domingo, junho 30
O Google inspirou Messi?
É frequente os políticos gostarem de exibir o seu apreço por clubes e personalidades do futebol - apreço que normalmente implica favores e pagamentos com o dinheiro dos outros - por pensarem que as massas são tão estúpidas que não descodificam o oportunismo da colagem. (Bem, há ocasiões em que percebem que o melhor é descolarem-se: hoje mesmo a FIFA fica de trombas com a ausência da perspicaz Dilma).
Ora, de acordo com a interpretação do Professor Sala i Martin, o recente ataque feito a Messi pelas Finanças espanholas vai em contramão relativamente a esta tendência. Segundo Sala i Martin, as Finanças sabem que não interessa a Messi um desgaste de imagem em processo judicial arrastado, ainda que viesse a provar-se que não há ilícitos na alegada fuga aos impostos por parte do futebolista. Os assessores e advogados de Messi negociarão e pagarão o razoável para que o assunto saia das breaking news. Assim, o ministro Montoro estaria a dar uma lição de como explorar a imagem de uma estrela de futebol extorquindo-lhe dinheiro, em vez de lhe pagar.
E afinal em que terá consistido a tentação de Messi? Ainda de acordo com o professor, um truque simples inspirado no Google: o da "dupla empresa". Os direitos de imagem são vendidos a uma empresa irlandesa com sede em Belize, por sua vez os vende a uma outra com sede na Irlanda. As taxas são 0% em Belize e 12,5% na Irlanda, mas sobre os lucros, e feitas as contas com cuidado pode demonstrar-se que o lucro é zero. Uma diferença notável em relação aos 30% de Espanha. Tudo isto partindo do princípio de que estão em jogo direitos de imagem e não salários pagos pelo Barça, se não o ganho é bem maior.
Ora, de acordo com a interpretação do Professor Sala i Martin, o recente ataque feito a Messi pelas Finanças espanholas vai em contramão relativamente a esta tendência. Segundo Sala i Martin, as Finanças sabem que não interessa a Messi um desgaste de imagem em processo judicial arrastado, ainda que viesse a provar-se que não há ilícitos na alegada fuga aos impostos por parte do futebolista. Os assessores e advogados de Messi negociarão e pagarão o razoável para que o assunto saia das breaking news. Assim, o ministro Montoro estaria a dar uma lição de como explorar a imagem de uma estrela de futebol extorquindo-lhe dinheiro, em vez de lhe pagar.
E afinal em que terá consistido a tentação de Messi? Ainda de acordo com o professor, um truque simples inspirado no Google: o da "dupla empresa". Os direitos de imagem são vendidos a uma empresa irlandesa com sede em Belize, por sua vez os vende a uma outra com sede na Irlanda. As taxas são 0% em Belize e 12,5% na Irlanda, mas sobre os lucros, e feitas as contas com cuidado pode demonstrar-se que o lucro é zero. Uma diferença notável em relação aos 30% de Espanha. Tudo isto partindo do princípio de que estão em jogo direitos de imagem e não salários pagos pelo Barça, se não o ganho é bem maior.
domingo, junho 23
sábado, junho 22
Vozes na rua
a dissonância entre a voz dos mercados e a voz das ruas parece aumentar cada vez mais nos países desenvolvidos, colocando em risco não apenas conquistas sociais, mas a própria democracia
(Dilma Roussef, Fórum Social Mundial Temático, em Porto Alegre, janeiro 2012.)
Entretanto, os governos de estados e municípios tentam empurrar uns para os outros o custo da sustentação das tarifas.
O prefeito de S. Paulo bem pode queixar-se de que satisfazer no curto prazo só é possível com medidas populistas. Ora, sem medidas populistas como é que se consegue garantir uma eleição?
Entretanto, os governos das grandes cidades capitularam e as tarifas continuarão como estavam. O pior é que os transportes continuarão tão maus como estavam, e o quotidiano de uma imensa maioria tão desagradável como é agora.
(Dilma Roussef, Fórum Social Mundial Temático, em Porto Alegre, janeiro 2012.)
Entretanto, os governos de estados e municípios tentam empurrar uns para os outros o custo da sustentação das tarifas.
O prefeito de S. Paulo bem pode queixar-se de que satisfazer no curto prazo só é possível com medidas populistas. Ora, sem medidas populistas como é que se consegue garantir uma eleição?
Entretanto, os governos das grandes cidades capitularam e as tarifas continuarão como estavam. O pior é que os transportes continuarão tão maus como estavam, e o quotidiano de uma imensa maioria tão desagradável como é agora.
quinta-feira, junho 20
A originalidade brasileira
A preparação da Copa está em pleno. Até as prostitutas encaram muito a sério o acontecimento, frequentando aulas de um inglês técnico orientado para o domínio da negociação de preços, sem esquecer o jargão apropriado a diálogos sensuais e dissertação sobre fetiches.
