terça-feira, julho 8

O mistério dos exames

O exame de Matemática do 12º ano foi muito fácil, o de Português não tanto. O assunto é interessante porque parece jogar a favor do Ministério da Educação e do GAVE, fornecendo-lhes um argumento para desmentir os que os acusam de promover o facilitismo. No entanto, mesmo descontando o problema da ambiguidade de uma das questões do exame de Português, olhando para os dois testes fico com uma impressão diferente.

O facto que me parece relevante é que, com o actual figurino dos testes, a avaliação em Matemática tornou-se mais fácil de falsificar. O carácter unívoco das respostas e a sua redutibilidade a um pequeno número de "esquemas" permite, com poucos conhecimentos e apenas um pouco de habilidade, uma dose de sucesso razoável, desde que as questões postas se mantenham num nível bastante elementar. Quando o Ministério diz que está a avaliar estas 21 competências

• Uso correcto do vocabulário específico da Matemática;
• Utilização e interpretação da simbologia da Matemática;
• Utilização de noções de lógica indispensáveis à clarificação de conceitos;
• Domínio correcto do cálculo em R e em C, operando com expressões racionais, irracionais,
exponenciais, logarítmicas e trigonométricas;
• Conhecimento dos conceitos de continuidade, derivadas e limites;
• Desenvolvimento de raciocínios demonstrativos, usando métodos adequados;
• Desenvolvimento de raciocínios demonstrativos, a partir da Axiomática das Probabilidades;
• Resolução de problemas envolvendo cálculo de probabilidades;
• Resolução de problemas de contagem;
• Resolução de problemas no contexto das disciplinas de Matemática, de Físico-Química, de
Economia e de Ciências Naturais;
• Resolução algébrica, numérica e gráfica de equações, inequações e sistemas;
• Selecção de estratégias de resolução de problemas;
• Formulação de hipóteses e previsão de resultados;
• Análise de situações da vida real (em casos simples), usando modelos matemáticos que
permitam a sua interpretação e a sua resolução;
• Interpretação e crítica dos resultados no contexto do problema;
• Interpretação e resolução de problemas, recorrendo a funções e aos seus gráficos, por via
intuitiva ou por via analítica, e usando a calculadora gráfica;
• Aplicação dos conhecimentos de Análise Infinitesimal no estudo de funções reais de
variável real;
• Relacionação de conceitos da Matemática;
• Expressão do mesmo conceito em diferentes formas ou linguagens;
• Apresentação dos textos de forma clara e organizada;
• Comunicação de conceitos, raciocínios e ideias, com clareza e rigor lógico.


está a dar-nos música para os ouvidos. Em contrapartida, enquanto nos exames de Português se valorizar ortografia e sintaxe, não será possível obter uma boa classificação sem um conhecimento mínimo da estrutura da língua. Reduzida a preparação em Matemática a testes-tipo que se podem resolver sem domínio das principais características da disciplina (o rigor, a ampla conexão lógica que torna os factos compreensíveis a partir de outros factos), caberá ao Português o papel de seleccionar quem ainda entende alguma estrutura de alguma coisa.

A acção persistente dos ministérios de educação nas últimas décadas favoreceu a transformação da disciplina de Matemática numa colecção de "unidades" desconexas mas fáceis de "estudar para exame". No futuro próximo, as Universidades terão de seleccionar os alunos de cursos técnicos e científicos pela nota de Português.

Curiosidades

Operações de mudança de sexo são financiadas pelos sistemas estatais de saúde no Irão, em Cuba e, bem aqui ao lado, também na Andaluzia e Extremadura.

segunda-feira, julho 7

Ainda a libertação de Ingrid

Depois de a Radio Suisse Romande ter noticiado que um vultuoso resgate seria a justificação para a libertação Ingrid Betancourt, o ministro da defesa colombiano afirma que os 500 mil dólares teriam sido entregues por um intermediário suiço. Ou que, pelo menos, esse senhor tem de explicar por que razão aparece no computador de Reyes, onde está também indicado o local onde o dinheiro estava escondido. A notícia tem hoje destaque na Radio France Internationale. A história não terminou.

(Mais desenvolvimentos aqui)

domingo, julho 6

O preconceito guei

Ontem em Madrid, como há uma semana em Lisboa, houve desfiles comemorativos do chamado orgulho guei. O acontecimento madrileno está transformado numa instituição. Para além de grande adesão popular houve presença de ministra e secretário de estado do governo, dirigentes da Izquierda Unida, das Comisiones Obreras e da UGT.

Este ano, por decisão da internacional que gere o movimento, o lema específico foi o da visibilidade lésbica. Além da gratuidade do desígnio (porque não pedir a visibilidade de imensas minorias como a dos sado-masoquistas ou a dos podólatras?) é curioso ver que a "plataforma reivindicativa" apanhou o comboio da laicização tendo sempre como alvo a Igreja Católica. Nem uma palavra sobre o Islão, em crescimento em Espanha, nem sobre as amizades perigosas dos actuais dirigentes políticos. As mulheres podem continuar invisíveis se for por respeito ao véu. É fácil pedir a visibilidade das lésbicas quando se ignoram problemas bem mais sérios e quando o silêncio sobre o que se passa noutros países é total.

Além de tudo isto, sempre tive a impressão de que as lésbicas são visíveis. Uma vez vi duas a comer sardinhas assadas numa esplanada de Belém e os talheres não se suspendiam nem flutuavam no ar, como nos filmes com efeitos especiais.

Calma, calma, nesta última frase não estava a falar a sério, mas também os reivindicadores profissionais que este ano fingiam interessar-se pelas lésbicas não falam a sério nunca. Interessados apenas em garantir apoio dos estados às cúpulas das suas organizações, querem lá saber do efeito devastador que as medidas que propõem poderia ter sobre pessoas cuja defesa pretendem assumir. Pouco lhes interessa que a visibilidade que cada um quer dar de si mesmo pertence à esfera do estritamente pessoal.

As paradas guei podem até ser acontecimentos divertidos, mas estão afectadas por dois aspectos perniciosos: por um lado são cavalgadas por oportunistas políticos, e por outro causam danos aos que não se revêem nos seus auto-denominados defensores e que acabam por ser prejudicados por certa imagem negativa de um colectivo que não existe.

Falam de orgulho mas trata-se de preconceitos em série: de que existe uma "identidade" que cabe na sigla LGBT, de que os indivíduos devem exibir os seus gostos particulares, ainda por cima em matéria de sexo, como quem exibe um autocolante.

A igualdade só se atinge quando não for necessário falar da diferença, quanto mais com espalhafato.

sábado, julho 5

Matemática: média de 12,5 no exame nacional

Por este andar, não deve vir longe o dia em que até a nota mínima acabe por ultrapassar a máxima.

quinta-feira, julho 3

Ideia para um logotipo

FARCismo nunca mais!

Setas para baixo


Seul Chavez a la capacité d'atteindre les FARC




Ainda não vi a edição do PÚBLICO hoje, mas com certeza a coluna da última página com setas para baixo não deve dar vazão aos candidatos: todos os que acreditaram nas virtudes da negociação e do suborno de terroristas com os cofres cheios de dinheiro da droga.

sábado, junho 28

As palavras e os dias

A ministra espanhola da Igualdade, Bibiana Aído, tem-se notabilizado por deslizes linguísticos (criação do vocábulo "membras"...) e anúncios de iniciativas bizarras (uma linha telefónica para esclarecer homens com propensão para a violência sobre mulheres) .

Na passada quarta feira, porém, Aído fez afirmações perfeitamente razoáveis: que o véu islâmico é um sinal de discriminação das mulheres, que não há razão para que sejam apenas as mulheres a carregar o peso dos símbolos de um passado ou de uma cultura, que nem todas as tradições têm que ser respeitadas. As organizações muçulmanas de Espanha responderam, furiosas, que em Espanha há mais violência de género (deliciosa a adopção por muçulmanos desta linguagem) do que em países islâmicos.

Na quinta feira a vice presidente, De la Vega, veio pôr as coisas no seu lugar, afirmando que o executivo espanhol respeita o véu islâmico.

Ontem, Bibiana vem pôr-se a si própria no seu lugar (de objecto decorativo do governo) declarando que tem todo o respeito pelo véu islâmico.

quinta-feira, junho 26

Redacções

Utentes do tribunal de Santa Maria da Feira parecem ter protestado contra as deficientes instalações agredindo juízes. É o que deduzo desta notícia, onde se lê

Em entrevista a Anibal Rebelo, Conde Rodrigues diz que o que aconteceu foi grave e lamenta o sucedido, mas garante as novas instalações vão estar concluídas, tal como prometido.

Ou é uma nova maneira de reivindicar, que parece ter efeitos imediatos, ou uma nova maneira de redigir, que subverte com audácia o nexo convencional.

Espanha e os Símios

A hipocrisia dos partidos esquerdóides e esverdeados não tem limites. Segundo notícia do Público (Espanha) os símios vão deixar de poder ganhar a vida em Espanha actuando em circos e na televisão. Circos e televisão ficam assim reservados a homens, mulheres e crianças. E a este proteccionismo indecente chamam equiparação dos grandes símios aos humanos em termos de direitos! Espero que a ministra da Igualdade se apresse a intervir. Ficamos a pensar que o que preocupa estes defensores dos direitos de símios é o desembarque nas costas espanholas de chimpanzés e orangotangos sem habilitações profissionais. A mensagem é clara: macaco que queira fazer carreira em Espanha, só com licenciatura ou mestrado.

sexta-feira, junho 20

Exames: a fatal atracção pela poesia

Sempre me custou a compreender a atracção pela poesia nos exames de Português. É que costuma ser logo poesia de alto gabarito. E a verdade é que na prosa também não se faz por menos. Estranha propensão para Camões, Pessoa, Saramago na terra onde tão facilmente se ignora a diferença entre à e ou entre mostras-te e mostraste, para já não falar de esotéricos modos verbais condicionais ou conjuntivos (ainda se dirá assim?).

Esta atracção fatal deve ser uma doença moderna que afecta os burocratas da educação por todo o mundo civilizado. O caso mais cómico sucedeu em Itália há dois dias, onde no exame de Italiano do final do secundário saiu o poema do Nobel Montale:


Ripenso il tuo sorriso, ed è per me un'acqua limpida
scorta per avventura tra le petraie d'un greto,
esiguo specchio in cui guardi un'ellera i suoi corimbi;
e su tutto l'abbraccio d'un bianco cielo quieto.

