Quatro terroristas foram hoje condenados no Reino Unido. Muktar Said Ibrahim, o chefe do grupo, tinha um sonho: provocar uma carnificina superior à de 7/7, há dois anos, em Londres. Sabe-se agora que foi ele o responsável pelo falhanço do atentado devido à sua incompetência em aritmética. Ibrahim, que chumbara em matemática no secundário, calculou mal as proporçóes dos ingredientes necessários para a explosão.
Um bom muçlmano, afinal, deve dar muito mais atenção ao Corão do que às funções de variável real. Infelizmente há maus muçulmanos que perdem tempo até com o Cálculo Infinitesimal, a Química e mesmo a pilotar aviões de grande porte.
O caso agora revelado deve fazer soar o alerta nas escolas paquistanesas onde Ibrahim foi treinado. Certamente vai ser necessário dedicar mais tempo às ciências e à matemática. Mas nem só os responsáveis do ensino corânico têm razões para meditar. Sete meses antes do atentado, Ibrahim tinha sido detido pela polícia em Heathrow com destino ao Paquistão mas acabaram por deixá-lo seguir viagem. A desculpa do homem é que ia a um casamento, embora não se recordasse do nome da noiva.
segunda-feira, julho 9
quarta-feira, julho 4
Há muitos anos

Há muitos anos, numa vila alentejana, o cinema começava às 22.00 no mês de Junho. Depois passava para as 21.45, e mais lá para o início de Agosto para as 21.30. Era uma esplanada com ecran enorme, e mais cedo não podia ser por causa da luz do dia. Agora achamos que o clima está desregulado, mas lembro-me de lá ter tiritado de frio muitas noites (talvez a maioria delas). Nos bancos de cimento da geral era mau, mas as cadeiras e mesas metálicas não eram muito melhores. A luminosidade do projector de vez em quando ia abaixo e o som era cheio de distorção. Os filmes é que eram bons, ou pelo menos a memória regista-os com essa etiqueta. Agora, suponho que toda a gente da terra vê DVDs em casa, às vezes com ar condicionado.
(banda sonora daquela cena aqui.)
Na nossa casa, na esquina de um café
Estes são os sítios onde se pode criticar o governo. Ouvi há minutos na tv, dito pela Sra. Carmen Pignatelli.
Finalmente compreendo porque é que, no tempo das eleições presidenciais, os camaradas Jerónimo e Alegre avisavam que vinha aí o fascismo e por isso era preciso elegê-los a eles. Eu ria-me, não contando com a subtileza deles, pensando que se referiam ao próprio Cavaco.
Finalmente compreendo porque é que, no tempo das eleições presidenciais, os camaradas Jerónimo e Alegre avisavam que vinha aí o fascismo e por isso era preciso elegê-los a eles. Eu ria-me, não contando com a subtileza deles, pensando que se referiam ao próprio Cavaco.
segunda-feira, julho 2
Llosa sobre Revel
... um dos intelectuais mais lúcidos do tempo que vivemos, um escritor que, como Orwell - com quem tanto se parece - no período que lhe coube, salvou de certa forma a "honra do espírito" defendendo a liberdade quando tantos intelectuais a traíam por oportunismo, fanatismo ou cegueira, e denunciando sem descanso todas as imposturas que por obra das modas, da vaidade ou da simples vacuidade empobreceram o ofício do intelectual contemporâneo.
Ninguém antes dele se atreveu a assinalar que boa parte dos escritos de Lacan, Derrida, Pierre Bourdieu e outras estrelas da inteligência francesa não eram incompreensíveis por serem profundos, mas sim porque, por detrás da sua escuridão verbal, havia só pretensão, vazio e lugares comuns envoltos em retórica impenetrável...
Revel [...]começou dizendo no Ladrão na casa vazia que, ao contrário de muitos colegas, muito satisfeitos consigo mesmos, ele passara a vida a enganar-se e a arrepender-se dos próprios equívocos. Dizia-o e acreditava-o.
(Excertos de um texto de Mario Vargas Llosa, que hoje, em Madrid, recorda Revel e apresenta o Ladrão na casa vazia.)
Ninguém antes dele se atreveu a assinalar que boa parte dos escritos de Lacan, Derrida, Pierre Bourdieu e outras estrelas da inteligência francesa não eram incompreensíveis por serem profundos, mas sim porque, por detrás da sua escuridão verbal, havia só pretensão, vazio e lugares comuns envoltos em retórica impenetrável...