Enquanto isso (como se diz no Brasil) está nas ruas aquela revolta a que nos habituámos a chamar primavera. Se no começo o pretexto foi a exorbitância do preço dos bilhetes de ônibus, depressa os protestos evoluíram, ainda que de um modo não organizado, para alvos de maior relevo, atacando a condução de políticas governamentais. A maior originalidade destes gritos primaveris, no entanto, é que não poupa o futebol, apontando sem rodeios o desperdício da construção de estádios. Esta faceta dos protestos tem tanto mais significado quanto é certo que o futebol é desporto e assunto de estimação no Brasil. Ainda que as manifestações e tumultos acabem por revelar inconsequentes, ninguém poderá dizer mais tarde, quando estiverem a pagar as facturas deixadas pelos elefantes de cimento, "na altura própria ninguém se queixou".
Enquanto isso (como se diz no Brasil) está nas ruas aquela revolta a que nos habituámos a chamar primavera. Se no começo o pretexto foi a exorbitância do preço dos bilhetes de ônibus, depressa os protestos evoluíram, ainda que de um modo não organizado, para alvos de maior relevo, atacando a condução de políticas governamentais. A maior originalidade destes gritos primaveris, no entanto, é que não poupa o futebol, apontando sem rodeios o desperdício da construção de estádios. Esta faceta dos protestos tem tanto mais significado quanto é certo que o futebol é desporto e assunto de estimação no Brasil. Ainda que as manifestações e tumultos acabem por revelar inconsequentes, ninguém poderá dizer mais tarde, quando estiverem a pagar as facturas deixadas pelos elefantes de cimento, "na altura própria ninguém se queixou".
segunda-feira, junho 17
Conceitos em revisão
Ainda lá está escrito, na página do Partido Socialista: "Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia", afirmou António José Seguro, na sua intervenção no Fórum dos Progressistas Europeus.
Esta escrita ambígua sugere que pelo menos o redactor não está bem informado sobre o conceito de média. O mesmo se aplica aos jornalistas que transcreveram no essencial, sem pestanejar, a petite phrase que daria para partir o coco a rir na imprensa se tivesse sido dita num Fórum de Reaccionários.
De resto, os jornais foram mais longe e, pelo menos no caso do Expresso, com o título radical "Seguro quer desemprego nos Estados-membros abaixo da média da UE em 2020", estamos à beira da situação aterradora em que o valor máximo de uma amostra fica abaixo do mínimo. Se isto valer também para as temperaturas, temos o verão desfeito.
Esta escrita ambígua sugere que pelo menos o redactor não está bem informado sobre o conceito de média. O mesmo se aplica aos jornalistas que transcreveram no essencial, sem pestanejar, a petite phrase que daria para partir o coco a rir na imprensa se tivesse sido dita num Fórum de Reaccionários.
De resto, os jornais foram mais longe e, pelo menos no caso do Expresso, com o título radical "Seguro quer desemprego nos Estados-membros abaixo da média da UE em 2020", estamos à beira da situação aterradora em que o valor máximo de uma amostra fica abaixo do mínimo. Se isto valer também para as temperaturas, temos o verão desfeito.
quinta-feira, junho 13
Fintar o fisco
Nos jornais espanhóis sai hoje Messi em primeira página. Messi e o pai, mais precisamente: acusados pela autoridade tributária de um delito fiscal que vale mais de 4 milhões. Tratar-se-ia de direitos de imagem, vendidos a sociedades fantasma situadas nos paraísos, e ocultação da informação relacionada.
Uma coisa banal, presume-se. Messi, o astro que ganha cerca de 30 milhões por ano, suja o nome (é assim que o El Mundo titula, em papel) por uns míseros 4. Surpreendido, Lionel vem declarar que fez tudo dentro da lei. E quem sabe? Com certeza deu instruções aos seus advogados e assessores para lhe tratarem do guito nas condições mais vantajosas, e eles percorreram os caminhos adequados, contornando os buracos convenientes.
A investigação permitirá saber mais, e decidir se Messi infringiu a lei. As defesas terão oportunidade para sustentar que a situação é simplesmente a-legal. Moralmente, a imagem posta à venda está danificada, mesmo que uma imensa multidão de simpatizantes secundarize a escapadela. E, ao lado de suspeitas que pairam sobre figuras da política, em que ao delito fiscal se adiciona o enriquecimento pela via obscura da inserção nas redes do poder, e não pelo mérito de marcar golos e pôr estádios em delírio, o futebolista acabará por sair apenas chamuscado.
Para já, o Lionel defende-se dizendo que não sabia de nada, seguindo bons e recentes exemplos: se a Infanta não via um boi dos negócios do marido, com quem se deitava todas as noites (achamos nós), não admira que ele, Lionel, estivesse a leste do que andaram a fazer o pai e os assessores.
O El País recorda que Messi não está só, tendo havido investigações do mesmo teor sobre estrelas como Nadal e o nosso Figo.
Também o nosso Público dá conta da notícia. Tal como na maioria de outros jornais, classificam-na na secção Desporto. Só podem estar a referir-se ao desporto de fintar o fisco.
Uma coisa banal, presume-se. Messi, o astro que ganha cerca de 30 milhões por ano, suja o nome (é assim que o El Mundo titula, em papel) por uns míseros 4. Surpreendido, Lionel vem declarar que fez tudo dentro da lei. E quem sabe? Com certeza deu instruções aos seus advogados e assessores para lhe tratarem do guito nas condições mais vantajosas, e eles percorreram os caminhos adequados, contornando os buracos convenientes.
