quinta-feira, maio 16

Titulações

Diverte-me a arrumação que a imprensa faz das notícias. No El Mundo de hoje, o relato de que Maradona apedrejou jornalistas na auto-estrada vem na secção "Desporto". No Público de há dois dias, a mastectomia* de Jolie aparece na secção "Cultura".

* não deveriam escrever mastetomia? Que sorte a das palavras menos ditas, escapam à foice do acordo.

segunda-feira, maio 13

Olhares sobre Terrugem

Terrugem é uma freguesia de Elvas com cerca de 1200 habitantes. A informação disponível refere a existência de actividade económica baseada em artesanato e peles. É também ponto de atracção turística e gastronómica, com um restaurante bem classificado pela clientela (A Bolota), num espaço que também possui piscinas e campos de ténis. Naturalmente, os espanhóis são parte importante da afluência.

Está-se bem em Terrugem, com certeza. Está-se bem na Bolota. Qualquer par de horas passado em contemplação da paisagem e da luz do Alentejo, na entrega aos sabores voluptuosos da comida, vai direitinho para a zona das memórias doces.

Pode-se, no entanto, contemplar com olhares distintos. Há pelo menos o olhar encantado, enlevado de Joaquim Folgado e a visão interrogativa de Juan Luis Martínez-Carande, que se confessa surpreendido, ou talvez não, pela grande piscina em construção, com suporte de fundos públicos, em pleno 2013. Parece que o investimento valerá 600 mil euros. A não ser que fechem as piscinas de Elvas para desviar banhistas, o Juan Luis terá razão: vamos ter os banhos mais caros do mundo.

domingo, maio 12

Os saberes online e os nomes dos bois

Quer estudar Circuitos e Electrónica, Saúde e Ambiente, Introdução à Mecânica, Estatística, Filosofia Política? Agora tem à disposição cursos das melhores universidades (MIT, Harvard...) inteiramente grátis. Chamam-se MOOCs (massive open online courses).

Este prodígio do nosso tempo não é do agrado de todos. Os professores do departamento de Filosofia da Universidade de San José, pressionados para utilizar um MOOC de M. Sandel, professor de Harvard, não ficaram nada entusiasmados com a ideia. Reagiram publicamente com uma carta a Sandel, também ela aberta, como os novos cursos. As razões dos professores são mais do que previsíveis: não se põe em causa a competência de Sandel mas, por um lado, há em San José corpo docente igualmente competente e, por outro, os estudantes tiram melhor partido do contacto com professores vivos na sala de aula. Cursos enlatados serão um passo no caminho do pensamento monolítico e uniformizado, que é o contrário do que numa universidade se pretende. A generalizar-se a adopção dos enlatados, acabará por criar-se uma divisão das universidades em duas categorias: uma, para os privilegiados que podem pagar aulas presenciais e beneficiar da constante discussão e actualização científica, e outra menos valorizada, para os que só podem aceder a uma tele-escola de conteúdos petrificados.

Os signatários sabem perfeitamente quais são as intenções e o que está em risco, e convidam a que os bois sejam chamados pelos nomes. Invocam-se benefícios pedagógicos quando se faz contratos de utilização de MOOCs, mas não se consulta o departamento nem as coordenações de curso? Está-se, sim, a reestruturar a universidade, pressionada para admitir cada vez mais estudantes e privilegiar a formação em cursos de maior empregabilidade. A opção parece clara: precinda-se dos professores, essa mão de obra tão cara, e comece-se, para já, pela área de Humanidades.

Os argumentos têm sentido e são razoáveis, mas é impossível não ler também, na carta aberta, a preocupação com a perda de lugares bem remunerados. Todos os bois merecem nomes. O mundo é um lugar onde sucedem coisas bastante desagradáveis, como fazer face aos custos elevados de certos bens.

terça-feira, abril 16

Des mensonges pour tous

O ímpeto moralizador do presidente Hollande acaba de proporcionar ao mundo um inesperado episódio de voyeurismo. Talvez Hollande tenha dado também um pontapé na parede, já agora.

