Um responsável do parlamento iraniano, Mohsen Yahyavi, teve há pouco tempo uma entrevista com membros do parlamento britânico onde foram discutidos direitos humanos. De acordo com o Times, o diálogo pode ter sido mais ou menos assim:
-Olhe, nós estamos muito preocupados com as notícias de que homossexuais continuam a ser condenados à morte no seu país.
-Sabe, de acordo com o Islão não se pode permitir a existência de gays e lésbicas.
-Mas confirma que existem, e que os executam!
-A actividade homossexual em privado não tem mal nenhum, mas quem faz isso às claras merece ser torturado.
-Torturado?! Que coisa tão inadequada.
-Sorry, eu queria só dizer enforcado. Do modo como nós os enforcamos dá equivalência.
-Ah... Mas vocês estão a enforcar miúdos tão novos... não acham que que deveriam suspender esse tipo de execuções?
-Ora, minha senhora, eles merecem porque anda a propagar a SIDA.
-De qualquer maneira parece-nos excessivo que apliquem a pena de morte. As pessoas não escolhem a sua orientação sexual.
-Esse conceito não existe no Islão. Foi inventado para corromper a natureza humana. Alá criou-nos para nos reproduzirmos. Os homossexuais não se reproduzem.
-Também nos preocupa muito a notícia de que uma mulher engravidada pelo irmão foi condenada á morte e vai ser enforcada publicamente. O irmão foi absolvido com base no arrependimento. Não acha que há aqui uma desigualdade de tratamento inaceitável relativamente a homens e mulheres?
-Tem toda a razão. Talvez devêssemos ter apedrejado o irmão.
-Oh! Não era bem o que queríamos dizer...
-Bom, de qualquer modo esta troca de impressões correu muito bem. Tomei notas que serão muito úteis. Agora tenho que ir, um resto de bom dia.
-Bom dia.
terça-feira, novembro 13
segunda-feira, novembro 12
O redondo vocábulo
O grande sucesso do fim de semana é a frase do Rei "Porque não te calas?". Compreendo o enfado e falta de pachorra de Sua Majestade. Para além disso, no entanto, talvez haja uma incompreensão generalizada do insulto que muitos confundem com o valor facial da palavra "fascista". Fascista, nas bocas de esquerdalhos que não conhecem mais números do que zero e um (e mesmo assim não compreendem o que é o zero) é simplesmente um sinónimo vulgar de cabrão ou filho da puta. E, tal como um filho da puta chama isso a outros, tornou-se frequente o insulto "fascista" ou a sua variante "nazi" ser proferido por quem tem tendências fascistas ou nazis ou seus apoiantes.
Dado o empobrecimento semântico do vocábulo, mais vale deixá-lo morrer na companhia do cabrão e do filho de puta, que é a que merece. A grande questão não é mandar calar: é falar e não desistir de fazer ver que, de acordo com o que sabemos hoje, "comunista" é um candidato a sinónimo tão bom como o outro. E, já agora, pode-se-lhe juntar esse curioso aliado circunstancial, o islamismo como ideologia de estado. Apontar o mal é a melhor ajuda que se pode dar aos que lutam pela liberdade, em condições muito difíceis, sob os modernos regimes totalitários. Não foi evitando nomear as raizes do mal que se ajudou a cair um muro, há uns anos atrás.
Dado o empobrecimento semântico do vocábulo, mais vale deixá-lo morrer na companhia do cabrão e do filho de puta, que é a que merece. A grande questão não é mandar calar: é falar e não desistir de fazer ver que, de acordo com o que sabemos hoje, "comunista" é um candidato a sinónimo tão bom como o outro. E, já agora, pode-se-lhe juntar esse curioso aliado circunstancial, o islamismo como ideologia de estado. Apontar o mal é a melhor ajuda que se pode dar aos que lutam pela liberdade, em condições muito difíceis, sob os modernos regimes totalitários. Não foi evitando nomear as raizes do mal que se ajudou a cair um muro, há uns anos atrás.
O fim da ASJ?
A Associação Sindical de Juízes está a pressionar contra a aplicação a estes profissionais do estatuto de funcionário público. Eles não dizem, porque não é necessário, mas certamente que, em coerência, a vitória deverá implicar a implosão da ASJ.
domingo, novembro 4
Conversas de urinol

Ontem, na Universidade de Nova York, realizou-se a conferência Outing the Water Closet: Sex, Gender, and the Public Toilet . O programa pode ser consultado aqui
Podemos ter uma ideia dos temas abordados através dos trabalhos de Ruth Barcan, uma das conferencistas, professora de estudos de género na Universidadede de Sydney. Por exemplo, num artigo publicado no Journal of International Women’s Studies Vol 6 #2, 2005, Barcan chama a atenção para a subtil diferença entre "limpeza" e "sinais de limpeza":
Modern westerners avidly consume the signs of cleanliness, which may or may not have much to do with actual cleanliness or health. For example, chemical air-fresheners do not cleanse or purify the air but mask the smells we associate with dirtiness using a blend of (arguably) toxic chemicals. (One of the men in my study said there were “two schools of thought” about whether or not so-called “trough lollies” [urinal deodorizers] actually improve the smell of urinals. “It’s the kind of debate men have at pubs,” he said.)
