I. Desabafo de um oprimido pelo correio electrónico.
Havia um tempo em que o correio chegava a uma hora fixa do dia e nos dava tempo para elaborar a resposta ou outros procedimentos adequados. Agora o e-mail, que usurpou as funções do outro, chega em cada momento. Ainda estamos a responder a uma mensagem e já outra se interpõe, frequentemente a alterar pressupostos da anterior. Também nos pedem frequentemente uma confirmação de leitura para garantir que não escapamos a replicar.
Também faz falta um livro de etiqueta do correio electrónico. Que diga coisas tão simples como, por exemplo, esta: enviar uma resposta a dizer simplesmente "obrigado" por uma informação recebida é falta de educação e de consciência ecológica, pois implica perdas de tempo inúteis e contribui para entulhar a nossa caixa de enviados e a caixa de entrada do correspondente. O remetente deve poder também accionar um botão que transmita a notificação: por favor não responda a não ser que tenha alguma coisa substancial a acrescentar.
II. Filmes sobrevalorizados
Muito interessante esta série de artigos do blog de Santiago González sobre alguns dos filmes mais sobrevalorizados de sempre. Assino por baixo em relação ao Clube dos Poetas Mortos, cujo pretensiosismo e mensagem rançosa identifiquei à primeira, mas confesso que gostei da Morte em Veneza até à terceira vez que vi o filme. Foi à quarta que me apercebi do kitsch e pechisbeque envolvente, mas mesmo assim continuo a recordá-lo como um objecto interessante. A cena que mais costumo recordar, com um sorriso interior, é aquela em que o empregado bancário chama à parte o Aschenbach para lhe explicar o siroco e os itinerários da peste. Também gostei dos pregões dos vendedores de morangos no Lido.
quarta-feira, agosto 6
terça-feira, julho 22
Vargas Llosa, honoris causa em Lisboa
Aplausos hoje para Mário Vargas Llosa e para a Universidade Nova de Lisboa, que confere ao grande escritor o grau de doutor honoris causa.
Há uns meses atrás, Juan Carlos Monedero, um patético fascista (sem saber) do novo partido P(H)ODEMOS e professor da Universidade Complutense de Madrid, pedia num jornal o julgamento em tribunal popular de Vargas Llosa, que qualificou de "patético democrata".
Temos que assinalar quando constatamos que na Universidade ainda há lugares onde habita a inteligência. Se os exemplos como o de Monedero proliferassem, alguém teria de perguntar, como Santiago, enquanto contempla alguma avenida triste e enevoada: Em que momento se fodeu a Universidade?
Há uns meses atrás, Juan Carlos Monedero, um patético fascista (sem saber) do novo partido P(H)ODEMOS e professor da Universidade Complutense de Madrid, pedia num jornal o julgamento em tribunal popular de Vargas Llosa, que qualificou de "patético democrata".
Temos que assinalar quando constatamos que na Universidade ainda há lugares onde habita a inteligência. Se os exemplos como o de Monedero proliferassem, alguém teria de perguntar, como Santiago, enquanto contempla alguma avenida triste e enevoada: Em que momento se fodeu a Universidade?
quarta-feira, julho 16
O escudo e a culpa
Frase encontrada numa notícia do EL MUNDO de hoje (itálico e negrito nossos):
En Israel, por su parte, un muerto y más de diez heridos tras 1300 proyectiles de Hamas y la Yihad. La batería Cúpula de Hierro es la culpable del reducido número de muertos y heridos al haber interceptado unos 230 que iban dirigidos a zonas urbanas. Los últimos cuatro proyectiles interceptados esta mañana los ya famosos M75 de fabricación casera de Hamas iban dirigidos a Tel Aviv.
Para lá da curiosa redacção, talvez a culpa esteja atribuída com ligeireza. Pelo menos há peritos do MIT que divergem desta narrativa, e tentam explicar com gráficos e tudo.