O que está em causa é mais do que a simples constatação de que se pode ser rico e de esquerda -- coisa que toda a gente sabe e não merece qualquer observação. É ambíguo o conceito de "rico", e é complicada a leitura dos dados, porque, mesmo se nos limitarmos ao inferno fiscal das contas declaradas, há esposos e esposas, filhos e filhas, decisões familiares. O problema é estarmos a descobrir que se pode estar na carreira política, em certos casos há anos, e andar perto da indigência. Está bem que sairam do armário 20% de milionários entre os ministros, mas que pensar dos que não declaram quase nada e têm na conta corrente umas parcas centenas de euros (ministro do interior, por exemplo), tão pouco que até nos aflige imaginar como chegarão ao fim do mês? A ministra da justiça declara 3 bicicletas mas tem outros bens que se vejam; já o do trabalho tem uns apartamentos mas anda de Clio como eu (uma coisa indigna, bem reprovada pelo nosso bom Assis). Outros não têm nada de nada (ministra da ecologia) ou têm tão pouco ou estão de tal modo endividados que, calculado o saldo, fico a pensar na sorte que tenho em não estar na pele deles.

O assunto é muito sério. Se isto continua, há o risco de os franceses pensarem que estão a ser governados por alguns insolventes. E a querer que se investigue a hipótese de haver empobrecimento ilícito.

Sem ironias, e a julgar pelo grosso dos comentários nos sítios dos jornais, os franceses não engoliram bem o resultado da operação moralizadora, que acaba por parecer um devio de atenção do escândalo recente que, de resto, todo este coming-out não evitaria.

sábado, abril 13

Palavras estropiadas

Há palavras com pouca sorte. Quando certas classes de utilizadores as descobriram e as integraram nos seus dicionários, perderam significado e passaram a falar de si próprias. Integradas em construções feias ou à beira da incorrecção sintática, tal foi o destino de locuções que alimentam o jornalês e o comentarês:

no contexto
contextualizar
significativo
estar em cima da mesa
estruturante
não se compadecer com

Um dos casos mais interessantes é a frequente substituição do dizer ou afirmar por outros verbos mais contundentes:

X acusa
X arrasa
X alerta

O verbio alertar, um dos mais mal tratados, surge com frequência seguido (mal) de que. É incrível a quantidade de alertas que por aí proliferam. Tantos, que obviamente não podemos concentrar-nos em nenhum: andar em permenente estado de alerta é o mesmo que que nada. Ainda ontem o PÚBLICO deixava dois. O verbo sofreu uma subtil alteração semântica, porque a sua utilização é predominante quando o conteúdo do alerta está de acordo com aquilo para que se adivinha que o próprio jornalista gostaria de alertar. Seguro alerta, Soares alerta, Sampaio alerta, Cavaco alerta, Passos alerta... o Google tem muito para contar.

Outra aquisição do comentarês, trazida à cena nos anos recentes, é a narrativa. É bonita palavra e tem ressonância muito culta, com provas dadas na crítica literária, na História e na Sociologia. Suporta-se em doses parcimoniosas, homeopáticas. O novo comentador da RTP1, desastradamente, arrasou-a (agora sim, é caso para dizer). Nos tempos mais próximos ninguém usará o infeliz vocábulo sem uma desculpa prévia ou sem receio de algum ridículo.


domingo, abril 7

Perigoso e fascinante

Coreia do Norte: um rapazola com um cabeleireiro caprichoso posa para o fotógrafo ora a ler mapas, ora a olhar pelos binóculos. Tem mísseis e armas atómicas, e uma tia e um tio que, para além do negócio dos hamburgers, têm experiência em jogos perigosos.

Espanha: depois de Bárcenas e dos ERES de Andaluzia, o caso Urdangarin acaba por atingir a infanta, que um juiz veio com todo o cuidado reabilitar como não idiota, apontando-a como presumível implicada que percebia e colaborava. Torres, o sócio queimado, defende-se como pode lançando cocktails que explodem na casa irreal. A última série anunciada de e-mails prontos a sair contém umas porcarias que poderão levar a infanta a libertar-se pelo divórcio.

França: um ministro das finanças desvia uns milhões e falsifica uma declaração fiscal. Há quanto tempo estavam ao corrente as figuras gradas do poder? Isto está bonito.

