domingo, agosto 4

Onde está a Curiosity?

Faltam menos de dois dias terrestres para se completar um ano terrestre sobre a aterragem da Curiosity em Marte. Entre os dias marcianos 349 e 351 avançou uns 80 metros. O trajecto é actualizado aqui. E Marte, por onde anda? Por estes dias está a cerca de 358 milhões de km da Terra.

Mistérios da vida por assim dizer política

Um dos escândalos mediáticos dos últimos dias em Espanha é a libertação de um "pederasta espanhol", preso em Marrocos, incluída num pacote de indultos por ocasião da visita do rei de Espanha ao país. Hoje aparece nos jornais a indignação do PSOE a exigir explicações ao governo pelo equívoco. O que aqui é interessante é que o PSOE é o partido que no governo legislou para que adolescentes pudessem esconder aos pais uma gravidez, para baixar a idade de consentimento para os 13 anos e que, já agora, tem na presidência da sua secção basca um homem que foi condenado por agressões físicas à esposa.

Tanto como a lata e a agressividade militante dos partidos, pode surpreender-nos a sua inacção ou cobardia, ou aquilo que pelo menos parece uma dessas poses. Ainda olhando para Espanha, tem sido notório o fogo sobre o governo e o PP com base nas trafulhices de contabilidade do partido. Ora, as trafulhices dos EREs que envolvem sindicalistas, deputados e dirigentes do PSOE, desvios de dinheiro numa escala maior do que a dos papeis de Bárcenas, e configuram uma situação de maior imoralidade, não têm recebido nem um décimo da atenção ou da gritaria. Nem o PP tem feito nada que se veja para contra-atacar. Lá terão as suas razões, e boas não podem ser.

sábado, agosto 3

Simplex

Chavez, altamente

No passado domingo, na Venezuela, foi criado por decreto presidencial o Instituto de Altos Estudos do Pensamento de Hugo Chávez.
A iniciativa mostra que o governo venezuelano dá muita atenção à cultura e, incidentalmente, aviva as memórias para o facto de que Hugo pensava.
Já estou a imaginar frutuosas colaborações de investigadores tugueses com o Instituto, onde venderão uns cursos e charlas.
Uma previsão bem humorada do que poderia ser um plano de estudos no novíssimo instituto pode ser encontrado aqui. Gosto especialmente das cadeiras Teoria da Expropriação e Estatística Maquilhada I, II e III.

domingo, julho 21

A campanha permanente

Talvez salvação fosse um objectivo demasiado alto. Se não a temos é porque não a merecemos. Eu só pedia que me salvassem para já de uma campanha eleitoral.
Infelizmente, seja o que for que o PR nos vá dizer logo à hora dos telejornais, de campanha eleitoral não nos salvamos. Ela já aí está, há meses, e para ficar. A campanha é aquele período institucional que se prolonga muito para antes e para depois do tempo, durante o qual os partidos que não estão no poder juram que querem o nosso bem e nos vão resolver os problemas (incluindo alguns que não pretendemos ver resolvidos). A presente campanha tem mais do pior. Os que estão no governo bem poderão esforçar-se por incluir umas tiradas novas, que a audiência não vai crescer. Catarina do BE, sempre triste e mal disposta, faz-nos sentir saudades de Ana Drago. Seguro, por seu lado, não se acanha com a sua ambição: basta-lhe o mundo. Mas ouvi-lo convoca mais do que a boa vontade habitual para fingir que acreditamos. Terá que fazer um esforço enorme para não ser tomado pelo boneco insuflado pelos matreiros ventríloquos do Rato.

Perguntas

Uma parte da América protesta nas ruas pela sentença que absolveu Zimmerman  (o New York Times faz os leitores de tontos e adocica escrevendo "em memória de Trayvon Martin"). Entretanto, há quem faça perguntas incómodas:

Onde está o protesto contra os assassinatos de negros por negros?