Revel [...]começou dizendo no Ladrão na casa vazia que, ao contrário de muitos colegas, muito satisfeitos consigo mesmos, ele passara a vida a enganar-se e a arrepender-se dos próprios equívocos. Dizia-o e acreditava-o.
(Excertos de um texto de Mario Vargas Llosa, que hoje, em Madrid, recorda Revel e apresenta o Ladrão na casa vazia.)
sexta-feira, junho 29
A burka e a vitamina D
Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition demonstra a carência de vitamina D em mulheres residentes nos Emiratos Árabes Unidos. No estudo documenta-se a eficácia de suplementos diários de vitamina D2 e conclui-se:
...when sunlight exposure is limited, doses of vitamin D2 higher than those currently studied may be needed.
(Via Slate.)
...when sunlight exposure is limited, doses of vitamin D2 higher than those currently studied may be needed.
(Via Slate.)
domingo, junho 24
Psiquiatra explica o conflito palestino-palestiniano
O Dr. Ayead El-Sarraj encontrou chaves para compreender o que se passa em Gaza: porque é que palestinos andam a atirar outros palestinos de um 5º andar ou a fuzilar sumariamente outros palestinos acusando-os de heresia. Trata-se do trauma de uma geração, a dos filhos da ira. Funda-se na experiência insuportável de ver os pais espancados e torturados pelos israelitas. Esta experiência traumática conduziu a um deteriorar da figura do pai, procurando-se a sua substituição nas organizações armadas. A milícia é o pai com o Corão que atenua o fantasma do desamparo e impõe disciplina.
As culpas de Israel não ficam por aqui. Como explicar a filiação em grupos rivais numa luta fratricida? Simples: trata-se da não presença do inimigo comum, em resultado da saída de Israel da Faixa em 2005.
O Dr. El-Sarraj não alude aos possíveis efeitos traumáticos da educação para o suicídio na infância e não se percebe porquê: toda a gente sabe que essa educação era indispensável, dada a presença dos israelitas em Gaza.
Infelizmente, os psiquiatras não foram consultados antes de Agosto de 2005. Este descuido funesto impediu a previsão do presente massacre. Mas mesmo que o Dr. Ayead El-Sarraj tivesse sido ouvido, a sua teoria cairia em saco roto. Para além de dar explicações nada islâmicas para os factos, o homem deve ser obviamente um sionista infiltrado.
As culpas de Israel não ficam por aqui. Como explicar a filiação em grupos rivais numa luta fratricida? Simples: trata-se da não presença do inimigo comum, em resultado da saída de Israel da Faixa em 2005.
O Dr. El-Sarraj não alude aos possíveis efeitos traumáticos da educação para o suicídio na infância e não se percebe porquê: toda a gente sabe que essa educação era indispensável, dada a presença dos israelitas em Gaza.
Infelizmente, os psiquiatras não foram consultados antes de Agosto de 2005. Este descuido funesto impediu a previsão do presente massacre. Mas mesmo que o Dr. Ayead El-Sarraj tivesse sido ouvido, a sua teoria cairia em saco roto. Para além de dar explicações nada islâmicas para os factos, o homem deve ser obviamente um sionista infiltrado.
quinta-feira, junho 21
Execução suspensa?
Mokarrameh Ebrahimi, uma mulher de 43 anos, e o homem com quem partilha condenação por adultério, estão presos há 11 anos, no Irão. A execução do par esteve marcada para hoje, por apedrajamento até à morte, na cidade de Takestan, mas soube-se ontem que foi suspensa. De acordo com algumas fontes, o protesto internacional e o alarme na própria blogosfera iraniana terão tido aqui um papel importante. Na Amnesty International decorre uma acção, motivada por este caso, para demover as autoridades iranianas da aplicação desta pena cruel.
terça-feira, junho 19
A boa avaliação segundo a APP
A circunstância suscita o prolongamento do post anterior. A APP veio, uma vez mais, declarar a sua desaprovação a respeito do exame de Português ontem realizado.
A APP tem a este respeito uma opinião cheia de contradições. Queria uma prova que avaliasse conhecimentos de gramática, mas reconhece que as trapalhadas em torno da abominável tlebs acabaram por condicionar o enunciado. Quer exames orais mas avisa que isso sairá caro (em euros), o que lança pelo menos alguma desconfiança sobre as razões da reivindicação. De resto, se tivermos em conta outras posições recentes da APP, podemos também suspeitar que os exames orais da APP servirão, sobretudo, para dar um peso menor ao uso correcto da língua na escrita, desvalorizando-o.
