sábado, novembro 24

O fabuloso destino de Olga Almeida

A senhora que se fazia passar por juíza ou advogada para extorquir dinheiro a pessoas e empresas publicamente indiciadas por dívidas vai, provavelmente, ser libertada, por já ter cumprido três anos de prisão preventiva. Agia por dificuldades financeiras. Um problema de muita gente, que provavelmente não terminará aqui. Faz bem por isso o Estado ao não permitir a publicitação das suas próprias dívidas. Era o que faltava, sujeitar-se (e a todos nós por arrastamento) às investidas de uma Olga qualquer. Os particulares que a aturem.

sexta-feira, novembro 23

Prémio Rádio Clube



João Guerreiro, vencedor das Olimpíadas Ibero-Americanas de Matemática, 20 valores no exame nacional, actualmente no programa Novos Talentos em Matemática da Fundação Calouste Gulbenkian, acaba de vencer também a competição para Jovem do Ano no Rádio Clube. Os outros concorrentes eram Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento, Pacman, vocalista dos Da Weasel e o jornalista João Pereira Coutinho. Votaram ouvintes do Rádio Clube (entre os quais eu) e leitores do Metro.

quinta-feira, novembro 22

Desminto

Quando fiz o post anterior, não era minha intenção dizer que as fotos tinham sido tiradas de manhã. E até podem não ter sido tiradas em Carnide. O que quis dizer é que Carnide de manhã é exactamente assim.

quarta-feira, novembro 21

terça-feira, novembro 20

O Le Monde escreve sobre Chávez

No editorial de ontem:

O activismo de Chávez na cena internacional, da América Latina ao Médio Oriente, da Rússia à França, acompanha-se na Venezuela de uma evolução inquietante para um regime autoritário. A gestão errática dos imensos recursos petrolíferos, desmultiplicadas por um preço do barril próximo dos 100 dólares, começa a prejudicar os programas sociais que valeram ao chefe do Estado uma popularidade sólida.

A concentração dos poderes em benefício do presidente da república, a ausência de diálogo com a oposição, a desqualificação do movimento estudantil, classificado de "fascista", o encorajamento de bandos armados (...) numa palavra, a militarização da vida política, são acompanhadas de ma corrupção sem precedente. Esta é favorecida pela opacidade das despesas públicas e pela criação de orçamentos paralelos.

O populismo não é boa solução em parte alguma.


Actualização:

Communiqué du Parti socialiste sur le Vénézuéla
Lundi 12 novembre 2007
Les électeurs vénézuéliens doivent se prononcer le 2 décembre prochain sur une réforme constitutionnelle proposée par le président Hugo Chavez. Cette réforme prétend donner au Venezuela le caractère d’État socialiste. Le Parti socialiste remarque que ce choix altère la neutralité de la démocratie vénézuélienne. Il est à l’origine d’un regain de tensions porteur de graves divisions citoyennes.

Le 7 novembre, un groupe de personnes armées a pénétré sur le campus de l’Université centrale (UCV) pour agresser des étudiants opposés à cette réforme. Neuf étudiants ont été hospitalisés. Trois d’entre eux ont été blessés par balles. Le Parti socialiste condamne ces violences et l’intolérance qu’elles révèlent. Il demande que le débat entre opposants et partisans de cette modification de la Constitution puisse garder la forme d’un échange d’arguments sanctionné le 2 décembre par les urnes.


(através de um comentário aqui )

terça-feira, novembro 13

Diálogo de civilizações

Um responsável do parlamento iraniano, Mohsen Yahyavi, teve há pouco tempo uma entrevista com membros do parlamento britânico onde foram discutidos direitos humanos. De acordo com o Times, o diálogo pode ter sido mais ou menos assim:

-Olhe, nós estamos muito preocupados com as notícias de que homossexuais continuam a ser condenados à morte no seu país.

-Sabe, de acordo com o Islão não se pode permitir a existência de gays e lésbicas.

-Mas confirma que existem, e que os executam!

-A actividade homossexual em privado não tem mal nenhum, mas quem faz isso às claras merece ser torturado.

-Torturado?! Que coisa tão inadequada.

-Sorry, eu queria só dizer enforcado. Do modo como nós os enforcamos dá equivalência.

-Ah... Mas vocês estão a enforcar miúdos tão novos... não acham que que deveriam suspender esse tipo de execuções?

-Ora, minha senhora, eles merecem porque anda a propagar a SIDA.

-De qualquer maneira parece-nos excessivo que apliquem a pena de morte. As pessoas não escolhem a sua orientação sexual.

-Esse conceito não existe no Islão. Foi inventado para corromper a natureza humana. Alá criou-nos para nos reproduzirmos. Os homossexuais não se reproduzem.

-Também nos preocupa muito a notícia de que uma mulher engravidada pelo irmão foi condenada á morte e vai ser enforcada publicamente. O irmão foi absolvido com base no arrependimento. Não acha que há aqui uma desigualdade de tratamento inaceitável relativamente a homens e mulheres?

-Tem toda a razão. Talvez devêssemos ter apedrejado o irmão.

-Oh! Não era bem o que queríamos dizer...

-Bom, de qualquer modo esta troca de impressões correu muito bem. Tomei notas que serão muito úteis. Agora tenho que ir, um resto de bom dia.

-Bom dia.

segunda-feira, novembro 12

O redondo vocábulo

O grande sucesso do fim de semana é a frase do Rei "Porque não te calas?". Compreendo o enfado e falta de pachorra de Sua Majestade. Para além disso, no entanto, talvez haja uma incompreensão generalizada do insulto que muitos confundem com o valor facial da palavra "fascista". Fascista, nas bocas de esquerdalhos que não conhecem mais números do que zero e um (e mesmo assim não compreendem o que é o zero) é simplesmente um sinónimo vulgar de cabrão ou filho da puta. E, tal como um filho da puta chama isso a outros, tornou-se frequente o insulto "fascista" ou a sua variante "nazi" ser proferido por quem tem tendências fascistas ou nazis ou seus apoiantes.

Dado o empobrecimento semântico do vocábulo, mais vale deixá-lo morrer na companhia do cabrão e do filho de puta, que é a que merece. A grande questão não é mandar calar: é falar e não desistir de fazer ver que, de acordo com o que sabemos hoje, "comunista" é um candidato a sinónimo tão bom como o outro. E, já agora, pode-se-lhe juntar esse curioso aliado circunstancial, o islamismo como ideologia de estado. Apontar o mal é a melhor ajuda que se pode dar aos que lutam pela liberdade, em condições muito difíceis, sob os modernos regimes totalitários. Não foi evitando nomear as raizes do mal que se ajudou a cair um muro, há uns anos atrás.

O fim da ASJ?

A Associação Sindical de Juízes está a pressionar contra a aplicação a estes profissionais do estatuto de funcionário público. Eles não dizem, porque não é necessário, mas certamente que, em coerência, a vitória deverá implicar a implosão da ASJ.

domingo, novembro 4

Conversas de urinol



Ontem, na Universidade de Nova York, realizou-se a conferência Outing the Water Closet: Sex, Gender, and the Public Toilet . O programa pode ser consultado aqui

Podemos ter uma ideia dos temas abordados através dos trabalhos de Ruth Barcan, uma das conferencistas, professora de estudos de género na Universidadede de Sydney. Por exemplo, num artigo publicado no Journal of International Women’s Studies Vol 6 #2, 2005, Barcan chama a atenção para a subtil diferença entre "limpeza" e "sinais de limpeza":

Modern westerners avidly consume the signs of cleanliness, which may or may not have much to do with actual cleanliness or health. For example, chemical air-fresheners do not cleanse or purify the air but mask the smells we associate with dirtiness using a blend of (arguably) toxic chemicals. (One of the men in my study said there were “two schools of thought” about whether or not so-called “trough lollies” [urinal deodorizers] actually improve the smell of urinals. “It’s the kind of debate men have at pubs,” he said.)

E mais à frente: The increasingly avid consumption of signs of cleanliness is made possible by the experiential and conceptual distancing from nature brought about by modernity. Modernity is characterized by ambivalence about nature (...)

Se não fosse este artigo eu nunca viria a ter consciência de que a minha empregada, a Dona Vitória (que muito prezo) é adepta fervorosa da modernidade.

O artigo contém muitos outros profundos e inesperados ensinamentos, mas não deve ser lido durante uma refeição.

(Na foto: urinóis do Cinema São Jorge, Lisboa.)

segunda-feira, outubro 29

No inferno do ensino/aprendizagem



Vamos lá ver se dou conta do recado esta semana. Para começar, vou identificar as situações-problema, fazer uma ficha de avaliação diagnóstica e elaborar o plano de recuperação. Não posso esquecer-me de descrever as metodologias a adoptar, o plano de acção a desenvolver e as metas a atingir.
Vou ter o cuidado de seleccionar as estratégias de ensino aprendizagem de acordo com a complexidade dos conteúdos e as aprendizagens anteriores dos alunos. Vai dar-me algum trabalho preencher aquela lista de recursos diversificados de ensino/aprendizagem, mas lá chegarei.
Tenho que incluir algumas fichas de avaliação formativa e um plano de integração na área de projecto. Que sorte a minha escola ser agora um TEIP. Bem, mas não posso divagar, senão não me vai chegar o fim de semana para preencher as grelhas sobre intervenção oral e compreensão escrita que ainda tenho pendentes da semana passada. Ainda vou ter que combinar com a coordenadora do Eco-Clube a sessão de leitura de folhetos publicitários impressos em papel reciclável. Se ela não estiver de acordo, não me atrapalho, deixo isso para uma OTE ou uma TOA, talvez aquela do desenvolvimento das relações inter-pessoais e da alteração de comportamentos e atitudes.
Ao menos, enquanto estou entretida nisto, não me vem à cabeça a cena do aluno que me apalpou as mamas há quinze dias e que quase me ia despindo em plena sala de aula.

quinta-feira, outubro 18

Che fracturante



O editorial do El País "Caudillo Guevara", publicado no dia 10 de Outubro, é desaprovado por mais de dois terços da redacção, soube-se hoje. "O texto não abordava na sua totalidade uma figura suficientemente complexa para ser tratada como se não houvesse uma gradação de cinzentos."