Portugal: o estilhaço de Relvas, logo nas vésperas da estreia daquele comentador que só tem uma conta bancária, mais parecia uma partida desagradável -- Relvas imola-se para provocar desconforto e irritação no comentador, a quem falar de licenciaturas deverá provocar alergia. (Isto é a brincar: os factos mostram como entre Relvas e novo comentador o plano é de harmonia.) A crise aberta ontem vem em auxílio do comentador, que assim poderá concentrar-se no que chamará assuntos que verdadeiramente interessam. Entretanto, os riscos no futuro próximo são mais que muitos. E para além dos riscos antevê-se um massacre para os ouvidos: a reposição prematura em cena do discurso eleitoralista fora do prazo, essa forma de insuportável poluição sonora com que as mesmas figuras de sempre se estarão a preparar para nos dar música requentada. Tirem-nos do filme!

domingo, março 31

Livraria?

Conta o PÚBLICO que a Livraria Lello vai cobrar entradas. Parece que já há indignações mas também aplausos.

Quando vou ao Porto, a minha rota de trabalho passa pela Lello e entro sempre. Declaro já que não vou lá há dois anos e portanto a minha impressão pode estar desactualizada. O problema com a Lello está mal posto: aquilo é mais uma escada deslumbrante do que uma livraria. Sim, tem livros, mas se se pretender encontrar algum mais arredado das estantes, duvido que seja lá.

A Lello é uma livrariazinha, e nisto infelizmente não está só entre as suas congéneres portuguesas. Já tivemos em tempos uma Buccholz desarrumada mas bem fornecida, e alguns nichos de especialidade na zona do Chiado. Actualmente, quase todas as procuras que não comecem na fnac arriscam-se a ser perdas de tempo. Esta circunstância marca Portugal e é facilmente verificável. Cidades de dimensão modesta em Espanha ou Itália têm livrarias mais bem apetrechadas em matéria de conteúdo do que as de Lisboa ou Porto. Passe-se a fronteira e compare-se. Basta ir a Badajoz ou a Santiago de Compostela.

Os turistas vão à Lello contemplar e subir a escada, pronto.





sábado, março 30

Incertezas e calafrios

Ou porque esteve uns dias sem medicação, ou porque Kim III ou alguém por ele quer afirmar-se, a guerra está declarada.  As agências oficiais divulgam fotografias do menino Kim em reunião com militares. Aparece nalgumas a estudar uns mapas. Os alvos nos Estados Unidos já estão escolhidos e incluem Austin, cidade de sentir democrático e onde está instalada uma sede importante da Samsung, um dos símbolos do sucesso da outra Coreia. É impossível saber que quantidade de medo devemos ter destas ameaças. Apesar da pose grotesca, de os generais estarem vestidos como nos filmes dos anos 40, e de continuarem a filmar multidões reais sem truques de computador nem efeitos especiais, eles têm armas nucleares. Podem não ser o último modelo, mas ardem na mesma. Pior do que nós, simples espectadores, não sabermos, é a sensação que paira de que ninguém sabe. Tal como se ignora a dimensão do crédito interno do regime. Video: Daily Telegraph

domingo, março 24

As petições

Passados agora quatro dias sobre o arranque da petição de recusa, seguido da que é a favor, confirma-se a tendência de grande avanço da primeira. O facto é interessante (mais do que pelo valor facial das posições em cena) pelo que revela do desprestígio do anterior PM. É que a modéstia das prestações dos "a favor" tem que ter a sua explicação na indiferença de muitos votantes socialistas a respeito da causa. Ontem, Inês Pedrosa twittava que nas listas da primeira petição eram só Braganças e tal (a tendência para explicar os factos desagradáveis a partir de conspirações ou cabalas de um pequeno grupo...) mas a realidade não sustenta nada disso. Pelo contrário, o que julgo poder-se inferir é que os que estão a exprimir-se na petição "a favor" estão no núcleo duro de socratistas que inclui parte importante do aparelho partidário e se estende a franjas de admiradores que possuem fé inabalável no ex-líder. Mas presumo que já não representam nem os futuros votantes no PS em eleições próximas.

Para além dos maus resultados de governo, consta  do legado do ex-PM o envolvimento em múltiplos episódios, nunca convenientemente explicados, onde se exibem comportamentos que com candura podemos classificar como apenas moralmente reprováveis. A ausência de acusações formais não impede as pessoas de formarem as suas próprias convicções sobre o que vão sabendo, porque as coisas fazem mais sentido numa versão do que noutras.

A censurabilidade do comportamento, mesmo em episódios como o da licenciatura "fast", é demolidora porque põe fortemente em causa a sinceridade e as boas intenções na acção política. Este facto pode ser um importante factor de desgaste de imagem, não só do actor principal, mas também do núcleo duro do partido que gravita à sua volta, e salpica mesmo outros que nunca desse núcleo se demarcaram.