E mais à frente: The increasingly avid consumption of signs of cleanliness is made possible by the experiential and conceptual distancing from nature brought about by modernity. Modernity is characterized by ambivalence about nature (...)
Se não fosse este artigo eu nunca viria a ter consciência de que a minha empregada, a Dona Vitória (que muito prezo) é adepta fervorosa da modernidade.
O artigo contém muitos outros profundos e inesperados ensinamentos, mas não deve ser lido durante uma refeição.
(Na foto: urinóis do Cinema São Jorge, Lisboa.)
segunda-feira, outubro 29
No inferno do ensino/aprendizagem

Vamos lá ver se dou conta do recado esta semana. Para começar, vou identificar as situações-problema, fazer uma ficha de avaliação diagnóstica e elaborar o plano de recuperação. Não posso esquecer-me de descrever as metodologias a adoptar, o plano de acção a desenvolver e as metas a atingir.
Vou ter o cuidado de seleccionar as estratégias de ensino aprendizagem de acordo com a complexidade dos conteúdos e as aprendizagens anteriores dos alunos. Vai dar-me algum trabalho preencher aquela lista de recursos diversificados de ensino/aprendizagem, mas lá chegarei.
Tenho que incluir algumas fichas de avaliação formativa e um plano de integração na área de projecto. Que sorte a minha escola ser agora um TEIP. Bem, mas não posso divagar, senão não me vai chegar o fim de semana para preencher as grelhas sobre intervenção oral e compreensão escrita que ainda tenho pendentes da semana passada. Ainda vou ter que combinar com a coordenadora do Eco-Clube a sessão de leitura de folhetos publicitários impressos em papel reciclável. Se ela não estiver de acordo, não me atrapalho, deixo isso para uma OTE ou uma TOA, talvez aquela do desenvolvimento das relações inter-pessoais e da alteração de comportamentos e atitudes.
Ao menos, enquanto estou entretida nisto, não me vem à cabeça a cena do aluno que me apalpou as mamas há quinze dias e que quase me ia despindo em plena sala de aula.
quinta-feira, outubro 18
Che fracturante

O editorial do El País "Caudillo Guevara", publicado no dia 10 de Outubro, é desaprovado por mais de dois terços da redacção, soube-se hoje. "O texto não abordava na sua totalidade uma figura suficientemente complexa para ser tratada como se não houvesse uma gradação de cinzentos."
(Foto em Little Green Footballs)
P.S. Che é (literalmente) fracturante também na Veneuela, onde um monumento em vidro, em sua memória, foi destruído menos de três semanas depois da inauguração.
domingo, outubro 14
Doris Lessing sobre o politicamente correcto como legado do Comunismo
Apesar da morte do Comunismo, os modos de pensar a que ele deu origem ou força ainda dominam as nossas vidas. Nem todos são tão evidentes (...) como o politicamente correcto.
Primeiro ponto: a linguagem. (...)Há uma gíria Comunista reconhecível em cada frase. Pouca gente na Europa não brincou com "passos concretos", "contradições", "interpenetração dos opostos" e por aí fora.
A primeira vez que vi que os mortíferos slogans tinham asas para voar para bem longe das suas origens foi num artigo do Times em 1950. "A manifestação de sábado foi uma prova irrefutável de que a situação concreta..." Palavras confinadas à esquerda (...) tinham adquirido utilização comum e, juntamente com elas, as ideias. Encontravam-se artigos na imprensa conservadora e liberal que eram marxistas, mas os autores não o sabiam. Mas há um aspecto desta herança muito mais difícil de ver.
(...) O Izvestia, o Pravda e muitos outros jornais comunistas eram escritos numa linguagem que parecia concebida para encher o maior espaço possível sem dizer nada. (...) Mas a herança da linguagem morta e vazia nos dias de hoje encontra-se nas universidades, particularmente em áreas da sociologia e da psicologia.
O segundo ponto liga-se com o primeiro. (...) A todos os escritores se pergunta: "Acha que um escritor devia...?" A pergunta tem sempre a ver com uma posição política e por detrás da pergunta assume-se que todos os escritores deveriam agir do mesmo modo (...) Outro exemplo é o do "compromisso", tão em moda não há muito tempo. Fulano de tal é um ecritor comprometido?
Ao "compromisso" veio seguir-se o "alertar das consciências". (...) Aqueles cujas consciências são alertadas podem receber a informação de que necessitam desesperadamente (...) mas o processo quase sempre significa que o receptor só tem acesso a propaganda aprovada pelo instrutor.
A exigência de que um trabalho da imaginação, uma história, tenha que ser "acerca de" alguma coisa vem do pensamento comunista e, mais atrás ainda, do pensamento religioso (...)
O politicamente correcto tem um lado bom? Sim, porque nos leva a reexaminar atitudes (...) O problema é que em todos os movimentos populares a franja lunática rapidamente deixa de ser franja; é a cauda que passa a abanar o cão. Por cada um que está a tentar uma análise séria e cuidada, há 20 agitadores cuja real motivação é o poder sobre os outros (...)
