domingo, abril 7

Perigoso e fascinante

Coreia do Norte: um rapazola com um cabeleireiro caprichoso posa para o fotógrafo ora a ler mapas, ora a olhar pelos binóculos. Tem mísseis e armas atómicas, e uma tia e um tio que, para além do negócio dos hamburgers, têm experiência em jogos perigosos.

Espanha: depois de Bárcenas e dos ERES de Andaluzia, o caso Urdangarin acaba por atingir a infanta, que um juiz veio com todo o cuidado reabilitar como não idiota, apontando-a como presumível implicada que percebia e colaborava. Torres, o sócio queimado, defende-se como pode lançando cocktails que explodem na casa irreal. A última série anunciada de e-mails prontos a sair contém umas porcarias que poderão levar a infanta a libertar-se pelo divórcio.

França: um ministro das finanças desvia uns milhões e falsifica uma declaração fiscal. Há quanto tempo estavam ao corrente as figuras gradas do poder? Isto está bonito.

Portugal: o estilhaço de Relvas, logo nas vésperas da estreia daquele comentador que só tem uma conta bancária, mais parecia uma partida desagradável -- Relvas imola-se para provocar desconforto e irritação no comentador, a quem falar de licenciaturas deverá provocar alergia. (Isto é a brincar: os factos mostram como entre Relvas e novo comentador o plano é de harmonia.) A crise aberta ontem vem em auxílio do comentador, que assim poderá concentrar-se no que chamará assuntos que verdadeiramente interessam. Entretanto, os riscos no futuro próximo são mais que muitos. E para além dos riscos antevê-se um massacre para os ouvidos: a reposição prematura em cena do discurso eleitoralista fora do prazo, essa forma de insuportável poluição sonora com que as mesmas figuras de sempre se estarão a preparar para nos dar música requentada. Tirem-nos do filme!

domingo, março 31

Livraria?

Conta o PÚBLICO que a Livraria Lello vai cobrar entradas. Parece que já há indignações mas também aplausos.

Quando vou ao Porto, a minha rota de trabalho passa pela Lello e entro sempre. Declaro já que não vou lá há dois anos e portanto a minha impressão pode estar desactualizada. O problema com a Lello está mal posto: aquilo é mais uma escada deslumbrante do que uma livraria. Sim, tem livros, mas se se pretender encontrar algum mais arredado das estantes, duvido que seja lá.

A Lello é uma livrariazinha, e nisto infelizmente não está só entre as suas congéneres portuguesas. Já tivemos em tempos uma Buccholz desarrumada mas bem fornecida, e alguns nichos de especialidade na zona do Chiado. Actualmente, quase todas as procuras que não comecem na fnac arriscam-se a ser perdas de tempo. Esta circunstância marca Portugal e é facilmente verificável. Cidades de dimensão modesta em Espanha ou Itália têm livrarias mais bem apetrechadas em matéria de conteúdo do que as de Lisboa ou Porto. Passe-se a fronteira e compare-se. Basta ir a Badajoz ou a Santiago de Compostela.

Os turistas vão à Lello contemplar e subir a escada, pronto.





sábado, março 30

Incertezas e calafrios

Ou porque esteve uns dias sem medicação, ou porque Kim III ou alguém por ele quer afirmar-se, a guerra está declarada.  As agências oficiais divulgam fotografias do menino Kim em reunião com militares. Aparece nalgumas a estudar uns mapas. Os alvos nos Estados Unidos já estão escolhidos e incluem Austin, cidade de sentir democrático e onde está instalada uma sede importante da Samsung, um dos símbolos do sucesso da outra Coreia. É impossível saber que quantidade de medo devemos ter destas ameaças. Apesar da pose grotesca, de os generais estarem vestidos como nos filmes dos anos 40, e de continuarem a filmar multidões reais sem truques de computador nem efeitos especiais, eles têm armas nucleares. Podem não ser o último modelo, mas ardem na mesma. Pior do que nós, simples espectadores, não sabermos, é a sensação que paira de que ninguém sabe. Tal como se ignora a dimensão do crédito interno do regime. Video: Daily Telegraph