Codesto è il mio ricordo; non saprei dire, o lontano,
se dal tuo volto s'esprime libera un'anima ingenua,
o vero tu sei dei raminghi che il male del mondo estenua
e recano il loro soffrire con sé come un talismano.

Ma questo posso dirti, che la tua pensata effigie
sommerge i crucci estrosi in un'ondatta di calma,
e che il tuo aspetto s'insinua nella mia memoria grigia
schietto come la cima d'una giovinetta palma...

que na tradução de José Manuel de Vasconcelos (Assírio & Alvim) ficou assim:

Volto a pensar no teu sorriso, e ele é para mim uma água límpida
descoberta por acaso entre os seixos de um leito,
exíguo espelho onde olhas uma hera e os seus corimbos;
e por cima o abraço de um branco céu perfeito.

Esta é a minha recordação; não sei dizer, distância vã,
se no teu rosto se exprime livremente uma alma ingénua,
ou se és um fugitivo que o mal do mundo estenua
levando consigo o sofrimento como um talismã.

Mas isto posso dizer-te, que a tua pensada efígie
submerge os caprichosos desgostos numa onda rasteira,
e que a tua imagem se insinua na minha memória gris
simples como a copa de uma jovem palmeira...

No exame, o testinho era comentado com incidência na visão da realidade pelo poeta, particularmente na visão "da figura feminina e do seu papel salvífico e apaziguante". Os fabricantes do exame não se deram ao trabalho de reparar que non saprei dire, o lontano só poderia ser uma frase dedicada a um homem. É conhecido que o poema evoca o bailarino Boris Kniaseff, por quem Montale manteve uma admiração ambígua. O La Stampa comenta, não percebo se com alívio ou com sarcasmo, que não há aqui nenhum problema porque, tendo sido Kniaseff casado com uma bailarina, não se compreenderia que os peritos do educacional ministério estivessem a querer ocultar algum aspecto embaraçoso da vida do poeta.

A ministra da educação, entretanto, demitiu a responsável da fábrica de exames.

Uma verdade inconveniente, a ópera (de novo)

quarta-feira, junho 18

The End



Passou por aqui, no século XX, e deixou-nos algumas das mais belas cenas de bailado no cinema. Apagou-se ontem, em Los Angeles.

Simetrias cerebrais e orientação sexual

Num artigo publicado recentemente nos Proceedings of the National Academy of Sciences, Ivanka Savic e Per Lindström sustentam ter encontrado relação entre simetrias cerebrais e orientação sexual dos indivíduos. Basicamente, existem semelhanças entre, por um lado, homens heterossexuais e mulheres homossexuais e, por outro, entre homens homossexuais e mulheres heterossexuais. No primeiro caso há ligeira assimetria, que no segundo caso está ausente. Os autores referem ter encontrado também semelhanças para os mesmos grupos a nível de conectividade da amígdala. No resumo do artigo escrevem: The results cannot be primarily ascribed to learned effects, and they suggest a linkage to neurobiological entities.

Aparentemente, o estudo incidiu sobre quatro categorias "estáveis" de orientação sexual. Haverá algo a dizer sobre os indivíduos bissexuais de gradação variável, que devem representar grupos numericamente significativos? E se não há, como encaixar em relação a eles estes resultados? Quanto mais sabemos, mais fica por explicar.

Esta notícia deu origem a discussões interessantes aqui, aqui e aqui.

sexta-feira, junho 13

Zaragoza2


Zaragoza


Igualdade?

A ministra da Igualdade, no país aqui ao lado, tem-se esforçado por manter o bom humor e estimular a criatividade dos cidadãos. Depois do anúncio de um telefone para homens a fim de desenvolver novos modelos de masculinidade e de tentar impingir à Real Academia Espanhola o neologismo progressista miembras (membras), tentou justificar-se com o facto de alguns anglicismos (?), como guay (que actualmente significa cool, baril) já terem entrada no dicionário.

Das muitas reacções do pagode, algumas das quais se podem ler aqui, as mais inocentes são as dos que lhe chamam ministra de IGUAL DA (tanto faz).

Igualdade? A distinguir membros e membras, acentuar a diferença é o que a ideologia feminista está a fazer. Se a ministra quiser mesmo fazer jus ao nome da sua pasta, a sua batalha será pelo fim de todas as declinações de género. Ou, talvez mais simplesmente, impor o inglês como língua oficial em Espanha, acabando ao mesmo tempo com questiúnculas linguísticas autonómicas. Wow! Qué guay!

Guantánamo e as setas

Nas setinhas da última página do PÚBLICO de hoje, Raul Castro está em alta, por ter descoberto que pode haver vantagem em introduzir diferenciação nos salários. Depois de permitir a venda de leitores de dvd e computadores, isto é obra. Se não mexemos rapidamente na legislação laboral, a ilha ainda nos ultrapassa pela direita a curto prazo.

A mesma edição chama à primeira página o escândalo dos prisioneiros de Guantánamo, com uma foto onde manifestantes empunham cartazes com uns nomes árabes. (Claro que nas mesmas setinhas aparece Bush em baixa, mas referir isto é pleonasmo do qual peço desculpa.) De outra Guantánamo, onde está preso em condições terríveis Abel López Pérez por ofensas a Fidel, não se fala. À semelhança dos vários prisioneiros por delitos de consciência e opinião, que escandalizam os jornalistas em muito menor escala. Raúl pode continuar, sem sobressaltos, a escalada da última página do PÚBLICO.

terça-feira, junho 10

O dia do traço identitário

O Fernando Rosas e outros irritados com o lapso de Cavaco e no Chiado há uma estátua de um gajo que escreveu isto:

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memoria em nós do instincto teu.
Nação porque reincarnaste,
Povo porque resuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste –
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquella fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada

"Raça" tem uma conotação política antipática no antigo nome do dia 10 de junho. As palavras adquirem maldição por via das bocas que as pronunciaram. Os tempos presentes inventaram outras maneiras, mais suaves, de reconhecer que não somos meros clones uns dos outros. Quem enche o discurso com etnicidade, traço identitário, autenticidade, fica até muito bem visto pelo cânone do gosto contemporâneo.

O novo regime rebaptizou a data com uma designação anódina. O 10 de junho é simplesmente um feriado que cai bem, sobretudo se está bom tempo. Chamar-lhe dia do traço identitário só iria piorar as coisas.

Nada disto tem a ver com o lapso. Quando uma pessoa envelhece e está sujeita a um ritmo de vida esgotante, e em que a toda a hora lhe fazem perguntas, facilmente se sujeita às traições da memória: falando de improviso, recorda mais facilmente um nome simples aprendido na infância do que um nome improvável a pingar artificialidade. Cavaco precisa de repouso.

segunda-feira, junho 9

Una Scomoda Verità

O Falta de Tempo estreia-se na ópera. Sabendo que o Scala encomendou a Giorgio Battistelli a versão lírica da Inconvenient Truth para a temporada de 2011, quero deixar aqui um modesto contributo. Proponho que Al Gore tenha o seu Leporello com a correspondente ária do catálogo:

Signori, il catalogo è questo
Dei disastri che ha visto il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt'io;
Osservate, leggete con me.
In Europa seicento e quaranta;
In America duecento e trentuno;
Cento in Birmania, nell' Artico novantuno;
Ma in Indonesia son già mille e tre.
V'han fra questi uragani,
grandi pioggie e disgeli,
Tuoni, lampi, siccità,
inondazioni, sommersioni.
V'han disastri d'ogni grado,
D'ogni forma e gravità.

Não cobro nada, embora fosse agradável que Battistelli incluisse um agradecimento no programa de estreia. De resto, nada como citar os clássicos para valorizar uma obra de arte, sobretudo quando nos confrontamos com escassez de meios e de talento.

Quanto ao final, esperemos até 2011 para decidir qual o epílogo com mais impacto: Al Gore a sucumbir sob uma onda de calor ou uma vaga de frio polar.

sábado, junho 7

Repondo a verdade sobre a Europass

Ao contrário do que se lê no PÚBLICO de hoje (p. 4), se o diâmetro é 33,93 cm, o perímetro da circunferência da Europass será qualquer coisa entre 106,57 cm e 106,64 cm.

sexta-feira, junho 6

Questão de moral II

Que bom haver gente com certezas. A dissolução judicial do casamento de um par muçulmano em Lille continua a levantar ondas. Um grupo de 150 deputados de várias tendências políticas do Parlamento Europeu toma posição:

"Nous signataires, considérons que contrairement à la décision du tribunal de grande instance de Lille, la virginité d'une femme n'est pas une qualité essentielle de la personne. Pas plus d'ailleurs que pour un homme. Il s’agit là d’un précédent dangereux qui ne peut que conforter certains fondamentalistes dans leur combat archaïque alors que justement l’un des remparts contre ce fanatisme devrait être le droit."

Em que fundamentalismos estarão a pensar? Atendendo a que aquelas pessoas não gostam de se considerar "racistas", não podiam deixar o fundamentalismo islâmico sozinho no pódio. Que plural tão conveniente!

quarta-feira, junho 4

Fascismo?

Tornou-se comum usar o substandjectivo "fascista" ou o substantivo "fascismo" como simples etiquetas depreciativas que aspiram a encontrar eco fácil e ampla adesão ao que se diz. Uma das espécies mais abundante na Terra, como se sabe, é a dos anti-fascistas. Eles afirmam-se e aumentam de forma exponencial sob acção dos mais inesperados estímulos. A mais recente manifestação do fenómeno, enre nós, é a declaração do Ministro da Ciência e do Ensino Superior ao classificar os comportamentos dos praxistas universitários. Francamente, acho que o uso da palavra é demagógico. Uns brutos, estúpidos, é o que eles são, simplesmente, mas contam com a conivência e até a aprovação de muita gente. Que tempo este em que é mais aceitável chamar a alguém fascista do que estúpido. Só pode ser por conveniência de alimentar o mito do papão útil. Fascismo é uma filosofia política. A triste e simples estupidez não se interessa por ela nem por outras.

segunda-feira, junho 2

sábado, maio 31

Questão de moral

Um tribunal de Lille dissolveu o casamento de um casal muçulmano a pedido do marido. Queixou-se ele de ter sido enganado ao descobrir que a mulher não era virgem. Um imam de Lille apressou-se a dizer que nada disto tem a ver com a religião: o Corão não exige a virgindade no casamento. O que o tribunal aplicou, afinal, foi uma lei francesa do século 19, que prevê a "mentira sobre qualidades essenciais" como causa suficiente para invalidar um casamento.

