terça-feira, agosto 4

A queda das ciências tontas

O artigo está a caminho de fazer um ano mas vale a pena lê-lo. Encontra-se no Gene Expression. Trata da decadência de determinados conceitos que surgiram nas teorias académicas mais ligadas às ciências sociais. A partir dos arquivos bibligráficos do JSTOR e procurando a ocorrência de palavras-chave relacionadas com modas "científicas" relativamente recentes, o autor (agnostic) constrói gráficos que revelam a ascenção e declínio de conceitos entre os quais: construção social, psicanálise, pós-moderno, pós-colonialismo, orientalismo, marxismo, feminismo, desconstrução. De um modo geral, observa-se a partir dos anos 90 uma queda nas ocorrências. O autor observa alguns factos interessantes:

-embora feminismo e marxismo sejam muito mais velhos que o resto, o declínio dá-se aproximadamente na mesma altura, como se uma lufada de ar fresco tivesse vindo varrer o lixo.

-a interacção entre crentes em determinada teoria, e não crentes, pode ter efeitos muito limitados: apesar de muito se ter escrito contra o pós-modernismo e o marxismo, os danos causados nas fileiras dos crentes são moderados, tendo a queda do pós-modernismo sido suave mesmo depois de o caso Sokal ter posto a nu a tolice do assunto.

-as novas gerações são menos susceptíveis de serem influenciadas pelas teorias tontas. Diz o autor (então com 27 anos) que mais valia conversar com gente na casa dos 20 do que socializar com os da sua idade: a expectativa de ter uma discussão inteligente com estes revelava-se frustrante por causa das crenças com que já estavam infectados.

(agnostic, que não brinca em serviço, iniciou um novo blog, Patterns in science and culture. Os artigos requerem muito tempo e trabalho e por isso o acesso será pago. Por 10 dólares será permitido o acesso a 20 artigos de fundo. )

Os homens não se querem bonitos (no Afegnanistão)?

Os Taliban, em campanha contra as eleições do próximo dia 20, estão a deixar avisos ao povo afegão através de "cartas nocturnas", conta a Reuters. Possuir no telemóvel imagens de mulheres que não são da família ou de rapazes bonitos é contra a dignidade exigida pela religião islâmica. A própria posse de telemóvel com funções de imagem e video não é bem vista.

À primeira vista, passado o óbvio conservadorismo de proibir fotos de mulheres "fora da família", poderia parecer despontar aqui um sinal de superioridade moral do Islão, ao dar oportunidades competitivas aos rapazes de feição grosseira, barrigudos ou de peitorais descaídos. Mas, se a notícia é correcta, notando que para as mulheres o problema nem sequer é posto, facilmente concluimos que das duas duas: o Islão é empedernidamente discriminador das mulheres e os Taliban são afinal umas bichas encapotadas.

domingo, agosto 2

"O Convite"

Não é novidade, nas obras de ficção, a substituição do narrador omnisciente pelo puzzle caleidoscópico dos múltiplos pontos de vista das personagens. Desde a novela epistolar do século 18 até à obra prima de Vargas Llosa "Conversa na Catedral", passando pelas jeunes mariées de Balzac, pelo Drácula de Stoker, pelo Tempo de Proust e pelo muito popular mas datado Quarteto de Alexandria, deu-nos a literatura obras magníficas onde uma história é contada por acumulação de narrativas que se reflectem e ampliam, adicionando camadas de luz sobre os factos, que ora se sobrepõem, ora se contradizem.

Nas formas mais populares de entretenimento (cinema e novelas da tv) o género não tem sido explorado. É necessário chegarmos ao século 21 e à decadência da qualidade da acção política em Tugal, ou mais geralmente, ao desempenho medíocre dos actores e candidatos a actores em órgãos de soberania, para assistirmos ao despontar de um novo género ficcional que vai entroncar naquela nobre tradição literária. Não é literatura nem é novela de tv: à multiplicidade de ângulos de visão junta-se nesta nova forma de contar histórias a variedade de meios que veiculam o conteúdo. Pode tratar-se de jornais, televisão, rádio ou blogs.

É claro que o novo género está a dar os primeiros passos, mas os resultados são pouco entusiasmantes. Veja-se o caso da última produção - "O Convite". O enredo, construído em torno de 4 ou 5 personagens, conta-se em duas linhas, e nem vale a pena resumi-lo aqui porque os meus 10 leitores já o sabem de cor. O que é certo é que os diálogos são de uma pobreza alarmante. Por exemplo, a personagem feminina principal diz "é uma pessoa que só vi uma vez na vida, mas... não há condições para eu aceitar", referindo-se a um dos personagens masculinos, o qual retorque "Telefonou-me depois e disse-me que tinha reflectido e não estava interessada e por isso nem fiz participação desta conversa a ninguém". Outro diz: "É muito feio fugir ao rigor dos factos". Isto é pior do que os sripts de novelas da TVI, com tiradas do tipo "Zulmira, eu tenho que ter uma conversa muito séria contigo", ou "Pois fica a saber que se continuas a rondar o Renato vais sofrer as consequências".

Há em "O Convite" a agravante de não se passar nada, o que tornaria a produção mais adequada a um festival de arte e ensaio do que ao consumo de massas, mas para isso teria de estar muitos furos acima na caracterização e espessura das personagens, as quais se limitam a desmentir-se umas às outras. É afinal uma reposição, para pior, da técnica já usada numa novela anterior, "Free Report", que se manteve em exibição até há pouco tempo, mas em que, apesar de tudo, transpirava alguma acção.

O elemento novo e subtil nesta emergente forma de entretenimento é que as personagens julgam-se dotadas de vida própria, pensam existir fora do plano ficcional. Mal uma diz uma deixa logo outra aparece a reagir, ignorando que debita um guião de baixo nível. Infelizmente, não passam de imitações baratas dos caracteres da Rosa Púrpura de Woody Allen. Os media colaboram, não distinguindo a ficção das notícias.

Corazón


Quando o presidente Marcos convocou eleições para 7 de Fevereiro de 1986, ainda pensava que daí sairia a sua legitimação interna e aos olhos do mundo.
Depois de proclamar vitória as coisas complicaram-se: a partir de 9 de Fevereiro começam a emergir sinais de fraude em grandes proporções, indicando que Corazón Aquino tinha a preferência dos eleitores.
A divisão no exército e o apoio da Igreja a Corazón Aquino tornaram as coisas complicadas para Marcos. A administração Reagan comportou-se inicialmente de modo hesitante, pendendo para o lado do presidente, mas o abandono, em fins de Fevereiro, de tropas leais a Marcos pode ter determinado a atitude de governos de todo o mundo, e em particular dos Estados Unidos, de deixar cair o reconhecimento do ditador cessante. Em menos de um mês, a democracia chegava às Filipinas numa revolução sem sangue.

No Irão houve eleições em 12 de Junho.

sexta-feira, julho 31

sábado, julho 25

Lisboa, 25 de julho

Teerão é um sítio muito longe.

Moda balnear em Gaza

Para os homens: t-shirt e calção até ao joelho. Para elas: túnica a cobrir todo o corpo e, se possível, véu para o cabelo. A polícia de costumes do Hamas está atenta. Uma mulher conta na RFI como foi repreendida por entrar na água em t-shirt e calças (ou seja, um fato de banho de homem!) na companhia de uns amigos, logo detidos e agredidos. Ah, e foi severamente admoestada por rir enquanto de banhava.

segunda-feira, julho 20

Eurabia: susto ou realidade?

Num recente artigo da Newsweek analisam-se e desvalorizam-se os medos de alguns sectores políticos e de opinião em face do avanço do Islão na Europa. A perspectiva optimista do artigo assenta basicamente em dois pontos: 1) as previsões de população islâmica maioritária na Europa a curto prazo são catastrofistas porque não têm em conta o decréscimo da taxa de natalidade em determinados grupos de imigrantes; 2) não havendo unidade política no Islão, dificilmente ele se poderá constituir como ameaça à Europa.

O artigo é comentado com elogios por David T no Harry's Place e com apupos no Pajamas Media por Carol Gould. Se os comentários concordantes com Gould não são surpreendentes neste site, já é curioso observar, também pelos comentários, que David T não parece conseguir convencer os seus leitores. Infelizmente, parecem frágeis os argumentos optimistas sobre a questão.

domingo, julho 19

Guadalete



Foi em 711 ou 712, e alguns dizem que em 19 de Julho. Tarik derrotou os visigodos em Guadalete e despachou a cabeça do rei Roderic para Damasco, onde foi exibida durante algum tempo nos portões do palácio do califa.


Tempos cruentos. Os últimos anos tinham sido de divisão e intriga no seio do poder visigótico. Roderic sucedeu a Witisa, que derrotou e a quem mandou arrancar os olhos, como vingança do mesmo que Witisa tinha infligido ao seu pai.


