sábado, abril 12

Noli me tangere



Os italianos estão a fazer menos sexo. Estão? Claudia Simonelli, professora associada em La Sapienza, fala de uma brutal queda do desejo: 40% dos casais não tem relações sexuais regulares e só 30% se declaram satisfeitos. Segundo a cientista, o futebol tem culpas, já que um desaire da equipa que habita o coração de cada homem arrasta consigo a perda do apetite sexual.

As coisas são, no entanto, mais complicadas, porque é significativa a procura de sexo pago, com prostitutas, ou companhias de ocasião encontradas na internet. E aumenta o número de homens que fotografa ou filma a esposa para a exibir na rede.

Calma, isto só se passa em Itália.

(Correggio, 1525, Museu do Prado.)

quarta-feira, março 26

O amor nos tempos de cólera em 139 minutos



O mais surpreendente neste mau filme é que não chega a aborrecer-nos. O segredo está na força do livro: mesmo em versão condensada, o encanto das palavras escritas por Garcia Márquez não consegue ser destruído. Apesar da péssima direcção, dos medíocres actores, do tom desajustado de tantas cenas e da pior maquilhagem de velhos e velhas que me lembro de ter visto no cinema, é bom recordar que o amor da alma é da cintura para cima e o do corpo é da cintura para baixo, e que o coração tem mais portas do que um hotel de putas.

Doença é quando um homem quiser

O DSM (5ª edição) está em preparação. O DSM é o Manual Estatístico e de Diagnóstico das Doenças Mentais, elaborado pela APA, American Psychiatric Association. Com muitas saídas e entradas, o DSM tem horror ao vazio. Agora, o Dr. Jerald Block vem defender, no American Journal of Psychiatry, que o vício da internet, e-mail e mensagens de texto deve ser considerado doença mental e incluído no DSM-V.

A homossexualidade já esteve na lista e foi retirada em 1973. Será necessária uma nova revolução de mentalidades para que se retire a estados naturais de tristeza e desgosto o estatuto de doença.

Claro que chamar "depressão" à tristeza tem vantagens óbvias para os Psis e para a indústria farmacêutica. A entrada da internet na lista tem para o Dr. Block ainda uma vantagem extra: ele é autor da patente de um artefacto que bloqueia o acesso à internet.

segunda-feira, março 24

O amor nos tempos do fisco

Hoje acordámos a saber que os nossos dirigentes vão apertar o crivo em torno de fotógrafos, floristas e restaurantes que trabalham para festas de casamento. Não me parece que estejam a raciocinar bem. Levantam um clamor enorme por bem pouca coisa. Dou-lhes uma sugestão gratuita e desinteressada. Pensem que ao longo de cada casamento pode haver dois ou três amantes de vários sexos a quem se oferecem prendas e jantares com alguma regularidade, sempre sem guardar recibo. Sim, nenhum esposo ou esposa no seu perfeito juízo se arriscaria a ouvir bocas do género: "o que é que andaste a comprar no Torres Joalheiros, se eu só faço anos daqui a seis meses?" ou "Hás-de explicar-me quem é que levaste a jantar ao Guincho no dia em que me disseste que tinhas uma reunião". Por isso, também não é com multibanco ou cartão de crédito que se fazem esses pagamentos, para não aparecerem de surpresa em extractos comprometedores. Há por isso aqui um vasto campo de intervenção. Não basta o levantamento universal do sigilo bancário. É necessário proibir a circulação de dinheiro em papel e conceder benefícios fiscais aos cidadãos que denunciem comportamentos suspeitos do outro membro do casal, a fim de se poder desencadear a investigação competente. Fisco e cônjuges traídos poderão dar as mãos no combate à evasão fiscal e ao adultério, dois pecados tenebrosos que tendem a encobrir-se.

sexta-feira, março 21

Sem título

O glorioso 9ºC

No teatro ou no cinema pedem-nos para desligar o telemóvel e de um modo geral o pedido é executado. Se por descuido algum toca, o dono costuma apressar-se a desligá-lo. Há uma boa razão para isto: habitualmente quem vai a um espectáculo está interessado em vê-lo.

Já o que se passa numa aula de escola secundária é completamente diferente. Até de acordo com as orientações metodológicas emanadas do Ministério da Educação, os alunos não são supostos interessar-se pela matéria, mas sim exibir "atitudes", "competências" (lista longa, para que lá caiba tudo) e procurar o seu bem estar afectivo ou emocional. Deste ponto de vista, se um aluno ou aluna esperar uma chamada ou sms do namorado ou namorada, privá-lo de a receber é, chamando as coisas pelos nomes, uma crueldade. Não sei se terá sido esse o caso na estorinha que ontem forneceu a uma escola do Porto o seu dia fama, mas poderá não andar longe disso. A ocorrência está longe de ser única, nem será com certeza a mais grave.

Alguns lamentam que a ministra da educação esteja calada sobre o caso: ela sabe que é melhor fazer do que falar. A avaliação dos professores posta em marcha vai apanhar nas suas malhas os professores cruéis e reticentes à pedagogia moderna. Sabendo que eles terão que ser pontuados, entre outras coisas, pelos items seguintes

Promoção de um clima favorável à aprendizagem, ao bem‐estar e ao desenvolvimento afectivo, emocional e social dos alunos

Concessão de iguais oportunidades de participação, promoção da integração dos alunos e da adopção de regras de convivência, colaboração e respeito

Disponibilidade para o atendimento e apoio aos alunos

Equilíbrio no exercício da autoridade e adequação das acções desenvolvidas para a manutenção da disciplina na sala de aula

Outro a estipular pelo Agrupamento /Escola não agrupada
,

podemos descansar. A partir de 2009, os incompetentes que não se habituaram a ouvir tocar um telemóvel na sala de aula que se acautelem. O amanhã é dos nonos-C.

domingo, março 16

As desculpas e a confissão

O que mais impressiona no caso Spitzer não é a contradição entre a conduta pública e os vícios privados. Disso está o mundo cheio, e apenas se torna história quando os intervenientes pertencem a partidos ou igrejas. Não, o que aflige é a auto imolação implícita no pedido de desculpas público, sobretudo o da esposa. É a aceitação do maior vexame: se Spitzer teve que gastar em prostitutas uma soma tão elevada, é porque como homem é uma verdadeira nódoa. A senhora Spitzer confessa assim, na ribalta, o fracasso rotundo da sua vida.

domingo, março 9

Avaliações




A ministra da educação tem a missão de reduzir o número global de professores e em particular o dos que ascendem aos escalões mais altos, porque o orçamento é limitado. Mas não basta controlar o número de titulares. Os factos sugerem uma interpretação: é necessário transformar a vida na escola num inferno para provocar a debandada dos que estão mais próximos da reforma e dos menos aptos para a competição. O processo de avaliação posto em marcha cumpre perfeitamente os objectivos.

Depois do horário alargado e das inúteis aulas de substituição (que obrigavam já a queimar tempo na escola, com poucas condições para o aproveitar eficazmente), as inúmeras reuniões e preenchimentos de “grelhas” indecifráveis são a gota de água que fez saltar a tampa aos professores. Não se trata apenas de serem “avaliados”, mas também de serem submetidos a uma tortura burocrática que lhes invade todo o tempo disponível ao mesmo tempo que parece tratá-los como idiotas.

Só com uma concentração mental de grande intensidade se conseguirá dar resposta ao inquérito que inclui, para cada docente, parâmetros com subtis cambiantes diferenciais que a própria linguagem se vê aflita para nomear. Exemplo:

-Correcção científico pedagógica e didáctica da planificação das actividades lectivas
-Adaptação da planificação e das estratégias de ensino e aprendizagem ao desenvolvimento das actividades lectivas
-Adequação das estratégias de ensino e aprendizagem aos conteúdos programáticos, ao nível etário e às aprendizagens anteriores dos alunos
-Cumprimento dos objectivos, orientações e programas das disciplinas ou áreas curriculares leccionadas
-Diversidade, adequação e correcção científico pedagógica das metodologias e recursos utilizados


A maioria destes parâmetros não existe senão como invenção estruturalista. Por isso, atribuir classificações de acordo com este modelo pode acabar por ter resultados tão significativos como classificar os professores pela altura ou o peso corporal.

Durante anos, os professores -- e as suas associações e sindicatos -- engoliram e aplicaram este paleio nos mais variados relatórios, sem fazerem escândalo. Claro que os que conseguiram manter a sanidade mental iam-se rindo. Desde os tempos da senhora Benavente, pelo menos, proliferaram parâmetros de inspiração semelhante, utilizados para mascarar os maus resultados na avaliação dos alunos. Agora como então, o ministério pede à Escola que finja avaliar os alunos e recomenda sob ameaças que as retenções devem ter um carácter excepcional. Só que agora o mesmo ministério resolveu avaliar os professores, recomendando que o sucesso seja excepcional. A brutal diferença está aqui.

Como efeito colateral, o método implantado veio tornar impossível ensinar, mas também já há muito tempo que não se pede aos professores que ensinem. Desprestigiados e humilhados pelo poder da 5 de Outubro, enfraquecidos perante os alunos quer por declarações públicas quer por normas aviltantes, usando a gíria dos burocratas, nem se trata propriamente de “professores”; foram transformados em “educadores”, uma síntese que inclui competências de ama-seca, psicólogo e bombo de uma festa qualquer para manter felizes os meninos. E em tempo de vacas magras há que reduzir os serviçais.

sexta-feira, março 7

Campanha orgásmica

Pedro Zerolo, secretário de Movimientos Sociais do PSOE, excita-se com extrema facilidade:

Quanta felicidade nos trouxe Zapatero nesta legislatura! Alguns de nós ainda não acabaram de ter orgasmo atrás de orgasmo! Eu nunca tinha tido tantos orgasmos! Primeiro os que me dá o meu marido e depois os que me dá Zapatero. Orgasmos democráticos!

Está a ser muito criticado: que é uma tirada de mau gosto, que em campanha não só não deixa de pensar em sexo como não respeita o próprio marido, etc. Eu acho que Zerolo se tornou um dissidente, uma infiltração de direita no partido. Está simplesmente a dizer, em forma encriptada: se queres ser bem fodido, vota PSOE.

quinta-feira, março 6

Curriculum e mentiras

Bernat Soria é ministro da saúde em Espanha e candidato a deputado por Alicante.