Diversas vozes de indivíduos e associações se fizeram ouvir, escandalizadas. A ministra Rachida Dati é mais moderada e observa que a decisão do tribunal acabou, afinal, por poupar a mulher ao calvário de um casamento condenado.

O mais provável é que Rachida Dati tenha razão. Ao mesmo tempo é curioso como na França laica uma lei saída do tempo da revolução acaba por ser aplicada - possivelmente de modo formalmente correcto - num julgamento envolvendo muçulmanos. Quantas vezes terá a lei sido utilizada, recentemente, a casais europeus?

quinta-feira, maio 29

Jesus Cristo: um olhar livre dos decadentes valores cristãos e ocidentais

O cineasta iraniano Nader Talebzadeh acaba de realizar um filme sobre Jesus Cristo tal como é visto a partir do Corão. Jesus é intrepretado pelo actor Ahmad Soleymaninia, que trabalhou nas instalações nucleares iranianas mas declara preferir o enriquecimento do espírito ao do urânio.

Das novidades propostas pelo filme destacam-se: Jesus não é filho de Deus; no final é Judas e não Jesus quem é crucificado; Jesus anuncia a vinda de Maomé.

As notícias não referem, mas eu gosto de imaginar os diálogos na cena da adúltera.

-Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante a cometer adultério.

-Porque me aborrecem com isso? Já sabem o que têm de fazer.

-Queremos ouvir as palavras da tua boca.

-Enterrem-na até ao pescoço e apedrejem-na até à morte. Cuidado com o tamanho das pedras: nem demasiado grandes, para não causar morte imediata, nem demasiado pequenas, para que os ferimentos não sejam apenas ligeiros. E não me voltem a chatear com esse assunto.

A versão de João, 8:4-11 deve ser considerada imoral e uma afronta às leis do Irão.

É pena que em Hollywood não haja o correspondente interesse em Maomé. Que superprodução divertida e ousada poderiam fazer.

quarta-feira, maio 28

Reconhecimento da falência do ensino público

Na coluna de Rui Tavares, no PÚBLICO de hoje:

As famílias que não têm dinheiro para comida (...), os idosos que não compram os remédios, os jovens que não podem pagar explicações (...) são pessoas a quem deixamos que aconteça o que não gostaríamos que nos acontecesse a nós.

(sublinhados meus)

terça-feira, maio 27

Palermo e Pesaro

Foi notícia ontem nos jornais italianos: o pai dá facada no braço direito e na cara do filho de 18 anos. O rapaz teve de ser socorrido no hospital. Os títulos batem todos na mesma tecla: filho gay. A história, no entanto, pode ser um pouco menos simples do que o título sugere.

Se o homem tivesse dado uma facada na mulher por questões de infidelidade, que adjectivo escolheriam os jornais para completar o título: "Homem fere a esposa ..."?

Há uns dias atrás, também em Itália, foi uma mãe que tentou ferir a filha de 16, a quem não conseguia convencer a acabar o namoro com outra rapariga. Na família de classe média baixa, em Pesaro, já vigiada pelos serviços sociais, a cena de violência ocorreu à hora do jantar.

Notícias como são cerejas no bolo para um nosso site educativo, onde pode ler-se
"Se sempre existiu homossexualidade nas sociedades humanas, poder-se-á perguntar porquê a reacção de rejeição tão veemente (em algumas sociedades, designadamente as ocidentais, repito, dado que esta questão é pacífica em muitas regiões do mundo)." Muitas regiões do mundo... parece-me que os autores deste texto chumbam em geografia.

domingo, maio 25

Serviço público

Pode-se consultar aqui os melhores horários para ir abastecer o depósito nas gasolineiras de hipermercados, entre 7 e 18 de junho.

sábado, maio 24

Informação grátis



Na banca do jornal, enquanto o dobro e ponho debaixo do braço e recebo o troco, aproveito para me actualizar, lendo capas de revistas.

Dizia lá que Cherme Brotero, ex-namorada de um futebolista de sucesso, cujo nome não fixei (só me lembro que bacalhau à Braz é o prato favorito dele) se viu forçada a fazer um implante mamário para sobreviver.

Fiquei a saber que Anabólica Eleutério, conhecida actriz de novelas, está a superar a temível doença: mas a crise de penfigo ainda não terminou. Felizmente tem tido o apoio do namorado, Perfídio Vitriólico, conhecido namorado de actrizes de novela.

Soube também que Roina Davos, conhecida apresentadora de tv, foi surpreendida com o seu antigo namorado durante uma ausência na Ásia Menor de Pilo Estroina, conhecido actual namorado de apresentadoras de tv.

Li ainda que Délio Fútil, conhecido membro do sector do jet set mais familiarizado com o uso de marretas de cinco quilos, vive com Reptiliano Fantasia.

Gostei de saber que Cartolina Sem Sal tem um novo namorado que a protege e parece que vai subscrever um novo livro sobre a nova fase da sua vida.

Hoje a Cassandra de Encastrar não era mencionada. Provavelmente atravessa um momento de felicidade e não tem nada de novo para vender às capas de revista.

sábado, maio 3

A "preocupação"

Cavaco está a ganhar a Sampaio. No Google surgem 299000 respostas a "Sampaio preocupado" e 443000 a "Cavaco preocupado". Deve ser função do PR, constitucionalmente prevista. Não sei se isso significa que o cidadão comum já não tem que se preocupar, visto que elegeu alguém para se preocupar por ele.

Há tempos listei aqui algumas das grandes preocupações de Sampaio:

futuro da EDP
finanças públicas
pobreza em Portugal
abstenção
o Alqueva
questões de saúde
autarquias
futuro do interior
impacto internacional da pedofilia
precaridade laboral
assimetrias de desenvolvimento
economia nacional
prisões portuguesas
jornalistas

É altura de fazer uma lista provisória das preocupações recentes de Cavaco:

criminalidade violenta em Portugal
despovoamento na Guarda
alheamento dos jovens
situação no Kosovo
relacionamento de Governos
obesidade infantil e juvenil
desemprego

Constatando-se que os problemas da primeira lista foram cabalmente resolvidos, podemos suspirar de alívio, pois estes também não deixarão de o ser, e depressa.

terça-feira, abril 29

Quem é incapaz de combater o carjacking...

ensina a combater o carjacking.

Se a ideia é fazermos o trabalho que competiria à polícia, porque não realizar formação dos cidadãos em matéria menos especializada, por exemplo preencher formulários de multas? Ao menos para isto até os advogados que sairam com piores notas das faculdades parecem ter competência.

sábado, abril 12

Noli me tangere



Os italianos estão a fazer menos sexo. Estão? Claudia Simonelli, professora associada em La Sapienza, fala de uma brutal queda do desejo: 40% dos casais não tem relações sexuais regulares e só 30% se declaram satisfeitos. Segundo a cientista, o futebol tem culpas, já que um desaire da equipa que habita o coração de cada homem arrasta consigo a perda do apetite sexual.

As coisas são, no entanto, mais complicadas, porque é significativa a procura de sexo pago, com prostitutas, ou companhias de ocasião encontradas na internet. E aumenta o número de homens que fotografa ou filma a esposa para a exibir na rede.

Calma, isto só se passa em Itália.

(Correggio, 1525, Museu do Prado.)

quarta-feira, março 26

O amor nos tempos de cólera em 139 minutos



O mais surpreendente neste mau filme é que não chega a aborrecer-nos. O segredo está na força do livro: mesmo em versão condensada, o encanto das palavras escritas por Garcia Márquez não consegue ser destruído. Apesar da péssima direcção, dos medíocres actores, do tom desajustado de tantas cenas e da pior maquilhagem de velhos e velhas que me lembro de ter visto no cinema, é bom recordar que o amor da alma é da cintura para cima e o do corpo é da cintura para baixo, e que o coração tem mais portas do que um hotel de putas.

Doença é quando um homem quiser

O DSM (5ª edição) está em preparação. O DSM é o Manual Estatístico e de Diagnóstico das Doenças Mentais, elaborado pela APA, American Psychiatric Association. Com muitas saídas e entradas, o DSM tem horror ao vazio. Agora, o Dr. Jerald Block vem defender, no American Journal of Psychiatry, que o vício da internet, e-mail e mensagens de texto deve ser considerado doença mental e incluído no DSM-V.

A homossexualidade já esteve na lista e foi retirada em 1973. Será necessária uma nova revolução de mentalidades para que se retire a estados naturais de tristeza e desgosto o estatuto de doença.

Claro que chamar "depressão" à tristeza tem vantagens óbvias para os Psis e para a indústria farmacêutica. A entrada da internet na lista tem para o Dr. Block ainda uma vantagem extra: ele é autor da patente de um artefacto que bloqueia o acesso à internet.

segunda-feira, março 24

O amor nos tempos do fisco

Hoje acordámos a saber que os nossos dirigentes vão apertar o crivo em torno de fotógrafos, floristas e restaurantes que trabalham para festas de casamento. Não me parece que estejam a raciocinar bem. Levantam um clamor enorme por bem pouca coisa. Dou-lhes uma sugestão gratuita e desinteressada. Pensem que ao longo de cada casamento pode haver dois ou três amantes de vários sexos a quem se oferecem prendas e jantares com alguma regularidade, sempre sem guardar recibo. Sim, nenhum esposo ou esposa no seu perfeito juízo se arriscaria a ouvir bocas do género: "o que é que andaste a comprar no Torres Joalheiros, se eu só faço anos daqui a seis meses?" ou "Hás-de explicar-me quem é que levaste a jantar ao Guincho no dia em que me disseste que tinhas uma reunião". Por isso, também não é com multibanco ou cartão de crédito que se fazem esses pagamentos, para não aparecerem de surpresa em extractos comprometedores. Há por isso aqui um vasto campo de intervenção. Não basta o levantamento universal do sigilo bancário. É necessário proibir a circulação de dinheiro em papel e conceder benefícios fiscais aos cidadãos que denunciem comportamentos suspeitos do outro membro do casal, a fim de se poder desencadear a investigação competente. Fisco e cônjuges traídos poderão dar as mãos no combate à evasão fiscal e ao adultério, dois pecados tenebrosos que tendem a encobrir-se.

sexta-feira, março 21

Sem título

O glorioso 9ºC

No teatro ou no cinema pedem-nos para desligar o telemóvel e de um modo geral o pedido é executado. Se por descuido algum toca, o dono costuma apressar-se a desligá-lo. Há uma boa razão para isto: habitualmente quem vai a um espectáculo está interessado em vê-lo.