En Israel, por su parte, un muerto y más de diez heridos tras 1300 proyectiles de Hamas y la Yihad. La batería Cúpula de Hierro es la culpable del reducido número de muertos y heridos al haber interceptado unos 230 que iban dirigidos a zonas urbanas. Los últimos cuatro proyectiles interceptados esta mañana los ya famosos M75 de fabricación casera de Hamas iban dirigidos a Tel Aviv.
Para lá da curiosa redacção, talvez a culpa esteja atribuída com ligeireza. Pelo menos há peritos do MIT que divergem desta narrativa, e tentam explicar com gráficos e tudo.
quinta-feira, junho 26
De Espanha, hoje
UM: Será a notícia um balão de ensaio? A Monumental de Barcelona vai ser a maior mesquita da Europa. Terá um minarete com 300 metros de altura e capacidade para 40 mil pessoas. O financiamento vem do Qatar (pelo menos a nível intermédio) e ultrapassa os 2 mil milhões. A cultura sangrenta da tourada dá assim lugar a nova espiritualidade e nova cultura onde cabem as amputações e apedrejamentos a pessoas e a inspiração para fazer saltar pelos ares pequenas ou grandes aglomerações de gente.
DOIS: A ex-Infanta no banco dos réus? Pode até ser, mas sendo incerta a permanência da acusação de branqueio de dinheiro, muitos não acreditam. Apesar de tudo, o juiz Castro reabilitou pelo menos a imagem de uma Cristina-a-Tonta que não percebe nada do que se passa na própria casa nem das andanças em que se entretém o marido. No caso Nóos, os procuradores tinham-lhe feito o favor de fingir que a julgavam mentecapta.
TRÊS: Magdalena Álvarez renuncia finalmente ao lugar dourado no Banco Europeu de Investimentos, a fim de evitar a destituição que aí viria. Envolvida no lamacento caso dos EREs de Andaluzia e formalmente já indiciada, a Senhora Álvarez retira-se por agora com direito a um salário reduzida a cerca de 10 mil euros por mês até 2017, após o que terá de se contentar com uma pensão de 4000 euros, porque, coitada, só tem 4 anos de serviço. O que ela não poderia ainda amealhar até ao fim do mandato, se não tivesse tido esta pouca sorte. Com a arrogância usual dos corruptos, declara-se inocente e vítima de perseguição política.
DOIS: A ex-Infanta no banco dos réus? Pode até ser, mas sendo incerta a permanência da acusação de branqueio de dinheiro, muitos não acreditam. Apesar de tudo, o juiz Castro reabilitou pelo menos a imagem de uma Cristina-a-Tonta que não percebe nada do que se passa na própria casa nem das andanças em que se entretém o marido. No caso Nóos, os procuradores tinham-lhe feito o favor de fingir que a julgavam mentecapta.
TRÊS: Magdalena Álvarez renuncia finalmente ao lugar dourado no Banco Europeu de Investimentos, a fim de evitar a destituição que aí viria. Envolvida no lamacento caso dos EREs de Andaluzia e formalmente já indiciada, a Senhora Álvarez retira-se por agora com direito a um salário reduzida a cerca de 10 mil euros por mês até 2017, após o que terá de se contentar com uma pensão de 4000 euros, porque, coitada, só tem 4 anos de serviço. O que ela não poderia ainda amealhar até ao fim do mandato, se não tivesse tido esta pouca sorte. Com a arrogância usual dos corruptos, declara-se inocente e vítima de perseguição política.