(Foto em Little Green Footballs)

P.S. Che é (literalmente) fracturante também na Veneuela, onde um monumento em vidro, em sua memória, foi destruído menos de três semanas depois da inauguração.

domingo, outubro 14

Doris Lessing sobre o politicamente correcto como legado do Comunismo

Apesar da morte do Comunismo, os modos de pensar a que ele deu origem ou força ainda dominam as nossas vidas. Nem todos são tão evidentes (...) como o politicamente correcto.

Primeiro ponto: a linguagem. (...)Há uma gíria Comunista reconhecível em cada frase. Pouca gente na Europa não brincou com "passos concretos", "contradições", "interpenetração dos opostos" e por aí fora.

A primeira vez que vi que os mortíferos slogans tinham asas para voar para bem longe das suas origens foi num artigo do Times em 1950. "A manifestação de sábado foi uma prova irrefutável de que a situação concreta..." Palavras confinadas à esquerda (...) tinham adquirido utilização comum e, juntamente com elas, as ideias. Encontravam-se artigos na imprensa conservadora e liberal que eram marxistas, mas os autores não o sabiam. Mas há um aspecto desta herança muito mais difícil de ver.

(...) O Izvestia, o Pravda e muitos outros jornais comunistas eram escritos numa linguagem que parecia concebida para encher o maior espaço possível sem dizer nada. (...) Mas a herança da linguagem morta e vazia nos dias de hoje encontra-se nas universidades, particularmente em áreas da sociologia e da psicologia.


O segundo ponto liga-se com o primeiro. (...) A todos os escritores se pergunta: "Acha que um escritor devia...?" A pergunta tem sempre a ver com uma posição política e por detrás da pergunta assume-se que todos os escritores deveriam agir do mesmo modo (...) Outro exemplo é o do "compromisso", tão em moda não há muito tempo. Fulano de tal é um ecritor comprometido?

Ao "compromisso" veio seguir-se o "alertar das consciências". (...) Aqueles cujas consciências são alertadas podem receber a informação de que necessitam desesperadamente (...) mas o processo quase sempre significa que o receptor só tem acesso a propaganda aprovada pelo instrutor.


A exigência de que um trabalho da imaginação, uma história, tenha que ser "acerca de" alguma coisa vem do pensamento comunista e, mais atrás ainda, do pensamento religioso (...)

O politicamente correcto tem um lado bom? Sim, porque nos leva a reexaminar atitudes (...) O problema é que em todos os movimentos populares a franja lunática rapidamente deixa de ser franja; é a cauda que passa a abanar o cão. Por cada um que está a tentar uma análise séria e cuidada, há 20 agitadores cuja real motivação é o poder sobre os outros (...)

Tenho a certeza de que milhões de pessoas, a quem o tapete do Comunismo foi retirado, estão desvairadamente à procura, sem o saberem, de outro dogma.


Escrito em 1992 e republicado ontem no New York Times. Via The reference frame.

sábado, outubro 13

Há 700 anos




No dia 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira, foi executada a acção policial que Guillaume de Nogaret, ministro de Filipe IV de França, preparou cuidadosamente, e em que foram presos membros da ordem dos Templários por toda a França. O grão-mestre, Jacques De Molay, estava em Paris, onde tinha participado no funeral da cunhada do rei.

A memória de Nogaret é evocada, na literatura ndo século XX, através de uma personagem com o mesmo nome na novela Monsieur de Lawrence Durrell.

Conversa no jardim de Évora



-Já não vale a pena, agora fazes o que tu quiseres.
-Ora, aposto que tu ainda arranjas outra pessoa mais depressa que eu.
-Sei lá, o que eu menos penso agora é arranjar.
-Se não arranjas, ao menos deixas-te arranjar, que eu sei muito bem. Não te dou nem um mês que já estás acompanhada.
-Ó amor, ai porra, desculpa, ó Joaquim, pára com essas merdas agora que acabou tudo.

quarta-feira, outubro 10

O véu mental

O governo inglês acaba de anunciar uma lei que pune crimes de ódio contra "gays" com pena até sete anos de prisão. Cabe à polícia avaliar se os delitos caem dentro da alçada da nova lei, que abrange também lésbicas e bisexuais. Ficam de fora por enquanto os "trangéneros". Como o conceito de "crime" introduzido é muito lato e ambíguo, é natural que no futuro próximo em Inglaterra só se possa fazer humor sobre heterosexuais empedernidos, o que pode fazer o nível das piadas cair a pique. A notícia já gerou no Daily Mail online o dobro do número de comentários à do caso Maddie.

Em Itália está em discussão o uso da burka. Um magistrado de Treviso, Vittorio Capocelli, emitiu parecer favorável ao uso e logo foi apoiado pela ministra da família, Rosy Bindi, para quem o véu é manifestação de uma cultura escolhida livremente. As opiniões estão fracturadas, com os "progressistas" do costume a secundarem Capocelli e Bindi. Muitos europeus já escolheram, livremente, o uso de um véu mental.

sábado, outubro 6

Matemática para o ensino básico: um programa e muito mais

Terminou a "discussão pública" do "reajustamento" do programa de Matemática para o Ensino Básico. Significa isto que uma comissão andou a redigir uma proposta e que algumas pessoas e grupos deram a conhecer ao Ministério da Educação as suas palmas ou assobios a esse respeito. Depois, feitas no esboço modificações insignificantes para que se possa dizer que houve discussão e consenso alargado, haverá um programa homologado e, na melhor das hipóteses, tudo continuará na mesma: quero dizer, vai haver maus resultados em Matemática como é costume, e o Ministério procurará combatê-los com engenharias avaliativas.

O programa de Matemática enumera os tópicos da disciplina que devem ser ensinados e aprendidos. Não o faz com grande auto-exigência de rigor e conexão (ao contrário do que pede aos estudantes, que devem "compreender como as ideias matemáticas se inter-relacionam e se apoiam umas nas outras constituindo um todo coerente" (pág. 8)), mas daí não decorre qualquer desastre. O resultado da aprendizagem está, em última análise, nas mãos de um punhado de bons professores, que ainda existem. Seria óptimo que houvesse programas bem estruturados e bem redigidos, mas mesmo a partir de um mau programa é possível escrever bons manuais e dar boas aulas.

O problema, com este e suponho que com programas de outras disciplinas, é o excesso de coisas que lá se dizem. Desde que os "especialistas em educação" passaram a ter voz de comando na produção destes documentos, os chamados "programas" economizam em qualidade científica e pedagógica o que esbanjam em indicações metodológicas espartilhantes, teorização barata e chavões repescados por copy-paste de teses, relatórios e outros documentos: de há uns anos para cá, sempre que sai um novo "programa", temos a sensação de estar sempre a ler a mesma coisa.

Este aspecto poderia ser inócuo, mas não é. O "programa" assume-se como primeiro elemento de um big brother que emana do ministério e pretende vigiar com suspeita minúcia a actividade do professor ("Trabalhar apenas com dízimas infinitas periódicas cujo período tem no máximo três algarismos.", p. 55). A desorientação que o palavroso texto é susceptível de provocar a qualquer professor menos seguro, ou que não tenha suficiente sentido de humor para sorrir ao lê-lo, é coerente com os variados procedimentos absurdos a que a vida na escola actualmente obriga os docentes, transformando-lhes a profissão num pequeno inferno.

Repare-se, a título de exemplo, na insistência com que está escrito que os alunos devem desenvolver

capacidade de abstracção e generalização e de compreender e elaborar uma argumentação
matemática e raciocínios lógicos;
capacidade de comunicar em Matemática, oralmente e por escrito, descrevendo, explicando e justificando as suas ideias, as estratégias e procedimentos que utiliza e os raciocínios, resultados e conclusões a que chega (p. 5);

acompanhar e analisar um raciocínio ou estratégia matemática.
descrever e explicar, oralmente e por escrito, as estratégias e procedimentos matemáticos que utilizam e os resultados a que chegam oralmente e por escrito, descrever a sua compreensão matemática, os procedimentos matemáticos que utilizam, e explicar a sua argumentação (p7)

desenvolver e discutir argumentos matemáticos (p8)


e mais à frente repisa-se que os alunos devem

Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar em contextos numéricos(p.16)
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar recorrendo a representações simbólicas(p.47)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos relativos a resultados, processos e ideias matemáticos;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p. 50)


e, não vá alguém esquecer-se, recorda-se que os alunos devem ser capazes de

Explicar e justificar os processos, resultados e ideias matemáticos.
Apresentar ideias e processos matemáticos, oralmente e por escrito, usando a notação, simbologia e vocabulário próprios (p. 52)

Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos incluindo cadeias dedutivas;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p67).


É claro que muitas das recomendações lá escritas, mesmo quando têm em vista um mundo ideal que não existe na grande maioria das escolas, são bem intencionadas. O problema é que ou são irrealistas ou não valia a pena escrevê-las. Qual é o professor de Matemática dotado de bom senso que precisa de que lhe digam, por exemplo, que

promover o raciocínio e a comunicação matemáticos(...) constituem também importantes orientações metodológicas para estruturar as actividades a realizar em aula (p11) ?

domingo, setembro 30

Contribuição de Ahmadinejad para o avanço teórico dos estudos GLBT

A imprensa e as televisões deram alguma atenção às gargalhadas que se seguiram à afirmação do Presidente do Irão na Universidade de Columbia, no início da semana: "No Irão não há homossexuais. Não sei quem lhes disse que tínhamos lá isso."

É fácil rir deste tipo de "bocas", mas isso pode ser compatível com uma visão turva das coisas. Quando perguntaram a Ahmadinejad, nessa sessão, porque executavam homossexuais no Irão, o Presidente respondeu com um desvio, mais ou menos assim: nos Estados Unidos também se executam traficantes de droga, porque eles são maus para a sociedade. E parece que esta justificação mereceu uma ovação da estudantada.

Mas o subproduto mais curioso, embora não o mais surpreendente, da presença de Ahmadinejad na Universidade, é a tomada de posição da Columbia Queer Alliance:

Não temos a pretensão de compreender as múltiplas e diversas experiências de viver com desejos pelo mesmo sexo (repare-se no cuidado com a terminologia) no Irão. Os nossos valores culturais e experiência são diferentes, mas a questão é a mesma: o direito humano essencial de exprimir livremente os desejos.