Já o que se passa numa aula de escola secundária é completamente diferente. Até de acordo com as orientações metodológicas emanadas do Ministério da Educação, os alunos não são supostos interessar-se pela matéria, mas sim exibir "atitudes", "competências" (lista longa, para que lá caiba tudo) e procurar o seu bem estar afectivo ou emocional. Deste ponto de vista, se um aluno ou aluna esperar uma chamada ou sms do namorado ou namorada, privá-lo de a receber é, chamando as coisas pelos nomes, uma crueldade. Não sei se terá sido esse o caso na estorinha que ontem forneceu a uma escola do Porto o seu dia fama, mas poderá não andar longe disso. A ocorrência está longe de ser única, nem será com certeza a mais grave.

Alguns lamentam que a ministra da educação esteja calada sobre o caso: ela sabe que é melhor fazer do que falar. A avaliação dos professores posta em marcha vai apanhar nas suas malhas os professores cruéis e reticentes à pedagogia moderna. Sabendo que eles terão que ser pontuados, entre outras coisas, pelos items seguintes

Promoção de um clima favorável à aprendizagem, ao bem‐estar e ao desenvolvimento afectivo, emocional e social dos alunos

Concessão de iguais oportunidades de participação, promoção da integração dos alunos e da adopção de regras de convivência, colaboração e respeito

Disponibilidade para o atendimento e apoio aos alunos

Equilíbrio no exercício da autoridade e adequação das acções desenvolvidas para a manutenção da disciplina na sala de aula

Outro a estipular pelo Agrupamento /Escola não agrupada
,

podemos descansar. A partir de 2009, os incompetentes que não se habituaram a ouvir tocar um telemóvel na sala de aula que se acautelem. O amanhã é dos nonos-C.

domingo, março 16

As desculpas e a confissão

O que mais impressiona no caso Spitzer não é a contradição entre a conduta pública e os vícios privados. Disso está o mundo cheio, e apenas se torna história quando os intervenientes pertencem a partidos ou igrejas. Não, o que aflige é a auto imolação implícita no pedido de desculpas público, sobretudo o da esposa. É a aceitação do maior vexame: se Spitzer teve que gastar em prostitutas uma soma tão elevada, é porque como homem é uma verdadeira nódoa. A senhora Spitzer confessa assim, na ribalta, o fracasso rotundo da sua vida.

domingo, março 9

Avaliações




A ministra da educação tem a missão de reduzir o número global de professores e em particular o dos que ascendem aos escalões mais altos, porque o orçamento é limitado. Mas não basta controlar o número de titulares. Os factos sugerem uma interpretação: é necessário transformar a vida na escola num inferno para provocar a debandada dos que estão mais próximos da reforma e dos menos aptos para a competição. O processo de avaliação posto em marcha cumpre perfeitamente os objectivos.

Depois do horário alargado e das inúteis aulas de substituição (que obrigavam já a queimar tempo na escola, com poucas condições para o aproveitar eficazmente), as inúmeras reuniões e preenchimentos de “grelhas” indecifráveis são a gota de água que fez saltar a tampa aos professores. Não se trata apenas de serem “avaliados”, mas também de serem submetidos a uma tortura burocrática que lhes invade todo o tempo disponível ao mesmo tempo que parece tratá-los como idiotas.

Só com uma concentração mental de grande intensidade se conseguirá dar resposta ao inquérito que inclui, para cada docente, parâmetros com subtis cambiantes diferenciais que a própria linguagem se vê aflita para nomear. Exemplo:

-Correcção científico pedagógica e didáctica da planificação das actividades lectivas
-Adaptação da planificação e das estratégias de ensino e aprendizagem ao desenvolvimento das actividades lectivas
-Adequação das estratégias de ensino e aprendizagem aos conteúdos programáticos, ao nível etário e às aprendizagens anteriores dos alunos
-Cumprimento dos objectivos, orientações e programas das disciplinas ou áreas curriculares leccionadas
-Diversidade, adequação e correcção científico pedagógica das metodologias e recursos utilizados


A maioria destes parâmetros não existe senão como invenção estruturalista. Por isso, atribuir classificações de acordo com este modelo pode acabar por ter resultados tão significativos como classificar os professores pela altura ou o peso corporal.

Durante anos, os professores -- e as suas associações e sindicatos -- engoliram e aplicaram este paleio nos mais variados relatórios, sem fazerem escândalo. Claro que os que conseguiram manter a sanidade mental iam-se rindo. Desde os tempos da senhora Benavente, pelo menos, proliferaram parâmetros de inspiração semelhante, utilizados para mascarar os maus resultados na avaliação dos alunos. Agora como então, o ministério pede à Escola que finja avaliar os alunos e recomenda sob ameaças que as retenções devem ter um carácter excepcional. Só que agora o mesmo ministério resolveu avaliar os professores, recomendando que o sucesso seja excepcional. A brutal diferença está aqui.

Como efeito colateral, o método implantado veio tornar impossível ensinar, mas também já há muito tempo que não se pede aos professores que ensinem. Desprestigiados e humilhados pelo poder da 5 de Outubro, enfraquecidos perante os alunos quer por declarações públicas quer por normas aviltantes, usando a gíria dos burocratas, nem se trata propriamente de “professores”; foram transformados em “educadores”, uma síntese que inclui competências de ama-seca, psicólogo e bombo de uma festa qualquer para manter felizes os meninos. E em tempo de vacas magras há que reduzir os serviçais.

sexta-feira, março 7

Campanha orgásmica

Pedro Zerolo, secretário de Movimientos Sociais do PSOE, excita-se com extrema facilidade:

Quanta felicidade nos trouxe Zapatero nesta legislatura! Alguns de nós ainda não acabaram de ter orgasmo atrás de orgasmo! Eu nunca tinha tido tantos orgasmos! Primeiro os que me dá o meu marido e depois os que me dá Zapatero. Orgasmos democráticos!

Está a ser muito criticado: que é uma tirada de mau gosto, que em campanha não só não deixa de pensar em sexo como não respeita o próprio marido, etc. Eu acho que Zerolo se tornou um dissidente, uma infiltração de direita no partido. Está simplesmente a dizer, em forma encriptada: se queres ser bem fodido, vota PSOE.

quinta-feira, março 6

Curriculum e mentiras

Bernat Soria é ministro da saúde em Espanha e candidato a deputado por Alicante.

Parece que resolveu "inchar" o seu curriculum, o que tem motivado uma dicussão animada no seu blog e muitos outros sítios da rede. O caso foi levantado num blog do El Mundo e também em Libertad Digital.
Em resumo, Soria não fez até agora contraprova de que:
1) nunca foi decano da Faculdade de Medicina de Alicante.
2) não teve nenhum auto-exílio em Singapura, tendo apenas colaborado com a National University of Singapore por períodos curtos.
3) não teve colaboração científica com os dois reputados cientistas Erwin Neher e Bert Sackmann (Nobel conjunto em 1991).
4) não recebeu a medalha de ouro (que, de resto, não existe) da Real Academia de Medicina. Foi só nomeado membro correspondente da Real Academia em 1988.

O caso é bem sintomático da diferença de nível que separa Espanha e Portugal. Este "apanhado", ao menos, doutorou-se em Medicina em 1978 e é co-autor de muitas publicações científicas.

segunda-feira, fevereiro 25

O crepúsculo do falo

O símbolo tradicional das forças militares suecas, um leão ostensivamente masculino, acaba de ver os órgãos genitais removidos por pressão feminista. Está explicado neste vídeo. Parece que apesar de tudo deixaram passar a crina. Não deve ser descuido, mas promoção da imagem de um leão lésbico.

O PSOE, aqui ao nosso lado, promete no seu programa eleitoral uma "educación no discriminatoria, que rompa los actuales estereotipos de género"; "revisar y modificar el uso tradicional del masculino para representar a las mujeres en los textos educativos"; "incorporar a especialistas en coeducación e igualdad en los órganos responsables de la evaluación, investigación e innovación educativa y en los servicios de apoyo al profesorado". No futuro falar-se-á não de reivindicações de professores, mas sim de reivindicações de professores e professoras. A Real Academia provavelmente não vai ser entusiasta das pretendidas alterações: as constantes repetições para mencionar os dois sexos são simplesmente um estorvo deselegante.

domingo, fevereiro 24

quarta-feira, fevereiro 13

Inversões

Ontem, na Universidade de Santiago de Compostela, Maria San Gil, presidente do PP no País Basco, foi impedida de ter uma intervenção pública, após tentativa de agressão por umas dezenas de jovens inflamados. Chamaram-lhe fascista e terrorista e gritaram: Que a ETA te mate!

Maria San Gil deu a cara como testemunha presencial de um assassínio cometido pela ETA e há anos que não pode sair à rua sem escolta policial

MInistra da habitação deixa casa em estado lamentável

A ministra da habitação do governo espanhol, Maria Antonia Trujillo, deve ser uma selvagem que não sabe habitar uma casa. Pelas notícias, fico a imaginar que tenha abrigado porcos e galinhas no terraço e plantado alfaces na banheira e tomates no bidé. Ocupou um andar de 220 metros quadrados no centro de Madrid até Julho de 2007. Por razões de segurança, o ministro da justiça, Mariano Fernández-Bermejo, vai ter que se mudar para lá. (Há eleições em 9 de Março, um pormenor.) O estado do andar obrigou-o a obras de recuperação no valor de 250 mil euros, pagos pelo orçamento do ministério. As facturas mostram que, além de mobília e tapetes, a reparação do terraço e da casa de banho têm grande quota nos gastos. Parabéns a El Corte Inglés.

sábado, fevereiro 9

Las costumbres

Em Espanha como cá, os partidos "de direita" movem-se um pouco às cegas e sem saber bem o que hão-de propor. A argolada mais recente do PP em Espanha é a intenção de fazer os imigrantes aprender a língua e respeitar os costumes. Deixando já de lado saber o que é a língua espanhola e quem a respeita, não se percebe bem a que costumes se refere a medida anunciada. Jantar às 11 da noite? Dormir a sesta? Como a conversa do PP também fala do problema do véu para as mulheres, supõe-se que ele tem claramente em vista o sector muçulmano da imigração. Ora, em relação a esses o PP devia ter mais cuidado com o que diz, porque há um costume espanhol que os muçulmanos interiorizaram na perfeição: votar no PSOE.