domingo, junho 15
Enigmas, ou nem por isso
Em face das não tão surpreendentes notícias sobre o tumulto no Largo do Rato, a questão relevante para o espectador é compreender as diferenças entre as facções que se enfrentam. O boato mais consistentemente propagado, com a anuência de meios de comunicação, instila o dogma de que o António com apelido Costa é uma figura politicamente mais forte e com mais credibilidade para "mobilizar os portugueses" (ou lá o que é) do que o António com apelido Seguro. A inesperada jogada deste último, assente em recursos de secretaria e revelando que é um homem que detesta chatear-se sozinho, instala a confusão noutro nível. Afinal, percebe-se que o de apelido Seguro é mais teso e menos panhonho do que os detractores querem fazer crer. Assim, não se percebendo nenhuma diferença de ideário entre um e outro, não havendo curriculum relevante de nenhum deles (pelo contrário talvez sim), e parecendo agora equiparadas as capacidades de ambos em politiquear, o que está em jogo é mais óbvio do que antes: uma simples guerra entre dois grupos com os respectivos cortejos de apoiantes e dependentes. Nada de extraordinário nem que não exista noutros partidos. Nem admirável é o facto de as sondagens parecerem dar o primeiro lugar ao grupo que é apoiante do péssimo governo anterior.
domingo, maio 25
Depois da reflexão
Há bocado ia tendo uma recaída que quase me levou à assembleia de voto. Ora, como o nome do blog indica, não tive o tempo necessário para dedicar atenção à feira de promessas e insultos a que se convenciona chamar campanha. Assim, fui fazer uma consulta rápida ao site da Comissão Nacional de Eleições. O resultado foi desolador e fez imediatamente arrefecer a minha fraca intenção. O sítio contém as listas de candidatos e os contactos dos mandatários. Mas não há linhas mestras, resumo, palavras-chave de programa algum. Um homem tem de andar a procurar no google e nem sempre resulta. É verdade que também podia ter telefonado aos mandatários para me tirarem algumas dúvidas, mas não me pareceu adequado. As listas estão cheias de gente quase desconhecida, com excepção de 3 ou 4 cabeças de cartaz. Pior do que isso são os nomes das candidaturas. Há um "partido da terra" (starring um advogado polémico, como os jornalistas gostam de dizer), outro "pelos animais e pela natureza" (apoiado por um maestro muito conhecido que se declara alarmado com o degelo polar) e um "livre" (assim, sem nenhum substantivo, que péssimo aspecto). Além disso há um nítido excesso de escolhas socialistas e comunistas. Há uma CDU que aparece com o nome de Coligação Democrática Unitária e também Coligação Unitária Democrática. Deveria haver um ente regulador da estética dos actos eleitorais. Achei a informação um pouco abandalhada. Deixo-me estar.
quinta-feira, maio 1
Das instáveis renováveis
Num tempo de dirigentes frouxos, asserções estereotipadas e discursos suporíferos, na República Checa há alguém que fala pela própria cabeça. É o presidente Milos Zeman. De esquerda, ou populista, como o descrevem os meios do arco da comunicação. Haja quem se preocupe em manter os ouvintes acordados.
domingo, fevereiro 9
A "política científica" nos jornais
Com a diminuição do número de bolsas oferecidas pela FCT, chega ao grande público o debate em que organizações de bolseiros e órgãos universitários por um lado, e pessoas do governo por outro, se enfrentam em posições extremadas. Os jornais fazem a sua investigação: ainda hoje o PÚBLICO dá grande destaque a um artigo cujo título ("Governo legitima mudança na política científica com dados descontextualizados") é uma tomada de posição. No calor do debate, não tem sido muito lembrado que temos um Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, que este conselho tem emitido pareceres e recomendações, e que eles parecem estar muito bem arrumados em alguma gaveta. Em particular, são interessantes as sugestões sobre o que interessaria modificar nos estatutos da carreira docente universitária e da carreira de investigação. Mas esse debate é possivelmente menos entusiasmante e menos susceptível de alinhar unanimismos do que o da contagem dos euros gastos em bolsas. Entre os temas desagradáveis a discutir estão as vantagens e inconvenientes da tenure, e os espartilhos do actual estatuto de carreira, que congela os horários semanais em limites perversos e não permite diferenciar salários.
