segunda-feira, novembro 9

Perestroika?

Para lá dos festivos dominós que assinalarão a queda do Muro, sondagens que denunciam moderação no entusiasmo com a mudança, e avisos sobre o estado da arte no capitalismo vêm lembrar-nos que a complexidade do mundo real está muito para além das representações simplistas com que julgamos compreendê-lo nos momentos de euforia.


Algum desencanto com a democracia e a economia de mercado tem as justificações que conhecemos, e todas as frases que sobre isso se escrevam vão desembocar à palavra "crise". Mas não deixa de apetecer parodiar os que sempre pensaram que o sistema de Leste ruiu porque aquela inominável coisa não era socialismo. E esta inominável coisa que etiquetam de neo-liberalismo selvagem, é mesmo capitalismo com mercado a funcionar livremente?


É irónico que Gorbachov reclame a urgência da nossa perestroika. Sem dúvida que está a pensar em Obama (curiosamente, são eles os dois presidentes em exercício que foram Nobelizados). Por muito que devamos a Gorbachov, o seu apelo é pouco apropriado para levar a sério: na medida em que Gorbachov perdera a vontade de dar cobertura ao sistema a que presidia, a comparação pode ser entendida como um recado a Obama para que desista dos Estados Unidos. Não é fácil indicar uma causa única para a queda do Muro, mas parece evidente que sem a falta de vontade de o defender a história que conhecemos teria tido um outro desfecho.

domingo, novembro 8

Onde estavas no 9 de Novembro?

De Nicolas Sarkozy, ficamos a saber pelo Facebook.

Crimes e castigos

Um homem de 33 anos, condenado por adultério, foi executado por apedrejamento na cidade de Merka, perto da capital da Somália, conta a BBC. A amante, grávida, será executada pelo mesmo processo logo que dê à luz a criança produto do crime.

Columbine versão jihad

Nas primeiras notícias, Nidal Malik Hasan era um psiquiatra, descendente de palestinianos, a quem o stress levou ao acto homicida desesperado de que resultaram treze mortos.

O caso passa-se em Fort Hood, zona livre de armas, onde os regulamentos impedem os militares de andar armados em circunstâncias normais, como é o caso de fazer fila para uma vacina.

Mas sabemos agora que Hasan evidenciava já há tempo comportamentos que no mínimo deveriam ter dado lugar a algumas precauções. Era conhecido o seu repúdio pelas intervenções dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão e preparavam-se para enviá-lo para o Afeganistão. O problema não é ser muçulmano (será?), é existirem razões que deveriam ter motivado alguma prevenção. Colegas de profissão recordam uma bizarra conferência de Hasan durante a qual ele referiu o ensinamento do Corão sobre como proceder com as cabeças dos infiéis: degolar e lançar ao fogo.

Por muito que se tente disfarçar, há nesta história negligências que parecem óbvias. Como pode uma pessoa assim ser mantida a prestar serviço numa unidade militar? Haverá muita explicação para os assassinatos com base no bláblá psiquiátrico. Mas o facto de se tratar de um muçulmano devoto dificilmente será assumido ou apontado como provável causa da tragédia. As razões também são óbvias: logo viriam as acusações de islamofobia ou racismo que ninguém hoje em dia aguenta. Infelizmente, os muitos actos terroristas levados a cabo por muçulmanos radicais aconselhariam a colocar a hipótese, nem que fosse por mera curiosidade científica. Além de que ninguém se livra de uma fatwa de algum louco que se sinta ofendido por ver classificar a devoção ao Islão como anomalia psíquica.

segunda-feira, novembro 2

Golpes e pressões

Sob pressão dos Estados Unidos, o proto-golpista Zelaya assinou na 6ª feira o acordo para a saída da crise política nas Honduras: a "restituição" ficaria nas mãos do Congresso. Ainda mal o mundo descansava ao ver a resolução do problema entregue aos hondurenhos através de compromisso escrito, vêm os porta-vozes de Zelaya ontem, sem surpresas, anunciar que o acordo só será válido se o Congresso decidir a favor do homem que foi empurrado em pijama.

Zelaya já vale pouco neste momento. Será que o próprio Chávez aposta nele? A "legítima ministra dos negócios estrangeiros", Patricia Rodas, seria para o socialismo do Século XXI uma candidata bem mais apetecível. Em Zelaya está difícil confiar e os negociadores dos Estados Unidos sabem bem disso. Para que o homem mantivesse a sua posição durante mais de dois dias seguidos lá teria de estar sempre o diplomata a dizer-lhe ó pah, se te desdizes mando a bófia atrás do Héctor, agora vê lá. Thomas Shannon tem mais que fazer.

domingo, novembro 1

Mario Vargas Llosa sobre o declínio do erotismo


Também no El País de hoje, e a propósito da exposição do Museu Thyssen e Caja Madrid, Vargas Llosa discorre sobre o lado bom e o lado mau da vulgarização do erotismo. Passa em revista a inspiração fornecida pela antiguidade pagã e também pelo cristianismo, que proporcionou a grandes artistas o ensejo de nos darem a contemplar inúmeras Evas, Madonas, Cristos, São Sebastiões e mais todos os santos e santas do calendário, desafiante exibição do corpo que a censura eclesiástica não pôde deixar de tolerar.


Com o desaparecimento dos bloqueios censórios, o erotismo banaliza-se, e com ele a arte que inspira. Llosa convoca o Endimião Adormecido de Canova para o opor à frivolidade do video David (de um autor de que provavelmente não valerá a pena reter o nome), que voyeuriza o sono de Beckham.


Mas somos, provavelmente mais felizes do que antes. Menos censura é também menos constrangimento e menos discriminação. A arte ficou a perder? "Fazer amor já não é uma arte, é um desporto sem risco, como correr no tapete do ginásio"? Paciência. Não se pode ter tudo.

Nove argumentos a favor de Polanski

Por Bernard-Henry Lévy, hoje no El País.

O estudante de Matemática e o Ayatollah

Na passada quarta feira, um estudante do 2º ano de Matemática da Universidade de Sharif, identificado como Mahoud Vahidnia, foi figura central num encontro com o lider Supremo, a quem questionou durante 20 minutos sobre a falta de liberdade de expressão e a estrutura do poder no país. Hoje, o Corriere della Sera escreve que Mahoud está preso. As notícias são pouco precisas e nalguns sítios discute-se se o episódio foi encenado pelo regime.

Heimatlos, os mundos desaparecidos

Considero-me apátrida. A minha pátria desapareceu, a RDA. Não considero a RFA a minha pátria. A minha pátria hoje é a minha família próxima, são os meus amigos.

Palavras de Werner Grossmann, último chefe da Stasi, à Radio France Internationale. Uma das suas últimas missões foi, em colaboração com o KGB, tratar do exílio pacífico do casal Honecker no Chile. Depois da expulsão de Honecker do partido, ter-lhe-á aconselhado uma de quatro opções: Coreia do Norte, Cuba, Palestina ou Chile. Em Moscovo ninguém garantiria a segurança do ex-presidente, a Coreia do Norte não era de fiar e tanto Cuba como a Palestina não ofereciam garantias.

domingo, outubro 25

Tratamento da congestão nasal sem recurso a medicamentos e outras histórias

Vai por aí uma discussão interessante sobre o processo de "peer review" nas revistas científicas. Parece que a conclusão é que, tal como a democracia, o sistema pode não ser isento de falhas mas ainda é o mais fiável e preferível.

A história é suscitada por um bruahh que envolve um jornalzinho publicado pela Elsevier, Medical Hypotheses, e pelas pressões que levaram o editor a recusar recentemente um artigo de Peter Duesberg, bem conhecido negador da relação HIV-SIDA.

O Medical Hypotheses publicou, entre muitos outros panfletos, um artigo que recomenda a ejaculação, por relações sexuais ou masturbação, como terapia para a congestão nasal nos machos adultos.

Who wants to be a millionaire?



Who wants to be a millionaire? I don't
Have flashy flunkies everywhere? I don't
Who wants the bother of a country estate?
A country estate is something I'd hate

Who wants to wallow in champagne? I don't
Who wants a supersonic plane? I don't
Who wants a private landing feel through? I don't
And I don't 'cause all I want is you

Who wants to be a millionaire? I don't
Who wants uranium to spare? I don't
Who wants to journey on a gigantic yacht?
Do I want a yacht? Oh, how I do not

Who wants a fancy foreign car? I don't
Who wants to tire of caviar?
Who wants a marble swimming pool too? I don't
And I don't 'cause all I want is you

Who wants to be a millionaire? I don't
And go to every swell affair?
Who wants to ride behind a liveried chauffeur?
A liveried chauffeur, do I want? No sir

Who wants an opera box I'll bet? I don't
And sleep through Wagner at the met? I don't
Who wants to corner Cartiers too? I don't
And I don't 'cause all I want is you

Dos 2,2 milhões de ricos que se presume existirem na Alemanha, 44 subscreveram uma petição a Angela Merkel suplicando-lhe que obrigue toda a corja de milionários a pagar mais impostos. 5% ao ano durante dois anos, pedem eles. Dizem que têm dinheiro a mais de que não precisam. Receio que os outros 2 199 956 julguem que precisam mesmo dos 500 000 euros ou mais que possuem -- o limiar de fortuna que para os peticionistas define o que é um rico. E digo isto sem maldade, até porque estou de acordo com o critério adoptado, e de acordo prometo continuar, enquanto a minha fortuna não atingir os 500 000 euros.