Parece que resolveu "inchar" o seu curriculum, o que tem motivado uma dicussão animada no seu blog e muitos outros sítios da rede. O caso foi levantado num blog do El Mundo e também em Libertad Digital.
Em resumo, Soria não fez até agora contraprova de que:
1) nunca foi decano da Faculdade de Medicina de Alicante.
2) não teve nenhum auto-exílio em Singapura, tendo apenas colaborado com a National University of Singapore por períodos curtos.
3) não teve colaboração científica com os dois reputados cientistas Erwin Neher e Bert Sackmann (Nobel conjunto em 1991).
4) não recebeu a medalha de ouro (que, de resto, não existe) da Real Academia de Medicina. Foi só nomeado membro correspondente da Real Academia em 1988.

O caso é bem sintomático da diferença de nível que separa Espanha e Portugal. Este "apanhado", ao menos, doutorou-se em Medicina em 1978 e é co-autor de muitas publicações científicas.

segunda-feira, fevereiro 25

O crepúsculo do falo

O símbolo tradicional das forças militares suecas, um leão ostensivamente masculino, acaba de ver os órgãos genitais removidos por pressão feminista. Está explicado neste vídeo. Parece que apesar de tudo deixaram passar a crina. Não deve ser descuido, mas promoção da imagem de um leão lésbico.

O PSOE, aqui ao nosso lado, promete no seu programa eleitoral uma "educación no discriminatoria, que rompa los actuales estereotipos de género"; "revisar y modificar el uso tradicional del masculino para representar a las mujeres en los textos educativos"; "incorporar a especialistas en coeducación e igualdad en los órganos responsables de la evaluación, investigación e innovación educativa y en los servicios de apoyo al profesorado". No futuro falar-se-á não de reivindicações de professores, mas sim de reivindicações de professores e professoras. A Real Academia provavelmente não vai ser entusiasta das pretendidas alterações: as constantes repetições para mencionar os dois sexos são simplesmente um estorvo deselegante.

domingo, fevereiro 24

quarta-feira, fevereiro 13

Inversões

Ontem, na Universidade de Santiago de Compostela, Maria San Gil, presidente do PP no País Basco, foi impedida de ter uma intervenção pública, após tentativa de agressão por umas dezenas de jovens inflamados. Chamaram-lhe fascista e terrorista e gritaram: Que a ETA te mate!

Maria San Gil deu a cara como testemunha presencial de um assassínio cometido pela ETA e há anos que não pode sair à rua sem escolta policial

MInistra da habitação deixa casa em estado lamentável

A ministra da habitação do governo espanhol, Maria Antonia Trujillo, deve ser uma selvagem que não sabe habitar uma casa. Pelas notícias, fico a imaginar que tenha abrigado porcos e galinhas no terraço e plantado alfaces na banheira e tomates no bidé. Ocupou um andar de 220 metros quadrados no centro de Madrid até Julho de 2007. Por razões de segurança, o ministro da justiça, Mariano Fernández-Bermejo, vai ter que se mudar para lá. (Há eleições em 9 de Março, um pormenor.) O estado do andar obrigou-o a obras de recuperação no valor de 250 mil euros, pagos pelo orçamento do ministério. As facturas mostram que, além de mobília e tapetes, a reparação do terraço e da casa de banho têm grande quota nos gastos. Parabéns a El Corte Inglés.

sábado, fevereiro 9

Las costumbres

Em Espanha como cá, os partidos "de direita" movem-se um pouco às cegas e sem saber bem o que hão-de propor. A argolada mais recente do PP em Espanha é a intenção de fazer os imigrantes aprender a língua e respeitar os costumes. Deixando já de lado saber o que é a língua espanhola e quem a respeita, não se percebe bem a que costumes se refere a medida anunciada. Jantar às 11 da noite? Dormir a sesta? Como a conversa do PP também fala do problema do véu para as mulheres, supõe-se que ele tem claramente em vista o sector muçulmano da imigração. Ora, em relação a esses o PP devia ter mais cuidado com o que diz, porque há um costume espanhol que os muçulmanos interiorizaram na perfeição: votar no PSOE.

Padrões de decência

O Supremo Tribunal do Nebraska reconheceu ontem que grelhar pessoas numa cadeira eléctrica é infligir-lhes uma "pena cruel e fora do comum". O Nebraska era o último estado a usar sistematicamente esta forma de tortura, que a partir de agora fica legalmente interdita. Os juízes afirmaram que o tribunal se viu compelido a reexaminar a questão devido à "subida dos padrões de decência". Reconhecem a tentação de infligir sofrimento a um criminoso, mas pensam que "uma sociedade civilizada deve castigar a crueldade sem a praticar".

Como a injecção letal também tem sido objecto de fortes críticas, deve haver já intensa pesquisa sobre métodos de execução indolor.

sexta-feira, fevereiro 8

É uma espécie de pessoa

Em todos os noticiários de rádio, tv, jornais e internet de ontem, falou-se do julgamento do rapaz acusado de causar a morte de Gisberto ou Gisberta. E como há cerca de um ano, das notícias dadas sobre os trágicos acontecimentos infere-se que Gisberta não é bem uma pessoa: é "transsexual", é mais adjectivo que nome.

Os media abraçam a moda politicamente correcta, exibem com desvelo o "traço identitário", promovem encobertamente o conceito de "crime de ódio". Os oportunistas que fingem defender "minorias" acham bem e os ingénuos vão atrás. Não lhes importa, ou ignoram, que a discriminação comece com aquela referência obsessiva.

Na verdade, ou estamos perante uma clara discriminação ou então, em todas as notícias de crime e tribunal deverá incluir-se a correspondente menção a respeito de vítimas e, já agora, também dos arguidos. O que é relevante neste caso deverá sê-lo noutros. Para melhor poder ajuizar, o povo anseia por saber se Carolina Salgado é hetero, se Valentim Loureiro, Bexiga ou os reitores ou vice-reitores da Independent eram lésbicas, quais as preferências sexuais do casal McCann, dos elementos do gang do multibanco e do segurança que eles assassinaram, etc. Jornalistas, mãos à obra. Preencham os espaços em branco. Queremos adjectivos!

terça-feira, fevereiro 5

Mas que as há...

Estes jornalistas continuam a cometer grosseiros erros de raciocínio. Da informação "não foi notado qualquer indício da passagem por Portugal desses elementos" retiram a conclusão em título: "autoridades de segurança portuguesas concluíram que Portugal não serviu de passagem para qualquer elemento da célula terrorista". Deve ser um efeito colateral do abaixamento de qualidade do ensino em geral, e da matemática em particular. É como se concluissem, a partir da ausência de indícios da existência de Deus, que Deus não existe. Eu também não creio em bruxas.

quarta-feira, janeiro 30

Explicador, precisa-se

Não sei se a substituição do ministro da saúde foi um passo acertado de Sócrates. De acordo com os críticos mais influentes, não se infere que seria imperioso demitir o ministro. O que fazia falta era contratar um Explicador. Vale mais pensar nisso desde já, porque a nova ministra sem Explicador vai patinar no mesmo lodo.

domingo, janeiro 27

Religiões

Espanha e Portugal reconheceram recentemente o estatuto de associação religiosa à seita da Cientologia. Está aberto o caminho para as novas religiões do milénio. Parece-me que será ainda mais fácil o caminho para outras com mais adeptos e não menor espiritualidade:

-lutadores contra o aquecimento global

-militantes anti-transgénicos

-vegetarianos e macrobióticos

-guevaristas

-saudosos da URSS

-socialistas em general (exceptuado o PS)

etc.

A avaliação

Começou o tortuoso processo de avaliação dos professores dos ensinos básico e secundário, provocando receios e desespero em muitos docentes.

Ora, parece-me que se trata de medos injustificados. A Doutora Conceição Castro Ramos, presidente do CCAP (Conselho Científico para a Avaliação dos Professores) tem posições muito claras sobre como deve ser feita uma avaliação. Pelo menos no caso dos estudantes:

ela defende uma pedagogia para todos e uma pedagogia aberta à vida e a necessidade de desenvolver os alunos em actividades viradas para o desenvolvimento de processos complexos de pensamento e diz que esta nova pedagogia não se coaduna com um sistema de avaliação concebido com ênfase noutros pressupostos.

Acrescenta que mudou o sistema - que se pretende flexível, não selectivo e eficaz;
mudou o carácter permissivo da reprovação, que deu lugar ao carácter excepcional da retenção, porque numa escola básica, que não é selectiva,a a repetência deve ser uma medida de último recurso;
foi introduzida a articulação da avaliação dos alunos com a avaliação do sistema de ensino (avaliação aferida);
a dualidade da certificação;
foi reforçada a função formativa da avaliação, o papel dos alunos e encarregados de educação no processo e o desenvolvimento do sistema de apoio e complementos educativos.
(Lido aqui.)

Por coerência com as suas ideias, a presidente do CCAP deverá propôr orientações para uma avaliação não selectiva e com certeza que a retenção em escalões inferiores vai ter um carácter absolutamente excepcional. A avaliação dos professores a que a senhora cientificamente preside só pode ser entendida na sua vertente formativa. Não há que entrar em pânico.

O difícil estado laico

O caso já não é novo, mas foi levantado há dias na Voz de Galicia: uma cadeia de matadouros vai produzir carne halal ou, em termos directos, vai abater animais por degolação e sem anestesia.

Ecologistas, defensores dos animais e alguns produtores protestam. O certo é que tudo se faz dentro de normas da UE, que permite estas práticas ao mesmo tempo que proíbe a matança tradicional do porco. Os governos muito ágeis na caça aos crucifixos e que se calam ruidosamente em casos como este não estão, afinal, muito preocupados com a laicidade. A guerra do estado aos símbolos religiosos só vale para os cultos em nome dos quais não há planos para fazer explodir comboios cheios de cidadãos.

sexta-feira, janeiro 25

Adivinhe quem é o ministro

Ontem à noite, a SIC-Notícias exibiu uma conversa, a que deu o nome de entrevista, entre um senhor chamado Manuhcher Mottaki e uma senhora de nome Rebeca Abecassis. Entre outras coisas curiosas, a senhora disse, a certa altura: "Vários países possuem armas nucleares. Porque não há-de o Irão tê-las?"