Afinal, sempre é mais fácil olhar para uma folha de Excel do que ir ao fundo de questões incómodas - particularmente para as universidades.
Afinal, sempre é mais fácil olhar para uma folha de Excel do que ir ao fundo de questões incómodas - particularmente para as universidades.
sexta-feira, fevereiro 7
Titulite
A tendência de alguns políticos profissionais para se apresentarem publicamente com currículos académicos meio falsos ou simplesmente suspeitos não é uma originalidade portuguesa. Na verdade, tanto o nosso ex-PM como Relvas podem considerar-se modestos ao ficarem-se por licenciaturas executadas com um cuidadoso "tuning". Há dois dias, o El Mundo denunciava que Pilar Rahola - figura de relevo nos meios políticos catalães - enriquecia as suas biografias oficiais com dois doutoramentos falsos.
Na sequência desta notícia, Santiago González revela, no seu blogue, um punhado de outros casos.
A titulite é possivelmente uma doença ibero-americana. Por cá, no Brasil e na América do Sul, ser senhor ou senhora sabe a pouco, e por isso há necessidade de ser chamado dr. ou engenheiro. Em Portugal o caso é verdadeiramente mórbido. Senhor é o canalizador que nos veio resolver a inundação na casa de banho ou Rajoy, senhora é a nossa empregada doméstica ou Merkel. Os media portugueses colaboram na farsa, incapazes da noção do ridículo.
Na sequência desta notícia, Santiago González revela, no seu blogue, um punhado de outros casos.
A titulite é possivelmente uma doença ibero-americana. Por cá, no Brasil e na América do Sul, ser senhor ou senhora sabe a pouco, e por isso há necessidade de ser chamado dr. ou engenheiro. Em Portugal o caso é verdadeiramente mórbido. Senhor é o canalizador que nos veio resolver a inundação na casa de banho ou Rajoy, senhora é a nossa empregada doméstica ou Merkel. Os media portugueses colaboram na farsa, incapazes da noção do ridículo.
quinta-feira, janeiro 2
Proust, cem anos de presença
Terminado o ano dos 100 anos do início da publicação de "Em busca do Tempo Perdido", inicia-se um novo período de 100 anos para continuar a falar da obra de Proust.
Há poucos dias defendia-se, no Telegraph, que há na Recherche traços de um humor fino e subtil. E, graças aos comentários, descobri um site com informação e comentários abundantes no goodreads, que é uma espécie de facebook onde as caras se escondem para dar lugar aos livros. O grupo é muito activo na discussão.
Há poucos dias defendia-se, no Telegraph, que há na Recherche traços de um humor fino e subtil. E, graças aos comentários, descobri um site com informação e comentários abundantes no goodreads, que é uma espécie de facebook onde as caras se escondem para dar lugar aos livros. O grupo é muito activo na discussão.
domingo, dezembro 1
O povo não entende a mensagem
Petardos e um polícia ferido na chegada ao Dragão
Ou o povo está distraído, ou Soares e Roseta não se explicaram bem.
terça-feira, novembro 5
É só estratégia
As crianças estão a enfrentar grandes dificuldades quando tentam ajudar os pais a ajudá-las a elas nos trabalhos de casa de matemática.
Verifique aqui se sabe somar 67 com 16. Em caso de dificuldade, o seu filho explica-lhe. Apesar de aparecer por ali um miúdo desmancha-prazeres que põe tudo ao contrário: "[com] o meu pai é mais fácil... o meu pai ensina-me bem".
domingo, novembro 3
Angular momentum
Stunning, breathtaking, e por aí, são os adjectivos comuns que a publicidade usa com filmes como o Gravity. Não posso dizer que não tenha gostado, mas não me entusiasmou por aí além. Talvez o IMAX do Colombo não estivesse a funcionar bem nesse dia. Também não sei se é deficiência minha, mas não percebi bem o que é que distingue o IMAX do Colombo das outras salas 3D om écrans grandes. IMAX era no século XX, em Vila Franca de Xira. Mas adiante.