Na passada quarta feira estes ricos complexados manifestaram-se no centro de Berlim e, num gesto mediático carregado de significado, atiraram ao ar notas falsas. Depois ficaram surpreendidos de ninguém ter acorrido à convocatória. Talvez para a próxima lhes corra melhor, como alguém observou aqui, se prometerem distribuir notas a sério.

quarta-feira, outubro 21

O plágio indecoroso

No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra era vazia e informe; e as trevas cobriam a face do abismo. O Espírito de Deus movia-se à face das águas.
E Deus disse, Haja Luz: e houve luz.
Deus viu a luz e viu que era boa: e separou a luz das trevas.
À luz chamou Dia e às trevas Noite. A noite e a manhã foram o primeiro dia.

Esta linguagem poética sofisticada é obviamente uma cópia de Saramago. A vírgula a introduzir sistematicamente o discurso directo, a narrativa hipnótica, a efabulação abundante não enganam ninguém. Até tem logo no início um episódio copiado do último romance do ibérico nobelizado, e lá para o fim aparecem quatro (quatro!) evangelhos copiados de um livro mais antigo do celebrado escritor, com esse nome. Isto é indesmentível. Tem muito mais histórias de amores e ódios e doutrina e violência, que quase certamente, temos razões para suspeitar agora, foram copiadas de manuscritos que Saramago tem na gaveta. É por isso compreensível a fúria do escritor. Só não se percebe porque é que o insigne plumitivo não move um processo de plágio ao críptico autor. Com tanto jornalista no encalço, iriam descobri-lo sem demora. Escusava de se desculpar com um Deus que ele sabe não existir. Saramago está a gozar connosco. Saramago não é de fiar.

Post scriptum não irónico: este episódio deu oportunidade a umas figuras caricatas para aparecerem em público, umas para exibirem no contra-ataque uma repetição de ridículos passados, outras para "discutirem" com o escritor. Era melhor, ao contrário do que diz o título de um outro livro, que não trocassem mais palavras sobre o assunto. Ninguém está preocupado com ele, como comprovaram quatro tristes contra-manifestantes de uma seita evangélica de que não recordo o nome, que as televisões ontem (sábado) humilhantemente mostraram, em Penafiel, surpreendidos por não ter aparecido mais ninguém...

Quanto a Saramago, é feio dizer tanto mal de um livro bem escrito (mesmo que não se simpatize com o conteúdo e as interpretações que os crentes lhe dão), que já lhe proporcionou histórias para duas novelas e cujo estilo narrativo o influencia, talvez sem se dar conta, há muito.

quinta-feira, outubro 15

Compare

Já pode aqui cada um comparar a sua fortuna pessoal com a de José Luiz Zapatero e restantes membros do governo de Espanha.

terça-feira, outubro 13

Mandato de captura de fino recorte literário: há 702 anos

Uma coisa amarga, uma coisa lamentável, uma coisa horrível de pensar, terrível de saber, uma coisa abominável, um delito atroz de celerados, uma infâmia medonha, uma coisa de facto inumana, pior ainda, alheia a toda a humanidade, soou aos nossos ouvidos pelo informe de pessoas credíveis não sem nos atingir com um profundo estupor fazendo-nos estremecer com um horror violento... Um espírito razoável sofre, sem dúvida, ao ver desafiados os limites da natureza; é atormentado sobretudo porque esta estirpe, esquecida da sua origem e ignorante da sua dignidade, pródiga de si, entregue a sentimentos censurados, não compreendeu porque lhe renderam honras. Ela é comparável aos animais privados de razão, que digo? ultrapassando a brutalidade dos próprios animais, comete os crimes mais abomináveis que a sensualidade dos próprios animais irracionais execra e rejeita. Abandonou o seu Criador, separou-se de Deus, sua salvação, esqueceu o Senhor, sacrificou aos demónios e não a Deus...

Prólogo da carta de Guillaume de Nogaret, enviada a todos os policías, barões e homens do rei França em postos de comando, em 12 de outubrode 1307, preparando a detenção em massa dos templários na madrugada do dia 13.

domingo, outubro 11

Klaus e Lisboa

De acordo com esta notícia de há 3 dias, Vaclav Klaus pretende ver a inclusão no Tratado de Lisboa de um "roda-pé" relacionado com a Carta Europeia dos Direitos Humanos. Entretanto passa a constar que a exigência do presidente checo tem a ver com uma cláusula de impedimento de reclamações alemãs sobre propriedades confiscadas por Praga em 1945.

O tratado já prevê:

53. Declaration by the Czech Republic on
the Charter of Fundamental Rights of the European Union
1. The Czech Republic recalls that the provisions of the Charter of Fundamental Rights of the European Union are addressed to the institutions and bodies of the European Union with due regard for the principle of subsidiarity and division of competences between the European Union and its Member States, as reaffirmed in Declaration (No 18) in relation to the delimitation of competences.
The Czech Republic stresses that its provisions are addressed to the Member States only when they are implementing Union law, and not when they are adopting and implementing national law independently from Union law.
2. The Czech Republic also emphasises that the Charter does not extend the field of application of Union law and does not establish any new power for the Union. It does not diminish the field of application of national law and does not restrain any current powers of the national authorities in this field.
3. The Czech Republic stresses that, in so far as the Charter recognises fundamental rights and principles as they result from constitutional traditions common to the Member States, those rights and principles are to be interpreted in harmony with those traditions.
4. The Czech Republic further stresses that nothing in the Charter may be interpreted as restricting or adversely affecting human rights and fundamental freedoms as recognised, in their respective field of application, by Union law and by international agreements to which the Union or all the Member States are party, including the European Convention for the Protection of Human Rights and Fundamental Freedoms, and by the Member States' Constitutions.


À primeira vista, as notícias recentes sobre a demora de Klaus em relação a Lisboa parecem ser pretextos ou despistes. Mas vai ser interessante assistir ao duelo político entre o presidente e a Presidência da UE e avaliar o significado do que ele vai conseguir, se o seu plano resultar, em troca da assinatura. Ao menos assim sempre vamos ler alguma coisa do tratado.

sábado, outubro 10

O Prémio e os motivos

Jagland said the decision was "unanimous" and came with ease.

He rejected the notion that Obama had been recognized prematurely for his efforts and said the committee wanted to promote the president just it had Mikhail Gorbachev in 1990 in his efforts to open up the Soviet Union.


Abrir? era mais fechar, no sentido de encerrar, dissolver (felizmente) o regime a que presidia. Pouco mais de um ano depois de o prémio ter sido atribuído a Gorbachov, a União Soviética terminava a sua existência.

Julgo que o comité Nobel está a ser demasiado optimista (felizmente, também) em relação a Obama. Ele não lhes vai fazer aquela vontade inconsciente.

Fora de cinismos, foi mais um assédio do que um prémio: carregado de voluntarismo de quem o atribui e de uma agenda com trabalho de casa para o agraciado, o Nobel da Paz 2009 está de acordo com a concepção "new age" de que tudo se resolve com boas intenções e pensamento positivo.

domingo, outubro 4

Dilemas morais

A castração química é justa ou afronta os direitos humanos?

O apoio a um bom cineasta, violador de uma rapariga de 13 anos, por parte de pessoas simpáticas, abona aquele ou prejudica estes?

sábado, outubro 3

Veja quem esteve lá

Foi esta tarde, na Piazza del Popolo em Roma: manifestação com muitos milhares (150 000 ou 300 000, dependendo das fontes). Aquelas pessoas sairam à rua pela liberdade de imprensa, contra a asfixia de Berlusconi. Não sei como se publica uma foto destas: logo à noite já deve haver centenas de prisões.