A APP não ignora a dificuldade técnica de montar a operação de exames orais que reclama. Requerer mais exames pode significar, paradoxalmente, querer acabar com eles.
A APP tem a este respeito uma opinião cheia de contradições. Queria uma prova que avaliasse conhecimentos de gramática, mas reconhece que as trapalhadas em torno da abominável tlebs acabaram por condicionar o enunciado. Quer exames orais mas avisa que isso sairá caro (em euros), o que lança pelo menos alguma desconfiança sobre as razões da reivindicação. De resto, se tivermos em conta outras posições recentes da APP, podemos também suspeitar que os exames orais da APP servirão, sobretudo, para dar um peso menor ao uso correcto da língua na escrita, desvalorizando-o.
A APP não ignora a dificuldade técnica de montar a operação de exames orais que reclama. Requerer mais exames pode significar, paradoxalmente, querer acabar com eles.
segunda-feira, junho 11
Por detrás dos pareceres
A leitura dos pareceres de associações de professores sobre os programas oficiais das suas disciplinas é interessante como elemento para um retrato dos problemas do nosso ensino pré-universitário.
A Associação de Professores de Português reconhece nos programas uma inegável qualidade e congratula-se com a abordagem proposta de um conjunto diversificado de tipologias textuais, literárias e não literárias. Aponta as dificuldades de ensinar o funcionamento da língua quando os alunos falham ainda em aspectos básicos de morfologia e sintaxe. Concorda com a necessidade de incluir o estudo da gramática, mas parece aceitar pacificamente que estudar gramática só é possível com uma tlebs qualquer, preferentemente simples. (Estranha área do conhecimento onde o problema principal são os nomes a dar aos objectos. Enfim.)
A Associação de Professores de Matemática reconhece igualmente grandes virtudes no programa adoptado. Há equilíbrio aceitável, há grau de aprofundamento adequado, há até novas metodologias e nova cultura profissional induzidas pelo programa. Exprime a dificuldade de articulação vertical com o 3º ciclo do ensino básico (leia-se, a dificuldade de ensinar as matérias quando os alunos falham a nível muito elementar).
Quanto à avaliação de conhecimentos, ambas as associações sublinham (mas mais vincadamente a APM) que não gostam de avaliações externas, e com esse fim servem-se do discurso das aprendizagens e das competências: os exames não são adequados para as avaliar cabalmente, dizem elas.
Há uma diferença muito marcada nas apreciações da APP e da APM no que diz respeito às metodologias. A APP rejeita, bem, a extensão e falta de objectividade do texto programático, carregado de indicações metodológicas intrusivas e incompatíveis com o volume de conteúdos declarativos.
A APM elogia repetidamente as indicações metodológicas do programa de matemática, chegando ao ponto de dizer que um dos problemas da avaliação de conhecimentos está no facto de os temas serem simultaneamente conteúdo e metodologia e que esta fica por avaliar com os métodos tradicionais(!!!).
A APP classifica o processo de implementação dos programas como atribulado e mal orientado; para a APM o processo foi ímpar relativamente à grande maioria dos programas, mas lamenta que o acompanhamento (por iluminados, entenda-se) tenha sido interrompido. Está implícito na apreciação da APM que o programa de Matemática é um texto encriptado, dependendo a sua "correcta" aplicação de um exército de exegetas capazes de o explicar à massa de professores ignorantes. Não está dito com estas palavras, mas está lá para quem queira ler.
A APM leva o seu delírio apreciativo ao ponto de dizer que o programa apela às conexões entre os diferentes temas, quando nem sequer dentro de um tema está garantida qualquer coerência (por exemplo, são propostas duas definições diferentes para o número e sem que haja um esforço para as relacionar). Também lamenta que não tenha sido criada a disciplina de Temas Actuais de Matemática, para extensão e aprofundamento, o que é claramente contraditório com as dificuldades, conhecidas e confessadas, para a leccionação dos temas básicos que o currículo não pode deixar de contemplar. Insiste muito também na necessidade de maior e mais generalizada utilização da tecnologia como solução milagrosa, confundindo o domínio das ideias com um mero e circunstancial meio auxiliar de cálculo.
