quinta-feira, janeiro 10

A escolha ardilosa




No Casamento Ardiloso, Cervantes conta a história do alferes Campuzano, de quem Dona Estefânia de Caicedo se acerca exibindo a sua rica casa; Campuzano, por sua vez, exibe o seu ouro. Decidem juntar os trapinhos, cada um acreditando fazer bom negócio. Um dia bate à porta Dona Clementa, acompanhada de Lope Armendárez. Estefânia implora a Campuzano que é preciso sair rapidamente, pois prometera a Clementa, uma boa amiga, emprestar-lhe a casa para que ela pudesse conquistar Armendárez. Pedem abrigo em casa de outra amiga de Estefânia. Estefânia acaba por fugir com o ouro de Campuzano e um amante, enquanto a hospedeira explica a Campuzano que a casa onde tinha vivido com Estefânia pertencia de facto a Dona Clementa. Campuzano só tem um consolo para a sua amargura: é que o ouro que mostrara a Estefania, para a conquistar, era falso.

As comédias onde todos enganam todos são clássicos. Já no tempo de Cervantes não eram originais.

PS (e PSD, já agora): O ponto fraco tanto de Alverca como do Montijo é já terem aeroportos construídos.
(Fotos em http://www.pelicano.com.pt/zmapa.html)

quarta-feira, janeiro 9

A praga dos portadores de desculpas

Está a ser organizada uma missão de desagravo a Ahmadinejad: um grupo de professores da Universidade de Colúmbia vai a Teerão apresentar desculpas pelo modo como o presidente do Irão foi tratado na visita recente àquela universidade. São professores de história, antropologia, filosofia e estudos islâmicos e do Médio Oriente.

Havendo na mesma instituição vários grupos que se interessam pelo mistério da problemática gay-lésbica-bi-tri etc, não se compreende que sejam deixados de fora da prestimosa delegação. Tanta falta de curiosidade científica fica mal numa universidade. Perdem uma oportunidade única para estudar um país onde não há gays.

domingo, janeiro 6

Paradoxos

Os laicistas abrigados em governos socialistas e suas organizações apoiantes transformaram uma sensibilidade comum a várias camadas da sociedade numa atitude sectária e burocrática ao serviço das suas utopias no âmbito da engenharia social. Em Portugal o facto não se nota muito, mas nos países europeus com grande imigração islâmica eles têm o rabo de fora: não são na verdade pregadores da laicidade, mas sim pregadores anti-católicos ou anti-cristãos. Na verdade, não só evitam criticar as práticas retrógradas do Islão como surgem frequentemente associados a iniciativas de "diálogo" com os que pretendem destruir o nosso modo de vida à custa de sucessivas cedências.

Curiosa e paradoxalmente, talvez o substracto moral da cultura ocidental, com as suas raízes cristãs, nunca tenha estado tão viva como no caldo de cultura socialista, tal como ele chega ao homem comum. Amamos, compreendemos e perdoamos o outro, mesmo que ele nos queira aniquilar. Se nos agridem, cedemos a outra face. Detestamos os ricos, esses malvados a quem está vedado o reino dos céus, e em nome da bem-aventurança dos pobres e oprimidos continuamos a venerar utopias que trazem consigo ainda mais opressão. Mesmo para a piedade ecológica pós-moderna encontramos como referente o santo de Assis que agora não poderá dar o nome a escola alguma.

Os nossos antepassados medievais, esses brutos pouco respeitadores das culturas diferentes, eram certamente menos cristãos. Sem a beligerância dos cruzados e de alguns monarcas europeus, a Europa poderia ser actualmente um mundo de mesquitas em vez de catedrais, um mundo de submissão e de mulheres com o rosto tapado .

Infelizmente, há sinais de que podemos resvalar silenciosamente em direcção a esse mundo escuro e triste. Entretidos a autoflagelar-nos pelos nossos pecados e a oferecê-los de bandeja como justificativo de agressões consumadas ou em preparação, os sinais vão passando quase despercebidos. Em 2004, a Espanha votou de modo não condicionado? Não sei. Que em 2008 alguém enterrou para sempre um certo rali, é certo. O caso em si parece de impacto limitado, mas fica bem claro que o método funciona. Habituados a contemplar a realidade como paisagem estável, não valorizamos as pequenas mudanças. Fala-se de "vitória do terrorismo" a respeito do Dakar sem convicção de que se trata de um passo minúsculo até à verdadeira vitória: a nossa aniquilação. Vamos esperar cristãmente, sentados, pela coacção que se segue.