A investigação permitirá saber mais, e decidir se Messi infringiu a lei. As defesas terão oportunidade para sustentar que a situação é simplesmente a-legal. Moralmente, a imagem posta à venda está danificada, mesmo que uma imensa multidão de simpatizantes secundarize a escapadela. E, ao lado de suspeitas que pairam sobre figuras da política, em que ao delito fiscal se adiciona o enriquecimento pela via obscura da inserção nas redes do poder, e não pelo mérito de marcar golos e pôr estádios em delírio, o futebolista acabará por sair apenas chamuscado.
Para já, o Lionel defende-se dizendo que não sabia de nada, seguindo bons e recentes exemplos: se a Infanta não via um boi dos negócios do marido, com quem se deitava todas as noites (achamos nós), não admira que ele, Lionel, estivesse a leste do que andaram a fazer o pai e os assessores.
O El País recorda que Messi não está só, tendo havido investigações do mesmo teor sobre estrelas como Nadal e o nosso Figo.
Também o nosso Público dá conta da notícia. Tal como na maioria de outros jornais, classificam-na na secção Desporto. Só podem estar a referir-se ao desporto de fintar o fisco.
sábado, junho 8
A súbita popularidade de Carlo Crivelli
Por via de um negócio de arte que não poderia ter-se consumado sem autorização das autoridades que tutelam a cultura, Carlo Crivelli conhece uma onda de popularidade, entre nós, de fazer inveja a pintores bem mais famosos. Popularidade inteiramente merecida, de resto. Figura singular do Quattrocento, contemporâneo de Giovanni Bellini e de Andrea Mantegna, considerado nas enciclopédias como conservador e extravagante, foi um dos cultores da perspectiva e distinguiu-se pela individualidade do traço, particularmente na figuração humana. Ao contrário de Boticelli, não foi mostrado às massas através de reproduções em posters e nas tampas de caixas com chocolates. Ora, qual não é a nossa surpresa quando descobrimos, com estupor, que tivéramos um Crivelli, e descobrimos isso precisamente quando já deixáramos de o ter. O PÚBLICO já dedicou rios de tinta ao assunto: tinta, literalmente, pois alguns dos artigos são tão extensos que só saíram em papel. Nos que ficaram online, os comentários de leitores testemunham o interesse e o choque cultural que o caso provocou.
A saída do armário das multidões de fãs de Crivelli é uma grata surpresa, ao revelar que a cultura tuguesa é requintada e não se limita ao mainstream.
Dirão alguns que se assiste, isso sim, a mais um ataque a um governo que suscita grande antipatia. E haveria razões para isso: está em pano de fundo um negócio dúbio, permitido por intervenção directa do poder. Pode ser que tudo esteja nos limites da lei, mas possivelmente não cabe nos da moral. No entanto, como as figuras notórias que maior consternação exibem não se sentiram nada incomodadas com certos negócios dúbios em passado recente, permitidos também por intervenção do poder, e configurando situações mais graves, não me restam dúvidas de que tudo se explica pela veneração que Crivelli bem merece.
quarta-feira, junho 5
E se estivesse lá Sarkozy em vez de Hollande?
Seria tudo muito diferente? Os jornalistas que não fazem favores são mesmo chatos.
(No Paris Première.)
segunda-feira, junho 3
A competência matemática do país
As professoras de matemática andaram agitadas desde o fim de semana. O Expresso publicou no sábado um artigo de opinião subscrito por vários membros da Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática, entre as quais uma das maiores especialistas em avaliação das aprendizagens. O conteúdo, confuso e pouco interessante, foca-se nas directivas anunciadas pelo ministério da educação no sentido de limitar o uso de calculadoras nos primeiros anos de escolaridade. O objectivo do artigo é concluir que o novo programa de matemática vai reduzir a escombros a "competência matemática do país".
Também a presidente da APM, preocupada com um "retrocesso de 40 anos" no ensino da matemática, confessou ao PÚBLICO o seu pessimismo. A senhora refere:
-deficiências graves ao nível da sua estrutura e lógica global, ao nível pedagógico e didáctico e o nível dos conteúdos programáticos - curiosa afirmação vinda dos apoiantes de programas anteriores, onde essas deficiências abundavam.
-não tendo em conta a investigação desenvolvida neste domínio - aquilo que é referido como investigação neste domínio caracteriza-se, frequentemente, por estudos de caso, e as conclusões são registadas num discurso de plástico onde se confunde a realidade com o olhar dos autores.
-muitos matemáticos, ao longo da história desta ciência, trabalharam produtivamente com objectos matemáticos muito antes destes estarem adequadamente definidos - isto é rigorosamente verdade, mas tal invocação neste lugar revela falta de bom senso pedagógico. Está aqui à vista um ponto fraco maior dos ideais construtivistas, também visível no artigo do Expresso. No ensino não há que repetir os passos dados pelos criadores que tactearam até ao aperfeiçoamento das ideias e das teorias. Não só porque as salas de aula não estão apinhadas de Arquimedes ou Isaac Newtons em quantidade suficiente, mas porque até os Newtons apreciam o apoio nos ombros de gigantes, para que em tempo útil consigam dar um passo avante. Se passarmos o tempo a reconstruir o passado não chegamos sequer ao presente, quanto mais ao futuro.