Usando a linguagem cara aos pedagogos pós-modernos, as apreciações das associações de professores merecem estudos de caso, para que se compreendam as representações que estas direcções burocráticas elaboram das matérias curriculares e da actividade profissional dos seus associados.
A Associação de Professores de Português reconhece nos programas uma inegável qualidade e congratula-se com a abordagem proposta de um conjunto diversificado de tipologias textuais, literárias e não literárias. Aponta as dificuldades de ensinar o funcionamento da língua quando os alunos falham ainda em aspectos básicos de morfologia e sintaxe. Concorda com a necessidade de incluir o estudo da gramática, mas parece aceitar pacificamente que estudar gramática só é possível com uma tlebs qualquer, preferentemente simples. (Estranha área do conhecimento onde o problema principal são os nomes a dar aos objectos. Enfim.)
A Associação de Professores de Matemática reconhece igualmente grandes virtudes no programa adoptado. Há equilíbrio aceitável, há grau de aprofundamento adequado, há até novas metodologias e nova cultura profissional induzidas pelo programa. Exprime a dificuldade de articulação vertical com o 3º ciclo do ensino básico (leia-se, a dificuldade de ensinar as matérias quando os alunos falham a nível muito elementar).
Quanto à avaliação de conhecimentos, ambas as associações sublinham (mas mais vincadamente a APM) que não gostam de avaliações externas, e com esse fim servem-se do discurso das aprendizagens e das competências: os exames não são adequados para as avaliar cabalmente, dizem elas.
Há uma diferença muito marcada nas apreciações da APP e da APM no que diz respeito às metodologias. A APP rejeita, bem, a extensão e falta de objectividade do texto programático, carregado de indicações metodológicas intrusivas e incompatíveis com o volume de conteúdos declarativos.
A APM elogia repetidamente as indicações metodológicas do programa de matemática, chegando ao ponto de dizer que um dos problemas da avaliação de conhecimentos está no facto de os temas serem simultaneamente conteúdo e metodologia e que esta fica por avaliar com os métodos tradicionais(!!!).
A APP classifica o processo de implementação dos programas como atribulado e mal orientado; para a APM o processo foi ímpar relativamente à grande maioria dos programas, mas lamenta que o acompanhamento (por iluminados, entenda-se) tenha sido interrompido. Está implícito na apreciação da APM que o programa de Matemática é um texto encriptado, dependendo a sua "correcta" aplicação de um exército de exegetas capazes de o explicar à massa de professores ignorantes. Não está dito com estas palavras, mas está lá para quem queira ler.
A APM leva o seu delírio apreciativo ao ponto de dizer que o programa apela às conexões entre os diferentes temas, quando nem sequer dentro de um tema está garantida qualquer coerência (por exemplo, são propostas duas definições diferentes para o número e sem que haja um esforço para as relacionar). Também lamenta que não tenha sido criada a disciplina de Temas Actuais de Matemática, para extensão e aprofundamento, o que é claramente contraditório com as dificuldades, conhecidas e confessadas, para a leccionação dos temas básicos que o currículo não pode deixar de contemplar. Insiste muito também na necessidade de maior e mais generalizada utilização da tecnologia como solução milagrosa, confundindo o domínio das ideias com um mero e circunstancial meio auxiliar de cálculo.
Usando a linguagem cara aos pedagogos pós-modernos, as apreciações das associações de professores merecem estudos de caso, para que se compreendam as representações que estas direcções burocráticas elaboram das matérias curriculares e da actividade profissional dos seus associados.
sexta-feira, maio 25
Margarida Moreira votou Salazar?
Na sua coluna de hoje no PÚBLICO, Carlos Fiolhais aborda o recente e triste episódio ocorrido na DREN à volta de um comentário jocoso ou ofensivo, conforme os pontos de vista. Argumenta, com razão, que o que se passou é uma pequena amostra do que poderá suceder se novos centros de poder vierem a surgir em órgãos regionais.
Mas um ponto chave da crónica é a ironia de concluir que Margarida Moreira vem, com o seu gesto, revelar que votou Salazar no célebre programa de tv. Se à primeira vista, dados os actos de bufaria e repressão de opinião subjacentes ao caso, a asserção parece ter sentido, um minuto de análise é suficiente para reconhecer que a ironia não passa disso mesmo. Vindo de onde vem, e colocada onde está pela mão de quem foi, Margarida Moreira pertence, quase de certeza, à classe de cidadãos que jamais votaria Salazar e que, só por isso, se auto-atribuem superioridade moral. A repulsa pela vitória do antigo ditador vem de um nome e de um tempo que já não ameaçam ninguém. Sob o disfarce de nomes mais simpáticos, aspectos tenebrosos do que o salazarismo representou não podem causar senão um escândalo mais limitado. A repugnância pelo primeiro lugar de Salazar no concurso é compatível com práticas que o galardoado aprovaria.
