sábado, dezembro 22

UK: a guerra ao pudim



O governo britânico tem um painel de conselheiros preocupado com o desperdício e, em última análise, com a salvação do planeta: o Waste and Resources Action Programme, que recebe 80 milhões de libras por ano. Este natal, o WRAP aconselha o povo a desistir dos tradicionais pudins e substituí-los por gelados. É que, quando uma pessoa se farta do gelado, volta a pô-lo no frigorífico. Está perto o dia em que uma agência governamental irá controlar o lixo de cada um.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, pagava ao WRAP em gelados e não em libras.

sexta-feira, dezembro 21

O fim do sopapo

Já vamos a Espanha para a gasolina, para as compras e para os centros de saúde. Agora as crianças portuguesas, quando souberem disto, também poderão aproveitar as idas a Espanha para se portarem mal: os pais deixam de ter apoio na lei para admoestar os filhos com sopapos ou bofetadas.

terça-feira, dezembro 18

A rapariga de Qatif é perdoada

A mulher violada e condenada a 200 chicotadas na Arábia Saudita foi indultada pelo rei. Em face das reacções internacionais, funcionou o receio de que a execução da sentença prejudicasse ainda mais a imagem do país.

segunda-feira, dezembro 17

Amarelo e laranja

O Canadá e o norte dos Estados Unidos estiveram no fim de semana sob intensas tempestades de neve. Muitos milhares de pessoas ficaram sem energia eléctrica. Tivessem eles os nossos alertas amarelos e alaranjados e nada disto acontecia.

Ele voltou!

sábado, dezembro 15

O significante

Vasco Pulido Valente já podia deixar de incluir aspas quando menciona Europa. Os leitores já sabem que o significado da palavra não é dissociável de quem escreve, e automaticamente imaginará as aspas mesmo quando elas não estiveram lá. Tal como quando lemos liberdade no texto escrito por um comunista.

sexta-feira, dezembro 14

Azevias de grão


Candidatas a alvo do fascismo nutricional.

terça-feira, dezembro 11

A sombra dos cruzados


No dia 27 de novembro, o Fenerbahce perdeu por 3-0 com o Inter. Agora Baris Kaska, advogado turco fanático do seu clube e especialista em direito europeu, pede à UEFA a anulação dos golos como castigo pelas camisolas usadas pelos jogadores do Inter: a grande cruz não passa de uma manifestação racista de superioridade. A foto da equipa não deixa dúvidas: racista até dizer chega.

domingo, dezembro 9

O amor nos tempos de internet (13)

A ocultação de Matilde tinha-me arrasado. Depois de dois meses sem contacto, dava-a como perdida, mas acordava várias noites com o mesmo sonho: num jantar de amigos alguém me apresentava uma mulher que me encantava; havia cumplicidade nos nossos olhares mas nunca chegava a poder conversar com ela em privado. O jantar acabava consumando a separação. A mulher do sonho não tinha nenhuma semelhança física com a Matilde, mas ao despertar a identificação era clara.

O mês de Dezembro teve duas semanas pesadas. A Rita ultimamente não passava comigo mais do que três ou quatro dias por semana. O pai tinha sido operado a uma hérnia discal e o pretexto da convalescença deu-lhe um argumento cómodo para o afastamento. Sabíamos os dois que as coisas tendiam para o seu fim natural.


No primeiro fim de semana do mês só falei com a Rita por telefone. No sábado fui a Faro para trabalhar com o núcleo local da Companhia sobre os novos produtos em lançamento, e no domingo, no caminho de volta, aproveitei para cumprir uma promessa: almoçar em Lagos com um grande amigo de juventude que tinha ficado pelo Algarve. Tinha-se divorciado há meio ano e não nos víamos desde o meu primeiro casamento. O encontro estava combinado desde um mês atrás e, talvez devido ao declínio do relacionamento com a Rita, tinha achado desnecessário pô-la ao corrente disso.