Nota. No momento em que se publica este post, as subscrições somam, respectivamente, 121757 e 6860 nomes.

domingo, março 3

Send in the clowns

A situação político-teatral em Itália motivou este título recentemente no WSJ e no Economist. O mote é uma canção de Stephen Sondheim que fala de outras coisas. Aqui fica recordada, a pretexto.

quarta-feira, dezembro 26

A descida ao inferno nas escolas

O pesadelo que afoga as escolas em burocracia está comentado neste artigo do Guardian.

Primeiro foram as escolas básicas e secundárias, mas o polvo já se instalou também nas universidades. Tudo o que é possível inventar para desviar os professores do acto de ensinar e de fazer investigação, de certeza que não fica na gaveta. Com nobres objectivos - a defesa da qualidade e da avaliação do "desempenho" - a ditadura democrática dos gabinetes que diariamente requerem relatórios e ficheiros está para durar, com o patrocínio distante, neutro mas certamente embevecido do Microsoft Office. Até ao dia em que não haverá nada para relatar, pois todo o tempo disponível foi consumido a compor e formatar.

A outra venda de natal

Os últimos dias têm sido ricos para discussão de questões morais em França. Depois do assunto Depardieu, há agora choque de pontos de vista, nos comentários de leitores do Figaro, sobre a putativa cupidez dos que vendem os presentes de natal indesejados. É a substituição dos sentimentos pelo comércio. Minable, dizem alguns.

O Observador observado

Parece não estar encerrado o episódio de stand-up comedy em que Artur Baptista Silva emerge à fama súbita e logo desliza ao estado de réprobo.

Ao muito que se escreveu e comentou sobre o engraçado acontecimento acrescento só duas reflexões: 1) os jornalistas ocupados a desculpar-se de terem caido nisto e naquilo (como se fosse a primeira vez) não tentaram logo saber onde está o artista, nem indagar das suas motivações. 2) uma parte da opinião publicada defende que o importante é o conteúdo e não o mensageiro. Em abstracto, concordo. Mas quando o conteúdo é em substância decorrente de opinião ou ideologia e não o relato de factos, justifica-se o cepticismo. Sobretudo por elementar prudência: se uma pessoa mente sobre o seu curriculum e aldraba dados biográficos, que confiança merece o resto do discurso?

segunda-feira, novembro 19

O massacre das palavras ditas

As luminárias de gabinete que teceram o recente e inútil acordo ortográfico não cuidaram de prever as consequências mais gravosas das regras que inventaram. Descarto já a ocultação de conexões de significado entre vocábulos com raiz comum. Refiro-me ao efeito da grafia na corrupção da pronúncia.

Sob a capa da simplificação, abre-se o caminho à deterioração do português falado. Parece apenas diletante propôr a queda do c e do p quando "não se pronunciam" (dizem eles, esquecendo que estas consoantes exercem um efeito de acentuação significativo e em alguns casos se pronunciam de modo subtil). Os iluminados proponentes esqueceram que não é o mesmo usar uma ou outra grafia em Portugal ou no Brasil. Lá, eles sempre disseram e dirão tèlèfone, enquanto aqui, sobretudo na região de Lisboa, onde se fala o pior português do mundo, dizemos tlfone. A nossa tendência vocalicida fará com que, num futuro breve, ado(p)ção soe como adução, rece(p)ção como recessão... os exemplos são inúmeros. Para além do surgimento de uma bolha de homófonas, assistiremos ao emudecimento do "e" ou do "a" em palavras como infeção ou inação. Far-nos-emos entender cada vez pior.

Quero ressalvar apesar de tudo que o acordo é muito adequado à escrita de sms.

domingo, setembro 30

Post amargo e irritado

Para que serve? para "socializar", para "integrar". Qual é o espanto? Todos estamos habituados a essa rotina necessária: quando somos apresentados a pessoas com quem vamos provavelmente partilhar espaço ou actividades, é natural esperar que numa fase inicial elas nos obriguem a beber vinagre (se não forem muito mazinhas)  e a limpar-lhes a retrete, a fim de facilitar a amizade e a camaradagem no dia a dia.

