terça-feira, agosto 4
A queda das ciências tontas
-embora feminismo e marxismo sejam muito mais velhos que o resto, o declínio dá-se aproximadamente na mesma altura, como se uma lufada de ar fresco tivesse vindo varrer o lixo.
-a interacção entre crentes em determinada teoria, e não crentes, pode ter efeitos muito limitados: apesar de muito se ter escrito contra o pós-modernismo e o marxismo, os danos causados nas fileiras dos crentes são moderados, tendo a queda do pós-modernismo sido suave mesmo depois de o caso Sokal ter posto a nu a tolice do assunto.
-as novas gerações são menos susceptíveis de serem influenciadas pelas teorias tontas. Diz o autor (então com 27 anos) que mais valia conversar com gente na casa dos 20 do que socializar com os da sua idade: a expectativa de ter uma discussão inteligente com estes revelava-se frustrante por causa das crenças com que já estavam infectados.
(agnostic, que não brinca em serviço, iniciou um novo blog, Patterns in science and culture. Os artigos requerem muito tempo e trabalho e por isso o acesso será pago. Por 10 dólares será permitido o acesso a 20 artigos de fundo. )
Os homens não se querem bonitos (no Afegnanistão)?
À primeira vista, passado o óbvio conservadorismo de proibir fotos de mulheres "fora da família", poderia parecer despontar aqui um sinal de superioridade moral do Islão, ao dar oportunidades competitivas aos rapazes de feição grosseira, barrigudos ou de peitorais descaídos. Mas, se a notícia é correcta, notando que para as mulheres o problema nem sequer é posto, facilmente concluimos que das duas duas: o Islão é empedernidamente discriminador das mulheres e os Taliban são afinal umas bichas encapotadas.
domingo, agosto 2
"O Convite"
Nas formas mais populares de entretenimento (cinema e novelas da tv) o género não tem sido explorado. É necessário chegarmos ao século 21 e à decadência da qualidade da acção política em Tugal, ou mais geralmente, ao desempenho medíocre dos actores e candidatos a actores em órgãos de soberania, para assistirmos ao despontar de um novo género ficcional que vai entroncar naquela nobre tradição literária. Não é literatura nem é novela de tv: à multiplicidade de ângulos de visão junta-se nesta nova forma de contar histórias a variedade de meios que veiculam o conteúdo. Pode tratar-se de jornais, televisão, rádio ou blogs.
É claro que o novo género está a dar os primeiros passos, mas os resultados são pouco entusiasmantes. Veja-se o caso da última produção - "O Convite". O enredo, construído em torno de 4 ou 5 personagens, conta-se em duas linhas, e nem vale a pena resumi-lo aqui porque os meus 10 leitores já o sabem de cor. O que é certo é que os diálogos são de uma pobreza alarmante. Por exemplo, a personagem feminina principal diz "é uma pessoa que só vi uma vez na vida, mas... não há condições para eu aceitar", referindo-se a um dos personagens masculinos, o qual retorque "Telefonou-me depois e disse-me que tinha reflectido e não estava interessada e por isso nem fiz participação desta conversa a ninguém". Outro diz: "É muito feio fugir ao rigor dos factos". Isto é pior do que os sripts de novelas da TVI, com tiradas do tipo "Zulmira, eu tenho que ter uma conversa muito séria contigo", ou "Pois fica a saber que se continuas a rondar o Renato vais sofrer as consequências".
Há em "O Convite" a agravante de não se passar nada, o que tornaria a produção mais adequada a um festival de arte e ensaio do que ao consumo de massas, mas para isso teria de estar muitos furos acima na caracterização e espessura das personagens, as quais se limitam a desmentir-se umas às outras. É afinal uma reposição, para pior, da técnica já usada numa novela anterior, "Free Report", que se manteve em exibição até há pouco tempo, mas em que, apesar de tudo, transpirava alguma acção.
O elemento novo e subtil nesta emergente forma de entretenimento é que as personagens julgam-se dotadas de vida própria, pensam existir fora do plano ficcional. Mal uma diz uma deixa logo outra aparece a reagir, ignorando que debita um guião de baixo nível. Infelizmente, não passam de imitações baratas dos caracteres da Rosa Púrpura de Woody Allen. Os media colaboram, não distinguindo a ficção das notícias.
Corazón

Quando o presidente Marcos convocou eleições para 7 de Fevereiro de 1986, ainda pensava que daí sairia a sua legitimação interna e aos olhos do mundo.
Depois de proclamar vitória as coisas complicaram-se: a partir de 9 de Fevereiro começam a emergir sinais de fraude em grandes proporções, indicando que Corazón Aquino tinha a preferência dos eleitores.
A divisão no exército e o apoio da Igreja a Corazón Aquino tornaram as coisas complicadas para Marcos. A administração Reagan comportou-se inicialmente de modo hesitante, pendendo para o lado do presidente, mas o abandono, em fins de Fevereiro, de tropas leais a Marcos pode ter determinado a atitude de governos de todo o mundo, e em particular dos Estados Unidos, de deixar cair o reconhecimento do ditador cessante. Em menos de um mês, a democracia chegava às Filipinas numa revolução sem sangue.
No Irão houve eleições em 12 de Junho.
sexta-feira, julho 31
sábado, julho 25
Moda balnear em Gaza
segunda-feira, julho 20
Eurabia: susto ou realidade?
O artigo é comentado com elogios por David T no Harry's Place e com apupos no Pajamas Media por Carol Gould. Se os comentários concordantes com Gould não são surpreendentes neste site, já é curioso observar, também pelos comentários, que David T não parece conseguir convencer os seus leitores. Infelizmente, parecem frágeis os argumentos optimistas sobre a questão.
domingo, julho 19
Guadalete
terça-feira, julho 14
Um orgasmo por dia dá-te vida sadia
Lamentavelmente, estas pessoas parecem pouco dadas a encarar a realidade tal como é. Ao recomendarem o sexo como um bem para a saúde, equiparado a 30 minutos de exercício ou a 5 doses de fruta, estão a afundar a campanha. Era o que faltava, pensarão muitos, sobrecarregar o trabalho de casa com uma queca. Dasse!
sábado, julho 11
O síndroma de Slotervaart
O trajecto dos conservadores na questão dos direitos de homossexuais ilustra não só que o mundo é composto de mudança mas também que todos os nichos de eleitorado dão sempre muito jeito. Mais ainda se a opinião pública está madura para apreciar gestos e atitudes políticas "progressistas". A "esquerda" já percebeu há que tempos que a conversão aos direitos das pessoas homossexuais é politicamente compensadora. Assim, neste momento até o nosso PCP e os trotskistas do BE se põem "muito à fente", fazendo tábua rasa de como os velhos comunistas tratavam do assunto, e o PS está pronto a afrontar resistências beatas ou republicanas. (Os actos homossexuais foram descriminalizados, entre nós, na letra da lei, em 1982: repare-se na data.) Com jeito e a contragosto, até o PSD lá chegará inevitavelmente.