Tenho a certeza de que milhões de pessoas, a quem o tapete do Comunismo foi retirado, estão desvairadamente à procura, sem o saberem, de outro dogma.
Escrito em 1992 e republicado ontem no New York Times. Via The reference frame.
Primeiro ponto: a linguagem. (...)Há uma gíria Comunista reconhecível em cada frase. Pouca gente na Europa não brincou com "passos concretos", "contradições", "interpenetração dos opostos" e por aí fora.
A primeira vez que vi que os mortíferos slogans tinham asas para voar para bem longe das suas origens foi num artigo do Times em 1950. "A manifestação de sábado foi uma prova irrefutável de que a situação concreta..." Palavras confinadas à esquerda (...) tinham adquirido utilização comum e, juntamente com elas, as ideias. Encontravam-se artigos na imprensa conservadora e liberal que eram marxistas, mas os autores não o sabiam. Mas há um aspecto desta herança muito mais difícil de ver.
(...) O Izvestia, o Pravda e muitos outros jornais comunistas eram escritos numa linguagem que parecia concebida para encher o maior espaço possível sem dizer nada. (...) Mas a herança da linguagem morta e vazia nos dias de hoje encontra-se nas universidades, particularmente em áreas da sociologia e da psicologia.
O segundo ponto liga-se com o primeiro. (...) A todos os escritores se pergunta: "Acha que um escritor devia...?" A pergunta tem sempre a ver com uma posição política e por detrás da pergunta assume-se que todos os escritores deveriam agir do mesmo modo (...) Outro exemplo é o do "compromisso", tão em moda não há muito tempo. Fulano de tal é um ecritor comprometido?
Ao "compromisso" veio seguir-se o "alertar das consciências". (...) Aqueles cujas consciências são alertadas podem receber a informação de que necessitam desesperadamente (...) mas o processo quase sempre significa que o receptor só tem acesso a propaganda aprovada pelo instrutor.
A exigência de que um trabalho da imaginação, uma história, tenha que ser "acerca de" alguma coisa vem do pensamento comunista e, mais atrás ainda, do pensamento religioso (...)
O politicamente correcto tem um lado bom? Sim, porque nos leva a reexaminar atitudes (...) O problema é que em todos os movimentos populares a franja lunática rapidamente deixa de ser franja; é a cauda que passa a abanar o cão. Por cada um que está a tentar uma análise séria e cuidada, há 20 agitadores cuja real motivação é o poder sobre os outros (...)
Tenho a certeza de que milhões de pessoas, a quem o tapete do Comunismo foi retirado, estão desvairadamente à procura, sem o saberem, de outro dogma.
Escrito em 1992 e republicado ontem no New York Times. Via The reference frame.
sábado, outubro 13
Há 700 anos

No dia 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira, foi executada a acção policial que Guillaume de Nogaret, ministro de Filipe IV de França, preparou cuidadosamente, e em que foram presos membros da ordem dos Templários por toda a França. O grão-mestre, Jacques De Molay, estava em Paris, onde tinha participado no funeral da cunhada do rei.
A memória de Nogaret é evocada, na literatura ndo século XX, através de uma personagem com o mesmo nome na novela Monsieur de Lawrence Durrell.
Conversa no jardim de Évora
-Já não vale a pena, agora fazes o que tu quiseres.
-Ora, aposto que tu ainda arranjas outra pessoa mais depressa que eu.
-Sei lá, o que eu menos penso agora é arranjar.
-Se não arranjas, ao menos deixas-te arranjar, que eu sei muito bem. Não te dou nem um mês que já estás acompanhada.
-Ó amor, ai porra, desculpa, ó Joaquim, pára com essas merdas agora que acabou tudo.
quarta-feira, outubro 10
O véu mental
O governo inglês acaba de anunciar uma lei que pune crimes de ódio contra "gays" com pena até sete anos de prisão. Cabe à polícia avaliar se os delitos caem dentro da alçada da nova lei, que abrange também lésbicas e bisexuais. Ficam de fora por enquanto os "trangéneros". Como o conceito de "crime" introduzido é muito lato e ambíguo, é natural que no futuro próximo em Inglaterra só se possa fazer humor sobre heterosexuais empedernidos, o que pode fazer o nível das piadas cair a pique. A notícia já gerou no Daily Mail online o dobro do número de comentários à do caso Maddie.
Em Itália está em discussão o uso da burka. Um magistrado de Treviso, Vittorio Capocelli, emitiu parecer favorável ao uso e logo foi apoiado pela ministra da família, Rosy Bindi, para quem o véu é manifestação de uma cultura escolhida livremente. As opiniões estão fracturadas, com os "progressistas" do costume a secundarem Capocelli e Bindi. Muitos europeus já escolheram, livremente, o uso de um véu mental.