Do ponto de vista cinemtográfico e artístico, talvez a questão mais pertinente que se possa colocar é a que levanta Neil deGrasse Tyson num seu tweet de 6 de outubro: Porque é que alguém há-de ficar impressionado com um filme de gravidade zero, 45 anos depois de 2001?
A pergunta poderia ser feita por um vulgar crítico de cinema, mas para falar de Gravity é mais adequado ler o que têm a dizer pessoas que sabem Física.
Tyson gostou do filme e disseca, nos seus tweets de 6 de outubro, os "Mistérios de Gravity", apontando imprecisões científicas. O Lubos Motl também curtiu (peço compreensão para o uso deste vocábulo, mas julgo-o adequado para falar de um filme que eu vi em cinema de pipocas) e sobre ele escreveu um artigo bem humorado. Ambos dão argumentos para que o título do filme pudesse ser Gravidade Zero ou Momento Angular. A rotação é o tema de muitas sequências, e sobre a conservação do momento angular Gravity não ficciona.
domingo, outubro 6
...que se sepa más adelante
Jamal Zougam não é um nome lá muito conhecido. É o nome do único condenado no processo dos atentados do 11 de março em Madrid. Jamal foi identificado por duas testemunhas romenas. Recentemente, dados novos levaram a juíza Belén Sánchez a pedir novas investigações: as duas testemunhas estão agora acusadas de falso testemunho. Na passada quinta feira, em tribunal, recusaram-se a falar. Em Espanha só o El Mundo dedicou algum espaço a esta notícia. Possivelmente é coisa que não tem importância nenhuma, apesar de ter influenciado o resultado de uma eleição e o caminho político de Espanha nos anos seguintes. Ou então não é oportuno ainda que se saiba seja o que for. Alguém conta que, tendo perguntado ao Juiz Bermúdez quem no seu entender teria estado na origem do 11 de março, a resposta foi mais ou menos que hay cosas tan graves que es mejor que no se sepan todavia, que se sepan más adelante.
Acesso livre, uma história mal contada
O PÚBLICO contou ontem a revelação bombástica da Science: muitas revistas de acesso livre foram "apanhadas" a aceitar para publicação um artigo científico forjado e carregado de disparates.
A Science deu destaque ao relato de John Bohannon, jornalista que perpetrou o falso artigo e o submeteu a revistas de acesso livre mas não às de comercialização convencional, pagas por assinatura. A Science publica conclusões que valem o que valem, obtidas com uma falha metodológica evidente: se se pretende comparar os dois tipos de revistas, é preciso estender a cilada a todas. O PÚBLICO não se preocupa muito com isso e quem redigiu a notícia nem procurou saber mais. O ponto de vista de Björn Brembs, biólogo da Universidade de Regensburg, daria um título bem diferente do do nosso PÚBLICO: A Science rejeita dados e publica anedota.
Por muito que se desconfie da qualidade das revistas de acesso livre, talvez seja útil perguntar se o problema não estará a montante, na zona obscura da revisão por pares, como é apontado neste artigo de Kausik Datta.
A demonização do acesso livre costuma basear-se na insinuação de que se trata de um processo em que os autores compram a aceitação de artigos. Este risco é real, mas a descrição é tudo menos rigorosa. Normalmente não são os autores, mas as instituições em que eles estão filiados, que realizam o pagamento. Dito de outro modo, as revistas de acesso livre só podem viver de fundos públicos (através das agências de financiamento da ciência), tal como as revistas convencionalmente estabelecidas o fazem, através da venda de assinaturas. Ao que se assiste é à emergência de um novo lobby de editores que procura disputar o financiamento público aos que já estão no mercado. Ao coexistirem, e não havendo fundos a dobrar, haverá guerra, que de resto já parece ter começado.
