A leitura dos pareceres de associações de professores sobre os programas oficiais das suas disciplinas é interessante como elemento para um retrato dos problemas do nosso ensino pré-universitário.
A
Associação de Professores de Português reconhece nos programas uma
inegável qualidade e congratula-se com a abordagem proposta de
um conjunto diversificado de tipologias textuais, literárias e não literárias. Aponta as dificuldades de ensinar o funcionamento da língua quando os alunos falham ainda em
aspectos básicos de morfologia e sintaxe. Concorda com a necessidade de incluir o estudo da gramática, mas parece aceitar pacificamente que estudar gramática só é possível com uma tlebs qualquer, preferentemente simples. (Estranha área do conhecimento onde o problema principal são os nomes a dar aos objectos. Enfim.)
A
Associação de Professores de Matemática reconhece igualmente grandes virtudes no programa adoptado. Há
equilíbrio aceitável, há
grau de aprofundamento adequado, há até
novas metodologias e nova cultura profissional induzidas pelo programa. Exprime a dificuldade de
articulação vertical com o 3º ciclo do ensino básico (leia-se, a dificuldade de ensinar as matérias quando os alunos falham a nível muito elementar).
Quanto à avaliação de conhecimentos, ambas as associações sublinham (mas mais vincadamente a APM) que não gostam de avaliações externas, e com esse fim servem-se do discurso das
aprendizagens e das
competências: os exames não são adequados para as avaliar cabalmente, dizem elas.
Há uma diferença muito marcada nas apreciações da APP e da APM no que diz respeito às
metodologias. A APP rejeita, bem, a extensão e falta de objectividade do texto programático, carregado de indicações metodológicas intrusivas e
incompatíveis com o volume de conteúdos declarativos.A APM elogia repetidamente as indicações metodológicas do programa de matemática, chegando ao ponto de dizer que um dos problemas da avaliação de conhecimentos está no facto de os temas serem simultaneamente conteúdo e metodologia e que esta fica por avaliar com os métodos tradicionais(!!!).
A APP classifica o processo de
implementação dos programas como atribulado e mal orientado; para a APM o processo foi
ímpar relativamente à grande maioria dos programas, mas lamenta que o
acompanhamento (por iluminados, entenda-se) tenha sido interrompido. Está implícito na apreciação da APM que o programa de Matemática é um texto encriptado, dependendo a sua "correcta" aplicação de um exército de exegetas capazes de o explicar à massa de professores ignorantes. Não está dito com estas palavras, mas está lá para quem queira ler.
A APM leva o seu delírio apreciativo ao ponto de dizer que o programa
apela às conexões entre os diferentes temas, quando nem sequer dentro de um tema está garantida qualquer coerência (por exemplo, são propostas duas definições diferentes para o número
e sem que haja um esforço para as relacionar). Também lamenta que não tenha sido criada a disciplina de Temas Actuais de Matemática, para extensão e aprofundamento, o que é claramente contraditório com as dificuldades, conhecidas e confessadas, para a leccionação dos temas básicos que o currículo não pode deixar de contemplar. Insiste muito também na necessidade de
maior e mais generalizada utilização da tecnologia como solução milagrosa, confundindo o domínio das ideias com um mero e circunstancial meio auxiliar de cálculo.
Usando a linguagem cara aos pedagogos pós-modernos, as apreciações das associações de professores merecem
estudos de caso, para que se compreendam as
representações que estas direcções burocráticas elaboram das matérias curriculares e da actividade profissional dos seus associados.