Em Itália está em discussão o uso da burka. Um magistrado de Treviso, Vittorio Capocelli, emitiu parecer favorável ao uso e logo foi apoiado pela ministra da família, Rosy Bindi, para quem o véu é manifestação de uma cultura escolhida livremente. As opiniões estão fracturadas, com os "progressistas" do costume a secundarem Capocelli e Bindi. Muitos europeus já escolheram, livremente, o uso de um véu mental.
sábado, outubro 6
Matemática para o ensino básico: um programa e muito mais
Terminou a "discussão pública" do "reajustamento" do programa de Matemática para o Ensino Básico. Significa isto que uma comissão andou a redigir uma proposta e que algumas pessoas e grupos deram a conhecer ao Ministério da Educação as suas palmas ou assobios a esse respeito. Depois, feitas no esboço modificações insignificantes para que se possa dizer que houve discussão e consenso alargado, haverá um programa homologado e, na melhor das hipóteses, tudo continuará na mesma: quero dizer, vai haver maus resultados em Matemática como é costume, e o Ministério procurará combatê-los com engenharias avaliativas.
O programa de Matemática enumera os tópicos da disciplina que devem ser ensinados e aprendidos. Não o faz com grande auto-exigência de rigor e conexão (ao contrário do que pede aos estudantes, que devem "compreender como as ideias matemáticas se inter-relacionam e se apoiam umas nas outras constituindo um todo coerente" (pág. 8)), mas daí não decorre qualquer desastre. O resultado da aprendizagem está, em última análise, nas mãos de um punhado de bons professores, que ainda existem. Seria óptimo que houvesse programas bem estruturados e bem redigidos, mas mesmo a partir de um mau programa é possível escrever bons manuais e dar boas aulas.
O problema, com este e suponho que com programas de outras disciplinas, é o excesso de coisas que lá se dizem. Desde que os "especialistas em educação" passaram a ter voz de comando na produção destes documentos, os chamados "programas" economizam em qualidade científica e pedagógica o que esbanjam em indicações metodológicas espartilhantes, teorização barata e chavões repescados por copy-paste de teses, relatórios e outros documentos: de há uns anos para cá, sempre que sai um novo "programa", temos a sensação de estar sempre a ler a mesma coisa.
Este aspecto poderia ser inócuo, mas não é. O "programa" assume-se como primeiro elemento de um big brother que emana do ministério e pretende vigiar com suspeita minúcia a actividade do professor ("Trabalhar apenas com dízimas infinitas periódicas cujo período tem no máximo três algarismos.", p. 55). A desorientação que o palavroso texto é susceptível de provocar a qualquer professor menos seguro, ou que não tenha suficiente sentido de humor para sorrir ao lê-lo, é coerente com os variados procedimentos absurdos a que a vida na escola actualmente obriga os docentes, transformando-lhes a profissão num pequeno inferno.
Repare-se, a título de exemplo, na insistência com que está escrito que os alunos devem desenvolver
capacidade de abstracção e generalização e de compreender e elaborar uma argumentação
matemática e raciocínios lógicos;
capacidade de comunicar em Matemática, oralmente e por escrito, descrevendo, explicando e justificando as suas ideias, as estratégias e procedimentos que utiliza e os raciocínios, resultados e conclusões a que chega (p. 5);
acompanhar e analisar um raciocínio ou estratégia matemática.
descrever e explicar, oralmente e por escrito, as estratégias e procedimentos matemáticos que utilizam e os resultados a que chegam oralmente e por escrito, descrever a sua compreensão matemática, os procedimentos matemáticos que utilizam, e explicar a sua argumentação (p7)
desenvolver e discutir argumentos matemáticos (p8)
e mais à frente repisa-se que os alunos devem
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar em contextos numéricos(p.16)
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar recorrendo a representações simbólicas(p.47)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos relativos a resultados, processos e ideias matemáticos;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p. 50)
e, não vá alguém esquecer-se, recorda-se que os alunos devem ser capazes de
Explicar e justificar os processos, resultados e ideias matemáticos.
Apresentar ideias e processos matemáticos, oralmente e por escrito, usando a notação, simbologia e vocabulário próprios (p. 52)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos incluindo cadeias dedutivas;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p67).
É claro que muitas das recomendações lá escritas, mesmo quando têm em vista um mundo ideal que não existe na grande maioria das escolas, são bem intencionadas. O problema é que ou são irrealistas ou não valia a pena escrevê-las. Qual é o professor de Matemática dotado de bom senso que precisa de que lhe digam, por exemplo, que
promover o raciocínio e a comunicação matemáticos(...) constituem também importantes orientações metodológicas para estruturar as actividades a realizar em aula (p11) ?
O programa de Matemática enumera os tópicos da disciplina que devem ser ensinados e aprendidos. Não o faz com grande auto-exigência de rigor e conexão (ao contrário do que pede aos estudantes, que devem "compreender como as ideias matemáticas se inter-relacionam e se apoiam umas nas outras constituindo um todo coerente" (pág. 8)), mas daí não decorre qualquer desastre. O resultado da aprendizagem está, em última análise, nas mãos de um punhado de bons professores, que ainda existem. Seria óptimo que houvesse programas bem estruturados e bem redigidos, mas mesmo a partir de um mau programa é possível escrever bons manuais e dar boas aulas.