Mas um ponto chave da crónica é a ironia de concluir que Margarida Moreira vem, com o seu gesto, revelar que votou Salazar no célebre programa de tv. Se à primeira vista, dados os actos de bufaria e repressão de opinião subjacentes ao caso, a asserção parece ter sentido, um minuto de análise é suficiente para reconhecer que a ironia não passa disso mesmo. Vindo de onde vem, e colocada onde está pela mão de quem foi, Margarida Moreira pertence, quase de certeza, à classe de cidadãos que jamais votaria Salazar e que, só por isso, se auto-atribuem superioridade moral. A repulsa pela vitória do antigo ditador vem de um nome e de um tempo que já não ameaçam ninguém. Sob o disfarce de nomes mais simpáticos, aspectos tenebrosos do que o salazarismo representou não podem causar senão um escândalo mais limitado. A repugnância pelo primeiro lugar de Salazar no concurso é compatível com práticas que o galardoado aprovaria.
quarta-feira, maio 23
Ser e não ser
Fazer um juízo sobre a actual situação da cidade de Lisboa e não do Governo. Este foi o pedido do antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, aos eleitores...
Agora que o actual Presidente da República está em paz com o governo, o ex faz-lhe uma censura mais que explícita. Inconsistente e auto-contraditória, como é hábito, vinda de quem vem.
Agora que o actual Presidente da República está em paz com o governo, o ex faz-lhe uma censura mais que explícita. Inconsistente e auto-contraditória, como é hábito, vinda de quem vem.
terça-feira, maio 22
As palavras: continuação do post anterior
Durante muito tempo, em conversas amenas, costumava escarnecer dos estruturalismos que considerava ocos. Agora estou cada vez mais rendido à força devoradora das palavras, que deixam de o ser para se imobilizarem, petrificadas, na digestão dos objectos de que se apropriaram.
Ontem, numa entrevista de tv, Ruben de Carvalho comentava que as muitas candidaturas de "esquerda" são a prova da vitalidade da "esquerda".
Durante a última campanha presidencial, muitos preveniam contra o autoritarismo, o "fascismo" até, que aí vinha pela mão do candidato que acabou por ser eleito.
Quando Salazar ganhou um pífio concurso de tv, virgens ofendidas disseram cobras e lagartos do estado da democracia.
Quando, na realidade, um fascismo pequeno e subtil ensaia passos de lã, ele dificilmente é reconhecido, porque afinal vem trazido pelos que têm o monopólio do uso de rótulos anti-fascistas.
"Esquerda", "fascismo"... palavras que deixaram de o ser, para se tornarem obcessões que habitam as mentes paradas num tempo e num lugar.
Ontem, numa entrevista de tv, Ruben de Carvalho comentava que as muitas candidaturas de "esquerda" são a prova da vitalidade da "esquerda".
Durante a última campanha presidencial, muitos preveniam contra o autoritarismo, o "fascismo" até, que aí vinha pela mão do candidato que acabou por ser eleito.
Quando Salazar ganhou um pífio concurso de tv, virgens ofendidas disseram cobras e lagartos do estado da democracia.
Quando, na realidade, um fascismo pequeno e subtil ensaia passos de lã, ele dificilmente é reconhecido, porque afinal vem trazido pelos que têm o monopólio do uso de rótulos anti-fascistas.
"Esquerda", "fascismo"... palavras que deixaram de o ser, para se tornarem obcessões que habitam as mentes paradas num tempo e num lugar.
quarta-feira, maio 16
A situação terrível
José Sá Fernandes apela à unidade da esquerda no episódio das eleições antecipadas, por motivo da situação terrível a que chegou a câmara de Lisboa. Roseta e o PCP, sorrindo, dizem não, mostrando assim a situação terrível a que chegou aquilo que se costuma designar como esquerda.