Na Holanda, país que é referência em matéria de liberalismo de costumes, já não são só os gays que andam assustados com os ataques homofóbicos: os partidos mainstream também devem estar, com a significativa fuga de votos para partidos que defendem um travão à imigração. Parece que se tornou difícil, numa terra de muitas liberdades, andar fora do armário. E é aqui que surge a novidade mais surpreendente, mas que se insere perfeitamente na mesma tendência. Foi notícia esta semana que Ahmed Marcouch, muçulmano e autarca de Slotervaart, cidadezinha próxima de Amsterdão com população maioritariamente islâmica, afirma que vai doutrinar os seus concidadãos no sentido de olharem para os homossexuais como gente normal e respeitável. Até Manuela Ferreira Leite, quando reparar bem no que está a acontecer, irá engolir a sua "petite phrase" sobre casamento e procriação e dará o salto.
sexta-feira, julho 10
No entanto eles movem-se

domingo, junho 28
Desassossegos
Há notícias de novas manifestações em Teerão, depois de cinco dias em que os protestos pareciam adormecidos. A polícia atacou uma concentração de 3000 pessoas junto a uma mesquita no norte da capital.
Entretanto, em Tegucigalpa, o exército deteve o presidente Manuel Zelaya e despachou-o para a Venezuela. As agências dão uma notícia que parece mal contada, mas há indícios de que o exército pode ter agido por ordem do Supremo Tribunal. Zelaya preparava-se para fazer um referendo a fim de alterar a constituição e permitir a sua reeleição em 2010. Os grandes defensores da democracia Chávez e Morales já protestaram contra o alegado golpe de estado. A Casa Branca já pediu o regresso à ordem democrática (com menos dúvidas do que no caso do Irão). Enquanto se discute qual dos lados deu o golpe, o empenho de Chávez por Zelaya ajuda a ter uma ideia de que "ordem democrática" pode não ser uma preocupação dominante para o ex-presidente hondurenho.
sexta-feira, junho 26
Dois fora do armário: Young Con Rap
Serious C:
“Yo this ones for all the young conservatives.
I rep the Northeast and I’m still a young con,
Let your voice release, you don’t have to be obamatrons.
I debate any poser who don’t shoot straight,
Government spending needs to deflate,
Your ideas are lightweight,
Ya careers in checkmate
I frustrate. I increase the pulse rate
I hate when,
government dictatin, makin, statements, bout how to be a merchant,
How to run a restaurant, how to lay the pavement
Bailout a business, but can’t protect an infant
Deficiencies are blatant, young con treatment
I stand one man, outnumbered at my college
Thank you Miss Cali for reminding us of marriage
Can’t support abortion, and call yourself a Christian
I support life, you’re a puzzled politician
Terrorists were imprisoned at Guantanamo Bay,
Now they’re in our neighborhoods, planning out doomsday
No such thing as utopia,
no government can control ya, baby ya,
Reap the benefits hard work, self reliant
Listen to Stiltz, my dude’s a lyrical giant
Yo Stiltz… make it two time… please”
Stiltz:
“I’m 6′9 head and shoulder above the rest
Liberals playin checkers, I’m playin chess
My conservative view is drill baby drill
You can say you hate me but
I’m praying for you still
My dislike for thee most def is not hyperbole
Taxes are the subject and I will spit them verbally
I’m just livin life a conservative philosophy
Sorry Hilary not a right wing conspiracy
We need more women with intellectual integrity
I’m talkin Megyn Kelly not Nancy Pelosi
My main motto is you best work hard
It’s not the hand you were given, but how you lay down your cards
I don’t speak lies but I spit the facts
28% the new capital gains tax
Porkulus bill lacks a few stats
The more money we spend, the more mine is worth Jack
The Bible says we’re a people under God,
Usin radar for radical Jihad
AIG was hooked up by Chris Dodd
A classy gift ain’t an Ipod
The standards of my crew ain’t republicans dude
I’m reppin Jesus Christ and conservative views
Study history and true conservative moves
Every single time they refuse to lose
I’m starting to see a modern day Jimmy Carter
When really nothin but a Reagan era starter”
Serious C:
“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”
Stiltz:
“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”
Serious C:
“Phase me, make me, into something that ain’t me
Serious c… can’t nobody shake me
great like the Gatsby, poppin posers like acne
Don’t matter if your gay, straight, Christian or Muslim
There’s one thing we all hate, called socialism.
It’s loathsome, and America ain’t the outcome,
Raise taxes on the people,
And you’re gonna feel symptoms, problems
I gotta message for a young con:
superman that socialism,
waterboard that terrorism”
Stiltz:
“I fulfill the role that’s inherently mine
Teaching politics through my rap and my rhyme
I’m signing off this track with a question in mind
How will this country get its precious change in time?
Three things taught me conservative love:
Jesus, Ronald Reagan, plus Atlas Shrugged
Saving our nation from inflation devastation
On my hands and my knees praying for salvation”
Serious C:
“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”
Stiltz:
“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”
(Visto em Harry's Place.)
domingo, junho 21
Santos que não fazem milagres
Na zona noroeste de Lisboa há uma pequena aldeia perdida entre descampados e novas urbanizações. Costuma ser muito visitada por ter grande concentração de restaurantes. Os habitantes e vizinhos vivem lá em paz disfrutando durante onze meses por ano de um sossego pouco vulgar na grande cidade.
Depois vêm os santos populares. Com a colaboração da junta de freguesia, o bonito largo do coreto transforma-se em estacionamento de barracas para comeretes e beberetes, cobertas por plásticos de cores variegadas e com anúncios manuscritos em papel, lembrando o saudoso mundo pré-ASAE do século XX. Há também um palco para emissão de música pimba em alto volume.


presentes em tudo o que é nova urbanização. Uma via larga, por exemplo, é munida de uma placa central, pronta a afunilar o trânsito; os pilaretes parecem reproduzir-se à volta como uma praga.
Entretanto, no seu boletim mensal de Junho (16 páginas a cores em bom papel, com reduzido interesse e grafismo medíocre - "distribuição gratuita", diz a capa como eu fosse burro) a junta diz que há "muitos e bons motivos para festejar os santos populares" aqui.
sábado, junho 20
Teerão, 20 de Junho
(http://raymankojast.blogspot.com/)
O mundo tem os olhos postos no Irão. Parece que os satélites do Google também.
Estão 28 graus em Teerão e a hora local tem um avanço de 3h 30min em relação à hora de Lisboa.