O problema, com este e suponho que com programas de outras disciplinas, é o excesso de coisas que lá se dizem. Desde que os "especialistas em educação" passaram a ter voz de comando na produção destes documentos, os chamados "programas" economizam em qualidade científica e pedagógica o que esbanjam em indicações metodológicas espartilhantes, teorização barata e chavões repescados por copy-paste de teses, relatórios e outros documentos: de há uns anos para cá, sempre que sai um novo "programa", temos a sensação de estar sempre a ler a mesma coisa.
Este aspecto poderia ser inócuo, mas não é. O "programa" assume-se como primeiro elemento de um big brother que emana do ministério e pretende vigiar com suspeita minúcia a actividade do professor ("Trabalhar apenas com dízimas infinitas periódicas cujo período tem no máximo três algarismos.", p. 55). A desorientação que o palavroso texto é susceptível de provocar a qualquer professor menos seguro, ou que não tenha suficiente sentido de humor para sorrir ao lê-lo, é coerente com os variados procedimentos absurdos a que a vida na escola actualmente obriga os docentes, transformando-lhes a profissão num pequeno inferno.
Repare-se, a título de exemplo, na insistência com que está escrito que os alunos devem desenvolver
capacidade de abstracção e generalização e de compreender e elaborar uma argumentação
matemática e raciocínios lógicos;
capacidade de comunicar em Matemática, oralmente e por escrito, descrevendo, explicando e justificando as suas ideias, as estratégias e procedimentos que utiliza e os raciocínios, resultados e conclusões a que chega (p. 5);
acompanhar e analisar um raciocínio ou estratégia matemática.
descrever e explicar, oralmente e por escrito, as estratégias e procedimentos matemáticos que utilizam e os resultados a que chegam oralmente e por escrito, descrever a sua compreensão matemática, os procedimentos matemáticos que utilizam, e explicar a sua argumentação (p7)
desenvolver e discutir argumentos matemáticos (p8)
e mais à frente repisa-se que os alunos devem
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar em contextos numéricos(p.16)
Ser capazes de resolver problemas, raciocinar e comunicar recorrendo a representações simbólicas(p.47)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos relativos a resultados, processos e ideias matemáticos;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p. 50)
e, não vá alguém esquecer-se, recorda-se que os alunos devem ser capazes de
Explicar e justificar os processos, resultados e ideias matemáticos.
Apresentar ideias e processos matemáticos, oralmente e por escrito, usando a notação, simbologia e vocabulário próprios (p. 52)
Raciocinar matematicamente, formulando e testando conjecturas e generalizações, e desenvolvendo e avaliando argumentos matemáticos incluindo cadeias dedutivas;
Comunicar oralmente e por escrito, recorrendo à linguagem natural e à linguagem matemática, interpretando, apresentando e discutindo resultados, processos e ideias matemáticos (p67).
É claro que muitas das recomendações lá escritas, mesmo quando têm em vista um mundo ideal que não existe na grande maioria das escolas, são bem intencionadas. O problema é que ou são irrealistas ou não valia a pena escrevê-las. Qual é o professor de Matemática dotado de bom senso que precisa de que lhe digam, por exemplo, que
promover o raciocínio e a comunicação matemáticos(...) constituem também importantes orientações metodológicas para estruturar as actividades a realizar em aula (p11) ?
domingo, setembro 30
Contribuição de Ahmadinejad para o avanço teórico dos estudos GLBT
A imprensa e as televisões deram alguma atenção às gargalhadas que se seguiram à afirmação do Presidente do Irão na Universidade de Columbia, no início da semana: "No Irão não há homossexuais. Não sei quem lhes disse que tínhamos lá isso."
É fácil rir deste tipo de "bocas", mas isso pode ser compatível com uma visão turva das coisas. Quando perguntaram a Ahmadinejad, nessa sessão, porque executavam homossexuais no Irão, o Presidente respondeu com um desvio, mais ou menos assim: nos Estados Unidos também se executam traficantes de droga, porque eles são maus para a sociedade. E parece que esta justificação mereceu uma ovação da estudantada.
Mas o subproduto mais curioso, embora não o mais surpreendente, da presença de Ahmadinejad na Universidade, é a tomada de posição da Columbia Queer Alliance:
Não temos a pretensão de compreender as múltiplas e diversas experiências de viver com desejos pelo mesmo sexo (repare-se no cuidado com a terminologia) no Irão. Os nossos valores culturais e experiência são diferentes, mas a questão é a mesma: o direito humano essencial de exprimir livremente os desejos.
Além disso, gostaríamos que os media e as organizações estudantis fossem cautelosos com o uso dos termos "gay", "lésbica", "homossexual" para descrever as pessoas que no Irão se envolvem em práticas com o mesmo sexo e sentem desejo pelo mesmo sexo. A construção da orientação sexual como identidade social e política, e todo o inerente vocabulário, são um produto cultural ocidental. Por isso, os estudiosos da sexualidade no Médio Oriente usam em geral termos como "práticas com o mesmo sexo" e "desejo pelo mesmo sexo", como reconhecimento da inadequação da terminologia ocidental. A presença do Presidente Ahmadinejad no campus constituiu um estímulo para reflectirmos sobre várias questões, mas o que mais nos interessa são as complexidades de como a identidade sexual é construída e compreendida em diferentes lugares do mundo.