Estas lamentações não surpreendem. Durante muitos anos (pelo menos desde 1997) programas de matemática de muito baixa qualidade foram adoptados, com o apoio destas pessoas ou outras em posições semelhantes, pelos ministérios que estiveram em cena. Os programas em si não são um factor decisivo do sucesso: a acção individual dos bons professores, que existem apesar de tudo, é mais determinante, felizmente. Mas maus programas têm inspirando manuais deficientes, onde abundam textos incoerentes, por vezes incompreensíveis, o que não é muito bom para estudar matemática. Se os novos programas propiciarem o aparecimento de materiais de estudo com qualidade, já terão valido a pena.
Também a presidente da APM, preocupada com um "retrocesso de 40 anos" no ensino da matemática, confessou ao PÚBLICO o seu pessimismo. A senhora refere:
-deficiências graves ao nível da sua estrutura e lógica global, ao nível pedagógico e didáctico e o nível dos conteúdos programáticos - curiosa afirmação vinda dos apoiantes de programas anteriores, onde essas deficiências abundavam.
-não tendo em conta a investigação desenvolvida neste domínio - aquilo que é referido como investigação neste domínio caracteriza-se, frequentemente, por estudos de caso, e as conclusões são registadas num discurso de plástico onde se confunde a realidade com o olhar dos autores.
-muitos matemáticos, ao longo da história desta ciência, trabalharam produtivamente com objectos matemáticos muito antes destes estarem adequadamente definidos - isto é rigorosamente verdade, mas tal invocação neste lugar revela falta de bom senso pedagógico. Está aqui à vista um ponto fraco maior dos ideais construtivistas, também visível no artigo do Expresso. No ensino não há que repetir os passos dados pelos criadores que tactearam até ao aperfeiçoamento das ideias e das teorias. Não só porque as salas de aula não estão apinhadas de Arquimedes ou Isaac Newtons em quantidade suficiente, mas porque até os Newtons apreciam o apoio nos ombros de gigantes, para que em tempo útil consigam dar um passo avante. Se passarmos o tempo a reconstruir o passado não chegamos sequer ao presente, quanto mais ao futuro.
Estas lamentações não surpreendem. Durante muitos anos (pelo menos desde 1997) programas de matemática de muito baixa qualidade foram adoptados, com o apoio destas pessoas ou outras em posições semelhantes, pelos ministérios que estiveram em cena. Os programas em si não são um factor decisivo do sucesso: a acção individual dos bons professores, que existem apesar de tudo, é mais determinante, felizmente. Mas maus programas têm inspirando manuais deficientes, onde abundam textos incoerentes, por vezes incompreensíveis, o que não é muito bom para estudar matemática. Se os novos programas propiciarem o aparecimento de materiais de estudo com qualidade, já terão valido a pena.
segunda-feira, maio 27
A solidão limitada dos números primos
Yitang Zhang é o nome de um professor de matemática até agora sem pergaminhos. Ensina Cálculo na Universidade de Hampshire. Dedicou os últimos quatro anos a trabalhar sobre a conjectura dos "primos gémeos". Obteve um resultado importante nessa direcção, já aceite para publicação no prestigiado Annals of Mathematics. Fazendo uso dos instrumentos legados por investigadores que se tinham interessado pelo problema, Y. Zhang demonstrou que existe uma infinidade de pares de números primos tais que a diferença entre os dois elementos do par não excede 70 000 000.
Uma das circunstâncias mais interessantes desta história é o facto de se tratar de alguém praticamente desconhecido na investigação em matemática. Provavelmente afastado das grandes redes de financiamento. Talento, trabalho e disponibilidade de entrega a um problema foram os ingredientes do sucesso.
Está tudo muito bem contado aqui por Erica Klarreich.
Uma das circunstâncias mais interessantes desta história é o facto de se tratar de alguém praticamente desconhecido na investigação em matemática. Provavelmente afastado das grandes redes de financiamento. Talento, trabalho e disponibilidade de entrega a um problema foram os ingredientes do sucesso.
Está tudo muito bem contado aqui por Erica Klarreich.
quarta-feira, maio 22
A deriva da fé
Nicolas Maduro disse ontem, em frente de Paulo Portas, que Portugal e a Venezuela estão no mesmo continente, separados só pelo Caribe e o Atlântico. A frase soltou apupos, gargalhadas e também uma reacção de defesa, no twitter e em variados sites.
A gaffe, se o é, é pouco interessante em si: facilmente se interpreta no sentido figurado de uma cooperação desejada. Interessante é o conjunto das reacções, sintoma de uma Venezuela dividida e da antipatia de que o presidente actualmente goza (um pouco como sucede entre nós relativamente a quase tudo o que mexe na área do actual governo). Mas isto é o que dá as pessoas revelarem conversas havidas com pássaros.
Curioso também é constatar a que ponto chega a fé dos defensores. Embarcando numa discussão inútil e pateta, um chavista dá aqui a sua interpretação em comentário: Maduro estaria a referir-se à deriva dos continentes e a um tempo em que Portugal e Venezuela estavam unidos. Não há dúvida de que a fé move placas.