Agora a sério: Silvio processou meios de comunicação que o têm tratado muito mal. A manifestação arremete também contra a recente lei do "escudo fiscal" que protege a evasão de capitais. Mas não deixa de ser curioso o mote da "liberdade de imprensa", no país onde quase todos os jornais dão sistematicamente desonras de primeira página ao chefe do governo e onde há canais de tv que dão generoso tempo de antena às escorts de serviço ao cavaliere. É verdade que os canais dominados por Silvio fazem campanha acesa contra os não devotos, mas ainda na noite do dia 1 uma prostituta contou detalhes das suas relações com B. num programa de tv de grande audiência.

Berlusconi está a lutar contra a comunicação que não controla e isso merece a mais forte oposição. Mas boa parte dos ataques que lhe têm feito, ao incidir sobre o comportamento íntimo do primeiro ministro, deixam os autores muito mal na foto. Uma fita sem bons, como tantas outras.

quarta-feira, setembro 30

O debate sobre a reinserção na Arábia Saudita

No passado dia 23 de Setembro um grupo de jovens provocou distúrbios e destruição num centro comercial de Alkhobar, no leste da Arábia Saudita. O caso provocou escândalo e um debate aceso: a juventude da região é tida como habitualmente bem comportada e por isso há interrogações no ar sobre as razões do acto e sobre o que se poderá fazer para impedir a sua repetição.

Diz um director de jornal que há com certeza culpa dos pais, mas também da falta de ocupação em actividades desportivas; os jovens aprendem tudo na internet e os psicólogos comportamentais terão de prestar atenção ao assunto. Os comentadores são unânimes em dizer que é preciso retirar estes jovens dos centros comerciais e dar-lhes uma orientação. As opiniões dividem-se sobre o castigo a aplicar, de modo a que fiquem a saber que os seus actos têm consequências. Há uma forte corrente de opinião orientada para as penas não detentivas, já que a prisão pode ainda agravar o carácter de quem tem maus instintos. Mas lá não valem as teorias da Profª Fernanda Palma: são poucos os que optariam por multas ou pelo trabalho para a comunidade, e entretanto a pena aplicada - 30 chicotadas em público para cada um dos doze que já confessaram o crime - parece ser encarada com aprovação, apesar das vozes dissonantes.

O caso vem contado no Arab News. E a notícia também veio ontem no Daily Mail online, com uma cauda de comentários onde muitos lamentam a abolição das penas medievais no Reino Unido. Assim vai o Mundo, como diziam dantes os noticiários no cinema.

domingo, setembro 27

Angústia do eleitor

Logo, às 20 horas, haverá uma ordenação dos candidatos. O mais provável é que praticamente todos fiquemos a perder. O mecanismo amável da democracia vai garantir, como disse um outro, que não seremos governados por ninguém melhor do que nós.

sábado, setembro 26

Dias de reflexão (post lascivo)



(em popmodal)

They say that bears have love affairs
And even camels
We're men and mammals--let's misbehave!!!

domingo, setembro 6

A frase inconveniente de Judite

Quem é responsável pelo banimento do Jornal das sextas na TVI? Tão risível é esperar uma resposta clara, com assinaturas por baixo, como o argumento da "falta de qualidade". A questão mais abrangente de saber quem moveu influências que levaram à decisão é mais simples. A resposta, dada em inúmeros comentários que traduzem convicções razoáveis assentes em factos recentes, já foi escrita e abundantemente publicada.

Por isso a primeira questão não é importante. Nem a de saber se houve cálculo do risco eleitoral para o PS. Por isso a pequena frase assassina, que ontem à noite Judite de Sousa proferiu sob a forma de pergunta a Jerónimo, tanto irritou Sócrates. O primeiro ministro de imediato se encrespou e censurou a pergunta, como quem diz: oiça lá, está a insinuar que o papa sou eu? E não é despiciendo que as palavras tenham vindo de uma funcionária bem comportada. A frase saiu-lhe tão espontânea que denuncia a existência de uma convicção difusa de que, neste episódio, paira no ar uma influência que não necessita de se explicitar em cada momento concreto - os agentes adequados saberão tomar as decisões, sem consultar em cada minuto a instância a que pretendem agradar.

É este o aspecto mais grave do caso. Se de "asfixia" se pode falar, é precisamente na situação em que quem manda já não precisa de dar as ordens em permanência, porque os recados já foram muitos e claros. Motivos para a PRISA e para a Media Capital não faltarão. Mas não nos dêem música, por favor, com a qualidade ou a "homogeneização". Faz-me logo lembrar, salvas as distâncias entre os casos, as "razões humanitárias" da libertação do líbio condenado a prisão perpétua no UK.

quarta-feira, setembro 2

Do Cacém ao Iraque

A política nacional é pouco interessante, mas vamos ser chamados a votar. Não só por essa razão, um frente a frente como o de há minutos é um espectáculo com algum fascínio. Que nos atrai quando ficamos colados ao sofá a escutar os dois debatentes? Para muito poucos, um motivo para escolher entre os dois. Para a maioria, observar o desempenho dos actores e as habilidades de cada um para levar a melhor. Uso a palavra "actores" no sentido mais tradicional e não na sua ampla significação mais em voga. É de espectáculo que se trata e o talento em jogo é a capacidade de passar rasteiras ou de lhes sobreviver.

O formato é muito limitador, circunscrito a temas paroquiais. Dirão que se não fosse assim talvez não se conseguisse ouvir nada. A razão profunda pode ser mais prosaica e mesquinha: é que em tema aberto seria intoleravelmente difícil decorar papéis. Havia dois nervosos: Constança e Sócrates. O saldo final é ambíguo mas do lado de Sócrates houve certos sinais de fraqueza (ao reclamar contra a subversão das regras do debate dá a ideia de que prefere "safar-se bem" a ver um determinado ponto esclarecido; e em desespero a invocar o Iraque). Isto não quer dizer que do outro tenha emergido um sinal de grande força. O espectador experimentado adivinha o trabalho dos encenadores por trás - mais conspícuo no caso de Sócrates, porque Portas é um actor de nascença e Sócrates um actor de escola - em vez de se concentrar no argumento: um clássico, aliás. Com pinceladas de farsa: nas falas de abertura, assistimos ao suposto representante das políticas de extrema direita (lol) regatear com o representante das políticas ditas socialistas quem é que tinha distribuído mais dinheiro aos jovens e aos velhotes.

E quem ficará a ouvir Jerónimo e Louçã? O nosso cinismo tem limites. Queremos drama e conflito, mesmo que pressintamos a ficção subjacente. Vamos mas é aproveitar para nos reabastecermos de pipocas até à continuação do filme.

domingo, agosto 30

Unasul e as setas



Uma das setas para baixo na última página do PÚBLICO de ontem contempla o presidente Uribe da Colômbia. O pequeno texto com assinatura M.C. dá a entender que Uribe sai vencido da cimeira da UNASUL, e o artigo da página 13 não é muito mais claro. O assunto não é retomado na edição deste domingo.


Infelizmente, as setas do PÚBLICO costumam traduzir mais os estados de alma dos seus redactores do que a substância dos factos. Uma leitura do que se publicou sobre a cimeira da Unasul aconselharia maior cautela nas conclusões. Nem Uribe surge como derrotado - ao contrário, a insípida declaração final permite-lhe seguir em frente com o plano de presença militar dos Estados Unidos e reafirma a necessidade de combater o terrorismo e o narcotráfico - nem nenhum participante sai em posição de liderança. Em particular, Lula é uma figura discreta.

No entanto, a reunião deve ter sido bem divertida, graças às intervenções cómicas de Hugo Chávez (incluindo as respostas que deu a jornalistas no final). O pequeno ditador levava no bolso uns planos secretos das forças armadas americanas
para a invasão da América do Sul. Uribe observou que os "planos" são um documento académico de acesso livre na internet. O momento mais bem disposto seguiu-se às queixas de que os Estados Unidos querem apossar-se do petróleo venezuelano: o presidente Garcia, do Perú, perguntou então a Chávez: porque é que hão-de de estar preocupados com o petróleo se tu já o vendes todo aos Estados Unidos?

Está contado em vários sítios, por exemplo no ABC, no Globo e na análise do Daniel.

Parece que a reunião foi transmitida pela tv. Um moderado azar para Chávez a nível interno: como actor de tv deve ter tido uma das suas piores prestações

sexta-feira, agosto 28

As tentações de Saramago

Detesto o ideário político de Saramago e gosto muito de muitas das suas novelas. Mas para Saramago deus é uma tentação perigosa: o "evangelho" é das suas obras menos interessantes (apesar de um prólogo deslumbrante, cheio de religiosidade) e suspeito que o "caim" irá pelo mesmo caminho. Porque, para além da forma, tudo é quase previsível: trata-se de maltratar (merecidamente ou não, isso é irrelevante) o deus das escrituras. Isto para já não mencionar que a qualidade das novelas publicadas se encontra em rampa francamente descendente pelo menos desde a "Cegueira".