Compreende-se que não seja dada muita atenção a posições como esta. Seria indelicado para com Ahmadinejad: estes tipos são bem mais cómicos que o Presidente.
É fácil rir deste tipo de "bocas", mas isso pode ser compatível com uma visão turva das coisas. Quando perguntaram a Ahmadinejad, nessa sessão, porque executavam homossexuais no Irão, o Presidente respondeu com um desvio, mais ou menos assim: nos Estados Unidos também se executam traficantes de droga, porque eles são maus para a sociedade. E parece que esta justificação mereceu uma ovação da estudantada.
Mas o subproduto mais curioso, embora não o mais surpreendente, da presença de Ahmadinejad na Universidade, é a tomada de posição da Columbia Queer Alliance:
Não temos a pretensão de compreender as múltiplas e diversas experiências de viver com desejos pelo mesmo sexo (repare-se no cuidado com a terminologia) no Irão. Os nossos valores culturais e experiência são diferentes, mas a questão é a mesma: o direito humano essencial de exprimir livremente os desejos.
Além disso, gostaríamos que os media e as organizações estudantis fossem cautelosos com o uso dos termos "gay", "lésbica", "homossexual" para descrever as pessoas que no Irão se envolvem em práticas com o mesmo sexo e sentem desejo pelo mesmo sexo. A construção da orientação sexual como identidade social e política, e todo o inerente vocabulário, são um produto cultural ocidental. Por isso, os estudiosos da sexualidade no Médio Oriente usam em geral termos como "práticas com o mesmo sexo" e "desejo pelo mesmo sexo", como reconhecimento da inadequação da terminologia ocidental. A presença do Presidente Ahmadinejad no campus constituiu um estímulo para reflectirmos sobre várias questões, mas o que mais nos interessa são as complexidades de como a identidade sexual é construída e compreendida em diferentes lugares do mundo.
Compreende-se que não seja dada muita atenção a posições como esta. Seria indelicado para com Ahmadinejad: estes tipos são bem mais cómicos que o Presidente.
sexta-feira, setembro 21
A revista

Por iniciativa da Cãmara de Lisboa, vem aí a recuperação do Parque Mayer com "qualquer coisa de teatro de revista", segundo o PÚBLICO de hoje. É um género que "tem público", dizem eles. Terá? Bem, de acordo com o cartaz dos teatros, só se classificarmos a Música no Coração como revista à portuguesa.
Juntando as peças, no entanto, certas coisas passam a fazer sentido.
Até 1973, no Teatro maria Vitória encenavam-se duas ou três revistas por ano; "Ver, ouvir e calar" teve o seu nome alterado para "Ver, ouvir e falar" em 1974, e daí em diante, foram raros os anos em que mais de uma revista subiu à cena, até à quase extinção da actividade.
As recentes iniciativas do governo para limitar a liberdade de expressão mais não são, certamente, que um convite à criatividade dos autores de revista. Num tempo em que as piadas de sexo se banalizaram, a revista não pode sobreviver sem a aparência de furar uma censura qualquer. Recriando um ambiente com suaves reminiscências de Estado Novo, talvez a revista à portuguesa seja de novo viável. Está em marcha a "criação de novos públicos", que muitos tanto apreciam referir. Afinal é tudo pela arte.
(Foto: http://germana-teatro.blogspot.com/)
domingo, setembro 16
O não debate
É uma óptima ideia que o debate entre Mendes e Menezes vá sendo sucessivamente adiado. Poupa-se uma hora de bocejo a quem cair na armadilha de assistir. Antes um documentário no Discovery sobre a essência do murro de Scolari, ou um filme porno com as personagens vestidas.
sábado, setembro 15
Vila Real de Santo António
Soube-se há dias, num jornal e numa televisão, que dezenas de doentes portugueses estão a receber tratamento oftalmológico em Cuba, pago pela câmara municipal de Vila Real de Santo António. É notícia com significado porque começa por ter como pano de fundo a ineficácia do nosso serviço nacional de saúde. Ainda bem que aquelas pessoas viram os seus problemas de visão resolvidos, e não ponho em dúvida a qualidade do tratamento, tanto mais que neste caso há em jogo uma mais valia publicitária para o regime da ilha. Também admito que não havia alternativas num raio de 8000 quilómetros. De qualquer modo, não há operações a cataratas grátis. Para já, sabemos que a autarquia transferiu 50 mil euros para, como é descrito no boletim municipal, reconstrução de um Parque Infantil e respectiva Creche. A referida Creche, situa-se no Pólo Cientifico de Engenharia
Genética e Biotecnológica da cidade de Playa e destina-se a
acolher os filhos dos trabalhadores.
Como parece óbvio que a autarquia pagou também pelo menos as viagens, seria interessante fazer o balanço financeiro do acordo. Admito que se tenha conseguido um bom preço, caso em que conviria realizar um protocolo do SNS com o sistema de saúde cubano, abrangendo muito mais municípios e muito mais especialidades. Se não, quando me reformar vou procurar casa em Vila Real de Santo António.