A gaffe, se o é, é pouco interessante em si: facilmente se interpreta no sentido figurado de uma cooperação desejada. Interessante é o conjunto das reacções, sintoma de uma Venezuela dividida e da antipatia de que o presidente actualmente goza (um pouco como sucede entre nós relativamente a quase tudo o que mexe na área do actual governo). Mas isto é o que dá as pessoas revelarem conversas havidas com pássaros.
Curioso também é constatar a que ponto chega a fé dos defensores. Embarcando numa discussão inútil e pateta, um chavista dá aqui a sua interpretação em comentário: Maduro estaria a referir-se à deriva dos continentes e a um tempo em que Portugal e Venezuela estavam unidos. Não há dúvida de que a fé move placas.
segunda-feira, maio 20
Wharol e latas no Colombo
O Colombo tem uma mostra de arte. São umas coisas de Andy Wharol, penduradas no interior de uma curiosa estrutura construida a partir do empilhamento de latas cilíndricas reluzentes. É caso para dizer, sem publicidade nem sarcasmos, que o continente é mais surpreendente do que o conteúdo.
Wharol é um autor sobrevalorizado mas merece-o, tal como o público que o entronizou o merece (e eu não estou de fora). Para sossego da cabeça, gosta-se de olhar para uns quadros ou outros coisos sem ambições de complexidade e espessura, que permitem soltar um "ah! que giro" mesmo que olhá-los mais de cinco minutos se torne uma seca. Além disso, ele teve a Fábrica, a Nico e uns filmes também giros e provocadores. Na sua pintura, a banalidade ganhou o direito ao pódio e a máscara de uma profundidade naif. O talento de Wharol foi mais o de saber mover-se no ambiente certo no tempo certo, parasitando o star system e as vedetas pop vestidas de underground e reencenadas numa decadência glamourosa, produzindo uma arte de olhar fixo no próprio umbigo mas harmoniosamente entrosada nos gostos da élite popular na transição dos anos 60-70, e criando um nicho de requinte soft nesses gostos.
São giras, as latas empilhadas no Colombo.
quinta-feira, maio 16
Titulações
Diverte-me a arrumação que a imprensa faz das notícias. No El Mundo de hoje, o relato de que Maradona apedrejou jornalistas na auto-estrada vem na secção "Desporto". No Público de há dois dias, a mastectomia* de Jolie aparece na secção "Cultura".
* não deveriam escrever mastetomia? Que sorte a das palavras menos ditas, escapam à foice do acordo.
* não deveriam escrever mastetomia? Que sorte a das palavras menos ditas, escapam à foice do acordo.
segunda-feira, maio 13
Olhares sobre Terrugem
Terrugem é uma freguesia de Elvas com cerca de 1200 habitantes. A informação disponível refere a existência de actividade económica baseada em artesanato e peles. É também ponto de atracção turística e gastronómica, com um restaurante bem classificado pela clientela (A Bolota), num espaço que também possui piscinas e campos de ténis. Naturalmente, os espanhóis são parte importante da afluência.
Está-se bem em Terrugem, com certeza. Está-se bem na Bolota. Qualquer par de horas passado em contemplação da paisagem e da luz do Alentejo, na entrega aos sabores voluptuosos da comida, vai direitinho para a zona das memórias doces.
Pode-se, no entanto, contemplar com olhares distintos. Há pelo menos o olhar encantado, enlevado de Joaquim Folgado e a visão interrogativa de Juan Luis Martínez-Carande, que se confessa surpreendido, ou talvez não, pela grande piscina em construção, com suporte de fundos públicos, em pleno 2013. Parece que o investimento valerá 600 mil euros. A não ser que fechem as piscinas de Elvas para desviar banhistas, o Juan Luis terá razão: vamos ter os banhos mais caros do mundo.
Está-se bem em Terrugem, com certeza. Está-se bem na Bolota. Qualquer par de horas passado em contemplação da paisagem e da luz do Alentejo, na entrega aos sabores voluptuosos da comida, vai direitinho para a zona das memórias doces.
Pode-se, no entanto, contemplar com olhares distintos. Há pelo menos o olhar encantado, enlevado de Joaquim Folgado e a visão interrogativa de Juan Luis Martínez-Carande, que se confessa surpreendido, ou talvez não, pela grande piscina em construção, com suporte de fundos públicos, em pleno 2013. Parece que o investimento valerá 600 mil euros. A não ser que fechem as piscinas de Elvas para desviar banhistas, o Juan Luis terá razão: vamos ter os banhos mais caros do mundo.
domingo, maio 12
Os saberes online e os nomes dos bois
Quer estudar Circuitos e Electrónica, Saúde e Ambiente, Introdução à Mecânica, Estatística, Filosofia Política? Agora tem à disposição cursos das melhores universidades (MIT, Harvard...) inteiramente grátis. Chamam-se MOOCs (massive open online courses).