domingo, março 24

As petições

Passados agora quatro dias sobre o arranque da petição de recusa, seguido da que é a favor, confirma-se a tendência de grande avanço da primeira. O facto é interessante (mais do que pelo valor facial das posições em cena) pelo que revela do desprestígio do anterior PM. É que a modéstia das prestações dos "a favor" tem que ter a sua explicação na indiferença de muitos votantes socialistas a respeito da causa. Ontem, Inês Pedrosa twittava que nas listas da primeira petição eram só Braganças e tal (a tendência para explicar os factos desagradáveis a partir de conspirações ou cabalas de um pequeno grupo...) mas a realidade não sustenta nada disso. Pelo contrário, o que julgo poder-se inferir é que os que estão a exprimir-se na petição "a favor" estão no núcleo duro de socratistas que inclui parte importante do aparelho partidário e se estende a franjas de admiradores que possuem fé inabalável no ex-líder. Mas presumo que já não representam nem os futuros votantes no PS em eleições próximas.

Para além dos maus resultados de governo, consta  do legado do ex-PM o envolvimento em múltiplos episódios, nunca convenientemente explicados, onde se exibem comportamentos que com candura podemos classificar como apenas moralmente reprováveis. A ausência de acusações formais não impede as pessoas de formarem as suas próprias convicções sobre o que vão sabendo, porque as coisas fazem mais sentido numa versão do que noutras.

A censurabilidade do comportamento, mesmo em episódios como o da licenciatura "fast", é demolidora porque põe fortemente em causa a sinceridade e as boas intenções na acção política. Este facto pode ser um importante factor de desgaste de imagem, não só do actor principal, mas também do núcleo duro do partido que gravita à sua volta, e salpica mesmo outros que nunca desse núcleo se demarcaram.


Nota. No momento em que se publica este post, as subscrições somam, respectivamente, 121757 e 6860 nomes.

domingo, março 3

Send in the clowns

A situação político-teatral em Itália motivou este título recentemente no WSJ e no Economist. O mote é uma canção de Stephen Sondheim que fala de outras coisas. Aqui fica recordada, a pretexto.

quarta-feira, dezembro 26

A descida ao inferno nas escolas

O pesadelo que afoga as escolas em burocracia está comentado neste artigo do Guardian.

Primeiro foram as escolas básicas e secundárias, mas o polvo já se instalou também nas universidades. Tudo o que é possível inventar para desviar os professores do acto de ensinar e de fazer investigação, de certeza que não fica na gaveta. Com nobres objectivos - a defesa da qualidade e da avaliação do "desempenho" - a ditadura democrática dos gabinetes que diariamente requerem relatórios e ficheiros está para durar, com o patrocínio distante, neutro mas certamente embevecido do Microsoft Office. Até ao dia em que não haverá nada para relatar, pois todo o tempo disponível foi consumido a compor e formatar.

A outra venda de natal

Os últimos dias têm sido ricos para discussão de questões morais em França. Depois do assunto Depardieu, há agora choque de pontos de vista, nos comentários de leitores do Figaro, sobre a putativa cupidez dos que vendem os presentes de natal indesejados. É a substituição dos sentimentos pelo comércio. Minable, dizem alguns.

O Observador observado

Parece não estar encerrado o episódio de stand-up comedy em que Artur Baptista Silva emerge à fama súbita e logo desliza ao estado de réprobo.

Ao muito que se escreveu e comentou sobre o engraçado acontecimento acrescento só duas reflexões: 1) os jornalistas ocupados a desculpar-se de terem caido nisto e naquilo (como se fosse a primeira vez) não tentaram logo saber onde está o artista, nem indagar das suas motivações. 2) uma parte da opinião publicada defende que o importante é o conteúdo e não o mensageiro. Em abstracto, concordo. Mas quando o conteúdo é em substância decorrente de opinião ou ideologia e não o relato de factos, justifica-se o cepticismo. Sobretudo por elementar prudência: se uma pessoa mente sobre o seu curriculum e aldraba dados biográficos, que confiança merece o resto do discurso?

segunda-feira, novembro 19

O massacre das palavras ditas

As luminárias de gabinete que teceram o recente e inútil acordo ortográfico não cuidaram de prever as consequências mais gravosas das regras que inventaram. Descarto já a ocultação de conexões de significado entre vocábulos com raiz comum. Refiro-me ao efeito da grafia na corrupção da pronúncia.