Os planos não devem ter resultados
Quando foi lançado um plano de acção para a Matemática, no final de 2005, exprimi dúvidas sobre aspectos relacionados com a direcção do projecto, onde assumiram papel de relevo defensores das políticas que têm conduzido ao desastre do ensino da disciplina. Os primeiros textos publicados pela comissão nomeada para o efeito continham um número suficiente de parágrafos em eduquês para ficarmos de sobreaviso.
É claro que a ministra sabia o que fazia. Não tem que se admirar, agora, de que lhe venham contestar esse vício de pretender que as acções sejam empreendidas tendo em vista resultados.
A APM aceitou estar representada na Comissão de Acompanhamento desta medida [o Plano de Acção para a Matemática], onde sempre contrariou o discurso excessivamente centrado sobre os resultados esperados com a realização dos projectos nas escolas, porque há muitos aspectos das aprendizagens que não são mensuráveis, sobretudo a curto prazo, e porque há muitos factores, alheios ao sistema educativo, que influenciam as aprendizagens dos alunos. A afirmação de que os resultados dos exames de Matemática do 9º ano vão ser “teste ao trabalho das escolas”, revela ausência de sentido pedagógico e exprime uma leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação. (Comunicado da Associação de Professores de Matemática, 15 de Maio).
Muitos aspectos não mensuráveis? Vá lá, vá lá. Mas, que diabo, professores de matemática não conseguem descobrir um par deles que o sejam?
Parece-me que a APM está a querer converter-se em factor alheio (se não de bloqueio) ao sistema educativo. E a revelar ausência de responsabilidade e sentido pedagógico. E a exibir uma leitura muito simplista e redutora da realidade.
É claro que a ministra sabia o que fazia. Não tem que se admirar, agora, de que lhe venham contestar esse vício de pretender que as acções sejam empreendidas tendo em vista resultados.
A APM aceitou estar representada na Comissão de Acompanhamento desta medida [o Plano de Acção para a Matemática], onde sempre contrariou o discurso excessivamente centrado sobre os resultados esperados com a realização dos projectos nas escolas, porque há muitos aspectos das aprendizagens que não são mensuráveis, sobretudo a curto prazo, e porque há muitos factores, alheios ao sistema educativo, que influenciam as aprendizagens dos alunos. A afirmação de que os resultados dos exames de Matemática do 9º ano vão ser “teste ao trabalho das escolas”, revela ausência de sentido pedagógico e exprime uma leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação. (Comunicado da Associação de Professores de Matemática, 15 de Maio).
Muitos aspectos não mensuráveis? Vá lá, vá lá. Mas, que diabo, professores de matemática não conseguem descobrir um par deles que o sejam?
Parece-me que a APM está a querer converter-se em factor alheio (se não de bloqueio) ao sistema educativo. E a revelar ausência de responsabilidade e sentido pedagógico. E a exibir uma leitura muito simplista e redutora da realidade.
A primeira medida
No PÚBLICO de 11/05, Luís Campos e Cunha propõe quatro medidas para o ensino superior com as quais estou de acordo.
A primeira consiste em não autorizar programas de doutoramento em áreas nas quais as unidades de investigação de uma dada instituição não estejam classificadas como "muito boas" ou "excelentes". De facto, esta é uma condição necessária mínima para garantir qualidade. No entanto, quando olhamos o problema de mais perto, é fácil compreender que nem com uma tal medida a qualidade fica garantida.
A principal razão é que os tempos modernos, e sobretudo os pós-modernos, erodiram e perverteram o significado de "investigação", de "área científica", e o do exame de "doutoramento" que lhes pode estar associado. De outro modo não seria possível encontrar "teses de doutoramento" com títulos como Educação Matemática e Conflitos Sociais (Un. Campinas, Brasil 2005), O nexo "geometria fractal - produção da ciência contemporânea" tomado como núcleo do currículo de matemática do ensino básico (Rio Claro, Brasil 2005), Cultura organizacional em contexto educativo : sedimentos culturais e processos de construção do simbólico numa Escola Secundária (Un. Minho, 2003) e muitos outros que aborrece citar. Os exemplos são igualmente numerosos lá fora. Em http://www.people.ku.edu/~jyounger/lgbtqprogs.html podem consultar-se programas de mestrado e doutoramento que falam por si. Por exemplo "East German Women's Struggle to Resist the Strengthening of Traditional Gender Roles in Reunified Germany", é o título delicioso da tese de uma professora da George Mason University, muito vocacionada para questões de género. (Curiosamente, numa universidade tão cheia de feministas, os estudantes muçulmanos impõem agora as suas regras num espaço de meditação, requerendo áreas separadas para homens e mulheres.)