Este prodígio do nosso tempo não é do agrado de todos. Os professores do departamento de Filosofia da Universidade de San José, pressionados para utilizar um MOOC de M. Sandel, professor de Harvard, não ficaram nada entusiasmados com a ideia. Reagiram publicamente com uma carta a Sandel, também ela aberta, como os novos cursos. As razões dos professores são mais do que previsíveis: não se põe em causa a competência de Sandel mas, por um lado, há em San José corpo docente igualmente competente e, por outro, os estudantes tiram melhor partido do contacto com professores vivos na sala de aula. Cursos enlatados serão um passo no caminho do pensamento monolítico e uniformizado, que é o contrário do que numa universidade se pretende. A generalizar-se a adopção dos enlatados, acabará por criar-se uma divisão das universidades em duas categorias: uma, para os privilegiados que podem pagar aulas presenciais e beneficiar da constante discussão e actualização científica, e outra menos valorizada, para os que só podem aceder a uma tele-escola de conteúdos petrificados.
Os signatários sabem perfeitamente quais são as intenções e o que está em risco, e convidam a que os bois sejam chamados pelos nomes. Invocam-se benefícios pedagógicos quando se faz contratos de utilização de MOOCs, mas não se consulta o departamento nem as coordenações de curso? Está-se, sim, a reestruturar a universidade, pressionada para admitir cada vez mais estudantes e privilegiar a formação em cursos de maior empregabilidade. A opção parece clara: precinda-se dos professores, essa mão de obra tão cara, e comece-se, para já, pela área de Humanidades.
Os argumentos têm sentido e são razoáveis, mas é impossível não ler também, na carta aberta, a preocupação com a perda de lugares bem remunerados. Todos os bois merecem nomes. O mundo é um lugar onde sucedem coisas bastante desagradáveis, como fazer face aos custos elevados de certos bens.
Este prodígio do nosso tempo não é do agrado de todos. Os professores do departamento de Filosofia da Universidade de San José, pressionados para utilizar um MOOC de M. Sandel, professor de Harvard, não ficaram nada entusiasmados com a ideia. Reagiram publicamente com uma carta a Sandel, também ela aberta, como os novos cursos. As razões dos professores são mais do que previsíveis: não se põe em causa a competência de Sandel mas, por um lado, há em San José corpo docente igualmente competente e, por outro, os estudantes tiram melhor partido do contacto com professores vivos na sala de aula. Cursos enlatados serão um passo no caminho do pensamento monolítico e uniformizado, que é o contrário do que numa universidade se pretende. A generalizar-se a adopção dos enlatados, acabará por criar-se uma divisão das universidades em duas categorias: uma, para os privilegiados que podem pagar aulas presenciais e beneficiar da constante discussão e actualização científica, e outra menos valorizada, para os que só podem aceder a uma tele-escola de conteúdos petrificados.
Os signatários sabem perfeitamente quais são as intenções e o que está em risco, e convidam a que os bois sejam chamados pelos nomes. Invocam-se benefícios pedagógicos quando se faz contratos de utilização de MOOCs, mas não se consulta o departamento nem as coordenações de curso? Está-se, sim, a reestruturar a universidade, pressionada para admitir cada vez mais estudantes e privilegiar a formação em cursos de maior empregabilidade. A opção parece clara: precinda-se dos professores, essa mão de obra tão cara, e comece-se, para já, pela área de Humanidades.
Os argumentos têm sentido e são razoáveis, mas é impossível não ler também, na carta aberta, a preocupação com a perda de lugares bem remunerados. Todos os bois merecem nomes. O mundo é um lugar onde sucedem coisas bastante desagradáveis, como fazer face aos custos elevados de certos bens.
terça-feira, abril 16
Des mensonges pour tous
O ímpeto moralizador do presidente Hollande acaba de proporcionar ao mundo um inesperado episódio de voyeurismo. Talvez Hollande tenha dado também um pontapé na parede, já agora.
O que está em causa é mais do que a simples constatação de que se pode ser rico e de esquerda -- coisa que toda a gente sabe e não merece qualquer observação. É ambíguo o conceito de "rico", e é complicada a leitura dos dados, porque, mesmo se nos limitarmos ao inferno fiscal das contas declaradas, há esposos e esposas, filhos e filhas, decisões familiares. O problema é estarmos a descobrir que se pode estar na carreira política, em certos casos há anos, e andar perto da indigência. Está bem que sairam do armário 20% de milionários entre os ministros, mas que pensar dos que não declaram quase nada e têm na conta corrente umas parcas centenas de euros (ministro do interior, por exemplo), tão pouco que até nos aflige imaginar como chegarão ao fim do mês? A ministra da justiça declara 3 bicicletas mas tem outros bens que se vejam; já o do trabalho tem uns apartamentos mas anda de Clio como eu (uma coisa indigna, bem reprovada pelo nosso bom Assis). Outros não têm nada de nada (ministra da ecologia) ou têm tão pouco ou estão de tal modo endividados que, calculado o saldo, fico a pensar na sorte que tenho em não estar na pele deles.
O assunto é muito sério. Se isto continua, há o risco de os franceses pensarem que estão a ser governados por alguns insolventes. E a querer que se investigue a hipótese de haver empobrecimento ilícito.
Sem ironias, e a julgar pelo grosso dos comentários nos sítios dos jornais, os franceses não engoliram bem o resultado da operação moralizadora, que acaba por parecer um devio de atenção do escândalo recente que, de resto, todo este coming-out não evitaria.