-Então conta lá.
-Primeiro vamos escolher os pratos.
-Então os senhores já se decidiram?
-Para mim é o arroz de marisco.
-Muito bem, o arrozinho, está uma delícia.
-E tu, Ângelo?
-As lulas são frescas?
-Estão óptimas, pode pedir à confiança.
-Então pode ser lulas para mim.
-As lulinhas, sim senhor. Já trago a carta de vinhos.
-Não traga, eu bebo um sumo de laranja e aqui o meu amigo uma cerveja. É que ainda tenho que ir para a estrada hoje. Pronto, agora já podes começar.
-Pois olha, o essencial já sabes: a estas horas a Lucília está com outro e eu para aqui sozinho.
-Pois, tu contaste. Mas como foi?
-Bom, se calhar fui eu que falhei em primeiro lugar. Acho eu. Nós nunca falámos disto, mas a Lucília começou a esfriar muito há para aí uns dois anos. Eu a princípio nem notei, porque chegava à noite tão cansado que depois do jantar adormecia encostado ao ombro dela.
-Lembro-me de me teres contado que estavas a… como é que tu disseste? pôr uma pedra na fase de macho latino da tua vida. Ah, ah.
-Sim. A idade e o trabalho. E talvez a rotina, embora eu gostasse muito da Lucília. E então aconteceu que ela começou a andar com um gajo, apesar de eu nunca ter conseguido provas a tempo.
-Como é que deste por isso?
-Descobri logo no princípio da coisa. Uma noite ao deitar recebeu uma mensagem no telemóvel e ficou muito nervosa. Disse que era uma colega a tentar trocar o turno com ela para o dia seguinte mas que só ia responder de manhã. Lembro-me de ter ficado muito surpreendido e de sensores alerta, mas na altura nem comentei.
-Ora aqui está a cervejinha e o suminho de laranja.
-Obrigado. E depois, houve mais suspeitas?
-Depois passei rapidamente às certezas. No dia seguinte ela foi para o trabalho no hospital e ligou-me à hora do almoço a dizer que talvez chegasse um pouco mais tarde, para substituir a colega.
-Podia ser verdade.
-Ela sabia que era dia de eu ir a Portimão levar umas encomendas. Mas o caso moía-me a pinha e não fui. Cheguei a casa cedo e liguei-lhe para propor jantarmos fora, mas tive que deixar mensagem porque não me atendeu.
-Podia estar mesmo ocupada.
-Acabou por chegar à meia noite, eu sem comer e sem sono pela primeira vez.
-Mas discutiste com ela?
-Ela percebeu que eu estava furioso mas não tive maneira de a culpar, não tinha provas, só suspeitas. Ela arranjava justificação para tudo.
-Então e quanto tempo se aguentou isso?
-Uns dois meses, com esta cena a repetir-se. Muitas vezes dizia para mim: que burro que és, Ângelo, se não descobres nada é porque é tudo imaginação tua. Doía-me muito, mas não tenho feitio para grandes discussões. A saída que encontrei para suportar a situação foi fazer o mesmo, e para mim era fácil, com as gajas que me aparecem lá na loja. Era só escolher, para todos os gostos e idades. Eu que lhes nunca dava saída, comecei a dar troco e acabei por me enrolar com uma inglesa que mora no Alvor. Ela já tinha vindo cá muitas vezes, andava sempre a mudar de cortinados e estores.
-É normal, ninguém aguenta o mesmo estore mais de um mês. Ah, ah, acabaste por te tornar um engatatão sem querer.
-Chama-se Dora, é uma beleza de mulher e o marido passa a maior parte do ano em Inglaterra. De maneira que a partir daí fui eu quem começou a chegar tarde.
-E gostavas de estar com ela?
-Uma maravilha. Só o meu inglês é que estava emperrado, o resto não.
-Mas levava-la para casa?
-Não, aí é que está. Íamos sempre para casa dela, à entrada do Alvor. E não vais acreditar, mas a Lucília descobriu-me pelo conta-quilómetros.
-O quê? Como é isso?
-Já se percebia que havia qualquer coisa no ar, e entre mim e a Lucília estava tudo frio. Um dia ao fim da tarde, quando saio do carro para tocar à porta da Dora no Alvor, dou com a Lucília. Ainda gozou comigo: ó Ângelo, vens de mãos a abanar, parece que te esqueceste da encomenda.
-Ah, ah, ao menos ela tem humor. Mas como é que ela…
-Pois, a Lucília é um génio. Explicou-me depois que tinha tomado nota das quilometragens vários dias e pelo desvio do normal concluiu que eu fazia uns 50 quilómetros a mais nos dias que lhe levantaram suspeitas. Só nessa altura é que percebi porque é que andava sempre a pedir-me para ir ao supermercado no meu carro. Fez as contas e à quarta tentativa apanhou-me logo. Tinha feito duas incursões em Vila do Bispo e aquela era a segunda no Alvor. Estacionava à entrada à espera de ver chegar o meu carro.
-Que mulher tão fina.
-Podes crer. No fim quem se lixou fui eu. Fui mesmo tanso. Depois aproveitou para me culpar de tudo, até disse que fui eu quem nunca quis um filho.
-Bom, ao menos nesse aspecto foi menos grave o divórcio.
-Pois, mas estou a pagar em euros. E por causa do receio de escândalo fiquei também sem a Dora.
-E afinal a Lucília está com quem?
-Um director de uma agência de um banco de Portimão. Mudou-se para lá.
-Mas é o tipo com quem tu achas que ela se envolveu?
-Não sei, suspeito que sim. Ele tem uma casa em Lagos, estás a ver.
-Ora então aqui estão as lulinhas para o senhor e o arroz de marisco para o seu amigo. E aqui está o azeite. Bom apetite.
-Essa história está a pedir alimento. Que cheiro tão bom, este arroz! No fundo não tens certezas... e uma mulher que faz o que a tua fez com o conta-quilómetros é porque está cheia de ciúmes.
-Sei lá. Acho mas é que ela procurou uma situação que desse para divorciar e ficar a ganhar com isso. Eu é que meti o pé na argola. Se continuo a lembrar-me disto ainda perco o apetite para as lulas.
-Ó Ângelo, isso nem parece teu. Depressa arranjas outra.
-Olha, mas então para me distrair das minhas desgraças conta-me lá como tem sido a tua vida. Porque é que não trouxeste a Rita?