Genética e Biotecnológica da cidade de Playa e destina-se a
acolher os filhos dos trabalhadores.
Como parece óbvio que a autarquia pagou também pelo menos as viagens, seria interessante fazer o balanço financeiro do acordo. Admito que se tenha conseguido um bom preço, caso em que conviria realizar um protocolo do SNS com o sistema de saúde cubano, abrangendo muito mais municípios e muito mais especialidades. Se não, quando me reformar vou procurar casa em Vila Real de Santo António.
sexta-feira, setembro 14
Não souberam a tempo
O Human Rights Watch está preocupado com o fecho de Guantanamo. Parece que a administração americana está a mandar para casa alguns detidos sem garantias de que vão continuar a ter o tratamento de que dispunham na ilha. O caso dos tunisinos Abdullah al-Hajji Ben Amor e Lofti Lagha tem sido muito comentado na imprensa: em face da sua situação actual na Tunísia, dizem que se soubessem o que os esperava ter-se-iam oposto à libertação.
quarta-feira, setembro 12
Uma bomba amiga do ambiente

A notícia surgiu ontem ao fim do dia. A Rússia de Putin executou o teste da sua nova e revolucionária bomba: com menor carga explosiva, consegue duplicar o poder destruidor da MOAB dos EEUU (a "mãe de todas as bombas"; esta é o "pai"). Uma vitória da nanotecnologia. Graças a uma altíssima temperatura e a uma onda de choque ultra-sónica, tem um poder de destruição devastador. Tudo limpo, sem radiactividade nem danos para o ambiente. Um general russo comentou que a Rússia estava assim apta a combater o terrorismo internacional em qualquer situação e em qualquer região.
A Rússia comemorou assim, com discreta conspicuidade, o aniversário do 11/9.
segunda-feira, setembro 10
A vida real

(Numa sexta feira, num intercidades da linha do norte)
-Oi, então, mais um fim de semana?
-É verdade. Um esticão até Setúbal.
-Onde é que trabalhas agora?
-Em Vitória. O ano passado era em Pamplona mas já deixei.
-...
-Ando farto desta merda. Às vezes passa-me pela cabeça arranjar maneira de ficar no fundo de desemprego.
-?
-...
-Olha, não te metas nisso que os gajos andam em cima e lixas-te. Não há nada como dormir descansado.
-O patrão agora já não está lá, é o filho que manda. Se fosse com o pai... O filho é só roubar.
-...
-Quando posso também o lixo, um dia não fui e não deram por nada, pagaram tudo.
-...
-Hoje trabalhei até ao meio dia. Tinha a mala pronta.
-E até quando ficas lá em baixo?
-Domingo levanto-me à um quarto prás quatro, chego lá tomo banho e começo a trabalhar lá prás 10, à noite desforro-me a dormir.
-Então e o Leandro continua lá?
-Esse arranjou uma hérnia discal, nem pode ser operado.
-Então e está lá a fazer o quê?
-Não sei, está de baixa. Não pode fazer força.
-Mas pode conduzir?
-Todo esticado. Cá por mim não deve estar lá muito tempo. Deve vir de lá despachado de alguma maneira.
-Ainda faltam duas horas para Lisboa.
-É verdade. Vou dormir um bocado.
domingo, setembro 2
Minneapolis story
Já muito se escreveu sobre o escândalo que levou o republicano Larry Craig a anunciar a sua demissão. Dos jornais à internet, não faltam opiniões sobre o caso para todos os gostos e até está disponível uma reconstituição do episódio em video.
Não há ponta por onde se pegue para simpatizar com Craig: parece que o homem não se notabilizou por nada em particular e, tendo tomado posições que sistematicamente contrariam a luta pelos direitos de pessoas homossexuais, a primeira tentação diante do que lhe aconteceu é dizer que "é bem feito".
A historieta tem, no entanto, aspectos muito curiosos. Não admira: a invenção mais rica é a da própria realidade. Por exemplo, ficamos a saber que este simpático e promissor polícia, que obteve o ano passado um mestrado em justiça, chefia e educação, parece ter agora como missão ficar sentado numa retrete de aeroporto à caça de homossexuais à procura de sexo no lavabo. Parece que já prendeu 12 este verão. Uma eficácia notável, só explicada, certamente, pela alta qualificação académica do rapaz.
Nada surpreendente é o facto de sites "gay", como este, rejubilarem com a divulgação do caso. Dado que nesses sites (próximos das correntes ditas "liberais" nos EEUU) não há economiza de apelos à satisfação sexual pura e simples, há pouca dúvida sobre o que realmente os excita: o facto de Craig ser republicano. Não lhes interessa, neste particular, que o homem tenha sido atingido por via de um comportamento de características "gay" e, certamente, por ser figura pública (dos outros 11 não ouvimos falar).
Finalmente, a questão da hipocrisia de Craig, abundantemente apontada a dedo pelos observadores, é talvez o aspecto mais ambíguo e ilusório de tudo o que rodeia o episódio. Quando Craig afirma, no discurso em que anuncia a demissão, que não é "gay", provavelmente não mente. Provavelmente ama a mulher e a família. Provavelmente é apenas um de uma multidão de homens cuja vida heterossexual não é de fachada mas que frequentemente são tentados por uma variação e tentam satisfazer-se com uma companhia rápida e anónima. A sua posição e o modo e o lugar que escolheu tramaram-no. Provavelmente o homem nem sequer é incoerente, lá por ter votado contra os casamentos homossexuais: a simples ideia de viver com outro homem pode ser-lhe repugnante.
