quinta-feira, agosto 16

A justiça dos civilizados adaptada aos bárbaros

O estilo de vida de Fátima, adolescente de Bologna, não agradava à família. Por isso, os pais e um irmão mantiveram-na amarrada a uma cadeira e depois agrediram-na brutalmente. Houve uma condenação destes actos em primeira instância em 2003. Agora, o tribunal supremo de Itália vem absolver os agressores: para os juízes, afinal, a jovem só fora agredida três vezes e, para mais, pelo facto de os seus comportamentos terem sido julgados incorrectos. Como Fátima vivia aterrorizada pelos pais e fizera ameaças de suicídio, o tribunal considerou que eles fizeram bem em amarrá-la para evitar que a rapariga se se auto-mutilasse.


"Uma vergonha", diz Souad Sbai, presidente da Associação de mulheres marroquinas em Itália, "uma decisão digna de um país onde vigorasse a sharia. Os juízes aplicam dois tipos de regras: uma para os italianos e outra para os imigrantes".

Música para um dia de verão

The little maiden of the sea
was not at all like you and me:
where we have legs, she was a fish,
and she could only say, "I wish... I wish
I were not incomplete.
I wish I had some dainty feet."
You see, one day she'd met a prince,
and she'd been pining ever since
(the little maiden of the sea).
She'd gain her own immortal soul
if she became the prince's wife.
She autovivisected. Whole, she walked!
Each step was like a knife--
a knife into her dainty feet--
and she could neither speak nor sing;
but, surely, now she was complete.
Her prince would think of marrying
the little maiden of the sea.

He married someone else, of course;
and, saying nothing, she went home.
Then something turned, by mystic force,
the little maiden into foam.


Stephin Merritt, Showtunes, 2006. Música belíssima, rara, surpreendente.

quarta-feira, agosto 15

Chávez até ao fim do tempo

Mário Soares responde hoje, no PÚBLICO, ao director. No que toca às suas afirmações sobre Chávez não dá o braço a torcer: ao mesmo tempo que declara que "calar uma voz incómoda é intolerável" justifica o encerramento (disfarçado de não renovação de licença) de uma televisão e recorda a propósito tentativas de atacar violentamente o estado. Ora, precisamente hoje, Chávez resolve acelerar o processo de reforma constitucional. Um anúncio muito conveniente, parece, para desviar as atenções do escândalo da mala, ou maletagate, uma ponta de iceberg de que já se começava a falar dentro da própria Venezuela. Limitadamente, claro, pois nestas coisas dá muito jeito ter a informação sob controle.

Ler, escrever, aritmética: no Reino Unido

Nos testes de língua, matemática e ciências, alunos que vão entrar no ensino secundário voltaram a revelar conhecimentos insuficientes. Pior: apesar dos planos especiais do governo e dos milhões de libras gastos na tentativa de atacar o problema, há um pequeno retrocesso em relação aos resultados do ano anterior. A única excepção é uma melhoria na capacidade de leitura. Os dados mostram que as raparigas dão-se melhor que os rapazes com estas coisas. Preocupante também é a descida do número de classificações altas.

sábado, agosto 11

No escuro (II)

O ponto da situação sobre o mistério do desaparecimento de Madeleine McCann está em dois artigos do Daily Mail de hoje: a nova atitude da polícia face ao casal e as perguntas por enquanto sem resposta.

quinta-feira, agosto 9

No escuro

Os pais de Madeleine McCann vêem-se envolvidos na tragédia por novas razões. Tendo contribuído para o assalto das televisões e jornais ao enigmático acontecimento, transformado em reality-novela, são agora vítimas das reviravoltas do argumento (parcialmente escrito nas redacções por múltiplos autores) e das variações de simpatia do público. Em entrevista ao Evening Standard, o advogado de Murat ataca os McCann e afirma que a população da Luz quer vê-los pelas costas. Hoje, Gerry ainda não actualizou o seu blog. .

terça-feira, agosto 7

Em busca da culinária perdida



Entre as joias da culinária portuguesa, o bacalhau à Braz é das que mais foram desfiguradas pelo desmazelo da cozinha em que caem restaurantes maus, bons e assim-assim um pouco por todo o país. Por isso merece destaque a descoberta de algum dos raros sítios onde sabem fazê-lo gostoso.

O melhor bacalhau à Brás que comi em restaurante foi provado nos arredores de Lisboa há uns 20 anos, mas o restaurante, que suponho ainda existir, deixou de o fazer.

Há poucos dias tive a sorte de encontrar um bacalhau à Brás de 4 estrelas, numa escala de 5, num restaurante completamente despretensioso: o Imperial, em Tavira. Para quem está perto, garanto que o desvio vale a pena.

segunda-feira, agosto 6

Ingrid Betancourt já em liberdade?

De acordo com esta notícia, Ingrid Betancourt poderá já estar na Venezuela e será entregue brevemente à mulher de Sarkozy. Intermediário nas negociações com as FARC: Hugo Chávez.

O governo francês nega os rumores e a mãe de Ingrid tem dúvidas.

Duas horas de pé: um massacre

"É complicado para os homens e mulheres presentes nesta cerimónia, ficarem obrigados a estar ali duas horas e tal de pé, à espera que a cerimónia acabe. É mais um sacrifício do que propriamente um dia de festa", palavras de um membro da Associação Sindical de Profissionais de Polícia a respeito de umas comemorações a que não podem assistir sentados.

Tem razão o porta-voz. Há coisas que não se devem exigir a um polícia. Quem está treinado para passar duas horas de pé é quem tem de apresentar queixa de um roubo de telemóvel, enquanto alguém (sentado) do outro lado do balcão inquire e tecla, sem pressas, preenchendo um formulário electrónico.

Preso por ter cão

Etemad Melli é o nome de um jovem que perdeu o seu cão. Ao tentar pôr um anúncio para o recuperar foi preso. As autoridades pretendem assim enviar uma mensagem clara contra uma cultura corrupta importada do ocidente. A cena passa-se em Teerão.

domingo, agosto 5

Sol do sul

Silly season 2



As pessoas precisam mesmo de quem lhes diga o que podem e o que não podem fazer. Basta andar pelos passeios, pelas esplanadas ou pelas praias para ficarmos estarrecidos com o número de doentes que andam por aí em vez de recolherem a casa ou ao hospital. A situação é tanto mais alarmante quanto se sabe agora que se trata de uma doença infecciosa. Alguém tem que fazer alguma coisa, já.

Silly season 1



Não sei se a venda de rosas em restaurantes pelos paquistaneses vai de vento em popa, mas não há uma alma caridosa que lhes explique a maneira fácil de duplicar as vendas? Eles ignoram não só as mesas em que há dois homens ou duas mulheres mas também quem gosta de jantar só.

Há 45 anos



Numa tarde quente de Agosto sabia-se, pela rádio, que Marylin se suicidara. A aldeia já era global. Era domingo, como hoje.

terça-feira, julho 31

Luz de Inverno



O mistério da ausência de Deus, por Ingmar Bergman, 1963.

segunda-feira, julho 30

Não surpreende

Pelo contrário, é apenas uma confirmação para quem acredita no carácter estruturante do conhecimento matemático: os estudantes que tiveram mais matemática no ensino secundário têm melhor desempenho em todos os tipos de ciência na universidade. Há uma grande variedade de dados quantitativos, mas esta frase condensa o essencial do artigo de Philip M. Sadler publicado na Science na semana passada.

sábado, julho 28

Freguesia X

X é o nome da minha freguesia. A junta edita e distribui pelas caixas de correio o boletim "X". São 11000 exemplares de 24 páginas a cores, com fotos dos membros do executivo, entrevistas aos próprios ou aos membros da assembleia de freguesia, breves sobre as grandes realizações em matéria de jardins, organização de convívios e passeios e êxitos na criação de associações desportivas. Em complemento, notas sobre o que não se conseguiu fazer, por culpa da câmara de Lisboa. O número deste mês inclui duas páginas de educação sobre os problemas ambientais onde somos aconselhados a tomar duche em vez de utilizar a banheira, a preferir os transportes públicos, a colocar filtros nas chaminés das fábricas e a utilizar os transportes públicos (é assim mesmo). O autor do artigo esqueceu-se de falar das árvores que se poupariam se o "X" deixasse de ser publicado.

Como tema recorrente, a junta passa todos os meses a mensagem de que X é um lugar único e mágico.

Um pouco de socialismo soft em versão kitsch açucarada não faz mal a ninguém. Mas suspeito que pelo menos o pavimento de uma rua esburacada, de que a junta se queixa, poderia ser resolvido com a suspensão do "X". Declaro-me pronto a prescindir desta leitura. Em caso de saudades, compro o Avante.

quarta-feira, julho 25

Sempre contra o medo. O medo de quem?

Há cerca de ano e meio, Cavaco era, para Manuel Alegre, o candidato da direita, do neo-liberalismo e do desmantelamento do estado social; o candidato com um programa de controlo do poder e que, sendo eleito, provocaria uma crise política em seis meses.

Das duas uma: ou a análise e previsões de Manuel Alegre não valem nada, ou, confrontando estes avisos com as actuais preocupações de Alegre e com o seu artigo de hoje no PÚBLICO, cada vez mais se confirma que o alvo do então candidato era outro. O que ele queria dizer é que, com Cavaco na presidência, o tal verdadeiro alvo ficaria em roda livre.

terça-feira, julho 24

Para compreender os quadros interactivos

Surpreendido pelas notícias de ontem, não quis ficar feito bota de elástico a lamentar o provável desaparecimento do quadro preto com giz e fui procurar compreender a maravilha que se anuncia com trombetas e holofotes. Nada melhor do que deixar falar quem sabe. Encontrei assim este testemunho de um participante num encontro sobre quadros interactivos que, numa linguagem cheia de carisma e com um conteúdo completamente original, me deixou esclarecido.