Luzes



sábado, dezembro 8

O mistério da Universidade

Em França já há muitas críticas a Sarkozy, nas vésperas de Kadhaffi armar a sua tenda em Paris. Olhando para os críticos, parece que nem se lembram da grande amizade entre Mitterrand e Arafat. Por motivos muito práticos, Sarkozy acabará perdoado pela sua hospitalidade ao Guia da Líbia. Uma central nuclear, uma frota de Airbus e um novo aeroporto em Tripoli são negócios difíceis de desdenhar.

Em Lisboa, vá lá que o deixem montar a tenda, enquanto convidado da cimeira. Mas que ganha uma Universidade, ao recebê-lo com alguma pompa, a pretexto do convite de um seu centro de investigação, oferecendo-lhe palco para justificação do terrorismo e para fazer ameaças de extorsão em que o Guia, depois de encerrar a fase bombista da sua carreira, se tornou hábil? O título anunciado da "conferência" já não augurava nada de bom, mas o resultado foi francamente decepcionante. Kadhaffi não veio cá ensinar-nos nada. Estamos fartos de ouvir a mesma coisa, dita por personagens cá do burgo, ilustres ou nem por isso.

quinta-feira, dezembro 6

Felicidade, vinho e bacalhau

A folha publicitária de uma cadeia de supermercados, que me entra pela caixa do correio todas as semanas, dá pistas para resolver todos os problemas. "mesmo os mais complicados. Trabalho, amor, família, invejas" - o Professor Bambo tem solução para tudo, até para outros problemas "inexplicáveis". (O Professor Bambo fala francês e dá consultas numa rádio da região de Lisboa, com uma assistente para tradução. Explica que uma empresa pode falir por obra de um mau olhado.) E há também a senhora Maria Duval, que com honra de página inteira documenta até com fotos o caso de duas famílias que através dela se livraram do infortúnio. Uma cabeleireira a quem o negócio corria mal, e em vias de perder o marido, recupera o êxito comercial (por via da falência dos que lhe faziam concorrência) e logo passados quinze dias o marido volta, pedindo perdão. Ainda por cima, logo a seguir, ganha o Euromilhões. Outra jovem desempregada arranja o trabalho com que sempre sonhou e ao mesmo tempo o noivo pede-a em casamento. Com tanta fartura, fico a duvidar seriamente da qualidade dos vinhos e do bacalhau.

