segunda-feira, abril 30

O clima aquece e a discussão também

Vale a pena ler o texto de Lubos Motl a propósito do relatório do IPCC, acabado de publicar. Vale a pena também seguir a discussão nas caixas de comentários.

domingo, abril 29

Telemóveis ilibados

Dados novos sobre o misterioso desaparecimento das abelhas vêm inocentar os telemóveis, apontados em notícias recentes como causadores da desorientação destes insectos por causa das radiações que emitem. Parece que o verdadeiro culpado tem um nome mais difícil de dizer: trata-se do parasita "nosema ceranae", que tem origem na Ásia e ataca o sistema digestivo das abelhas, enfraquecendo-as a ponto de as impedir de regressar à colmeia. São investigadores espanhóis que o afirmam, e acrescentam que as altas temperaturas dos últimos anos constituem outro factor adverso. Seja como for, o assunto é sério, dado o papel das abelhas na polinização.

Percentagens

De acordo com sondagem CSA-Cisco, dos muçulmanos que votaram na primeira volta das presidenciais em França 64% escolheram Royal. Bayrou foi a opção de 19%, e Sarkozy vem no fim com 1%.

sexta-feira, abril 27

A ex-doutora


Marilee Jones era a personagem chave do gabinete de apoio aos novos alunos no MIT. Reputada e premiada, tinha no seu currículo um PhD não especificado e "masters" em biologia e química. Assim passou 28 anos a apontar aos alunos o caminho para a universidade sem stress. Parece agora que não tinha nenhum dos graus que se atribuía e a demissão foi inevitável.

No seu livro de recomendações aos estudantes, Less stress, more success, aconselhava-os a nunca se fazerem passar por aquilo que não eram.

Eu acho que uma pessoa que consegue uma posição como a de Marilee ao longo de 28 anos, sem que ninguém note a ausência dos graus académicos, demonstra uma competência profissional para a qual devia estar prevista uma equivalência ao doutoramento. Mas talvez esteja a deixar-me levar por histórias cá da terra. Não consta que lá por Massachussets alguém tenha vindo a apontar Marilee como exemplo a seguir.

Para o bloco de notas de Jorge Sampaio

Com muitas fanfarras e dois dias de música, Aunty Muiduguri, nigeriana de 45 anos, casou com quatro raparigas no domingo passado, no estado de Kano. As autoridades, alertadas, arrasaram o edifício onde a cerimónia se realizou e procuram as cinco mulheres, que se encontram em fuga. É melhor para elas que consigam fugir mesmo. A polícia está determinada em encontrá-las para que lhes seja aplicado o castigo à medida da afronta à civilização e à cultura: chicotadas ou apedrejamento.

quarta-feira, abril 25

Em torno de uma anã vermelha



Está desde ontem nas notícias de todas as agências: foi descoberto por uma equipa de astrónomos franceses e suiços (que inclui Xavier Bonfils, da Universidade de Lisboa) um planeta com algumas características que o aproximam do nosso. Gravita em torno da estrela Gliese 581, tem dimensões e massa pouco maiores que as da Terra e à sua superfície teríamos a sensação de pesar o dobro. Fica só a 20 anos-luz.

terça-feira, abril 24

A justiça divina

Finalmente tivemos direito a declarações bombásticas. Alberto João Jardim, homem incapaz de não ceder a um impulso, não consegue calar: foi-lhe revelado que o nosso PM está a sofrer as consequências da Justiça de Deus. Ora, ao alardear o facto do modo como o fez, acaba por interferir com a justiça divina e retirar-lhe força. Um minuto de reflexão aconselharia, caso AJJ quisesse colocar-se realmente do lado de Deus, a gritar em público a sua solidariedade com Sócrates neste transe difícil mas passageiro. Mais ao menos ao estilo do que fez o major Valentim. Ou então adoptava a atitude séria e cínica de Portas, que passou a utilizar a expressão Engenheiro Sócrates três vezes por minuto.

segunda-feira, abril 23

Dia do livro



-A senhora Mita disse-me que quando fores mais crescida vai ensinar-te o trabalho de enfermeira para poderes entrar para o hospital.

-Não quero, são umas desgraçadas.

-Pior é a Felisa.

-As enfermeiras andam sempre com as batas gastas e rotas.

-Mas é melhor do que ser criada.

-De que escapou o senhor?

-De ser morto por um marido cornudo.

-Mas o senhor nunca sai se não for com a senhora.

-Mas quando era solteiro salvou-se de ser esfaqueado mais de uma vez. Vai para enfermeira, Amparo.