Actualizações constantes aqui.
Como de outras vezes, há notícia de cancelamento do protesto. As últimas da bbc reafirmam que a manifestação se realizará.
sexta-feira, junho 19
Irão
Sabe-se como o Twitter tem sido suporte da informação sobre o que se passa nestes dias no Irão. O Guardian apressou-se a noticiar, há três dias, que o Presidente Obama teria instado o Twitter a não interromper o serviço (esteve programada uma pausa). Parece agora que afinal a sugestão não partiu de Obama, mas sim deste rapaz contratado pela Condolezza.
Um porta voz de Mousavi, em entrevista dada em Paris, queixa-se de alguma indefinição de Obama. "Será que ele gosta quando alguém disser que não há diferenças entre Obama e Bush? Ahmadinejad é o Bush do Irão."
O governo egípcio teme que as atitudes demasiado cautelosas das potências ocidentais enviem uma mensagem inconveniente ao regime iraniano. (MEMRI)
Ahmadinejad descobre com horror que afinal há homossexuais no Irão e ainda por cima não devem ter votado nele. (GUARDIAN)
quinta-feira, junho 18
quarta-feira, junho 17
segunda-feira, junho 15
Hoje, em Teerão
Os iranianos desafiam na rua a ditadura. Fala-se de mais de um milhão em protesto. As televisões não estão lá, mas há o Twitter. O site de Ahmadinejad parece ter ido abaixo por acção de hackers.
domingo, junho 14
Por quem se levanta o Irão?
Que fizeram do meu voto? perguntam multidões em desasossego por todo o Irão (as imagens referem-se a manifestações em Zahedan e encontram-se mais aqui.)
Mas que lamentam estas pessoas? apetece perguntar. Claro que sabemos: a não eleição de Mousavi Khameneh, dito reformista. Este ex-primeiro ministro e mestre em arquitectura, que em 1989 apoiou a fatwa sobre Salman Rushdie, e durante o seu mandato fechou todas as universidades, foi responsável pela matança de milhares de pessoas no início dos anos 80, tendo presenciado a execução e enterramento em valas comuns de 30 prisioneiros políticos em 1988. Simpatizante da ideologia socialista, favoreceu o baby-boom através da concessão de benefícios pelo estado.
A dita vitória de Ahmadinejad tem ao menos a vantagem de não nos iludir a nós, espectadores distantes. Com ele, já sabemos do que a casa gasta. Com Mousavi, ainda muitos haviam de pensar que sim, que podiam.
Actualização (15/06) Jornalistas e operadores de tv europeus foram impedidos de cobrir os protestos. Circula a notícia de que uma manifestação prevista para hoje às 16h em Teerão terá sido agora desconvocada.
sábado, junho 13
Sondagens e votos: uma meditação no caso italiano
"Tonterias" de género
Acontece que o juiz considerou, para além do que se referiu, que os factos configuravam o tipo a que se refere determinado artigo do código penal espanhol, relativo à violência de género. Esse artigo, introduzido na lei espanhola em 2004, agrava a penalização do agressor quando ele é o homem do casal e o outro membro do par é mulher (ainda há casos destes). Houve iniciativas de diversas instâncias judiciais no sentido de ser declarada a inconstitucionalidade do artigo (por materializar discriminação com base no sexo), mas não foram atendidas.
Vamos, portanto, voltar a ouvir falar do caso. Enquanto a sentença recebe palmas e assobios, o delegado do governo para a violência de género discorda da aplicação do artigo a este caso, e paira no ar a possibilidade de recurso do Ministério Público. Eu se estivesse no lugar da condenada também recorreria. Já que o juiz parece prestar-se a estes jogos, podia argumentar que o homem afinal era a outra, uma verdadeira macha sapatona, bruta e intratável, constantemente a pedi-las. Além disso exigiria do estado uma indemnização pela ofensa de me equipararem a esse género animalesco e retrógrado.
segunda-feira, junho 8
Também fora da Europa
domingo, junho 7
Sílvio coisificado
Mas quem explica com enquadramento teórico porque é que Berlusconi soma e segue são os sociólogos. Em entrevista ao El Mundo, Giuseppe de Rita analisa a admiração dos italianos pelo governante. Silvio personifica "a liberdade de cada um ser ele próprio" e esse é um traço estruturante do presente ciclo histórico-cultural. Os italianos admiram o seu perfil. Todos gostariam de ser "evasor fiscal, estudante que agride a professora, jovem que se droga, empresário que não paga impostos ou salários". Além disso acham que as chavalitas de 15-16 anos são todas umas putinhas, pelo modo como vestem e andam por aí: de modo que ninguém vai censurar o cavaliere por andar com uma miúda de 18. Nem os problemas com a justiça os demovem de o admirar: como a justiça tem péssima imagem pela ineficácia e pela lentidão, Silvio consegue até fazer passar a ideia de que é um perseguido por um sistema pouco limpo. E, acima de tudo, a Itália é o país do perdão, do indulto, da moratória, por maior que o pecado seja. Se o sociólogo tem razão, estão errados os que lamentam a pouca sorte dos italianos, vivendo num regime opressivo comandado por um ditador delinquente. Ao mesmo tempo podemos ficar descansados: um tal fenómeno nunca poderia acontecer entre nós, porque felizmente, como povo, não temos aqueles defeitos execráveis dos italianos.
quarta-feira, junho 3
As matérias alternativas
Não é necessário ir ler os sites para imaginar o clamor de indignação e a solidariedade que se está a erguer em torno do professor. As respostas ao questionário mostram que apenas 11% dos inquiridos não optariam pelas matérias alternativas. Pessoalmente julgo que ensinar história das religiões poderia ser mais proveitoso (até para a religião católica).
Mas, por mera curiosidade científica, gostaria que o professor tivesse repetido o inquérito perguntando se os alunos pretenderiam que a oferta formativa da escola lhes oferecesse alternativas à matemática. Para comparar as percentagens.
sábado, maio 30
O nível da conversa
Hugo Chávez começou por desafiar os membros do CEDICE, em reunião na Venezuela, para um debate no seu Alô, Presidente especial que durará até domingo. O CEDICE propôs então que houvesse um frente a frente entre o Presidente e Mario Vargas Llosa. Chávez declinou: embora reconheça os talentos de Llosa como escritor (diz ele) o frente a frente não tem sentido porque não jogam na mesma equipa. Hugo queria um debate entre intelectuais (os seus e os do CEDICE) e afirma que Llosa teria de ascender a presidente para debaterem ao mesmo nível.