A situação é na verdade ainda mais complicada, pois muitas revistas convencionais começam a criar zonas de acesso aberto, já para não mencionar que também por vezes pedem subsídios (nem sempre obrigatórios) para publicação dos artigos aceites. E note-se que actualmente as editoras se limitam a administrar o processo de submissão e aceitação, a colocar o nome do jornal no cabeçalho e a armazenar o material publicado. Os autores fazem a composição, e os revisores anónimos, ou as instituições a que pertencem, não costumam receber qualquer pagamento. Como um processo de revisão sério pode representar muitas horas de trabalho, as agências de financiamento e as universidades deveriam bater o pé em face das editoras, sejam as convencionais ou as de acesso livre.
A Science deu destaque ao relato de John Bohannon, jornalista que perpetrou o falso artigo e o submeteu a revistas de acesso livre mas não às de comercialização convencional, pagas por assinatura. A Science publica conclusões que valem o que valem, obtidas com uma falha metodológica evidente: se se pretende comparar os dois tipos de revistas, é preciso estender a cilada a todas. O PÚBLICO não se preocupa muito com isso e quem redigiu a notícia nem procurou saber mais. O ponto de vista de Björn Brembs, biólogo da Universidade de Regensburg, daria um título bem diferente do do nosso PÚBLICO: A Science rejeita dados e publica anedota.
Por muito que se desconfie da qualidade das revistas de acesso livre, talvez seja útil perguntar se o problema não estará a montante, na zona obscura da revisão por pares, como é apontado neste artigo de Kausik Datta.
A demonização do acesso livre costuma basear-se na insinuação de que se trata de um processo em que os autores compram a aceitação de artigos. Este risco é real, mas a descrição é tudo menos rigorosa. Normalmente não são os autores, mas as instituições em que eles estão filiados, que realizam o pagamento. Dito de outro modo, as revistas de acesso livre só podem viver de fundos públicos (através das agências de financiamento da ciência), tal como as revistas convencionalmente estabelecidas o fazem, através da venda de assinaturas. Ao que se assiste é à emergência de um novo lobby de editores que procura disputar o financiamento público aos que já estão no mercado. Ao coexistirem, e não havendo fundos a dobrar, haverá guerra, que de resto já parece ter começado.
A situação é na verdade ainda mais complicada, pois muitas revistas convencionais começam a criar zonas de acesso aberto, já para não mencionar que também por vezes pedem subsídios (nem sempre obrigatórios) para publicação dos artigos aceites. E note-se que actualmente as editoras se limitam a administrar o processo de submissão e aceitação, a colocar o nome do jornal no cabeçalho e a armazenar o material publicado. Os autores fazem a composição, e os revisores anónimos, ou as instituições a que pertencem, não costumam receber qualquer pagamento. Como um processo de revisão sério pode representar muitas horas de trabalho, as agências de financiamento e as universidades deveriam bater o pé em face das editoras, sejam as convencionais ou as de acesso livre.
quarta-feira, setembro 25
Constituições
Agora, no Constitute, podem consultar-se as constituições de 117 países. O ficheiro pdf da nossa tem 110 páginas, e o da constituição da República Checa tem precisamente metade disso.
sábado, setembro 21
quarta-feira, setembro 11
"Um país perdido"
Domenico Quirico, jornalista italiano tomado como refém e agora libertado, contou hoje à France Inter o caos em que a Síria se tornou. O que resta da revolução, diz ele, são grupúsculos que não podem opor-se aos djihadistas, muitos dos quais apenas utilizam a religião e a revolução para fazer negócios sujos. Não faz sentido falar de oposição porque não há interlocutor credível do lado dos que querem a queda de Assad.
Na sua carreira de refém passou de grupo em grupo, detido em cubículos sem luz mas com abundante companhia de insectos. Está vivo porque era um valor transacionável para esses grupos.