É claro que unidades de investigação nestas áreas, sendo avaliadas pelas sumidades comprometidas com as mesmas ideologias, podem com facilidade ser classificadas de excelentes. A infecção alastra entre elogios.
A primeira consiste em não autorizar programas de doutoramento em áreas nas quais as unidades de investigação de uma dada instituição não estejam classificadas como "muito boas" ou "excelentes". De facto, esta é uma condição necessária mínima para garantir qualidade. No entanto, quando olhamos o problema de mais perto, é fácil compreender que nem com uma tal medida a qualidade fica garantida.
A principal razão é que os tempos modernos, e sobretudo os pós-modernos, erodiram e perverteram o significado de "investigação", de "área científica", e o do exame de "doutoramento" que lhes pode estar associado. De outro modo não seria possível encontrar "teses de doutoramento" com títulos como Educação Matemática e Conflitos Sociais (Un. Campinas, Brasil 2005), O nexo "geometria fractal - produção da ciência contemporânea" tomado como núcleo do currículo de matemática do ensino básico (Rio Claro, Brasil 2005), Cultura organizacional em contexto educativo : sedimentos culturais e processos de construção do simbólico numa Escola Secundária (Un. Minho, 2003) e muitos outros que aborrece citar. Os exemplos são igualmente numerosos lá fora. Em http://www.people.ku.edu/~jyounger/lgbtqprogs.html podem consultar-se programas de mestrado e doutoramento que falam por si. Por exemplo "East German Women's Struggle to Resist the Strengthening of Traditional Gender Roles in Reunified Germany", é o título delicioso da tese de uma professora da George Mason University, muito vocacionada para questões de género. (Curiosamente, numa universidade tão cheia de feministas, os estudantes muçulmanos impõem agora as suas regras num espaço de meditação, requerendo áreas separadas para homens e mulheres.)
É claro que unidades de investigação nestas áreas, sendo avaliadas pelas sumidades comprometidas com as mesmas ideologias, podem com facilidade ser classificadas de excelentes. A infecção alastra entre elogios.
domingo, maio 13
O destino de Dua Khalil Aswad
Dua Khalil Aswad era uma rapariga curda de 17 anos, pertencente à seita Yazid, adoradores de um anjo caído em desgraça e que se consideram a si próprios os veradeiros descendentes de Abraão. Dua enamorou-se de um rapaz sunita e certa noite não voltou a casa para ficar junto dele. Um chefe Yazid deu-lhe refúgio. Mas a notícia chegou à família com a carga da desonra: Dua tinha-se até convertido ao Islão por amor.
No passado dia 7 de abril, os familiares e autoridades religiosas Yazid, seguidos de uma multidão, forçaram a rapariga a sair da casa onde se abrigara, arrastaram-na pela rua e apedrejaram-na durante meia hora até à morte, com calhaus e um bloco de cimento. Tiveram a atenção, durante o acto, de lhe cobrir as pernas com roupa.
Coexistindo nos nossos dias o mundo medieval com os últimos avanços da electrónica, tornou-se possível presenciar estes actos bárbaros onde quer que estejamos. Alguém filmou com um telemóvel, quem sabe se com a mesma frieza com que se filma um casamento ou um bocado de um jogo de futebol. O video começou a ser divulgado há uma semana e foi retirado de alguns sites, como o YouTube, mas ainda é possível encontrá-lo noutros. O que não é fácil é suportar o visionamento.
No passado dia 7 de abril, os familiares e autoridades religiosas Yazid, seguidos de uma multidão, forçaram a rapariga a sair da casa onde se abrigara, arrastaram-na pela rua e apedrejaram-na durante meia hora até à morte, com calhaus e um bloco de cimento. Tiveram a atenção, durante o acto, de lhe cobrir as pernas com roupa.
Coexistindo nos nossos dias o mundo medieval com os últimos avanços da electrónica, tornou-se possível presenciar estes actos bárbaros onde quer que estejamos. Alguém filmou com um telemóvel, quem sabe se com a mesma frieza com que se filma um casamento ou um bocado de um jogo de futebol. O video começou a ser divulgado há uma semana e foi retirado de alguns sites, como o YouTube, mas ainda é possível encontrá-lo noutros. O que não é fácil é suportar o visionamento.
segunda-feira, maio 7
A "amarga vitória"
Tem piada o fingido espanto diante da vitória esmagadora de AA Jardim na Madeira. Institucionalizem no meu bairro uma forma de governo com direito a transferências do orçamento e verão o acontece quando tentarem diminuir-nos o tamanho da fatia. Já agora, avancem para a regionalização e depois venham admirar-se com as "amargas vitórias da democracia".