A SIC anunciara que, na "entrevista", o ministro dos negócios estrangeiros do Irão, Manuhcher Mottaki, falaria dos novos acordos com Portugal e explicaria a posição do Irão em relação à bomba nuclear.

Penso que se tratou de um lapso da SIC. Fiquei convencido de que o ministro iraniano se chama Rebeca Abecassis.

segunda-feira, janeiro 21

Pontos de vista



Jacqui Smith, secretária do governo britânico, foi a Peckham comprar um kebab. Peckham é uma zona degradada de Londres, e a senhora Smith quis apagar a gaffe cometida uns dias antes, quando afirmara ter medo de andar nas ruas de Londres à noite. Com a sua corajosa ida a Peckham tentou devolver a confiança às hostes.

A história, contada no Guardian, pouco adianta. O Daily Mail foi saber mais e a investigação resultou numa versão mais engraçada. A senhora Smith foi de facto comprar um kebab a Pekham, mas à hora do chá e com guarda-costas.

sexta-feira, janeiro 18

A educação falhada

http://br.youtube.com/watch?v=qLadV0T1Oa4

terça-feira, janeiro 15

À espera de guião

A greve dos argumentistas parece continuar a provocar danos colaterais. Depois da anulação do espectáculo dos globos de ouro, outro espectáculo é atingido: a assembleia da Aliança de Civilizações com Zapatero arranca só com três chefes de estado e sem Antonio Banderas, George Clooney e Angelina Jolie, ao contrário do que tinha sido anunciado.

Choque fiscal sectorial

Um deputado do BE reconhece, afinal, que o choque fiscal pode reanimar a economia. Depois de ter votado favoravelmente a proposta de António Costa para isentar de taxas municipais a organização do Rock in Rio, José Sá Fernandes afirma, segundo o PÚBLICO de hoje: Se a Câmara cobrasse as taxas não havia Rock in Rio. Pode inferir-se agora por que motivo não haverá muitas outras coisas.

quinta-feira, janeiro 10

A escolha ardilosa




No Casamento Ardiloso, Cervantes conta a história do alferes Campuzano, de quem Dona Estefânia de Caicedo se acerca exibindo a sua rica casa; Campuzano, por sua vez, exibe o seu ouro. Decidem juntar os trapinhos, cada um acreditando fazer bom negócio. Um dia bate à porta Dona Clementa, acompanhada de Lope Armendárez. Estefânia implora a Campuzano que é preciso sair rapidamente, pois prometera a Clementa, uma boa amiga, emprestar-lhe a casa para que ela pudesse conquistar Armendárez. Pedem abrigo em casa de outra amiga de Estefânia. Estefânia acaba por fugir com o ouro de Campuzano e um amante, enquanto a hospedeira explica a Campuzano que a casa onde tinha vivido com Estefânia pertencia de facto a Dona Clementa. Campuzano só tem um consolo para a sua amargura: é que o ouro que mostrara a Estefania, para a conquistar, era falso.

As comédias onde todos enganam todos são clássicos. Já no tempo de Cervantes não eram originais.

PS (e PSD, já agora): O ponto fraco tanto de Alverca como do Montijo é já terem aeroportos construídos.
(Fotos em http://www.pelicano.com.pt/zmapa.html)

quarta-feira, janeiro 9

A praga dos portadores de desculpas

Está a ser organizada uma missão de desagravo a Ahmadinejad: um grupo de professores da Universidade de Colúmbia vai a Teerão apresentar desculpas pelo modo como o presidente do Irão foi tratado na visita recente àquela universidade. São professores de história, antropologia, filosofia e estudos islâmicos e do Médio Oriente.

Havendo na mesma instituição vários grupos que se interessam pelo mistério da problemática gay-lésbica-bi-tri etc, não se compreende que sejam deixados de fora da prestimosa delegação. Tanta falta de curiosidade científica fica mal numa universidade. Perdem uma oportunidade única para estudar um país onde não há gays.

domingo, janeiro 6

Paradoxos

Os laicistas abrigados em governos socialistas e suas organizações apoiantes transformaram uma sensibilidade comum a várias camadas da sociedade numa atitude sectária e burocrática ao serviço das suas utopias no âmbito da engenharia social. Em Portugal o facto não se nota muito, mas nos países europeus com grande imigração islâmica eles têm o rabo de fora: não são na verdade pregadores da laicidade, mas sim pregadores anti-católicos ou anti-cristãos. Na verdade, não só evitam criticar as práticas retrógradas do Islão como surgem frequentemente associados a iniciativas de "diálogo" com os que pretendem destruir o nosso modo de vida à custa de sucessivas cedências.

Curiosa e paradoxalmente, talvez o substracto moral da cultura ocidental, com as suas raízes cristãs, nunca tenha estado tão viva como no caldo de cultura socialista, tal como ele chega ao homem comum. Amamos, compreendemos e perdoamos o outro, mesmo que ele nos queira aniquilar. Se nos agridem, cedemos a outra face. Detestamos os ricos, esses malvados a quem está vedado o reino dos céus, e em nome da bem-aventurança dos pobres e oprimidos continuamos a venerar utopias que trazem consigo ainda mais opressão. Mesmo para a piedade ecológica pós-moderna encontramos como referente o santo de Assis que agora não poderá dar o nome a escola alguma.

Os nossos antepassados medievais, esses brutos pouco respeitadores das culturas diferentes, eram certamente menos cristãos. Sem a beligerância dos cruzados e de alguns monarcas europeus, a Europa poderia ser actualmente um mundo de mesquitas em vez de catedrais, um mundo de submissão e de mulheres com o rosto tapado .

Infelizmente, há sinais de que podemos resvalar silenciosamente em direcção a esse mundo escuro e triste. Entretidos a autoflagelar-nos pelos nossos pecados e a oferecê-los de bandeja como justificativo de agressões consumadas ou em preparação, os sinais vão passando quase despercebidos. Em 2004, a Espanha votou de modo não condicionado? Não sei. Que em 2008 alguém enterrou para sempre um certo rali, é certo. O caso em si parece de impacto limitado, mas fica bem claro que o método funciona. Habituados a contemplar a realidade como paisagem estável, não valorizamos as pequenas mudanças. Fala-se de "vitória do terrorismo" a respeito do Dakar sem convicção de que se trata de um passo minúsculo até à verdadeira vitória: a nossa aniquilação. Vamos esperar cristãmente, sentados, pela coacção que se segue.

sexta-feira, janeiro 4

Pergunta


Hoje apetece parafrasear a pergunta de Santiago, o protagonista de uma das melhores novelas de Mário Vargas Llosa: Em que momento se terá fodido Portugal?

terça-feira, janeiro 1

O amor nos tempos de internet (14)


De regresso a Lisboa, parei para descansar na área de serviço de Grândola. Estava a sorver o café quando tocou o telemóvel: o Eduardo. “Pai, a mãe foi assaltada de esticão.” Pobre Margarida, pensei, já não bastava o azar que teve comigo.
Oh! Mas onde aconteceu isso?
A mãe e a Micky. Na rua do tio Ricardo. Almoçaram lá e iam entrar para o carro da Micky. Fugiram-lhes com as carteiras e arrancaram a pulseira à mãe.
Mas ela ficou mal?
Foi só o susto e um braço dorido, mas nada de cuidado. A desgraçada da Micky é que caiu ao chão e fez um hematoma na cabeça. Fui com ela ao hospital e acho que está sob controle.
A que horas foi isso?
Eram três e meia.
Mas como foi?
Dois tipos saíram de um carro, tiraram-lhes as malas e arrancaram logo no mesmo carro.
Já foram à polícia?
Eu vou agora com a mãe. Ela amanhã precisa do seguro do carro, ficou sem documentos.
Está bem, diz-lhe que não se preocupe, alguma coisa que for preciso eu trato logo de manhã.

Antes de voltar para o carro fui à casa de banho. Em frente do espelho, um homem alto e magro, aparentando ter mais ou menos a minha idade, chorava a soluços soltos. Perturbado com a minha entrada, baixou-se para o lavatório e começou a enxaguar o rosto e os olhos sob o jorro da torneira. Para minorar o efeito da minha intromissão, fechei-me num gabinete. Os soluços pararam logo e pouco depois ouvi o secador de mãos e o homem a sair. Saí também rapidamente e ainda vi o homem a entrar num Audi 8. Esperei que ele arrancasse e passasse diante do meu carro: no lugar do passageiro, uma mulher que me pareceu não ter mais que uns trinta anos gesticulava e discutia com ele aos berros. Entrei na auto-estrada atrás deles e por alguns minutos mantive-me atrás do Audi, intrigado e fascinado com o drama desconhecido de que tinha presenciado um sinal.

Porquê ou por quem teria chorado o homem? Que privação ou dor enorme lhe teria posto os olhos no estado em que o surpreendi no lavabo? Inevitavelmente, comparei-me com ele. Não me lembro de chorar mesmo depois do abandono pela Sofia, mas alguma coisa dentro de mim tinha passado por estados equivalentes aos olhos marejados do desconhecido. De modo diferente, mas igualmente dilacerante, tinha sofrido quando provoquei a minha separação da Margarida por causa da Sofia. Os momentos mais agudos já tinham passado para o lugar das memórias, mas a instabilidade da minha vida era suficiente para tornar penosas essas evocações. Por momentos, revi-me no homem que chorava: podia ser eu, no quarto ou quinto dia depois de a Sofia sair de casa, terminado o efeito anestésico que se segue ao momento das grandes perdas, com a dor a desabar em cheio, parecendo entornar fluidos amargos nas entranhas do corpo. Podia ser eu dentro de dias.

Tinha combinado com a Rita que nos reencontraríamos na segunda-feira: fui esperá-la às oito depois do trabalho e jantámos ali perto num restaurante com vista para o rio. O ambiente foi quase tenso, as palavras poucas e difíceis. A meio do jantar telefonou outra vez o Eduardo para dizer que precisava que lhe depositasse 500 euros e perguntar se podia levá-lo ao comboio no dia seguinte. Tinham-lhe marcado duas entrevistas em Coimbra, talvez uma possibilidade de estágio estivesse à vista, na empresa do Artur, e podia haver despesas inesperadas. “A que horas vais?” “Tem que ser o das oito, pai.” “Está bem, passo aí às sete e meia”. Sentia-me desfeito mas não podia negar-me. “Pode ser bom, mas ele tem que ter cuidado”, comentou a Rita. Cuidado? perguntei, intrigado. Claro que tem que ter cuidado. Ela sossegou-me: Não ligues.