Padrões de decência

O Supremo Tribunal do Nebraska reconheceu ontem que grelhar pessoas numa cadeira eléctrica é infligir-lhes uma "pena cruel e fora do comum". O Nebraska era o último estado a usar sistematicamente esta forma de tortura, que a partir de agora fica legalmente interdita. Os juízes afirmaram que o tribunal se viu compelido a reexaminar a questão devido à "subida dos padrões de decência". Reconhecem a tentação de infligir sofrimento a um criminoso, mas pensam que "uma sociedade civilizada deve castigar a crueldade sem a praticar".

Como a injecção letal também tem sido objecto de fortes críticas, deve haver já intensa pesquisa sobre métodos de execução indolor.

sexta-feira, fevereiro 8

É uma espécie de pessoa

Em todos os noticiários de rádio, tv, jornais e internet de ontem, falou-se do julgamento do rapaz acusado de causar a morte de Gisberto ou Gisberta. E como há cerca de um ano, das notícias dadas sobre os trágicos acontecimentos infere-se que Gisberta não é bem uma pessoa: é "transsexual", é mais adjectivo que nome.

Os media abraçam a moda politicamente correcta, exibem com desvelo o "traço identitário", promovem encobertamente o conceito de "crime de ódio". Os oportunistas que fingem defender "minorias" acham bem e os ingénuos vão atrás. Não lhes importa, ou ignoram, que a discriminação comece com aquela referência obsessiva.

Na verdade, ou estamos perante uma clara discriminação ou então, em todas as notícias de crime e tribunal deverá incluir-se a correspondente menção a respeito de vítimas e, já agora, também dos arguidos. O que é relevante neste caso deverá sê-lo noutros. Para melhor poder ajuizar, o povo anseia por saber se Carolina Salgado é hetero, se Valentim Loureiro, Bexiga ou os reitores ou vice-reitores da Independent eram lésbicas, quais as preferências sexuais do casal McCann, dos elementos do gang do multibanco e do segurança que eles assassinaram, etc. Jornalistas, mãos à obra. Preencham os espaços em branco. Queremos adjectivos!

terça-feira, fevereiro 5

Mas que as há...

Estes jornalistas continuam a cometer grosseiros erros de raciocínio. Da informação "não foi notado qualquer indício da passagem por Portugal desses elementos" retiram a conclusão em título: "autoridades de segurança portuguesas concluíram que Portugal não serviu de passagem para qualquer elemento da célula terrorista". Deve ser um efeito colateral do abaixamento de qualidade do ensino em geral, e da matemática em particular. É como se concluissem, a partir da ausência de indícios da existência de Deus, que Deus não existe. Eu também não creio em bruxas.

quarta-feira, janeiro 30

Explicador, precisa-se

Não sei se a substituição do ministro da saúde foi um passo acertado de Sócrates. De acordo com os críticos mais influentes, não se infere que seria imperioso demitir o ministro. O que fazia falta era contratar um Explicador. Vale mais pensar nisso desde já, porque a nova ministra sem Explicador vai patinar no mesmo lodo.

domingo, janeiro 27

Religiões

Espanha e Portugal reconheceram recentemente o estatuto de associação religiosa à seita da Cientologia. Está aberto o caminho para as novas religiões do milénio. Parece-me que será ainda mais fácil o caminho para outras com mais adeptos e não menor espiritualidade:

-lutadores contra o aquecimento global

-militantes anti-transgénicos

-vegetarianos e macrobióticos

-guevaristas

-saudosos da URSS

-socialistas em general (exceptuado o PS)

etc.

A avaliação

Começou o tortuoso processo de avaliação dos professores dos ensinos básico e secundário, provocando receios e desespero em muitos docentes.

Ora, parece-me que se trata de medos injustificados. A Doutora Conceição Castro Ramos, presidente do CCAP (Conselho Científico para a Avaliação dos Professores) tem posições muito claras sobre como deve ser feita uma avaliação. Pelo menos no caso dos estudantes:

ela defende uma pedagogia para todos e uma pedagogia aberta à vida e a necessidade de desenvolver os alunos em actividades viradas para o desenvolvimento de processos complexos de pensamento e diz que esta nova pedagogia não se coaduna com um sistema de avaliação concebido com ênfase noutros pressupostos.

Acrescenta que mudou o sistema - que se pretende flexível, não selectivo e eficaz;
mudou o carácter permissivo da reprovação, que deu lugar ao carácter excepcional da retenção, porque numa escola básica, que não é selectiva,a a repetência deve ser uma medida de último recurso;
foi introduzida a articulação da avaliação dos alunos com a avaliação do sistema de ensino (avaliação aferida);
a dualidade da certificação;
foi reforçada a função formativa da avaliação, o papel dos alunos e encarregados de educação no processo e o desenvolvimento do sistema de apoio e complementos educativos.
(Lido aqui.)

Por coerência com as suas ideias, a presidente do CCAP deverá propôr orientações para uma avaliação não selectiva e com certeza que a retenção em escalões inferiores vai ter um carácter absolutamente excepcional. A avaliação dos professores a que a senhora cientificamente preside só pode ser entendida na sua vertente formativa. Não há que entrar em pânico.

O difícil estado laico

O caso já não é novo, mas foi levantado há dias na Voz de Galicia: uma cadeia de matadouros vai produzir carne halal ou, em termos directos, vai abater animais por degolação e sem anestesia.

Ecologistas, defensores dos animais e alguns produtores protestam. O certo é que tudo se faz dentro de normas da UE, que permite estas práticas ao mesmo tempo que proíbe a matança tradicional do porco. Os governos muito ágeis na caça aos crucifixos e que se calam ruidosamente em casos como este não estão, afinal, muito preocupados com a laicidade. A guerra do estado aos símbolos religiosos só vale para os cultos em nome dos quais não há planos para fazer explodir comboios cheios de cidadãos.

sexta-feira, janeiro 25

Adivinhe quem é o ministro

Ontem à noite, a SIC-Notícias exibiu uma conversa, a que deu o nome de entrevista, entre um senhor chamado Manuhcher Mottaki e uma senhora de nome Rebeca Abecassis. Entre outras coisas curiosas, a senhora disse, a certa altura: "Vários países possuem armas nucleares. Porque não há-de o Irão tê-las?"

A SIC anunciara que, na "entrevista", o ministro dos negócios estrangeiros do Irão, Manuhcher Mottaki, falaria dos novos acordos com Portugal e explicaria a posição do Irão em relação à bomba nuclear.

Penso que se tratou de um lapso da SIC. Fiquei convencido de que o ministro iraniano se chama Rebeca Abecassis.

segunda-feira, janeiro 21

Pontos de vista



Jacqui Smith, secretária do governo britânico, foi a Peckham comprar um kebab. Peckham é uma zona degradada de Londres, e a senhora Smith quis apagar a gaffe cometida uns dias antes, quando afirmara ter medo de andar nas ruas de Londres à noite. Com a sua corajosa ida a Peckham tentou devolver a confiança às hostes.

A história, contada no Guardian, pouco adianta. O Daily Mail foi saber mais e a investigação resultou numa versão mais engraçada. A senhora Smith foi de facto comprar um kebab a Pekham, mas à hora do chá e com guarda-costas.

sexta-feira, janeiro 18

A educação falhada

http://br.youtube.com/watch?v=qLadV0T1Oa4

terça-feira, janeiro 15

À espera de guião

A greve dos argumentistas parece continuar a provocar danos colaterais. Depois da anulação do espectáculo dos globos de ouro, outro espectáculo é atingido: a assembleia da Aliança de Civilizações com Zapatero arranca só com três chefes de estado e sem Antonio Banderas, George Clooney e Angelina Jolie, ao contrário do que tinha sido anunciado.

Choque fiscal sectorial

Um deputado do BE reconhece, afinal, que o choque fiscal pode reanimar a economia. Depois de ter votado favoravelmente a proposta de António Costa para isentar de taxas municipais a organização do Rock in Rio, José Sá Fernandes afirma, segundo o PÚBLICO de hoje: Se a Câmara cobrasse as taxas não havia Rock in Rio. Pode inferir-se agora por que motivo não haverá muitas outras coisas.

quinta-feira, janeiro 10

A escolha ardilosa




No Casamento Ardiloso, Cervantes conta a história do alferes Campuzano, de quem Dona Estefânia de Caicedo se acerca exibindo a sua rica casa; Campuzano, por sua vez, exibe o seu ouro. Decidem juntar os trapinhos, cada um acreditando fazer bom negócio. Um dia bate à porta Dona Clementa, acompanhada de Lope Armendárez. Estefânia implora a Campuzano que é preciso sair rapidamente, pois prometera a Clementa, uma boa amiga, emprestar-lhe a casa para que ela pudesse conquistar Armendárez. Pedem abrigo em casa de outra amiga de Estefânia. Estefânia acaba por fugir com o ouro de Campuzano e um amante, enquanto a hospedeira explica a Campuzano que a casa onde tinha vivido com Estefânia pertencia de facto a Dona Clementa. Campuzano só tem um consolo para a sua amargura: é que o ouro que mostrara a Estefania, para a conquistar, era falso.

As comédias onde todos enganam todos são clássicos. Já no tempo de Cervantes não eram originais.

PS (e PSD, já agora): O ponto fraco tanto de Alverca como do Montijo é já terem aeroportos construídos.
(Fotos em http://www.pelicano.com.pt/zmapa.html)

quarta-feira, janeiro 9

A praga dos portadores de desculpas

Está a ser organizada uma missão de desagravo a Ahmadinejad: um grupo de professores da Universidade de Colúmbia vai a Teerão apresentar desculpas pelo modo como o presidente do Irão foi tratado na visita recente àquela universidade. São professores de história, antropologia, filosofia e estudos islâmicos e do Médio Oriente.