Dizem os cronistas árabes que Roderic morreu com nobreza. O desaparecimento do "último dos Godos" coincide com o início da conquista da Ibéria pelos Mouros.
(Pintura de Salvador Martinez Crugells)

terça-feira, julho 14

Um orgasmo por dia dá-te vida sadia

Esqueçam os tempos da educação sexual obcecada pela prevenção. Depois de anos e anos a espalhar o terror do HIV e das venéreas, o National Health Service inflecte e volta a atacar. É fácil de imaginar: os peritos acordam um dia alarmados diante do sucesso das suas campanhas ao constatarem que a juventude não anda a copular como devia. A estratégia é de uma ingenuidade comovente: agora os técnicos do NHS querem convencer a malta de que o sexo dá prazer. "Pleasure" é o nome do folheto distribuído em algumas escolas, com slogans como "an orgasm a day keeps the doctor away". Não é claro onde foi o pessoal do NHS buscar esta ideia -- provavelmente andam a ser muito influenciados por referências sexuais que impregnam o entretenimento e a publicidade, coisa a que os jovens, como se sabe, são imunes.
Lamentavelmente, estas pessoas parecem pouco dadas a encarar a realidade tal como é. Ao recomendarem o sexo como um bem para a saúde, equiparado a 30 minutos de exercício ou a 5 doses de fruta, estão a afundar a campanha. Era o que faltava, pensarão muitos, sobrecarregar o trabalho de casa com uma queca. Dasse!

sábado, julho 11

O síndroma de Slotervaart

O artigo de Nick Herbert publicado há quatro dias no Guardian tenta interpretar porque é que os Conservadores estão a ganhar votos junto da população homossexual: o argumento clássico da homofobia da "direita" já não colhe porque a "direita" mudou. Já tem mesmo os seus militantes assumidamente gay, como o próprio autor do artigo. Apoia o casamento de pessoas do mesmo sexo e a criminalização dos actos de ódio homofóbico. E vai ocupar-se do bullying sobre gays, da homofobia no desporto e evangelizar os bispos que persistem em recomendar aos gays que mudem e se arrependam. Bispos cristãos, claro: quando esta semana, durante uma conferência na National Portrait Gallery lhe foi posta a questão da homofobia na população de origem islâmica, Herbert esquivou-se com a habitual conversa de quem receia a acusação de islamofobia.


O trajecto dos conservadores na questão dos direitos de homossexuais ilustra não só que o mundo é composto de mudança mas também que todos os nichos de eleitorado dão sempre muito jeito. Mais ainda se a opinião pública está madura para apreciar gestos e atitudes políticas "progressistas". A "esquerda" já percebeu há que tempos que a conversão aos direitos das pessoas homossexuais é politicamente compensadora. Assim, neste momento até o nosso PCP e os trotskistas do BE se põem "muito à fente", fazendo tábua rasa de como os velhos comunistas tratavam do assunto, e o PS está pronto a afrontar resistências beatas ou republicanas. (Os actos homossexuais foram descriminalizados, entre nós, na letra da lei, em 1982: repare-se na data.) Com jeito e a contragosto, até o PSD lá chegará inevitavelmente.


Na Holanda, país que é referência em matéria de liberalismo de costumes, já não são só os gays que andam assustados com os ataques homofóbicos: os partidos mainstream também devem estar, com a significativa fuga de votos para partidos que defendem um travão à imigração. Parece que se tornou difícil, numa terra de muitas liberdades, andar fora do armário. E é aqui que surge a novidade mais surpreendente, mas que se insere perfeitamente na mesma tendência. Foi notícia esta semana que Ahmed Marcouch, muçulmano e autarca de Slotervaart, cidadezinha próxima de Amsterdão com população maioritariamente islâmica, afirma que vai doutrinar os seus concidadãos no sentido de olharem para os homossexuais como gente normal e respeitável. Até Manuela Ferreira Leite, quando reparar bem no que está a acontecer, irá engolir a sua "petite phrase" sobre casamento e procriação e dará o salto.

sexta-feira, julho 10

No entanto eles movem-se


Com a morte de Michael Jackson entre outros assuntos, a comunicação tem vindo a esquecer o que se passa no Irão. Ontem, aniversário da revolta estudantil de 1999, houve manifestações, buzinões e repressão policial em Teerão. Há aqui um relato que parece credível. A foto é do site da BBC em persa.

domingo, junho 28

Desassossegos



Há notícias de novas manifestações em Teerão, depois de cinco dias em que os protestos pareciam adormecidos. A polícia atacou uma concentração de 3000 pessoas junto a uma mesquita no norte da capital.

Entretanto, em Tegucigalpa, o exército deteve o presidente Manuel Zelaya e despachou-o para a Venezuela. As agências dão uma notícia que parece mal contada, mas há indícios de que o exército pode ter agido por ordem do Supremo Tribunal. Zelaya preparava-se para fazer um referendo a fim de alterar a constituição e permitir a sua reeleição em 2010. Os grandes defensores da democracia Chávez e Morales já protestaram contra o alegado golpe de estado. A Casa Branca já pediu o regresso à ordem democrática (com menos dúvidas do que no caso do Irão). Enquanto se discute qual dos lados deu o golpe, o empenho de Chávez por Zelaya ajuda a ter uma ideia de que "ordem democrática" pode não ser uma preocupação dominante para o ex-presidente hondurenho.

sexta-feira, junho 26

Dois fora do armário: Young Con Rap



Serious C:

“Yo this ones for all the young conservatives.
I rep the Northeast and I’m still a young con,
Let your voice release, you don’t have to be obamatrons.
I debate any poser who don’t shoot straight,
Government spending needs to deflate,
Your ideas are lightweight,
Ya careers in checkmate
I frustrate. I increase the pulse rate
I hate when,
government dictatin, makin, statements, bout how to be a merchant,
How to run a restaurant, how to lay the pavement
Bailout a business, but can’t protect an infant
Deficiencies are blatant, young con treatment
I stand one man, outnumbered at my college
Thank you Miss Cali for reminding us of marriage
Can’t support abortion, and call yourself a Christian
I support life, you’re a puzzled politician
Terrorists were imprisoned at Guantanamo Bay,
Now they’re in our neighborhoods, planning out doomsday
No such thing as utopia,
no government can control ya, baby ya,
Reap the benefits hard work, self reliant
Listen to Stiltz, my dude’s a lyrical giant

Yo Stiltz… make it two time… please”

Stiltz:

“I’m 6′9 head and shoulder above the rest
Liberals playin checkers, I’m playin chess
My conservative view is drill baby drill
You can say you hate me but
I’m praying for you still
My dislike for thee most def is not hyperbole
Taxes are the subject and I will spit them verbally
I’m just livin life a conservative philosophy
Sorry Hilary not a right wing conspiracy
We need more women with intellectual integrity
I’m talkin Megyn Kelly not Nancy Pelosi
My main motto is you best work hard
It’s not the hand you were given, but how you lay down your cards
I don’t speak lies but I spit the facts
28% the new capital gains tax
Porkulus bill lacks a few stats
The more money we spend, the more mine is worth Jack
The Bible says we’re a people under God,
Usin radar for radical Jihad
AIG was hooked up by Chris Dodd
A classy gift ain’t an Ipod
The standards of my crew ain’t republicans dude
I’m reppin Jesus Christ and conservative views
Study history and true conservative moves
Every single time they refuse to lose
I’m starting to see a modern day Jimmy Carter
When really nothin but a Reagan era starter”

Serious C:

“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”

Stiltz:

“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”

Serious C:

“Phase me, make me, into something that ain’t me
Serious c… can’t nobody shake me
great like the Gatsby, poppin posers like acne
Don’t matter if your gay, straight, Christian or Muslim
There’s one thing we all hate, called socialism.
It’s loathsome, and America ain’t the outcome,
Raise taxes on the people,
And you’re gonna feel symptoms, problems
I gotta message for a young con:
superman that socialism,
waterboard that terrorism”

Stiltz:

“I fulfill the role that’s inherently mine
Teaching politics through my rap and my rhyme
I’m signing off this track with a question in mind
How will this country get its precious change in time?
Three things taught me conservative love:
Jesus, Ronald Reagan, plus Atlas Shrugged
Saving our nation from inflation devastation
On my hands and my knees praying for salvation”

Serious C:

“Yo, We americans son
Hit ya with some knowledge
The movement has begun
Everyone can succeed
Because our soldiers bleed, for us
I said it in the verse,
now I’ll say it in the chorus”

Stiltz:

“We young conservatives son
Hard work is our motto
The movement has begun
EVERYONE can succeed cause our soldiers bleed, daily
My views are rock solid, no chance you can break me”

(Visto em Harry's Place.)

domingo, junho 21

Santos que não fazem milagres

Na zona noroeste de Lisboa há uma pequena aldeia perdida entre descampados e novas urbanizações. Costuma ser muito visitada por ter grande concentração de restaurantes. Os habitantes e vizinhos vivem lá em paz disfrutando durante onze meses por ano de um sossego pouco vulgar na grande cidade.

Depois vêm os santos populares. Com a colaboração da junta de freguesia, o bonito largo do coreto transforma-se em estacionamento de barracas para comeretes e beberetes, cobertas por plásticos de cores variegadas e com anúncios manuscritos em papel, lembrando o saudoso mundo pré-ASAE do século XX. Há também um palco para emissão de música pimba em alto volume.