Os quadros brancos interactivos (QBI) foram apresentados como um recurso tecnológico a optimizar no processo de ensino-aprendizagem. Os testemunhos das docentes x, y e z, revelam o surgimento dum novo paradigma educativo que passa pela escola virtual. Vimos que o aluno assume uma grande autonomia na sua aprendizagem. O docente aparece como o facilitador e orientador dos contextos de aprendizagem.
Neste encontro vimos também exemplos de trabalhar pedagogicamente por competências com uma metodologia de projecto e aprendizagem colaborativa. Os alunos assumem uma participação criativa na construção do conhecimento.
Mas que impacto terá o QBI na aprendizagem desta nova geração de alunos? Como avaliar? Quais os resultados?
O desafio nasce para a investigação científica na área das ciências da educação. Numa metodologia de investigação objectiva / quantitativa teremos diversas dificuldades, porque em educação há muitas variáveis. Todavia, numa análise qualitativa, ficou a impressão subjectiva dos pais ao referirem, por comparação entre filhos, que verificam uma diferença: mais motivação, brio e aplicação na realização das tarefas.
Espero, por fim, que o projecto Interact continue a ser um estímulo à arte de ser educador. Queremos mais... aprender, criar e inovar!

Um de nós,

uvw


Portantos, a tendência outono-inverno em matéria de títulos para teses em educação será: O quadro interactivo: novo paradigma do conflito interpessoal na sala de aula ou O papel regulador específico do quadro interactivo na produção de metáforas conceptuais - um estudo de caso.

As modas globais

O Australian Mathematical Sciences Institute critica os testes de numeracia realizados recentemente pelo governo australiano, pela ignorância que revelam do que é a matemática e pelo não envolvimento de matemáticos no processo. O afastamento destes profissionais de tudo o que diz respeito ao ensino não universitário tem produzido ideias equívocas sobre a matemática moderna e em particular sobre o papel determinante da matemática "pura".

Com um ensino tomado de assalto por modas efémeras, falta pertinência matemática nos conteúdos dos programas, acabando a disciplina por perder coerência e alguns dos melhores professores. Os programas tendem a reflectir a ideia de que a matemática pura só interessa para estudos altamente especializados, ignorando o papel que ela tem nas aplicações a novos campos, como as mudanças climáticas, e na determinação da capacidade de aplicar os conceitos matemáticos.

Juiz de Múrcia diz que se vive um ambiente homossexual nas famílias espanholas

O juiz Fernando Ferrin, da primeira instância de Múrcia, afirma num auto que se vive um ambiente homossexual na maioria das famílias espanholas. Bem, não exactamente com estas palavras. Ferrin é mais subtil: "É o ambiente homossexual que prejudica os menores, e que aumenta sensivelmente o risco de que estes também o sejam." Com esta e outras asserções, em que compara a homossexualidade com actividades criminosas, o juiz fundamenta a atribuição da custódia de duas filhas ao pai, em virtude de a mãe ser lésbica e ter uma companheira.

As associações lgbt devem estar exultantes e agradecidas pelo tempo de antena que a sentença lhes dá de borla. E a atribuição de custódia à mãe, e não ao pai, porque sim, ganha uma multidão de defensores, já que, se há outras razões por detrás do caso, não se fala delas.

quinta-feira, julho 19

Em alta: Informática e Matemática

A licenciatura em Informática e Matemática da Universidade Autónoma de Madrid registou este ano a mais alta nota de acesso entre todas as das universidades da capital. Bem colocadas estão também as licenciaturas de áreas ligadas à saúde, mas há muitas vagas nas engenharias clássicas e em direito.

As licenciaturas de duplo espectro podem estar aí para ficar.

domingo, julho 15

Os resultados verdadeiramente bons

No início da noite, disse Jorge Coelho na SIC, em face de projecções, que António Costa tinha obtido um bom resultado por ter mais do dobro da votação do 2º colacado. Sabemos agora que não é assim. De acordo com o critério de Coelho, bom, bom é o resultado de Telmo Correia, superior ao dobro do de Garcia Pereira, colocado logo a seguir. E, vá lá, Garcia Pereira também se saiu muito bem, com mais do dobro dos votos alcançados por aquele senhor que se preparava para arruinar definitivamente a câmara de Lisboa oferecendo bilhetes de avião aos moradores dos bairros periféricos.

A jangada segundo Saramago

Segundo Saramago, Chávez é acusado de populismo porque se ocupa dos problemas dos pobres, coisa que faz sem fingimento. E lembra que, se está no poder, é porque o ganhou nas urnas. E que faz bom uso do dinheiro que ganha com o petróleo.

Noutra lide, Saramago entende que Portugal ganhará quando inevitavelmente se tornar província de Espanha e tem até já um modelo de organização política e um nome de companhia de aviação para o futuro novo país.

Como se soube não há muito tempo, há entre nós um sector de opinião que até estará de acordo com Saramago. Já o caso dos espanhois é mais duvidoso: talvez nem os galegos se entusiasmem com a ideia, porque o que eles prefeririam era uma desintegração.

O problema é o recorte da jangada. Forças não desprezáveis trabalham noutro sentido para a reconstrução de Al-Andaluz. Com sorte, eles anexam as Canárias e nós ainda temos tempo de fugir para o norte. Seria bom que Saramago, o Eng. Bin Laden e o Dr. Al Zawhari trocassem umas ideias sobre o assunto, como diz o título de um livro. Para ver em que ficamos, já agora. Chávez poderia ser o anfitrião, certamente com gosto. E Saramago, num pulinho à Central Madeirense, ganharia a ideia para um "Ensaio sobre a Alucinação", em que os habitantes de um país comem pacotes e pacotes de Kellogs convencidos de que estão a trincar uma bela pasta italiana. O tema parece idiota, mas à semelhança de outros, Saramago transfigurá-lo-ia com a força hipnótica da sua arte. Esta última frase é para ser levada a sério. E as outras também.

quarta-feira, julho 11

Na Europa ninguém mais diz nada?

O ministro norueguês dos negócios estrangeiros Jonas Gahr Stoere chamou o embaixador iraniano para protestar contra a execução por apedrejamento, na passada quinta feira, do companheiro de Mokarrameh Ebrahimi. A sorte da senhora Ebrahimi, mãe de dois filhos, é a preocupação do momento. A execução esteve prevista para 21 de Junho e foi adiada.

Foram ontem anunciadas pelas autoridades do Irão mais vinte condenações à morte pelos crimes de violação, adultério e homossexualidade. Várias mulheres foram presas por se manifestarem a favor de lhes serem reconhecidos direitos. Agumas foram condenadas a prisão e duas delas a dez chicotadas. Uma sentença suave.

Actualização: Pedro Zerolo, secretário de estado do governo Zapatero, acaba de se manifestar contra "o integrismo fundamentalista, machista e homófobo que impregna o governo de Mahmud Ahmadineyad". Apela à comunidade internacional, "especialmente à UE, que reaja, com a mesma contundência com que reagiu perante o programa nuclear iraníano". Antes tarde que nunca, mas quanto à contundência tenho dúvidas.

segunda-feira, julho 9

Benefícios do papão da matemática

Quatro terroristas foram hoje condenados no Reino Unido. Muktar Said Ibrahim, o chefe do grupo, tinha um sonho: provocar uma carnificina superior à de 7/7, há dois anos, em Londres. Sabe-se agora que foi ele o responsável pelo falhanço do atentado devido à sua incompetência em aritmética. Ibrahim, que chumbara em matemática no secundário, calculou mal as proporçóes dos ingredientes necessários para a explosão.
Um bom muçlmano, afinal, deve dar muito mais atenção ao Corão do que às funções de variável real. Infelizmente há maus muçulmanos que perdem tempo até com o Cálculo Infinitesimal, a Química e mesmo a pilotar aviões de grande porte.

O caso agora revelado deve fazer soar o alerta nas escolas paquistanesas onde Ibrahim foi treinado. Certamente vai ser necessário dedicar mais tempo às ciências e à matemática. Mas nem só os responsáveis do ensino corânico têm razões para meditar. Sete meses antes do atentado, Ibrahim tinha sido detido pela polícia em Heathrow com destino ao Paquistão mas acabaram por deixá-lo seguir viagem. A desculpa do homem é que ia a um casamento, embora não se recordasse do nome da noiva.

quarta-feira, julho 4

Há muitos anos




Há muitos anos, numa vila alentejana, o cinema começava às 22.00 no mês de Junho. Depois passava para as 21.45, e mais lá para o início de Agosto para as 21.30. Era uma esplanada com ecran enorme, e mais cedo não podia ser por causa da luz do dia. Agora achamos que o clima está desregulado, mas lembro-me de lá ter tiritado de frio muitas noites (talvez a maioria delas). Nos bancos de cimento da geral era mau, mas as cadeiras e mesas metálicas não eram muito melhores. A luminosidade do projector de vez em quando ia abaixo e o som era cheio de distorção. Os filmes é que eram bons, ou pelo menos a memória regista-os com essa etiqueta. Agora, suponho que toda a gente da terra vê DVDs em casa, às vezes com ar condicionado.

(banda sonora daquela cena aqui.)

Na nossa casa, na esquina de um café

Estes são os sítios onde se pode criticar o governo. Ouvi há minutos na tv, dito pela Sra. Carmen Pignatelli.

Finalmente compreendo porque é que, no tempo das eleições presidenciais, os camaradas Jerónimo e Alegre avisavam que vinha aí o fascismo e por isso era preciso elegê-los a eles. Eu ria-me, não contando com a subtileza deles, pensando que se referiam ao próprio Cavaco.

segunda-feira, julho 2

Llosa sobre Revel

... um dos intelectuais mais lúcidos do tempo que vivemos, um escritor que, como Orwell - com quem tanto se parece - no período que lhe coube, salvou de certa forma a "honra do espírito" defendendo a liberdade quando tantos intelectuais a traíam por oportunismo, fanatismo ou cegueira, e denunciando sem descanso todas as imposturas que por obra das modas, da vaidade ou da simples vacuidade empobreceram o ofício do intelectual contemporâneo.

Ninguém antes dele se atreveu a assinalar que boa parte dos escritos de Lacan, Derrida, Pierre Bourdieu e outras estrelas da inteligência francesa não eram incompreensíveis por serem profundos, mas sim porque, por detrás da sua escuridão verbal, havia só pretensão, vazio e lugares comuns envoltos em retórica impenetrável...

Revel [...]começou dizendo no Ladrão na casa vazia que, ao contrário de muitos colegas, muito satisfeitos consigo mesmos, ele passara a vida a enganar-se e a arrepender-se dos próprios equívocos. Dizia-o e acreditava-o.


(Excertos de um texto de Mario Vargas Llosa, que hoje, em Madrid, recorda Revel e apresenta o Ladrão na casa vazia.)

sexta-feira, junho 29

A burka e a vitamina D

Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition demonstra a carência de vitamina D em mulheres residentes nos Emiratos Árabes Unidos. No estudo documenta-se a eficácia de suplementos diários de vitamina D2 e conclui-se:

...when sunlight exposure is limited, doses of vitamin D2 higher than those currently studied may be needed.