Além disso, gostaríamos que os media e as organizações estudantis fossem cautelosos com o uso dos termos "gay", "lésbica", "homossexual" para descrever as pessoas que no Irão se envolvem em práticas com o mesmo sexo e sentem desejo pelo mesmo sexo. A construção da orientação sexual como identidade social e política, e todo o inerente vocabulário, são um produto cultural ocidental. Por isso, os estudiosos da sexualidade no Médio Oriente usam em geral termos como "práticas com o mesmo sexo" e "desejo pelo mesmo sexo", como reconhecimento da inadequação da terminologia ocidental. A presença do Presidente Ahmadinejad no campus constituiu um estímulo para reflectirmos sobre várias questões, mas o que mais nos interessa são as complexidades de como a identidade sexual é construída e compreendida em diferentes lugares do mundo.


Compreende-se que não seja dada muita atenção a posições como esta. Seria indelicado para com Ahmadinejad: estes tipos são bem mais cómicos que o Presidente.

sexta-feira, setembro 21

A revista




Por iniciativa da Cãmara de Lisboa, vem aí a recuperação do Parque Mayer com "qualquer coisa de teatro de revista", segundo o PÚBLICO de hoje. É um género que "tem público", dizem eles. Terá? Bem, de acordo com o cartaz dos teatros, só se classificarmos a Música no Coração como revista à portuguesa.

Juntando as peças, no entanto, certas coisas passam a fazer sentido.

Até 1973, no Teatro maria Vitória encenavam-se duas ou três revistas por ano; "Ver, ouvir e calar" teve o seu nome alterado para "Ver, ouvir e falar" em 1974, e daí em diante, foram raros os anos em que mais de uma revista subiu à cena, até à quase extinção da actividade.

As recentes iniciativas do governo para limitar a liberdade de expressão mais não são, certamente, que um convite à criatividade dos autores de revista. Num tempo em que as piadas de sexo se banalizaram, a revista não pode sobreviver sem a aparência de furar uma censura qualquer. Recriando um ambiente com suaves reminiscências de Estado Novo, talvez a revista à portuguesa seja de novo viável. Está em marcha a "criação de novos públicos", que muitos tanto apreciam referir. Afinal é tudo pela arte.

(Foto: http://germana-teatro.blogspot.com/)

domingo, setembro 16

O não debate

É uma óptima ideia que o debate entre Mendes e Menezes vá sendo sucessivamente adiado. Poupa-se uma hora de bocejo a quem cair na armadilha de assistir. Antes um documentário no Discovery sobre a essência do murro de Scolari, ou um filme porno com as personagens vestidas.

sábado, setembro 15

Vila Real de Santo António

Soube-se há dias, num jornal e numa televisão, que dezenas de doentes portugueses estão a receber tratamento oftalmológico em Cuba, pago pela câmara municipal de Vila Real de Santo António. É notícia com significado porque começa por ter como pano de fundo a ineficácia do nosso serviço nacional de saúde. Ainda bem que aquelas pessoas viram os seus problemas de visão resolvidos, e não ponho em dúvida a qualidade do tratamento, tanto mais que neste caso há em jogo uma mais valia publicitária para o regime da ilha. Também admito que não havia alternativas num raio de 8000 quilómetros. De qualquer modo, não há operações a cataratas grátis. Para já, sabemos que a autarquia transferiu 50 mil euros para, como é descrito no boletim municipal, reconstrução de um Parque Infantil e respectiva Creche. A referida Creche, situa-se no Pólo Cientifico de Engenharia
Genética e Biotecnológica da cidade de Playa e destina-se a
acolher os filhos dos trabalhadores.

Como parece óbvio que a autarquia pagou também pelo menos as viagens, seria interessante fazer o balanço financeiro do acordo. Admito que se tenha conseguido um bom preço, caso em que conviria realizar um protocolo do SNS com o sistema de saúde cubano, abrangendo muito mais municípios e muito mais especialidades. Se não, quando me reformar vou procurar casa em Vila Real de Santo António.

sexta-feira, setembro 14

Não souberam a tempo

O Human Rights Watch está preocupado com o fecho de Guantanamo. Parece que a administração americana está a mandar para casa alguns detidos sem garantias de que vão continuar a ter o tratamento de que dispunham na ilha. O caso dos tunisinos Abdullah al-Hajji Ben Amor e Lofti Lagha tem sido muito comentado na imprensa: em face da sua situação actual na Tunísia, dizem que se soubessem o que os esperava ter-se-iam oposto à libertação.

quarta-feira, setembro 12

Uma bomba amiga do ambiente



A notícia surgiu ontem ao fim do dia. A Rússia de Putin executou o teste da sua nova e revolucionária bomba: com menor carga explosiva, consegue duplicar o poder destruidor da MOAB dos EEUU (a "mãe de todas as bombas"; esta é o "pai"). Uma vitória da nanotecnologia. Graças a uma altíssima temperatura e a uma onda de choque ultra-sónica, tem um poder de destruição devastador. Tudo limpo, sem radiactividade nem danos para o ambiente. Um general russo comentou que a Rússia estava assim apta a combater o terrorismo internacional em qualquer situação e em qualquer região.

A Rússia comemorou assim, com discreta conspicuidade, o aniversário do 11/9.

segunda-feira, setembro 10

A vida real





(Numa sexta feira, num intercidades da linha do norte)
-Oi, então, mais um fim de semana?
-É verdade. Um esticão até Setúbal.
-Onde é que trabalhas agora?
-Em Vitória. O ano passado era em Pamplona mas já deixei.
-...
-Ando farto desta merda. Às vezes passa-me pela cabeça arranjar maneira de ficar no fundo de desemprego.
-?
-...
-Olha, não te metas nisso que os gajos andam em cima e lixas-te. Não há nada como dormir descansado.
-O patrão agora já não está lá, é o filho que manda. Se fosse com o pai... O filho é só roubar.
-...
-Quando posso também o lixo, um dia não fui e não deram por nada, pagaram tudo.
-...
-Hoje trabalhei até ao meio dia. Tinha a mala pronta.
-E até quando ficas lá em baixo?
-Domingo levanto-me à um quarto prás quatro, chego lá tomo banho e começo a trabalhar lá prás 10, à noite desforro-me a dormir.
-Então e o Leandro continua lá?
-Esse arranjou uma hérnia discal, nem pode ser operado.
-Então e está lá a fazer o quê?
-Não sei, está de baixa. Não pode fazer força.
-Mas pode conduzir?
-Todo esticado. Cá por mim não deve estar lá muito tempo. Deve vir de lá despachado de alguma maneira.
-Ainda faltam duas horas para Lisboa.
-É verdade. Vou dormir um bocado.

domingo, setembro 2

Minneapolis story

Já muito se escreveu sobre o escândalo que levou o republicano Larry Craig a anunciar a sua demissão. Dos jornais à internet, não faltam opiniões sobre o caso para todos os gostos e até está disponível uma reconstituição do episódio em video.

Não há ponta por onde se pegue para simpatizar com Craig: parece que o homem não se notabilizou por nada em particular e, tendo tomado posições que sistematicamente contrariam a luta pelos direitos de pessoas homossexuais, a primeira tentação diante do que lhe aconteceu é dizer que "é bem feito".

A historieta tem, no entanto, aspectos muito curiosos. Não admira: a invenção mais rica é a da própria realidade. Por exemplo, ficamos a saber que este simpático e promissor polícia, que obteve o ano passado um mestrado em justiça, chefia e educação, parece ter agora como missão ficar sentado numa retrete de aeroporto à caça de homossexuais à procura de sexo no lavabo. Parece que já prendeu 12 este verão. Uma eficácia notável, só explicada, certamente, pela alta qualificação académica do rapaz.

Nada surpreendente é o facto de sites "gay", como este, rejubilarem com a divulgação do caso. Dado que nesses sites (próximos das correntes ditas "liberais" nos EEUU) não há economiza de apelos à satisfação sexual pura e simples, há pouca dúvida sobre o que realmente os excita: o facto de Craig ser republicano. Não lhes interessa, neste particular, que o homem tenha sido atingido por via de um comportamento de características "gay" e, certamente, por ser figura pública (dos outros 11 não ouvimos falar).

Finalmente, a questão da hipocrisia de Craig, abundantemente apontada a dedo pelos observadores, é talvez o aspecto mais ambíguo e ilusório de tudo o que rodeia o episódio. Quando Craig afirma, no discurso em que anuncia a demissão, que não é "gay", provavelmente não mente. Provavelmente ama a mulher e a família. Provavelmente é apenas um de uma multidão de homens cuja vida heterossexual não é de fachada mas que frequentemente são tentados por uma variação e tentam satisfazer-se com uma companhia rápida e anónima. A sua posição e o modo e o lugar que escolheu tramaram-no. Provavelmente o homem nem sequer é incoerente, lá por ter votado contra os casamentos homossexuais: a simples ideia de viver com outro homem pode ser-lhe repugnante.

Lawrence Durrell explicava, na abertura do seu "Quarteto", que há mais de cinco sexos e só o grego popular conseguia diferenciá-los. Os tristes vocábulos e siglas modernas, politicamente correctos ou não, inventados para descrever os sexos ou, talvez, novas bandeiras de luta, vão apenas encobrindo no seu esquematismo pobre uma complexidade de que sabemos pouco.

sábado, agosto 25

Felix Eugenne

Pode um europeu cruzar-se com um empregado de supermercado condenado à morte por apedrejamento?

Parece que sim. Felix Eugenne, um cristão nigeriano refugiado em Itália e actualmente a trabalhar num supermercado em Turim, aguarda a decisão da Comissão para os Refugiados das Nações Unidas, em 3 de Setembro, que eventualmente lhe evitará a deportação para a Nigéria, onde corre o risco de ver completada a sentença de morte precedida por vários dias em que receberá 21 chicotadas. Felix conseguiu evadir-se e parece que o carcereiro distraído foi exemplarmente degolado numa praça pública. O crime de que Felix é acusado: teve sexo com a namorada, Fatimah, antes do casamento. Dela e da sua família nada sabe, pois seria demasiado perigoso tentar comunicar.

O governo italiano anunciou ontem que acolheria Pegah Imambakhsh, iraniana refugiada no Reino Unido desde 2005 e também em risco de sentença de morte no seu país por ter tido relações sexuais com outra mulher.

As mil e uma noites: o conto que faltava

Myriam, uma jovem de 19 anos, submeteu-se a uma operação de mudança de sexo, em Jedda, e transformou-se em Khaled, rapaz de 19 anos. Agora já pode realizar um sonho: ter carta de condução!