As coisas azedaram inesperadamente na manhã seguinte. A Rita saiu cedo comigo, passámos em Alvalade e deixámos o Eduardo na gare do Oriente. “Pai, tens aqui uns papéis, vê lá se é importante”, disse ele ao sair. “Aqui no banco de trás.” Diabo do rapaz, pensei eu. “Boa viagem e dá notícias logo." A Rita tinha tomado conta do maço de papéis: notas de trabalho para a empresa e alguns recibos. “Olha, uma conta de restaurante em Lagos?” perguntou com ar de caso. “Não me disseste que ias a Lagos…”
É verdade, fui almoçar com um grande amigo do tempo de escola. A última vez que nos vimos ainda eu estava com a Margarida. Também se separou, há seis meses.
Ela preencheu com amargura e irritação um sorriso que significava: quem é que tu pensas que enganas?
“Ó amor, não te maces a inventar tantos pormenores. Quem comeu o arroz de marisco, tu ou ela?” comentou a Rita com ironia triste.
Oh, Rita, protestei. Não há nenhuma ela dentro dessa conta.
“Mas então porque não me disseste? Deves ter tido qualquer coisa mais interessante para fazer no passeio a Lagos.”
Rita, desculpa, foi uma estupidez da minha parte, as minhas idas e vindas são tão frequentes, não teria interesse para ti.
“Quer dizer que quando me ligaste no domingo depois de almoço estavas em Lagos, porque não disseste?”
Tens razão, não sei o que me passou pela cabeça para não dizer. De qualquer modo ias ficar com o teu pai no domingo, não tinha importância nenhuma.
“Não percebo é o que queres de mim”, disse ela em tom de desabafo desinteressado, “nem porque é que eu estou contigo, mas vou deixar de estar.”
Tomámos o pequeno almoço num café da 24 de Julho, sem trocar uma palavra, e eu segui para o escritório no Blue Garden. O novo seguro tinha de ser anunciado antes do Natal e era urgente pôr os meus problemas pessoais em banho-maria.

2008...



... entrando pela torre Super Bock.

(A torre Super Bock fica numa zona por enquanto livre, na Europa, onde se pode celebrar a passagem de ano sem receio de ataques terroristas em nome de Alá.)

domingo, dezembro 30

Sugestões linguísticas para 2008

Para manter a saúde da língua seria bom que os redactores dos media deixassem de utilizar:

- a feia expressão jurídica em sede de

- as expressões aquilo que é, aqueles que são, etc que só faz perder tempo entre verbo e complemento

- o verbo "acreditar" com o sentido de "estar convencido de" ou, mais precisamente, "querer fazer os outros acreditar que se está convencido de".

Para as aventuras do ensino-barra-aprendizagem, acho que as escolas deviam preencher as horas de enriquecimento curricular com o projecto de ensinar o que, com toda a evidência, não se consegue ensinar nas aulas normais de empobrecimento. Tenho três propostas para actividades muito concretas:

- estudar a diferença entre à e

- estudar a diferença entre pira-se e pirasse, basas-te e basaste (dependendo da turma, poderão ser dados exemplos com verbos mais eruditos, mas é essencial não discriminar ninguém)

- estudar algumas noções sobre colocação de vírgulas em frases simples. Depois pode-se avançar e corrigir a virgulação da sofisticada frase "As actividades de enriquecimento curricular propostas para este ano, pretendem complementar o currículo de cada aluno, desenvolvendo capacidades e competências geradoras de saberes diversos e enriquecedores de cada individuo."

Fatima e os suicídios

"Assim não vais a parte nenhuma. Não tens escolha senão voltar para nós. Esquece o teu marido, o escravo" é o texto de um sms enviado a Fatima pelos seus meio-irmãos. A história passa-se em Jeddah, Arábia Saudita e mostra que os divórcios dos casais felizes também podem acontecer. Os meio-imãos denunciaram a um tribunal a origem tribal do marido de Fatima, exigindo o divórcio. Apesar de casados havia dois anos e com filhos, a sentença do juiz deu razão aos queixosos. Fatima está separada do marido pela força desde 2005, recusando-se no entanto a voltar para a família. Na semana passada, Fatima deu sinais de pensar no suicídio.

Entretanto, um investigador da Universidade King Saud fez um estudo recente sobre o suicídio no país, e concluiu que, das tentativas de suicídio em 2006, 96% eram de mulheres. Muito argutamente, o investigador atribui o facto às fortes pressões sociais e particularmente à prática comum do casamento forçado. Agora sabemos que o divórcio forçado pode levar ao mesmo resultado.

sábado, dezembro 29

Curiosidades do dia

Um deputado egípcio lamenta que o país tenha dado ao mundo a ideia de que aceita a prostituição dos chefes de estado. Nem que Carla Bruni fosse noiva de Sarkozy lhes deveria ter sido permitido partilharem o mesmo quarto de hotel (em Luxor).

Bispo e associação gay-lésbica-etc-etc (em Tenerife) promovem-se mutuamente, vivendo o seu dia de fama.

quinta-feira, dezembro 27

Doutrina e problemas reais

A falta de bom gosto e o discurso burocratizado, irrisório em conteúdo, não se confinam à política: a Igreja também sofre destes males. Um discurso frouxo e sem espessura, como o de José Policarpo no dia de Natal, está mesmo a pedir uma crítica como a de Rui Tavares no PÚBLICO de hoje. Rui Tavares afirma que a estratégia de privilegiar a doutrina abstracta em detrimento da atenção ao mundo real é errada do próprio ponto de vista da Igreja.

Talvez sim, talvez não. Mas se olharmos para essa outra grande religião (digamos assim, para nos entendermos) em expansão, o Islamismo, o que vemos é respeito cego pela doutrina e pouca preocupação com as causas do sofrimento da humanidade e ainda menos dos indivíduos.

A asserção de Rui Tavares não tem aplicabilidade universal. E quando contrapõe ao elogio da "vida eterna" o facto de ela estimular bombistas suicidas, está a manipular sem pudor: a vida eterna de que fala Policarpo não é a mesma de que fala o Corão. Deus não é Alá, e entre os que nem sempre se preocupam em desfazer possíveis confusões estão, isso sim, responsáveis da Igreja.

De qualquer modo, as palavras do cardeal têm certamente importância e influência reduzidas. No âmbito da contradição entre doutrina e problemas do mundo real, as novas igrejas em ascensão são muito mais eficazes e perigosas. Estou a pensar nos crentes, primários ou universitários, no aquecimento global e nos devotos da abrangente culpa ocidental.

quarta-feira, dezembro 26

Presépio na Sé de Lisboa

Dos amantes



Os factos levaram a introduzir duas categorias de pais: os biológicos e os de afecto. Sem explicitação necessária, estas categorias existem também noutros tipos de parentesco, e particularmente entre os amantes. O amante biológico é o que responde antes de mais às urgências do corpo; quando é também amante de afecto ele ou ela é o par ideal com que muitos sonham. A vida, no entanto, obriga frequentemente à separação de funções, e por isso as relações amorosas em equilíbrio podem ter que envolver pelo menos três pessoas. O que, incidentalmente, prova a existência da alma.

(Na foto: Bouguereau, Rapto de Psyche, 1895)

sábado, dezembro 22

UK: a guerra ao pudim



O governo britânico tem um painel de conselheiros preocupado com o desperdício e, em última análise, com a salvação do planeta: o Waste and Resources Action Programme, que recebe 80 milhões de libras por ano. Este natal, o WRAP aconselha o povo a desistir dos tradicionais pudins e substituí-los por gelados. É que, quando uma pessoa se farta do gelado, volta a pô-lo no frigorífico. Está perto o dia em que uma agência governamental irá controlar o lixo de cada um.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, pagava ao WRAP em gelados e não em libras.

sexta-feira, dezembro 21

O fim do sopapo

Já vamos a Espanha para a gasolina, para as compras e para os centros de saúde. Agora as crianças portuguesas, quando souberem disto, também poderão aproveitar as idas a Espanha para se portarem mal: os pais deixam de ter apoio na lei para admoestar os filhos com sopapos ou bofetadas.

terça-feira, dezembro 18

A rapariga de Qatif é perdoada

A mulher violada e condenada a 200 chicotadas na Arábia Saudita foi indultada pelo rei. Em face das reacções internacionais, funcionou o receio de que a execução da sentença prejudicasse ainda mais a imagem do país.

segunda-feira, dezembro 17

Amarelo e laranja

O Canadá e o norte dos Estados Unidos estiveram no fim de semana sob intensas tempestades de neve. Muitos milhares de pessoas ficaram sem energia eléctrica. Tivessem eles os nossos alertas amarelos e alaranjados e nada disto acontecia.

Ele voltou!

sábado, dezembro 15

O significante

Vasco Pulido Valente já podia deixar de incluir aspas quando menciona Europa. Os leitores já sabem que o significado da palavra não é dissociável de quem escreve, e automaticamente imaginará as aspas mesmo quando elas não estiveram lá. Tal como quando lemos liberdade no texto escrito por um comunista.

sexta-feira, dezembro 14

Azevias de grão


Candidatas a alvo do fascismo nutricional.

terça-feira, dezembro 11

A sombra dos cruzados


No dia 27 de novembro, o Fenerbahce perdeu por 3-0 com o Inter. Agora Baris Kaska, advogado turco fanático do seu clube e especialista em direito europeu, pede à UEFA a anulação dos golos como castigo pelas camisolas usadas pelos jogadores do Inter: a grande cruz não passa de uma manifestação racista de superioridade. A foto da equipa não deixa dúvidas: racista até dizer chega.

domingo, dezembro 9

O amor nos tempos de internet (13)

A ocultação de Matilde tinha-me arrasado. Depois de dois meses sem contacto, dava-a como perdida, mas acordava várias noites com o mesmo sonho: num jantar de amigos alguém me apresentava uma mulher que me encantava; havia cumplicidade nos nossos olhares mas nunca chegava a poder conversar com ela em privado. O jantar acabava consumando a separação. A mulher do sonho não tinha nenhuma semelhança física com a Matilde, mas ao despertar a identificação era clara.