É da praxe que no início do ano lectivo há notícias de estudantes atingidos, por vezes de forma violenta, pelas consequências dessa actividade inominável, tão estúpida e pirosa como o nome que lhe dão. Já se viu que as escolas não têm capacidade de refrear a prática. As claques de cultores falam dela como "tradição", mas em vez disso deviam dizer "importação" de mau gosto. Em Lisboa a praxe é moda recente, e nas universidades de província tem de o ser por força, porque todas elas são recentes. A instituição de uma longa época de brincadeira estudantil que se estende pelos primeiros meses do ano escolar é contemporânea da massificação descontrolada do ensino superior. A degradação de qualidade não é o único dano colateral do processo: ele arrastou a deterioração do nexo entre universidade e cultura ou élites. As manifestações inocentes desta quebra são a adopção maciça do trajo ridículo com que a estudantada se passeianas aulas e pelas ruas, e a presença dos Quins Barreiros deste país nas festas académicas. No seu pior, a estupidez afecta a saúde ou a vida.

O silêncio dos ausentes

Na saudação de Mariano Rajoy aos que não se tinham manifestado em Neptuno encontrou Pedro Almodóvar inspiração para uma resposta vigorosa e dissertar sobre a teoria das múltiplas narrativas e as manipulações a que as imagens se prestam.

Também as palavras também se vergam às convicções do narrador. Acusando Rajoy de se apropriar do seu silêncio, Almodóvar apodera-se do silêncio dos outros ausentes; certamente será apoiado por muitos, mas também não será pequena a pateada. O potencial da narração caleidoscópica tem sido bem explorado na literatura e no cinema, e o seu fascínio só pode vir, de facto, da omnipresença da ambiguidade no mundo real. Se o narrador omnisciente pode ser insatisfatório por boas razões, não pode Almodóvar esquecer que o seu ponto de vista é apenas mais um.  Se "Cualquier realidad puede significar algo o lo contrario, según los intereses de quien la narre", também qualquer um pode interrogar-se sobre os interesses que movem Almodóvar (que, repare-se, descobre por via deste episódio os malefícios da televisão pública) na criação da sua realidadezinha em palavras. Todos podemos permitir-nos a arrogância de acreditar que os calados estão connosco.

quinta-feira, setembro 6

Crise da Economia como área de conhecimento

Um breve artigo de Howard Davies, ex-director da LSE e primeiro presidente do FSA, levanta uma discussão aparentemente informada, com muitas palmas e pateada também. A controvérsia ilustra a desconfiança que alastra, mesmo entre os entendidos, sobre os caminhos da Economia e dos estudos financeiros. Até que ponto os modelos matemáticos, e os métodos importados da Física e da Engenharia, constituem um contributo de valor para construir uma ciência da economia? Não teremos andado a iludir-nos e a perder tempo, que melhor teria sido utilizado estudando bem a história, a sociologia e procurando compreender como agem as instituições? A resolução dos problemas com que nos deparamos dependem mais de decisões políticas ou de conhecer o comportamento das soluções de um problema em análise estocástica?

Não há consenso sobre a mínima coisa. Se muitos criticam a ausência de previsão da crise, logo outros clamam que houve quem previsse, sim senhor. Mas uns terceiros põem em causa o valor da previsão em face dos modelos disponíveis: quem acertou, acertou só por ser um pessimista incorrigível. Mas também estes não ficam sem resposta: os pessimistas foram ignorados interesse das instituições, tanto financeiras como reguladoras.

A matematização de uma área do conhecimento é um requisito maior para lhe conferir credibilidade e carácter de "ciência". Mas os modelos matemáticos têm um valor limitado e devem ser lidos com prudência quando estão em jogo comportamentos de pessoas e instituições de grande complexidade e que podem fugir aos axiomas da teoria.

Em vez de castigar a incipiente "ciência" económica e financeira, pode ser mais útil subir a fasquia de exigência aos dirigentes políticos e aos reguladores e perguntar, afinal, para que servem estes. E não perder de vista alguns princípios de bom senso no planeamento a longo prazo. Por exemplo, que o dinheiro não nasce do ar nem das leis. Que não é razoável gastar mais do que aquilo que é expectável que venhamos a ter. Ou que quando os governos privam os cidadãos de uma parte importante da riqueza para realizar investimentos que a muito poucos servem, ou a produzir o que só pode ser comprado à força, é provável que a factura venha a ser dolorosa para a maioria.

quarta-feira, setembro 5

Isto é notícia ou simples divulgação de um manifesto?