(Via Or does it explode?)

sexta-feira, agosto 24

Modernização

Segundo o presidente da Associação Académica de Coimbra, a nova lei sobre o regíme jurídico de instituições de ensino superior é "extremamente negativa" e "não vem ao encontro das necessidades de modernização e progresso [bláblá]". Pasma-se um bocado com a opinação sobre modernidade por parte destes rapazes embatinados que dominam a etiqueta do vestir até ao pormenor de contar o número de botões da lapela, da parte média posterior e das mangas, e de saberem que se pode usar um gorro sem borla nem bico. Além disso, não sei se as massas estudantis estão muito interessadas no cinzento assunto em causa. Certo é que também elas têm queixas da resistência à modernização por parte da AAC, em matéria bem diferente e pela qual se mobilizam. Uns antiquados, a malta da AAC! Sempre agarrados ao Quim Barreiros quando temos essa outra verdadeira estrela da música popular alternativa.

Ciência em Festa

A ciência está na Festa do Avante. O grande tema é: da roda ao TGV. Como ciência e progresso tecnológico não são independentes da luta de classes, "pretende-se ainda estabelecer uma relação entre ideologia e os transportes. Não é indiferente a cada época ou a cada governo o índice de desenvolvimento dos transportes terrestres. Rodoviário ou ferroviário, individual ou colectivo, público ou privado – todos estes vectores são claramente políticos."

Deve valer a pena ir ver a prometida exposição, onde de certeza não faltará uma comparação entre o decadente serviço ferroviário nos países capitalistas (China pode estar incluída) e o progresso que a Coreia do Norte, a título de exemplo, realiza nesse campo, extraindo a correspondente conclusão. Se a teoria do partido estiver certa, não precisamos de certificação para concluir que esta foto de um comboio com uma porta obstruída por bagagem



deve ter sido tirada algures na Europa, enquanto esta



retrata a realidade do país do querido líder.

segunda-feira, agosto 20

Há beijos bons como milho

Ouviu-se há bocado, na SICnotícias, um ministro a associar a Universidade Nova de Lisboa ao episódio do milho transgénico. É estranha a afirmação. Com a mania de compreender o mundo, acabo de fabricar uma teoria conspirativa: o ministro lançou uma mensagem cifrada. Ele dirige-se à rapaziada hiper-activa que precisa de queimar energias e sugere-lhes que há vida para além da ceifa. Fantasias privadas, sedução verbal e passagem ao acto através de carícias e de beijos: tudo actividades pacíficas que não perturbam o verão das GNRs e dos governantes. Vá lá, inscrevam-se, que ainda vão a tempo, e vejam lá se não chateiam mais.

Raio atraído por telemóvel?

Já se sabe que há muito tempo que os telemóveis servem para muito mais do que telefonar. Desde rádio a câmara de vídeo, passando por lanterna quando falta a luz na escada, as funções do objecto não param de crescer. Fica-se a saber que pode funcionar como pára raios. Não é a brincar.

sábado, agosto 18

Não maltratarás gatos nem leões

Uma cadeia de tv controlada pelo Hamas costuma emitir programas destinados às crianças, com intervenção de crianças, com o fim de lhes ensinar quem são os seus inimigos. Uma personagem vestida de Rato Mickey era mostrada, recentemente a ser vítima de agressão de um agente israelita. Vimos há dias na SIC uma reportagem sobre estes programas, que levantaram protestos de Israel e da Disney.

Agora as coisas passaram das marcas: uma organização com sabor a esquerda (PETA) vem protestar contra um programa da Hamas tv! É que, para ensinar às crianças a não maltratar os animais, mostraram uma personagem vestida de abelha que atira pedras aos leões no zoo e agarra um gato pela cauda. A PETA avisa: as crianças mais facilmente imitam o que lhes mostram do que escutam um aviso.

O Hamas necessita de uma equipa de psicólogos competentes para fazer passar com eficácia a sua mensagem.

(Via Astute Bloggers)

quinta-feira, agosto 16

A justiça dos civilizados adaptada aos bárbaros

O estilo de vida de Fátima, adolescente de Bologna, não agradava à família. Por isso, os pais e um irmão mantiveram-na amarrada a uma cadeira e depois agrediram-na brutalmente. Houve uma condenação destes actos em primeira instância em 2003. Agora, o tribunal supremo de Itália vem absolver os agressores: para os juízes, afinal, a jovem só fora agredida três vezes e, para mais, pelo facto de os seus comportamentos terem sido julgados incorrectos. Como Fátima vivia aterrorizada pelos pais e fizera ameaças de suicídio, o tribunal considerou que eles fizeram bem em amarrá-la para evitar que a rapariga se se auto-mutilasse.


"Uma vergonha", diz Souad Sbai, presidente da Associação de mulheres marroquinas em Itália, "uma decisão digna de um país onde vigorasse a sharia. Os juízes aplicam dois tipos de regras: uma para os italianos e outra para os imigrantes".

Música para um dia de verão

The little maiden of the sea
was not at all like you and me:
where we have legs, she was a fish,
and she could only say, "I wish... I wish
I were not incomplete.
I wish I had some dainty feet."
You see, one day she'd met a prince,
and she'd been pining ever since
(the little maiden of the sea).
She'd gain her own immortal soul
if she became the prince's wife.
She autovivisected. Whole, she walked!
Each step was like a knife--
a knife into her dainty feet--
and she could neither speak nor sing;
but, surely, now she was complete.
Her prince would think of marrying
the little maiden of the sea.

He married someone else, of course;
and, saying nothing, she went home.
Then something turned, by mystic force,
the little maiden into foam.


Stephin Merritt, Showtunes, 2006. Música belíssima, rara, surpreendente.

quarta-feira, agosto 15

Chávez até ao fim do tempo

Mário Soares responde hoje, no PÚBLICO, ao director. No que toca às suas afirmações sobre Chávez não dá o braço a torcer: ao mesmo tempo que declara que "calar uma voz incómoda é intolerável" justifica o encerramento (disfarçado de não renovação de licença) de uma televisão e recorda a propósito tentativas de atacar violentamente o estado. Ora, precisamente hoje, Chávez resolve acelerar o processo de reforma constitucional. Um anúncio muito conveniente, parece, para desviar as atenções do escândalo da mala, ou maletagate, uma ponta de iceberg de que já se começava a falar dentro da própria Venezuela. Limitadamente, claro, pois nestas coisas dá muito jeito ter a informação sob controle.

Ler, escrever, aritmética: no Reino Unido

Nos testes de língua, matemática e ciências, alunos que vão entrar no ensino secundário voltaram a revelar conhecimentos insuficientes. Pior: apesar dos planos especiais do governo e dos milhões de libras gastos na tentativa de atacar o problema, há um pequeno retrocesso em relação aos resultados do ano anterior. A única excepção é uma melhoria na capacidade de leitura. Os dados mostram que as raparigas dão-se melhor que os rapazes com estas coisas. Preocupante também é a descida do número de classificações altas.

sábado, agosto 11

No escuro (II)

O ponto da situação sobre o mistério do desaparecimento de Madeleine McCann está em dois artigos do Daily Mail de hoje: a nova atitude da polícia face ao casal e as perguntas por enquanto sem resposta.

quinta-feira, agosto 9

No escuro

Os pais de Madeleine McCann vêem-se envolvidos na tragédia por novas razões. Tendo contribuído para o assalto das televisões e jornais ao enigmático acontecimento, transformado em reality-novela, são agora vítimas das reviravoltas do argumento (parcialmente escrito nas redacções por múltiplos autores) e das variações de simpatia do público. Em entrevista ao Evening Standard, o advogado de Murat ataca os McCann e afirma que a população da Luz quer vê-los pelas costas. Hoje, Gerry ainda não actualizou o seu blog. .

terça-feira, agosto 7

Em busca da culinária perdida



Entre as joias da culinária portuguesa, o bacalhau à Braz é das que mais foram desfiguradas pelo desmazelo da cozinha em que caem restaurantes maus, bons e assim-assim um pouco por todo o país. Por isso merece destaque a descoberta de algum dos raros sítios onde sabem fazê-lo gostoso.

O melhor bacalhau à Brás que comi em restaurante foi provado nos arredores de Lisboa há uns 20 anos, mas o restaurante, que suponho ainda existir, deixou de o fazer.

Há poucos dias tive a sorte de encontrar um bacalhau à Brás de 4 estrelas, numa escala de 5, num restaurante completamente despretensioso: o Imperial, em Tavira. Para quem está perto, garanto que o desvio vale a pena.

segunda-feira, agosto 6

Ingrid Betancourt já em liberdade?

De acordo com esta notícia, Ingrid Betancourt poderá já estar na Venezuela e será entregue brevemente à mulher de Sarkozy. Intermediário nas negociações com as FARC: Hugo Chávez.

O governo francês nega os rumores e a mãe de Ingrid tem dúvidas.

Duas horas de pé: um massacre

"É complicado para os homens e mulheres presentes nesta cerimónia, ficarem obrigados a estar ali duas horas e tal de pé, à espera que a cerimónia acabe. É mais um sacrifício do que propriamente um dia de festa", palavras de um membro da Associação Sindical de Profissionais de Polícia a respeito de umas comemorações a que não podem assistir sentados.

Tem razão o porta-voz. Há coisas que não se devem exigir a um polícia. Quem está treinado para passar duas horas de pé é quem tem de apresentar queixa de um roubo de telemóvel, enquanto alguém (sentado) do outro lado do balcão inquire e tecla, sem pressas, preenchendo um formulário electrónico.

Preso por ter cão

Etemad Melli é o nome de um jovem que perdeu o seu cão. Ao tentar pôr um anúncio para o recuperar foi preso. As autoridades pretendem assim enviar uma mensagem clara contra uma cultura corrupta importada do ocidente. A cena passa-se em Teerão.

domingo, agosto 5

Sol do sul

Silly season 2



As pessoas precisam mesmo de quem lhes diga o que podem e o que não podem fazer. Basta andar pelos passeios, pelas esplanadas ou pelas praias para ficarmos estarrecidos com o número de doentes que andam por aí em vez de recolherem a casa ou ao hospital. A situação é tanto mais alarmante quanto se sabe agora que se trata de uma doença infecciosa. Alguém tem que fazer alguma coisa, já.