O mês de Dezembro teve duas semanas pesadas. A Rita ultimamente não passava comigo mais do que três ou quatro dias por semana. O pai tinha sido operado a uma hérnia discal e o pretexto da convalescença deu-lhe um argumento cómodo para o afastamento. Sabíamos os dois que as coisas tendiam para o seu fim natural.


No primeiro fim de semana do mês só falei com a Rita por telefone. No sábado fui a Faro para trabalhar com o núcleo local da Companhia sobre os novos produtos em lançamento, e no domingo, no caminho de volta, aproveitei para cumprir uma promessa: almoçar em Lagos com um grande amigo de juventude que tinha ficado pelo Algarve. Tinha-se divorciado há meio ano e não nos víamos desde o meu primeiro casamento. O encontro estava combinado desde um mês atrás e, talvez devido ao declínio do relacionamento com a Rita, tinha achado desnecessário pô-la ao corrente disso.

-Então conta lá.
-Primeiro vamos escolher os pratos.
-Então os senhores já se decidiram?
-Para mim é o arroz de marisco.
-Muito bem, o arrozinho, está uma delícia.
-E tu, Ângelo?
-As lulas são frescas?
-Estão óptimas, pode pedir à confiança.
-Então pode ser lulas para mim.
-As lulinhas, sim senhor. Já trago a carta de vinhos.
-Não traga, eu bebo um sumo de laranja e aqui o meu amigo uma cerveja. É que ainda tenho que ir para a estrada hoje. Pronto, agora já podes começar.
-Pois olha, o essencial já sabes: a estas horas a Lucília está com outro e eu para aqui sozinho.
-Pois, tu contaste. Mas como foi?
-Bom, se calhar fui eu que falhei em primeiro lugar. Acho eu. Nós nunca falámos disto, mas a Lucília começou a esfriar muito há para aí uns dois anos. Eu a princípio nem notei, porque chegava à noite tão cansado que depois do jantar adormecia encostado ao ombro dela.
-Lembro-me de me teres contado que estavas a… como é que tu disseste? pôr uma pedra na fase de macho latino da tua vida. Ah, ah.
-Sim. A idade e o trabalho. E talvez a rotina, embora eu gostasse muito da Lucília. E então aconteceu que ela começou a andar com um gajo, apesar de eu nunca ter conseguido provas a tempo.
-Como é que deste por isso?
-Descobri logo no princípio da coisa. Uma noite ao deitar recebeu uma mensagem no telemóvel e ficou muito nervosa. Disse que era uma colega a tentar trocar o turno com ela para o dia seguinte mas que só ia responder de manhã. Lembro-me de ter ficado muito surpreendido e de sensores alerta, mas na altura nem comentei.
-Ora aqui está a cervejinha e o suminho de laranja.
-Obrigado. E depois, houve mais suspeitas?
-Depois passei rapidamente às certezas. No dia seguinte ela foi para o trabalho no hospital e ligou-me à hora do almoço a dizer que talvez chegasse um pouco mais tarde, para substituir a colega.
-Podia ser verdade.
-Ela sabia que era dia de eu ir a Portimão levar umas encomendas. Mas o caso moía-me a pinha e não fui. Cheguei a casa cedo e liguei-lhe para propor jantarmos fora, mas tive que deixar mensagem porque não me atendeu.
-Podia estar mesmo ocupada.
-Acabou por chegar à meia noite, eu sem comer e sem sono pela primeira vez.
-Mas discutiste com ela?
-Ela percebeu que eu estava furioso mas não tive maneira de a culpar, não tinha provas, só suspeitas. Ela arranjava justificação para tudo.
-Então e quanto tempo se aguentou isso?
-Uns dois meses, com esta cena a repetir-se. Muitas vezes dizia para mim: que burro que és, Ângelo, se não descobres nada é porque é tudo imaginação tua. Doía-me muito, mas não tenho feitio para grandes discussões. A saída que encontrei para suportar a situação foi fazer o mesmo, e para mim era fácil, com as gajas que me aparecem lá na loja. Era só escolher, para todos os gostos e idades. Eu que lhes nunca dava saída, comecei a dar troco e acabei por me enrolar com uma inglesa que mora no Alvor. Ela já tinha vindo cá muitas vezes, andava sempre a mudar de cortinados e estores.
-É normal, ninguém aguenta o mesmo estore mais de um mês. Ah, ah, acabaste por te tornar um engatatão sem querer.
-Chama-se Dora, é uma beleza de mulher e o marido passa a maior parte do ano em Inglaterra. De maneira que a partir daí fui eu quem começou a chegar tarde.
-E gostavas de estar com ela?
-Uma maravilha. Só o meu inglês é que estava emperrado, o resto não.
-Mas levava-la para casa?
-Não, aí é que está. Íamos sempre para casa dela, à entrada do Alvor. E não vais acreditar, mas a Lucília descobriu-me pelo conta-quilómetros.
-O quê? Como é isso?
-Já se percebia que havia qualquer coisa no ar, e entre mim e a Lucília estava tudo frio. Um dia ao fim da tarde, quando saio do carro para tocar à porta da Dora no Alvor, dou com a Lucília. Ainda gozou comigo: ó Ângelo, vens de mãos a abanar, parece que te esqueceste da encomenda.
-Ah, ah, ao menos ela tem humor. Mas como é que ela…
-Pois, a Lucília é um génio. Explicou-me depois que tinha tomado nota das quilometragens vários dias e pelo desvio do normal concluiu que eu fazia uns 50 quilómetros a mais nos dias que lhe levantaram suspeitas. Só nessa altura é que percebi porque é que andava sempre a pedir-me para ir ao supermercado no meu carro. Fez as contas e à quarta tentativa apanhou-me logo. Tinha feito duas incursões em Vila do Bispo e aquela era a segunda no Alvor. Estacionava à entrada à espera de ver chegar o meu carro.
-Que mulher tão fina.
-Podes crer. No fim quem se lixou fui eu. Fui mesmo tanso. Depois aproveitou para me culpar de tudo, até disse que fui eu quem nunca quis um filho.
-Bom, ao menos nesse aspecto foi menos grave o divórcio.
-Pois, mas estou a pagar em euros. E por causa do receio de escândalo fiquei também sem a Dora.
-E afinal a Lucília está com quem?
-Um director de uma agência de um banco de Portimão. Mudou-se para lá.
-Mas é o tipo com quem tu achas que ela se envolveu?
-Não sei, suspeito que sim. Ele tem uma casa em Lagos, estás a ver.
-Ora então aqui estão as lulinhas para o senhor e o arroz de marisco para o seu amigo. E aqui está o azeite. Bom apetite.
-Essa história está a pedir alimento. Que cheiro tão bom, este arroz! No fundo não tens certezas... e uma mulher que faz o que a tua fez com o conta-quilómetros é porque está cheia de ciúmes.
-Sei lá. Acho mas é que ela procurou uma situação que desse para divorciar e ficar a ganhar com isso. Eu é que meti o pé na argola. Se continuo a lembrar-me disto ainda perco o apetite para as lulas.
-Ó Ângelo, isso nem parece teu. Depressa arranjas outra.
-Olha, mas então para me distrair das minhas desgraças conta-me lá como tem sido a tua vida. Porque é que não trouxeste a Rita?

Luzes



sábado, dezembro 8

O mistério da Universidade

Em França já há muitas críticas a Sarkozy, nas vésperas de Kadhaffi armar a sua tenda em Paris. Olhando para os críticos, parece que nem se lembram da grande amizade entre Mitterrand e Arafat. Por motivos muito práticos, Sarkozy acabará perdoado pela sua hospitalidade ao Guia da Líbia. Uma central nuclear, uma frota de Airbus e um novo aeroporto em Tripoli são negócios difíceis de desdenhar.

Em Lisboa, vá lá que o deixem montar a tenda, enquanto convidado da cimeira. Mas que ganha uma Universidade, ao recebê-lo com alguma pompa, a pretexto do convite de um seu centro de investigação, oferecendo-lhe palco para justificação do terrorismo e para fazer ameaças de extorsão em que o Guia, depois de encerrar a fase bombista da sua carreira, se tornou hábil? O título anunciado da "conferência" já não augurava nada de bom, mas o resultado foi francamente decepcionante. Kadhaffi não veio cá ensinar-nos nada. Estamos fartos de ouvir a mesma coisa, dita por personagens cá do burgo, ilustres ou nem por isso.

quinta-feira, dezembro 6

Felicidade, vinho e bacalhau

A folha publicitária de uma cadeia de supermercados, que me entra pela caixa do correio todas as semanas, dá pistas para resolver todos os problemas. "mesmo os mais complicados. Trabalho, amor, família, invejas" - o Professor Bambo tem solução para tudo, até para outros problemas "inexplicáveis". (O Professor Bambo fala francês e dá consultas numa rádio da região de Lisboa, com uma assistente para tradução. Explica que uma empresa pode falir por obra de um mau olhado.) E há também a senhora Maria Duval, que com honra de página inteira documenta até com fotos o caso de duas famílias que através dela se livraram do infortúnio. Uma cabeleireira a quem o negócio corria mal, e em vias de perder o marido, recupera o êxito comercial (por via da falência dos que lhe faziam concorrência) e logo passados quinze dias o marido volta, pedindo perdão. Ainda por cima, logo a seguir, ganha o Euromilhões. Outra jovem desempregada arranja o trabalho com que sempre sonhou e ao mesmo tempo o noivo pede-a em casamento. Com tanta fartura, fico a duvidar seriamente da qualidade dos vinhos e do bacalhau.

Ontem, de madrugada


Makwan Moloudzadeh, iraniano curdo de 20 anos, foi enforcado na prisão de Kermanshah. A condenação deveu-se à prática de actos homossexuais quando tinha 13 anos de idade. Os acusadores retiraram a queixa durante o julgamento. Chegou a ser anunciado um adiamento da execução e um possível perdão. A família e o advogado só foram informados da execução depois de ela ter ocorrido.

segunda-feira, dezembro 3

Utopia na gaveta, para já

Socialismo do séc. XXI ... um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre a democracia representativa e a democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do "inimigo do povo"; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva;
Boaventura Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais, laboratório associado com classificação de excelente, é também derrotado hoje. O presidente Chávez não estudou bem os seus artigos.