(Via Slate.)

domingo, junho 24

Psiquiatra explica o conflito palestino-palestiniano

O Dr. Ayead El-Sarraj encontrou chaves para compreender o que se passa em Gaza: porque é que palestinos andam a atirar outros palestinos de um 5º andar ou a fuzilar sumariamente outros palestinos acusando-os de heresia. Trata-se do trauma de uma geração, a dos filhos da ira. Funda-se na experiência insuportável de ver os pais espancados e torturados pelos israelitas. Esta experiência traumática conduziu a um deteriorar da figura do pai, procurando-se a sua substituição nas organizações armadas. A milícia é o pai com o Corão que atenua o fantasma do desamparo e impõe disciplina.

As culpas de Israel não ficam por aqui. Como explicar a filiação em grupos rivais numa luta fratricida? Simples: trata-se da não presença do inimigo comum, em resultado da saída de Israel da Faixa em 2005.

O Dr. El-Sarraj não alude aos possíveis efeitos traumáticos da educação para o suicídio na infância e não se percebe porquê: toda a gente sabe que essa educação era indispensável, dada a presença dos israelitas em Gaza.

Infelizmente, os psiquiatras não foram consultados antes de Agosto de 2005. Este descuido funesto impediu a previsão do presente massacre. Mas mesmo que o Dr. Ayead El-Sarraj tivesse sido ouvido, a sua teoria cairia em saco roto. Para além de dar explicações nada islâmicas para os factos, o homem deve ser obviamente um sionista infiltrado.

quinta-feira, junho 21

Execução suspensa?

Mokarrameh Ebrahimi, uma mulher de 43 anos, e o homem com quem partilha condenação por adultério, estão presos há 11 anos, no Irão. A execução do par esteve marcada para hoje, por apedrajamento até à morte, na cidade de Takestan, mas soube-se ontem que foi suspensa. De acordo com algumas fontes, o protesto internacional e o alarme na própria blogosfera iraniana terão tido aqui um papel importante. Na Amnesty International decorre uma acção, motivada por este caso, para demover as autoridades iranianas da aplicação desta pena cruel.

terça-feira, junho 19

A boa avaliação segundo a APP

A circunstância suscita o prolongamento do post anterior. A APP veio, uma vez mais, declarar a sua desaprovação a respeito do exame de Português ontem realizado.

A APP tem a este respeito uma opinião cheia de contradições. Queria uma prova que avaliasse conhecimentos de gramática, mas reconhece que as trapalhadas em torno da abominável tlebs acabaram por condicionar o enunciado. Quer exames orais mas avisa que isso sairá caro (em euros), o que lança pelo menos alguma desconfiança sobre as razões da reivindicação. De resto, se tivermos em conta outras posições recentes da APP, podemos também suspeitar que os exames orais da APP servirão, sobretudo, para dar um peso menor ao uso correcto da língua na escrita, desvalorizando-o.

A APP não ignora a dificuldade técnica de montar a operação de exames orais que reclama. Requerer mais exames pode significar, paradoxalmente, querer acabar com eles.

segunda-feira, junho 11

Por detrás dos pareceres

A leitura dos pareceres de associações de professores sobre os programas oficiais das suas disciplinas é interessante como elemento para um retrato dos problemas do nosso ensino pré-universitário.

A Associação de Professores de Português reconhece nos programas uma inegável qualidade e congratula-se com a abordagem proposta de um conjunto diversificado de tipologias textuais, literárias e não literárias. Aponta as dificuldades de ensinar o funcionamento da língua quando os alunos falham ainda em aspectos básicos de morfologia e sintaxe. Concorda com a necessidade de incluir o estudo da gramática, mas parece aceitar pacificamente que estudar gramática só é possível com uma tlebs qualquer, preferentemente simples. (Estranha área do conhecimento onde o problema principal são os nomes a dar aos objectos. Enfim.)

A Associação de Professores de Matemática reconhece igualmente grandes virtudes no programa adoptado. Há equilíbrio aceitável, há grau de aprofundamento adequado, há até novas metodologias e nova cultura profissional induzidas pelo programa. Exprime a dificuldade de articulação vertical com o 3º ciclo do ensino básico (leia-se, a dificuldade de ensinar as matérias quando os alunos falham a nível muito elementar).

Quanto à avaliação de conhecimentos, ambas as associações sublinham (mas mais vincadamente a APM) que não gostam de avaliações externas, e com esse fim servem-se do discurso das aprendizagens e das competências: os exames não são adequados para as avaliar cabalmente, dizem elas.

Há uma diferença muito marcada nas apreciações da APP e da APM no que diz respeito às metodologias. A APP rejeita, bem, a extensão e falta de objectividade do texto programático, carregado de indicações metodológicas intrusivas e incompatíveis com o volume de conteúdos declarativos.
A APM elogia repetidamente as indicações metodológicas do programa de matemática, chegando ao ponto de dizer que um dos problemas da avaliação de conhecimentos está no facto de os temas serem simultaneamente conteúdo e metodologia e que esta fica por avaliar com os métodos tradicionais(!!!).
A APP classifica o processo de implementação dos programas como atribulado e mal orientado; para a APM o processo foi ímpar relativamente à grande maioria dos programas, mas lamenta que o acompanhamento (por iluminados, entenda-se) tenha sido interrompido. Está implícito na apreciação da APM que o programa de Matemática é um texto encriptado, dependendo a sua "correcta" aplicação de um exército de exegetas capazes de o explicar à massa de professores ignorantes. Não está dito com estas palavras, mas está lá para quem queira ler.

A APM leva o seu delírio apreciativo ao ponto de dizer que o programa apela às conexões entre os diferentes temas, quando nem sequer dentro de um tema está garantida qualquer coerência (por exemplo, são propostas duas definições diferentes para o número e sem que haja um esforço para as relacionar). Também lamenta que não tenha sido criada a disciplina de Temas Actuais de Matemática, para extensão e aprofundamento, o que é claramente contraditório com as dificuldades, conhecidas e confessadas, para a leccionação dos temas básicos que o currículo não pode deixar de contemplar. Insiste muito também na necessidade de maior e mais generalizada utilização da tecnologia como solução milagrosa, confundindo o domínio das ideias com um mero e circunstancial meio auxiliar de cálculo.

Usando a linguagem cara aos pedagogos pós-modernos, as apreciações das associações de professores merecem estudos de caso, para que se compreendam as representações que estas direcções burocráticas elaboram das matérias curriculares e da actividade profissional dos seus associados.

sexta-feira, maio 25

Margarida Moreira votou Salazar?

Na sua coluna de hoje no PÚBLICO, Carlos Fiolhais aborda o recente e triste episódio ocorrido na DREN à volta de um comentário jocoso ou ofensivo, conforme os pontos de vista. Argumenta, com razão, que o que se passou é uma pequena amostra do que poderá suceder se novos centros de poder vierem a surgir em órgãos regionais.

Mas um ponto chave da crónica é a ironia de concluir que Margarida Moreira vem, com o seu gesto, revelar que votou Salazar no célebre programa de tv. Se à primeira vista, dados os actos de bufaria e repressão de opinião subjacentes ao caso, a asserção parece ter sentido, um minuto de análise é suficiente para reconhecer que a ironia não passa disso mesmo. Vindo de onde vem, e colocada onde está pela mão de quem foi, Margarida Moreira pertence, quase de certeza, à classe de cidadãos que jamais votaria Salazar e que, só por isso, se auto-atribuem superioridade moral. A repulsa pela vitória do antigo ditador vem de um nome e de um tempo que já não ameaçam ninguém. Sob o disfarce de nomes mais simpáticos, aspectos tenebrosos do que o salazarismo representou não podem causar senão um escândalo mais limitado. A repugnância pelo primeiro lugar de Salazar no concurso é compatível com práticas que o galardoado aprovaria.

quarta-feira, maio 23

Ser e não ser

Fazer um juízo sobre a actual situação da cidade de Lisboa e não do Governo. Este foi o pedido do antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, aos eleitores...
Agora que o actual Presidente da República está em paz com o governo, o ex faz-lhe uma censura mais que explícita. Inconsistente e auto-contraditória, como é hábito, vinda de quem vem.

terça-feira, maio 22

As palavras: continuação do post anterior

Durante muito tempo, em conversas amenas, costumava escarnecer dos estruturalismos que considerava ocos. Agora estou cada vez mais rendido à força devoradora das palavras, que deixam de o ser para se imobilizarem, petrificadas, na digestão dos objectos de que se apropriaram.

Ontem, numa entrevista de tv, Ruben de Carvalho comentava que as muitas candidaturas de "esquerda" são a prova da vitalidade da "esquerda".

Durante a última campanha presidencial, muitos preveniam contra o autoritarismo, o "fascismo" até, que aí vinha pela mão do candidato que acabou por ser eleito.

Quando Salazar ganhou um pífio concurso de tv, virgens ofendidas disseram cobras e lagartos do estado da democracia.

Quando, na realidade, um fascismo pequeno e subtil ensaia passos de lã, ele dificilmente é reconhecido, porque afinal vem trazido pelos que têm o monopólio do uso de rótulos anti-fascistas.

"Esquerda", "fascismo"... palavras que deixaram de o ser, para se tornarem obcessões que habitam as mentes paradas num tempo e num lugar.

quarta-feira, maio 16

A situação terrível

José Sá Fernandes apela à unidade da esquerda no episódio das eleições antecipadas, por motivo da situação terrível a que chegou a câmara de Lisboa. Roseta e o PCP, sorrindo, dizem não, mostrando assim a situação terrível a que chegou aquilo que se costuma designar como esquerda.

Os planos não devem ter resultados

Quando foi lançado um plano de acção para a Matemática, no final de 2005, exprimi dúvidas sobre aspectos relacionados com a direcção do projecto, onde assumiram papel de relevo defensores das políticas que têm conduzido ao desastre do ensino da disciplina. Os primeiros textos publicados pela comissão nomeada para o efeito continham um número suficiente de parágrafos em eduquês para ficarmos de sobreaviso.

É claro que a ministra sabia o que fazia. Não tem que se admirar, agora, de que lhe venham contestar esse vício de pretender que as acções sejam empreendidas tendo em vista resultados.