Sob a capa da simplificação, abre-se o caminho à deterioração do português falado. Parece apenas diletante propôr a queda do c e do p quando "não se pronunciam" (dizem eles, esquecendo que estas consoantes exercem um efeito de acentuação significativo e em alguns casos se pronunciam de modo subtil). Os iluminados proponentes esqueceram que não é o mesmo usar uma ou outra grafia em Portugal ou no Brasil. Lá, eles sempre disseram e dirão tèlèfone, enquanto aqui, sobretudo na região de Lisboa, onde se fala o pior português do mundo, dizemos tlfone. A nossa tendência vocalicida fará com que, num futuro breve, ado(p)ção soe como adução, rece(p)ção como recessão... os exemplos são inúmeros. Para além do surgimento de uma bolha de homófonas, assistiremos ao emudecimento do "e" ou do "a" em palavras como infeção ou inação. Far-nos-emos entender cada vez pior.

Quero ressalvar apesar de tudo que o acordo é muito adequado à escrita de sms.

domingo, setembro 30

Post amargo e irritado

Para que serve? para "socializar", para "integrar". Qual é o espanto? Todos estamos habituados a essa rotina necessária: quando somos apresentados a pessoas com quem vamos provavelmente partilhar espaço ou actividades, é natural esperar que numa fase inicial elas nos obriguem a beber vinagre (se não forem muito mazinhas)  e a limpar-lhes a retrete, a fim de facilitar a amizade e a camaradagem no dia a dia.

É da praxe que no início do ano lectivo há notícias de estudantes atingidos, por vezes de forma violenta, pelas consequências dessa actividade inominável, tão estúpida e pirosa como o nome que lhe dão. Já se viu que as escolas não têm capacidade de refrear a prática. As claques de cultores falam dela como "tradição", mas em vez disso deviam dizer "importação" de mau gosto. Em Lisboa a praxe é moda recente, e nas universidades de província tem de o ser por força, porque todas elas são recentes. A instituição de uma longa época de brincadeira estudantil que se estende pelos primeiros meses do ano escolar é contemporânea da massificação descontrolada do ensino superior. A degradação de qualidade não é o único dano colateral do processo: ele arrastou a deterioração do nexo entre universidade e cultura ou élites. As manifestações inocentes desta quebra são a adopção maciça do trajo ridículo com que a estudantada se passeianas aulas e pelas ruas, e a presença dos Quins Barreiros deste país nas festas académicas. No seu pior, a estupidez afecta a saúde ou a vida.

O silêncio dos ausentes

Na saudação de Mariano Rajoy aos que não se tinham manifestado em Neptuno encontrou Pedro Almodóvar inspiração para uma resposta vigorosa e dissertar sobre a teoria das múltiplas narrativas e as manipulações a que as imagens se prestam.

Também as palavras também se vergam às convicções do narrador. Acusando Rajoy de se apropriar do seu silêncio, Almodóvar apodera-se do silêncio dos outros ausentes; certamente será apoiado por muitos, mas também não será pequena a pateada. O potencial da narração caleidoscópica tem sido bem explorado na literatura e no cinema, e o seu fascínio só pode vir, de facto, da omnipresença da ambiguidade no mundo real. Se o narrador omnisciente pode ser insatisfatório por boas razões, não pode Almodóvar esquecer que o seu ponto de vista é apenas mais um.  Se "Cualquier realidad puede significar algo o lo contrario, según los intereses de quien la narre", também qualquer um pode interrogar-se sobre os interesses que movem Almodóvar (que, repare-se, descobre por via deste episódio os malefícios da televisão pública) na criação da sua realidadezinha em palavras. Todos podemos permitir-nos a arrogância de acreditar que os calados estão connosco.

quinta-feira, setembro 6

Crise da Economia como área de conhecimento

Um breve artigo de Howard Davies, ex-director da LSE e primeiro presidente do FSA, levanta uma discussão aparentemente informada, com muitas palmas e pateada também. A controvérsia ilustra a desconfiança que alastra, mesmo entre os entendidos, sobre os caminhos da Economia e dos estudos financeiros. Até que ponto os modelos matemáticos, e os métodos importados da Física e da Engenharia, constituem um contributo de valor para construir uma ciência da economia? Não teremos andado a iludir-nos e a perder tempo, que melhor teria sido utilizado estudando bem a história, a sociologia e procurando compreender como agem as instituições? A resolução dos problemas com que nos deparamos dependem mais de decisões políticas ou de conhecer o comportamento das soluções de um problema em análise estocástica?