No PÚBLICO ainda não tiveram tempo de absorver a notícia.

domingo, dezembro 2

Interrogações

Ana Benavente partilha hoje connosco, no PÚBLICO, as suas interrogações e apreensões sobre o governo e o PS. Porque ocupamos sempre os piores lugares nas estatísticas disto e daquilo?, pergunta. Curiosamente, não inclui na pergunta as estatísticas de desempenho dos estudantes em comparações internacionais, em que os alunos portugueses costumam ficar na cauda. Provavelmente é porque não lhe convém recordar que teve responsabilidades governativas na área da educação, e porque afinal nada de bom ficou como rasto da sua passagem pelo governo. De resto, apesar das diferenças de atitude, Maria de Lurdes Rodrigues é uma continuação natural de Benavente sob o signo de Sócrates. A burocratização infernal do ensino-aprendizagem não foi inventada agora: por mais que disfarce, a menorização do papel do professor está inscrita nas teorias pedagógicas subscritas pela doutora Benavente.

Ana Benavente insurge-se contra a criação do prémio para o "melhor" professor. Mesmo descontando a sua aversão às avaliações, está apesar de tudo a ser ingrata, já que o prémio foi atribuído a um colaborador do ministério desde há longa data, ao longo de vários governos do centrão, incluindo aquele de que Benavente fez parte, e em consonância com muitas das suas ideias. (O vencedor tem outros méritos, quanto a mim mais sólidos, mas também esses deixam Benavente indiferente.)

No fim do artigo, escreve: "As únicas críticas sistemáticas às agressões quotidianas à liberdade de expressão são as do Gato Fedorento". A professora só pode estar distraída: um telespectador atento não precisa de estudos sociológicos para ver que os Gato Fedorento desempenham, no presente, a função de descompressão do teatro de revista de outros tempos.

As raparigas em flor ficam na sombra


Anne-Lorraine Schmitt foi assassinada no dia 25 de novembro perto de uma estação do RER de Paris. O jovem (creio que é assim que devo escrever) que a agrediu com uma faca já tinha sido condenado anteriormente por violência sexual. Tentou reincidir com Anne-Lorraine, mas a rapariga resistiu e conseguiu feri-lo também com a própria arma, o que facilitou a captura do alegado assassino. A indústria da informação não pôde dedicar muito espaço ao assunto por causa do acidente com uma mota roubada em que morreram dois jovens. As cerimónias fúnebres de Anne-Lorraine Schmitt realizaram-se ontem.

sábado, dezembro 1

Luz de crise


Alguém disse natal?

Sistematizando a histeria

Lista completa e documentada dos efeitos do aquecimento global.

A ciência tudo explica

Em Amsterdão, cidade de todas as liberdades e tolerâncias, houve em 2006 registo de 32 crimes tendo homossexuais como alvo, e na primeira metade de 2007 a lista já soma 26. Perante este mistério, o presidente da Câmara Municipal encomendou um estudo à Universidade de Amsterdão, conta a Spiegel, com o objectivo de descortinar a razão dos ataques. E fez bem, porque, como é hábito, a ciência é que tem as chaves da verdade, mesmo que contrariem o senso comum. Descobriu-se assim que metade dos crimes foram cometidos por norte-africanos "estigmatizados pela sociedade", o que os terá levado a atacar "os que eles encaram como pertencendo aos estratos inferiores da escala social". Mas esta pode não ser a única razão: outra teoria sustenta que "os agressores lutam contra a sua própria identidade sexual." Ora, ora.

sexta-feira, novembro 30

"No"


Fascistas encheram ontem a avenida Bolivar, em Caracas. (Foto: The Devil's excrement) De acordo com o que conta o NYTimes, são cada vez mais os venezuelanos que não compreendem os benefícios do socialismo. Hoje será a vez do "sim" encher a avenida.

quinta-feira, novembro 29

Se viaja para o Reino Unido, cuidado com a língua

Um homem de 55 anos foi condenado a 10 dias de prisão (suspensa) por ter tido o azar de chamar puta inglesa a uma senhora de Gales. Tudo se passou na sequência de uma discussão por causa de um carro riscado. O crime que figura no veredicto: chamar nomes a um urso de peluche, perdão, enganei-me, comportamento racista agravado.

A anemia vocabular

Sobre as últimas notícias de repressão à oposição a Putin, grandes dirigentes mundiais aprimoraram-se na escolha dos verbos para exprimir estados de espírito.

Barroso: "I was very concerned..."

Bernard Kouchner: "I am surprised by this violence." Atreveu-se a pedir uma explicação.

Bush: "I am deeply concerned..."

Face ao horror que se abate sobre a professora inglesa presa no Sudão, Gordon Brown "was disappointed..." Actualização: Sabe-se agora (20.00h) que a professora foi condenada apenas a 15 dias de prisão seguida de expulsão. O Foreign Office já manifestou "disappointment", enquanto o Muslim Council of Britain, mais impressionável, se declarou "appalled" (as notícias dão a entender que é porque consideram a pena dura demais, não imaginemos coisas). Malcolm Moss, um conservador do Commons foreign affairs committee, disse que tudo isto é "disgraceful".

Exércitos de imaginativos assessores afadigam-se, certamente, a organizar listas de verbos, substantivos e adjectivos (não sei se ainda se diz assim) não contundentes. Do outro lado, alguém se ri desta gramática. Eles também a conhecem mas usam, em paralelo, meios mais persuasivos.

terça-feira, novembro 27

A virgem e as socialistas (ou o grau zero da lucidez)



Se concebeu o filho, não o fez certamente sendo virgem. No dia em que fomos informados de que uma professora se arrisca a prisão e 40 chicotadas no Sudão por causa de um ursinho de peluche, e poucos dias depois da condenação de uma jovem na Arábia Saudita a 200 chicotadas por ter estado num carro com um homem, o grande motivo de indignação destas básicas é o discurso da Igreja Católica sobre a Virgem Maria. Pobres loucas, não percebem que a sua campanha tem menos sentido do que pedir uma edição revista do Memorial do Convento em que Blimunda não escuta vozes nem guarda vontades numa garrafa. O melhor é fazerem já as malas e iniciarem por esse mundo fora a campanha de mudança de etiquetas que se impõe: Prado, Brera, Uffizzi, Vaticano, Louvre, Alte Pinacotek, Metropolitan... o mundo espera-vos para ficar limpo de poesia e mistério.

segunda-feira, novembro 26

Outra mudança faz de mor espanto...

A grande palavra-chave das ciências humanas nos dias que correm não é globalização, não é acção afirmativa, não é minorias e desigualdades, nada disso. O grande tema da investigação pós-moderna parece ser o contexto de mudança. Pelo menos é o que se depreende de títulos que se apanham a granel.

DESENVOLVER E GERIR COMPETÊNCIAS EM CONTEXTO DE MUDANÇA (Publicado na Revista Hotéis de Portugal – Julho/Agosto 2004)
As Ciências Sociais - Cultura e desenvolvimento organizacionais em contexto de mudança
Modelação das preferências modais em contexto de mudança: elementos para a definição de políticas de transportes em Portugal. CESUR IST
"Justiça Relacional nas Organizações e Comportamento Humano em Contexto de Mudança", apresentada no Encontro de Psicologia Social e Organizacional, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Lisboa.
A cultura profissional de professores de Matemática e o trabalho colegial entre professores em contexto de mudança curricular...
Ser Professor em contexto de mudança
o trabalho intelectual-profissional em contexto de mudança social
As actividades de enriquecimento curricular em contexto de mudança”.
Representações sobre aborto: activismo, (i)legalidades e saúde reprodutiva num contexto em mudança

A lista está muito longe de ser exaustiva. Sente-se aqui um filão com grande força. Admira não haver ainda um esforço sinergético, criando por exemplo departamentos universitários ou projectos de investigação para aprofundar cientificamente o contexto de mudança per se. Uma licenciatura em contexto de mudança também não ficava mal e, a julgar pela amostra, os alunos sairiam armados de competências polivalentes que lhes permitiriam empregabilidade imediata.

sábado, novembro 24

O fabuloso destino de Olga Almeida

A senhora que se fazia passar por juíza ou advogada para extorquir dinheiro a pessoas e empresas publicamente indiciadas por dívidas vai, provavelmente, ser libertada, por já ter cumprido três anos de prisão preventiva. Agia por dificuldades financeiras. Um problema de muita gente, que provavelmente não terminará aqui. Faz bem por isso o Estado ao não permitir a publicitação das suas próprias dívidas. Era o que faltava, sujeitar-se (e a todos nós por arrastamento) às investidas de uma Olga qualquer. Os particulares que a aturem.

sexta-feira, novembro 23

Prémio Rádio Clube



João Guerreiro, vencedor das Olimpíadas Ibero-Americanas de Matemática, 20 valores no exame nacional, actualmente no programa Novos Talentos em Matemática da Fundação Calouste Gulbenkian, acaba de vencer também a competição para Jovem do Ano no Rádio Clube. Os outros concorrentes eram Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento, Pacman, vocalista dos Da Weasel e o jornalista João Pereira Coutinho. Votaram ouvintes do Rádio Clube (entre os quais eu) e leitores do Metro.

quinta-feira, novembro 22

Desminto

Quando fiz o post anterior, não era minha intenção dizer que as fotos tinham sido tiradas de manhã. E até podem não ter sido tiradas em Carnide. O que quis dizer é que Carnide de manhã é exactamente assim.

quarta-feira, novembro 21

terça-feira, novembro 20

O Le Monde escreve sobre Chávez

No editorial de ontem:

O activismo de Chávez na cena internacional, da América Latina ao Médio Oriente, da Rússia à França, acompanha-se na Venezuela de uma evolução inquietante para um regime autoritário. A gestão errática dos imensos recursos petrolíferos, desmultiplicadas por um preço do barril próximo dos 100 dólares, começa a prejudicar os programas sociais que valeram ao chefe do Estado uma popularidade sólida.

A concentração dos poderes em benefício do presidente da república, a ausência de diálogo com a oposição, a desqualificação do movimento estudantil, classificado de "fascista", o encorajamento de bandos armados (...) numa palavra, a militarização da vida política, são acompanhadas de ma corrupção sem precedente. Esta é favorecida pela opacidade das despesas públicas e pela criação de orçamentos paralelos.

