobre o assunto, e depois do que se sabe há uns dias as dúvidas podem também ficar igualmente legitimadas. Certo é que o grande público não vai examinar os dados e a complexa literatura disponível, dada a tecnicidade da questão. Portanto, adere por uma questão de fé, ou não adere por outra razão qualquer.
As pessoas que aderem fazem-no por uma atitude política com cambiantes religiosos subjacentes. O "aquecimento global antropogénico" é um conceito de sucesso: não só proporciona uma oportunidade para execrar o capitalismo e culpar a civilização pelas desgraças do clima (muito à custa do CO2, veremos até quando) como ainda permite exibir sentimentos altruistas (sinceros da parte de muitos), tipo os mais pobres é que vão sofrer mais se não actuarmos rapidamente. (Os mais pobres, de resto, ficam lixados de qualquer maneira.)
Os que apoiam a facção céptica fazem-no por motivos mais prosaicos, também políticos mas menos religiosos: desconfiam de que valha a pena o gigantesco dispêndio que se anuncia para fazer face a uma ameaça duvidosa e vêem na manobra uma extorsão aos estados e destes aos cidadãos, através da oportunidade para criar novos impostos e novas medidas de controlo das vidas particulares. Pragmaticamente, também os pobrezinhos estão em pano de fundo: o corte no crescimento económico seria ele próprio uma catástrofe não desprezável.
É também interessante notar que com o advento da Climastrologia estamos perante um novo paradigma do uso da ciência ou seja o que for que se faz passar por ela. Saltou-se do ofício intelectual de compreender o funcionamento do mundo real e, naturalmente, prevê-lo, para a tentativa de impôr um modelo que tem muito de especulativo com motivações políticas numa escala nunca antes vista.
Com o que quer que seja
"género" significa masculino ou feminino;
"homossexual" significa pessoa que se entrega ou tenta entregar-se a actividade sexual com pessoa do mesmo género;
"ministro" significa o Ministro responsável pela ética e a integridade;
"tocar" inclui tocar
(a) com qualquer parte do corpo;
(b) com outra coisa qualquer;
(c) por intermédio do que quer que seja.
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2. Uma pessoa comete o crime de homossexualidade se
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(c) toca outra pessoa com a intenção de cometer o acto de homossexualidade.
Uma pessoa que cometa o crime descrito nesta secção fica sujeita, se condenada, a prisão perpétua.
3. Uma pessoa comete o crime de homossexualidade agravada se
(a) a pessoa contra quem o crime é cometido tem menos de 18 anos;
(b) aquele que comete o crime é portador de HIV;
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Uma pessoa que cometa o crime de homossexualidade agravada fica sujeita, se condenada, à pena de morte.
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7. Uma pessoa que ajude, incite, aconselhe ou intermedie para que outra se envolva em actos de homossexualidade comete um crime e fica sujeita, se condenada, a sete anos de prisão.
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14. Uma pessoa ou autoridade que, tendo conhecimento de algum crime descrito nesta lei, não faça denúncia às autoridades competentes no prazo de 24 horas, comete crime e fica sujeita, se condenada, a multa até 250 unidades de conta ou a prisão até 3 anos.
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16. Esta lei aplica-se a crimes cometidos fora do Uganda se
(a) cometidos por pessoa com nacionalidade ugandesa ou com residência permanente no Uganda;
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17. Uma pessoa acusada de crime ao abrigo da presente lei fica sujeita a extradição de acordo com a legislação existente.
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As definições de "orientação sexual", "direitos sexuais", "minorias sexuais", "identidade de género" não poderão ser usadas, sob forma alguma, para legitimar a homossexualidade, doenças de identidade de género e práticas relacionadas no Uganda.
Esta proposta de lei, da autoria de um cristão evangélico, estará em discussão no parlamento do Uganda em Janeiro próximo. Provavelmente dá votos. Provavelmente reflecte uma certa cultura africana. Provavelmente constitui uma afirmação identitária em oposição a algumas tendências do mundo ocidental (Europa e USA): no preâmbulo é referido o objectivo de esconjurar o casamento de pessoas do mesmo sexo. A Igreja Católica tem estado muito calada sobre o assunto. Com excepção de vozes isoladas, a Igreja Anglicana evita também tocar-lhe - com o que quer que seja.
terça-feira, dezembro 1
Lula no labirinto
"os dois casos são completamente diferentes", já que as eleições iranianas "não violaram a Constituição", enquanto as hondurenhas foram organizadas "por um golpe repudiado por todo o mundo".
"O golpista travestiu-se de político eleito e convocou as eleições sem permitir que o presidente Zelaya fosse responsável pelo processo", criticou.
Oscar Arias, mediador e Nobel da Paz, era de opinião, em Setembro, que as eleições (já marcadas antes do golpe) poderiam resolver a crise. E recordou que a validação de eleições feitas sob regimes tirânicos já permitiu a transição para a democracia em países da América do Sul.
Apesar da situação de crise política e do ambiente de pressão, a participação do eleitorado parece ter sido pelo menos não inferior ao que é habitual no país.
A América Latina e o Mundo estão divididos. Mas mesmo os que não gostam da situação a que se chegou não terão muito que se preocupar: o mandato do eleito, se vier a efectivar-se, durará o par de anos regulamentares. O de Zelaya, de acordo com os planos do próprio, poderia durar o resto do século.