O que está em causa é mais do que a simples constatação de que se pode ser rico e de esquerda -- coisa que toda a gente sabe e não merece qualquer observação. É ambíguo o conceito de "rico", e é complicada a leitura dos dados, porque, mesmo se nos limitarmos ao inferno fiscal das contas declaradas, há esposos e esposas, filhos e filhas, decisões familiares. O problema é estarmos a descobrir que se pode estar na carreira política, em certos casos há anos, e andar perto da indigência. Está bem que sairam do armário 20% de milionários entre os ministros, mas que pensar dos que não declaram quase nada e têm na conta corrente umas parcas centenas de euros (ministro do interior, por exemplo), tão pouco que até nos aflige imaginar como chegarão ao fim do mês? A ministra da justiça declara 3 bicicletas mas tem outros bens que se vejam; já o do trabalho tem uns apartamentos mas anda de Clio como eu (uma coisa indigna, bem reprovada pelo nosso bom Assis). Outros não têm nada de nada (ministra da ecologia) ou têm tão pouco ou estão de tal modo endividados que, calculado o saldo, fico a pensar na sorte que tenho em não estar na pele deles.
O assunto é muito sério. Se isto continua, há o risco de os franceses pensarem que estão a ser governados por alguns insolventes. E a querer que se investigue a hipótese de haver empobrecimento ilícito.
Sem ironias, e a julgar pelo grosso dos comentários nos sítios dos jornais, os franceses não engoliram bem o resultado da operação moralizadora, que acaba por parecer um devio de atenção do escândalo recente que, de resto, todo este coming-out não evitaria.
sábado, abril 13
Palavras estropiadas
Há palavras com pouca sorte. Quando certas classes de utilizadores as descobriram e as integraram nos seus dicionários, perderam significado e passaram a falar de si próprias. Integradas em construções feias ou à beira da incorrecção sintática, tal foi o destino de locuções que alimentam o jornalês e o comentarês:
no contexto
contextualizar
significativo
estar em cima da mesa
estruturante
não se compadecer com
Um dos casos mais interessantes é a frequente substituição do dizer ou afirmar por outros verbos mais contundentes:
X acusa
X arrasa
X alerta
O verbio alertar, um dos mais mal tratados, surge com frequência seguido (mal) de que. É incrível a quantidade de alertas que por aí proliferam. Tantos, que obviamente não podemos concentrar-nos em nenhum: andar em permenente estado de alerta é o mesmo que que nada. Ainda ontem o PÚBLICO deixava dois. O verbo sofreu uma subtil alteração semântica, porque a sua utilização é predominante quando o conteúdo do alerta está de acordo com aquilo para que se adivinha que o próprio jornalista gostaria de alertar. Seguro alerta, Soares alerta, Sampaio alerta, Cavaco alerta, Passos alerta... o Google tem muito para contar.
Outra aquisição do comentarês, trazida à cena nos anos recentes, é a narrativa. É bonita palavra e tem ressonância muito culta, com provas dadas na crítica literária, na História e na Sociologia. Suporta-se em doses parcimoniosas, homeopáticas. O novo comentador da RTP1, desastradamente, arrasou-a (agora sim, é caso para dizer). Nos tempos mais próximos ninguém usará o infeliz vocábulo sem uma desculpa prévia ou sem receio de algum ridículo.
no contexto
contextualizar
significativo
estar em cima da mesa
estruturante
não se compadecer com
Um dos casos mais interessantes é a frequente substituição do dizer ou afirmar por outros verbos mais contundentes:
X acusa
X arrasa
X alerta
O verbio alertar, um dos mais mal tratados, surge com frequência seguido (mal) de que. É incrível a quantidade de alertas que por aí proliferam. Tantos, que obviamente não podemos concentrar-nos em nenhum: andar em permenente estado de alerta é o mesmo que que nada. Ainda ontem o PÚBLICO deixava dois. O verbo sofreu uma subtil alteração semântica, porque a sua utilização é predominante quando o conteúdo do alerta está de acordo com aquilo para que se adivinha que o próprio jornalista gostaria de alertar. Seguro alerta, Soares alerta, Sampaio alerta, Cavaco alerta, Passos alerta... o Google tem muito para contar.
Outra aquisição do comentarês, trazida à cena nos anos recentes, é a narrativa. É bonita palavra e tem ressonância muito culta, com provas dadas na crítica literária, na História e na Sociologia. Suporta-se em doses parcimoniosas, homeopáticas. O novo comentador da RTP1, desastradamente, arrasou-a (agora sim, é caso para dizer). Nos tempos mais próximos ninguém usará o infeliz vocábulo sem uma desculpa prévia ou sem receio de algum ridículo.
domingo, abril 7
Perigoso e fascinante
Coreia do Norte: um rapazola com um cabeleireiro caprichoso posa para o fotógrafo ora a ler mapas, ora a olhar pelos binóculos. Tem mísseis e armas atómicas, e uma tia e um tio que, para além do negócio dos hamburgers, têm experiência em jogos perigosos.