O populismo não é boa solução em parte alguma.


Actualização:

Communiqué du Parti socialiste sur le Vénézuéla
Lundi 12 novembre 2007
Les électeurs vénézuéliens doivent se prononcer le 2 décembre prochain sur une réforme constitutionnelle proposée par le président Hugo Chavez. Cette réforme prétend donner au Venezuela le caractère d’État socialiste. Le Parti socialiste remarque que ce choix altère la neutralité de la démocratie vénézuélienne. Il est à l’origine d’un regain de tensions porteur de graves divisions citoyennes.

Le 7 novembre, un groupe de personnes armées a pénétré sur le campus de l’Université centrale (UCV) pour agresser des étudiants opposés à cette réforme. Neuf étudiants ont été hospitalisés. Trois d’entre eux ont été blessés par balles. Le Parti socialiste condamne ces violences et l’intolérance qu’elles révèlent. Il demande que le débat entre opposants et partisans de cette modification de la Constitution puisse garder la forme d’un échange d’arguments sanctionné le 2 décembre par les urnes.


(através de um comentário aqui )

terça-feira, novembro 13

Diálogo de civilizações

Um responsável do parlamento iraniano, Mohsen Yahyavi, teve há pouco tempo uma entrevista com membros do parlamento britânico onde foram discutidos direitos humanos. De acordo com o Times, o diálogo pode ter sido mais ou menos assim:

-Olhe, nós estamos muito preocupados com as notícias de que homossexuais continuam a ser condenados à morte no seu país.

-Sabe, de acordo com o Islão não se pode permitir a existência de gays e lésbicas.

-Mas confirma que existem, e que os executam!

-A actividade homossexual em privado não tem mal nenhum, mas quem faz isso às claras merece ser torturado.

-Torturado?! Que coisa tão inadequada.

-Sorry, eu queria só dizer enforcado. Do modo como nós os enforcamos dá equivalência.

-Ah... Mas vocês estão a enforcar miúdos tão novos... não acham que que deveriam suspender esse tipo de execuções?

-Ora, minha senhora, eles merecem porque anda a propagar a SIDA.

-De qualquer maneira parece-nos excessivo que apliquem a pena de morte. As pessoas não escolhem a sua orientação sexual.

-Esse conceito não existe no Islão. Foi inventado para corromper a natureza humana. Alá criou-nos para nos reproduzirmos. Os homossexuais não se reproduzem.

-Também nos preocupa muito a notícia de que uma mulher engravidada pelo irmão foi condenada á morte e vai ser enforcada publicamente. O irmão foi absolvido com base no arrependimento. Não acha que há aqui uma desigualdade de tratamento inaceitável relativamente a homens e mulheres?

-Tem toda a razão. Talvez devêssemos ter apedrejado o irmão.

-Oh! Não era bem o que queríamos dizer...

-Bom, de qualquer modo esta troca de impressões correu muito bem. Tomei notas que serão muito úteis. Agora tenho que ir, um resto de bom dia.

-Bom dia.

segunda-feira, novembro 12

O redondo vocábulo

O grande sucesso do fim de semana é a frase do Rei "Porque não te calas?". Compreendo o enfado e falta de pachorra de Sua Majestade. Para além disso, no entanto, talvez haja uma incompreensão generalizada do insulto que muitos confundem com o valor facial da palavra "fascista". Fascista, nas bocas de esquerdalhos que não conhecem mais números do que zero e um (e mesmo assim não compreendem o que é o zero) é simplesmente um sinónimo vulgar de cabrão ou filho da puta. E, tal como um filho da puta chama isso a outros, tornou-se frequente o insulto "fascista" ou a sua variante "nazi" ser proferido por quem tem tendências fascistas ou nazis ou seus apoiantes.

Dado o empobrecimento semântico do vocábulo, mais vale deixá-lo morrer na companhia do cabrão e do filho de puta, que é a que merece. A grande questão não é mandar calar: é falar e não desistir de fazer ver que, de acordo com o que sabemos hoje, "comunista" é um candidato a sinónimo tão bom como o outro. E, já agora, pode-se-lhe juntar esse curioso aliado circunstancial, o islamismo como ideologia de estado. Apontar o mal é a melhor ajuda que se pode dar aos que lutam pela liberdade, em condições muito difíceis, sob os modernos regimes totalitários. Não foi evitando nomear as raizes do mal que se ajudou a cair um muro, há uns anos atrás.

O fim da ASJ?

A Associação Sindical de Juízes está a pressionar contra a aplicação a estes profissionais do estatuto de funcionário público. Eles não dizem, porque não é necessário, mas certamente que, em coerência, a vitória deverá implicar a implosão da ASJ.

domingo, novembro 4

Conversas de urinol



Ontem, na Universidade de Nova York, realizou-se a conferência Outing the Water Closet: Sex, Gender, and the Public Toilet . O programa pode ser consultado aqui

Podemos ter uma ideia dos temas abordados através dos trabalhos de Ruth Barcan, uma das conferencistas, professora de estudos de género na Universidadede de Sydney. Por exemplo, num artigo publicado no Journal of International Women’s Studies Vol 6 #2, 2005, Barcan chama a atenção para a subtil diferença entre "limpeza" e "sinais de limpeza":

Modern westerners avidly consume the signs of cleanliness, which may or may not have much to do with actual cleanliness or health. For example, chemical air-fresheners do not cleanse or purify the air but mask the smells we associate with dirtiness using a blend of (arguably) toxic chemicals. (One of the men in my study said there were “two schools of thought” about whether or not so-called “trough lollies” [urinal deodorizers] actually improve the smell of urinals. “It’s the kind of debate men have at pubs,” he said.)

E mais à frente: The increasingly avid consumption of signs of cleanliness is made possible by the experiential and conceptual distancing from nature brought about by modernity. Modernity is characterized by ambivalence about nature (...)

Se não fosse este artigo eu nunca viria a ter consciência de que a minha empregada, a Dona Vitória (que muito prezo) é adepta fervorosa da modernidade.

O artigo contém muitos outros profundos e inesperados ensinamentos, mas não deve ser lido durante uma refeição.

(Na foto: urinóis do Cinema São Jorge, Lisboa.)

segunda-feira, outubro 29

No inferno do ensino/aprendizagem



Vamos lá ver se dou conta do recado esta semana. Para começar, vou identificar as situações-problema, fazer uma ficha de avaliação diagnóstica e elaborar o plano de recuperação. Não posso esquecer-me de descrever as metodologias a adoptar, o plano de acção a desenvolver e as metas a atingir.
Vou ter o cuidado de seleccionar as estratégias de ensino aprendizagem de acordo com a complexidade dos conteúdos e as aprendizagens anteriores dos alunos. Vai dar-me algum trabalho preencher aquela lista de recursos diversificados de ensino/aprendizagem, mas lá chegarei.
Tenho que incluir algumas fichas de avaliação formativa e um plano de integração na área de projecto. Que sorte a minha escola ser agora um TEIP. Bem, mas não posso divagar, senão não me vai chegar o fim de semana para preencher as grelhas sobre intervenção oral e compreensão escrita que ainda tenho pendentes da semana passada. Ainda vou ter que combinar com a coordenadora do Eco-Clube a sessão de leitura de folhetos publicitários impressos em papel reciclável. Se ela não estiver de acordo, não me atrapalho, deixo isso para uma OTE ou uma TOA, talvez aquela do desenvolvimento das relações inter-pessoais e da alteração de comportamentos e atitudes.
Ao menos, enquanto estou entretida nisto, não me vem à cabeça a cena do aluno que me apalpou as mamas há quinze dias e que quase me ia despindo em plena sala de aula.

quinta-feira, outubro 18

Che fracturante



O editorial do El País "Caudillo Guevara", publicado no dia 10 de Outubro, é desaprovado por mais de dois terços da redacção, soube-se hoje. "O texto não abordava na sua totalidade uma figura suficientemente complexa para ser tratada como se não houvesse uma gradação de cinzentos."

(Foto em Little Green Footballs)

P.S. Che é (literalmente) fracturante também na Veneuela, onde um monumento em vidro, em sua memória, foi destruído menos de três semanas depois da inauguração.

domingo, outubro 14

Doris Lessing sobre o politicamente correcto como legado do Comunismo

Apesar da morte do Comunismo, os modos de pensar a que ele deu origem ou força ainda dominam as nossas vidas. Nem todos são tão evidentes (...) como o politicamente correcto.

Primeiro ponto: a linguagem. (...)Há uma gíria Comunista reconhecível em cada frase. Pouca gente na Europa não brincou com "passos concretos", "contradições", "interpenetração dos opostos" e por aí fora.

A primeira vez que vi que os mortíferos slogans tinham asas para voar para bem longe das suas origens foi num artigo do Times em 1950. "A manifestação de sábado foi uma prova irrefutável de que a situação concreta..." Palavras confinadas à esquerda (...) tinham adquirido utilização comum e, juntamente com elas, as ideias. Encontravam-se artigos na imprensa conservadora e liberal que eram marxistas, mas os autores não o sabiam. Mas há um aspecto desta herança muito mais difícil de ver.

(...) O Izvestia, o Pravda e muitos outros jornais comunistas eram escritos numa linguagem que parecia concebida para encher o maior espaço possível sem dizer nada. (...) Mas a herança da linguagem morta e vazia nos dias de hoje encontra-se nas universidades, particularmente em áreas da sociologia e da psicologia.


O segundo ponto liga-se com o primeiro. (...) A todos os escritores se pergunta: "Acha que um escritor devia...?" A pergunta tem sempre a ver com uma posição política e por detrás da pergunta assume-se que todos os escritores deveriam agir do mesmo modo (...) Outro exemplo é o do "compromisso", tão em moda não há muito tempo. Fulano de tal é um ecritor comprometido?

Ao "compromisso" veio seguir-se o "alertar das consciências". (...) Aqueles cujas consciências são alertadas podem receber a informação de que necessitam desesperadamente (...) mas o processo quase sempre significa que o receptor só tem acesso a propaganda aprovada pelo instrutor.


A exigência de que um trabalho da imaginação, uma história, tenha que ser "acerca de" alguma coisa vem do pensamento comunista e, mais atrás ainda, do pensamento religioso (...)