E há quem já tenha feito perguntas que ocorre recordar:

Porque é que o assassinato de Mark Carson, negro e homossexual, só levantou protestos dos chamados grupos LGBT?

sexta-feira, julho 19

Na Câmara dos Lordes, hoje

Debatem hoje os lordes o perdão a Alan Turing, condenado por comportamento indecente ao abrigo das leis de 1952. Na opinião de Matt Ridley, no Times, perdoar é pouco.

quinta-feira, julho 18

Acordo ortográfico: o massacre das palavras ditas


A propósito desta notícia, parece-me oportuno republicar o que já disse do acordo ortográfico:

As luminárias de gabinete que teceram o recente e inútil acordo ortográfico não cuidaram de prever as consequências mais gravosas das regras que inventaram. Descarto já a ocultação de conexões de significado entre vocábulos com raiz comum. Refiro-me ao efeito da grafia na corrupção da pronúncia.

Sob a capa da simplificação, abre-se o caminho à deterioração do português falado. Parece apenas diletante propôr a queda do c e do p quando "não se pronunciam" (dizem eles, esquecendo que estas consoantes exercem um efeito de acentuação significativo e em alguns casos se pronunciam de modo subtil). Os iluminados proponentes esqueceram que não é o mesmo usar uma ou outra grafia em Portugal ou no Brasil. Lá, eles sempre disseram e dirão tèlèfone, enquanto aqui, sobretudo na região de Lisboa, onde se fala o pior português do mundo, dizemos tlfone. A nossa tendência vocalicida fará com que, num futuro breve, ado(p)ção soe como adução, rece(p)ção como recessão... os exemplos são inúmeros. Para além do surgimento de uma bolha de homófonas, assistiremos ao emudecimento do "e" ou do "a" em palavras como infeção ou inação. Far-nos-emos entender cada vez pior.

Quero ressalvar apesar de tudo que o acordo é muito adequado à escrita de sms.

domingo, julho 14

Altima Dance


O pesadelo em versão espanhola


O caso Bárcenas é a versão local, em Espanha, da maldição das arcas da governação. Chamuscando o primeiro ministro até aos cabelos, tem no centro uma personagem de perfídia novelística mas exibe no seu conjunto uma classe e um sistema político que não prestam. A oposição grita, sem crédito: decorre um inquérito ao caso dos ERES na Andaluzia, com 93 arguidos ligados ao PSOE, dos quais 20 são altos quadros. A casa real também tem dado os lindos exemplos que se sabe.

De pouco servirá a Rajoy que uma parte do público assista ao triste desenrolar das notícias pronto a dar-lhe o benefício da dúvida. Mesmo que não venha a ser arguido ou até investigado, a nódoa não sai. Quando a revelações do calibre das deste caso se segue a obstinação em não dar explicações, o mais natural é que ganhe terreno a presunção de culpa. Os SMSs recentemente trocados entre Bárcenas e Rajoy, que o El Mundo hoje publica, não dirão grande coisa, mas carregam um subtexto de palavras não ditas que é mortal para Rajoy. Assim, mesmo que Bárcenas seja um traste, mesmo que tenha urdido um plano para tramar os parceiros contando a verdade com provas falsas, os que dele não se afastaram preventivamente são irremediavelmente contaminados. Os únicos aliados de Rajoy são o tempo, com o qual virá o cansaço do público sobre mais este policial, e a mediocridade dos adversários, enlameados pelos seus próprios delinquentes.

O pesadelo da arca

Embora esteja para já afastado o espectro de uma campanha eleitoral em cima da constante campanha eleitoral em que vivemos, a proposta do Presidente da República veio apenas deixar as coisas como estavam, ou piores. Eleições, antecipadas ou não, na circunstância presente, só resolveriam alguma coisa se os partidos que têm andado metidos na arca da governação não tivessem a lata de se apresentar de novo, com aquelas mesmas caras, que conhecemos de variados ministérios recentes, parlamento e televisão.

sábado, julho 6

Sinfonia nº 2


Arrepio

Com a crise de governo em banho-maria com chama alta, actores políticos mencionam volta e meia a necessidade e a inevitabilidade de eleições. Não estou a utilizar a palavra actores no sentido "culto" de intervenientes com capacidade de agir. Quero dizer actores à antiga. Eles não nos representam, eles representam uma farsa totalmente previsível, onde os personagens são frouxos e as falas maçadoras.