Espanha: depois de Bárcenas e dos ERES de Andaluzia, o caso Urdangarin acaba por atingir a infanta, que um juiz veio com todo o cuidado reabilitar como não idiota, apontando-a como presumível implicada que percebia e colaborava. Torres, o sócio queimado, defende-se como pode lançando cocktails que explodem na casa irreal. A última série anunciada de e-mails prontos a sair contém umas porcarias que poderão levar a infanta a libertar-se pelo divórcio.
França: um ministro das finanças desvia uns milhões e falsifica uma declaração fiscal. Há quanto tempo estavam ao corrente as figuras gradas do poder? Isto está bonito.
Portugal: o estilhaço de Relvas, logo nas vésperas da estreia daquele comentador que só tem uma conta bancária, mais parecia uma partida desagradável -- Relvas imola-se para provocar desconforto e irritação no comentador, a quem falar de licenciaturas deverá provocar alergia. (Isto é a brincar: os factos mostram como entre Relvas e novo comentador o plano é de harmonia.) A crise aberta ontem vem em auxílio do comentador, que assim poderá concentrar-se no que chamará assuntos que verdadeiramente interessam. Entretanto, os riscos no futuro próximo são mais que muitos. E para além dos riscos antevê-se um massacre para os ouvidos: a reposição prematura em cena do discurso eleitoralista fora do prazo, essa forma de insuportável poluição sonora com que as mesmas figuras de sempre se estarão a preparar para nos dar música requentada. Tirem-nos do filme!
Espanha: depois de Bárcenas e dos ERES de Andaluzia, o caso Urdangarin acaba por atingir a infanta, que um juiz veio com todo o cuidado reabilitar como não idiota, apontando-a como presumível implicada que percebia e colaborava. Torres, o sócio queimado, defende-se como pode lançando cocktails que explodem na casa irreal. A última série anunciada de e-mails prontos a sair contém umas porcarias que poderão levar a infanta a libertar-se pelo divórcio.
França: um ministro das finanças desvia uns milhões e falsifica uma declaração fiscal. Há quanto tempo estavam ao corrente as figuras gradas do poder? Isto está bonito.
Portugal: o estilhaço de Relvas, logo nas vésperas da estreia daquele comentador que só tem uma conta bancária, mais parecia uma partida desagradável -- Relvas imola-se para provocar desconforto e irritação no comentador, a quem falar de licenciaturas deverá provocar alergia. (Isto é a brincar: os factos mostram como entre Relvas e novo comentador o plano é de harmonia.) A crise aberta ontem vem em auxílio do comentador, que assim poderá concentrar-se no que chamará assuntos que verdadeiramente interessam. Entretanto, os riscos no futuro próximo são mais que muitos. E para além dos riscos antevê-se um massacre para os ouvidos: a reposição prematura em cena do discurso eleitoralista fora do prazo, essa forma de insuportável poluição sonora com que as mesmas figuras de sempre se estarão a preparar para nos dar música requentada. Tirem-nos do filme!
domingo, março 31
Livraria?
Conta o PÚBLICO que a Livraria Lello vai cobrar entradas. Parece que já há indignações mas também aplausos.
Quando vou ao Porto, a minha rota de trabalho passa pela Lello e entro sempre. Declaro já que não vou lá há dois anos e portanto a minha impressão pode estar desactualizada. O problema com a Lello está mal posto: aquilo é mais uma escada deslumbrante do que uma livraria. Sim, tem livros, mas se se pretender encontrar algum mais arredado das estantes, duvido que seja lá.
A Lello é uma livrariazinha, e nisto infelizmente não está só entre as suas congéneres portuguesas. Já tivemos em tempos uma Buccholz desarrumada mas bem fornecida, e alguns nichos de especialidade na zona do Chiado. Actualmente, quase todas as procuras que não comecem na fnac arriscam-se a ser perdas de tempo. Esta circunstância marca Portugal e é facilmente verificável. Cidades de dimensão modesta em Espanha ou Itália têm livrarias mais bem apetrechadas em matéria de conteúdo do que as de Lisboa ou Porto. Passe-se a fronteira e compare-se. Basta ir a Badajoz ou a Santiago de Compostela.
Os turistas vão à Lello contemplar e subir a escada, pronto.
Quando vou ao Porto, a minha rota de trabalho passa pela Lello e entro sempre. Declaro já que não vou lá há dois anos e portanto a minha impressão pode estar desactualizada. O problema com a Lello está mal posto: aquilo é mais uma escada deslumbrante do que uma livraria. Sim, tem livros, mas se se pretender encontrar algum mais arredado das estantes, duvido que seja lá.
A Lello é uma livrariazinha, e nisto infelizmente não está só entre as suas congéneres portuguesas. Já tivemos em tempos uma Buccholz desarrumada mas bem fornecida, e alguns nichos de especialidade na zona do Chiado. Actualmente, quase todas as procuras que não comecem na fnac arriscam-se a ser perdas de tempo. Esta circunstância marca Portugal e é facilmente verificável. Cidades de dimensão modesta em Espanha ou Itália têm livrarias mais bem apetrechadas em matéria de conteúdo do que as de Lisboa ou Porto. Passe-se a fronteira e compare-se. Basta ir a Badajoz ou a Santiago de Compostela.
Os turistas vão à Lello contemplar e subir a escada, pronto.
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