O tempo que Saramago dedica a deus mostra bem que, ao contrário do que o escritor vocifera, deus existe. Ocupa pelo menos um espaço importante na sua cabeça. Talvez por ocupar espaço nas cabeças de muitos de nós, o que o irrita militantemente. Como àqueles simplórios do "É provável que Deus não exista..." escrito em autocarros, apetece dizer-lhe, o Zé, é provável que muita coisa em que você acreditou e acredita também não exista, por isso não se chateie, viva a sua vida, escreva lá sobre poetas, bruxas, clones e funcionários do registo civil.

Cuidado com a cultura


Não é preciso ficar embasbacado diante de certas peças da colecção Berardo para fazer figura de totó. Isso pode acontecer até em museus de prestígio confirmado. O pedaço de Lua exposto no Museu Nacional de Amsterdão é falso - não passa de um bocado de madeira fóssil que não vale mais de 50 euros, diz o Corriere della Sera. A peça fazia parte da colecção pessoal do primeiro ministro Willem Drees, e fora oferta do embaixador americano. Como tudo hoje tem valor museológico, o bocado de madeira pode continuar tranquilamente a sua carreira, com o valor acrescentado de uma gargalhada.

segunda-feira, agosto 24

domingo, agosto 23

"Esclarecimento"?

No dia 16 o PÚBLICO contava, em artigo de Clara Viana, que a empresa criada para realizar as obras de modernização em escolas secundárias - a Parque Escolar - poderá não ter observado todas as normas legais na celebração de contratos com os arquitectos concorrentes. Privilegiando o ajuste directo sobre o concurso público, as encomendas terão contemplado apenas um pequeno número de profissionais. O artigo transcreve breves declarações do Presidente da Ordem dos Arquitectos, que são críticas relativamente ao procedimento da Parque Escolar.

Sobre este assunto, que não me interessa particularmente, apenas tinha anotado à pressa, para mim, duas coisas: que o investimento previsto é muito significativo e que os reflexos da iniciativa para a melhoria do ensino não devem sê-lo na mesma medida. Mas adiante.

Hoje o PÚBLICO inclui uma Carta ao Director do Conselho Directivo Nacional da Ordem dos Arquitectos. O tema é o artigo do dia 16. A carta ocupa as cinco colunas usuais e está dividida em 8 pontos. Nos pontos 5 e 8 lê-se uma concordância muito discreta com as frases do Presidente inseridas no referido artigo. Os pontos restantes explicam por que razão a Ordem não se revê no (re)enquadramento dado às declarações do Presidente (sic). Para além de um discurso asséptico sobre a importância das obras em curso e o excelso papel dos arquitectos na sua concretização, nos pontos 1,2,3,4,6 e 7 encontram-se os "porém", os "por outro lado", os "aliás" que compreendem e desculpam eventuais atropelos à lei por parte da Parque Escolar.

Eu não faço a mínima ideia do que se passa dentro da Parque Escolar, nem da Ordem dos Arquitectos, nem do sentir dos associados a respeito deste episódio, se é que ele os preocupa. Mas a Carta ao Director deixou-me um pouco estupefacto, como se diz agora. A pensar nas razões da Ordem para vir exibir tao conspicuamente a sua compreensão.

sábado, agosto 22

O avião que caiu duas vezes




Com toda a candura, um filho de Khadafi diz o que jornais ingleses já tinham insinuado: que há negócios de petróleo por detrás da libertação do alegado canceroso Megrahi. Com outra candura ainda maior, o governo do Reino Unido desmente o filho do líder líbio.

Canceroso terminal com um aspecto óptimo (certamente graças ao serviço de saúde no UK) Megrahi é recebido como herói na Líbia, afirmando que está inocente e não fez nada. Ora, sabendo nós do que a casa gasta, se não fez nada porque é que lá o aclamam como herói?

Os que o libertaram dizem-se agora chocados com a recepção em Tripoli. Dos EEUU vêm declarações muito profissionais com todos os adjectivos que qualquer texto em diplomatês deve incluir nas alturas em que falta vontade para efectivamente influenciar os factos: outrageous, disgusting, objectionable.

Com o devido respeito às 270 vítimas, o problema é que nesta estorieta da segunda queda do voo 103 da PANAM já não há amigos nem inimigos, talvez haja apenas clientes.

sábado, agosto 15

Painéis, Paglia, Palin

Está quente o debate nos EEUU sobre a proposta de lei da administração Obama para reformar o serviço nacional de saúde. Uma onda de protestos e contra-protestos percorre o país, mobilizando activistas republicanos, democratas e organizações sindicais, com focos de pancadaria ocasionais e acusações mútuas de "vocês são nazis". A Casa Branca cria um site em que apela à e-denuncia dos detractores da campanha. Tudo muito simplex. A popularidade do Presidente acaba por se ressentir do caso: até apoiantes de Obama manifestam receios e dúvidas.

Certamente não é por nada que Camille Paglia publicou há 3 dias um artigo intitulado "Obama's healthcare horror". A tentativa de fazer passar rapidamente uma lei controversa, com centenas e centenas de páginas, que o cidadão comum só conhece em versão de sound-bytes, é naturalmente motivo de preocupações e censura por quem pensa pela própria cabeça. Paglia pede mesmo que outras comecem a rolar: ela, que certamente não estará só a pensar assim, atribui o caos em que a iniciativa se encontra à incompetência da equipa do Presidente. Provavelmente será preciso esperar por muitas mais gaffes para que até os apoiantes se convençam de que Obama faz o que faz por vontade própria. A mesma vontade com que escolheu os seus conselheiros.

A actuação de Obama e sua equipa na reforma da saúde veio proporcionar a Sarah Palin um ensejo de prova de vida e grande projecção. Parece que Sarah acredita, entre outras coisas e para gozo de muitos, que os dinossauros coexistiram com o Homo Sapiens, mas o que neste momento importa aos americanos (e sobretudo aos "unamerican", mimo com que os descontentes têm sido brindados pelos conselheiros presidenciais) é que Sarah descobriu a existência de "painéis de morte", escondidos na lei de Obama, mas com o rabo de fora. Chamem-lhe parva. A designação inventada por Sarah causou escândalo, obrigou os responsáveis mais directos pela lei a virem dar explicações e, cereja em cima do bolo, levou uma comissão do Senado a retirar da lei as "end-of-life provisions". Para algo que diziam não existir e ser invenção da Palin, nada mau.

Há obviamente um risco cultural em jogo, que seria o de alguém acabar por convencer os americanos de que os dinossauros foram realmente nossos contemporâneos e, sabe-se lá, que existam ainda para aí nalguma reserva. Mas temos que reconhecer com honestidade que Sarah não se tem aproveitado da situação.

POST SCRIPTUM a propósito da reforma do sistema de saúde nos EEUU: Das grandes intenções à dura realidade. Em 2008, Obama propunha-se enfrentar a indústria farmacêutica com o recurso a genéricos e a medicamentos comprados fora dos EEUU. Uma discreta notícia do New York Times, de 5 de Agosto, revela que a Casa Branca já garantiu ao lobby dos fabricantes de medicamentos que os seus prejuízos serão limitados. A administração Obama puxa assim para o seu lado um importante lobby que agradecidamente colaborará na publicidade da nova lei.

quarta-feira, agosto 12

Ventos e nuvens sobre a América do Sul

Hugo Chávez quer mais do que pode. Voltou a enviar o seu embaixador para a Colômbia. A produção de café, produto de relevo na economia do país, está em forte queda devido à fixação administrativa de preços e obriga o estado a tomar conta de grandes companhias produtoras. A escalada de controlo dos meios de comunicação encontrou pela frente a oposição da Assembleia Nacional, que não autorizou para já a legislação que a procuradora geral queria ver aprovada. Estudantes e professores protestam contra a lei da educação de Hugo Chávez. Correa inicia o seu segundo mandato no Ecuador com o apoio popular já em queda. O apoio inicial da administração dos EEUU a Zelaya tem-se discretamente esfumado; restam palavras mas não há sanções. Ainda há menos de uma semana Zelaya foi praticamente empurrado para fora do México depois de uma visita sem glória. O insuspeito Los Angeles Times publica um editorial onde o golpe nas Honduras é encarado de um ponto de vista desculpante e compreensivo. Entretanto, em Tegucigalpa é decretado recolher obrigatório depois de distúrbios violentos.