Estas pessoas, que pelo menos bem se conhecem a elas próprias, nunca se deram ao trabalho de melhorar o enquadramento institucional dos actos eleitorais. Sabem que eleições antecipadas são uma tentação, como sabem que elas envolvem custos e prazos inaceitáveis, mas agem como se estivessem completamente distraídos. O que já é habitual, de resto. Por exemplo, um não reparou que não devia ter aumentado a função pública em 2009. Outros não percebem o enredo em que se movem.

Para lá dos defeitos formais do sistema, a perspectiva de eleições neste momento particular é arrepiante por outros motivos. É que será necessário haver campanha eleitoral, nome inadequado para a reposição de uma peça gasta, com as tais personagens pífias e as suas deixas rombas, que nunca deixámos de ouvir ao longo das semanas e dos meses. Pelo que temos visto e ouvido, ninguém terá nada de novo para dizer. A campanha será, nestas condições, uma encenação caríssima, obrigatória, e que teremos que pagar mesmo detestando o espectáculo.

domingo, junho 30

Dance


O Google inspirou Messi?

É frequente os políticos gostarem de exibir o seu apreço por clubes e personalidades do futebol - apreço que normalmente implica favores e pagamentos com o dinheiro dos outros - por pensarem que as massas são tão estúpidas que não descodificam o oportunismo da colagem.  (Bem, há ocasiões em que percebem que o melhor é descolarem-se: hoje mesmo a FIFA fica de trombas com a ausência da perspicaz Dilma).

Ora, de acordo com a interpretação do Professor Sala i Martin, o recente ataque feito a Messi pelas Finanças espanholas vai em contramão relativamente a esta tendência. Segundo Sala i Martin, as Finanças sabem que não interessa a Messi um desgaste de imagem em processo judicial arrastado, ainda que viesse a provar-se que não há ilícitos na alegada fuga aos impostos por parte do futebolista. Os assessores e advogados de Messi negociarão e pagarão o razoável para que o assunto saia das breaking news. Assim, o ministro Montoro estaria a dar uma lição de como explorar a imagem de uma estrela de futebol extorquindo-lhe dinheiro, em vez de lhe pagar.

E afinal em que terá consistido a tentação de Messi? Ainda de acordo com o professor, um truque simples inspirado no Google: o da "dupla empresa". Os direitos de imagem são vendidos a uma empresa irlandesa com sede em Belize, por sua vez os vende a uma outra com sede na Irlanda. As taxas são 0% em Belize e 12,5% na Irlanda, mas sobre os lucros, e feitas as contas com cuidado pode demonstrar-se que o lucro é zero. Uma diferença notável em relação aos 30% de Espanha. Tudo isto partindo do princípio de que estão em jogo direitos de imagem e não salários pagos pelo Barça, se não o ganho é bem maior.

domingo, junho 23

sábado, junho 22

Vozes na rua

a dissonância entre a voz dos mercados e a voz das ruas parece aumentar cada vez mais nos países desenvolvidos, colocando em risco não apenas conquistas sociais, mas a própria democracia

(Dilma Roussef, Fórum Social Mundial Temático, em Porto Alegre, janeiro 2012.)

Entretanto, os governos de estados e municípios tentam empurrar uns para os outros o custo da sustentação das tarifas.

O prefeito de S. Paulo bem pode queixar-se de que satisfazer no curto prazo só é possível com medidas populistas.  Ora, sem medidas populistas como é que se consegue garantir uma eleição?