A APM aceitou estar representada na Comissão de Acompanhamento desta medida [o Plano de Acção para a Matemática], onde sempre contrariou o discurso excessivamente centrado sobre os resultados esperados com a realização dos projectos nas escolas, porque há muitos aspectos das aprendizagens que não são mensuráveis, sobretudo a curto prazo, e porque há muitos factores, alheios ao sistema educativo, que influenciam as aprendizagens dos alunos. A afirmação de que os resultados dos exames de Matemática do 9º ano vão ser “teste ao trabalho das escolas”, revela ausência de sentido pedagógico e exprime uma leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação. (Comunicado da Associação de Professores de Matemática, 15 de Maio).

Muitos aspectos não mensuráveis? Vá lá, vá lá. Mas, que diabo, professores de matemática não conseguem descobrir um par deles que o sejam?

Parece-me que a APM está a querer converter-se em factor alheio (se não de bloqueio) ao sistema educativo. E a revelar ausência de responsabilidade e sentido pedagógico. E a exibir uma leitura muito simplista e redutora da realidade.

A primeira medida

No PÚBLICO de 11/05, Luís Campos e Cunha propõe quatro medidas para o ensino superior com as quais estou de acordo.

A primeira consiste em não autorizar programas de doutoramento em áreas nas quais as unidades de investigação de uma dada instituição não estejam classificadas como "muito boas" ou "excelentes". De facto, esta é uma condição necessária mínima para garantir qualidade. No entanto, quando olhamos o problema de mais perto, é fácil compreender que nem com uma tal medida a qualidade fica garantida.

A principal razão é que os tempos modernos, e sobretudo os pós-modernos, erodiram e perverteram o significado de "investigação", de "área científica", e o do exame de "doutoramento" que lhes pode estar associado. De outro modo não seria possível encontrar "teses de doutoramento" com títulos como Educação Matemática e Conflitos Sociais (Un. Campinas, Brasil 2005), O nexo "geometria fractal - produção da ciência contemporânea" tomado como núcleo do currículo de matemática do ensino básico (Rio Claro, Brasil 2005), Cultura organizacional em contexto educativo : sedimentos culturais e processos de construção do simbólico numa Escola Secundária (Un. Minho, 2003) e muitos outros que aborrece citar. Os exemplos são igualmente numerosos lá fora. Em http://www.people.ku.edu/~jyounger/lgbtqprogs.html podem consultar-se programas de mestrado e doutoramento que falam por si. Por exemplo "East German Women's Struggle to Resist the Strengthening of Traditional Gender Roles in Reunified Germany", é o título delicioso da tese de uma professora da George Mason University, muito vocacionada para questões de género. (Curiosamente, numa universidade tão cheia de feministas, os estudantes muçulmanos impõem agora as suas regras num espaço de meditação, requerendo áreas separadas para homens e mulheres.)

É claro que unidades de investigação nestas áreas, sendo avaliadas pelas sumidades comprometidas com as mesmas ideologias, podem com facilidade ser classificadas de excelentes. A infecção alastra entre elogios.

domingo, maio 13

O destino de Dua Khalil Aswad

Dua Khalil Aswad era uma rapariga curda de 17 anos, pertencente à seita Yazid, adoradores de um anjo caído em desgraça e que se consideram a si próprios os veradeiros descendentes de Abraão. Dua enamorou-se de um rapaz sunita e certa noite não voltou a casa para ficar junto dele. Um chefe Yazid deu-lhe refúgio. Mas a notícia chegou à família com a carga da desonra: Dua tinha-se até convertido ao Islão por amor.

No passado dia 7 de abril, os familiares e autoridades religiosas Yazid, seguidos de uma multidão, forçaram a rapariga a sair da casa onde se abrigara, arrastaram-na pela rua e apedrejaram-na durante meia hora até à morte, com calhaus e um bloco de cimento. Tiveram a atenção, durante o acto, de lhe cobrir as pernas com roupa.

Coexistindo nos nossos dias o mundo medieval com os últimos avanços da electrónica, tornou-se possível presenciar estes actos bárbaros onde quer que estejamos. Alguém filmou com um telemóvel, quem sabe se com a mesma frieza com que se filma um casamento ou um bocado de um jogo de futebol. O video começou a ser divulgado há uma semana e foi retirado de alguns sites, como o YouTube, mas ainda é possível encontrá-lo noutros. O que não é fácil é suportar o visionamento.

segunda-feira, maio 7

A "amarga vitória"

Tem piada o fingido espanto diante da vitória esmagadora de AA Jardim na Madeira. Institucionalizem no meu bairro uma forma de governo com direito a transferências do orçamento e verão o acontece quando tentarem diminuir-nos o tamanho da fatia. Já agora, avancem para a regionalização e depois venham admirar-se com as "amargas vitórias da democracia".

O equívoco maior é a utilização da etiqueta de um partido (PSD) que só tem a ver com a situação na medida em que aproveita sofregamente as vitórias de Jardim, para compensar a sua cada vez maior irrelevância nacional. A todos convém, no entanto, manter a ficção de que as capelas de poder na Madeira podem identificar-se com as de Lisboa, na esperança (agora desfeita) de virem um dia a sentar-se à mesa com acesso ao bolo.

Nos próximos episódios, o mais provável é que Jardim, governando com as novas regras do jogo, venha a mostrar, na prática, que as alterações à lei das finanças regionais são razoáveis.

domingo, maio 6

A profecia fácil

Em várias cidades de França começaram os protestos pelo resultado das eleições. Ségolène, clarividente, tinha avisado. Os franceses não lhe deram ouvidos, mas há quem se encarregue de não a desiludir.
O dirigente de AC le Feu, Mohamed Mechmache, em Clichy-sous-Bois, já comentou: A França não compreendeu a mensagem do que aconteceu em outubro e novembro de 2005.
A dúvida do momento passa a ser agora: qual será o número de carros queimados?

Actualização às 8:50 de 2ª feira: o número é maior que 350 (já que coloquei a pergunta) mas no contexto francês talvez nem seja muito significativo...

quinta-feira, maio 3

A escola inclusiva

Ontem de manhã a Senhora Ana Benavente foi entrevistada no Rádio Clube Português. Sobre o estafado assunto dos males da educação disse coisas ainda mais estafadas, mas curiosas, porque normalmente ninguém se dá ao trabalho de reflectir muito sobre as fantasias que passam por erudição pedagógica. Disse a senhora que esta escola velha continua a insistir num erro: agrupar os alunos por faixa etária, como se todos tivessem as mesmas possibilidades de aprender o mesmo ao mesmo tempo, apesar de sabermos que os alunos têm não só diferentes capacidades mas também diferentes pré-disposições relacionadas com o meio familiar de proveniência.

Muito bem. A senhora não disse, mas presume-se então que, no seu entender, não sendo por idades, as escolas deveriam agrupar os alunos por etiquetas como: pobrezinhos e burros ou ricos e dotados. Uma maneira, como outra qualquer, de manter a reserva ecológica dos pobrezinhos que tanta falta fazem para elaborar teorias educacionais e programas políticos.

segunda-feira, abril 30

O clima aquece e a discussão também

Vale a pena ler o texto de Lubos Motl a propósito do relatório do IPCC, acabado de publicar. Vale a pena também seguir a discussão nas caixas de comentários.

domingo, abril 29

Telemóveis ilibados

Dados novos sobre o misterioso desaparecimento das abelhas vêm inocentar os telemóveis, apontados em notícias recentes como causadores da desorientação destes insectos por causa das radiações que emitem. Parece que o verdadeiro culpado tem um nome mais difícil de dizer: trata-se do parasita "nosema ceranae", que tem origem na Ásia e ataca o sistema digestivo das abelhas, enfraquecendo-as a ponto de as impedir de regressar à colmeia. São investigadores espanhóis que o afirmam, e acrescentam que as altas temperaturas dos últimos anos constituem outro factor adverso. Seja como for, o assunto é sério, dado o papel das abelhas na polinização.

Percentagens

De acordo com sondagem CSA-Cisco, dos muçulmanos que votaram na primeira volta das presidenciais em França 64% escolheram Royal. Bayrou foi a opção de 19%, e Sarkozy vem no fim com 1%.

sexta-feira, abril 27

A ex-doutora


Marilee Jones era a personagem chave do gabinete de apoio aos novos alunos no MIT. Reputada e premiada, tinha no seu currículo um PhD não especificado e "masters" em biologia e química. Assim passou 28 anos a apontar aos alunos o caminho para a universidade sem stress. Parece agora que não tinha nenhum dos graus que se atribuía e a demissão foi inevitável.

No seu livro de recomendações aos estudantes, Less stress, more success, aconselhava-os a nunca se fazerem passar por aquilo que não eram.

Eu acho que uma pessoa que consegue uma posição como a de Marilee ao longo de 28 anos, sem que ninguém note a ausência dos graus académicos, demonstra uma competência profissional para a qual devia estar prevista uma equivalência ao doutoramento. Mas talvez esteja a deixar-me levar por histórias cá da terra. Não consta que lá por Massachussets alguém tenha vindo a apontar Marilee como exemplo a seguir.

Para o bloco de notas de Jorge Sampaio

Com muitas fanfarras e dois dias de música, Aunty Muiduguri, nigeriana de 45 anos, casou com quatro raparigas no domingo passado, no estado de Kano. As autoridades, alertadas, arrasaram o edifício onde a cerimónia se realizou e procuram as cinco mulheres, que se encontram em fuga. É melhor para elas que consigam fugir mesmo. A polícia está determinada em encontrá-las para que lhes seja aplicado o castigo à medida da afronta à civilização e à cultura: chicotadas ou apedrejamento.

quarta-feira, abril 25

Em torno de uma anã vermelha



Está desde ontem nas notícias de todas as agências: foi descoberto por uma equipa de astrónomos franceses e suiços (que inclui Xavier Bonfils, da Universidade de Lisboa) um planeta com algumas características que o aproximam do nosso. Gravita em torno da estrela Gliese 581, tem dimensões e massa pouco maiores que as da Terra e à sua superfície teríamos a sensação de pesar o dobro. Fica só a 20 anos-luz.

terça-feira, abril 24

A justiça divina

Finalmente tivemos direito a declarações bombásticas. Alberto João Jardim, homem incapaz de não ceder a um impulso, não consegue calar: foi-lhe revelado que o nosso PM está a sofrer as consequências da Justiça de Deus. Ora, ao alardear o facto do modo como o fez, acaba por interferir com a justiça divina e retirar-lhe força. Um minuto de reflexão aconselharia, caso AJJ quisesse colocar-se realmente do lado de Deus, a gritar em público a sua solidariedade com Sócrates neste transe difícil mas passageiro. Mais ao menos ao estilo do que fez o major Valentim. Ou então adoptava a atitude séria e cínica de Portas, que passou a utilizar a expressão Engenheiro Sócrates três vezes por minuto.

segunda-feira, abril 23

Dia do livro



-A senhora Mita disse-me que quando fores mais crescida vai ensinar-te o trabalho de enfermeira para poderes entrar para o hospital.