Quando é que os redactores aprendem a redigir? Em vez de "é uma das mais recentes figuras da sociedade portuguesa a subscrever o manifesto " deveria estar "é uma das figuras da sociedade portuguesa que mais recentemente subscreveram o manifesto". Jorge Sampaio não é figura recente, não há figuras recentes.
Indo à substância da notícia, o facto de serem comuns notícias deste tipo leva-me a ignorar os jornais portugueses. A notícia é apenas a reprodução de excertos do manifesto de uns senhores que nos querem dar uma música que já conhecemos, entrecortada por um recitativo inútil de ligação das frases. Não há surpresa nenhuma. Nenhuma pergunta, nenhum confronto.Se a notícia fosse reduzida à frase "a rtp tal como existe é necessária porque sim" o resultado seria igual.
Não preciso de recorrer ao PÚBLICO para ficar a saber que as pessoas mencionadas na "notícia" estão contra o "atentado ao serviço público de tv". Eu até posso enumerar mais umas dezenas e acerto de certeza. A única novidade para mim foi o nome completo do cantor, de que só conhecia o primeiro nome.
Quanto à gestão do serviço público de tv, não tenho preferências. Preocupante é que pesa demasiado na despesa e particularmente na factura mensal da energia. As alterações de que se tem falado não vão alterar este estado de coisas. Os subscritores do manifesto não estão preocupados com isso. Presumo que não têm dificuldade em pagar as suas contas, e ainda bem, mas podiam preocupar-se com as contas difíceis de muitos dos seus concidadãos.

domingo, setembro 2

E a luz desfez-se



Dando cumprimento a mais uma directiva do Grande Irmão que sabe melhor do que nós como devemos iluminar os nossos espaços, está ilegalizado a partir de ontem o fabrico de lâmpadas incandescentes na UE. A comercialização deste simpático produto está também condenada, ficando restringida a stocks e a modelos muito específicos. A sentença para o halogéneo está também lavrada: morte daqui a quatro anos. Preparemo-nos então para gastar uma pipa de euros nos LED que nos vão obrigar a consumir, para poupar uma pequena quantidade de energia - poupança que nem sentiremos porque a factura vai continuar a subir a favor das eléctricas. As novas lâmpadas anunciam com pompa grande longevidade. Como se a durabilidade técnica pudesse ser um desafio à legislativite compulsiva e à simpatia por algum novo lobby, que hão-de restringir o uso do LED mais cedo do que tarde.

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Duas ligações interessantes: http://greenwashinglamps.wordpress.com/ e http://freedomlightbulb.blogspot.pt/

terça-feira, agosto 28

Dos jornais

Nova revelação: Hugo Chávez tem uma veia de jornalista e corrige as notícias. Na visita às chamas de Amuay, no domingo, disse que era impossível que se tivesse sentido cheiro a gás umas horas antes do acidente.

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O governo de Guterres, ou assim, em França, cumpre a promessa eleitoral de suster o preço dos combustíveis.

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Em Itália, assiste-se a um interessantíssimo debate médico. Está em causa a que tipo de controlo vão ser obrigados os frequentadores de ginásios, antes de se entregarem a essa perigosa actividade. Eu bato palmas, pois já ganhei um problema de coluna e a rotura de um nervo por me aventurar num desses antros. Vejamos: a Federação dos Médicos de Medicina Desportiva diz que o controlo por um médico do desporto é uma medida de defesa da saúde do cidadão, e o único controlo epidemiológico que resta, tendo em conta a abolição de inspecção para serviço militar. Outros médicos da área desportiva estão de acordo: o exame por um médico generalista não é suficiente. Mas os médicos de família não concordam e lembram que em muitos casos nem recebem dinheiro pela consulta. Além de que é difícil obter consulta numa área com poucos especialistas. O presidente da Fundação para o Coração, por seu lado, encara de modo muito positivo a obrigatoriedade do certificado obrigatório, mas acha que se deve ir mais longe e prescrever também uma visita ao cardiologista. As falhas de coração são a primeira causa de morte na actividade desportiva.
Reflectindo melhor, e dados os imensos riscos, talvez os governos devam proibir os ginásios. Ou,pelo contrário, se um estudo conveniente vier denunciar a imensa mortalidade causada pela ausência de exercício, torná-los obrigatórios e gratuitos, desviando o custo para a factura dos manuais escolares.