Esta não é, infelizmente, a única contribuição da autoridade local para desfear o sítio, ao mesmo tempo que dificulta a vida aos cidadãos. Beberetes rima com pilaretes, e a pilaretofilia é um vício entranhado nos poderes autárquicos. Eles não faltam aqui, tal como estão obsessivamente

presentes em tudo o que é nova urbanização. Uma via larga, por exemplo, é munida de uma placa central, pronta a afunilar o trânsito; os pilaretes parecem reproduzir-se à volta como uma praga. Entretanto, no seu boletim mensal de Junho (16 páginas a cores em bom papel, com reduzido interesse e grafismo medíocre - "distribuição gratuita", diz a capa como eu fosse burro) a junta diz que há "muitos e bons motivos para festejar os santos populares" aqui.

sábado, junho 20

Teerão, 20 de Junho



(http://raymankojast.blogspot.com/)



O mundo tem os olhos postos no Irão. Parece que os satélites do Google também.
Estão 28 graus em Teerão e a hora local tem um avanço de 3h 30min em relação à hora de Lisboa.

Actualizações constantes aqui.

Como de outras vezes, há notícia de cancelamento do protesto. As últimas da bbc reafirmam que a manifestação se realizará.

sexta-feira, junho 19

Irão

Notícias não confirmadas falam da presença de elementos do Hamas e do Hezbollah a colaborar com as autoridades do Irão na repressão dos protestos em curso. Surge aqui alguma documentação fotográfica (via Gateway Pundit).

Sabe-se como o Twitter tem sido suporte da informação sobre o que se passa nestes dias no Irão. O Guardian apressou-se a noticiar, há três dias, que o Presidente Obama teria instado o Twitter a não interromper o serviço (esteve programada uma pausa). Parece agora que afinal a sugestão não partiu de Obama, mas sim deste rapaz contratado pela Condolezza.

Um porta voz de Mousavi, em entrevista dada em Paris, queixa-se de alguma indefinição de Obama. "Será que ele gosta quando alguém disser que não há diferenças entre Obama e Bush? Ahmadinejad é o Bush do Irão."

O governo egípcio teme que as atitudes demasiado cautelosas das potências ocidentais enviem uma mensagem inconveniente ao regime iraniano. (MEMRI)

Ahmadinejad descobre com horror que afinal há homossexuais no Irão e ainda por cima não devem ter votado nele. (GUARDIAN)

quarta-feira, junho 17

Irão, 5º dia

Mais fotos e notícias aqui.

segunda-feira, junho 15

Hoje, em Teerão

Os iranianos desafiam na rua a ditadura. Fala-se de mais de um milhão em protesto. As televisões não estão lá, mas há o Twitter. O site de Ahmadinejad parece ter ido abaixo por acção de hackers.

domingo, junho 14

Por quem se levanta o Irão?



Que fizeram do meu voto? perguntam multidões em desasossego por todo o Irão (as imagens referem-se a manifestações em Zahedan e encontram-se mais aqui.)
Mas que lamentam estas pessoas? apetece perguntar. Claro que sabemos: a não eleição de Mousavi Khameneh, dito reformista. Este ex-primeiro ministro e mestre em arquitectura, que em 1989 apoiou a fatwa sobre Salman Rushdie, e durante o seu mandato fechou todas as universidades, foi responsável pela matança de milhares de pessoas no início dos anos 80, tendo presenciado a execução e enterramento em valas comuns de 30 prisioneiros políticos em 1988. Simpatizante da ideologia socialista, favoreceu o baby-boom através da concessão de benefícios pelo estado.

A dita vitória de Ahmadinejad tem ao menos a vantagem de não nos iludir a nós, espectadores distantes. Com ele, já sabemos do que a casa gasta. Com Mousavi, ainda muitos haviam de pensar que sim, que podiam.

Actualização (15/06) Jornalistas e operadores de tv europeus foram impedidos de cobrir os protestos. Circula a notícia de que uma manifestação prevista para hoje às 16h em Teerão terá sido agora desconvocada.

sábado, junho 13

Sondagens e votos: uma meditação no caso italiano

Num artigo de Ivo Diamanti, surgido ontem no Repubblica, comenta-se que pela primeira vez as sondagens atribuiram à Lega Nord percentagens muito próximas do resultado obtido na votação (ligeiramente acima dos 10%). Anteriormente, as sondagens faziam previsões para a Lega muito abaixo dos resultados. O autor alinha razões para explicar este facto, e a primeira é que as pessoas perderam a vergonha de dizer que votariam na Lega. Argumentos e linguagem estigmatizados perante a opinião dominante, mas determinantes do voto de uns quatro milhões de eleitores, deixaram de causar embaraço. A Lega continua a usar os mesmos termos ou até mais violentos do que antes, mas, num ambiente onde todos dizem mal de estrangeiros e ciganos, já não impressiona particularmente. A Lega tornou-se popular e os profissionais das sondagens digeriram-na e assimilaram-na. Está enquadrada na normalidade italiana.

"Tonterias" de género

Na semana que passou, um juiz de Santander condenou a 7 meses de prisão uma mulher por considerar provado que agrediu a sua companheira, de quem estava em vias de separação. As agressões, que levaram a vítima ao hospital para tratamentos ligeiros, deveram-se a desentendimentos que já vinham de há muito: as duas eram obrigadas por constrangimentos económicos a partilhar o espaço em que sempre coabitaram. A acusada foi condenada pelo crime de violência doméstica na forma de maus tratos. Uma história banal... até aqui.

Acontece que o juiz considerou, para além do que se referiu, que os factos configuravam o tipo a que se refere determinado artigo do código penal espanhol, relativo à violência de género. Esse artigo, introduzido na lei espanhola em 2004, agrava a penalização do agressor quando ele é o homem do casal e o outro membro do par é mulher (ainda há casos destes). Houve iniciativas de diversas instâncias judiciais no sentido de ser declarada a inconstitucionalidade do artigo (por materializar discriminação com base no sexo), mas não foram atendidas.

Vamos, portanto, voltar a ouvir falar do caso. Enquanto a sentença recebe palmas e assobios, o delegado do governo para a violência de género discorda da aplicação do artigo a este caso, e paira no ar a possibilidade de recurso do Ministério Público. Eu se estivesse no lugar da condenada também recorreria. Já que o juiz parece prestar-se a estes jogos, podia argumentar que o homem afinal era a outra, uma verdadeira macha sapatona, bruta e intratável, constantemente a pedi-las. Além disso exigiria do estado uma indemnização pela ofensa de me equipararem a esse género animalesco e retrógrado.

segunda-feira, junho 8

Também fora da Europa

A esquerda acaba de perder também fora da Europa: depois de anos a defender o diálogo com o Hezebollah, o povo do Líbano derrotou nas urnas a coligação de que faziam parte os islamo-fascistas.

domingo, junho 7

Sílvio coisificado

Assim é que deve ser já que todos somos europeus. Em face da impotência e inabilidade da oposição em Itália para destronar Silvio, transfere-se a oposição para a Península Ibérica, com o El País imparável a mostrar fotos escandalosas de umas pessoas à beira de uma piscina sem saias nem gravatas, e a publicar uma fatwa do nosso Saramago sobre o incrível cavaliere. Há pelo um cu de mulher à mostra e o que parece ser uma pila de homem, tudo muito banal. Claro que as fotos podem ser apenas um trailer ou aperitivo do que virá a seguir, mas para já servem de apoio à prosa que desanca valentemente no Sílvio mitómano, a-cultural, esquecido de que é um avôzinho operado à próstata quando senta aos joelhos as suas crisálidas de 18 anos. Saramago vai mais longe, despromovendo Sílvio a "coisa que organiza orgias", mas ao mesmo tempo cobrindo-o da importância suficiente para ser o "causador da morte moral da Itália de Verdi". Saramago não lhe perdoa e chama-lhe "acompanhante de menores": o plumitivo é casado com uma senhora apenas 28 anos mais nova e tudo o que exceda esse número deverá deixá-lo desorientado e sem referências.

Mas quem explica com enquadramento teórico porque é que Berlusconi soma e segue são os sociólogos. Em entrevista ao El Mundo, Giuseppe de Rita analisa a admiração dos italianos pelo governante. Silvio personifica "a liberdade de cada um ser ele próprio" e esse é um traço estruturante do presente ciclo histórico-cultural. Os italianos admiram o seu perfil. Todos gostariam de ser "evasor fiscal, estudante que agride a professora, jovem que se droga, empresário que não paga impostos ou salários". Além disso acham que as chavalitas de 15-16 anos são todas umas putinhas, pelo modo como vestem e andam por aí: de modo que ninguém vai censurar o cavaliere por andar com uma miúda de 18. Nem os problemas com a justiça os demovem de o admirar: como a justiça tem péssima imagem pela ineficácia e pela lentidão, Silvio consegue até fazer passar a ideia de que é um perseguido por um sistema pouco limpo. E, acima de tudo, a Itália é o país do perdão, do indulto, da moratória, por maior que o pecado seja. Se o sociólogo tem razão, estão errados os que lamentam a pouca sorte dos italianos, vivendo num regime opressivo comandado por um ditador delinquente. Ao mesmo tempo podemos ficar descansados: um tal fenómeno nunca poderia acontecer entre nós, porque felizmente, como povo, não temos aqueles defeitos execráveis dos italianos.

quarta-feira, junho 3

As matérias alternativas

Alberto Mariani, professor de matemática na secundária de Cesena (cidade próxima da costa do Adriático, Itália), é hoje notícia nos jornais e blogs italianos. O motivo: ter efectuado um inquérito aos alunos sobre se prefeririam, em vez da hora de Religião, que a escola lhes oferecesse matérias alternativas (História das Religiões ou Direitos Humanos). Um colega queixou-se à direcção regional e Mariani foi punido com dois meses de suspensão.