-Não quero, são umas desgraçadas.

-Pior é a Felisa.

-As enfermeiras andam sempre com as batas gastas e rotas.

-Mas é melhor do que ser criada.

-De que escapou o senhor?

-De ser morto por um marido cornudo.

-Mas o senhor nunca sai se não for com a senhora.

-Mas quando era solteiro salvou-se de ser esfaqueado mais de uma vez. Vai para enfermeira, Amparo.

-Sei de uma enfermeira que pariu solteira.

-A tua irmã também pariu solteira, quem julgas que és?

(......)

-Amparo, tens que levar esta carta ao correio. Penteia bem o meu negrinho, daqui a bocado vamos levá-lo a ver a mãe.

-Levo-o comigo ao correio, senhor.

-Amparo, lembra-te que juraste que não dirias a ninguém.

- Eu não disse a ninguém. Deus me mate aqui já.

-Nunca digas a Mita que temos um segredo.

-Não, senhor. Mas a senhora perguntou-me porque é que eu tinha o braço negro.

-Negro de quê?

-De quando o senhor viu que eu o vi atrás da porta , à escuta da conversa delas.

-Que braço negro?

-O senhor sem se dar conta apertou-me com muita força até que lhe jurei que não ia dizer nada à senhora Mita.

Manuel Puig, La traición de Rita Hayworth, edição definitiva 1976. Quadro de António Berni.

O mau véu



Desde a semana passada, a polícia iraniana está empenhada em fazer cumprir os novos regulamentos sobre indumentária feminina. Combate-se o "mau véu", que deixa à mostra madeixas de cabelo não inocentes, e a crecente ocidentalização do vestuário. A intenção não podia ser melhor: as autoridades afirmam que estas mulheres desleixadas correm um risco muito maior de ser agredidas.

(Foto Fars News)

domingo, abril 15

O espírito de Abril

Em artigo no PÚBLICO de hoje, Elísio Estanque (do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra) lamenta o individualismo, a dependência das hierarquias, o discurso tecnocrático, a aversão ao sindicalismo que caracterizam actualmente as relações laborais. Como fonte do descalabro, aponta forças difusas a que chama "vozes do dono" e identifica com "detentores do poder" infiltrados no mundo empresarial. Como hipotética salvação, refere essa entidade metafísica chamada "espírito de Abril" ao qual, parece, estão associadas "promessas" esquecidas. E depois? Depois, o artigo resume-se a isto.

Julgava que a Sociologia dava chaves para compreender o mundo mesmo quando ele não está de acordo com os desejos do observador.

Aniversário: Leonhard Euler


Faz hoje 300 anos que nasceu este matemático excepcional, também um dos mais produtivos de todos os tempos. No site da Mathematical Association of America há uma interessante série de artigos de Ed Sandifer, que abrange desde os "greatest hits" de Euler até especulações sobre o interesse do grande matemático pela teoria da terra oca...

Incertezas

Pouco se comenta, entre os dirigentes europeus, o ressurgimento de actos terroristas espectaculares em Marrocos e na Argélia, e o anúncio simultâneo de ameaças da Al-Qaeda à Europa. Entre nós, não se comenta absolutamente nada. E os objectivos confessados do grupo terrorista são claros: França e Espanha estão na mira. A reconquista de Al-Andaluz define a fasquia.

Como Al-Andaluz é já ali ao lado, e Espanha é um termo que para o efeito em causa pode muito bem englobar território português, e também por sabermos que quem ameaça não brinca em serviço, é de esperar que o que parece distracção seja apenas aparente e as forças de segurança europeias (incluindo as nossas) estejam tomar providências. A reconquista propriamente dita não será fácil, mas a capacidade de provocar umas centenas de estropiados ou uns milhares que queimados vivos é coisa de que a Al-Qaeda já deu provas que bastem. Entretanto, a bomba relógio dos diferenciais de taxa de natalidade vai fazendo o seu trabalho.

O assunto não agradará a muita gente. Fica a claro que as políticas conciliadoras de Zapatero e dos políticos franceses relativamente às populações islâmicas nos seus países, e a sua hostilização dos Estados Unidos, de nada valem face aos objectivos do terrorismo islâmico global.

Em França, os candidatos à presidência disputam entre si ora o apoio dos imigrantes, ora o receio que eles infundem, de uma maneira nem sempre coerente. O apoio de certos círculos islâmicos a Le Pen não deixa de surpreender.

Não há dúvida de que a realidade é muito mais complexa do que os esquemas a preto-e-branco com que tentamos interpretá-la. Para o cidadão comum, que não está na posse senão de uma quantidade limitada de informação, é difícil avaliar opções. O problema é que aqueles que se candiadatam a representar-nos e a governar-nos aparentam também, por vezes, não estarem na posse de uma "ideia", ou não saberem muito mais do que nós. Quando é prioritário gerir mandatos de quatro ou cinco anos, pensar a sério no futuro da Europa pode ficar para depois.

16:9


Vamos lá abordar temas profundos e importantes. Intriga-me um subproduto do materialismo vigente, que consiste na utilização de um objecto pelo gozo único da sua ostentação, distorcendo a função para que ele está concebido. Poderia dar muitos exemplos, mas há um que, literalmente, entra pelos olhos dentro. Desde que apareceram os televisores panorâmicos, não há quem não goste de ter o seu. Eles estão nos hipermercados, nos consultórios, nos cafés, nas casas. Como as emissões no formato panorâmico não são frequentes, só tenho memória de ver, nesses ecrans alongados, cenas com personagens artificialmente atarracadas por uma compressão vertical. Ninguém parece incomodar-se com isso, embora a restauração do formato correcto esteja à distância de uma tecla. O que é preciso é encher o olho (neste caso, o ecran).

sexta-feira, abril 6

Giovanni Bellini

Dúvidas

Esta manhã ouvi no RCP uma conversa bem disposta com uma psicóloga (Ana Oliveira). A certa altura, a conversadora sustentou que as mulheres são, em geral, mais fiéis do que os homens nas suas relações amorosas.

Em apoio da tese, referiu que os casais de lésbicas são os mais estáveis. Mas fiquei intrigado quando a senhora referiu que isso tinha a ver com o facto de num casal de lésbicas o sexo estar ausente.

Por outro lado, se os homens são mais infiéis, cada um dos ditos estará a ter encontros furtivos com... mulheres, não? Deve haver então uma "pool" de mulheres descomprometidas, para quem esses encontros não representam infidelidade. Ou então... bem, vou pensar.

quinta-feira, abril 5

Convite a Sampaio

Zapatero convidou Jorge Sampaio a presidir à Aliança de Civilizações, depois de uma recusa de Kofi Annan. Sampaio ainda não aceitou.

A terrível páscoa do Primeiro Ministro

A demora de Sócrates em responder às dúvidas que se têm levantado em jornais, rádio e tv torna as futuras explicações mais difíceis. Em cada dia que passa, surge uma nova questão. Adivinha-se uma páscoa angustiante para o governo, ocupado em preparar o contra-ataque.

Aproveitar a crise da UnI é uma tentação, mas também um pau de dois bicos. Por outro lado, as declarações de Augusto Santos Silva, tentando reduzir o caso a mera conspiração política, não são muito mais que uma fuga às dificuldades reais de enfrentar o problema. Diz Santos Silva que mesmo assim o PS voltará a ganhar eleições: que grande admiração, dada a qualidade das alternativas.

Percebe-se também que mesmo do lado dos sectores de esquerda e do próprio PS despertem desejos de ajustes de contas. A satisfação e labor com que Mário Crespo, no jornal das 21 da SIC Notícias, se dedicou a sublinhar os pontos fracos do caso da obtenção da licenciatura, tendo-se mesmo falado (pela primeira vez, parece-me) da hipótese de demissão do Primeiro Ministro, é sintoma de que a balança pesa perigosamente para o lado dos opositores de Sócrates.

Prendas

Nos dois últimos dias, em dois países cujos dirigentes exibem mútua simpatia, foram distribuídas prendas.

Na Venezuela, os captores de um empresário português devolveram-no à liberdade, ganhando com isso mais de 200 000 euros. (Há outros portugueses raptados que ainda não foram contemplados.)

No Irão, os captores de 15 marinheiros britânicos, por sinal as próprias autoridades do país, decidiram devolver-lhes a liberdade quando, sublinham, poderiam tê-los submetido a julgamento. O acontecimento pode ter resultado de uma disputa interna entre governantes, mas o Presidente do Irão não deixou de aproveitar para se afirmar e confirmar como encenador de talento. Com garantia de transmissão em todos os canais, a mini-novela mostra que a produção de reality-shows é encarada com muito profissionalismo em Teerão. Não só pelo aproveitamento das reviravoltas no argumento, algumas provavelmente motivadas por cedência ao gosto do público ou pela inevitabilidade das coisas, mas também pela atenção ao guarda-roupa (promoção do iraniano-chic) e à qualidade dos diálogos. As falas de Ahmadinejad e as réplicas dos cativos foram de uma qualidade cénica exemplar e, sobretudo no caso do Presidente, impregnadas de um humor fino que goza da ambiguidade de muitos espectadores não estarem alerta para o tomarem como tal. De qualquer modo, os bons da fita ficaram muito bem identificados, e, ao libertar os 15 para o mundo (como numa expulsão da Casa do Big Brother), a estória vai ter ainda mais publicidade garantida. O público-alvo somos nós.

quarta-feira, abril 4

A conversão

Há muitos anos, quando eu andava na primária, a Dona Paulina, minha professora (por acaso competente em gramática e aritmética) pedia-nos todos os dias que rezássemos pela conversão da Rússia. A Rússia já está convertida, embora não exactamente ao que a minha professora desejaria, mas as conversões não ficam por aqui e escapam pela tangente para zonas que antes seriam insuspeitas.