Silly season 1



Não sei se a venda de rosas em restaurantes pelos paquistaneses vai de vento em popa, mas não há uma alma caridosa que lhes explique a maneira fácil de duplicar as vendas? Eles ignoram não só as mesas em que há dois homens ou duas mulheres mas também quem gosta de jantar só.

Há 45 anos



Numa tarde quente de Agosto sabia-se, pela rádio, que Marylin se suicidara. A aldeia já era global. Era domingo, como hoje.

terça-feira, julho 31

Luz de Inverno



O mistério da ausência de Deus, por Ingmar Bergman, 1963.

segunda-feira, julho 30

Não surpreende

Pelo contrário, é apenas uma confirmação para quem acredita no carácter estruturante do conhecimento matemático: os estudantes que tiveram mais matemática no ensino secundário têm melhor desempenho em todos os tipos de ciência na universidade. Há uma grande variedade de dados quantitativos, mas esta frase condensa o essencial do artigo de Philip M. Sadler publicado na Science na semana passada.

sábado, julho 28

Freguesia X

X é o nome da minha freguesia. A junta edita e distribui pelas caixas de correio o boletim "X". São 11000 exemplares de 24 páginas a cores, com fotos dos membros do executivo, entrevistas aos próprios ou aos membros da assembleia de freguesia, breves sobre as grandes realizações em matéria de jardins, organização de convívios e passeios e êxitos na criação de associações desportivas. Em complemento, notas sobre o que não se conseguiu fazer, por culpa da câmara de Lisboa. O número deste mês inclui duas páginas de educação sobre os problemas ambientais onde somos aconselhados a tomar duche em vez de utilizar a banheira, a preferir os transportes públicos, a colocar filtros nas chaminés das fábricas e a utilizar os transportes públicos (é assim mesmo). O autor do artigo esqueceu-se de falar das árvores que se poupariam se o "X" deixasse de ser publicado.

Como tema recorrente, a junta passa todos os meses a mensagem de que X é um lugar único e mágico.

Um pouco de socialismo soft em versão kitsch açucarada não faz mal a ninguém. Mas suspeito que pelo menos o pavimento de uma rua esburacada, de que a junta se queixa, poderia ser resolvido com a suspensão do "X". Declaro-me pronto a prescindir desta leitura. Em caso de saudades, compro o Avante.

quarta-feira, julho 25

Sempre contra o medo. O medo de quem?

Há cerca de ano e meio, Cavaco era, para Manuel Alegre, o candidato da direita, do neo-liberalismo e do desmantelamento do estado social; o candidato com um programa de controlo do poder e que, sendo eleito, provocaria uma crise política em seis meses.

Das duas uma: ou a análise e previsões de Manuel Alegre não valem nada, ou, confrontando estes avisos com as actuais preocupações de Alegre e com o seu artigo de hoje no PÚBLICO, cada vez mais se confirma que o alvo do então candidato era outro. O que ele queria dizer é que, com Cavaco na presidência, o tal verdadeiro alvo ficaria em roda livre.

terça-feira, julho 24

Para compreender os quadros interactivos

Surpreendido pelas notícias de ontem, não quis ficar feito bota de elástico a lamentar o provável desaparecimento do quadro preto com giz e fui procurar compreender a maravilha que se anuncia com trombetas e holofotes. Nada melhor do que deixar falar quem sabe. Encontrei assim este testemunho de um participante num encontro sobre quadros interactivos que, numa linguagem cheia de carisma e com um conteúdo completamente original, me deixou esclarecido.

Os quadros brancos interactivos (QBI) foram apresentados como um recurso tecnológico a optimizar no processo de ensino-aprendizagem. Os testemunhos das docentes x, y e z, revelam o surgimento dum novo paradigma educativo que passa pela escola virtual. Vimos que o aluno assume uma grande autonomia na sua aprendizagem. O docente aparece como o facilitador e orientador dos contextos de aprendizagem.
Neste encontro vimos também exemplos de trabalhar pedagogicamente por competências com uma metodologia de projecto e aprendizagem colaborativa. Os alunos assumem uma participação criativa na construção do conhecimento.
Mas que impacto terá o QBI na aprendizagem desta nova geração de alunos? Como avaliar? Quais os resultados?
O desafio nasce para a investigação científica na área das ciências da educação. Numa metodologia de investigação objectiva / quantitativa teremos diversas dificuldades, porque em educação há muitas variáveis. Todavia, numa análise qualitativa, ficou a impressão subjectiva dos pais ao referirem, por comparação entre filhos, que verificam uma diferença: mais motivação, brio e aplicação na realização das tarefas.
Espero, por fim, que o projecto Interact continue a ser um estímulo à arte de ser educador. Queremos mais... aprender, criar e inovar!

Um de nós,

uvw


Portantos, a tendência outono-inverno em matéria de títulos para teses em educação será: O quadro interactivo: novo paradigma do conflito interpessoal na sala de aula ou O papel regulador específico do quadro interactivo na produção de metáforas conceptuais - um estudo de caso.

As modas globais

O Australian Mathematical Sciences Institute critica os testes de numeracia realizados recentemente pelo governo australiano, pela ignorância que revelam do que é a matemática e pelo não envolvimento de matemáticos no processo. O afastamento destes profissionais de tudo o que diz respeito ao ensino não universitário tem produzido ideias equívocas sobre a matemática moderna e em particular sobre o papel determinante da matemática "pura".

Com um ensino tomado de assalto por modas efémeras, falta pertinência matemática nos conteúdos dos programas, acabando a disciplina por perder coerência e alguns dos melhores professores. Os programas tendem a reflectir a ideia de que a matemática pura só interessa para estudos altamente especializados, ignorando o papel que ela tem nas aplicações a novos campos, como as mudanças climáticas, e na determinação da capacidade de aplicar os conceitos matemáticos.

Juiz de Múrcia diz que se vive um ambiente homossexual nas famílias espanholas

O juiz Fernando Ferrin, da primeira instância de Múrcia, afirma num auto que se vive um ambiente homossexual na maioria das famílias espanholas. Bem, não exactamente com estas palavras. Ferrin é mais subtil: "É o ambiente homossexual que prejudica os menores, e que aumenta sensivelmente o risco de que estes também o sejam." Com esta e outras asserções, em que compara a homossexualidade com actividades criminosas, o juiz fundamenta a atribuição da custódia de duas filhas ao pai, em virtude de a mãe ser lésbica e ter uma companheira.

As associações lgbt devem estar exultantes e agradecidas pelo tempo de antena que a sentença lhes dá de borla. E a atribuição de custódia à mãe, e não ao pai, porque sim, ganha uma multidão de defensores, já que, se há outras razões por detrás do caso, não se fala delas.

quinta-feira, julho 19

Em alta: Informática e Matemática

A licenciatura em Informática e Matemática da Universidade Autónoma de Madrid registou este ano a mais alta nota de acesso entre todas as das universidades da capital. Bem colocadas estão também as licenciaturas de áreas ligadas à saúde, mas há muitas vagas nas engenharias clássicas e em direito.

As licenciaturas de duplo espectro podem estar aí para ficar.

domingo, julho 15

Os resultados verdadeiramente bons

No início da noite, disse Jorge Coelho na SIC, em face de projecções, que António Costa tinha obtido um bom resultado por ter mais do dobro da votação do 2º colacado. Sabemos agora que não é assim. De acordo com o critério de Coelho, bom, bom é o resultado de Telmo Correia, superior ao dobro do de Garcia Pereira, colocado logo a seguir. E, vá lá, Garcia Pereira também se saiu muito bem, com mais do dobro dos votos alcançados por aquele senhor que se preparava para arruinar definitivamente a câmara de Lisboa oferecendo bilhetes de avião aos moradores dos bairros periféricos.

A jangada segundo Saramago

Segundo Saramago, Chávez é acusado de populismo porque se ocupa dos problemas dos pobres, coisa que faz sem fingimento. E lembra que, se está no poder, é porque o ganhou nas urnas. E que faz bom uso do dinheiro que ganha com o petróleo.

Noutra lide, Saramago entende que Portugal ganhará quando inevitavelmente se tornar província de Espanha e tem até já um modelo de organização política e um nome de companhia de aviação para o futuro novo país.

Como se soube não há muito tempo, há entre nós um sector de opinião que até estará de acordo com Saramago. Já o caso dos espanhois é mais duvidoso: talvez nem os galegos se entusiasmem com a ideia, porque o que eles prefeririam era uma desintegração.

O problema é o recorte da jangada. Forças não desprezáveis trabalham noutro sentido para a reconstrução de Al-Andaluz. Com sorte, eles anexam as Canárias e nós ainda temos tempo de fugir para o norte. Seria bom que Saramago, o Eng. Bin Laden e o Dr. Al Zawhari trocassem umas ideias sobre o assunto, como diz o título de um livro. Para ver em que ficamos, já agora. Chávez poderia ser o anfitrião, certamente com gosto. E Saramago, num pulinho à Central Madeirense, ganharia a ideia para um "Ensaio sobre a Alucinação", em que os habitantes de um país comem pacotes e pacotes de Kellogs convencidos de que estão a trincar uma bela pasta italiana. O tema parece idiota, mas à semelhança de outros, Saramago transfigurá-lo-ia com a força hipnótica da sua arte. Esta última frase é para ser levada a sério. E as outras também.

quarta-feira, julho 11

Na Europa ninguém mais diz nada?

O ministro norueguês dos negócios estrangeiros Jonas Gahr Stoere chamou o embaixador iraniano para protestar contra a execução por apedrejamento, na passada quinta feira, do companheiro de Mokarrameh Ebrahimi. A sorte da senhora Ebrahimi, mãe de dois filhos, é a preocupação do momento. A execução esteve prevista para 21 de Junho e foi adiada.

Foram ontem anunciadas pelas autoridades do Irão mais vinte condenações à morte pelos crimes de violação, adultério e homossexualidade. Várias mulheres foram presas por se manifestarem a favor de lhes serem reconhecidos direitos. Agumas foram condenadas a prisão e duas delas a dez chicotadas. Uma sentença suave.