Não é necessário ir ler os sites para imaginar o clamor de indignação e a solidariedade que se está a erguer em torno do professor. As respostas ao questionário mostram que apenas 11% dos inquiridos não optariam pelas matérias alternativas. Pessoalmente julgo que ensinar história das religiões poderia ser mais proveitoso (até para a religião católica).

Mas, por mera curiosidade científica, gostaria que o professor tivesse repetido o inquérito perguntando se os alunos pretenderiam que a oferta formativa da escola lhes oferecesse alternativas à matemática. Para comparar as percentagens.

sábado, maio 30

O nível da conversa



Hugo Chávez começou por desafiar os membros do CEDICE, em reunião na Venezuela, para um debate no seu Alô, Presidente especial que durará até domingo. O CEDICE propôs então que houvesse um frente a frente entre o Presidente e Mario Vargas Llosa. Chávez declinou: embora reconheça os talentos de Llosa como escritor (diz ele) o frente a frente não tem sentido porque não jogam na mesma equipa. Hugo queria um debate entre intelectuais (os seus e os do CEDICE) e afirma que Llosa teria de ascender a presidente para debaterem ao mesmo nível.

Vargas Llosa até já foi candidato à presidência do Peru. É autor de La Fiesta del Chivo, onde evoca a tirania de Trujillo, e dessa obra prima da literatura, Conversación en la Catedral, que tem como pano de fundo a frustração dos peruanos nos tempos do ditador Odría. Temas certamente caros a Hugo, que em caso de desconforto poderia converter a conversación em tertúlia literária. Mas para isso teria que descer ao nível de um intelectual.

sexta-feira, maio 29

Castro vs Cheney

As notícias de há dois dias referiram duras críticas de Fidel Castro aos métodos antiterroristas defendidos pelo ex-vice Dick Cheney. Fidel afirmou que não se deve usar a tortura para obter informação.

Fidel não diz nada de surpreendente. Em Cuba tortura-se sem o objectivo mesquinho de obter informações que não interessam para nada. E nos bons tempos do Che a tortura era frequentemente substituída pelo método expedito da bala na mioleira.

Aguarda-se agora que às preocupações de Castro se venham juntar as de Ahmadinejad, algum líder da Al Qaeda, ou Kim Il Jong, para ainda nos convencermos de que Cheney é um menino de coro.

quinta-feira, maio 28

Delícias de linguagem

Aa acções de deformação para professores de línguas começam por ter nos títulos o educo-tuguês no seu melhor. Ora topem:

Acção 09.04- Oficina para a ensinança da Língua Portuguesa Acção 09.05- Português Língua não materna: Ensinar para não descriminar. (itálicos meus)

Suponho que na primeira o tema central será a Arte de bem Cavalgar em Toda a Sela. Na outra deve haver engano, provavelmente é uma acção de direito não garantista destinada a magistrados.

ESCRITA CRIATIVA - ESCREVER PARA E COM JOVENS

Sim, tou a ver. Axim k me dxpaxar vamox kurtir, ta?

UTILIZAÇÃO DE QUADROS INTERACTIVOS MULTIMÉDIA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DAS LÍNGUAS

Claro! deve haver um manual de instruções em várias línguas com centenas de páginas.

quarta-feira, maio 27

Jara: o processo

No dia 16 de Setembro de 1973 o autor de canções Victor Jara, preso no estádio de Santiago do Chile, foi uma das muitas vítimas da brutalidade dos militares de Pinochet. Foi selvaticamente torturado, tendo-lhe sido arrancada a língua e desfeitas as mãos antes de ser crivado de balas.

O processo relativo ao crime já teve altos e baixos e tinha sido encerrado o ano passado de modo inconclusivo com um único culpado. Ontem, contava o La Tercera que um juiz reabre o caso, acusando um ex-soldado, agora com 54 anos, de autoria do crime.

A pequena notícia é a mais comentada de ontem na edição online do jornal.

Segundo o El Mundo, os representantes da família de Jara criticam as diligências judiciais, afirmando que se está longe de chegar aos autores intelectuais do crime.

sexta-feira, maio 22

As profissões blindadas

Em relação com um caso de polícia bem conhecido, tem sido exposta a teoria de que não é credível que alguém possa exercer pressão sobre magistrados. Isto porque tais pressões não teriam consequências, uma vez que a carreira da magistratura é tão "blindada" que será por natureza imune às tais pressões. Esta teoria foi ainda há minutos defendida por Pedro Adão e Silva no Rádio Clube.

Cada um só vê o que quer e a mais não está obrigado. Mas é extraordinária a afirmação, quanto mais não seja porque se soube há poucos dias que um inquérito colateral sobre o aludido caso concluiu que tinham mesmo existido pressões sobre magistrados. E, mesmo que assim não fosse, não seria difícil raciocinar (se houvesse vontade disso) para concluir que a violência das pressões depende das posições relativas de pressionador e pressionado. Naturalmente que um magistrado que desagrade a alguém hierarquicamente comparável ou superior não vai ser posto na rua, mas não haverá outro tipo de consequências a que poderá arriscar-se? Lembro-me da premissa da Procuradora: magistrados corajosos não são pressionáveis. Mas, e se houver magistrados não corajosos? Há avaliações, há promoções, há projectos de realização profissional, há colocações em determinados lugares que poderão estar em causa. Essas alterações de carreira poderão depender de comportamentos registados? Não sei. Mas para quem já tem uma situação profissional segura o estímulo que conta é o de promoções futuras. Vê-las postas em eventual risco não pode ser equivalente a estar sob pressão?

quinta-feira, maio 21

Some like it frightening

Dizia ontem o NY Times que, dos prisioneiros libertados de Guatanamo, um em cada sete regressou activamente à actividade terrorista. Esta taxa de reincidência de 14% parece preocupar o departamento de defesa, e já se fala em impedir que alguns dos prisioneiros saiam dos Estados Unidos.

Mas tudo isto pode ser afinal conversa alarmista. Mark P. Denbeaux, professor de direito muito citado, especialista em produção de prova, desvaloriza: diz que é "uma campanha para ganhar o coração da história para Guantanamo. Querem ter argumentos para dizer que havia lá gente má." E acrescenta, em tom de comédia negra com modesta homenagem a um clássico do cinema, "Nunca dissemos que não havia lá quem voltasse à luta. Nada é perfeito".

Acho que Denbeaux devia ter ido mais longe. Não brinco. Gostaria de saber como é que os incompetentes do Pentágono chegaram àqueles resultados. Terá sido por sondagem? com que margem de erro? os inquéritos teriam quadradinhos para marcar com a actividade pós-guantanamo? quantos ex-presos se tornaram cabeleireiros? e quantos professores de direito? sobre isso o relatório nada diz. A não ser que, de cada sete, os inquiridores só tenham conseguido apanhar um.

segunda-feira, maio 18

Mensagem a Dawkins




PROVAVELMENTE NÃO CONSEGUIRÁS APAGAR A IDEIA DE DEUS DA CABEÇA DE UMA IMENSA MULTIDÃO*. POR ISSO NÃO TE PREOCUPES E VIVE A TUA VIDA, PAH


*já para não falar destes:









En galego sentiraste libre

Ainda a Xunta recentemente eleita não começou a trabalhar e já está na rua um movimento que quer fazer esquecer os resultados das eleições. A Mesa (pola normalización linguística) organizou ontem em Santiago de Compostela uma gigantesca guerra preventiva pela defesa do galego, que ainda não começou a ser atacado. A Festa das Letras deu oportunidade aos manifestantes para avisarem o Partido Impopular de que terá de ter muito cuidadinho com o que faz. O êxito da concentração surpreendeu os organizadores: parece que dava para encher o Obradoiro e convocaram para a Praça Quintana. (Foto, história e comentários no Correo Gallego)

O simplismo gramatical dá uma ajuda. Não se imagina numa manifestação festiva um cartaz com a frase "Em galego sentir-te-ás livre". Sentir-te-ás? Dasse. Tasse bem.

domingo, maio 17

Adeus, calculadora

Dêem só uma olhadela nisto.

A controlite do ME

Conta hoje o PÚBLICO que o Ministério da Educação prevê ao milímetro as frases que os professores podem e devem articular durante os próximos exames, perdão, provas de aferição. Este obsessão de controlo total não tem nada de novo. É própria daquele ministério e tem-se manifestado abundantemente, independentemente dos governos. A chuva torrencial de normas que inunda as escolas tem sido, de resto, uma das causas do mal estar recentemente evidenciado pelos professores.

Mas há já muito tempo que a controleirite é visível noutros âmbitos. Um deles é o dos programas das disciplinas. Um programa defeituoso ou mesmo mau tem uma importância relativa porque um professor inteligente e com bom senso pode sempre subvertê-lo; mas como nem a inteligência nem o bom senso estão distribuídos com generosidade e como os autores de manuais têm de seguir os programas oficiais, é claro que maus programas têm efeitos perniciosos.

Vou dar um pequeno exemplo. No programa do 11º ano de Matemática "explica-se" na página 8 como introduzir as noções de raiz quadrada, cúbica, etc, e como ensinar as operações com símbolos de raízes. O programa não explica nada de jeito nem dá nenhuma ideia aproveitável sobre este ou outros assuntos, mas é muito apressado a espartilhar a acção do professor impondo-lhe uma barreira ridícula e sem sentido com a frase seguinte:

Grau de dificuldade a não ultrapassar:

A tónica geral dos programas oficiais (pelo menos no caso da matemática para o ensino secundário) consiste numa grande vacuidade sobre a substância das matérias a ensinar e em doses maciças de ideologia para balizar a acção do professor.