-Sei de uma enfermeira que pariu solteira.

-A tua irmã também pariu solteira, quem julgas que és?

(......)

-Amparo, tens que levar esta carta ao correio. Penteia bem o meu negrinho, daqui a bocado vamos levá-lo a ver a mãe.

-Levo-o comigo ao correio, senhor.

-Amparo, lembra-te que juraste que não dirias a ninguém.

- Eu não disse a ninguém. Deus me mate aqui já.

-Nunca digas a Mita que temos um segredo.

-Não, senhor. Mas a senhora perguntou-me porque é que eu tinha o braço negro.

-Negro de quê?

-De quando o senhor viu que eu o vi atrás da porta , à escuta da conversa delas.

-Que braço negro?

-O senhor sem se dar conta apertou-me com muita força até que lhe jurei que não ia dizer nada à senhora Mita.

Manuel Puig, La traición de Rita Hayworth, edição definitiva 1976. Quadro de António Berni.

O mau véu



Desde a semana passada, a polícia iraniana está empenhada em fazer cumprir os novos regulamentos sobre indumentária feminina. Combate-se o "mau véu", que deixa à mostra madeixas de cabelo não inocentes, e a crecente ocidentalização do vestuário. A intenção não podia ser melhor: as autoridades afirmam que estas mulheres desleixadas correm um risco muito maior de ser agredidas.

(Foto Fars News)

domingo, abril 15

O espírito de Abril

Em artigo no PÚBLICO de hoje, Elísio Estanque (do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra) lamenta o individualismo, a dependência das hierarquias, o discurso tecnocrático, a aversão ao sindicalismo que caracterizam actualmente as relações laborais. Como fonte do descalabro, aponta forças difusas a que chama "vozes do dono" e identifica com "detentores do poder" infiltrados no mundo empresarial. Como hipotética salvação, refere essa entidade metafísica chamada "espírito de Abril" ao qual, parece, estão associadas "promessas" esquecidas. E depois? Depois, o artigo resume-se a isto.

Julgava que a Sociologia dava chaves para compreender o mundo mesmo quando ele não está de acordo com os desejos do observador.

Aniversário: Leonhard Euler


Faz hoje 300 anos que nasceu este matemático excepcional, também um dos mais produtivos de todos os tempos. No site da Mathematical Association of America há uma interessante série de artigos de Ed Sandifer, que abrange desde os "greatest hits" de Euler até especulações sobre o interesse do grande matemático pela teoria da terra oca...

Incertezas

Pouco se comenta, entre os dirigentes europeus, o ressurgimento de actos terroristas espectaculares em Marrocos e na Argélia, e o anúncio simultâneo de ameaças da Al-Qaeda à Europa. Entre nós, não se comenta absolutamente nada. E os objectivos confessados do grupo terrorista são claros: França e Espanha estão na mira. A reconquista de Al-Andaluz define a fasquia.

Como Al-Andaluz é já ali ao lado, e Espanha é um termo que para o efeito em causa pode muito bem englobar território português, e também por sabermos que quem ameaça não brinca em serviço, é de esperar que o que parece distracção seja apenas aparente e as forças de segurança europeias (incluindo as nossas) estejam tomar providências. A reconquista propriamente dita não será fácil, mas a capacidade de provocar umas centenas de estropiados ou uns milhares que queimados vivos é coisa de que a Al-Qaeda já deu provas que bastem. Entretanto, a bomba relógio dos diferenciais de taxa de natalidade vai fazendo o seu trabalho.

O assunto não agradará a muita gente. Fica a claro que as políticas conciliadoras de Zapatero e dos políticos franceses relativamente às populações islâmicas nos seus países, e a sua hostilização dos Estados Unidos, de nada valem face aos objectivos do terrorismo islâmico global.

Em França, os candidatos à presidência disputam entre si ora o apoio dos imigrantes, ora o receio que eles infundem, de uma maneira nem sempre coerente. O apoio de certos círculos islâmicos a Le Pen não deixa de surpreender.

Não há dúvida de que a realidade é muito mais complexa do que os esquemas a preto-e-branco com que tentamos interpretá-la. Para o cidadão comum, que não está na posse senão de uma quantidade limitada de informação, é difícil avaliar opções. O problema é que aqueles que se candiadatam a representar-nos e a governar-nos aparentam também, por vezes, não estarem na posse de uma "ideia", ou não saberem muito mais do que nós. Quando é prioritário gerir mandatos de quatro ou cinco anos, pensar a sério no futuro da Europa pode ficar para depois.