É verdade: há notícias de que Gaspar Llamazares, o dirigente da Izquierda Unida, nosso vizinho aqui ao lado, atravessa uma encruzilhada espiritual e pode ser anunciada a curto prazo a sua conversão ao Islão. Llamazares ainda recentemente apoiou a reivindicação dos muçulmanos de Andaluzia para que a catedral de Córdova (ex-mesquita, e antes disso ex-templo cristão) fosse aberta ao culto islâmico.

Cerca de 70% dos espanhóis convertidos ao Islão nos últimos quinze anos são ex-militantes de grupos radicais de esquerda, segundo a fonte desta notícia do Alerta Digital.

domingo, abril 1

O camião




Estudantes manifestaram-se em Teerão em frente da embaixada britânica. O governo iraniano é exímio nestas encenações que lhe ficam muito baratas. A difusão quase obediente está garantida, até (sobretudo?) pelas televisões ocidentais. Na reportagem transmitida hoje pela BBC era bem visível este camião com pedras posto à disposição dos alegres e ruidosos jovens. E eu a julgar que eles se tinham dado ao trabalho de levar a sua pedrinha ou de arrancar alguma do chão.

As televisões não se ocupam destes pormenores. As opiniões públicas europeias entusiasmam-se mais com os seus fantasmas fascistas passados ou presentes. O Irão sabe que pode descansar.

(Foto Fars News Agency. Via Gateway Pundit.)

terça-feira, março 27

Na televisão

Ontem e hoje cruzei-me com várias pessoas consternadas pela vitória de Salazar num concurso de televisão que aí houve. Não tenho registo da mesma apreensão a respeito de Cunhal. Claro que Salazar teve a oportunidade e todo o tempo para fazer mal ao país e Cunhal não, felizmente. Além disso, por muito que nos custe, Salazar foi eleito por demérito próprio, ao passo que Cunhal deve o seu 2º lugar, em parte, a Salazar. Mas, que diabo, foi só um tele-concurso! Os que quiseram exteriorizar um estado de birra fizeram-no com êxito.

Tanto quanto sei, os consternados não votaram. Como lhes compete (e a mim, já agora), não se metem onde não se sentem chamados. Não vêm concursos ou telenovelas na tv; essas coisas têm o seu público e os planos não se misturam. Por isso não compreendo aqueles estados de alma. Faz tanto sentido esse desgosto como lamentar que haja poucos leitores para Proust e muitos para Paulo Coelho.

O grande perdedor é o major Valentim Loureiro. Agora ninguém irá dar crédito ao seu julgamento na televisão.

Publicidade para discalcúlicos

Anda por aí o anúncio de um banco onde devem ter colocado as frases ao contrário. Onde se lê o que se lê, parece-me que deveria estar:

Faça o seu depósito a prazo de 7500 Euros a um ano remunerado com um magnífico GPS!
E ganhe ainda uma taxa de 2% (TANB)!


Esta liberdade publicitária só é possível num país pouco dado à matemática, onde, em certos hipermercados, uma embalagem da bebida X pode custar 1,37 Eur e uma embalagem com um conjunto de três 4,31 Eur.

segunda-feira, março 26

RTP escreve epílogo do livro de José Gil

José Gil, no seu lúcido "Portugal: Medo de Existir", demonstrara como em Portugal nada se inscreve - pois até os assassinos são condecorados e elogiados publicamente e os corruptos admirados e tornados modelares -, o que se expressa na intriga permanente, no desprezo do sucesso de outrem, no nosso medo de nos exprimirmos e na ânsia de obedecer a alguém superior, que se digna a cuidar de nós. É assim com toda a naturalidade que Salazar e Cunhal, dois inimigos da liberdade, foram eleitos "os maiores portugueses de sempre".

Socorro, vem aí o fascismo

O PÚBLICO tem hoje uma notícia de duas páginas onde dá conta da presença de uma lista de extrema direita nas eleições para a associação de estudantes de Letras, em Lisboa. A outra lista é da Juventude Comunista Portuguesa.

Lá aparece a preocupação do presidente do conselho directivo da faculdade e até a do reitor, apesar de tudo "confiante no espírito democrático dos estudantes".

Lemos e compreendemos a mensagem porque já automatizámos a deturpação dos sentidos das palavras.

quinta-feira, março 22

Doutores e engenheiros

O caso Sócrates, que o PÚBLICO agora desenterrou da blogosfera onde já era conhecido seguramente há mais de um ano, pode ter implicações morais de relevo, mas talvez aparente mais importância graças a um vício português que os nossos media, naturalmente, assumem em conjunto. Raramente se nomeia uma figura da política nacional sem lhe antepor um título académico. Ele é o dr. Marques Mendes, era o eng. Guterres, é o dr. (ou prof.) Cavaco, o dr. Santana Lopes... tanta reverência deslocada do contexto! Na verdade os jornalistas mais não fazem do que seguir o procedimento normal entre nós. Em Portugal, até numa simples reunião de condóminos há diferenças de tratamento: dum lado o Sr. João, a D. Adelaide, do outro o Eng. Ricardo ou a Dra. Fátima. Médicos, engenheiros e até tristes advogados e professores toleram o epíteto com gosto ou indiferença e não poem os interlocutores na ordem. O grau académico não tem que ser sistematicamente chamado à conversa, e tanto menos nas circunstâncias em que as pessoas não estão a exercer a correspondente função profissional. Noutros países da Europa ou nos Estados Unidos, os presidentes e ministros são tratados por Sr. ou Sra. Fulano de Tal. Entre nós, "Sr." tem conotação quase depreciativa: é o que reservamos para o pintor de paredes ou o mecânico da oficina auto onde mudamos o óleo. Para gente, enfim, que pode desempenhar uma função com competência sem estar agarrado a um canudo obtido talvez com muitos 10 e 11's à força de repetir exames.

José Sócrates, que, por sinal, até nos troca as voltas no modo como se dá a conhecer pelo nome (ocultando o apelido), o primeiro ministro tão hábil a controlar tudo, perdeu uma boa oportunidade de impôr que fosse referido simplesmente como Sr. José... Sócrates, vá lá. Teria dado um exemplo que o poria agora numa posição mais confortável. Com o adjectivo(?) Engº colado ao nome, o caso será mais difícil de esquecer.

Reitor caído em desgraça

Alain Morvan, reitor de Lyon, é forçado a demitir-se por se opor à criação de um liceu islâmico na periferia da cidade. Morvan afirma bater-se contra o integrismo e pelos interesses das crianças.

terça-feira, março 20

Um mestrado de morte

Não gostar de Física, Matemática, Medicina, Direito, Informática ou Geografia não é motivo para não seguir carreira académica. Atenta à procura que ao que parece se regista no sentido de transformar os funerais em celebrações da vida, a Universidade de Bath criou o seu mestrado em morte. A coisa é séria, tem ligações à actividade empresarial (via Associação de Agências Funerárias) e tem a dignidade universitária do costume, com revistas especializadas e tudo, como esta ou esta.
No site próprio, avisam-se os interessados de que não se trata de enfrentar o problema da mortalidade e recomenda-se cautela a quem sofreu uma perda dolorosa.

É evidente que se trata aqui de um afunilamento de áreas vindas da sociologia ou das chamadas ciências de educação e nada disto é muito novo (ver, por exemplo, esta lista de teses universitárias no Québec).

Imagino que a pequena festinha após a discussão da tese tenha lugar numa câmara mortuária.

segunda-feira, março 19

Súplicas atendidas


"Stop global warming." Seja a quem for que o pedido foi dirigido, a resposta foi rápida. Foto publicada, e depois retirada, em boston.com. Via Tim Blair.

Alcobendas, Madrid


Duas mulheres (talvez) passeiam num centro comercial. No El Mundo.

A equação da felicidade

Num filme italiano a preto e branco que vi há muitos anos, quando o galã tranquilizava a heroína dizendo-lhe ti amo, ela perguntava, ansiosa: ma quanto? quanto?

Neste curioso artigo de D. G. Blanchflower e A. J. Oswald, publicado em 2004, os autores propõem uma equação para a felicidade:

r = h(u(y, s, z, t)) + e

onde r é um grau de satisfação declarado; u é a o bem estar do indivíduo; h é uma função não diferenciável que relaciona o bem estar real com o declarado; y representa o rendimento; s é a actividade sexual; z é um conjunto de características demográficas e pessoais; t é o tempo; e é um termo de erro.

O estudo, que envolveu vários milhares de cidadãos americanos, contém informações e conclusões interessantes, embora não demasiado surpreendentes. Eis algumas:

- Entre os adultos de mais de 40 anos, as mulheres têm sexo em média 1 vez por mês, mas os homens têm 2 ou 3.

- A felicidade depende fortemente do grau de satisfação sexual, e em sensivelmente menor escala do rendimento. O dinheiro poderá comprar felicidade, mas não amor. (Em particular, não há correlação entre o rendimento e o número de parceiros sexuais.)

- Sexo pelo menos 4 vezes por semana dá 0.12 pontos de felicidade, o que é muito na escala utilizada, representando, por exemplo, metade do efeito proporcionado pelo casamento.

- Qual o número de parceiros sexuais no ano anterior que maximiza a felicidade? A resposta é: um.

- A orientação da sexualidade de cada indivíduo não tem correlação com a felicidade.

- Os desempregados tendem a ter maior número de parceiros sexuais. Homossexuais e bissexuais masculinos têm mais parceiros sexuais do que os homens heterossexuais. A diferença não é estatisticamente significativa no caso das lésbicas.

quinta-feira, março 15

Dia do consumidor II

Vamos lá elevar o nível: do que nós precisamos, neste dia do consumidor, é de reflectir sobre uma realidade que, ao contrário do que parece, não é nada simples. Nada melhor do que um pouco de pós-estruturalismo francês, esse brilhante obscurantismo profissional, para imergirmos na fina análise do que nos surge mascarado de trivialidade.

Quer sejamos capazes ou não de provar que as possibilidades de consumo estão a ser igualizadas (diferenciais de salário reduzidos, redistribuição social, a mesma moda par todos, com os mesmos programas de TV e os mesmos destinos de férias), isto não quer dizer nada, porque pôr o problema em termos da igualização do consumo é já substituir os problemas reais e a sua análise lógica e sociológica pela procura de objectos e sinais (nível de substituição). Analisar a Abundância não significa, de todo em todo, procurar a sua verificação nas estatísticas, que só podem ser tão míticas como o mito, mas sim mudar radicalmente de ponto de vista e abordar o mito da Abundância com uma lógica diferente da que lhe é própria.
(Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo.)