Entretanto, os governos das grandes cidades capitularam e as tarifas continuarão como estavam. O pior é que os transportes continuarão tão maus como estavam, e o quotidiano de uma imensa maioria tão desagradável como é agora.

quinta-feira, junho 20

A originalidade brasileira

A preparação da Copa está em pleno. Até as prostitutas encaram muito a sério o acontecimento, frequentando aulas de um inglês técnico orientado para o domínio da negociação de preços, sem esquecer o jargão apropriado a diálogos sensuais e dissertação sobre fetiches.

Enquanto isso (como se diz no Brasil) está nas ruas aquela revolta a que nos habituámos a chamar primavera. Se no começo o pretexto foi a exorbitância do preço dos bilhetes de ônibus, depressa os protestos evoluíram, ainda que de um modo não organizado, para alvos de maior relevo, atacando a condução de políticas governamentais. A maior originalidade destes gritos primaveris, no entanto, é que não poupa o futebol, apontando sem rodeios o desperdício da construção de estádios. Esta faceta dos protestos tem tanto mais significado quanto é certo que o futebol é desporto e assunto de estimação no Brasil. Ainda que as manifestações e tumultos acabem por revelar inconsequentes, ninguém poderá dizer mais tarde, quando estiverem a pagar as facturas deixadas pelos elefantes de cimento, "na altura própria ninguém se queixou".

segunda-feira, junho 17

Conceitos em revisão

Ainda lá está escrito, na página do Partido Socialista: "Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia", afirmou António José Seguro, na sua intervenção no Fórum dos Progressistas Europeus.

Esta escrita ambígua sugere que pelo menos o redactor não está bem informado sobre o conceito de média. O mesmo se aplica aos jornalistas que transcreveram no essencial, sem pestanejar, a petite phrase que daria para partir o coco a rir na imprensa se tivesse sido dita num Fórum de Reaccionários.

De resto, os jornais foram mais longe e, pelo menos no caso do Expresso, com o título radical "Seguro quer desemprego nos Estados-membros abaixo da média da UE em 2020", estamos à beira da situação aterradora em que o valor máximo de uma amostra fica abaixo do mínimo. Se isto valer também para as temperaturas, temos o verão desfeito.

quinta-feira, junho 13

Fintar o fisco

Nos jornais espanhóis sai hoje Messi em primeira página. Messi e o pai, mais precisamente: acusados pela autoridade tributária de um delito fiscal que vale mais de 4 milhões. Tratar-se-ia de direitos de imagem, vendidos a sociedades fantasma situadas nos paraísos, e ocultação da informação relacionada.

Uma coisa banal, presume-se. Messi, o astro que ganha cerca de 30 milhões por ano, suja o nome (é assim que o El Mundo titula, em papel) por uns míseros 4. Surpreendido, Lionel vem declarar que fez tudo dentro da lei. E quem sabe? Com certeza deu instruções aos seus advogados e assessores para lhe tratarem do guito nas condições mais vantajosas, e eles percorreram os caminhos adequados, contornando os buracos convenientes.

A investigação permitirá saber mais, e decidir se Messi infringiu a lei. As defesas terão oportunidade para sustentar que a situação é simplesmente a-legal. Moralmente, a imagem posta à venda está danificada, mesmo que uma imensa multidão de simpatizantes secundarize a escapadela. E, ao lado de suspeitas que pairam sobre figuras da política, em que ao delito fiscal se adiciona o enriquecimento pela via obscura da inserção nas redes do poder, e não pelo mérito de marcar golos e pôr estádios em delírio, o futebolista acabará por sair apenas chamuscado.

 Para já, o Lionel defende-se dizendo que não sabia de nada, seguindo bons e recentes exemplos: se a Infanta não via um boi dos negócios do marido, com quem se deitava todas as noites (achamos nós), não admira que ele, Lionel, estivesse a leste do que andaram a fazer o pai e os assessores.

O El País recorda que Messi não está só, tendo havido investigações do mesmo teor sobre estrelas como Nadal e o nosso Figo.

Também o nosso Público dá conta da notícia. Tal como na maioria de outros jornais, classificam-na na secção Desporto. Só podem estar a referir-se ao desporto de fintar o fisco.