Lawrence Durrell explicava, na abertura do seu "Quarteto", que há mais de cinco sexos e só o grego popular conseguia diferenciá-los. Os tristes vocábulos e siglas modernas, politicamente correctos ou não, inventados para descrever os sexos ou, talvez, novas bandeiras de luta, vão apenas encobrindo no seu esquematismo pobre uma complexidade de que sabemos pouco.
Não há ponta por onde se pegue para simpatizar com Craig: parece que o homem não se notabilizou por nada em particular e, tendo tomado posições que sistematicamente contrariam a luta pelos direitos de pessoas homossexuais, a primeira tentação diante do que lhe aconteceu é dizer que "é bem feito".
A historieta tem, no entanto, aspectos muito curiosos. Não admira: a invenção mais rica é a da própria realidade. Por exemplo, ficamos a saber que este simpático e promissor polícia, que obteve o ano passado um mestrado em justiça, chefia e educação, parece ter agora como missão ficar sentado numa retrete de aeroporto à caça de homossexuais à procura de sexo no lavabo. Parece que já prendeu 12 este verão. Uma eficácia notável, só explicada, certamente, pela alta qualificação académica do rapaz.
Nada surpreendente é o facto de sites "gay", como este, rejubilarem com a divulgação do caso. Dado que nesses sites (próximos das correntes ditas "liberais" nos EEUU) não há economiza de apelos à satisfação sexual pura e simples, há pouca dúvida sobre o que realmente os excita: o facto de Craig ser republicano. Não lhes interessa, neste particular, que o homem tenha sido atingido por via de um comportamento de características "gay" e, certamente, por ser figura pública (dos outros 11 não ouvimos falar).
Finalmente, a questão da hipocrisia de Craig, abundantemente apontada a dedo pelos observadores, é talvez o aspecto mais ambíguo e ilusório de tudo o que rodeia o episódio. Quando Craig afirma, no discurso em que anuncia a demissão, que não é "gay", provavelmente não mente. Provavelmente ama a mulher e a família. Provavelmente é apenas um de uma multidão de homens cuja vida heterossexual não é de fachada mas que frequentemente são tentados por uma variação e tentam satisfazer-se com uma companhia rápida e anónima. A sua posição e o modo e o lugar que escolheu tramaram-no. Provavelmente o homem nem sequer é incoerente, lá por ter votado contra os casamentos homossexuais: a simples ideia de viver com outro homem pode ser-lhe repugnante.
Lawrence Durrell explicava, na abertura do seu "Quarteto", que há mais de cinco sexos e só o grego popular conseguia diferenciá-los. Os tristes vocábulos e siglas modernas, politicamente correctos ou não, inventados para descrever os sexos ou, talvez, novas bandeiras de luta, vão apenas encobrindo no seu esquematismo pobre uma complexidade de que sabemos pouco.
sábado, agosto 25
Felix Eugenne
Pode um europeu cruzar-se com um empregado de supermercado condenado à morte por apedrejamento?
Parece que sim. Felix Eugenne, um cristão nigeriano refugiado em Itália e actualmente a trabalhar num supermercado em Turim, aguarda a decisão da Comissão para os Refugiados das Nações Unidas, em 3 de Setembro, que eventualmente lhe evitará a deportação para a Nigéria, onde corre o risco de ver completada a sentença de morte precedida por vários dias em que receberá 21 chicotadas. Felix conseguiu evadir-se e parece que o carcereiro distraído foi exemplarmente degolado numa praça pública. O crime de que Felix é acusado: teve sexo com a namorada, Fatimah, antes do casamento. Dela e da sua família nada sabe, pois seria demasiado perigoso tentar comunicar.
O governo italiano anunciou ontem que acolheria Pegah Imambakhsh, iraniana refugiada no Reino Unido desde 2005 e também em risco de sentença de morte no seu país por ter tido relações sexuais com outra mulher.
Parece que sim. Felix Eugenne, um cristão nigeriano refugiado em Itália e actualmente a trabalhar num supermercado em Turim, aguarda a decisão da Comissão para os Refugiados das Nações Unidas, em 3 de Setembro, que eventualmente lhe evitará a deportação para a Nigéria, onde corre o risco de ver completada a sentença de morte precedida por vários dias em que receberá 21 chicotadas. Felix conseguiu evadir-se e parece que o carcereiro distraído foi exemplarmente degolado numa praça pública. O crime de que Felix é acusado: teve sexo com a namorada, Fatimah, antes do casamento. Dela e da sua família nada sabe, pois seria demasiado perigoso tentar comunicar.
O governo italiano anunciou ontem que acolheria Pegah Imambakhsh, iraniana refugiada no Reino Unido desde 2005 e também em risco de sentença de morte no seu país por ter tido relações sexuais com outra mulher.
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