O estado vela por nós

Da minha janela, vi-os chegar bem cedo frente à sede do metro. De uma carrinha sairam as calhas metálicas que os camiões seriam obrigados a pisar. Depois, uma pequena mesa de apoio, talvez para passar comodamente as multas. E a vida normal começou a deixar de o ser: um camião com terra, outro com estruturas metálicas, uma carrinha Danone, outra carrinha com fruta, mais comerciais parados e a fazerem parar o trânsito ao lado. E também, claro, um tripé para a câmara que nos contará as histórias numa televisão logo à noite.

Claro que isto não é normal. É a celebração do dia do consumidor. Assim como se se celebrasse o dia da mulher tentando atrapalhar o mais possível a vida dos homens. Para equilibrar as coisas, deve estar em projecto um dia do produtor, em que a polícia vigiará se cada um de nós se preocupa com a qualidade do que anda a consumir. Preparemo-nos para ser multados ao cair na tentação de pedir uma delícia da casa com natas fora do prazo.

Duas mulheres no aquecimento global

Liv Arnesen e Ann Bancroft, duas generosas militantes contra as altas temperaturas, deram início este mês a uma expedição ao Ártico a fim de mostrar aos jovens, aos professores, ao mundo, enfim, como o norte do planeta está a ficar quente. No seu imaginativo site estava prevista interacção com escolas para transmitir informação diária sobre o impacto das alterações climáticas no Ártico.

Infelizmente, a expedição acaba de ser suspensa. Aparentemente, as condições lá no norte não eram bem as esperadas. As senhoras chegaram a medir temperaturas entre -50º C e -75º C, e uma delas, Arnesen, sofreu uma queimadura de gelo num pé que evoluiu para uma perigosa ferida, que a não ser tratada poderia levar à necessidade de amputação. Ainda tentaram aplicar garrafas de água quente no pé afectado, mas a água congelava.

Outra senhora, Ann Atwood, que ajudou a organizar a expedição, comenta: é irónico que uma viagem destinada a chamar a atenção para o aquecimento global tenha que ser cancelada em parte devido a temperaturas extremamente baixas.

Acho o comentário pouco feliz, dadas as intenções. Deve haver por aí uns registos de temperaturas de há vinte anos atrás com valores entre -55ºC e -77ºC. Eu não tenho dúvidas de que o aquecimento global está aí, e estou a falar a sério.

domingo, março 11

Curiosidades

O governo inglês decidiu enviar uma cópia do filme de Al Gore a cada escola secundária (com clientes assim, dá gosto produzir dvds). Irá fazer o mesmo com o filme de Martin Durkin? O homem é até mais de esquerda que o outro, embora mal amado pelo lobby da militância ecológica: um marxista que acha que os países subdesenvolvidos também têm direito a poluir. De qualquer modo, o documentário de Durkin resguardou-se de usar tiradas demagógicas. Dominic Lawson escreve sobre o filme no Independent.


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Nos jornais e rádios de Espanha debatem-se hoje os números da manifestação de Madrid, ontem. Para uns 2 100 000, para outros 342 655; é desnecessário dizer quem são uns e outros. Mas era muita gente e a estrela de Zapatero ressentir-se-á, porque na verdade terá começado a declinar pelo menos desde o atentado da ETA.


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A RFI (que se escuta a certas horas em Lisboa em FM 90.4) passou esta manhã um depoimento de Eric Fassin, professor de sociologia na École Normale Supérieure, sobre a presença, no debate eleitoral em França, do tema das uniões homossexuais. Fassin, especialista de "género", dissertou sobre a construção da identidade sexual e sobre a sua teoria da democracia sexual. Disse várias coisas que não têm muito interesse porque são completamente previsiveis e não avançam nem atrasam. Perguntado sobre o papel das religiões como forças de oposição às alterações normativas que vão no sentido de maior liberdade sexual, afirmou que de facto algumas religiões têm de facto esse papel: sobretudo a religião muçulmana e por vezes também a católica. Desculpem, enganei-me. Isso diria um ignorante como eu. O que ele disse foi: sobretudo a religião católica e por vezes também a muçulmana.

Vou já à FNAC comprar uma Sociologia para Totós. A ver se começo a abrir os olhos.

quinta-feira, março 8

Mulheres


Nahid Keshavarz é uma de cerca de 50 mulheres que foram presas em Teerão no passado domingo, num protesto público. Há notícias de que terão sido libertadas ontem todas, excepto três.

Muito se falou hoje da ousadia das lutas de mulheres. A conversa incidiu quase toda sobre as lutas passadas. Mas não ouvi nas rádios ou tvs nem uma palavra sobre a submissão das mulheres nos países islâmicos ou nas comunidades islâmicas europeias. Aí é que a luta é hoje mais imperiosa e decisiva.

quarta-feira, março 7

TEIP

O Conselho Nacional da Educação apresentou mais um relatório sobre o estado da educação (ver PÚBLICO de hoje). Mais um diagnóstico, mais recomendações. Fala-se de programas extensos ou desadequados. Falar-se-á do número absurdo de disciplinas? Já se sabe tudo isto há tanto tempo. Como subproduto, os relatores descobrem que Bolonha vem trazer riscos para a qualidade do ensino superior. Em resumo, nada de novo.

Assim como não há nada de novo no âmbito dos contratos-programa do ministério com determinadas escolas para melhorar resultados nos 2º e 3º ciclos. Uma escola recebe, por exemplo, um psicólogo e dois animadores e terá direito a melhoria nos equipamentos desportivos. As escolas contempladas foram consideradas TEIP (territórios educativos de intervenção prioritária), deliciosa sigla da época em que Ana Benavente comandava as operações. No fundo, parece que o seu espírito continua ao comando. As palavras não são inocentes. Uma operação que usa esta sigla não me inspira confiança. Territórios são lugares que determinado grupo marca com seu chichi para impôr presença e domínio. Neste caso, não se percebe se é do chichi dos meninos ou do dos psicólogos e educadores que se trata. Não digo que não venha a sentir-se alguma consequência positiva da campanha etiológica em curso; o que não me parece é que o benefício seja no desempenho em português e matemática, por exemplo. Cem milhões lançados para os nossos olhos e para um território minado.

terça-feira, março 6

O grande embuste do aquecimento global

É o título de um documentário que o Canal 4 inglês apresenta no dia 8. O filme põe em causa a teoria "consensual" de que o aquecimento tem como causa a actividade humana. Participam climatologistas de centros de investigação e universidades prestigiadas.

Quarenta anos de uma obra prima

Gabriel Garcia Márquez acaba de fixar o texto de "Cem anos de solidão", agora editado em edição comemorativa, incluindo lista de vocábulos e estudos sobre a obra (entre eles um de Mário Vargas Llosa). Foi ponderado se se deveria mudar el partido de dominó para la partida de dominó e se na expressão las mandan a componer o a está a mais. A Real Academia Española participou na revisão do texto e nem todas as opiniões dos peritos foram aceites pelo autor. A língua presta-se pouco a ciência exacta. Com partido ou partida, com ou sem a, o que é importante é que com os "Cem anos" estamos menos sós.

sábado, março 3

Burka techno

http://www.youtube.com/watch?v=MOk5Ax40hcs&eurl=http%3A%2F%2Fastuteblogger%2Eblogspot%2Ecom%2F

Hoje é dia de nos deixarmos seduzir pela burka. Visto em Astute Blogger

quarta-feira, fevereiro 28

A conta da luz

O Tennessee Center for Policy Research divulgou as contas de electricidade e gás de Al Gore. Em 2006, na sua casa de Nashville, consumiu quase 221 000 kWh. A conta de gás excedeu a média de 1000 dólares mensais. No caso da electricidade, estes números representam um aumento de 10% relativamente ao consumo do mesmo cidadão no ano anterior e 20 vezes o consumo do americano médio.

Gore responde aqui à divulgação destes dados e segue-se uma animada troca de comentários.

Não sei se se trata de uma campanha de extrema direita para prejudicar Gore. Mas acho natural que qualquer pessoa que gaste cerca de 30 000 dólares anuais em energia se esforce por levar os outros a não gastar muito, e por promover vendas de dvds para pagar a conta.

terça-feira, fevereiro 27

Ouro e diamantes

Uma parte importante das energias da justiça em Portugal consome recursos à volta do insípido mexerico em torno de quem terá feito batota ao jogo, corrompendo árbitros e oferecendo uns presentes tristes onde se incluem prostitutas. Isto é incompreensível: qual é o prejuízo causado que justifica tanto empenho? As expectativas goradas dos adeptos? Como se o que interessasse à maioria deles fosse mais do que a vitória a qualquer preço e a descarga catártica que ela proporciona? Ainda por cima, tudo isto tem pernas para andar apenas porque certa ex-namorada subscreveu um livro de denúncias sem o qual ninguém teria competência para chegar a lado nenhum.

Muito mais interessante do que a coscuvilhice futebolística é o caso da "Universidade" Independente, onde parece caber tudo desde não se saber quem são os donos até um caso de relações escuras com diamantes e Angola, passando pela acção protectora de uma magistrada. Isto é o que os noticiários divulgaram hoje. Para encontrar algo de uma grandeza (ou gravidade) equiparável no mundo da bola teríamos que recuar até aos dez estádios do 2004, pelo menos sete dos quais construídos para as moscas. Mas nesse caso as p... são certamente mais finas.