sexta-feira, janeiro 4

Pergunta


Hoje apetece parafrasear a pergunta de Santiago, o protagonista de uma das melhores novelas de Mário Vargas Llosa: Em que momento se terá fodido Portugal?

terça-feira, janeiro 1

O amor nos tempos de internet (14)


De regresso a Lisboa, parei para descansar na área de serviço de Grândola. Estava a sorver o café quando tocou o telemóvel: o Eduardo. “Pai, a mãe foi assaltada de esticão.” Pobre Margarida, pensei, já não bastava o azar que teve comigo.
Oh! Mas onde aconteceu isso?
A mãe e a Micky. Na rua do tio Ricardo. Almoçaram lá e iam entrar para o carro da Micky. Fugiram-lhes com as carteiras e arrancaram a pulseira à mãe.
Mas ela ficou mal?
Foi só o susto e um braço dorido, mas nada de cuidado. A desgraçada da Micky é que caiu ao chão e fez um hematoma na cabeça. Fui com ela ao hospital e acho que está sob controle.
A que horas foi isso?
Eram três e meia.
Mas como foi?
Dois tipos saíram de um carro, tiraram-lhes as malas e arrancaram logo no mesmo carro.
Já foram à polícia?
Eu vou agora com a mãe. Ela amanhã precisa do seguro do carro, ficou sem documentos.
Está bem, diz-lhe que não se preocupe, alguma coisa que for preciso eu trato logo de manhã.

Antes de voltar para o carro fui à casa de banho. Em frente do espelho, um homem alto e magro, aparentando ter mais ou menos a minha idade, chorava a soluços soltos. Perturbado com a minha entrada, baixou-se para o lavatório e começou a enxaguar o rosto e os olhos sob o jorro da torneira. Para minorar o efeito da minha intromissão, fechei-me num gabinete. Os soluços pararam logo e pouco depois ouvi o secador de mãos e o homem a sair. Saí também rapidamente e ainda vi o homem a entrar num Audi 8. Esperei que ele arrancasse e passasse diante do meu carro: no lugar do passageiro, uma mulher que me pareceu não ter mais que uns trinta anos gesticulava e discutia com ele aos berros. Entrei na auto-estrada atrás deles e por alguns minutos mantive-me atrás do Audi, intrigado e fascinado com o drama desconhecido de que tinha presenciado um sinal.

Porquê ou por quem teria chorado o homem? Que privação ou dor enorme lhe teria posto os olhos no estado em que o surpreendi no lavabo? Inevitavelmente, comparei-me com ele. Não me lembro de chorar mesmo depois do abandono pela Sofia, mas alguma coisa dentro de mim tinha passado por estados equivalentes aos olhos marejados do desconhecido. De modo diferente, mas igualmente dilacerante, tinha sofrido quando provoquei a minha separação da Margarida por causa da Sofia. Os momentos mais agudos já tinham passado para o lugar das memórias, mas a instabilidade da minha vida era suficiente para tornar penosas essas evocações. Por momentos, revi-me no homem que chorava: podia ser eu, no quarto ou quinto dia depois de a Sofia sair de casa, terminado o efeito anestésico que se segue ao momento das grandes perdas, com a dor a desabar em cheio, parecendo entornar fluidos amargos nas entranhas do corpo. Podia ser eu dentro de dias.

Tinha combinado com a Rita que nos reencontraríamos na segunda-feira: fui esperá-la às oito depois do trabalho e jantámos ali perto num restaurante com vista para o rio. O ambiente foi quase tenso, as palavras poucas e difíceis. A meio do jantar telefonou outra vez o Eduardo para dizer que precisava que lhe depositasse 500 euros e perguntar se podia levá-lo ao comboio no dia seguinte. Tinham-lhe marcado duas entrevistas em Coimbra, talvez uma possibilidade de estágio estivesse à vista, na empresa do Artur, e podia haver despesas inesperadas. “A que horas vais?” “Tem que ser o das oito, pai.” “Está bem, passo aí às sete e meia”. Sentia-me desfeito mas não podia negar-me. “Pode ser bom, mas ele tem que ter cuidado”, comentou a Rita. Cuidado? perguntei, intrigado. Claro que tem que ter cuidado. Ela sossegou-me: Não ligues.