Actualização: Pedro Zerolo, secretário de estado do governo Zapatero, acaba de se manifestar contra "o integrismo fundamentalista, machista e homófobo que impregna o governo de Mahmud Ahmadineyad". Apela à comunidade internacional, "especialmente à UE, que reaja, com a mesma contundência com que reagiu perante o programa nuclear iraníano". Antes tarde que nunca, mas quanto à contundência tenho dúvidas.

segunda-feira, julho 9

Benefícios do papão da matemática

Quatro terroristas foram hoje condenados no Reino Unido. Muktar Said Ibrahim, o chefe do grupo, tinha um sonho: provocar uma carnificina superior à de 7/7, há dois anos, em Londres. Sabe-se agora que foi ele o responsável pelo falhanço do atentado devido à sua incompetência em aritmética. Ibrahim, que chumbara em matemática no secundário, calculou mal as proporçóes dos ingredientes necessários para a explosão.
Um bom muçlmano, afinal, deve dar muito mais atenção ao Corão do que às funções de variável real. Infelizmente há maus muçulmanos que perdem tempo até com o Cálculo Infinitesimal, a Química e mesmo a pilotar aviões de grande porte.

O caso agora revelado deve fazer soar o alerta nas escolas paquistanesas onde Ibrahim foi treinado. Certamente vai ser necessário dedicar mais tempo às ciências e à matemática. Mas nem só os responsáveis do ensino corânico têm razões para meditar. Sete meses antes do atentado, Ibrahim tinha sido detido pela polícia em Heathrow com destino ao Paquistão mas acabaram por deixá-lo seguir viagem. A desculpa do homem é que ia a um casamento, embora não se recordasse do nome da noiva.

quarta-feira, julho 4

Há muitos anos




Há muitos anos, numa vila alentejana, o cinema começava às 22.00 no mês de Junho. Depois passava para as 21.45, e mais lá para o início de Agosto para as 21.30. Era uma esplanada com ecran enorme, e mais cedo não podia ser por causa da luz do dia. Agora achamos que o clima está desregulado, mas lembro-me de lá ter tiritado de frio muitas noites (talvez a maioria delas). Nos bancos de cimento da geral era mau, mas as cadeiras e mesas metálicas não eram muito melhores. A luminosidade do projector de vez em quando ia abaixo e o som era cheio de distorção. Os filmes é que eram bons, ou pelo menos a memória regista-os com essa etiqueta. Agora, suponho que toda a gente da terra vê DVDs em casa, às vezes com ar condicionado.

(banda sonora daquela cena aqui.)

Na nossa casa, na esquina de um café

Estes são os sítios onde se pode criticar o governo. Ouvi há minutos na tv, dito pela Sra. Carmen Pignatelli.

Finalmente compreendo porque é que, no tempo das eleições presidenciais, os camaradas Jerónimo e Alegre avisavam que vinha aí o fascismo e por isso era preciso elegê-los a eles. Eu ria-me, não contando com a subtileza deles, pensando que se referiam ao próprio Cavaco.

segunda-feira, julho 2

Llosa sobre Revel

... um dos intelectuais mais lúcidos do tempo que vivemos, um escritor que, como Orwell - com quem tanto se parece - no período que lhe coube, salvou de certa forma a "honra do espírito" defendendo a liberdade quando tantos intelectuais a traíam por oportunismo, fanatismo ou cegueira, e denunciando sem descanso todas as imposturas que por obra das modas, da vaidade ou da simples vacuidade empobreceram o ofício do intelectual contemporâneo.

Ninguém antes dele se atreveu a assinalar que boa parte dos escritos de Lacan, Derrida, Pierre Bourdieu e outras estrelas da inteligência francesa não eram incompreensíveis por serem profundos, mas sim porque, por detrás da sua escuridão verbal, havia só pretensão, vazio e lugares comuns envoltos em retórica impenetrável...

Revel [...]começou dizendo no Ladrão na casa vazia que, ao contrário de muitos colegas, muito satisfeitos consigo mesmos, ele passara a vida a enganar-se e a arrepender-se dos próprios equívocos. Dizia-o e acreditava-o.


(Excertos de um texto de Mario Vargas Llosa, que hoje, em Madrid, recorda Revel e apresenta o Ladrão na casa vazia.)

sexta-feira, junho 29

A burka e a vitamina D

Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition demonstra a carência de vitamina D em mulheres residentes nos Emiratos Árabes Unidos. No estudo documenta-se a eficácia de suplementos diários de vitamina D2 e conclui-se:

...when sunlight exposure is limited, doses of vitamin D2 higher than those currently studied may be needed.

(Via Slate.)

domingo, junho 24

Psiquiatra explica o conflito palestino-palestiniano

O Dr. Ayead El-Sarraj encontrou chaves para compreender o que se passa em Gaza: porque é que palestinos andam a atirar outros palestinos de um 5º andar ou a fuzilar sumariamente outros palestinos acusando-os de heresia. Trata-se do trauma de uma geração, a dos filhos da ira. Funda-se na experiência insuportável de ver os pais espancados e torturados pelos israelitas. Esta experiência traumática conduziu a um deteriorar da figura do pai, procurando-se a sua substituição nas organizações armadas. A milícia é o pai com o Corão que atenua o fantasma do desamparo e impõe disciplina.

As culpas de Israel não ficam por aqui. Como explicar a filiação em grupos rivais numa luta fratricida? Simples: trata-se da não presença do inimigo comum, em resultado da saída de Israel da Faixa em 2005.

O Dr. El-Sarraj não alude aos possíveis efeitos traumáticos da educação para o suicídio na infância e não se percebe porquê: toda a gente sabe que essa educação era indispensável, dada a presença dos israelitas em Gaza.

Infelizmente, os psiquiatras não foram consultados antes de Agosto de 2005. Este descuido funesto impediu a previsão do presente massacre. Mas mesmo que o Dr. Ayead El-Sarraj tivesse sido ouvido, a sua teoria cairia em saco roto. Para além de dar explicações nada islâmicas para os factos, o homem deve ser obviamente um sionista infiltrado.

quinta-feira, junho 21

Execução suspensa?

Mokarrameh Ebrahimi, uma mulher de 43 anos, e o homem com quem partilha condenação por adultério, estão presos há 11 anos, no Irão. A execução do par esteve marcada para hoje, por apedrajamento até à morte, na cidade de Takestan, mas soube-se ontem que foi suspensa. De acordo com algumas fontes, o protesto internacional e o alarme na própria blogosfera iraniana terão tido aqui um papel importante. Na Amnesty International decorre uma acção, motivada por este caso, para demover as autoridades iranianas da aplicação desta pena cruel.

terça-feira, junho 19

A boa avaliação segundo a APP

A circunstância suscita o prolongamento do post anterior. A APP veio, uma vez mais, declarar a sua desaprovação a respeito do exame de Português ontem realizado.

A APP tem a este respeito uma opinião cheia de contradições. Queria uma prova que avaliasse conhecimentos de gramática, mas reconhece que as trapalhadas em torno da abominável tlebs acabaram por condicionar o enunciado. Quer exames orais mas avisa que isso sairá caro (em euros), o que lança pelo menos alguma desconfiança sobre as razões da reivindicação. De resto, se tivermos em conta outras posições recentes da APP, podemos também suspeitar que os exames orais da APP servirão, sobretudo, para dar um peso menor ao uso correcto da língua na escrita, desvalorizando-o.

A APP não ignora a dificuldade técnica de montar a operação de exames orais que reclama. Requerer mais exames pode significar, paradoxalmente, querer acabar com eles.

segunda-feira, junho 11

Por detrás dos pareceres

A leitura dos pareceres de associações de professores sobre os programas oficiais das suas disciplinas é interessante como elemento para um retrato dos problemas do nosso ensino pré-universitário.

A Associação de Professores de Português reconhece nos programas uma inegável qualidade e congratula-se com a abordagem proposta de um conjunto diversificado de tipologias textuais, literárias e não literárias. Aponta as dificuldades de ensinar o funcionamento da língua quando os alunos falham ainda em aspectos básicos de morfologia e sintaxe. Concorda com a necessidade de incluir o estudo da gramática, mas parece aceitar pacificamente que estudar gramática só é possível com uma tlebs qualquer, preferentemente simples. (Estranha área do conhecimento onde o problema principal são os nomes a dar aos objectos. Enfim.)

A Associação de Professores de Matemática reconhece igualmente grandes virtudes no programa adoptado. Há equilíbrio aceitável, há grau de aprofundamento adequado, há até novas metodologias e nova cultura profissional induzidas pelo programa. Exprime a dificuldade de articulação vertical com o 3º ciclo do ensino básico (leia-se, a dificuldade de ensinar as matérias quando os alunos falham a nível muito elementar).

Quanto à avaliação de conhecimentos, ambas as associações sublinham (mas mais vincadamente a APM) que não gostam de avaliações externas, e com esse fim servem-se do discurso das aprendizagens e das competências: os exames não são adequados para as avaliar cabalmente, dizem elas.

Há uma diferença muito marcada nas apreciações da APP e da APM no que diz respeito às metodologias. A APP rejeita, bem, a extensão e falta de objectividade do texto programático, carregado de indicações metodológicas intrusivas e incompatíveis com o volume de conteúdos declarativos.
A APM elogia repetidamente as indicações metodológicas do programa de matemática, chegando ao ponto de dizer que um dos problemas da avaliação de conhecimentos está no facto de os temas serem simultaneamente conteúdo e metodologia e que esta fica por avaliar com os métodos tradicionais(!!!).
A APP classifica o processo de implementação dos programas como atribulado e mal orientado; para a APM o processo foi ímpar relativamente à grande maioria dos programas, mas lamenta que o acompanhamento (por iluminados, entenda-se) tenha sido interrompido. Está implícito na apreciação da APM que o programa de Matemática é um texto encriptado, dependendo a sua "correcta" aplicação de um exército de exegetas capazes de o explicar à massa de professores ignorantes. Não está dito com estas palavras, mas está lá para quem queira ler.

A APM leva o seu delírio apreciativo ao ponto de dizer que o programa apela às conexões entre os diferentes temas, quando nem sequer dentro de um tema está garantida qualquer coerência (por exemplo, são propostas duas definições diferentes para o número e sem que haja um esforço para as relacionar). Também lamenta que não tenha sido criada a disciplina de Temas Actuais de Matemática, para extensão e aprofundamento, o que é claramente contraditório com as dificuldades, conhecidas e confessadas, para a leccionação dos temas básicos que o currículo não pode deixar de contemplar. Insiste muito também na necessidade de maior e mais generalizada utilização da tecnologia como solução milagrosa, confundindo o domínio das ideias com um mero e circunstancial meio auxiliar de cálculo.