Verbo em alta

PGR desmente pressões mas é contrariado

Charles Smith desmente injúrias a Sócrates

Cândida Almeida desmente a notícia do «i», dizendo ...

Sócrates desmente Alegre Alegre desmente Sócrates

Alegre desmente negociação com Sócrates

Antigo adjunto de José Sócrates desmente envolvimento em caso...

Subjacentes a estes casos estão, supõe-se, mentirosos ou mentirosas. O verbo mentir é, no entanto, usado de forma muito menos conspícua. Nem o Google é eficaz como detector de eventuais mentiras: busque-se alegre mente e ele pensa que andamos atrás de um advérbio de modo (se ainda se chama assim na era da TLEBS). Quem diz alegremente, diz candidamente. Estão em desvantagem neste campo os que não foram batizados com adjectivos.

Prudência

Fez bem o presidente Obama em proibir a divulgação das fotos com as torturas de Guantanamo. As inquietações com o clamor que aí viria não lhe deixariam tempo livre para governar. Ainda toda a gente se lembra das gigantescas campanhas de indignação que se seguiram à revelação das torturas praticadas no Iraque de Saddam ou pelo grupo Al-Qaeda, e que levaram à queda do regime de um e à passagem à clandestinidade de outro.
Além disso, Obama provavelmente apercebeu-se de que não podia competir com o inimigo a nível de efeito dissuasor. Por todos os motivos, a divulgação seria contraproducente.

terça-feira, maio 12

Roxana

A libertação de Roxana Saberi, noticiada ontem, é uma boa notícia. Todos saem a ganhar: Roxana em primeiro lugar, mas também o regime iraniano ao fingir ser estado de direito e simular um gesto de boa vontade. E até talvez a administração americana, que pode ter negociado, ou parecido negociar o caso.

Nem todos, no entanto, verteram lágrimas por Roxana.

Make love, not babies


Depois de a ministra da igualdade se ter empenhado em alargar o aborto a meninas com 16 anos sem necessidade de autorização dos pais, a ministra da saúde promete a pílula do dia seguinte, sem limite de idade, financiada pela Segurança Social (notícia ABC).

segunda-feira, maio 11

Piadas de qualidade

O melhor de Obama até agora, para mim, foram algumas das piadas do jantar de imprensa. Vê-se que a nova administração está assessorada por humoristas de nível, capazes de rivalizar com os nossos Gatos, Contemporâneos e Inimigo Público. As três melhores: as diabólicas criancinhas que se divertem a rasar Manhattan no Air Force One, o beijo de Hillary vinda do México e (sobretudo) a promessa de completar os próximos 100 dias em apenas setenta e dois. Só tenho um adjectivo: adorei.

sexta-feira, maio 8

Apelo contra o anti-semitismo

Catorze membros do Congresso dos Estados Unidos dirigem-se ao Primeiro Ministro da República de Espanha manifestando preocupação com o crescente clima anti-semita no país... e em particular no El País.

domingo, maio 3

Limpeza

A polícia e o exército começaram a retirar os não indígenas de uma reserva índia no noroeste do Brasil. A acção destina-se a executar uma sentença do Supremo Tribunal no mês de Março. Anteriormente, a Rainforest Foundation tinha-se empenhado, pressionando as autoridades brasileiras, numa campanha pela expulsão dos fazendeiros do arroz que se tinham estabelecido na Raposa Serra do Sol.

sexta-feira, maio 1

Estupefacção de espantar

Manuel Alegre estava há dois dias estupefacto e indignado com o episódio em que um inspector interrogou alunos de uma escola de Fafe, aparentemente com o objectivo de que eles denunciassem acções de professores. Para Alegre, trata-se de um "atentado ao espírito da escola pública". Ora, se Alegre estivesse mais atento à realidade, já se teria apercebido de que não há ali qualquer contradição com o dito espírito. A escola pública dedica-se a ensinar pouco e a ideologizar muito; as disciplinas são impregnadas de um conteúdo programático que as extravasa e que vai no sentido de (de)formar mentalidades, seguindo as cartilhas da moda circunstancial.

A Geografia, por exemplo, a par da educação para a cidadania, dedica-se abundantemente a instruir as crianças sobre os malefícios do "aquecimento global" (agora "alterações climáticas") que é um filme com bons e maus. Não deve ser difícil imaginar histórias de crianças a gritar com os pais quando estes lavam os dentes com a água a correr ou quando não separam o lixo de forma correcta.

A História ensina, além de pouca coisa que situe no espaço e no tempo, que tudo é relativo e que todas as civilizações valem o que valem, ou seja, mais ou menos o mesmo. E se isso for certo para as civilizações, não há-de sê-lo a nível mais simples para o valor das hierarquias?

Noutras disciplinas aprende-se pouco e brinca-se muito. E é preciso não esquecer que o próprio Ministério da Educação, durante os últimos dois anos, espezinhou e insultou os professores com apreciável sucesso perante a opinião pública.

Lançando algumas bases para a rejeição do mundo em que as crianças vivem, a Escola Pública dá o seu modesto contributo para a criação de uma bolsa de radicais e delatores. Que espanto pode então provocar a cena do inspector de Fafe?

1 de maio, de madrugada

Parece confirmar-se que Delara foi enforcada hoje em Rasht, Irão.

Actualização em 3 de Maio: A última chamada telefónica de Delara para a mãe está descrita no Daily Mail. 'Mother they are going to execute me, please save me,' Delara Darabiscreamed, before a prison official grabbed the phone and told her mother: 'We are going to execute your daughter and there's nothing you can do about it.'

domingo, abril 26

Discurso político com patrocínio

Vamos a isso, e levem móveis. Basta ir ao IKEA e com uns tostões se mobila uma casa. E já agora, acaba de me ocorrer, vamos reembolsar-lhes essa pequena quantia. (Silvio Berlusconi aos desalojados do terramoto de L'Aquila.) Grande coisa... se fosse comigo preferia que me pagassem transporte e montagem.

sábado, abril 25

Estefânia

O PÚBLICO conta hoje uma história "macabra e misteriosa" à volta do que descreve como "homicídio gay". As personagens principais são um chinês (a vítima) e "uma coisa estranha, nem carne nem peixe" (assim se refere a vizinhança ao presumível assassino). O título do artigo diz tudo mais rápido: "travesti". Mas a história tem pontos obscuros: começa por falar de "relação amorosa" entre vítima e suspeito, mas mais à frente diz que se tratou de "desavenças após actos sexuais", o que pode ser uma coisa completamente diferente. Enigmáticas as personagens secundárias, que se fecham num mutismo obstinado: a "estalajadeira" (termo poético que nos remete para outras épocas) e um "casal de empregados" do restaurante chinês na rua do crime. O casal abana a cabeça em simultâneo, por duas vezes, recusando falar, e vira costas "como uma equipa de natação sincronizada".

A redacção do artigo é interessante, mas tem palavras redundantes. A história contém informação suficiente para dispensar o uso de "gay" (ainda por cima aplicado ao crime, o que não faz sentido) e "travesti". A discriminação só terá terminado quando não for necessário colocar adjectivos. Senão, porque é que as personagens restantes não são tratadas por igual? Não estão em falta a tendência sexual da estalajadeira e a classificação sexológica do casal de empregados?

CHEmisolas

CHEga de

ser totó

A ministra da igualdade do governo polaco pretende criminalizar o uso de símbolos que evoquem regimes totalitários, englobando nazismo e comunismo. Se a lei viesse a ser aprovada, usar uma CHEmisola poderia dar prisão até dois anos. Faz mal a ministra. Primeiro, apagar símbolos não retira ideias, por mais absurdas que sejam, de dentro das cabeças. Segundo, o culto proibido fica mais apetecido e torna-se marca de "irreverência". Terceiro, as CHEmisolas são um pequeno triunfo do capitalismo: num regime comunista a desarticulação da produção nunca poderia ter correspondido à intensa procura. Além disso, parar a produção pode atirar algumas centenas de pessoas para o desemprego. Mais vale incitar a malta a informar-se sobre o homenzinho que os adolescentes de todas as idades gostam de levar no peito. Finalmente, quando o número de não crentes for suficiente para se tornarem consumidores credíveis, a indústria reinventará o ícone, produzindo CHEmisolas subversivas que poderão ser novo furo de vendas, criando novos postos de trabalho.
















sábado, abril 18

Havia de ser cá



Por vezes qualquer tuga cai na tentação de desejar uma União Ibérica que lhe resolva os problemas que o estado tuguês deixa arrastar. Mas valerá a pena? Com a visão justificadamente pessimista que temos do nosso sistema judicial, pode pensar-se que talvez ficássemos mais bem servidos com o sistema espanhol. Mas cuidado, as primeiras impressões por vezes induzem em erro.

Duas cenas caricatas constituem o último desenvolvimento do folhetim macabro à volta do assassinato de Marta Castillo.