16:9


Vamos lá abordar temas profundos e importantes. Intriga-me um subproduto do materialismo vigente, que consiste na utilização de um objecto pelo gozo único da sua ostentação, distorcendo a função para que ele está concebido. Poderia dar muitos exemplos, mas há um que, literalmente, entra pelos olhos dentro. Desde que apareceram os televisores panorâmicos, não há quem não goste de ter o seu. Eles estão nos hipermercados, nos consultórios, nos cafés, nas casas. Como as emissões no formato panorâmico não são frequentes, só tenho memória de ver, nesses ecrans alongados, cenas com personagens artificialmente atarracadas por uma compressão vertical. Ninguém parece incomodar-se com isso, embora a restauração do formato correcto esteja à distância de uma tecla. O que é preciso é encher o olho (neste caso, o ecran).

sexta-feira, abril 6

Giovanni Bellini

Dúvidas

Esta manhã ouvi no RCP uma conversa bem disposta com uma psicóloga (Ana Oliveira). A certa altura, a conversadora sustentou que as mulheres são, em geral, mais fiéis do que os homens nas suas relações amorosas.

Em apoio da tese, referiu que os casais de lésbicas são os mais estáveis. Mas fiquei intrigado quando a senhora referiu que isso tinha a ver com o facto de num casal de lésbicas o sexo estar ausente.

Por outro lado, se os homens são mais infiéis, cada um dos ditos estará a ter encontros furtivos com... mulheres, não? Deve haver então uma "pool" de mulheres descomprometidas, para quem esses encontros não representam infidelidade. Ou então... bem, vou pensar.

quinta-feira, abril 5

Convite a Sampaio

Zapatero convidou Jorge Sampaio a presidir à Aliança de Civilizações, depois de uma recusa de Kofi Annan. Sampaio ainda não aceitou.

A terrível páscoa do Primeiro Ministro

A demora de Sócrates em responder às dúvidas que se têm levantado em jornais, rádio e tv torna as futuras explicações mais difíceis. Em cada dia que passa, surge uma nova questão. Adivinha-se uma páscoa angustiante para o governo, ocupado em preparar o contra-ataque.

Aproveitar a crise da UnI é uma tentação, mas também um pau de dois bicos. Por outro lado, as declarações de Augusto Santos Silva, tentando reduzir o caso a mera conspiração política, não são muito mais que uma fuga às dificuldades reais de enfrentar o problema. Diz Santos Silva que mesmo assim o PS voltará a ganhar eleições: que grande admiração, dada a qualidade das alternativas.

Percebe-se também que mesmo do lado dos sectores de esquerda e do próprio PS despertem desejos de ajustes de contas. A satisfação e labor com que Mário Crespo, no jornal das 21 da SIC Notícias, se dedicou a sublinhar os pontos fracos do caso da obtenção da licenciatura, tendo-se mesmo falado (pela primeira vez, parece-me) da hipótese de demissão do Primeiro Ministro, é sintoma de que a balança pesa perigosamente para o lado dos opositores de Sócrates.

Prendas

Nos dois últimos dias, em dois países cujos dirigentes exibem mútua simpatia, foram distribuídas prendas.

Na Venezuela, os captores de um empresário português devolveram-no à liberdade, ganhando com isso mais de 200 000 euros. (Há outros portugueses raptados que ainda não foram contemplados.)

No Irão, os captores de 15 marinheiros britânicos, por sinal as próprias autoridades do país, decidiram devolver-lhes a liberdade quando, sublinham, poderiam tê-los submetido a julgamento. O acontecimento pode ter resultado de uma disputa interna entre governantes, mas o Presidente do Irão não deixou de aproveitar para se afirmar e confirmar como encenador de talento. Com garantia de transmissão em todos os canais, a mini-novela mostra que a produção de reality-shows é encarada com muito profissionalismo em Teerão. Não só pelo aproveitamento das reviravoltas no argumento, algumas provavelmente motivadas por cedência ao gosto do público ou pela inevitabilidade das coisas, mas também pela atenção ao guarda-roupa (promoção do iraniano-chic) e à qualidade dos diálogos. As falas de Ahmadinejad e as réplicas dos cativos foram de uma qualidade cénica exemplar e, sobretudo no caso do Presidente, impregnadas de um humor fino que goza da ambiguidade de muitos espectadores não estarem alerta para o tomarem como tal. De qualquer modo, os bons da fita ficaram muito bem identificados, e, ao libertar os 15 para o mundo (como numa expulsão da Casa do Big Brother), a estória vai ter ainda mais publicidade garantida. O público-alvo somos nós.

quarta-feira, abril 4

A conversão

Há muitos anos, quando eu andava na primária, a Dona Paulina, minha professora (por acaso competente em gramática e aritmética) pedia-nos todos os dias que rezássemos pela conversão da Rússia. A Rússia já está convertida, embora não exactamente ao que a minha professora desejaria, mas as conversões não ficam por aqui e escapam pela tangente para zonas que antes seriam insuspeitas.