Não há consenso sobre a mínima coisa. Se muitos criticam a ausência de previsão da crise, logo outros clamam que houve quem previsse, sim senhor. Mas uns terceiros põem em causa o valor da previsão em face dos modelos disponíveis: quem acertou, acertou só por ser um pessimista incorrigível. Mas também estes não ficam sem resposta: os pessimistas foram ignorados interesse das instituições, tanto financeiras como reguladoras.

A matematização de uma área do conhecimento é um requisito maior para lhe conferir credibilidade e carácter de "ciência". Mas os modelos matemáticos têm um valor limitado e devem ser lidos com prudência quando estão em jogo comportamentos de pessoas e instituições de grande complexidade e que podem fugir aos axiomas da teoria.

Em vez de castigar a incipiente "ciência" económica e financeira, pode ser mais útil subir a fasquia de exigência aos dirigentes políticos e aos reguladores e perguntar, afinal, para que servem estes. E não perder de vista alguns princípios de bom senso no planeamento a longo prazo. Por exemplo, que o dinheiro não nasce do ar nem das leis. Que não é razoável gastar mais do que aquilo que é expectável que venhamos a ter. Ou que quando os governos privam os cidadãos de uma parte importante da riqueza para realizar investimentos que a muito poucos servem, ou a produzir o que só pode ser comprado à força, é provável que a factura venha a ser dolorosa para a maioria.

quarta-feira, setembro 5

Isto é notícia ou simples divulgação de um manifesto?

Quando é que os redactores aprendem a redigir? Em vez de "é uma das mais recentes figuras da sociedade portuguesa a subscrever o manifesto " deveria estar "é uma das figuras da sociedade portuguesa que mais recentemente subscreveram o manifesto". Jorge Sampaio não é figura recente, não há figuras recentes.
Indo à substância da notícia, o facto de serem comuns notícias deste tipo leva-me a ignorar os jornais portugueses. A notícia é apenas a reprodução de excertos do manifesto de uns senhores que nos querem dar uma música que já conhecemos, entrecortada por um recitativo inútil de ligação das frases. Não há surpresa nenhuma. Nenhuma pergunta, nenhum confronto.Se a notícia fosse reduzida à frase "a rtp tal como existe é necessária porque sim" o resultado seria igual.
Não preciso de recorrer ao PÚBLICO para ficar a saber que as pessoas mencionadas na "notícia" estão contra o "atentado ao serviço público de tv". Eu até posso enumerar mais umas dezenas e acerto de certeza. A única novidade para mim foi o nome completo do cantor, de que só conhecia o primeiro nome.
Quanto à gestão do serviço público de tv, não tenho preferências. Preocupante é que pesa demasiado na despesa e particularmente na factura mensal da energia. As alterações de que se tem falado não vão alterar este estado de coisas. Os subscritores do manifesto não estão preocupados com isso. Presumo que não têm dificuldade em pagar as suas contas, e ainda bem, mas podiam preocupar-se com as contas difíceis de muitos dos seus concidadãos.

domingo, setembro 2

E a luz desfez-se



Dando cumprimento a mais uma directiva do Grande Irmão que sabe melhor do que nós como devemos iluminar os nossos espaços, está ilegalizado a partir de ontem o fabrico de lâmpadas incandescentes na UE. A comercialização deste simpático produto está também condenada, ficando restringida a stocks e a modelos muito específicos. A sentença para o halogéneo está também lavrada: morte daqui a quatro anos. Preparemo-nos então para gastar uma pipa de euros nos LED que nos vão obrigar a consumir, para poupar uma pequena quantidade de energia - poupança que nem sentiremos porque a factura vai continuar a subir a favor das eléctricas. As novas lâmpadas anunciam com pompa grande longevidade. Como se a durabilidade técnica pudesse ser um desafio à legislativite compulsiva e à simpatia por algum novo lobby, que hão-de restringir o uso do LED mais cedo do que tarde.