Na sua carreira de refém passou de grupo em grupo, detido em cubículos sem luz mas com abundante companhia de insectos. Está vivo porque era um valor transacionável para esses grupos.
sexta-feira, setembro 6
As guerras tontas e as que não o são
Ao fundo, na Síria, uma tragédia que dispensa adjectivos. À boca de cena, as movimentações dos actores políticos têm alguns toques de comédia. Um presidente que lança para o ar uma linha vermelha mas que mais parece ter caído numa armadilha ao fazê-lo. Outro que o segue mas logo tem que dar meia volta porque tem um parlamento. Outro que mantém o entusiasmo bélico porque dispensa a maçada do parlamento. Um czar que observa com complacência resistente, mas sabe-se lá se não está mais envolvido do que parece. Sectores importantes dos Republicanos, nos Estados Unidos, não apoiam o ataque, e é difícil perceber onde acabam os efeitos das más experiências recentes, do Iraque às "primaveras", e onde começa a rejeição pura e simples da agenda de Obama. As figuras públicas da intelligentsia e do espectáculo, com prática de protestos anti-bélicos, enquistam-se desta vez numa ausência conspícua. Mas quanto a papéis trocados, como nas boas farsas, nada mais estimulante do que um velho discurso de 2002:
I don't oppose all wars ... What I am opposed to is a dumb war. What I am opposed to is a rash war ... I suffer no illusions about Saddam Hussein. He is a brutal man. A ruthless man. A man who butchers his own people to secure his own power. He has repeatedly defied U.N. resolutions, thwarted U.N. inspection teams, developed chemical and biological weapons, and coveted nuclear capacity ... But I also know that Saddam poses no imminent and direct threat to the United States or to his neighbors ... I know that an invasion of Iraq without a clear rationale and without strong international support will only fan the flames of the Middle East, and encourage the worst, rather than best, impulses of the Arab world, and strengthen the recruitment arm of al Qaeda.
I don't oppose all wars ... What I am opposed to is a dumb war. What I am opposed to is a rash war ... I suffer no illusions about Saddam Hussein. He is a brutal man. A ruthless man. A man who butchers his own people to secure his own power. He has repeatedly defied U.N. resolutions, thwarted U.N. inspection teams, developed chemical and biological weapons, and coveted nuclear capacity ... But I also know that Saddam poses no imminent and direct threat to the United States or to his neighbors ... I know that an invasion of Iraq without a clear rationale and without strong international support will only fan the flames of the Middle East, and encourage the worst, rather than best, impulses of the Arab world, and strengthen the recruitment arm of al Qaeda.
domingo, setembro 1
Rajada de metralhadora acaba com grupo musical
A voz bonita de Hyon Song-wol, a infeliz putativa ex-namorada de Kim Jong-un, pode ter-se calado para a eternidade, se são verdadeiras as notícias publicadas no The Province e no El Mundo . Kim era casado com outra cantora do mesmo grupo, mas consta que manteve uma quente paixão por Hyon Song-wol, que no papel de amante era, na verdade, uma primeira dama secreta às claras.
As escassas notícias mencionam acusações de envolvimento em vídeos pornográficos, que terão motivado a prisão de Hyon e companheiros do grupo musical. Terão sido executados no dia 20 a tiro de metralhadora, na presença de familiares que a seguir ao acto foram despachados para um campo de concentração.
Alguns observadores julgam que as acusações são forjadas. Poderiam estar em causa ciúmes da mulher de Kim ou, mais provavelmente, ajustes de contas entre facções políticas.
O remetente do vídeo no YouTube diz que é tudo mentira.
Para lá das tontarias trágicas de um país governado por loucos, fica a curiosa familiaridade da estética musical. Mudando as palavras, poderíamos estar a escutar as cantigas dos nossos "artistas" populares que animam as iniciativas das câmaras municipais no Portugal profundo e não tão profundo, e também as dos que preenchem largos espaços diurnos das nossas televisões.
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