O caso da Independente lá tem incubado em segredo, até que uma zanga com implicações que dão nas vistas obrigou as partes em conflito a pôr a boca nos trombones. Os Ministérios do ensino superior nunca deram por nada em anos sucessivos. Agora, com o caso nos noticiários de tv, parece que o actual ministro está preocupado. No mundo da justiça não se sabia de nada, parece. Se não há por aí outra amante traída e com veia literária, o alcance dos apitos esgota-se no ouro, não chega aos diamantes.

segunda-feira, fevereiro 26

O cinema, o novo farol do conhecimento

O filão do desastre climático já conduziu ao óscar: assunto encerrado. Mas a indústria das verdades convenientes veio para ficar. James Cameron (do "Titanic") dá hoje em Nova York uma conferência de imprensa sobre o assunto da sua nova produção. O cineasta afirma que a sua equipa terá descoberto a sepultura de Jesus Cristo. Tem provas até baseadas em DNA! Um dos subprodutos da descoberta é que a crucificação não existiu. Claro que pode haver algumas objeccçõezinhas aborrecidas, mas não incomodarão muito. E nada disto envolve riscos físicos, pois não é natural que algum cristão fanático condene à morte o produtor. Por outro lado, a teoria dá jeito: recupera e ultrapassa o caminho aberto pelo "Código" e aproveita a disponibilidade do público por ele criado; e pode acabar de vez com a guerra dos crucifixos. Ainda por cima, acaba por sustentar o ponto de vista do Islão segundo o qual Jesus, um profeta como os outros, não foi crucificado. Por acaso acho que isto é só coincidência, mas o que é certo é que, deste modo, o sucesso do filme ameaça meter no bolso o do ex-vice presidente convertido à climatologia.

Até agora, julgávamos que era a ciência que nos desvendava os segredos do mundo. Habituemo-nos: esse papel passou para as objectivas de Hollywood. É mais rápido e chega logo ás multidões, sem passar pelo enfadonho processo de revisão pelos pares.

terça-feira, fevereiro 20

Os direitos dos animais vistos à esquerda

O referendo ao estatuto de Andaluzia não excitou particularmente os andaluzes. Começa a ser normal a separação entre dois mundos com interesses disjuntos: o da gente "normal" e o dos profissionais da política. Apesar disso, estes lá vão levando a água ao seu moinho, talvez demorando mais, talvez deixando alguma pelo caminho.

No admirável mundo novo de Espanha já se anuncia outra grande causa: a dos direitos dos animais. Os touros de morte estão, agora sim, ameaçados de morte. É a ministra do ambiente,Cristina Narbona, que dá o tiro de partida, anunciando, para já, resultados de sondagens que revelam o fraco apoio dos espanhois à morte do touro na arena. Bem, apesar de tudo esse apoio parece subir aos 40% na Andaluzia. Ora aí está um tema que talvez desperte do seu torpor e indiferença as populações ingratas face ao labor dos governantes.

Não tenho simpatias pela tourada e não me comove o facto de os Picassos e Hemingways terem sido grandes aficcionados. Também me deixa indiferente a campanha que se antevê contra a matança do touro. Tenho só uma pequena curiosidade: irá a ministra contrariar a comercialização de carne halal, que já se realiza em gande escala no país? Ou o sofrimento infligido a animais será tolerável desde que feito em nome de uma determinada religião cujos seguidores nunca podem ser contrariados?

domingo, fevereiro 18

quinta-feira, fevereiro 15

O tempo visto de Gaza

O ressentimento e o desejo de vingança está em alta pelos lados da Fatah. Vingança contra o Hamas, claro. Num tiroteio entre as duas facções, há poucos dias, morreu o sobrinho de 16 anos do chefe local do Fatah, Khamis Bakr.
Há muita desconfiança, diz Bakr. Se o acordo (de Meca) durar seis meses já é um bom acordo.

Tem razão. Com base nos factos recentes, seis meses para esse efeito, em Gaza, é a eternidade.

terça-feira, fevereiro 13

Variações rápidas

A velocidade de fusão do gelo da Gronelândia está a diminuir. Depois de ter duplicado ao longo de 2004, decresceu agora para níveis próximos dos anteriores àquela subida. De resto, nos anos 30 do século passado a Gronelândia era tão ou mais quente que agora, e os glaciares eram menores. Quem o diz é Ian Howat, co-autor de um artigo acabado de sair na Science, cujos resultados sugerem moderação nas previsões catastrofistas recentemente muito divulgadas.

Deve ter-se especial cuidado no modo como estas e outras perdas de massa são avaliadas, especialmente ao fazer extrapolações para o futuro, porque picos de curto prazo podem sugerir tendências de longo prazo incorrectas.

segunda-feira, fevereiro 12

Declarações inconvenientes

O aquecimento global é um falso mito e as pessoas sérias e cientistas confirmam-no. O IPPC não é uma instituição científica: é um órgão político, uma espécie de ONG com sabor a verde Não é um forum de cientistas neutros nem um grupo equilibrado de cientistas. Essas pessoas são cientistas politizados que têm uma posição unilateral e uma encomenda unilateral. (...) Se a Comissão Europeia vai a correr a comprar esse embuste, temos outra boa razão para para crer que os próprios países, e não a Comissão, é que devem tomar decisões sobre tais matérias.

O ambientalismo como ideologia metafísica e como visão do mundo não tem nada a ver com as ciências da natureza nem com o clima. Infelizmente, nem sequer tem a ver com ciências sociais. No entanto, está na moda e isso assusta-me. (...) Como homem orientado para a ciência, sei ler relatórios científicos sobres estas questões (...) e nos artigos que li, as conclusões de que os media falam estão simplesmente ausentes. (...) por isso comecei a escrever um artigo sobre o assunto no natal. O artigo cresceu para um livro e sairá dentro de uns meses. Ambientalismo e ideologia verde é algo muito diferente de ciência do clima. Vários resultados e alertas de cientistas estão a sofrer abusos por parte desta ideologia.


Vaclav Klaus, presidente da República Checa, em entrevista ao jornal de economia Hospodárské noviny.

Corolário do Sim

Houve grande regozijo perante a evidência de muitos católicos terem votado sim. Os adeptos do ataque sistemático à Igreja Católica podem descansar um bocado. Se ela assusta alguém, é só a eles.

quinta-feira, fevereiro 8

Que descanso não ter útero

A lei em vigor, que penaliza as mulheres que abortam em determinadas condições, é o ponto alto da discriminação em função do sexo, e por isso intolerável.

Nenhuma filosofia ou contribuição da ciência nos permitirá definir de modo inequívoco, consensual, o estatuto de um feto humano. Do ponto de vista prático, há que chegar a convenções socialmente aceitáveis.

Uma vida humana é normalmente gerada a partir do encontro de um homem e uma mulher. Sucede que só ela tem um útero, só ela tem a estrutura de acolhimento à nova pessoa. Mas só ela é responsável pela gravidez? Não brinquemos. É ela quem mais sofre quando as coisas dão para o torto, isso sim. A partir do momento em que se convenciona que aborto é crime, independentemente das semanas, horas, minutos e segundos, uma lei não discriminatória obrigaria a que, após a detecção de um aborto, as polícias não se limitassem a identificar a mulher que o praticou, mas a ir também no encalço do homem envolvido e implicá-lo no mesmo delito. Na época da gloriosa igualdade de género, é admissível tipificar um crime em que o agente é, à partida, mulher?

quarta-feira, fevereiro 7

E se...

... a falsa "pandemia" da gripe das aves, que na Ásia matou escassas centenas de pessoas, fosse uma maneira de desviar a preocupação dos Europeus da "pandemia" islâmica?

... a premência de liberalizar o aborto fosse uma ardilosa manobra de diversão, enquanto se deterioram as condições de vida dos portugueses, incapazes de contornar a falta de produtividade endémica na era da globalização?

segunda-feira, fevereiro 5

A invenção de Sónia

Há menos de um ano, imprensa e televisões mostraram-nos o exemplo encorajador de Sónia Moreira: educada na obra do padre Gregório, descobriu a sua vocação para a matemática com uma explicadora (a stora dela não explicava muito bem) e foi por aí acima até à olimpíada europeia da disciplina. O desempenho valeu-lhe uma bolsa para ir estudar medicina em Oxford.

Ontem, a TVI veio revelar que toda a história é inventada. A acumulação de detalhes, misturando o verosímil com o suspeito, torna o caso notável pela simplicidade com que foi urdido e deglutido. Numa das notícias surgem mesmo declarações da psicóloga que dirige a instituição que acolhia Sónia. A TVI refere que Sónia não deve ter actuado sozinha e até pode ter havido intenções menos inofensivas do que simplesmente criar uma historieta de falsa notoriedade.

Sozinha, certamente que não. Para efeitos de divulgação, teve a "comunicação social" do seu lado. O resultado não é muito bom para estes media. Se uma Sónia de 21 anos os enrola desta maneira, o que não poderemos pensar de gente muito mais sabida e com muito mais meios à disposição, como alguns educadores, alguns artistas, algum político convertido a cineasta de terror?

domingo, fevereiro 4

Resumo da teoria de cordas

Desenho de Randall Munroe, xkcd.com. Via Physicsweb.

A competitividade

A tentativa de Sócrates de salvar as declarações de Manuel Pinho sobre os baixos salários não foi lá muito bem sucedida. No fundo tanto um como outro tinham que ocultar o verdadeiro sentido das afirmações do ministro: o país é competitivo porque fica bastante em conta comer nos restaurantes chineses e comprar nas lojas chinesas (com excepção de algum objecto que inclua fecho éclair - esses só funcionam uma vez). Era a produtividade do comércio e dos restaurantes chineses que o ministro tinha em mente.

sexta-feira, fevereiro 2

Bin Laden seguidor de Darwin?

Harun Yahya (pseudónimo do cidadão turco Adnan Oktar) é um nome provavelmente não muito reconhecível, mais por distracção nossa do que pelas iniciativas do próprio. O seu Atlas da Criação, a par de inúmeros materiais relacionados, estão disponíveis na internet há anos. Os criacionistas nos Estados Unidos bem podem invejar o impacto e influência deste rival. Harun vem-se batendo por abrir os olhos do mundo à verdade sobre a Criação e aos erros de Darwin, que afirma estarem na base do nazismo e do fascismo. O Corão é profusamente citado. Agora editou um manual muito bem impresso (770 páginas ilustradas) que acaba de enviar como oferta aos liceus e universidades em França. Esta versão é mais completa e atribui também à teoria evolucionista as raizes do terrorismo.

Os que perpetuam o terror no mundo são na realidade darwinistas. O darwinismo é a única filosofia que que valoriza, e por isso encoraja, o conflito, lê-se como legenda de uma foto que ilustra os atentados do 11 de setembro. Segundo o Figaro, o ministro da educação pediu "discretamente" aos reitores que não incluam o livro nos centros de documentação das escolas, já que o que nele se defende não corresponde ao conteúdo dos programas aprovados.

Desconhece-se quem financiou a edição e o envio do livro.

quinta-feira, fevereiro 1

Al Gore nomeado

... para o Nobel 2007 pelos seus esforços de divulgação dos efeitos das alterações climáticas.