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Duas ligações interessantes: http://greenwashinglamps.wordpress.com/ e http://freedomlightbulb.blogspot.pt/

terça-feira, agosto 28

Dos jornais

Nova revelação: Hugo Chávez tem uma veia de jornalista e corrige as notícias. Na visita às chamas de Amuay, no domingo, disse que era impossível que se tivesse sentido cheiro a gás umas horas antes do acidente.

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O governo de Guterres, ou assim, em França, cumpre a promessa eleitoral de suster o preço dos combustíveis.

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Em Itália, assiste-se a um interessantíssimo debate médico. Está em causa a que tipo de controlo vão ser obrigados os frequentadores de ginásios, antes de se entregarem a essa perigosa actividade. Eu bato palmas, pois já ganhei um problema de coluna e a rotura de um nervo por me aventurar num desses antros. Vejamos: a Federação dos Médicos de Medicina Desportiva diz que o controlo por um médico do desporto é uma medida de defesa da saúde do cidadão, e o único controlo epidemiológico que resta, tendo em conta a abolição de inspecção para serviço militar. Outros médicos da área desportiva estão de acordo: o exame por um médico generalista não é suficiente. Mas os médicos de família não concordam e lembram que em muitos casos nem recebem dinheiro pela consulta. Além de que é difícil obter consulta numa área com poucos especialistas. O presidente da Fundação para o Coração, por seu lado, encara de modo muito positivo a obrigatoriedade do certificado obrigatório, mas acha que se deve ir mais longe e prescrever também uma visita ao cardiologista. As falhas de coração são a primeira causa de morte na actividade desportiva.
Reflectindo melhor, e dados os imensos riscos, talvez os governos devam proibir os ginásios. Ou,pelo contrário, se um estudo conveniente vier denunciar a imensa mortalidade causada pela ausência de exercício, torná-los obrigatórios e gratuitos, desviando o custo para a factura dos manuais escolares.

segunda-feira, agosto 27

Figuras que a coltura faz

Ontem, revelou-se no Jornal da Uma da TVI (ao minuto 30) um pensador e analista político que só era conhecido até agora como músico de algum sucesso. Em declarações à reportagem, Rui Veloso lamentou o estado do país e disse que só faltava implantarem-nos um contador para contabilizar o ar que respiramos. Que há neste país pessoas que ele julga que são claramente criminosos e deviam ser julgadas e condenadas e não há ninguém que ponha as coisas como deviam estar. E depois há as eleições e não sei quê e que vivemos numa democracia em que "demo" significa controlada pelo demónio. Demo-cracia, estão a ver? Ah, ah, ah, ah! A produção teve o cuidado de destacar no espaço das legendas algumas palavras-chave do pensamento do artista.

quinta-feira, agosto 23

terça-feira, agosto 21

A morte suspensa da senhora Gu

A realidade acaba de nos servir mais uma história fascinante, com o potencial de inspirar muita ficção. O introito do filme pode ser a cena da condenação à morte de Gu Kailai, no Tribunal do Povo em Hefei. Depois há um fash-back. A cena é um encontro em Inglaterra entre Gu e Neil Heywood, que ela há-de assassinar 10 anos depois. Percebe-se nas cenas seguintes uma tensão crescente em torno de grandes projectos imobiliários, entrecortada por sugestões de uma atracção amorosa que desponta. Cenas onde intervém Bo Xilai, marido de Gu e importante figura do Partido Comunista, deixarão instalada a dúvida sobre o tabuleiro em que joga cada uma das personagens.

Antes de 1/3 do filme convém introduzir outra figura com relevo para o desfiar da história: Wang Lijun,  chefe de polícia de Chongking e braço direito de Xilai. Lijun tem em mãos uma iniciativa anti-corrupção que vai de sucesso em sucesso.

As coisas complicam-se entre Gu e Heywood. O destino de um projecto gigantesco e dos milhões que ele faria correr abrem hostilidades por onde perpassam ameaças e chantagem. Aqui é necessário recorrer a um guionista de qualidade para dar vida e realismo ao enredo.