Usando a linguagem cara aos pedagogos pós-modernos, as apreciações das associações de professores merecem estudos de caso, para que se compreendam as representações que estas direcções burocráticas elaboram das matérias curriculares e da actividade profissional dos seus associados.

sexta-feira, maio 25

Margarida Moreira votou Salazar?

Na sua coluna de hoje no PÚBLICO, Carlos Fiolhais aborda o recente e triste episódio ocorrido na DREN à volta de um comentário jocoso ou ofensivo, conforme os pontos de vista. Argumenta, com razão, que o que se passou é uma pequena amostra do que poderá suceder se novos centros de poder vierem a surgir em órgãos regionais.

Mas um ponto chave da crónica é a ironia de concluir que Margarida Moreira vem, com o seu gesto, revelar que votou Salazar no célebre programa de tv. Se à primeira vista, dados os actos de bufaria e repressão de opinião subjacentes ao caso, a asserção parece ter sentido, um minuto de análise é suficiente para reconhecer que a ironia não passa disso mesmo. Vindo de onde vem, e colocada onde está pela mão de quem foi, Margarida Moreira pertence, quase de certeza, à classe de cidadãos que jamais votaria Salazar e que, só por isso, se auto-atribuem superioridade moral. A repulsa pela vitória do antigo ditador vem de um nome e de um tempo que já não ameaçam ninguém. Sob o disfarce de nomes mais simpáticos, aspectos tenebrosos do que o salazarismo representou não podem causar senão um escândalo mais limitado. A repugnância pelo primeiro lugar de Salazar no concurso é compatível com práticas que o galardoado aprovaria.

quarta-feira, maio 23

Ser e não ser

Fazer um juízo sobre a actual situação da cidade de Lisboa e não do Governo. Este foi o pedido do antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, aos eleitores...
Agora que o actual Presidente da República está em paz com o governo, o ex faz-lhe uma censura mais que explícita. Inconsistente e auto-contraditória, como é hábito, vinda de quem vem.

terça-feira, maio 22

As palavras: continuação do post anterior

Durante muito tempo, em conversas amenas, costumava escarnecer dos estruturalismos que considerava ocos. Agora estou cada vez mais rendido à força devoradora das palavras, que deixam de o ser para se imobilizarem, petrificadas, na digestão dos objectos de que se apropriaram.

Ontem, numa entrevista de tv, Ruben de Carvalho comentava que as muitas candidaturas de "esquerda" são a prova da vitalidade da "esquerda".

Durante a última campanha presidencial, muitos preveniam contra o autoritarismo, o "fascismo" até, que aí vinha pela mão do candidato que acabou por ser eleito.

Quando Salazar ganhou um pífio concurso de tv, virgens ofendidas disseram cobras e lagartos do estado da democracia.

Quando, na realidade, um fascismo pequeno e subtil ensaia passos de lã, ele dificilmente é reconhecido, porque afinal vem trazido pelos que têm o monopólio do uso de rótulos anti-fascistas.

"Esquerda", "fascismo"... palavras que deixaram de o ser, para se tornarem obcessões que habitam as mentes paradas num tempo e num lugar.

quarta-feira, maio 16

A situação terrível

José Sá Fernandes apela à unidade da esquerda no episódio das eleições antecipadas, por motivo da situação terrível a que chegou a câmara de Lisboa. Roseta e o PCP, sorrindo, dizem não, mostrando assim a situação terrível a que chegou aquilo que se costuma designar como esquerda.

Os planos não devem ter resultados

Quando foi lançado um plano de acção para a Matemática, no final de 2005, exprimi dúvidas sobre aspectos relacionados com a direcção do projecto, onde assumiram papel de relevo defensores das políticas que têm conduzido ao desastre do ensino da disciplina. Os primeiros textos publicados pela comissão nomeada para o efeito continham um número suficiente de parágrafos em eduquês para ficarmos de sobreaviso.

É claro que a ministra sabia o que fazia. Não tem que se admirar, agora, de que lhe venham contestar esse vício de pretender que as acções sejam empreendidas tendo em vista resultados.

A APM aceitou estar representada na Comissão de Acompanhamento desta medida [o Plano de Acção para a Matemática], onde sempre contrariou o discurso excessivamente centrado sobre os resultados esperados com a realização dos projectos nas escolas, porque há muitos aspectos das aprendizagens que não são mensuráveis, sobretudo a curto prazo, e porque há muitos factores, alheios ao sistema educativo, que influenciam as aprendizagens dos alunos. A afirmação de que os resultados dos exames de Matemática do 9º ano vão ser “teste ao trabalho das escolas”, revela ausência de sentido pedagógico e exprime uma leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação. (Comunicado da Associação de Professores de Matemática, 15 de Maio).

Muitos aspectos não mensuráveis? Vá lá, vá lá. Mas, que diabo, professores de matemática não conseguem descobrir um par deles que o sejam?

Parece-me que a APM está a querer converter-se em factor alheio (se não de bloqueio) ao sistema educativo. E a revelar ausência de responsabilidade e sentido pedagógico. E a exibir uma leitura muito simplista e redutora da realidade.

A primeira medida

No PÚBLICO de 11/05, Luís Campos e Cunha propõe quatro medidas para o ensino superior com as quais estou de acordo.

A primeira consiste em não autorizar programas de doutoramento em áreas nas quais as unidades de investigação de uma dada instituição não estejam classificadas como "muito boas" ou "excelentes". De facto, esta é uma condição necessária mínima para garantir qualidade. No entanto, quando olhamos o problema de mais perto, é fácil compreender que nem com uma tal medida a qualidade fica garantida.

A principal razão é que os tempos modernos, e sobretudo os pós-modernos, erodiram e perverteram o significado de "investigação", de "área científica", e o do exame de "doutoramento" que lhes pode estar associado. De outro modo não seria possível encontrar "teses de doutoramento" com títulos como Educação Matemática e Conflitos Sociais (Un. Campinas, Brasil 2005), O nexo "geometria fractal - produção da ciência contemporânea" tomado como núcleo do currículo de matemática do ensino básico (Rio Claro, Brasil 2005), Cultura organizacional em contexto educativo : sedimentos culturais e processos de construção do simbólico numa Escola Secundária (Un. Minho, 2003) e muitos outros que aborrece citar. Os exemplos são igualmente numerosos lá fora. Em http://www.people.ku.edu/~jyounger/lgbtqprogs.html podem consultar-se programas de mestrado e doutoramento que falam por si. Por exemplo "East German Women's Struggle to Resist the Strengthening of Traditional Gender Roles in Reunified Germany", é o título delicioso da tese de uma professora da George Mason University, muito vocacionada para questões de género. (Curiosamente, numa universidade tão cheia de feministas, os estudantes muçulmanos impõem agora as suas regras num espaço de meditação, requerendo áreas separadas para homens e mulheres.)

É claro que unidades de investigação nestas áreas, sendo avaliadas pelas sumidades comprometidas com as mesmas ideologias, podem com facilidade ser classificadas de excelentes. A infecção alastra entre elogios.

domingo, maio 13

O destino de Dua Khalil Aswad

Dua Khalil Aswad era uma rapariga curda de 17 anos, pertencente à seita Yazid, adoradores de um anjo caído em desgraça e que se consideram a si próprios os veradeiros descendentes de Abraão. Dua enamorou-se de um rapaz sunita e certa noite não voltou a casa para ficar junto dele. Um chefe Yazid deu-lhe refúgio. Mas a notícia chegou à família com a carga da desonra: Dua tinha-se até convertido ao Islão por amor.

No passado dia 7 de abril, os familiares e autoridades religiosas Yazid, seguidos de uma multidão, forçaram a rapariga a sair da casa onde se abrigara, arrastaram-na pela rua e apedrejaram-na durante meia hora até à morte, com calhaus e um bloco de cimento. Tiveram a atenção, durante o acto, de lhe cobrir as pernas com roupa.

Coexistindo nos nossos dias o mundo medieval com os últimos avanços da electrónica, tornou-se possível presenciar estes actos bárbaros onde quer que estejamos. Alguém filmou com um telemóvel, quem sabe se com a mesma frieza com que se filma um casamento ou um bocado de um jogo de futebol. O video começou a ser divulgado há uma semana e foi retirado de alguns sites, como o YouTube, mas ainda é possível encontrá-lo noutros. O que não é fácil é suportar o visionamento.

segunda-feira, maio 7

A "amarga vitória"

Tem piada o fingido espanto diante da vitória esmagadora de AA Jardim na Madeira. Institucionalizem no meu bairro uma forma de governo com direito a transferências do orçamento e verão o acontece quando tentarem diminuir-nos o tamanho da fatia. Já agora, avancem para a regionalização e depois venham admirar-se com as "amargas vitórias da democracia".

O equívoco maior é a utilização da etiqueta de um partido (PSD) que só tem a ver com a situação na medida em que aproveita sofregamente as vitórias de Jardim, para compensar a sua cada vez maior irrelevância nacional. A todos convém, no entanto, manter a ficção de que as capelas de poder na Madeira podem identificar-se com as de Lisboa, na esperança (agora desfeita) de virem um dia a sentar-se à mesa com acesso ao bolo.

Nos próximos episódios, o mais provável é que Jardim, governando com as novas regras do jogo, venha a mostrar, na prática, que as alterações à lei das finanças regionais são razoáveis.

domingo, maio 6

A profecia fácil

Em várias cidades de França começaram os protestos pelo resultado das eleições. Ségolène, clarividente, tinha avisado. Os franceses não lhe deram ouvidos, mas há quem se encarregue de não a desiludir.
O dirigente de AC le Feu, Mohamed Mechmache, em Clichy-sous-Bois, já comentou: A França não compreendeu a mensagem do que aconteceu em outubro e novembro de 2005.
A dúvida do momento passa a ser agora: qual será o número de carros queimados?

Actualização às 8:50 de 2ª feira: o número é maior que 350 (já que coloquei a pergunta) mas no contexto francês talvez nem seja muito significativo...

quinta-feira, maio 3

A escola inclusiva

Ontem de manhã a Senhora Ana Benavente foi entrevistada no Rádio Clube Português. Sobre o estafado assunto dos males da educação disse coisas ainda mais estafadas, mas curiosas, porque normalmente ninguém se dá ao trabalho de reflectir muito sobre as fantasias que passam por erudição pedagógica. Disse a senhora que esta escola velha continua a insistir num erro: agrupar os alunos por faixa etária, como se todos tivessem as mesmas possibilidades de aprender o mesmo ao mesmo tempo, apesar de sabermos que os alunos têm não só diferentes capacidades mas também diferentes pré-disposições relacionadas com o meio familiar de proveniência.