As coisas azedaram inesperadamente na manhã seguinte. A Rita saiu cedo comigo, passámos em Alvalade e deixámos o Eduardo na gare do Oriente. “Pai, tens aqui uns papéis, vê lá se é importante”, disse ele ao sair. “Aqui no banco de trás.” Diabo do rapaz, pensei eu. “Boa viagem e dá notícias logo." A Rita tinha tomado conta do maço de papéis: notas de trabalho para a empresa e alguns recibos. “Olha, uma conta de restaurante em Lagos?” perguntou com ar de caso. “Não me disseste que ias a Lagos…”
É verdade, fui almoçar com um grande amigo do tempo de escola. A última vez que nos vimos ainda eu estava com a Margarida. Também se separou, há seis meses.
Ela preencheu com amargura e irritação um sorriso que significava: quem é que tu pensas que enganas?
“Ó amor, não te maces a inventar tantos pormenores. Quem comeu o arroz de marisco, tu ou ela?” comentou a Rita com ironia triste.
Oh, Rita, protestei. Não há nenhuma ela dentro dessa conta.
“Mas então porque não me disseste? Deves ter tido qualquer coisa mais interessante para fazer no passeio a Lagos.”
Rita, desculpa, foi uma estupidez da minha parte, as minhas idas e vindas são tão frequentes, não teria interesse para ti.
“Quer dizer que quando me ligaste no domingo depois de almoço estavas em Lagos, porque não disseste?”
Tens razão, não sei o que me passou pela cabeça para não dizer. De qualquer modo ias ficar com o teu pai no domingo, não tinha importância nenhuma.
“Não percebo é o que queres de mim”, disse ela em tom de desabafo desinteressado, “nem porque é que eu estou contigo, mas vou deixar de estar.”
Tomámos o pequeno almoço num café da 24 de Julho, sem trocar uma palavra, e eu segui para o escritório no Blue Garden. O novo seguro tinha de ser anunciado antes do Natal e era urgente pôr os meus problemas pessoais em banho-maria.

2008...



... entrando pela torre Super Bock.

(A torre Super Bock fica numa zona por enquanto livre, na Europa, onde se pode celebrar a passagem de ano sem receio de ataques terroristas em nome de Alá.)

domingo, dezembro 30

Sugestões linguísticas para 2008

Para manter a saúde da língua seria bom que os redactores dos media deixassem de utilizar:

- a feia expressão jurídica em sede de

- as expressões aquilo que é, aqueles que são, etc que só faz perder tempo entre verbo e complemento

- o verbo "acreditar" com o sentido de "estar convencido de" ou, mais precisamente, "querer fazer os outros acreditar que se está convencido de".

Para as aventuras do ensino-barra-aprendizagem, acho que as escolas deviam preencher as horas de enriquecimento curricular com o projecto de ensinar o que, com toda a evidência, não se consegue ensinar nas aulas normais de empobrecimento. Tenho três propostas para actividades muito concretas:

- estudar a diferença entre à e

- estudar a diferença entre pira-se e pirasse, basas-te e basaste (dependendo da turma, poderão ser dados exemplos com verbos mais eruditos, mas é essencial não discriminar ninguém)

- estudar algumas noções sobre colocação de vírgulas em frases simples. Depois pode-se avançar e corrigir a virgulação da sofisticada frase "As actividades de enriquecimento curricular propostas para este ano, pretendem complementar o currículo de cada aluno, desenvolvendo capacidades e competências geradoras de saberes diversos e enriquecedores de cada individuo."

Fatima e os suicídios

"Assim não vais a parte nenhuma. Não tens escolha senão voltar para nós. Esquece o teu marido, o escravo" é o texto de um sms enviado a Fatima pelos seus meio-irmãos. A história passa-se em Jeddah, Arábia Saudita e mostra que os divórcios dos casais felizes também podem acontecer. Os meio-imãos denunciaram a um tribunal a origem tribal do marido de Fatima, exigindo o divórcio. Apesar de casados havia dois anos e com filhos, a sentença do juiz deu razão aos queixosos. Fatima está separada do marido pela força desde 2005, recusando-se no entanto a voltar para a família. Na semana passada, Fatima deu sinais de pensar no suicídio.

Entretanto, um investigador da Universidade King Saud fez um estudo recente sobre o suicídio no país, e concluiu que, das tentativas de suicídio em 2006, 96% eram de mulheres. Muito argutamente, o investigador atribui o facto às fortes pressões sociais e particularmente à prática comum do casamento forçado. Agora sabemos que o divórcio forçado pode levar ao mesmo resultado.

sábado, dezembro 29

Curiosidades do dia

Um deputado egípcio lamenta que o país tenha dado ao mundo a ideia de que aceita a prostituição dos chefes de estado. Nem que Carla Bruni fosse noiva de Sarkozy lhes deveria ter sido permitido partilharem o mesmo quarto de hotel (em Luxor).