Ontem, de madrugada


Makwan Moloudzadeh, iraniano curdo de 20 anos, foi enforcado na prisão de Kermanshah. A condenação deveu-se à prática de actos homossexuais quando tinha 13 anos de idade. Os acusadores retiraram a queixa durante o julgamento. Chegou a ser anunciado um adiamento da execução e um possível perdão. A família e o advogado só foram informados da execução depois de ela ter ocorrido.

segunda-feira, dezembro 3

Utopia na gaveta, para já

Socialismo do séc. XXI ... um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre a democracia representativa e a democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do "inimigo do povo"; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva;
Boaventura Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais, laboratório associado com classificação de excelente, é também derrotado hoje. O presidente Chávez não estudou bem os seus artigos.

No PÚBLICO ainda não tiveram tempo de absorver a notícia.

domingo, dezembro 2

Interrogações

Ana Benavente partilha hoje connosco, no PÚBLICO, as suas interrogações e apreensões sobre o governo e o PS. Porque ocupamos sempre os piores lugares nas estatísticas disto e daquilo?, pergunta. Curiosamente, não inclui na pergunta as estatísticas de desempenho dos estudantes em comparações internacionais, em que os alunos portugueses costumam ficar na cauda. Provavelmente é porque não lhe convém recordar que teve responsabilidades governativas na área da educação, e porque afinal nada de bom ficou como rasto da sua passagem pelo governo. De resto, apesar das diferenças de atitude, Maria de Lurdes Rodrigues é uma continuação natural de Benavente sob o signo de Sócrates. A burocratização infernal do ensino-aprendizagem não foi inventada agora: por mais que disfarce, a menorização do papel do professor está inscrita nas teorias pedagógicas subscritas pela doutora Benavente.

Ana Benavente insurge-se contra a criação do prémio para o "melhor" professor. Mesmo descontando a sua aversão às avaliações, está apesar de tudo a ser ingrata, já que o prémio foi atribuído a um colaborador do ministério desde há longa data, ao longo de vários governos do centrão, incluindo aquele de que Benavente fez parte, e em consonância com muitas das suas ideias. (O vencedor tem outros méritos, quanto a mim mais sólidos, mas também esses deixam Benavente indiferente.)

No fim do artigo, escreve: "As únicas críticas sistemáticas às agressões quotidianas à liberdade de expressão são as do Gato Fedorento". A professora só pode estar distraída: um telespectador atento não precisa de estudos sociológicos para ver que os Gato Fedorento desempenham, no presente, a função de descompressão do teatro de revista de outros tempos.

As raparigas em flor ficam na sombra


Anne-Lorraine Schmitt foi assassinada no dia 25 de novembro perto de uma estação do RER de Paris. O jovem (creio que é assim que devo escrever) que a agrediu com uma faca já tinha sido condenado anteriormente por violência sexual. Tentou reincidir com Anne-Lorraine, mas a rapariga resistiu e conseguiu feri-lo também com a própria arma, o que facilitou a captura do alegado assassino. A indústria da informação não pôde dedicar muito espaço ao assunto por causa do acidente com uma mota roubada em que morreram dois jovens. As cerimónias fúnebres de Anne-Lorraine Schmitt realizaram-se ontem.

sábado, dezembro 1

Luz de crise


Alguém disse natal?

Sistematizando a histeria

Lista completa e documentada dos efeitos do aquecimento global.

A ciência tudo explica

Em Amsterdão, cidade de todas as liberdades e tolerâncias, houve em 2006 registo de 32 crimes tendo homossexuais como alvo, e na primeira metade de 2007 a lista já soma 26. Perante este mistério, o presidente da Câmara Municipal encomendou um estudo à Universidade de Amsterdão, conta a Spiegel, com o objectivo de descortinar a razão dos ataques. E fez bem, porque, como é hábito, a ciência é que tem as chaves da verdade, mesmo que contrariem o senso comum. Descobriu-se assim que metade dos crimes foram cometidos por norte-africanos "estigmatizados pela sociedade", o que os terá levado a atacar "os que eles encaram como pertencendo aos estratos inferiores da escala social". Mas esta pode não ser a única razão: outra teoria sustenta que "os agressores lutam contra a sua própria identidade sexual." Ora, ora.

sexta-feira, novembro 30

"No"


Fascistas encheram ontem a avenida Bolivar, em Caracas. (Foto: The Devil's excrement) De acordo com o que conta o NYTimes, são cada vez mais os venezuelanos que não compreendem os benefícios do socialismo. Hoje será a vez do "sim" encher a avenida.