Cena um: Há dias Miguel, o presumível assassino da ex-namorada Marta, foi chamado ao juiz para este lhe ler cartas. Sim, uma dúzia e tal de cartas recebidas desde que se encontra preso e que ao que se sabe nada têm a ver com o processo. Imagine-se o luxo! Ter um juiz como leitor. O Miguel deve andar a rir-se da polícia, mas de certeza que se vivesse cá iria empalidecer quando lhe apresentassem a factura das custas.

Cena dois: Uma procuradora de Sevilha acaba de pedir a condenação da rede Telecinco a pagar uma indemnização de 100 000 euros a Rocio, a menina de 14 anos que é a actual namorada de Miguel e que foi selvaticamente explorada naquele rede para contar em directo tudo o que sabia sobre os acontecimentos da noite do crime. A exploração da menina teve a conivência da mãe, que aliás não foi incomodada pela procuradora, e que permitia lá em casa o acesso do Miguel à cama da filha. Pobre Rocio, a justiça vai repará-la do mísero punhado de trocos que possivelmente a Telecinco lhe pagou. No meio disto, que interesse tem Marta, além de ser a personagem morta desta novela? O centro de gravidade do protagonismo deslocou-se. Rocio é rapariga de sorte: namorar o Miguel pode dar direito a acabar num contentor ou no fundo do Guadalquivir, conforme os dias e a versão em voga, mas também pode ser fonte de grandes proventos. Se fosse por cá não teria tanta sorte. Com o que aí se anuncia, esta indemnização, a ser recebida, iria logo ser considerada enriquecimento ilícito por outro procurador qualquer.

Duas mulheres



A da esquerda é Delara Darabi. Será enforcada amanhã no Irão. A da direita é Roxana Saberi, jornalista iraniano-americana, que acaba de ser condenada a oito anos de prisão por espionagem.

A história de Delara tem mais drama e romance. Aos 17 anos colaborou com o namorado no assalto à casa de uma prima, que acabou morta com uma facada. Assumiu a culpa para ilibar o namorado, convencida de que não seria condenada por ser menor. Apesar de provas posteriormente apresentadas, o tribunal manteve a condenação: a facada foi desferida por um dextro e Delara é canhota. No sistema judicial iraniano as provas contam menos que a intuição dos juízes.

(Notícia do Corriere.)

sábado, abril 11

O taliban dentro de nós


Não, este não será o fardamento adequado a uma trabalhadora da já famosa loja do cidadão de faro. Mas não é de todo fácil explicar porquê, numa época em que dizemos encarar com naturalidade tanta coisa relacionada com erotismo. De que temos medo? De que a clientela se distraia ou prolongue a sua permanência ao balcão, diminuindo assim a produtividade do posto de trabalho? Nada que não pudesse acontecer também com corpos bem cobertos, adivinhados pela janela de um olhar esplendoroso ou de um sorriso fulgorante. Teme-se a beleza, simplesmente, porque não se a possui ou porque se receia que nos escape. Para as feias e feios, as normas das lojas de cidadãos que por aí há são irrelevantes ou inúteis.
Entretanto, promove-se a beleza abundantemente, em clara discriminação anticonstitucional de que ainda nenhum bloco nem nenhum Alegre se lembrou para as suas afirmações de existência: quando num anúncio de emprego se exige eufemisticamente "boa apresentação", está-se descaradamente a recusar trabalho a gordos e gordas, atarracados e atarracadas, borbulhentos e borbulhentas. Com um nicho de oprimidos tão promissor, só por ingenuidade se pode continuar a bater na tecla do anti-fascismo. Quem vai ter coragem de adoptar o lobby dos feios e impôr que o m/f dos anúncios seja seguido de g/m a/b (gordo-magro, alto-baixo)? Se isso acontecer vão ver que deixa de haver preocupação com as mini-saias e os decotes.

A intoxicação

"...o desemprego e a precariedade alastraram-se simultaneamente com a desigualdade e o empobrecimento..." dizem eles, com razão, excepto, possivelmente, no uso do verbo alastrar na forma reflexiva (ao gosto do que agora se faz na TSF e nas televisões).

Mas nem tudo é claro neste manifesto de lugares comuns. Deplora-se que "os direitos conquistados durante gerações, pelos trabalhadores", sejam "gradualmente postos em causa" e o facto de que as "classes trabalhadoras foram progressivamente intoxicadas pela compulsão consumista". Ora os dias felizes do consumo foram proporcionados pelos direitos e melhorias de vida que os trabalhadores adquiriram neste sistema deplorável. Ou estarão os subscritores a referir-se a direitos conquistados sob o regime soviético, castrista, chinês ou norte-coreano? É que ao mesmo tempo "clamam por novos paradigmas comportamentais e políticos". Em que ficamos? Os subscritores deste apelo parecem simpatizar discretamente com modelos de sociedade onde as "conquistas" se resumem às parangonas dos jornais oficiais e onde não há riscos de "intoxicação consumista" porque não há assim tanto que consumir. Na sociedade perfeita para estas pessoas o consumo é um privilégio que lhes deve estar reservado: com os seus salários ou reformas confortáveis podem viajar, comprar apartamentos e automóveis sem dores de cabeça. E olham com compaixão a ralé que se esfalfa a trabalhar, pagando ivas e etc pelo meio, para conseguir, quando consegue, pagar a prestação da casa e do televisor panorâmico comprado a crédito.

sexta-feira, abril 10

Um francês em Paris

O Figaro dá notícia hoje da divulgação de um video que tem agitado a blogosfera francesa nos últimos dias. É o filme da agressão de um jovem com sobretudo e cachecol por um grupo de outros quatro jovens. Assim mesmo, sem falar de cores, escondendo um conflito a preto e branco. O agredido é tratado pelo bando por "francês de merda".

Naturalmente, houve tentativas de classificar o video como falsificação racista, mas nada a fazer: está verificada a autenticidade e fica a consolação de chamar "de extrema direita" aos sites que o divulgaram. Entretanto estão em marcha um processo ao polícia de quem se suspeita que partiu a divulgação das imagens, e um apelo a acções de apoio ao agente.

O detalhe interessante é que o violento episódio tem já quatro meses. Muitos se interrogam se um caso destes, com as cores ao contrário, aguentaria esta eternidade sem saltar para a internet, e mesmo para os jornais e as tvs.

O YouTube eliminou o violento filmezinho por razões de "violação das condições de utilização". Por enquanto pode ver-se aqui, se houver paciência para esperar, porque o site está entupido com visitas.

Actualização: O jovem vítima da agressão deu hoje entrevista ao Figaro. É interessante lê-la. Fica aqui um excerto com sublinhados acrescentados:

Des sites Internet affirment que des injures raciales auraient été proférées à votre encontre…
Personnellement, je n'ai rien entendu de la sorte. Ces propos, s'ils ont été dits, interviennent dans un contexte où mes agresseurs étaient drogués ou ivres. Par ailleurs, ils n'étaient pas tous issus de l'immigration. La vidéo de mon agression apparaît comme très stéréotypée car, ce soir-là, je suis habillé de façon bourgeoise et je suis face à quatre jeunes qui faisaient beaucoup de bruit. En aucun cas, je ne veux passer pour l'incarnation d'une certaine image sociale qui aurait été prise à partie par des étrangers. Je ne l'ai pas ressenti comme cela. L'un des assaillants en survêtement, rasé, avait d'ailleurs une couleur de peau très pâle…

quinta-feira, abril 9

Moctezuma em edição revista

Lá para o outono, o British Museum vai apresentar uma exposição sobre Moctesuma e os conquistadores espanhois. Há um fio programático: contrariar a visão de que o imperador azteca se terá rendido aos espanhois e terá sido assassinado pelo seu povo em fúria. A nova versão do conto escolhe definitivamente os homens de Cortés como os maus da fita. Eles terão aprisionado e assassinado o imperador. Os organizadores baseiam a nova versão em documentos encontrados na Escócia e no México. Em rigor, não é novidade que haja dois finais, dependendo de quem é o narrador. Qualquer dos epílogos é verosímil: se os "conquistadores" não eram gente meiga, também Moctezuma não era propriamente amado num império onde muitas tribos eram sufocadas com impostos. Mas Moctezuma em versão British Museum 2009 está, sem dúvida, mais de acordo com os nossos tempos em que aos europeus, de olhos azuis ou escuros, se convencionou atribuir as culpas de todos os males.

segunda-feira, abril 6

Desastre no Abruzzo



Há semanas que Giampaolo Giuliani, investigador do Istituto Nazionale di Fisica Nucleare, vinha alertando para a forte possibilidade de um sismo violento. Giuliani sustenta que se podem prever os terramotos: a pista são as fugas de radon da crusta terrestre. Há dias foi acusado de alarme intencional pelo chefe da protecção civil, Guido Bertolaso. Giuliani espera agora desculpas.

É claro que o alarme num tal caso pode levar a situações de perigo e a deslocações de população que podem revelar-se inúteis, mas fazer de conta que não é nada pode ser igualmente perigoso. A dúvida sobre o grau de rigor da previsão pode justificar que se desvalorizem os avisos, mas infelizmente a tragédia de hoje em Itália vem mostrar que pode valer a pena escutar os peritos.

Faz sentido um governo financiar institutos e laboratórios e não dar crédito algum aos resultados da investigação que lá se desenvolve? Depende da avaliação que dela faça. Bertolaso sustenta que os factos não eram previsíveis e que consultou os melhores especialistas de engenharia sísmica em Itália. Giuliani teima que sim, que eram previsíveis. Uma questão científica não resolvida a juntar ao drama.