Havendo na mesma instituição vários grupos que se interessam pelo mistério da problemática gay-lésbica-bi-tri etc, não se compreende que sejam deixados de fora da prestimosa delegação. Tanta falta de curiosidade científica fica mal numa universidade. Perdem uma oportunidade única para estudar um país onde não há gays.

domingo, janeiro 6

Paradoxos

Os laicistas abrigados em governos socialistas e suas organizações apoiantes transformaram uma sensibilidade comum a várias camadas da sociedade numa atitude sectária e burocrática ao serviço das suas utopias no âmbito da engenharia social. Em Portugal o facto não se nota muito, mas nos países europeus com grande imigração islâmica eles têm o rabo de fora: não são na verdade pregadores da laicidade, mas sim pregadores anti-católicos ou anti-cristãos. Na verdade, não só evitam criticar as práticas retrógradas do Islão como surgem frequentemente associados a iniciativas de "diálogo" com os que pretendem destruir o nosso modo de vida à custa de sucessivas cedências.

Curiosa e paradoxalmente, talvez o substracto moral da cultura ocidental, com as suas raízes cristãs, nunca tenha estado tão viva como no caldo de cultura socialista, tal como ele chega ao homem comum. Amamos, compreendemos e perdoamos o outro, mesmo que ele nos queira aniquilar. Se nos agridem, cedemos a outra face. Detestamos os ricos, esses malvados a quem está vedado o reino dos céus, e em nome da bem-aventurança dos pobres e oprimidos continuamos a venerar utopias que trazem consigo ainda mais opressão. Mesmo para a piedade ecológica pós-moderna encontramos como referente o santo de Assis que agora não poderá dar o nome a escola alguma.

Os nossos antepassados medievais, esses brutos pouco respeitadores das culturas diferentes, eram certamente menos cristãos. Sem a beligerância dos cruzados e de alguns monarcas europeus, a Europa poderia ser actualmente um mundo de mesquitas em vez de catedrais, um mundo de submissão e de mulheres com o rosto tapado .

Infelizmente, há sinais de que podemos resvalar silenciosamente em direcção a esse mundo escuro e triste. Entretidos a autoflagelar-nos pelos nossos pecados e a oferecê-los de bandeja como justificativo de agressões consumadas ou em preparação, os sinais vão passando quase despercebidos. Em 2004, a Espanha votou de modo não condicionado? Não sei. Que em 2008 alguém enterrou para sempre um certo rali, é certo. O caso em si parece de impacto limitado, mas fica bem claro que o método funciona. Habituados a contemplar a realidade como paisagem estável, não valorizamos as pequenas mudanças. Fala-se de "vitória do terrorismo" a respeito do Dakar sem convicção de que se trata de um passo minúsculo até à verdadeira vitória: a nossa aniquilação. Vamos esperar cristãmente, sentados, pela coacção que se segue.

sexta-feira, janeiro 4

Pergunta


Hoje apetece parafrasear a pergunta de Santiago, o protagonista de uma das melhores novelas de Mário Vargas Llosa: Em que momento se terá fodido Portugal?

terça-feira, janeiro 1

O amor nos tempos de internet (14)


De regresso a Lisboa, parei para descansar na área de serviço de Grândola. Estava a sorver o café quando tocou o telemóvel: o Eduardo. “Pai, a mãe foi assaltada de esticão.” Pobre Margarida, pensei, já não bastava o azar que teve comigo.
Oh! Mas onde aconteceu isso?
A mãe e a Micky. Na rua do tio Ricardo. Almoçaram lá e iam entrar para o carro da Micky. Fugiram-lhes com as carteiras e arrancaram a pulseira à mãe.
Mas ela ficou mal?
Foi só o susto e um braço dorido, mas nada de cuidado. A desgraçada da Micky é que caiu ao chão e fez um hematoma na cabeça. Fui com ela ao hospital e acho que está sob controle.
A que horas foi isso?
Eram três e meia.
Mas como foi?
Dois tipos saíram de um carro, tiraram-lhes as malas e arrancaram logo no mesmo carro.
Já foram à polícia?
Eu vou agora com a mãe. Ela amanhã precisa do seguro do carro, ficou sem documentos.
Está bem, diz-lhe que não se preocupe, alguma coisa que for preciso eu trato logo de manhã.

Antes de voltar para o carro fui à casa de banho. Em frente do espelho, um homem alto e magro, aparentando ter mais ou menos a minha idade, chorava a soluços soltos. Perturbado com a minha entrada, baixou-se para o lavatório e começou a enxaguar o rosto e os olhos sob o jorro da torneira. Para minorar o efeito da minha intromissão, fechei-me num gabinete. Os soluços pararam logo e pouco depois ouvi o secador de mãos e o homem a sair. Saí também rapidamente e ainda vi o homem a entrar num Audi 8. Esperei que ele arrancasse e passasse diante do meu carro: no lugar do passageiro, uma mulher que me pareceu não ter mais que uns trinta anos gesticulava e discutia com ele aos berros. Entrei na auto-estrada atrás deles e por alguns minutos mantive-me atrás do Audi, intrigado e fascinado com o drama desconhecido de que tinha presenciado um sinal.

Porquê ou por quem teria chorado o homem? Que privação ou dor enorme lhe teria posto os olhos no estado em que o surpreendi no lavabo? Inevitavelmente, comparei-me com ele. Não me lembro de chorar mesmo depois do abandono pela Sofia, mas alguma coisa dentro de mim tinha passado por estados equivalentes aos olhos marejados do desconhecido. De modo diferente, mas igualmente dilacerante, tinha sofrido quando provoquei a minha separação da Margarida por causa da Sofia. Os momentos mais agudos já tinham passado para o lugar das memórias, mas a instabilidade da minha vida era suficiente para tornar penosas essas evocações. Por momentos, revi-me no homem que chorava: podia ser eu, no quarto ou quinto dia depois de a Sofia sair de casa, terminado o efeito anestésico que se segue ao momento das grandes perdas, com a dor a desabar em cheio, parecendo entornar fluidos amargos nas entranhas do corpo. Podia ser eu dentro de dias.

Tinha combinado com a Rita que nos reencontraríamos na segunda-feira: fui esperá-la às oito depois do trabalho e jantámos ali perto num restaurante com vista para o rio. O ambiente foi quase tenso, as palavras poucas e difíceis. A meio do jantar telefonou outra vez o Eduardo para dizer que precisava que lhe depositasse 500 euros e perguntar se podia levá-lo ao comboio no dia seguinte. Tinham-lhe marcado duas entrevistas em Coimbra, talvez uma possibilidade de estágio estivesse à vista, na empresa do Artur, e podia haver despesas inesperadas. “A que horas vais?” “Tem que ser o das oito, pai.” “Está bem, passo aí às sete e meia”. Sentia-me desfeito mas não podia negar-me. “Pode ser bom, mas ele tem que ter cuidado”, comentou a Rita. Cuidado? perguntei, intrigado. Claro que tem que ter cuidado. Ela sossegou-me: Não ligues.

As coisas azedaram inesperadamente na manhã seguinte. A Rita saiu cedo comigo, passámos em Alvalade e deixámos o Eduardo na gare do Oriente. “Pai, tens aqui uns papéis, vê lá se é importante”, disse ele ao sair. “Aqui no banco de trás.” Diabo do rapaz, pensei eu. “Boa viagem e dá notícias logo." A Rita tinha tomado conta do maço de papéis: notas de trabalho para a empresa e alguns recibos. “Olha, uma conta de restaurante em Lagos?” perguntou com ar de caso. “Não me disseste que ias a Lagos…”
É verdade, fui almoçar com um grande amigo do tempo de escola. A última vez que nos vimos ainda eu estava com a Margarida. Também se separou, há seis meses.
Ela preencheu com amargura e irritação um sorriso que significava: quem é que tu pensas que enganas?
“Ó amor, não te maces a inventar tantos pormenores. Quem comeu o arroz de marisco, tu ou ela?” comentou a Rita com ironia triste.
Oh, Rita, protestei. Não há nenhuma ela dentro dessa conta.
“Mas então porque não me disseste? Deves ter tido qualquer coisa mais interessante para fazer no passeio a Lagos.”
Rita, desculpa, foi uma estupidez da minha parte, as minhas idas e vindas são tão frequentes, não teria interesse para ti.
“Quer dizer que quando me ligaste no domingo depois de almoço estavas em Lagos, porque não disseste?”
Tens razão, não sei o que me passou pela cabeça para não dizer. De qualquer modo ias ficar com o teu pai no domingo, não tinha importância nenhuma.
“Não percebo é o que queres de mim”, disse ela em tom de desabafo desinteressado, “nem porque é que eu estou contigo, mas vou deixar de estar.”
Tomámos o pequeno almoço num café da 24 de Julho, sem trocar uma palavra, e eu segui para o escritório no Blue Garden. O novo seguro tinha de ser anunciado antes do Natal e era urgente pôr os meus problemas pessoais em banho-maria.

2008...



... entrando pela torre Super Bock.

(A torre Super Bock fica numa zona por enquanto livre, na Europa, onde se pode celebrar a passagem de ano sem receio de ataques terroristas em nome de Alá.)

domingo, dezembro 30

Sugestões linguísticas para 2008

Para manter a saúde da língua seria bom que os redactores dos media deixassem de utilizar:

- a feia expressão jurídica em sede de

- as expressões aquilo que é, aqueles que são, etc que só faz perder tempo entre verbo e complemento

- o verbo "acreditar" com o sentido de "estar convencido de" ou, mais precisamente, "querer fazer os outros acreditar que se está convencido de".

Para as aventuras do ensino-barra-aprendizagem, acho que as escolas deviam preencher as horas de enriquecimento curricular com o projecto de ensinar o que, com toda a evidência, não se consegue ensinar nas aulas normais de empobrecimento. Tenho três propostas para actividades muito concretas:

- estudar a diferença entre à e

- estudar a diferença entre pira-se e pirasse, basas-te e basaste (dependendo da turma, poderão ser dados exemplos com verbos mais eruditos, mas é essencial não discriminar ninguém)

- estudar algumas noções sobre colocação de vírgulas em frases simples. Depois pode-se avançar e corrigir a virgulação da sofisticada frase "As actividades de enriquecimento curricular propostas para este ano, pretendem complementar o currículo de cada aluno, desenvolvendo capacidades e competências geradoras de saberes diversos e enriquecedores de cada individuo."