Vargas Llosa até já foi candidato à presidência do Peru. É autor de La Fiesta del Chivo, onde evoca a tirania de Trujillo, e dessa obra prima da literatura, Conversación en la Catedral, que tem como pano de fundo a frustração dos peruanos nos tempos do ditador Odría. Temas certamente caros a Hugo, que em caso de desconforto poderia converter a conversación em tertúlia literária. Mas para isso teria que descer ao nível de um intelectual.
sexta-feira, maio 29
Castro vs Cheney
Fidel não diz nada de surpreendente. Em Cuba tortura-se sem o objectivo mesquinho de obter informações que não interessam para nada. E nos bons tempos do Che a tortura era frequentemente substituída pelo método expedito da bala na mioleira.
Aguarda-se agora que às preocupações de Castro se venham juntar as de Ahmadinejad, algum líder da Al Qaeda, ou Kim Il Jong, para ainda nos convencermos de que Cheney é um menino de coro.
quinta-feira, maio 28
Delícias de linguagem
Acção 09.04- Oficina para a ensinança da Língua Portuguesa Acção 09.05- Português Língua não materna: Ensinar para não descriminar. (itálicos meus)
Suponho que na primeira o tema central será a Arte de bem Cavalgar em Toda a Sela. Na outra deve haver engano, provavelmente é uma acção de direito não garantista destinada a magistrados.
ESCRITA CRIATIVA - ESCREVER PARA E COM JOVENS
Sim, tou a ver. Axim k me dxpaxar vamox kurtir, ta?
UTILIZAÇÃO DE QUADROS INTERACTIVOS MULTIMÉDIA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DAS LÍNGUAS
Claro! deve haver um manual de instruções em várias línguas com centenas de páginas.
quarta-feira, maio 27
Jara: o processo
O processo relativo ao crime já teve altos e baixos e tinha sido encerrado o ano passado de modo inconclusivo com um único culpado. Ontem, contava o La Tercera que um juiz reabre o caso, acusando um ex-soldado, agora com 54 anos, de autoria do crime.
A pequena notícia é a mais comentada de ontem na edição online do jornal.
Segundo o El Mundo, os representantes da família de Jara criticam as diligências judiciais, afirmando que se está longe de chegar aos autores intelectuais do crime.
sexta-feira, maio 22
As profissões blindadas
Cada um só vê o que quer e a mais não está obrigado. Mas é extraordinária a afirmação, quanto mais não seja porque se soube há poucos dias que um inquérito colateral sobre o aludido caso concluiu que tinham mesmo existido pressões sobre magistrados. E, mesmo que assim não fosse, não seria difícil raciocinar (se houvesse vontade disso) para concluir que a violência das pressões depende das posições relativas de pressionador e pressionado. Naturalmente que um magistrado que desagrade a alguém hierarquicamente comparável ou superior não vai ser posto na rua, mas não haverá outro tipo de consequências a que poderá arriscar-se? Lembro-me da premissa da Procuradora: magistrados corajosos não são pressionáveis. Mas, e se houver magistrados não corajosos? Há avaliações, há promoções, há projectos de realização profissional, há colocações em determinados lugares que poderão estar em causa. Essas alterações de carreira poderão depender de comportamentos registados? Não sei. Mas para quem já tem uma situação profissional segura o estímulo que conta é o de promoções futuras. Vê-las postas em eventual risco não pode ser equivalente a estar sob pressão?
quinta-feira, maio 21
Some like it frightening
Mas tudo isto pode ser afinal conversa alarmista. Mark P. Denbeaux, professor de direito muito citado, especialista em produção de prova, desvaloriza: diz que é "uma campanha para ganhar o coração da história para Guantanamo. Querem ter argumentos para dizer que havia lá gente má." E acrescenta, em tom de comédia negra com modesta homenagem a um clássico do cinema, "Nunca dissemos que não havia lá quem voltasse à luta. Nada é perfeito".
Acho que Denbeaux devia ter ido mais longe. Não brinco. Gostaria de saber como é que os incompetentes do Pentágono chegaram àqueles resultados. Terá sido por sondagem? com que margem de erro? os inquéritos teriam quadradinhos para marcar com a actividade pós-guantanamo? quantos ex-presos se tornaram cabeleireiros? e quantos professores de direito? sobre isso o relatório nada diz. A não ser que, de cada sete, os inquiridores só tenham conseguido apanhar um.
segunda-feira, maio 18
En galego sentiraste libre
Ainda a Xunta recentemente eleita não começou a trabalhar e já está na rua um movimento que quer fazer esquecer os resultados das eleições. A Mesa (pola normalización linguística) organizou ontem em Santiago de Compostela uma gigantesca guerra preventiva pela defesa do galego, que ainda não começou a ser atacado. A Festa das Letras deu oportunidade aos manifestantes para avisarem o Partido Impopular de que terá de ter muito cuidadinho com o que faz. O êxito da concentração surpreendeu os organizadores: parece que dava para encher o Obradoiro e convocaram para a Praça Quintana. (Foto, história e comentários no Correo Gallego)domingo, maio 17
A controlite do ME
Mas há já muito tempo que a controleirite é visível noutros âmbitos. Um deles é o dos programas das disciplinas. Um programa defeituoso ou mesmo mau tem uma importância relativa porque um professor inteligente e com bom senso pode sempre subvertê-lo; mas como nem a inteligência nem o bom senso estão distribuídos com generosidade e como os autores de manuais têm de seguir os programas oficiais, é claro que maus programas têm efeitos perniciosos.
Vou dar um pequeno exemplo. No programa do 11º ano de Matemática "explica-se" na página 8 como introduzir as noções de raiz quadrada, cúbica, etc, e como ensinar as operações com símbolos de raízes. O programa não explica nada de jeito nem dá nenhuma ideia aproveitável sobre este ou outros assuntos, mas é muito apressado a espartilhar a acção do professor impondo-lhe uma barreira ridícula e sem sentido com a frase seguinte:
Grau de dificuldade a não ultrapassar:
A tónica geral dos programas oficiais (pelo menos no caso da matemática para o ensino secundário) consiste numa grande vacuidade sobre a substância das matérias a ensinar e em doses maciças de ideologia para balizar a acção do professor.
Verbo em alta
Charles Smith desmente injúrias a Sócrates
Cândida Almeida desmente a notícia do «i», dizendo ...
Sócrates desmente Alegre Alegre desmente Sócrates
Alegre desmente negociação com Sócrates
Antigo adjunto de José Sócrates desmente envolvimento em caso...
Subjacentes a estes casos estão, supõe-se, mentirosos ou mentirosas. O verbo mentir é, no entanto, usado de forma muito menos conspícua. Nem o Google é eficaz como detector de eventuais mentiras: busque-se alegre mente e ele pensa que andamos atrás de um advérbio de modo (se ainda se chama assim na era da TLEBS). Quem diz alegremente, diz candidamente. Estão em desvantagem neste campo os que não foram batizados com adjectivos.