Bispo e associação gay-lésbica-etc-etc (em Tenerife) promovem-se mutuamente, vivendo o seu dia de fama.

quinta-feira, dezembro 27

Doutrina e problemas reais

A falta de bom gosto e o discurso burocratizado, irrisório em conteúdo, não se confinam à política: a Igreja também sofre destes males. Um discurso frouxo e sem espessura, como o de José Policarpo no dia de Natal, está mesmo a pedir uma crítica como a de Rui Tavares no PÚBLICO de hoje. Rui Tavares afirma que a estratégia de privilegiar a doutrina abstracta em detrimento da atenção ao mundo real é errada do próprio ponto de vista da Igreja.

Talvez sim, talvez não. Mas se olharmos para essa outra grande religião (digamos assim, para nos entendermos) em expansão, o Islamismo, o que vemos é respeito cego pela doutrina e pouca preocupação com as causas do sofrimento da humanidade e ainda menos dos indivíduos.

A asserção de Rui Tavares não tem aplicabilidade universal. E quando contrapõe ao elogio da "vida eterna" o facto de ela estimular bombistas suicidas, está a manipular sem pudor: a vida eterna de que fala Policarpo não é a mesma de que fala o Corão. Deus não é Alá, e entre os que nem sempre se preocupam em desfazer possíveis confusões estão, isso sim, responsáveis da Igreja.

De qualquer modo, as palavras do cardeal têm certamente importância e influência reduzidas. No âmbito da contradição entre doutrina e problemas do mundo real, as novas igrejas em ascensão são muito mais eficazes e perigosas. Estou a pensar nos crentes, primários ou universitários, no aquecimento global e nos devotos da abrangente culpa ocidental.

quarta-feira, dezembro 26

Presépio na Sé de Lisboa

Dos amantes



Os factos levaram a introduzir duas categorias de pais: os biológicos e os de afecto. Sem explicitação necessária, estas categorias existem também noutros tipos de parentesco, e particularmente entre os amantes. O amante biológico é o que responde antes de mais às urgências do corpo; quando é também amante de afecto ele ou ela é o par ideal com que muitos sonham. A vida, no entanto, obriga frequentemente à separação de funções, e por isso as relações amorosas em equilíbrio podem ter que envolver pelo menos três pessoas. O que, incidentalmente, prova a existência da alma.

(Na foto: Bouguereau, Rapto de Psyche, 1895)

sábado, dezembro 22

UK: a guerra ao pudim



O governo britânico tem um painel de conselheiros preocupado com o desperdício e, em última análise, com a salvação do planeta: o Waste and Resources Action Programme, que recebe 80 milhões de libras por ano. Este natal, o WRAP aconselha o povo a desistir dos tradicionais pudins e substituí-los por gelados. É que, quando uma pessoa se farta do gelado, volta a pô-lo no frigorífico. Está perto o dia em que uma agência governamental irá controlar o lixo de cada um.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, pagava ao WRAP em gelados e não em libras.

sexta-feira, dezembro 21

O fim do sopapo

Já vamos a Espanha para a gasolina, para as compras e para os centros de saúde. Agora as crianças portuguesas, quando souberem disto, também poderão aproveitar as idas a Espanha para se portarem mal: os pais deixam de ter apoio na lei para admoestar os filhos com sopapos ou bofetadas.

terça-feira, dezembro 18

A rapariga de Qatif é perdoada

A mulher violada e condenada a 200 chicotadas na Arábia Saudita foi indultada pelo rei. Em face das reacções internacionais, funcionou o receio de que a execução da sentença prejudicasse ainda mais a imagem do país.

segunda-feira, dezembro 17

Amarelo e laranja

O Canadá e o norte dos Estados Unidos estiveram no fim de semana sob intensas tempestades de neve. Muitos milhares de pessoas ficaram sem energia eléctrica. Tivessem eles os nossos alertas amarelos e alaranjados e nada disto acontecia.

Ele voltou!

sábado, dezembro 15

O significante

Vasco Pulido Valente já podia deixar de incluir aspas quando menciona Europa. Os leitores já sabem que o significado da palavra não é dissociável de quem escreve, e automaticamente imaginará as aspas mesmo quando elas não estiveram lá. Tal como quando lemos liberdade no texto escrito por um comunista.

sexta-feira, dezembro 14

Azevias de grão


Candidatas a alvo do fascismo nutricional.

terça-feira, dezembro 11

A sombra dos cruzados


No dia 27 de novembro, o Fenerbahce perdeu por 3-0 com o Inter. Agora Baris Kaska, advogado turco fanático do seu clube e especialista em direito europeu, pede à UEFA a anulação dos golos como castigo pelas camisolas usadas pelos jogadores do Inter: a grande cruz não passa de uma manifestação racista de superioridade. A foto da equipa não deixa dúvidas: racista até dizer chega.