De tudo isto se fala nos jornais. Mas há histórias que podem não vir a ser contadas, como a curiosa compra de uma companhia de navegação venezuelana, através de um banco falido, pela Telefonica espanhola, que terá ocorrido em data próxima da recente visita do ministro Moratinos à Venezuela. (A visita em que Moratinos disse que a liberdade de expressão no país é satisfatória.) Está tudo contado no Gringo com pormenores abundantes, e se for ficção merece um prémio porque, como é sabido, a realidade costuma ser mais rica e surpreendente.

domingo, agosto 9

Fat Man

Às 10.58 de 9 de Agosto de 1945, esta antiquada bomba seria lançada sobre Nagasaki. O alvo inicial, Kokura, escapou graças ao mau tempo. Estimativa do número de mortos imediatamente a seguir à explosão: 40000. Quase tantos como os que resultaram do bombardeamento de Tokyo uns meses antes. Hiroshima e Nagasaki são tragédias de enorme impacto e significativamente mais importantes em danos psicológicos do que as que resultaram de bombardeamentos convencionais. A espectacularidade da nova arma quase faz esquecer o papel decisivo dessa outra terrível inovação tecnológica, o B-29, o bombardeiro que operou a derrota do Japão.

sábado, agosto 8

Não beijes, não dês a mão, diz olá

Conselho do Colégio dos Médicos de Madrid para evitar o contágio da Gripe A. Melhor que lavar as mãos (o que não se consegue a toda a hora) é parar de beijocar por tudo e por nada e abster-se de mexer em quem mal se conhece. (No PÚBLICO de aqui ao lado.)

sexta-feira, agosto 7

A declínio do PhD

Caroline Tagg está de parabéns. Depois de estudar 11000 SMS de familiares e amigos, saiu-lhe um PhD na Universidade de Birmingham, com a tese intitulada "A Corpus Linguistics Study of SMS Text Messaging". Nas declarações que faz ao Telegraph podemos encontrar algumas das suas descobertas fascinantes e inesperadas, comprovando que a ciência tende a contrariar o senso comum:

-as mensagens de texto estão muito mais próximas da língua falada do que a escrita formal; constituem uma nova forma de comunicação intermediária entre aquelas duas.

-escreve-se SMS como se se estivesse a falar, e usam-se palavras desnecessárias e abreviações gramaticais.

-escrever SMS revela um grande domínio do funcionamento da língua: os escreventes de SMS revelam uma grande habilidade para abreviar e sabem que retirar as vogais deixa o significado das palavras intacto, o que não sucederia com as consoantes.

-o texto de SMS manipula as palavras com humor e usa metáforas.

A orientadora da dissertação, Professora Susan Hunston, afirma que não sabe escrever em SMSês. O que só vem mostrar que o assunto é coisa muito séria e exige erudição invulgar. Xpero k ao menox ox membrox do juri k aprexiaram a texe tivexem dentru do axuntu.

quinta-feira, agosto 6

Não é neutro, não

Vem aí a edição de 2009 da Festa do Avante. A Ciência vai estar na Festa, indo neste ano Darwin o destaque para a evolução da vida na Terra, sob o lema «da vida no universo ao universo da vida». Haverá uma exposição que abarca os últimos 65 milhões de anos e que ilustra a evolução dos primatas até ao Homo Sapiens; haverá também espaço para a observação experimental.

Mas o conhecimento não é neutro e a exposição é política de ponta a ponta. Daí, diz a organização, a atenção dada à Idade Média e [a] um bocadinho do Renascimento, períodos nos quais a defesa de uma abordagem evolucionista podia valer a fogueira; a seguir tratamos da revolução francesa e do Lamarck, depois do Darwin, que nasce entre duas grandes revoluções, a francesa e a industrial, e que por isso tem todo o seu pensamento influenciado pela época em que nasce.

Continuando a ler a informação do site, não se encontram outras referências à atribulada relação das ideias evolucionistas com os acidentes históricos. Talvez a organização atravesse uma fase de negação com respeito à URSS. Não se vê outro motivo para esquecer fogueiras bem mais recentes, sobre as quais nem um século ainda passou. É falha imperdoável que, numa exposição tão dada ao que é político, onde Darwin e Lamarck são figuras de referência, esteja ausente a figura de T. D. Lysenko - o homem que quis forçar as leis da natureza a estar de acordo com a ideologia do regime estalinista, e graças a cuja acção muitos cientistas foram demitidos ou simplesmente desapareceram. Que melhor lição sobre as relações entre política e ciência do que essa curiosa e sinistra perversão, nada materialista, que arruinou durante anos a agricultura soviética? Estou convencido de que, apesar de não estar no site, vai estar na Quinta da Atalaia nos primeiros dias de Setembro.

quarta-feira, agosto 5

Marilyn


1 de Junho 1926 - 5 de Agosto 1962

Resgates

O presidente Clinton regressou de Pyongyang com as duas reféns americanas. Vitória da diplomacia americana? O tempo o dirá, mas não maior que a de Kim Jong-il, esse homenzinho maroto que quis Bill e teve-o lá. Para o consumo externo e interno que der e vier. Há até quem diga que Bill transmitiu verbalmente a Kim um pedido de desculpas de Obama, embora pouco se saiba de que temas se falou durante o jantar de estado oferecido a Clinton.

Há obviamente aqui um resgate, se não com um cheque, pelo menos em géneros. Chantagem de estado é uma das especialidades de governos como o da Coreia do Norte. O que faz lembrar, em contraponto, a actuação bem mais materialista de Kadhafi.

Em 1988 um acto terrorista fez explodir sobre Lockerbie um avião da Pan Am, causando a morte dos 270 ocupantes. Depois de longas negociações, a Líbia acabou por reconhecer a responsabilidade no acto criminosso, tendo acordado em 2003 pagar entre 5 e 10 milhões de dólares a cada uma das famílias das vítimas. Não sei o que efectivamente foi pago, mas um facto de que ainda a semana passada se voltou a falar mostra que Kadhafi trabalhou bem para recuperar parte do rombo. À custa das enfermeiras búlgaras feitas reféns e libertadas em 2007, a Líbia pode ter recebido 72 milhões de dólares. Pelo menos o actual primeiro ministro búlgaro acusa o seu antecessor de ter pago esse resgate. É sem dúvida um típico episódio de luta política interna, mas o que se disse sobre o assunto e o que sabe das personagens não deixa muitas dúvidas de que uns milhões pingaram para a Líbia. O caso teve ainda como efeito colateral o relançamento de Kadhafi numa tournée europeia de "charme", se é que esta palavra se pode aplicar à grotesca criatura. A quem não convém lembrar tudo isto, também se sabe. Nicolas Sarkozy, que ao tempo ainda amava Cécile e não Carla, detinha oficialmente os louros da libertação, supostamente após uma difícil diplomacia, e com foto da primeira dama ao lado dos resgatados do inferno líbio.

terça-feira, agosto 4

A queda das ciências tontas

O artigo está a caminho de fazer um ano mas vale a pena lê-lo. Encontra-se no Gene Expression. Trata da decadência de determinados conceitos que surgiram nas teorias académicas mais ligadas às ciências sociais. A partir dos arquivos bibligráficos do JSTOR e procurando a ocorrência de palavras-chave relacionadas com modas "científicas" relativamente recentes, o autor (agnostic) constrói gráficos que revelam a ascenção e declínio de conceitos entre os quais: construção social, psicanálise, pós-moderno, pós-colonialismo, orientalismo, marxismo, feminismo, desconstrução. De um modo geral, observa-se a partir dos anos 90 uma queda nas ocorrências. O autor observa alguns factos interessantes:

-embora feminismo e marxismo sejam muito mais velhos que o resto, o declínio dá-se aproximadamente na mesma altura, como se uma lufada de ar fresco tivesse vindo varrer o lixo.

-a interacção entre crentes em determinada teoria, e não crentes, pode ter efeitos muito limitados: apesar de muito se ter escrito contra o pós-modernismo e o marxismo, os danos causados nas fileiras dos crentes são moderados, tendo a queda do pós-modernismo sido suave mesmo depois de o caso Sokal ter posto a nu a tolice do assunto.

-as novas gerações são menos susceptíveis de serem influenciadas pelas teorias tontas. Diz o autor (então com 27 anos) que mais valia conversar com gente na casa dos 20 do que socializar com os da sua idade: a expectativa de ter uma discussão inteligente com estes revelava-se frustrante por causa das crenças com que já estavam infectados.

(agnostic, que não brinca em serviço, iniciou um novo blog, Patterns in science and culture. Os artigos requerem muito tempo e trabalho e por isso o acesso será pago. Por 10 dólares será permitido o acesso a 20 artigos de fundo. )

Os homens não se querem bonitos (no Afegnanistão)?

Os Taliban, em campanha contra as eleições do próximo dia 20, estão a deixar avisos ao povo afegão através de "cartas nocturnas", conta a Reuters. Possuir no telemóvel imagens de mulheres que não são da família ou de rapazes bonitos é contra a dignidade exigida pela religião islâmica. A própria posse de telemóvel com funções de imagem e video não é bem vista.