Prudência
Fez bem o presidente Obama em proibir a divulgação das fotos com as torturas de Guantanamo. As inquietações com o clamor que aí viria não lhe deixariam tempo livre para governar. Ainda toda a gente se lembra das gigantescas campanhas de indignação que se seguiram à revelação das torturas praticadas no Iraque de Saddam ou pelo grupo Al-Qaeda, e que levaram à queda do regime de um e à passagem à clandestinidade de outro.Além disso, Obama provavelmente apercebeu-se de que não podia competir com o inimigo a nível de efeito dissuasor. Por todos os motivos, a divulgação seria contraproducente.
terça-feira, maio 12
Roxana
Nem todos, no entanto, verteram lágrimas por Roxana.
segunda-feira, maio 11
Piadas de qualidade
O melhor de Obama até agora, para mim, foram algumas das piadas do jantar de imprensa. Vê-se que a nova administração está assessorada por humoristas de nível, capazes de rivalizar com os nossos Gatos, Contemporâneos e Inimigo Público. As três melhores: as diabólicas criancinhas que se divertem a rasar Manhattan no Air Force One, o beijo de Hillary vinda do México e (sobretudo) a promessa de completar os próximos 100 dias em apenas setenta e dois. Só tenho um adjectivo: adorei.
sexta-feira, maio 8
Apelo contra o anti-semitismo
domingo, maio 3
Limpeza
sexta-feira, maio 1
Estupefacção de espantar
A Geografia, por exemplo, a par da educação para a cidadania, dedica-se abundantemente a instruir as crianças sobre os malefícios do "aquecimento global" (agora "alterações climáticas") que é um filme com bons e maus. Não deve ser difícil imaginar histórias de crianças a gritar com os pais quando estes lavam os dentes com a água a correr ou quando não separam o lixo de forma correcta.
A História ensina, além de pouca coisa que situe no espaço e no tempo, que tudo é relativo e que todas as civilizações valem o que valem, ou seja, mais ou menos o mesmo. E se isso for certo para as civilizações, não há-de sê-lo a nível mais simples para o valor das hierarquias?
Noutras disciplinas aprende-se pouco e brinca-se muito. E é preciso não esquecer que o próprio Ministério da Educação, durante os últimos dois anos, espezinhou e insultou os professores com apreciável sucesso perante a opinião pública.
Lançando algumas bases para a rejeição do mundo em que as crianças vivem, a Escola Pública dá o seu modesto contributo para a criação de uma bolsa de radicais e delatores. Que espanto pode então provocar a cena do inspector de Fafe?
1 de maio, de madrugada
Actualização em 3 de Maio: A última chamada telefónica de Delara para a mãe está descrita no Daily Mail. 'Mother they are going to execute me, please save me,' Delara Darabiscreamed, before a prison official grabbed the phone and told her mother: 'We are going to execute your daughter and there's nothing you can do about it.'
domingo, abril 26
Discurso político com patrocínio
Vamos a isso, e levem móveis. Basta ir ao IKEA e com uns tostões se mobila uma casa. E já agora, acaba de me ocorrer, vamos reembolsar-lhes essa pequena quantia. (Silvio Berlusconi aos desalojados do terramoto de L'Aquila.) Grande coisa... se fosse comigo preferia que me pagassem transporte e montagem.sábado, abril 25
Estefânia
O PÚBLICO conta hoje uma história "macabra e misteriosa" à volta do que descreve como "homicídio gay". As personagens principais são um chinês (a vítima) e "uma coisa estranha, nem carne nem peixe" (assim se refere a vizinhança ao presumível assassino). O título do artigo diz tudo mais rápido: "travesti". Mas a história tem pontos obscuros: começa por falar de "relação amorosa" entre vítima e suspeito, mas mais à frente diz que se tratou de "desavenças após actos sexuais", o que pode ser uma coisa completamente diferente. Enigmáticas as personagens secundárias, que se fecham num mutismo obstinado: a "estalajadeira" (termo poético que nos remete para outras épocas) e um "casal de empregados" do restaurante chinês na rua do crime. O casal abana a cabeça em simultâneo, por duas vezes, recusando falar, e vira costas "como uma equipa de natação sincronizada".A redacção do artigo é interessante, mas tem palavras redundantes. A história contém informação suficiente para dispensar o uso de "gay" (ainda por cima aplicado ao crime, o que não faz sentido) e "travesti". A discriminação só terá terminado quando não for necessário colocar adjectivos. Senão, porque é que as personagens restantes não são tratadas por igual? Não estão em falta a tendência sexual da estalajadeira e a classificação sexológica do casal de empregados?
CHEmisolas
CHEga deser totó
A ministra da igualdade do governo polaco pretende criminalizar o uso de símbolos que evoquem regimes totalitários, englobando nazismo e comunismo. Se a lei viesse a ser aprovada, usar uma CHEmisola poderia dar prisão até dois anos. Faz mal a ministra. Primeiro, apagar símbolos não retira ideias, por mais absurdas que sejam, de dentro das cabeças. Segundo, o culto proibido fica mais apetecido e torna-se marca de "irreverência". Terceiro, as CHEmisolas são um pequeno triunfo do capitalismo: num regime comunista a desarticulação da produção nunca poderia ter correspondido à intensa procura. Além disso, parar a produção pode atirar algumas centenas de pessoas para o desemprego. Mais vale incitar a malta a informar-se sobre o homenzinho que os adolescentes de todas as idades gostam de levar no peito. Finalmente, quando o número de não crentes for suficiente para se tornarem consumidores credíveis, a indústria reinventará o ícone, produzindo CHEmisolas subversivas que poderão ser novo furo de vendas, criando novos postos de trabalho.
sábado, abril 18
Havia de ser cá
Por vezes qualquer tuga cai na tentação de desejar uma União Ibérica que lhe resolva os problemas que o estado tuguês deixa arrastar. Mas valerá a pena? Com a visão justificadamente pessimista que temos do nosso sistema judicial, pode pensar-se que talvez ficássemos mais bem servidos com o sistema espanhol. Mas cuidado, as primeiras impressões por vezes induzem em erro.
Duas cenas caricatas constituem o último desenvolvimento do folhetim macabro à volta do assassinato de Marta Castillo.
Cena um: Há dias Miguel, o presumível assassino da ex-namorada Marta, foi chamado ao juiz para este lhe ler cartas. Sim, uma dúzia e tal de cartas recebidas desde que se encontra preso e que ao que se sabe nada têm a ver com o processo. Imagine-se o luxo! Ter um juiz como leitor. O Miguel deve andar a rir-se da polícia, mas de certeza que se vivesse cá iria empalidecer quando lhe apresentassem a factura das custas.