Mais realisticamente, caberá discutir responsabilidades pela qualidade da construção. Edifícios novos, como o hospital e a casa do estudante, sucumbiram como as construções medievais. Fala-se de fazer legislação mais apertada para normas anti-sísmicas. Apertada ou frouxa, quem irá garantir o seu cumprimento?

(Imagem: La Repubblica. O epicentro)

quarta-feira, abril 1

Pressão, um novo paradigma

O Procurador Geral da República garante que não há prazos para investigar determinado processo, mas vai ser rápido a investigar a existência de pressões à volta do dito.

Ontem, ao fim do dia, o tema das pressões continuava em alta e parece estar a tornar-se endémico.

Ainda bem que todas estas declarações foram feitas ontem. É que se fosse hoje poderíamos não acreditar em nada.

Por outro lado, uma procuradora vem propôr o mote para vários silogismos que podemos entreter-nos a construir. Mas parece-me que ela passa ligeiramente ao lado da questão: mais do que afirmar que magistrados corajosos não são pressionáveis, pertinente será perguntar se magistrados não corajosos podem cair na tentação de pressionar.

domingo, março 29

A ciência no labirinto

A ciência é permeável à ideologia? Bom, a ciência é feita por seres humanos e todos temos a tendência para acreditar, ou pelo menos aderir emocionalmente, a determinados esquemas de explicação da realidade.

“The pope is correct, or put it a better way, the best evidence we have supports the pope’s comments. He stresses that “condoms have been proven to not be effective at the ‘level of population' " disse à National Review Online Edward C. Green, director do AIDS Prevention Research Project no Harvard Center for Population and Development Studies. Green explica que isto pode dever-se ao fenómeno que denomina compensação de risco.

A revista Lancet intimou há dias o Papa a desdizer as recentes afirmações sobre a ineficácia do preservativo. Há portanto sinais de fractura a nível da comunidade científica, o que não é inédito: já a respeito das "alterações climáticas" (o nome mais em moda do "aquecimento global") elas são mais que evidentes. No caso da prevenção da SIDA, dá que pensar, pelo menos, que se registem aumentos de infecção em sociedades como as nossas, onde em princípio o acesso ao preservativo é fácil e onde pouca gente liga ao que diz um qualquer papa.

Todos ralham. Quem terá razão?

A Lancet publicou até 2004 e 2006 artigos em que se pretendeu contar o número de mortos após a invasão do Iraque, e as reacções não foram pacíficas: os procedimentos metodológicos dos autores foram contestados e um dos autores fortemente censurado por recusar a revelar o procedimento seguido. (Uma parte da controvérsia está aqui e podem ver-se mais detalhes na Wikipedia.) Não consta que a Lancet tenha desdito o conteúdo do que a esse respeito publicou.

sábado, março 28

Sucessos da luta contra a criminalidade

As legislações modernas, permitindo classificar tudo e mais alguma coisa como crime, dão uma boa ajuda às estatísticas de resultados da acção das polícias.

Assim, uma menina de 14 anos de New Jersey acaba de ser acusada de pornografia infantil por colocar no MySpace trinta fotos suas em poses de nudez. As novas leis facilitam a vida aos procuradores: para caçar criminosos nem precisam de procurar muito ou sequer de correr riscos.

Este fim de semana desenrolou-se entre nós uma "mega-operação de segurança". Convenientemente colada à revelação dos números que mostram o aumento da criminalidade no país. A notícia de jornal não precisa à segurança de quem se refere o título mas, lendo melhor para percebermos qual o tipo de perigosos delinquentes detidos, fica-se a perceber que se trata da segurança dos autores de rapto, car e home-jacking, roubo com arma e homicídio.

quinta-feira, março 26

Periféricos?

O ex-presidente Sampaio mostra-se desagradado com a preferência do país por discutir assuntos periféricos. Refere-se ao caso do provedor de justiça e ao penalti. Tem razão no que respeita ao medíocre folhetim do provedor, que só mobiliza umas dezenas de actores com meios mas sem talento. A novela do penalti deveria ser, no entanto, reclassificada como assunto periesférico, uma categoria que é capaz de comover e crispar uns milhões de cidadãos. Não é mostra de grande lucidez misturar as coisas.

quarta-feira, março 25

Com os olhos e os ouvidos de África

Num registo mais sério, é interessante ler o artigo de Marie-Claire Nnana publicado há três dias em all.africa.com, dando conta da arrogância europeia, e particularmente a francesa, ao pretender impôr a sua visão sobre a viagem africana do Papa. Aqui ficam dois excertos incisivos.

Le journalisme des « petites phrases » est certes sensationnel et payant, commercialement parlant, mais l'on observera qu'en résumant huit jours de visite en deux petites phrases, de préférence celles susceptibles de remuer une opinion publique formatée, il y a un risque de caricaturer et de fausser le message.
Le comble, c'est lorsque ces médias déclarent parler au nom des Africains Non, merci, chers confrères, vous parlez pour vous-mêmes, et pour votre public.


Avec l'Internet, la télévision, la radio, les journaux, l'école laïque, la société dispose d'une machine de communication en théorie bien plus puissante que la seule parole du pape ! Pour finir de jouer sur ce registre cynique, on peut même rappeler avec Graham Greene, que « les principes sont faits pour être violés »

segunda-feira, março 23

Auto brilhante...


Ou como obter a lubrificação com melhor relação qualidade/preço. Parece-me que começo a compreender melhor as palavras do Papa na entrevista à partida para África. De certeza que ele estava informado disto.

domingo, março 22

Ensaios sobre a cegueira (2): o estudante de engenharia electrónica

"Ouvi que ela ainda tem 40%de visão no olho direito, mas a mim vão tirar-me a visão dos dois. Mereço que me ceguem de um olho, mas não dos dois, porque ela ainda vê um pouco", confessa a El Mundo Majid, o estudante de engenharia electrónica que cegou com ácido Ameneh, a rapariga que diz amar ainda. Diz que foi um erro e queixa-se de que a sua condenação é mais dura do que as que têm ocorrido em casos similares - tão frequentes que até há uma palavra para os atiradores de ácido: são os acid-pashi. Quer ainda viver com Ameneh, mesmo que estejam ambos cegos. A ténue esperança de Majid corre contra o tempo. Como vai Ameneh aplicar-lhe as gotas nos olhos se ela não vê? Só pode estar a mentir. A execução pode verificar-se já depois das festas do novo ano persa, a partir de 3 de Abril.

sexta-feira, março 20

Preservativos e tópicos afins

Numa entrevista longa dada à partida para África, o Papa voltou a falar do preservativo, e mal. A frase está perdida no meio de uma conversa com tronco e membros, mas lá ficou para gáudio da ocidentalidade anti-católica e da raiva dos personagens do Fórum TSF. Em vez de cascar no Papa, os media deviam agradecer-lhe: a pequena frase garantiu-lhes dois dias de gozo e justificação para os seus papéis.


Para lá disso, o Papa esteve mal ao não resistir à tentação daquelas palavras. Mas pior do que isso é que para os africanos a frase é irrelevante. Se o preservativo não é usado na escala adequada, não é por culpa do Papa (de cujas palavras, de resto, ninguém já faz caso, como bem sublinham os seus detractores), mas das políticas e da cultura local. Em África, poucos devem ter ficado a pensar no caso, se é que deram por ele.

A euforia dos media com o tema chegou ao ponto de terem esquecido outra oportunidade para malhar no Papa & Companhia: é que, precisamente também há dois dias, soube-se que a administração Obama subscreve agora a moção da ONU para despenalização da homossexualidade e que o Vaticano continua a demarcar-se. As organizações LGBT rejubilam. Não sei se terão reparado que o porta-voz Robert Wood se apressou a dizer que "subscrever a moção não nos obriga a compromissos legais".

Também não houve ecos da caça às bruxas em curso na Gâmbia, noticiada ontem no The Independent. A operação já levou à tortura e à morte de umas mil pessoas e foi lançada pelo próprio Presidente Yahya Jammeh, que está convencido que certos feiticeiros do país são responsáveis pela morte de uma sua tia. Jammeh acumula as funções de presidente com as de feiticeiro, pois tem umas ervinhas que curam os doentes com HIV.

3000 dólares por uma viúva

Para garantir o futuro das viúvas de mártires, o Hamas oferece 3000 dólares aos homens que desejem casar com uma dessas mulheres. Talvez seja mais correcto dizer: que desejem integrá-la na sua família. Porque os candidatos têm de fazer prova de ter recursos económicos para o efeito, de possuir altos valores morais de acordo com o Islão e têm de comprometer-se a tratar a nova esposa com o mesmo respeito que devotam às outras (suponho que nenhum). A história vem contada no Ynet.news e no El Mundo. Aqui dá-se conta de que a medida não é bem vista em todos os sectores. Alguns comités de mulheres em Gaza contestam a promoção da poligamia e outros temem que os subsídios vão parar apenas ao círculo dos apoiantes do Hamas.

terça-feira, março 17

Siento hermosa / I feel pretty




Na versão bilingue de West Side Story recentemente estreada em Nova York, com novas letras de Lin-Manuel Miranda, o verbo "sentir" foi despromovido a irreflexivo. Um sacrifício compreensível da gramática à métrica. Este musical resiste a tudo e a voz magnífica de Josefina Scaglione faria esquecer mil sílabas perdidas.

domingo, março 15

Carmen, de Recife

O envolvimento do alto clero brasileiro no caso da menina violada, vindo gritar excomunhão alto e bom som, tem sido mais um bom pretexto para os ataques dos que que gostam de mostrar a Igreja tão perigosa como nos "tempos da Inquisição" (sempre invocados nestas ocasiões). Ainda hoje, num programa de conversa transmitido pela Antena 2, Pedro Almeida Vieira recitava essa conhecida audio-file (cassete já não soa bem nestes dias). Que não se admirava, vindo de uma organização que patrocinara os autos de fé. Que não tinha havido a a preocupação de excomungar o violador. E por aí.