À primeira vista, passado o óbvio conservadorismo de proibir fotos de mulheres "fora da família", poderia parecer despontar aqui um sinal de superioridade moral do Islão, ao dar oportunidades competitivas aos rapazes de feição grosseira, barrigudos ou de peitorais descaídos. Mas, se a notícia é correcta, notando que para as mulheres o problema nem sequer é posto, facilmente concluimos que das duas duas: o Islão é empedernidamente discriminador das mulheres e os Taliban são afinal umas bichas encapotadas.

domingo, agosto 2

"O Convite"

Não é novidade, nas obras de ficção, a substituição do narrador omnisciente pelo puzzle caleidoscópico dos múltiplos pontos de vista das personagens. Desde a novela epistolar do século 18 até à obra prima de Vargas Llosa "Conversa na Catedral", passando pelas jeunes mariées de Balzac, pelo Drácula de Stoker, pelo Tempo de Proust e pelo muito popular mas datado Quarteto de Alexandria, deu-nos a literatura obras magníficas onde uma história é contada por acumulação de narrativas que se reflectem e ampliam, adicionando camadas de luz sobre os factos, que ora se sobrepõem, ora se contradizem.

Nas formas mais populares de entretenimento (cinema e novelas da tv) o género não tem sido explorado. É necessário chegarmos ao século 21 e à decadência da qualidade da acção política em Tugal, ou mais geralmente, ao desempenho medíocre dos actores e candidatos a actores em órgãos de soberania, para assistirmos ao despontar de um novo género ficcional que vai entroncar naquela nobre tradição literária. Não é literatura nem é novela de tv: à multiplicidade de ângulos de visão junta-se nesta nova forma de contar histórias a variedade de meios que veiculam o conteúdo. Pode tratar-se de jornais, televisão, rádio ou blogs.

É claro que o novo género está a dar os primeiros passos, mas os resultados são pouco entusiasmantes. Veja-se o caso da última produção - "O Convite". O enredo, construído em torno de 4 ou 5 personagens, conta-se em duas linhas, e nem vale a pena resumi-lo aqui porque os meus 10 leitores já o sabem de cor. O que é certo é que os diálogos são de uma pobreza alarmante. Por exemplo, a personagem feminina principal diz "é uma pessoa que só vi uma vez na vida, mas... não há condições para eu aceitar", referindo-se a um dos personagens masculinos, o qual retorque "Telefonou-me depois e disse-me que tinha reflectido e não estava interessada e por isso nem fiz participação desta conversa a ninguém". Outro diz: "É muito feio fugir ao rigor dos factos". Isto é pior do que os sripts de novelas da TVI, com tiradas do tipo "Zulmira, eu tenho que ter uma conversa muito séria contigo", ou "Pois fica a saber que se continuas a rondar o Renato vais sofrer as consequências".

Há em "O Convite" a agravante de não se passar nada, o que tornaria a produção mais adequada a um festival de arte e ensaio do que ao consumo de massas, mas para isso teria de estar muitos furos acima na caracterização e espessura das personagens, as quais se limitam a desmentir-se umas às outras. É afinal uma reposição, para pior, da técnica já usada numa novela anterior, "Free Report", que se manteve em exibição até há pouco tempo, mas em que, apesar de tudo, transpirava alguma acção.

O elemento novo e subtil nesta emergente forma de entretenimento é que as personagens julgam-se dotadas de vida própria, pensam existir fora do plano ficcional. Mal uma diz uma deixa logo outra aparece a reagir, ignorando que debita um guião de baixo nível. Infelizmente, não passam de imitações baratas dos caracteres da Rosa Púrpura de Woody Allen. Os media colaboram, não distinguindo a ficção das notícias.

Corazón


Quando o presidente Marcos convocou eleições para 7 de Fevereiro de 1986, ainda pensava que daí sairia a sua legitimação interna e aos olhos do mundo.
Depois de proclamar vitória as coisas complicaram-se: a partir de 9 de Fevereiro começam a emergir sinais de fraude em grandes proporções, indicando que Corazón Aquino tinha a preferência dos eleitores.
A divisão no exército e o apoio da Igreja a Corazón Aquino tornaram as coisas complicadas para Marcos. A administração Reagan comportou-se inicialmente de modo hesitante, pendendo para o lado do presidente, mas o abandono, em fins de Fevereiro, de tropas leais a Marcos pode ter determinado a atitude de governos de todo o mundo, e em particular dos Estados Unidos, de deixar cair o reconhecimento do ditador cessante. Em menos de um mês, a democracia chegava às Filipinas numa revolução sem sangue.

No Irão houve eleições em 12 de Junho.

sexta-feira, julho 31

sábado, julho 25

Lisboa, 25 de julho

Teerão é um sítio muito longe.

Moda balnear em Gaza

Para os homens: t-shirt e calção até ao joelho. Para elas: túnica a cobrir todo o corpo e, se possível, véu para o cabelo. A polícia de costumes do Hamas está atenta. Uma mulher conta na RFI como foi repreendida por entrar na água em t-shirt e calças (ou seja, um fato de banho de homem!) na companhia de uns amigos, logo detidos e agredidos. Ah, e foi severamente admoestada por rir enquanto de banhava.

segunda-feira, julho 20

Eurabia: susto ou realidade?

Num recente artigo da Newsweek analisam-se e desvalorizam-se os medos de alguns sectores políticos e de opinião em face do avanço do Islão na Europa. A perspectiva optimista do artigo assenta basicamente em dois pontos: 1) as previsões de população islâmica maioritária na Europa a curto prazo são catastrofistas porque não têm em conta o decréscimo da taxa de natalidade em determinados grupos de imigrantes; 2) não havendo unidade política no Islão, dificilmente ele se poderá constituir como ameaça à Europa.

O artigo é comentado com elogios por David T no Harry's Place e com apupos no Pajamas Media por Carol Gould. Se os comentários concordantes com Gould não são surpreendentes neste site, já é curioso observar, também pelos comentários, que David T não parece conseguir convencer os seus leitores. Infelizmente, parecem frágeis os argumentos optimistas sobre a questão.

domingo, julho 19

Guadalete



Foi em 711 ou 712, e alguns dizem que em 19 de Julho. Tarik derrotou os visigodos em Guadalete e despachou a cabeça do rei Roderic para Damasco, onde foi exibida durante algum tempo nos portões do palácio do califa.


Tempos cruentos. Os últimos anos tinham sido de divisão e intriga no seio do poder visigótico. Roderic sucedeu a Witisa, que derrotou e a quem mandou arrancar os olhos, como vingança do mesmo que Witisa tinha infligido ao seu pai.


Dizem os cronistas árabes que Roderic morreu com nobreza. O desaparecimento do "último dos Godos" coincide com o início da conquista da Ibéria pelos Mouros.
(Pintura de Salvador Martinez Crugells)

terça-feira, julho 14

Um orgasmo por dia dá-te vida sadia

Esqueçam os tempos da educação sexual obcecada pela prevenção. Depois de anos e anos a espalhar o terror do HIV e das venéreas, o National Health Service inflecte e volta a atacar. É fácil de imaginar: os peritos acordam um dia alarmados diante do sucesso das suas campanhas ao constatarem que a juventude não anda a copular como devia. A estratégia é de uma ingenuidade comovente: agora os técnicos do NHS querem convencer a malta de que o sexo dá prazer. "Pleasure" é o nome do folheto distribuído em algumas escolas, com slogans como "an orgasm a day keeps the doctor away". Não é claro onde foi o pessoal do NHS buscar esta ideia -- provavelmente andam a ser muito influenciados por referências sexuais que impregnam o entretenimento e a publicidade, coisa a que os jovens, como se sabe, são imunes.
Lamentavelmente, estas pessoas parecem pouco dadas a encarar a realidade tal como é. Ao recomendarem o sexo como um bem para a saúde, equiparado a 30 minutos de exercício ou a 5 doses de fruta, estão a afundar a campanha. Era o que faltava, pensarão muitos, sobrecarregar o trabalho de casa com uma queca. Dasse!

sábado, julho 11

O síndroma de Slotervaart

O artigo de Nick Herbert publicado há quatro dias no Guardian tenta interpretar porque é que os Conservadores estão a ganhar votos junto da população homossexual: o argumento clássico da homofobia da "direita" já não colhe porque a "direita" mudou. Já tem mesmo os seus militantes assumidamente gay, como o próprio autor do artigo. Apoia o casamento de pessoas do mesmo sexo e a criminalização dos actos de ódio homofóbico. E vai ocupar-se do bullying sobre gays, da homofobia no desporto e evangelizar os bispos que persistem em recomendar aos gays que mudem e se arrependam. Bispos cristãos, claro: quando esta semana, durante uma conferência na National Portrait Gallery lhe foi posta a questão da homofobia na população de origem islâmica, Herbert esquivou-se com a habitual conversa de quem receia a acusação de islamofobia.