Muito bem. A senhora não disse, mas presume-se então que, no seu entender, não sendo por idades, as escolas deveriam agrupar os alunos por etiquetas como: pobrezinhos e burros ou ricos e dotados. Uma maneira, como outra qualquer, de manter a reserva ecológica dos pobrezinhos que tanta falta fazem para elaborar teorias educacionais e programas políticos.

segunda-feira, abril 30

O clima aquece e a discussão também

Vale a pena ler o texto de Lubos Motl a propósito do relatório do IPCC, acabado de publicar. Vale a pena também seguir a discussão nas caixas de comentários.

domingo, abril 29

Telemóveis ilibados

Dados novos sobre o misterioso desaparecimento das abelhas vêm inocentar os telemóveis, apontados em notícias recentes como causadores da desorientação destes insectos por causa das radiações que emitem. Parece que o verdadeiro culpado tem um nome mais difícil de dizer: trata-se do parasita "nosema ceranae", que tem origem na Ásia e ataca o sistema digestivo das abelhas, enfraquecendo-as a ponto de as impedir de regressar à colmeia. São investigadores espanhóis que o afirmam, e acrescentam que as altas temperaturas dos últimos anos constituem outro factor adverso. Seja como for, o assunto é sério, dado o papel das abelhas na polinização.

Percentagens

De acordo com sondagem CSA-Cisco, dos muçulmanos que votaram na primeira volta das presidenciais em França 64% escolheram Royal. Bayrou foi a opção de 19%, e Sarkozy vem no fim com 1%.

sexta-feira, abril 27

A ex-doutora


Marilee Jones era a personagem chave do gabinete de apoio aos novos alunos no MIT. Reputada e premiada, tinha no seu currículo um PhD não especificado e "masters" em biologia e química. Assim passou 28 anos a apontar aos alunos o caminho para a universidade sem stress. Parece agora que não tinha nenhum dos graus que se atribuía e a demissão foi inevitável.

No seu livro de recomendações aos estudantes, Less stress, more success, aconselhava-os a nunca se fazerem passar por aquilo que não eram.

Eu acho que uma pessoa que consegue uma posição como a de Marilee ao longo de 28 anos, sem que ninguém note a ausência dos graus académicos, demonstra uma competência profissional para a qual devia estar prevista uma equivalência ao doutoramento. Mas talvez esteja a deixar-me levar por histórias cá da terra. Não consta que lá por Massachussets alguém tenha vindo a apontar Marilee como exemplo a seguir.

Para o bloco de notas de Jorge Sampaio

Com muitas fanfarras e dois dias de música, Aunty Muiduguri, nigeriana de 45 anos, casou com quatro raparigas no domingo passado, no estado de Kano. As autoridades, alertadas, arrasaram o edifício onde a cerimónia se realizou e procuram as cinco mulheres, que se encontram em fuga. É melhor para elas que consigam fugir mesmo. A polícia está determinada em encontrá-las para que lhes seja aplicado o castigo à medida da afronta à civilização e à cultura: chicotadas ou apedrejamento.

quarta-feira, abril 25

Em torno de uma anã vermelha



Está desde ontem nas notícias de todas as agências: foi descoberto por uma equipa de astrónomos franceses e suiços (que inclui Xavier Bonfils, da Universidade de Lisboa) um planeta com algumas características que o aproximam do nosso. Gravita em torno da estrela Gliese 581, tem dimensões e massa pouco maiores que as da Terra e à sua superfície teríamos a sensação de pesar o dobro. Fica só a 20 anos-luz.

terça-feira, abril 24

A justiça divina

Finalmente tivemos direito a declarações bombásticas. Alberto João Jardim, homem incapaz de não ceder a um impulso, não consegue calar: foi-lhe revelado que o nosso PM está a sofrer as consequências da Justiça de Deus. Ora, ao alardear o facto do modo como o fez, acaba por interferir com a justiça divina e retirar-lhe força. Um minuto de reflexão aconselharia, caso AJJ quisesse colocar-se realmente do lado de Deus, a gritar em público a sua solidariedade com Sócrates neste transe difícil mas passageiro. Mais ao menos ao estilo do que fez o major Valentim. Ou então adoptava a atitude séria e cínica de Portas, que passou a utilizar a expressão Engenheiro Sócrates três vezes por minuto.

segunda-feira, abril 23

Dia do livro



-A senhora Mita disse-me que quando fores mais crescida vai ensinar-te o trabalho de enfermeira para poderes entrar para o hospital.

-Não quero, são umas desgraçadas.

-Pior é a Felisa.

-As enfermeiras andam sempre com as batas gastas e rotas.

-Mas é melhor do que ser criada.

-De que escapou o senhor?

-De ser morto por um marido cornudo.

-Mas o senhor nunca sai se não for com a senhora.

-Mas quando era solteiro salvou-se de ser esfaqueado mais de uma vez. Vai para enfermeira, Amparo.

-Sei de uma enfermeira que pariu solteira.

-A tua irmã também pariu solteira, quem julgas que és?

(......)

-Amparo, tens que levar esta carta ao correio. Penteia bem o meu negrinho, daqui a bocado vamos levá-lo a ver a mãe.

-Levo-o comigo ao correio, senhor.

-Amparo, lembra-te que juraste que não dirias a ninguém.

- Eu não disse a ninguém. Deus me mate aqui já.

-Nunca digas a Mita que temos um segredo.

-Não, senhor. Mas a senhora perguntou-me porque é que eu tinha o braço negro.

-Negro de quê?

-De quando o senhor viu que eu o vi atrás da porta , à escuta da conversa delas.

-Que braço negro?

-O senhor sem se dar conta apertou-me com muita força até que lhe jurei que não ia dizer nada à senhora Mita.

Manuel Puig, La traición de Rita Hayworth, edição definitiva 1976. Quadro de António Berni.

O mau véu



Desde a semana passada, a polícia iraniana está empenhada em fazer cumprir os novos regulamentos sobre indumentária feminina. Combate-se o "mau véu", que deixa à mostra madeixas de cabelo não inocentes, e a crecente ocidentalização do vestuário. A intenção não podia ser melhor: as autoridades afirmam que estas mulheres desleixadas correm um risco muito maior de ser agredidas.

(Foto Fars News)

domingo, abril 15

O espírito de Abril

Em artigo no PÚBLICO de hoje, Elísio Estanque (do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra) lamenta o individualismo, a dependência das hierarquias, o discurso tecnocrático, a aversão ao sindicalismo que caracterizam actualmente as relações laborais. Como fonte do descalabro, aponta forças difusas a que chama "vozes do dono" e identifica com "detentores do poder" infiltrados no mundo empresarial. Como hipotética salvação, refere essa entidade metafísica chamada "espírito de Abril" ao qual, parece, estão associadas "promessas" esquecidas. E depois? Depois, o artigo resume-se a isto.

Julgava que a Sociologia dava chaves para compreender o mundo mesmo quando ele não está de acordo com os desejos do observador.

Aniversário: Leonhard Euler


Faz hoje 300 anos que nasceu este matemático excepcional, também um dos mais produtivos de todos os tempos. No site da Mathematical Association of America há uma interessante série de artigos de Ed Sandifer, que abrange desde os "greatest hits" de Euler até especulações sobre o interesse do grande matemático pela teoria da terra oca...

Incertezas

Pouco se comenta, entre os dirigentes europeus, o ressurgimento de actos terroristas espectaculares em Marrocos e na Argélia, e o anúncio simultâneo de ameaças da Al-Qaeda à Europa. Entre nós, não se comenta absolutamente nada. E os objectivos confessados do grupo terrorista são claros: França e Espanha estão na mira. A reconquista de Al-Andaluz define a fasquia.

Como Al-Andaluz é já ali ao lado, e Espanha é um termo que para o efeito em causa pode muito bem englobar território português, e também por sabermos que quem ameaça não brinca em serviço, é de esperar que o que parece distracção seja apenas aparente e as forças de segurança europeias (incluindo as nossas) estejam tomar providências. A reconquista propriamente dita não será fácil, mas a capacidade de provocar umas centenas de estropiados ou uns milhares que queimados vivos é coisa de que a Al-Qaeda já deu provas que bastem. Entretanto, a bomba relógio dos diferenciais de taxa de natalidade vai fazendo o seu trabalho.

O assunto não agradará a muita gente. Fica a claro que as políticas conciliadoras de Zapatero e dos políticos franceses relativamente às populações islâmicas nos seus países, e a sua hostilização dos Estados Unidos, de nada valem face aos objectivos do terrorismo islâmico global.

Em França, os candidatos à presidência disputam entre si ora o apoio dos imigrantes, ora o receio que eles infundem, de uma maneira nem sempre coerente. O apoio de certos círculos islâmicos a Le Pen não deixa de surpreender.

Não há dúvida de que a realidade é muito mais complexa do que os esquemas a preto-e-branco com que tentamos interpretá-la. Para o cidadão comum, que não está na posse senão de uma quantidade limitada de informação, é difícil avaliar opções. O problema é que aqueles que se candiadatam a representar-nos e a governar-nos aparentam também, por vezes, não estarem na posse de uma "ideia", ou não saberem muito mais do que nós. Quando é prioritário gerir mandatos de quatro ou cinco anos, pensar a sério no futuro da Europa pode ficar para depois.

16:9


Vamos lá abordar temas profundos e importantes. Intriga-me um subproduto do materialismo vigente, que consiste na utilização de um objecto pelo gozo único da sua ostentação, distorcendo a função para que ele está concebido. Poderia dar muitos exemplos, mas há um que, literalmente, entra pelos olhos dentro. Desde que apareceram os televisores panorâmicos, não há quem não goste de ter o seu. Eles estão nos hipermercados, nos consultórios, nos cafés, nas casas. Como as emissões no formato panorâmico não são frequentes, só tenho memória de ver, nesses ecrans alongados, cenas com personagens artificialmente atarracadas por uma compressão vertical. Ninguém parece incomodar-se com isso, embora a restauração do formato correcto esteja à distância de uma tecla. O que é preciso é encher o olho (neste caso, o ecran).