Fatima e os suicídios

"Assim não vais a parte nenhuma. Não tens escolha senão voltar para nós. Esquece o teu marido, o escravo" é o texto de um sms enviado a Fatima pelos seus meio-irmãos. A história passa-se em Jeddah, Arábia Saudita e mostra que os divórcios dos casais felizes também podem acontecer. Os meio-imãos denunciaram a um tribunal a origem tribal do marido de Fatima, exigindo o divórcio. Apesar de casados havia dois anos e com filhos, a sentença do juiz deu razão aos queixosos. Fatima está separada do marido pela força desde 2005, recusando-se no entanto a voltar para a família. Na semana passada, Fatima deu sinais de pensar no suicídio.

Entretanto, um investigador da Universidade King Saud fez um estudo recente sobre o suicídio no país, e concluiu que, das tentativas de suicídio em 2006, 96% eram de mulheres. Muito argutamente, o investigador atribui o facto às fortes pressões sociais e particularmente à prática comum do casamento forçado. Agora sabemos que o divórcio forçado pode levar ao mesmo resultado.

sábado, dezembro 29

Curiosidades do dia

Um deputado egípcio lamenta que o país tenha dado ao mundo a ideia de que aceita a prostituição dos chefes de estado. Nem que Carla Bruni fosse noiva de Sarkozy lhes deveria ter sido permitido partilharem o mesmo quarto de hotel (em Luxor).

Bispo e associação gay-lésbica-etc-etc (em Tenerife) promovem-se mutuamente, vivendo o seu dia de fama.

quinta-feira, dezembro 27

Doutrina e problemas reais

A falta de bom gosto e o discurso burocratizado, irrisório em conteúdo, não se confinam à política: a Igreja também sofre destes males. Um discurso frouxo e sem espessura, como o de José Policarpo no dia de Natal, está mesmo a pedir uma crítica como a de Rui Tavares no PÚBLICO de hoje. Rui Tavares afirma que a estratégia de privilegiar a doutrina abstracta em detrimento da atenção ao mundo real é errada do próprio ponto de vista da Igreja.

Talvez sim, talvez não. Mas se olharmos para essa outra grande religião (digamos assim, para nos entendermos) em expansão, o Islamismo, o que vemos é respeito cego pela doutrina e pouca preocupação com as causas do sofrimento da humanidade e ainda menos dos indivíduos.

A asserção de Rui Tavares não tem aplicabilidade universal. E quando contrapõe ao elogio da "vida eterna" o facto de ela estimular bombistas suicidas, está a manipular sem pudor: a vida eterna de que fala Policarpo não é a mesma de que fala o Corão. Deus não é Alá, e entre os que nem sempre se preocupam em desfazer possíveis confusões estão, isso sim, responsáveis da Igreja.

De qualquer modo, as palavras do cardeal têm certamente importância e influência reduzidas. No âmbito da contradição entre doutrina e problemas do mundo real, as novas igrejas em ascensão são muito mais eficazes e perigosas. Estou a pensar nos crentes, primários ou universitários, no aquecimento global e nos devotos da abrangente culpa ocidental.

quarta-feira, dezembro 26

Presépio na Sé de Lisboa

Dos amantes



Os factos levaram a introduzir duas categorias de pais: os biológicos e os de afecto. Sem explicitação necessária, estas categorias existem também noutros tipos de parentesco, e particularmente entre os amantes. O amante biológico é o que responde antes de mais às urgências do corpo; quando é também amante de afecto ele ou ela é o par ideal com que muitos sonham. A vida, no entanto, obriga frequentemente à separação de funções, e por isso as relações amorosas em equilíbrio podem ter que envolver pelo menos três pessoas. O que, incidentalmente, prova a existência da alma.

(Na foto: Bouguereau, Rapto de Psyche, 1895)

sábado, dezembro 22

UK: a guerra ao pudim



O governo britânico tem um painel de conselheiros preocupado com o desperdício e, em última análise, com a salvação do planeta: o Waste and Resources Action Programme, que recebe 80 milhões de libras por ano. Este natal, o WRAP aconselha o povo a desistir dos tradicionais pudins e substituí-los por gelados. É que, quando uma pessoa se farta do gelado, volta a pô-lo no frigorífico. Está perto o dia em que uma agência governamental irá controlar o lixo de cada um.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, pagava ao WRAP em gelados e não em libras.

sexta-feira, dezembro 21

O fim do sopapo

Já vamos a Espanha para a gasolina, para as compras e para os centros de saúde. Agora as crianças portuguesas, quando souberem disto, também poderão aproveitar as idas a Espanha para se portarem mal: os pais deixam de ter apoio na lei para admoestar os filhos com sopapos ou bofetadas.

terça-feira, dezembro 18

A rapariga de Qatif é perdoada

A mulher violada e condenada a 200 chicotadas na Arábia Saudita foi indultada pelo rei. Em face das reacções internacionais, funcionou o receio de que a execução da sentença prejudicasse ainda mais a imagem do país.

segunda-feira, dezembro 17

Amarelo e laranja

O Canadá e o norte dos Estados Unidos estiveram no fim de semana sob intensas tempestades de neve. Muitos milhares de pessoas ficaram sem energia eléctrica. Tivessem eles os nossos alertas amarelos e alaranjados e nada disto acontecia.

Ele voltou!

sábado, dezembro 15

O significante

Vasco Pulido Valente já podia deixar de incluir aspas quando menciona Europa. Os leitores já sabem que o significado da palavra não é dissociável de quem escreve, e automaticamente imaginará as aspas mesmo quando elas não estiveram lá. Tal como quando lemos liberdade no texto escrito por um comunista.

sexta-feira, dezembro 14

Azevias de grão


Candidatas a alvo do fascismo nutricional.

terça-feira, dezembro 11

A sombra dos cruzados


No dia 27 de novembro, o Fenerbahce perdeu por 3-0 com o Inter. Agora Baris Kaska, advogado turco fanático do seu clube e especialista em direito europeu, pede à UEFA a anulação dos golos como castigo pelas camisolas usadas pelos jogadores do Inter: a grande cruz não passa de uma manifestação racista de superioridade. A foto da equipa não deixa dúvidas: racista até dizer chega.

domingo, dezembro 9

O amor nos tempos de internet (13)

A ocultação de Matilde tinha-me arrasado. Depois de dois meses sem contacto, dava-a como perdida, mas acordava várias noites com o mesmo sonho: num jantar de amigos alguém me apresentava uma mulher que me encantava; havia cumplicidade nos nossos olhares mas nunca chegava a poder conversar com ela em privado. O jantar acabava consumando a separação. A mulher do sonho não tinha nenhuma semelhança física com a Matilde, mas ao despertar a identificação era clara.

O mês de Dezembro teve duas semanas pesadas. A Rita ultimamente não passava comigo mais do que três ou quatro dias por semana. O pai tinha sido operado a uma hérnia discal e o pretexto da convalescença deu-lhe um argumento cómodo para o afastamento. Sabíamos os dois que as coisas tendiam para o seu fim natural.


No primeiro fim de semana do mês só falei com a Rita por telefone. No sábado fui a Faro para trabalhar com o núcleo local da Companhia sobre os novos produtos em lançamento, e no domingo, no caminho de volta, aproveitei para cumprir uma promessa: almoçar em Lagos com um grande amigo de juventude que tinha ficado pelo Algarve. Tinha-se divorciado há meio ano e não nos víamos desde o meu primeiro casamento. O encontro estava combinado desde um mês atrás e, talvez devido ao declínio do relacionamento com a Rita, tinha achado desnecessário pô-la ao corrente disso.