Cena dois: Uma procuradora de Sevilha acaba de pedir a condenação da rede Telecinco a pagar uma indemnização de 100 000 euros a Rocio, a menina de 14 anos que é a actual namorada de Miguel e que foi selvaticamente explorada naquele rede para contar em directo tudo o que sabia sobre os acontecimentos da noite do crime. A exploração da menina teve a conivência da mãe, que aliás não foi incomodada pela procuradora, e que permitia lá em casa o acesso do Miguel à cama da filha. Pobre Rocio, a justiça vai repará-la do mísero punhado de trocos que possivelmente a Telecinco lhe pagou. No meio disto, que interesse tem Marta, além de ser a personagem morta desta novela? O centro de gravidade do protagonismo deslocou-se. Rocio é rapariga de sorte: namorar o Miguel pode dar direito a acabar num contentor ou no fundo do Guadalquivir, conforme os dias e a versão em voga, mas também pode ser fonte de grandes proventos. Se fosse por cá não teria tanta sorte. Com o que aí se anuncia, esta indemnização, a ser recebida, iria logo ser considerada enriquecimento ilícito por outro procurador qualquer.
Duas mulheres

A da esquerda é Delara Darabi. Será enforcada amanhã no Irão. A da direita é Roxana Saberi, jornalista iraniano-americana, que acaba de ser condenada a oito anos de prisão por espionagem.
A história de Delara tem mais drama e romance. Aos 17 anos colaborou com o namorado no assalto à casa de uma prima, que acabou morta com uma facada. Assumiu a culpa para ilibar o namorado, convencida de que não seria condenada por ser menor. Apesar de provas posteriormente apresentadas, o tribunal manteve a condenação: a facada foi desferida por um dextro e Delara é canhota. No sistema judicial iraniano as provas contam menos que a intuição dos juízes.
(Notícia do Corriere.)
sábado, abril 11
O taliban dentro de nós


A intoxicação
Mas nem tudo é claro neste manifesto de lugares comuns. Deplora-se que "os direitos conquistados durante gerações, pelos trabalhadores", sejam "gradualmente postos em causa" e o facto de que as "classes trabalhadoras foram progressivamente intoxicadas pela compulsão consumista". Ora os dias felizes do consumo foram proporcionados pelos direitos e melhorias de vida que os trabalhadores adquiriram neste sistema deplorável. Ou estarão os subscritores a referir-se a direitos conquistados sob o regime soviético, castrista, chinês ou norte-coreano? É que ao mesmo tempo "clamam por novos paradigmas comportamentais e políticos". Em que ficamos? Os subscritores deste apelo parecem simpatizar discretamente com modelos de sociedade onde as "conquistas" se resumem às parangonas dos jornais oficiais e onde não há riscos de "intoxicação consumista" porque não há assim tanto que consumir. Na sociedade perfeita para estas pessoas o consumo é um privilégio que lhes deve estar reservado: com os seus salários ou reformas confortáveis podem viajar, comprar apartamentos e automóveis sem dores de cabeça. E olham com compaixão a ralé que se esfalfa a trabalhar, pagando ivas e etc pelo meio, para conseguir, quando consegue, pagar a prestação da casa e do televisor panorâmico comprado a crédito.
sexta-feira, abril 10
Um francês em Paris
Naturalmente, houve tentativas de classificar o video como falsificação racista, mas nada a fazer: está verificada a autenticidade e fica a consolação de chamar "de extrema direita" aos sites que o divulgaram. Entretanto estão em marcha um processo ao polícia de quem se suspeita que partiu a divulgação das imagens, e um apelo a acções de apoio ao agente.
O detalhe interessante é que o violento episódio tem já quatro meses. Muitos se interrogam se um caso destes, com as cores ao contrário, aguentaria esta eternidade sem saltar para a internet, e mesmo para os jornais e as tvs.
O YouTube eliminou o violento filmezinho por razões de "violação das condições de utilização". Por enquanto pode ver-se aqui, se houver paciência para esperar, porque o site está entupido com visitas.
Actualização: O jovem vítima da agressão deu hoje entrevista ao Figaro. É interessante lê-la. Fica aqui um excerto com sublinhados acrescentados:
Des sites Internet affirment que des injures raciales auraient été proférées à votre encontre…
Personnellement, je n'ai rien entendu de la sorte. Ces propos, s'ils ont été dits, interviennent dans un contexte où mes agresseurs étaient drogués ou ivres. Par ailleurs, ils n'étaient pas tous issus de l'immigration. La vidéo de mon agression apparaît comme très stéréotypée car, ce soir-là, je suis habillé de façon bourgeoise et je suis face à quatre jeunes qui faisaient beaucoup de bruit. En aucun cas, je ne veux passer pour l'incarnation d'une certaine image sociale qui aurait été prise à partie par des étrangers. Je ne l'ai pas ressenti comme cela. L'un des assaillants en survêtement, rasé, avait d'ailleurs une couleur de peau très pâle…
quinta-feira, abril 9
Moctezuma em edição revista
Lá para o outono, o British Museum vai apresentar uma exposição sobre Moctesuma e os conquistadores espanhois. Há um fio programático: contrariar a visão de que o imperador azteca se terá rendido aos espanhois e terá sido assassinado pelo seu povo em fúria. A nova versão do conto escolhe definitivamente os homens de Cortés como os maus da fita. Eles terão aprisionado e assassinado o imperador. Os organizadores baseiam a nova versão em documentos encontrados na Escócia e no México. Em rigor, não é novidade que haja dois finais, dependendo de quem é o narrador. Qualquer dos epílogos é verosímil: se os "conquistadores" não eram gente meiga, também Moctezuma não era propriamente amado num império onde muitas tribos eram sufocadas com impostos. Mas Moctezuma em versão British Museum 2009 está, sem dúvida, mais de acordo com os nossos tempos em que aos europeus, de olhos azuis ou escuros, se convencionou atribuir as culpas de todos os males.
segunda-feira, abril 6
Desastre no Abruzzo

Há semanas que Giampaolo Giuliani, investigador do Istituto Nazionale di Fisica Nucleare, vinha alertando para a forte possibilidade de um sismo violento. Giuliani sustenta que se podem prever os terramotos: a pista são as fugas de radon da crusta terrestre. Há dias foi acusado de alarme intencional pelo chefe da protecção civil, Guido Bertolaso. Giuliani espera agora desculpas.
É claro que o alarme num tal caso pode levar a situações de perigo e a deslocações de população que podem revelar-se inúteis, mas fazer de conta que não é nada pode ser igualmente perigoso. A dúvida sobre o grau de rigor da previsão pode justificar que se desvalorizem os avisos, mas infelizmente a tragédia de hoje em Itália vem mostrar que pode valer a pena escutar os peritos.