O politicamente correcto tem um lado bom? Sim, porque nos leva a reexaminar atitudes (...) O problema é que em todos os movimentos populares a franja lunática rapidamente deixa de ser franja; é a cauda que passa a abanar o cão. Por cada um que está a tentar uma análise séria e cuidada, há 20 agitadores cuja real motivação é o poder sobre os outros (...)

Tenho a certeza de que milhões de pessoas, a quem o tapete do Comunismo foi retirado, estão desvairadamente à procura, sem o saberem, de outro dogma.


Escrito em 1992 e republicado ontem no New York Times. Via The reference frame.

sábado, outubro 13

Há 700 anos




No dia 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira, foi executada a acção policial que Guillaume de Nogaret, ministro de Filipe IV de França, preparou cuidadosamente, e em que foram presos membros da ordem dos Templários por toda a França. O grão-mestre, Jacques De Molay, estava em Paris, onde tinha participado no funeral da cunhada do rei.

A memória de Nogaret é evocada, na literatura ndo século XX, através de uma personagem com o mesmo nome na novela Monsieur de Lawrence Durrell.

Conversa no jardim de Évora



-Já não vale a pena, agora fazes o que tu quiseres.
-Ora, aposto que tu ainda arranjas outra pessoa mais depressa que eu.
-Sei lá, o que eu menos penso agora é arranjar.
-Se não arranjas, ao menos deixas-te arranjar, que eu sei muito bem. Não te dou nem um mês que já estás acompanhada.
-Ó amor, ai porra, desculpa, ó Joaquim, pára com essas merdas agora que acabou tudo.

quarta-feira, outubro 10

O véu mental

O governo inglês acaba de anunciar uma lei que pune crimes de ódio contra "gays" com pena até sete anos de prisão. Cabe à polícia avaliar se os delitos caem dentro da alçada da nova lei, que abrange também lésbicas e bisexuais. Ficam de fora por enquanto os "trangéneros". Como o conceito de "crime" introduzido é muito lato e ambíguo, é natural que no futuro próximo em Inglaterra só se possa fazer humor sobre heterosexuais empedernidos, o que pode fazer o nível das piadas cair a pique. A notícia já gerou no Daily Mail online o dobro do número de comentários à do caso Maddie.

Em Itália está em discussão o uso da burka. Um magistrado de Treviso, Vittorio Capocelli, emitiu parecer favorável ao uso e logo foi apoiado pela ministra da família, Rosy Bindi, para quem o véu é manifestação de uma cultura escolhida livremente. As opiniões estão fracturadas, com os "progressistas" do costume a secundarem Capocelli e Bindi. Muitos europeus já escolheram, livremente, o uso de um véu mental.

sábado, outubro 6

Matemática para o ensino básico: um programa e muito mais

Terminou a "discussão pública" do "reajustamento" do programa de Matemática para o Ensino Básico. Significa isto que uma comissão andou a redigir uma proposta e que algumas pessoas e grupos deram a conhecer ao Ministério da Educação as suas palmas ou assobios a esse respeito. Depois, feitas no esboço modificações insignificantes para que se possa dizer que houve discussão e consenso alargado, haverá um programa homologado e, na melhor das hipóteses, tudo continuará na mesma: quero dizer, vai haver maus resultados em Matemática como é costume, e o Ministério procurará combatê-los com engenharias avaliativas.

O programa de Matemática enumera os tópicos da disciplina que devem ser ensinados e aprendidos. Não o faz com grande auto-exigência de rigor e conexão (ao contrário do que pede aos estudantes, que devem "compreender como as ideias matemáticas se inter-relacionam e se apoiam umas nas outras constituindo um todo coerente" (pág. 8)), mas daí não decorre qualquer desastre. O resultado da aprendizagem está, em última análise, nas mãos de um punhado de bons professores, que ainda existem. Seria óptimo que houvesse programas bem estruturados e bem redigidos, mas mesmo a partir de um mau programa é possível escrever bons manuais e dar boas aulas.

O problema, com este e suponho que com programas de outras disciplinas, é o excesso de coisas que lá se dizem. Desde que os "especialistas em educação" passaram a ter voz de comando na produção destes documentos, os chamados "programas" economizam em qualidade científica e pedagógica o que esbanjam em indicações metodológicas espartilhantes, teorização barata e chavões repescados por copy-paste de teses, relatórios e outros documentos: de há uns anos para cá, sempre que sai um novo "programa", temos a sensação de estar sempre a ler a mesma coisa.

Este aspecto poderia ser inócuo, mas não é. O "programa" assume-se como primeiro elemento de um big brother que emana do ministério e pretende vigiar com suspeita minúcia a actividade do professor ("Trabalhar apenas com dízimas infinitas periódicas cujo período tem no máximo três algarismos.", p. 55). A desorientação que o palavroso texto é susceptível de provocar a qualquer professor menos seguro, ou que não tenha suficiente sentido de humor para sorrir ao lê-lo, é coerente com os variados procedimentos absurdos a que a vida na escola actualmente obriga os docentes, transformando-lhes a profissão num pequeno inferno.

Repare-se, a título de exemplo, na insistência com que está escrito que os alunos devem desenvolver

capacidade de abstracção e generalização e de compreender e elaborar uma argumentação
matemática e raciocínios lógicos;
capacidade de comunicar em Matemática, oralmente e por escrito, descrevendo, explicando e justificando as suas ideias, as estratégias e procedimentos que utiliza e os raciocínios, resultados e conclusões a que chega (p. 5);

acompanhar e analisar um raciocínio ou estratégia matemática.
descrever e explicar, oralmente e por escrito, as estratégias e procedimentos matemáticos que utilizam e os resultados a que chegam oralmente e por escrito, descrever a sua compreensão matemática, os procedimentos matemáticos que utilizam, e explicar a sua argumentação (p7)

desenvolver e discutir argumentos matemáticos (p8)


e mais à frente repisa-se que os alunos devem

Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar em contextos numéricos(p.16)
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar recorrendo a representações simbólicas(p.47)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos relativos a resultados, processos e ideias matemáticos;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p. 50)


e, não vá alguém esquecer-se, recorda-se que os alunos devem ser capazes de

Explicar e justificar os processos, resultados e ideias matemáticos.
Apresentar ideias e processos matemáticos, oralmente e por escrito, usando a notação, simbologia e vocabulário próprios (p. 52)

Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos incluindo cadeias dedutivas;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p67).


É claro que muitas das recomendações lá escritas, mesmo quando têm em vista um mundo ideal que não existe na grande maioria das escolas, são bem intencionadas. O problema é que ou são irrealistas ou não valia a pena escrevê-las. Qual é o professor de Matemática dotado de bom senso que precisa de que lhe digam, por exemplo, que

promover o raciocínio e a comunicação matemáticos(...) constituem também importantes orientações metodológicas para estruturar as actividades a realizar em aula (p11) ?

domingo, setembro 30

Contribuição de Ahmadinejad para o avanço teórico dos estudos GLBT

A imprensa e as televisões deram alguma atenção às gargalhadas que se seguiram à afirmação do Presidente do Irão na Universidade de Columbia, no início da semana: "No Irão não há homossexuais. Não sei quem lhes disse que tínhamos lá isso."

É fácil rir deste tipo de "bocas", mas isso pode ser compatível com uma visão turva das coisas. Quando perguntaram a Ahmadinejad, nessa sessão, porque executavam homossexuais no Irão, o Presidente respondeu com um desvio, mais ou menos assim: nos Estados Unidos também se executam traficantes de droga, porque eles são maus para a sociedade. E parece que esta justificação mereceu uma ovação da estudantada.

Mas o subproduto mais curioso, embora não o mais surpreendente, da presença de Ahmadinejad na Universidade, é a tomada de posição da Columbia Queer Alliance:

Não temos a pretensão de compreender as múltiplas e diversas experiências de viver com desejos pelo mesmo sexo (repare-se no cuidado com a terminologia) no Irão. Os nossos valores culturais e experiência são diferentes, mas a questão é a mesma: o direito humano essencial de exprimir livremente os desejos.

Além disso, gostaríamos que os media e as organizações estudantis fossem cautelosos com o uso dos termos "gay", "lésbica", "homossexual" para descrever as pessoas que no Irão se envolvem em práticas com o mesmo sexo e sentem desejo pelo mesmo sexo. A construção da orientação sexual como identidade social e política, e todo o inerente vocabulário, são um produto cultural ocidental. Por isso, os estudiosos da sexualidade no Médio Oriente usam em geral termos como "práticas com o mesmo sexo" e "desejo pelo mesmo sexo", como reconhecimento da inadequação da terminologia ocidental. A presença do Presidente Ahmadinejad no campus constituiu um estímulo para reflectirmos sobre várias questões, mas o que mais nos interessa são as complexidades de como a identidade sexual é construída e compreendida em diferentes lugares do mundo.


Compreende-se que não seja dada muita atenção a posições como esta. Seria indelicado para com Ahmadinejad: estes tipos são bem mais cómicos que o Presidente.

sexta-feira, setembro 21

A revista




Por iniciativa da Cãmara de Lisboa, vem aí a recuperação do Parque Mayer com "qualquer coisa de teatro de revista", segundo o PÚBLICO de hoje. É um género que "tem público", dizem eles. Terá? Bem, de acordo com o cartaz dos teatros, só se classificarmos a Música no Coração como revista à portuguesa.

Juntando as peças, no entanto, certas coisas passam a fazer sentido.

Até 1973, no Teatro maria Vitória encenavam-se duas ou três revistas por ano; "Ver, ouvir e calar" teve o seu nome alterado para "Ver, ouvir e falar" em 1974, e daí em diante, foram raros os anos em que mais de uma revista subiu à cena, até à quase extinção da actividade.

As recentes iniciativas do governo para limitar a liberdade de expressão mais não são, certamente, que um convite à criatividade dos autores de revista. Num tempo em que as piadas de sexo se banalizaram, a revista não pode sobreviver sem a aparência de furar uma censura qualquer. Recriando um ambiente com suaves reminiscências de Estado Novo, talvez a revista à portuguesa seja de novo viável. Está em marcha a "criação de novos públicos", que muitos tanto apreciam referir. Afinal é tudo pela arte.

(Foto: http://germana-teatro.blogspot.com/)