É curioso como estas vozes lamentam a não aplicação a alguns de um "castigo" que abominam e ao qual não atribuem qualquer sentido. Como parecem ignorar que a Inquisição foi o que foi porque o poder político na Europa precisou de Roma durante muito tempo para se afirmar e dela tirou o partido que pôde. Que o cristianismo continha já os mecanismos que permitiram separar Igreja e estado. Que nas nossas sociedades muito laicas e civilizadas, quando ainda há anos o aborto era criminalizado, também nunca havia réus, mas apenas rés.

A Igreja é conduzida por um clero mal esclarecido e inculto, que muitas vezes nem se apercebe da superioridade da mensagem que devia sublinhar e defender, e frequentemente reduz a sua actuação à de uma burocracia acéfala.

Mas também certo é que a Igreja não se reduz a vozes incompetentes. O arcebispo Rino Fisichella insurgiu-se hoje no Osservatore Romano em termos muito claros contra a atitude da Igreja brasileira ao excomungar Carmen e os médicos.

Carmen doveva essere in primo luogo difesa, abbracciata, accarezzata con dolcezza per farle sentire che eravamo tutti con lei; tutti, senza distinzione alcuna. Prima di pensare alla scomunica era necessario e urgente salvaguardare la sua vita innocente e riportarla a un livello di umanità di cui noi uomini di Chiesa dovremmo essere esperti annunciatori e maestri. Così non è stato e, purtroppo, ne risente la credibilità del nostro insegnamento che appare agli occhi di tanti come insensibile, incomprensibile e privo di misericordia.

Carmen, stiamo dalla tua parte. Condividiamo con te la sofferenza che hai provato, vorremmo fare di tutto per restituirti la dignità di cui sei stata privata e l'amore di cui avrai ancora più bisogno. Sono altri che meritano la scomunica e il nostro perdono, non quanti ti hanno permesso di vivere e ti aiuteranno a recuperare la speranza e la fiducia. Nonostante la presenza del male e la cattiveria di molti.

As estreias da semana - num cinema muito longe de si

Pânico na net

Hugh viaja frequentemente em trabalho para uma agência estatal. Anna, a mulher, fica alerta quando começa a senti-lo distante. Confrontando movimentos da conta bancária com um recibo de hotel que Hugh esquece no bolso de um casaco, identifica o local onde o marido terá encontros com uma possível amante, acabando por segui-lo para o espiar. Descobre que a rival é uma sua amiga de juventude, Silvia, que se mudara para Nova York. Obtém fotos e contactos de Silvia e começa a divulgá-los em chats eróticos, fazendo-se passar por ela... Tudo se complica quando começa a teclar com um esquizofrénico que a cerca e descobre a sua verdadeira identidade, mudando definitivamente o curso da sua vida.


Nem ama nem sai de cima

Ken, advogado de um grande banco, pai de família e profissional de sucesso, é assediado durante meses com mensagens de telemóvel de uma desconhecida que lhe marca encontros e durante muito tempo não aparece. Quando finalmente consegue um único encontro com Julie, a sua suposta perseguidora, fica enfeitiçado, mas ela volta a desaparecer sem lhe ter revelado os propósitos. Ken continua a receber mensagens mas Julie esquiva-se sempre a novo encontro... Com a ajuda de uma antiga amante que trabalha na operadora telefónica descobre que as mensagens eram enviadas de um telemóvel da sua própria mulher... esta descoberta vai mudar para sempre o curso da sua vida.


Até ao tutano

Susana e Jorge gostariam de ter casa e filhos mas sobrevivem com baixos salários e trabalho incerto, o que os obriga a continuar a viver com os pais. Susana trabalha como caixa no Jumbo e vive com a mãe alcoólica, Jorge trabalha numa lavagem de carros e mora com a mãe e o padrasto. Uma noite, ao fazer amor com a namorada, Jorge toma consciência de que ela geme como nenhuma outra que já conhecera e convence-a a fazer bandas sonoras para uma produtora de dvds pornográficos. A princípio a ideia deixa Susana chocada, mas Jorge não desiste de a impelir para o mundo do porno. Os filmes com os gemidos de Susana tornam-se um sucesso comercial e chegam a circular em formato CD. Susana engravida mas os problemas começam quando ela recebe novas propostas e Jorge perde o controlo da situação... A partir daí as suas vidas não voltarão a ser as mesmas.

quinta-feira, março 12

Os dias difíceis do TPI

Há quatro dias, o Yemen Times publicava uma lista de apoiantes do presidente do Sudão, Al-Bashir, contra quem foi emitida ordem de prisão pelo Tribunal Penal Internacional. A lista inclui o Irão, a Síria, o Hamas, a Jihad Islâmica da Palestina, a União Africana, a Liga Árabe e a Organização da Conferência Islâmica. E também a Venezuela e o ICC Watch. Alex de Waal argumenta que as coisas podem não ser tão simples como parecem, que o TPI pode estar a atravessar um momento crítico e que o procurador Luis Moreno Ocampo pode estar a ser conduzido por uma errância de projecção mediática que não acautela suficientemente os interesses da paz e das vítimas.

quinta-feira, março 5

Civilizações: ensaios sobre a cegueira

Há cinco anos, a jovem Ameneh Bahrami estava na universidade e tinha um pretendente que rejeitou. O rapaz lançou-lhe ácido à cara, desfigurando-a e causando-lhe cegueira. Actualmente Ameneh vive em Barcelona, tendo depois de várias operações recuperado alguma visão, que voltou a perder devido ao surgimento de uma infecção fúngica. O governo espanhol paga-lhe o aluguer de uma casa.

Tudo isto Ameneh Bahrami contou ao ABC em discurso directo. Isto e mais. O seu sofrimento todos estes anos, e o seu alívio ao conhecer a sentença do tribunal, condenando o agressor a ser vítima do mesmo crime, o que quer dizer condenado à cegueira. E os obstáculos que transpôs para conseguir que a sentença o condenasse à cegueira dos dois olhos. Inicialmente apenas a inutilização de um olho esteve prevista, pois de acordo com a lei islâmica dois olhos de mulher valem só um olho de homem. Na execução da sentença, que ocorrerá quando Ameneh Bahrami regressar ao seu país, o condenado será anestesiado, pelo que não sofrerá dor física. Não poderá ser a própria Ameneh Bahrami a executora por se encontrar cega, mas garante que não lhe faltam voluntários que a substituam.

quinta-feira, fevereiro 26

domingo, janeiro 18

Há gaz em Haifa

Se esta notícia se confirma, ainda vamos ver surgir muitos novos amigos de Israel.

O triunfo de Hitler

É frequente nos meios de comunicação e na opinião pública ocidental sustentar a comparação dos actos de guerra israelitas com actos nazis. Como bem notou David Aaronovitch no Times, comparar Gaza com o ghetto de Varsóvia denota uma imensa falta de sentido da proporcionalidade: a equiparação só teria sentido com o assassinato intencional de meio milhão de palestinianos. De resto, tendo continuado o lançamento de rockets a partir de Gaza durante as últimas semanas, até se poderia ser levado a pensar que a ofensiva israelita era insuficiente.

As reacções a este conflito mostram um mundo feio e deprimente. "Élites" ocidentais que se julgam muito "progres" colam-se sem pudor a um movimento terrorista e retrógrado que só de olhos bem fechados se pode encarar como representante do "povo palestiniano", e que tem na sua carta de constituição o propósito de destruição de Israel. Manifestações das várias esquerdas nas cidades europeias e americanas são cavalgadas, obviamente, por sectores islâmicos; mas, curiosamente, não parecem ter sido estes a convocar a presente fornada de protestos. Não houve notícias de carros incendiados pelo mundo muçulmano como quando do episódio das caricaturas. Eles têm direito às suas prioridades, e com toda a evidência preocupa-os mais um cartoon sobre o profeta do que a sorte dos tais palestinianos. De resto, não têm que se preocupar, porque os idiotas úteis fazem o serviço por eles.

No meio de tudo isto, não são só os israelitas que estão sós. Os palestinianos estão-no igualmente, e para já em situação de catástrofe. Usadas famílias civis, crianças, escolas e hospitais como escudo, ninguém na verdade tem pena deles. Os bem-pensantes ocidentais, no fundo, apenas encontraram mais uma excelente ocasião para exibir sem sombra de vergonha o ancestral ódio ao judeu que parece habitar-nos. Uns dias atrás, um deputado socialista em Amsterdão fazia o resumo do que outros pensam, gritando num comício "judeus para o gás" (rimando com Hamas). Demorou mais de sessenta anos, mas Hitler acabou por ser compreendido.