O trajecto dos conservadores na questão dos direitos de homossexuais ilustra não só que o mundo é composto de mudança mas também que todos os nichos de eleitorado dão sempre muito jeito. Mais ainda se a opinião pública está madura para apreciar gestos e atitudes políticas "progressistas". A "esquerda" já percebeu há que tempos que a conversão aos direitos das pessoas homossexuais é politicamente compensadora. Assim, neste momento até o nosso PCP e os trotskistas do BE se põem "muito à fente", fazendo tábua rasa de como os velhos comunistas tratavam do assunto, e o PS está pronto a afrontar resistências beatas ou republicanas. (Os actos homossexuais foram descriminalizados, entre nós, na letra da lei, em 1982: repare-se na data.) Com jeito e a contragosto, até o PSD lá chegará inevitavelmente.


Na Holanda, país que é referência em matéria de liberalismo de costumes, já não são só os gays que andam assustados com os ataques homofóbicos: os partidos mainstream também devem estar, com a significativa fuga de votos para partidos que defendem um travão à imigração. Parece que se tornou difícil, numa terra de muitas liberdades, andar fora do armário. E é aqui que surge a novidade mais surpreendente, mas que se insere perfeitamente na mesma tendência. Foi notícia esta semana que Ahmed Marcouch, muçulmano e autarca de Slotervaart, cidadezinha próxima de Amsterdão com população maioritariamente islâmica, afirma que vai doutrinar os seus concidadãos no sentido de olharem para os homossexuais como gente normal e respeitável. Até Manuela Ferreira Leite, quando reparar bem no que está a acontecer, irá engolir a sua "petite phrase" sobre casamento e procriação e dará o salto.

sexta-feira, julho 10

No entanto eles movem-se


Com a morte de Michael Jackson entre outros assuntos, a comunicação tem vindo a esquecer o que se passa no Irão. Ontem, aniversário da revolta estudantil de 1999, houve manifestações, buzinões e repressão policial em Teerão. Há aqui um relato que parece credível. A foto é do site da BBC em persa.

domingo, junho 28

Desassossegos



Há notícias de novas manifestações em Teerão, depois de cinco dias em que os protestos pareciam adormecidos. A polícia atacou uma concentração de 3000 pessoas junto a uma mesquita no norte da capital.

Entretanto, em Tegucigalpa, o exército deteve o presidente Manuel Zelaya e despachou-o para a Venezuela. As agências dão uma notícia que parece mal contada, mas há indícios de que o exército pode ter agido por ordem do Supremo Tribunal. Zelaya preparava-se para fazer um referendo a fim de alterar a constituição e permitir a sua reeleição em 2010. Os grandes defensores da democracia Chávez e Morales já protestaram contra o alegado golpe de estado. A Casa Branca já pediu o regresso à ordem democrática (com menos dúvidas do que no caso do Irão). Enquanto se discute qual dos lados deu o golpe, o empenho de Chávez por Zelaya ajuda a ter uma ideia de que "ordem democrática" pode não ser uma preocupação dominante para o ex-presidente hondurenho.

sexta-feira, junho 26

Dois fora do armário: Young Con Rap



Serious C:

“Yo this ones for all the young conservatives.
I rep the Northeast and I’m still a young con,
Let your voice release, you don’t have to be obamatrons.
I debate any poser who don’t shoot straight,
Government spending needs to deflate,
Your ideas are lightweight,
Ya careers in checkmate
I frustrate. I increase the pulse rate
I hate when,
government dictatin, makin, statements, bout how to be a merchant,
How to run a restaurant, how to lay the pavement
Bailout a business, but can’t protect an infant
Deficiencies are blatant, young con treatment
I stand one man, outnumbered at my college
Thank you Miss Cali for reminding us of marriage
Can’t support abortion, and call yourself a Christian
I support life, you’re a puzzled politician
Terrorists were imprisoned at Guantanamo Bay,
Now they’re in our neighborhoods, planning out doomsday
No such thing as utopia,
no government can control ya, baby ya,
Reap the benefits hard work, self reliant
Listen to Stiltz, my dude’s a lyrical giant

Yo Stiltz… make it two time… please”

Stiltz:

“I’m 6′9 head and shoulder above the rest
Liberals playin checkers, I’m playin chess
My conservative view is drill baby drill
You can say you hate me but
I’m praying for you still
My dislike for thee most def is not hyperbole
Taxes are the subject and I will spit them verbally
I’m just livin life a conservative philosophy
Sorry Hilary not a right wing conspiracy
We need more women with intellectual integrity
I’m talkin Megyn Kelly not Nancy Pelosi
My main motto is you best work hard
It’s not the hand you were given, but how you lay down your cards
I don’t speak lies but I spit the facts
28% the new capital gains tax
Porkulus bill lacks a few stats
The more money we spend, the more mine is worth Jack
The Bible says we’re a people under God,
Usin radar for radical Jihad
AIG was hooked up by Chris Dodd
A classy gift ain’t an Ipod
The standards of my crew ain’t republicans dude
I’m reppin Jesus Christ and conservative views
Study history and true conservative moves
Every single time they refuse to lose
I’m starting to see a modern day Jimmy Carter
When really nothin but a Reagan era starter”

Serious C:

“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”

Stiltz:

“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”

Serious C:

“Phase me, make me, into something that ain’t me
Serious c… can’t nobody shake me
great like the Gatsby, poppin posers like acne
Don’t matter if your gay, straight, Christian or Muslim
There’s one thing we all hate, called socialism.
It’s loathsome, and America ain’t the outcome,
Raise taxes on the people,
And you’re gonna feel symptoms, problems
I gotta message for a young con:
superman that socialism,
waterboard that terrorism”

Stiltz:

“I fulfill the role that’s inherently mine
Teaching politics through my rap and my rhyme
I’m signing off this track with a question in mind
How will this country get its precious change in time?
Three things taught me conservative love:
Jesus, Ronald Reagan, plus Atlas Shrugged
Saving our nation from inflation devastation
On my hands and my knees praying for salvation”

Serious C:

“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”

Stiltz:

“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”

(Visto em Harry's Place.)

domingo, junho 21

Santos que não fazem milagres

Na zona noroeste de Lisboa há uma pequena aldeia perdida entre descampados e novas urbanizações. Costuma ser muito visitada por ter grande concentração de restaurantes. Os habitantes e vizinhos vivem lá em paz disfrutando durante onze meses por ano de um sossego pouco vulgar na grande cidade.

Depois vêm os santos populares. Com a colaboração da junta de freguesia, o bonito largo do coreto transforma-se em estacionamento de barracas para comeretes e beberetes, cobertas por plásticos de cores variegadas e com anúncios manuscritos em papel, lembrando o saudoso mundo pré-ASAE do século XX. Há também um palco para emissão de música pimba em alto volume.















Esta não é, infelizmente, a única contribuição da autoridade local para desfear o sítio, ao mesmo tempo que dificulta a vida aos cidadãos. Beberetes rima com pilaretes, e a pilaretofilia é um vício entranhado nos poderes autárquicos. Eles não faltam aqui, tal como estão obsessivamente

presentes em tudo o que é nova urbanização. Uma via larga, por exemplo, é munida de uma placa central, pronta a afunilar o trânsito; os pilaretes parecem reproduzir-se à volta como uma praga. Entretanto, no seu boletim mensal de Junho (16 páginas a cores em bom papel, com reduzido interesse e grafismo medíocre - "distribuição gratuita", diz a capa como eu fosse burro) a junta diz que há "muitos e bons motivos para festejar os santos populares" aqui.

sábado, junho 20

Teerão, 20 de Junho



(http://raymankojast.blogspot.com/)



O mundo tem os olhos postos no Irão. Parece que os satélites do Google também.
Estão 28 graus em Teerão e a hora local tem um avanço de 3h 30min em relação à hora de Lisboa.

Actualizações constantes aqui.

Como de outras vezes, há notícia de cancelamento do protesto. As últimas da bbc reafirmam que a manifestação se realizará.

sexta-feira, junho 19

Irão

Notícias não confirmadas falam da presença de elementos do Hamas e do Hezbollah a colaborar com as autoridades do Irão na repressão dos protestos em curso. Surge aqui alguma documentação fotográfica (via Gateway Pundit).

Sabe-se como o Twitter tem sido suporte da informação sobre o que se passa nestes dias no Irão. O Guardian apressou-se a noticiar, há três dias, que o Presidente Obama teria instado o Twitter a não interromper o serviço (esteve programada uma pausa). Parece agora que afinal a sugestão não partiu de Obama, mas sim deste rapaz contratado pela Condolezza.