O assassínio de Heywood, assistido por Zhang Xiaojun, assessor de Gu, ocorre a meio do filme. A cena que precede o envenenamento merece particular atenção, pois é a altura de mostrar toda a perversidade de Gu. Saberemos pouco depois que o homicídio desperta a atenção do polícia Lijun, habituado a farejar crimes onde se jogam grandes fluxos de dinheiro e transacções ilegais. Lijun vai seguir de perto a investigação e descobre, com horror, que a pista conduz à esposa Bo Xilai. Lijun terá de se refugiar na embaixada dos Estados Unidos e vai passar um mau bocado, mas o filme não pode dispersar-se por aí.

Em paralelo e alternância de "takes" mostra-se a história do polícia X, subordinado de Lijun em quem este não tem grande confiança. X vive uma paixão tórrida por Y, empresária vagamente suspeita de ter morto o marido de maneira brutal por discussões de propriedade. Y é protegida por X e sempre mostrada em cenas mal iluminadas, embora se lhe reconheça semelhança física com Gu.

A queda do casal Gu e Bo será mostrada do ponto de vista dos polícias e em simultãneo com o avançar da investigação ao crime perpetrado pela senhora Y, que é presa mas pouco depois desaparece.

Perto do fim voltamos à cena do julgamento e leitura da sentença. As cenas finais mostram a perturbação do responsável da investigação sobre Y intrigado com o desaparecimento da suspeita. Na última cena ele está a ver o video do julgamento de Gu e faz-se luz: é a senhora Y que está no tribunal a declarar que a sentença é muito justa. O mistério passa a ser o desaparecimento de Gu.

Este argumento é quase todo  baseado em factos reais.




domingo, agosto 19

Bomba em pré-pagamento

Na 4ª feira, um voo da Air France com destino a Beirute não pôde aterrar. O Líbano, onde uma parte do Hezbollah se alberga, sofre com  a instabilidade das zonas limítrofes. Na 4ª feira os acessos ao aeroporto de Beirute não ofereciam segurança. Por necessidade de combustível e por lhes terem sido negadas alternativas, os pilotos viram-se na necessidade de aterrar em Damasco.

Ora, Damasco é a terra onde ainda governa o rapaz mau (escolha arriscada dos governos ocidentais?), com quem a França parou os seus negócios. A Air France interrompeu as ligações com Damasco há quase um ano. Por isso a bomba de querosene, ao estacionar o avião galo, ficou logo em pré-pagamento. Os pilotos chegaram a iniciar a aplicação de um plano B, anunciando um possel assalto ao bolso dos passageiros para obter o cacau necessário. No fim o rapaz mau lá vendeu a gasolina e a Air France pagará por transferência. O avião, entretanto, terminou a sua viagem após uma escala em Larnaca.

Laurent Fabius aparece hoje nos jornais a classificar a aterragem em Damasco de incompreensível e perigosa. Sim, que isto de chamar nomes e incitar à guerra aos rapazes maus é uma coisa, mas estar preparado para gerir um eventual sequestro é muito maçador. Alguns comentadores no Figaro já lhe chamam, com graça, ministro des affaires qui lui sont étrangères.

sábado, agosto 18

Rankings de universidades

Saiu no dia 15 a actualização do ranking de Shanghai. Esta classificação das universidades tem por base "seis indicadores objectivos" que incluem: número de alunos e investigadores com Prémio Nobel ou Medalha Fields, número de investigadores altamente citados na Thomson Scientific, número de artigos na Nature ou na Science, número de artigos indexados no Science Citation Index e desempenho per capita normalizado pela dimensão da instituição.

As universidades portuguesas surgem no ranking nas posições seguintes.

1
University of Porto
301-400
2-3
Technical University of Lisbon
401-500
2-3
University of Lisbon
401-500


Também foi recentemente actualizado o Ranking Web de instituições do ensino superior, que utiliza parâmetros virados para a visibilidade: presença, impacto, abertura e excelência. O impacto conta 50% e baseia-se na contagem de links externos que reconhecem o valor e utilidade da informação disponibilizada. O modo como as instituições se deixam ver na internet tem influência decisiva no modo como este índice as avalia.

As 10 universidades portuguesas mais bem colocadas são as seguintes:











(As 4 colunas à direita representam os valores de presença, impacto, abertura e excelência, repectivamente.)