Faz sentido um governo financiar institutos e laboratórios e não dar crédito algum aos resultados da investigação que lá se desenvolve? Depende da avaliação que dela faça. Bertolaso sustenta que os factos não eram previsíveis e que consultou os melhores especialistas de engenharia sísmica em Itália. Giuliani teima que sim, que eram previsíveis. Uma questão científica não resolvida a juntar ao drama.
Mais realisticamente, caberá discutir responsabilidades pela qualidade da construção. Edifícios novos, como o hospital e a casa do estudante, sucumbiram como as construções medievais. Fala-se de fazer legislação mais apertada para normas anti-sísmicas. Apertada ou frouxa, quem irá garantir o seu cumprimento?
(Imagem: La Repubblica. O epicentro)
quarta-feira, abril 1
Pressão, um novo paradigma
Ontem, ao fim do dia, o tema das pressões continuava em alta e parece estar a tornar-se endémico.
Ainda bem que todas estas declarações foram feitas ontem. É que se fosse hoje poderíamos não acreditar em nada.
Por outro lado, uma procuradora vem propôr o mote para vários silogismos que podemos entreter-nos a construir. Mas parece-me que ela passa ligeiramente ao lado da questão: mais do que afirmar que magistrados corajosos não são pressionáveis, pertinente será perguntar se magistrados não corajosos podem cair na tentação de pressionar.
domingo, março 29
A ciência no labirinto
“The pope is correct, or put it a better way, the best evidence we have supports the pope’s comments. He stresses that “condoms have been proven to not be effective at the ‘level of population' " disse à National Review Online Edward C. Green, director do AIDS Prevention Research Project no Harvard Center for Population and Development Studies. Green explica que isto pode dever-se ao fenómeno que denomina compensação de risco.
A revista Lancet intimou há dias o Papa a desdizer as recentes afirmações sobre a ineficácia do preservativo. Há portanto sinais de fractura a nível da comunidade científica, o que não é inédito: já a respeito das "alterações climáticas" (o nome mais em moda do "aquecimento global") elas são mais que evidentes. No caso da prevenção da SIDA, dá que pensar, pelo menos, que se registem aumentos de infecção em sociedades como as nossas, onde em princípio o acesso ao preservativo é fácil e onde pouca gente liga ao que diz um qualquer papa.
Todos ralham. Quem terá razão?
A Lancet publicou até 2004 e 2006 artigos em que se pretendeu contar o número de mortos após a invasão do Iraque, e as reacções não foram pacíficas: os procedimentos metodológicos dos autores foram contestados e um dos autores fortemente censurado por recusar a revelar o procedimento seguido. (Uma parte da controvérsia está aqui e podem ver-se mais detalhes na Wikipedia.) Não consta que a Lancet tenha desdito o conteúdo do que a esse respeito publicou.
sábado, março 28
Sucessos da luta contra a criminalidade
Assim, uma menina de 14 anos de New Jersey acaba de ser acusada de pornografia infantil por colocar no MySpace trinta fotos suas em poses de nudez. As novas leis facilitam a vida aos procuradores: para caçar criminosos nem precisam de procurar muito ou sequer de correr riscos.
Este fim de semana desenrolou-se entre nós uma "mega-operação de segurança". Convenientemente colada à revelação dos números que mostram o aumento da criminalidade no país. A notícia de jornal não precisa à segurança de quem se refere o título mas, lendo melhor para percebermos qual o tipo de perigosos delinquentes detidos, fica-se a perceber que se trata da segurança dos autores de rapto, car e home-jacking, roubo com arma e homicídio.
quinta-feira, março 26
Periféricos?
quarta-feira, março 25
Com os olhos e os ouvidos de África
Le journalisme des « petites phrases » est certes sensationnel et payant, commercialement parlant, mais l'on observera qu'en résumant huit jours de visite en deux petites phrases, de préférence celles susceptibles de remuer une opinion publique formatée, il y a un risque de caricaturer et de fausser le message.
Le comble, c'est lorsque ces médias déclarent parler au nom des Africains Non, merci, chers confrères, vous parlez pour vous-mêmes, et pour votre public.
Avec l'Internet, la télévision, la radio, les journaux, l'école laïque, la société dispose d'une machine de communication en théorie bien plus puissante que la seule parole du pape ! Pour finir de jouer sur ce registre cynique, on peut même rappeler avec Graham Greene, que « les principes sont faits pour être violés »
segunda-feira, março 23
Auto brilhante...

domingo, março 22
Ensaios sobre a cegueira (2): o estudante de engenharia electrónica
sexta-feira, março 20
Preservativos e tópicos afins
Para lá disso, o Papa esteve mal ao não resistir à tentação daquelas palavras. Mas pior do que isso é que para os africanos a frase é irrelevante. Se o preservativo não é usado na escala adequada, não é por culpa do Papa (de cujas palavras, de resto, ninguém já faz caso, como bem sublinham os seus detractores), mas das políticas e da cultura local. Em África, poucos devem ter ficado a pensar no caso, se é que deram por ele.
A euforia dos media com o tema chegou ao ponto de terem esquecido outra oportunidade para malhar no Papa & Companhia: é que, precisamente também há dois dias, soube-se que a administração Obama subscreve agora a moção da ONU para despenalização da homossexualidade e que o Vaticano continua a demarcar-se. As organizações LGBT rejubilam. Não sei se terão reparado que o porta-voz Robert Wood se apressou a dizer que "subscrever a moção não nos obriga a compromissos legais".
Também não houve ecos da caça às bruxas em curso na Gâmbia, noticiada ontem no The Independent. A operação já levou à tortura e à morte de umas mil pessoas e foi lançada pelo próprio Presidente Yahya Jammeh, que está convencido que certos feiticeiros do país são responsáveis pela morte de uma sua tia. Jammeh acumula as funções de presidente com as de feiticeiro, pois tem umas ervinhas que curam os doentes com HIV.
3000 dólares por uma viúva
terça-feira, março 17
Siento hermosa / I feel pretty
Na versão bilingue de West Side Story recentemente estreada em Nova York, com novas letras de Lin-Manuel Miranda, o verbo "sentir" foi despromovido a irreflexivo. Um sacrifício compreensível da gramática à métrica. Este musical resiste a tudo e a voz magnífica de Josefina Scaglione faria esquecer mil sílabas perdidas.
domingo, março 15
Carmen, de Recife
É curioso como estas vozes lamentam a não aplicação a alguns de um "castigo" que abominam e ao qual não atribuem qualquer sentido. Como parecem ignorar que a Inquisição foi o que foi porque o poder político na Europa precisou de Roma durante muito tempo para se afirmar e dela tirou o partido que pôde. Que o cristianismo continha já os mecanismos que permitiram separar Igreja e estado. Que nas nossas sociedades muito laicas e civilizadas, quando ainda há anos o aborto era criminalizado, também nunca havia réus, mas apenas rés.