Um porta voz de Mousavi, em entrevista dada em Paris, queixa-se de alguma indefinição de Obama. "Será que ele gosta quando alguém disser que não há diferenças entre Obama e Bush? Ahmadinejad é o Bush do Irão."

O governo egípcio teme que as atitudes demasiado cautelosas das potências ocidentais enviem uma mensagem inconveniente ao regime iraniano. (MEMRI)

Ahmadinejad descobre com horror que afinal há homossexuais no Irão e ainda por cima não devem ter votado nele. (GUARDIAN)

quarta-feira, junho 17

Irão, 5º dia

Mais fotos e notícias aqui.

segunda-feira, junho 15

Hoje, em Teerão

Os iranianos desafiam na rua a ditadura. Fala-se de mais de um milhão em protesto. As televisões não estão lá, mas há o Twitter. O site de Ahmadinejad parece ter ido abaixo por acção de hackers.

domingo, junho 14

Por quem se levanta o Irão?



Que fizeram do meu voto? perguntam multidões em desasossego por todo o Irão (as imagens referem-se a manifestações em Zahedan e encontram-se mais aqui.)
Mas que lamentam estas pessoas? apetece perguntar. Claro que sabemos: a não eleição de Mousavi Khameneh, dito reformista. Este ex-primeiro ministro e mestre em arquitectura, que em 1989 apoiou a fatwa sobre Salman Rushdie, e durante o seu mandato fechou todas as universidades, foi responsável pela matança de milhares de pessoas no início dos anos 80, tendo presenciado a execução e enterramento em valas comuns de 30 prisioneiros políticos em 1988. Simpatizante da ideologia socialista, favoreceu o baby-boom através da concessão de benefícios pelo estado.

A dita vitória de Ahmadinejad tem ao menos a vantagem de não nos iludir a nós, espectadores distantes. Com ele, já sabemos do que a casa gasta. Com Mousavi, ainda muitos haviam de pensar que sim, que podiam.

Actualização (15/06) Jornalistas e operadores de tv europeus foram impedidos de cobrir os protestos. Circula a notícia de que uma manifestação prevista para hoje às 16h em Teerão terá sido agora desconvocada.

sábado, junho 13

Sondagens e votos: uma meditação no caso italiano

Num artigo de Ivo Diamanti, surgido ontem no Repubblica, comenta-se que pela primeira vez as sondagens atribuiram à Lega Nord percentagens muito próximas do resultado obtido na votação (ligeiramente acima dos 10%). Anteriormente, as sondagens faziam previsões para a Lega muito abaixo dos resultados. O autor alinha razões para explicar este facto, e a primeira é que as pessoas perderam a vergonha de dizer que votariam na Lega. Argumentos e linguagem estigmatizados perante a opinião dominante, mas determinantes do voto de uns quatro milhões de eleitores, deixaram de causar embaraço. A Lega continua a usar os mesmos termos ou até mais violentos do que antes, mas, num ambiente onde todos dizem mal de estrangeiros e ciganos, já não impressiona particularmente. A Lega tornou-se popular e os profissionais das sondagens digeriram-na e assimilaram-na. Está enquadrada na normalidade italiana.

"Tonterias" de género

Na semana que passou, um juiz de Santander condenou a 7 meses de prisão uma mulher por considerar provado que agrediu a sua companheira, de quem estava em vias de separação. As agressões, que levaram a vítima ao hospital para tratamentos ligeiros, deveram-se a desentendimentos que já vinham de há muito: as duas eram obrigadas por constrangimentos económicos a partilhar o espaço em que sempre coabitaram. A acusada foi condenada pelo crime de violência doméstica na forma de maus tratos. Uma história banal... até aqui.

Acontece que o juiz considerou, para além do que se referiu, que os factos configuravam o tipo a que se refere determinado artigo do código penal espanhol, relativo à violência de género. Esse artigo, introduzido na lei espanhola em 2004, agrava a penalização do agressor quando ele é o homem do casal e o outro membro do par é mulher (ainda há casos destes). Houve iniciativas de diversas instâncias judiciais no sentido de ser declarada a inconstitucionalidade do artigo (por materializar discriminação com base no sexo), mas não foram atendidas.

Vamos, portanto, voltar a ouvir falar do caso. Enquanto a sentença recebe palmas e assobios, o delegado do governo para a violência de género discorda da aplicação do artigo a este caso, e paira no ar a possibilidade de recurso do Ministério Público. Eu se estivesse no lugar da condenada também recorreria. Já que o juiz parece prestar-se a estes jogos, podia argumentar que o homem afinal era a outra, uma verdadeira macha sapatona, bruta e intratável, constantemente a pedi-las. Além disso exigiria do estado uma indemnização pela ofensa de me equipararem a esse género animalesco e retrógrado.

segunda-feira, junho 8

Também fora da Europa

A esquerda acaba de perder também fora da Europa: depois de anos a defender o diálogo com o Hezebollah, o povo do Líbano derrotou nas urnas a coligação de que faziam parte os islamo-fascistas.

domingo, junho 7

Sílvio coisificado

Assim é que deve ser já que todos somos europeus. Em face da impotência e inabilidade da oposição em Itália para destronar Silvio, transfere-se a oposição para a Península Ibérica, com o El País imparável a mostrar fotos escandalosas de umas pessoas à beira de uma piscina sem saias nem gravatas, e a publicar uma fatwa do nosso Saramago sobre o incrível cavaliere. Há pelo um cu de mulher à mostra e o que parece ser uma pila de homem, tudo muito banal. Claro que as fotos podem ser apenas um trailer ou aperitivo do que virá a seguir, mas para já servem de apoio à prosa que desanca valentemente no Sílvio mitómano, a-cultural, esquecido de que é um avôzinho operado à próstata quando senta aos joelhos as suas crisálidas de 18 anos. Saramago vai mais longe, despromovendo Sílvio a "coisa que organiza orgias", mas ao mesmo tempo cobrindo-o da importância suficiente para ser o "causador da morte moral da Itália de Verdi". Saramago não lhe perdoa e chama-lhe "acompanhante de menores": o plumitivo é casado com uma senhora apenas 28 anos mais nova e tudo o que exceda esse número deverá deixá-lo desorientado e sem referências.

Mas quem explica com enquadramento teórico porque é que Berlusconi soma e segue são os sociólogos. Em entrevista ao El Mundo, Giuseppe de Rita analisa a admiração dos italianos pelo governante. Silvio personifica "a liberdade de cada um ser ele próprio" e esse é um traço estruturante do presente ciclo histórico-cultural. Os italianos admiram o seu perfil. Todos gostariam de ser "evasor fiscal, estudante que agride a professora, jovem que se droga, empresário que não paga impostos ou salários". Além disso acham que as chavalitas de 15-16 anos são todas umas putinhas, pelo modo como vestem e andam por aí: de modo que ninguém vai censurar o cavaliere por andar com uma miúda de 18. Nem os problemas com a justiça os demovem de o admirar: como a justiça tem péssima imagem pela ineficácia e pela lentidão, Silvio consegue até fazer passar a ideia de que é um perseguido por um sistema pouco limpo. E, acima de tudo, a Itália é o país do perdão, do indulto, da moratória, por maior que o pecado seja. Se o sociólogo tem razão, estão errados os que lamentam a pouca sorte dos italianos, vivendo num regime opressivo comandado por um ditador delinquente. Ao mesmo tempo podemos ficar descansados: um tal fenómeno nunca poderia acontecer entre nós, porque felizmente, como povo, não temos aqueles defeitos execráveis dos italianos.

quarta-feira, junho 3

As matérias alternativas

Alberto Mariani, professor de matemática na secundária de Cesena (cidade próxima da costa do Adriático, Itália), é hoje notícia nos jornais e blogs italianos. O motivo: ter efectuado um inquérito aos alunos sobre se prefeririam, em vez da hora de Religião, que a escola lhes oferecesse matérias alternativas (História das Religiões ou Direitos Humanos). Um colega queixou-se à direcção regional e Mariani foi punido com dois meses de suspensão.

Não é necessário ir ler os sites para imaginar o clamor de indignação e a solidariedade que se está a erguer em torno do professor. As respostas ao questionário mostram que apenas 11% dos inquiridos não optariam pelas matérias alternativas. Pessoalmente julgo que ensinar história das religiões poderia ser mais proveitoso (até para a religião católica).

Mas, por mera curiosidade científica, gostaria que o professor tivesse repetido o inquérito perguntando se os alunos pretenderiam que a oferta formativa da escola lhes oferecesse alternativas à matemática. Para comparar as percentagens.