O equívoco maior é a utilização da etiqueta de um partido (PSD) que só tem a ver com a situação na medida em que aproveita sofregamente as vitórias de Jardim, para compensar a sua cada vez maior irrelevância nacional. A todos convém, no entanto, manter a ficção de que as capelas de poder na Madeira podem identificar-se com as de Lisboa, na esperança (agora desfeita) de virem um dia a sentar-se à mesa com acesso ao bolo.
Nos próximos episódios, o mais provável é que Jardim, governando com as novas regras do jogo, venha a mostrar, na prática, que as alterações à lei das finanças regionais são razoáveis.
O equívoco maior é a utilização da etiqueta de um partido (PSD) que só tem a ver com a situação na medida em que aproveita sofregamente as vitórias de Jardim, para compensar a sua cada vez maior irrelevância nacional. A todos convém, no entanto, manter a ficção de que as capelas de poder na Madeira podem identificar-se com as de Lisboa, na esperança (agora desfeita) de virem um dia a sentar-se à mesa com acesso ao bolo.
Nos próximos episódios, o mais provável é que Jardim, governando com as novas regras do jogo, venha a mostrar, na prática, que as alterações à lei das finanças regionais são razoáveis.
domingo, maio 6
A profecia fácil
Em várias cidades de França começaram os protestos pelo resultado das eleições. Ségolène, clarividente, tinha avisado. Os franceses não lhe deram ouvidos, mas há quem se encarregue de não a desiludir.
O dirigente de AC le Feu, Mohamed Mechmache, em Clichy-sous-Bois, já comentou: A França não compreendeu a mensagem do que aconteceu em outubro e novembro de 2005.
A dúvida do momento passa a ser agora: qual será o número de carros queimados?
Actualização às 8:50 de 2ª feira: o número é maior que 350 (já que coloquei a pergunta) mas no contexto francês talvez nem seja muito significativo...
O dirigente de AC le Feu, Mohamed Mechmache, em Clichy-sous-Bois, já comentou: A França não compreendeu a mensagem do que aconteceu em outubro e novembro de 2005.
A dúvida do momento passa a ser agora: qual será o número de carros queimados?
Actualização às 8:50 de 2ª feira: o número é maior que 350 (já que coloquei a pergunta) mas no contexto francês talvez nem seja muito significativo...
quinta-feira, maio 3
A escola inclusiva
Ontem de manhã a Senhora Ana Benavente foi entrevistada no Rádio Clube Português. Sobre o estafado assunto dos males da educação disse coisas ainda mais estafadas, mas curiosas, porque normalmente ninguém se dá ao trabalho de reflectir muito sobre as fantasias que passam por erudição pedagógica. Disse a senhora que esta escola velha continua a insistir num erro: agrupar os alunos por faixa etária, como se todos tivessem as mesmas possibilidades de aprender o mesmo ao mesmo tempo, apesar de sabermos que os alunos têm não só diferentes capacidades mas também diferentes pré-disposições relacionadas com o meio familiar de proveniência.
Muito bem. A senhora não disse, mas presume-se então que, no seu entender, não sendo por idades, as escolas deveriam agrupar os alunos por etiquetas como: pobrezinhos e burros ou ricos e dotados. Uma maneira, como outra qualquer, de manter a reserva ecológica dos pobrezinhos que tanta falta fazem para elaborar teorias educacionais e programas políticos.
Muito bem. A senhora não disse, mas presume-se então que, no seu entender, não sendo por idades, as escolas deveriam agrupar os alunos por etiquetas como: pobrezinhos e burros ou ricos e dotados. Uma maneira, como outra qualquer, de manter a reserva ecológica dos pobrezinhos que tanta falta fazem para elaborar teorias educacionais e programas políticos.
segunda-feira, abril 30
O clima aquece e a discussão também
Vale a pena ler o texto de Lubos Motl a propósito do relatório do IPCC, acabado de publicar. Vale a pena também seguir a discussão nas caixas de comentários.
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