-Então conta lá.
-Primeiro vamos escolher os pratos.
-Então os senhores já se decidiram?
-Para mim é o arroz de marisco.
-Muito bem, o arrozinho, está uma delícia.
-E tu, Ângelo?
-As lulas são frescas?
-Estão óptimas, pode pedir à confiança.
-Então pode ser lulas para mim.
-As lulinhas, sim senhor. Já trago a carta de vinhos.
-Não traga, eu bebo um sumo de laranja e aqui o meu amigo uma cerveja. É que ainda tenho que ir para a estrada hoje. Pronto, agora já podes começar.
-Pois olha, o essencial já sabes: a estas horas a Lucília está com outro e eu para aqui sozinho.
-Pois, tu contaste. Mas como foi?
-Bom, se calhar fui eu que falhei em primeiro lugar. Acho eu. Nós nunca falámos disto, mas a Lucília começou a esfriar muito há para aí uns dois anos. Eu a princípio nem notei, porque chegava à noite tão cansado que depois do jantar adormecia encostado ao ombro dela.
-Lembro-me de me teres contado que estavas a… como é que tu disseste? pôr uma pedra na fase de macho latino da tua vida. Ah, ah.
-Sim. A idade e o trabalho. E talvez a rotina, embora eu gostasse muito da Lucília. E então aconteceu que ela começou a andar com um gajo, apesar de eu nunca ter conseguido provas a tempo.
-Como é que deste por isso?
-Descobri logo no princípio da coisa. Uma noite ao deitar recebeu uma mensagem no telemóvel e ficou muito nervosa. Disse que era uma colega a tentar trocar o turno com ela para o dia seguinte mas que só ia responder de manhã. Lembro-me de ter ficado muito surpreendido e de sensores alerta, mas na altura nem comentei.
-Ora aqui está a cervejinha e o suminho de laranja.
-Obrigado. E depois, houve mais suspeitas?
-Depois passei rapidamente às certezas. No dia seguinte ela foi para o trabalho no hospital e ligou-me à hora do almoço a dizer que talvez chegasse um pouco mais tarde, para substituir a colega.
-Podia ser verdade.
-Ela sabia que era dia de eu ir a Portimão levar umas encomendas. Mas o caso moía-me a pinha e não fui. Cheguei a casa cedo e liguei-lhe para propor jantarmos fora, mas tive que deixar mensagem porque não me atendeu.
-Podia estar mesmo ocupada.
-Acabou por chegar à meia noite, eu sem comer e sem sono pela primeira vez.
-Mas discutiste com ela?
-Ela percebeu que eu estava furioso mas não tive maneira de a culpar, não tinha provas, só suspeitas. Ela arranjava justificação para tudo.
-Então e quanto tempo se aguentou isso?
-Uns dois meses, com esta cena a repetir-se. Muitas vezes dizia para mim: que burro que és, Ângelo, se não descobres nada é porque é tudo imaginação tua. Doía-me muito, mas não tenho feitio para grandes discussões. A saída que encontrei para suportar a situação foi fazer o mesmo, e para mim era fácil, com as gajas que me aparecem lá na loja. Era só escolher, para todos os gostos e idades. Eu que lhes nunca dava saída, comecei a dar troco e acabei por me enrolar com uma inglesa que mora no Alvor. Ela já tinha vindo cá muitas vezes, andava sempre a mudar de cortinados e estores.
-É normal, ninguém aguenta o mesmo estore mais de um mês. Ah, ah, acabaste por te tornar um engatatão sem querer.
-Chama-se Dora, é uma beleza de mulher e o marido passa a maior parte do ano em Inglaterra. De maneira que a partir daí fui eu quem começou a chegar tarde.
-E gostavas de estar com ela?
-Uma maravilha. Só o meu inglês é que estava emperrado, o resto não.
-Mas levava-la para casa?
-Não, aí é que está. Íamos sempre para casa dela, à entrada do Alvor. E não vais acreditar, mas a Lucília descobriu-me pelo conta-quilómetros.
-O quê? Como é isso?
-Já se percebia que havia qualquer coisa no ar, e entre mim e a Lucília estava tudo frio. Um dia ao fim da tarde, quando saio do carro para tocar à porta da Dora no Alvor, dou com a Lucília. Ainda gozou comigo: ó Ângelo, vens de mãos a abanar, parece que te esqueceste da encomenda.
-Ah, ah, ao menos ela tem humor. Mas como é que ela…
-Pois, a Lucília é um génio. Explicou-me depois que tinha tomado nota das quilometragens vários dias e pelo desvio do normal concluiu que eu fazia uns 50 quilómetros a mais nos dias que lhe levantaram suspeitas. Só nessa altura é que percebi porque é que andava sempre a pedir-me para ir ao supermercado no meu carro. Fez as contas e à quarta tentativa apanhou-me logo. Tinha feito duas incursões em Vila do Bispo e aquela era a segunda no Alvor. Estacionava à entrada à espera de ver chegar o meu carro.
-Que mulher tão fina.
-Podes crer. No fim quem se lixou fui eu. Fui mesmo tanso. Depois aproveitou para me culpar de tudo, até disse que fui eu quem nunca quis um filho.
-Bom, ao menos nesse aspecto foi menos grave o divórcio.
-Pois, mas estou a pagar em euros. E por causa do receio de escândalo fiquei também sem a Dora.
-E afinal a Lucília está com quem?
-Um director de uma agência de um banco de Portimão. Mudou-se para lá.
-Mas é o tipo com quem tu achas que ela se envolveu?
-Não sei, suspeito que sim. Ele tem uma casa em Lagos, estás a ver.
-Ora então aqui estão as lulinhas para o senhor e o arroz de marisco para o seu amigo. E aqui está o azeite. Bom apetite.
-Essa história está a pedir alimento. Que cheiro tão bom, este arroz! No fundo não tens certezas... e uma mulher que faz o que a tua fez com o conta-quilómetros é porque está cheia de ciúmes.
-Sei lá. Acho mas é que ela procurou uma situação que desse para divorciar e ficar a ganhar com isso. Eu é que meti o pé na argola. Se continuo a lembrar-me disto ainda perco o apetite para as lulas.
-Ó Ângelo, isso nem parece teu. Depressa arranjas outra.
-Olha, mas então para me distrair das minhas desgraças conta-me lá como tem sido a tua vida. Porque é que não trouxeste a Rita?

Luzes



sábado, dezembro 8

O mistério da Universidade

Em França já há muitas críticas a Sarkozy, nas vésperas de Kadhaffi armar a sua tenda em Paris. Olhando para os críticos, parece que nem se lembram da grande amizade entre Mitterrand e Arafat. Por motivos muito práticos, Sarkozy acabará perdoado pela sua hospitalidade ao Guia da Líbia. Uma central nuclear, uma frota de Airbus e um novo aeroporto em Tripoli são negócios difíceis de desdenhar.

Em Lisboa, vá lá que o deixem montar a tenda, enquanto convidado da cimeira. Mas que ganha uma Universidade, ao recebê-lo com alguma pompa, a pretexto do convite de um seu centro de investigação, oferecendo-lhe palco para justificação do terrorismo e para fazer ameaças de extorsão em que o Guia, depois de encerrar a fase bombista da sua carreira, se tornou hábil? O título anunciado da "conferência" já não augurava nada de bom, mas o resultado foi francamente decepcionante. Kadhaffi não veio cá ensinar-nos nada. Estamos fartos de ouvir a mesma coisa, dita por personagens cá do burgo, ilustres ou nem por isso.

quinta-feira, dezembro 6

Felicidade, vinho e bacalhau

A folha publicitária de uma cadeia de supermercados, que me entra pela caixa do correio todas as semanas, dá pistas para resolver todos os problemas. "mesmo os mais complicados. Trabalho, amor, família, invejas" - o Professor Bambo tem solução para tudo, até para outros problemas "inexplicáveis". (O Professor Bambo fala francês e dá consultas numa rádio da região de Lisboa, com uma assistente para tradução. Explica que uma empresa pode falir por obra de um mau olhado.) E há também a senhora Maria Duval, que com honra de página inteira documenta até com fotos o caso de duas famílias que através dela se livraram do infortúnio. Uma cabeleireira a quem o negócio corria mal, e em vias de perder o marido, recupera o êxito comercial (por via da falência dos que lhe faziam concorrência) e logo passados quinze dias o marido volta, pedindo perdão. Ainda por cima, logo a seguir, ganha o Euromilhões. Outra jovem desempregada arranja o trabalho com que sempre sonhou e ao mesmo tempo o noivo pede-a em casamento. Com tanta fartura, fico a duvidar seriamente da qualidade dos vinhos e do bacalhau.

Ontem, de madrugada


Makwan Moloudzadeh, iraniano curdo de 20 anos, foi enforcado na prisão de Kermanshah. A condenação deveu-se à prática de actos homossexuais quando tinha 13 anos de idade. Os acusadores retiraram a queixa durante o julgamento. Chegou a ser anunciado um adiamento da execução e um possível perdão. A família e o advogado só foram informados da execução depois de ela ter ocorrido.

segunda-feira, dezembro 3

Utopia na gaveta, para já

Socialismo do séc. XXI ... um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre a democracia representativa e a democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do "inimigo do povo"; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva;
Boaventura Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais, laboratório associado com classificação de excelente, é também derrotado hoje. O presidente Chávez não estudou bem os seus artigos.

No PÚBLICO ainda não tiveram tempo de absorver a notícia.

domingo, dezembro 2

Interrogações

Ana Benavente partilha hoje connosco, no PÚBLICO, as suas interrogações e apreensões sobre o governo e o PS. Porque ocupamos sempre os piores lugares nas estatísticas disto e daquilo?, pergunta. Curiosamente, não inclui na pergunta as estatísticas de desempenho dos estudantes em comparações internacionais, em que os alunos portugueses costumam ficar na cauda. Provavelmente é porque não lhe convém recordar que teve responsabilidades governativas na área da educação, e porque afinal nada de bom ficou como rasto da sua passagem pelo governo. De resto, apesar das diferenças de atitude, Maria de Lurdes Rodrigues é uma continuação natural de Benavente sob o signo de Sócrates. A burocratização infernal do ensino-aprendizagem não foi inventada agora: por mais que disfarce, a menorização do papel do professor está inscrita nas teorias pedagógicas subscritas pela doutora Benavente.

Ana Benavente insurge-se contra a criação do prémio para o "melhor" professor. Mesmo descontando a sua aversão às avaliações, está apesar de tudo a ser ingrata, já que o prémio foi atribuído a um colaborador do ministério desde há longa data, ao longo de vários governos do centrão, incluindo aquele de que Benavente fez parte, e em consonância com muitas das suas ideias. (O vencedor tem outros méritos, quanto a mim mais sólidos, mas também esses deixam Benavente indiferente.)

No fim do artigo, escreve: "As únicas críticas sistemáticas às agressões quotidianas à liberdade de expressão são as do Gato Fedorento". A professora só pode estar distraída: um telespectador atento não precisa de estudos sociológicos para ver que os Gato Fedorento desempenham, no presente, a função de descompressão do teatro de revista de outros tempos.

As raparigas em flor ficam na sombra


Anne-Lorraine Schmitt foi assassinada no dia 25 de novembro perto de uma estação do RER de Paris. O jovem (creio que é assim que devo escrever) que a agrediu com uma faca já tinha sido condenado anteriormente por violência sexual. Tentou reincidir com Anne-Lorraine, mas a rapariga resistiu e conseguiu feri-lo também com a própria arma, o que facilitou a captura do alegado assassino. A indústria da informação não pôde dedicar muito espaço ao assunto por causa do acidente com uma mota roubada em que morreram dois jovens. As cerimónias fúnebres de Anne-Lorraine Schmitt realizaram-se ontem.

sábado, dezembro 1

Luz de crise


Alguém disse natal?

Sistematizando a histeria

Lista completa e documentada dos efeitos do aquecimento global.

A ciência tudo explica

Em Amsterdão, cidade de todas as liberdades e tolerâncias, houve em 2006 registo de 32 crimes tendo homossexuais como alvo, e na primeira metade de 2007 a lista já soma 26. Perante este mistério, o presidente da Câmara Municipal encomendou um estudo à Universidade de Amsterdão, conta a Spiegel, com o objectivo de descortinar a razão dos ataques. E fez bem, porque, como é hábito, a ciência é que tem as chaves da verdade, mesmo que contrariem o senso comum. Descobriu-se assim que metade dos crimes foram cometidos por norte-africanos "estigmatizados pela sociedade", o que os terá levado a atacar "os que eles encaram como pertencendo aos estratos inferiores da escala social". Mas esta pode não ser a única razão: outra teoria sustenta que "os agressores lutam contra a sua própria identidade sexual." Ora, ora.

sexta-feira, novembro 30

"No"


Fascistas encheram ontem a avenida Bolivar, em Caracas. (Foto: The Devil's excrement) De acordo com o que conta o NYTimes, são cada vez mais os venezuelanos que não compreendem os benefícios do socialismo. Hoje será a vez do "sim" encher a avenida.

quinta-feira, novembro 29

Se viaja para o Reino Unido, cuidado com a língua

Um homem de 55 anos foi condenado a 10 dias de prisão (suspensa) por ter tido o azar de chamar puta inglesa a uma senhora de Gales. Tudo se passou na sequência de uma discussão por causa de um carro riscado. O crime que figura no veredicto: chamar nomes a um urso de peluche, perdão, enganei-me, comportamento racista agravado.