A Igreja é conduzida por um clero mal esclarecido e inculto, que muitas vezes nem se apercebe da superioridade da mensagem que devia sublinhar e defender, e frequentemente reduz a sua actuação à de uma burocracia acéfala.
Mas também certo é que a Igreja não se reduz a vozes incompetentes. O arcebispo Rino Fisichella insurgiu-se hoje no Osservatore Romano em termos muito claros contra a atitude da Igreja brasileira ao excomungar Carmen e os médicos.
Carmen doveva essere in primo luogo difesa, abbracciata, accarezzata con dolcezza per farle sentire che eravamo tutti con lei; tutti, senza distinzione alcuna. Prima di pensare alla scomunica era necessario e urgente salvaguardare la sua vita innocente e riportarla a un livello di umanità di cui noi uomini di Chiesa dovremmo essere esperti annunciatori e maestri. Così non è stato e, purtroppo, ne risente la credibilità del nostro insegnamento che appare agli occhi di tanti come insensibile, incomprensibile e privo di misericordia.
Carmen, stiamo dalla tua parte. Condividiamo con te la sofferenza che hai provato, vorremmo fare di tutto per restituirti la dignità di cui sei stata privata e l'amore di cui avrai ancora più bisogno. Sono altri che meritano la scomunica e il nostro perdono, non quanti ti hanno permesso di vivere e ti aiuteranno a recuperare la speranza e la fiducia. Nonostante la presenza del male e la cattiveria di molti.
As estreias da semana - num cinema muito longe de si
Hugh viaja frequentemente em trabalho para uma agência estatal. Anna, a mulher, fica alerta quando começa a senti-lo distante. Confrontando movimentos da conta bancária com um recibo de hotel que Hugh esquece no bolso de um casaco, identifica o local onde o marido terá encontros com uma possível amante, acabando por segui-lo para o espiar. Descobre que a rival é uma sua amiga de juventude, Silvia, que se mudara para Nova York. Obtém fotos e contactos de Silvia e começa a divulgá-los em chats eróticos, fazendo-se passar por ela... Tudo se complica quando começa a teclar com um esquizofrénico que a cerca e descobre a sua verdadeira identidade, mudando definitivamente o curso da sua vida.
Nem ama nem sai de cima
Ken, advogado de um grande banco, pai de família e profissional de sucesso, é assediado durante meses com mensagens de telemóvel de uma desconhecida que lhe marca encontros e durante muito tempo não aparece. Quando finalmente consegue um único encontro com Julie, a sua suposta perseguidora, fica enfeitiçado, mas ela volta a desaparecer sem lhe ter revelado os propósitos. Ken continua a receber mensagens mas Julie esquiva-se sempre a novo encontro... Com a ajuda de uma antiga amante que trabalha na operadora telefónica descobre que as mensagens eram enviadas de um telemóvel da sua própria mulher... esta descoberta vai mudar para sempre o curso da sua vida.
Até ao tutano
Susana e Jorge gostariam de ter casa e filhos mas sobrevivem com baixos salários e trabalho incerto, o que os obriga a continuar a viver com os pais. Susana trabalha como caixa no Jumbo e vive com a mãe alcoólica, Jorge trabalha numa lavagem de carros e mora com a mãe e o padrasto. Uma noite, ao fazer amor com a namorada, Jorge toma consciência de que ela geme como nenhuma outra que já conhecera e convence-a a fazer bandas sonoras para uma produtora de dvds pornográficos. A princípio a ideia deixa Susana chocada, mas Jorge não desiste de a impelir para o mundo do porno. Os filmes com os gemidos de Susana tornam-se um sucesso comercial e chegam a circular em formato CD. Susana engravida mas os problemas começam quando ela recebe novas propostas e Jorge perde o controlo da situação... A partir daí as suas vidas não voltarão a ser as mesmas.
quinta-feira, março 12
Os dias difíceis do TPI
quinta-feira, março 5
Civilizações: ensaios sobre a cegueira
Tudo isto Ameneh Bahrami contou ao ABC em discurso directo. Isto e mais. O seu sofrimento todos estes anos, e o seu alívio ao conhecer a sentença do tribunal, condenando o agressor a ser vítima do mesmo crime, o que quer dizer condenado à cegueira. E os obstáculos que transpôs para conseguir que a sentença o condenasse à cegueira dos dois olhos. Inicialmente apenas a inutilização de um olho esteve prevista, pois de acordo com a lei islâmica dois olhos de mulher valem só um olho de homem. Na execução da sentença, que ocorrerá quando Ameneh Bahrami regressar ao seu país, o condenado será anestesiado, pelo que não sofrerá dor física. Não poderá ser a própria Ameneh Bahrami a executora por se encontrar cega, mas garante que não lhe faltam voluntários que a substituam.
quinta-feira, fevereiro 26
domingo, janeiro 18
O triunfo de Hitler
As reacções a este conflito mostram um mundo feio e deprimente. "Élites" ocidentais que se julgam muito "progres" colam-se sem pudor a um movimento terrorista e retrógrado que só de olhos bem fechados se pode encarar como representante do "povo palestiniano", e que tem na sua carta de constituição o propósito de destruição de Israel. Manifestações das várias esquerdas nas cidades europeias e americanas são cavalgadas, obviamente, por sectores islâmicos; mas, curiosamente, não parecem ter sido estes a convocar a presente fornada de protestos. Não houve notícias de carros incendiados pelo mundo muçulmano como quando do episódio das caricaturas. Eles têm direito às suas prioridades, e com toda a evidência preocupa-os mais um cartoon sobre o profeta do que a sorte dos tais palestinianos. De resto, não têm que se preocupar, porque os idiotas úteis fazem o serviço por eles.
No meio de tudo isto, não são só os israelitas que estão sós. Os palestinianos estão-no igualmente, e para já em situação de catástrofe. Usadas famílias civis, crianças, escolas e hospitais como escudo, ninguém na verdade tem pena deles. Os bem-pensantes ocidentais, no fundo, apenas encontraram mais uma excelente ocasião para exibir sem sombra de vergonha o ancestral ódio ao judeu que parece habitar-nos. Uns dias atrás, um deputado socialista em Amsterdão fazia o resumo do que outros pensam, gritando num comício "judeus para o gás" (rimando com Hamas). Demorou mais de sessenta anos, mas Hitler acabou por ser compreendido.