É verdade: há notícias de que Gaspar Llamazares, o dirigente da Izquierda Unida, nosso vizinho aqui ao lado, atravessa uma encruzilhada espiritual e pode ser anunciada a curto prazo a sua conversão ao Islão. Llamazares ainda recentemente apoiou a reivindicação dos muçulmanos de Andaluzia para que a catedral de Córdova (ex-mesquita, e antes disso ex-templo cristão) fosse aberta ao culto islâmico.

Cerca de 70% dos espanhóis convertidos ao Islão nos últimos quinze anos são ex-militantes de grupos radicais de esquerda, segundo a fonte desta notícia do Alerta Digital.

domingo, abril 1

O camião




Estudantes manifestaram-se em Teerão em frente da embaixada britânica. O governo iraniano é exímio nestas encenações que lhe ficam muito baratas. A difusão quase obediente está garantida, até (sobretudo?) pelas televisões ocidentais. Na reportagem transmitida hoje pela BBC era bem visível este camião com pedras posto à disposição dos alegres e ruidosos jovens. E eu a julgar que eles se tinham dado ao trabalho de levar a sua pedrinha ou de arrancar alguma do chão.

As televisões não se ocupam destes pormenores. As opiniões públicas europeias entusiasmam-se mais com os seus fantasmas fascistas passados ou presentes. O Irão sabe que pode descansar.

(Foto Fars News Agency. Via Gateway Pundit.)

terça-feira, março 27

Na televisão

Ontem e hoje cruzei-me com várias pessoas consternadas pela vitória de Salazar num concurso de televisão que aí houve. Não tenho registo da mesma apreensão a respeito de Cunhal. Claro que Salazar teve a oportunidade e todo o tempo para fazer mal ao país e Cunhal não, felizmente. Além disso, por muito que nos custe, Salazar foi eleito por demérito próprio, ao passo que Cunhal deve o seu 2º lugar, em parte, a Salazar. Mas, que diabo, foi só um tele-concurso! Os que quiseram exteriorizar um estado de birra fizeram-no com êxito.

Tanto quanto sei, os consternados não votaram. Como lhes compete (e a mim, já agora), não se metem onde não se sentem chamados. Não vêm concursos ou telenovelas na tv; essas coisas têm o seu público e os planos não se misturam. Por isso não compreendo aqueles estados de alma. Faz tanto sentido esse desgosto como lamentar que haja poucos leitores para Proust e muitos para Paulo Coelho.

O grande perdedor é o major Valentim Loureiro. Agora ninguém irá dar crédito ao seu julgamento na televisão.

Publicidade para discalcúlicos

Anda por aí o anúncio de um banco onde devem ter colocado as frases ao contrário. Onde se lê o que se lê, parece-me que deveria estar:

Faça o seu depósito a prazo de 7500 Euros a um ano remunerado com um magnífico GPS!
E ganhe ainda uma taxa de 2% (TANB)!


Esta liberdade publicitária só é possível num país pouco dado à matemática, onde, em certos hipermercados, uma embalagem da bebida X pode custar 1,37 Eur e uma embalagem com um conjunto de três 4,31 Eur.

segunda-feira, março 26

RTP escreve epílogo do livro de José Gil

José Gil, no seu lúcido "Portugal: Medo de Existir", demonstrara como em Portugal nada se inscreve - pois até os assassinos são condecorados e elogiados publicamente e os corruptos admirados e tornados modelares -, o que se expressa na intriga permanente, no desprezo do sucesso de outrem, no nosso medo de nos exprimirmos e na ânsia de obedecer a alguém superior, que se digna a cuidar de nós. É assim com toda a naturalidade que Salazar e Cunhal, dois inimigos da liberdade, foram eleitos "os maiores portugueses de sempre".

Socorro, vem aí o fascismo

O PÚBLICO tem hoje uma notícia de duas páginas onde dá conta da presença de uma lista de extrema direita nas eleições para a associação de estudantes de Letras, em Lisboa. A outra lista é da Juventude Comunista Portuguesa.

Lá aparece a preocupação do presidente do conselho directivo da faculdade e até a do reitor, apesar de tudo "confiante no espírito democrático dos estudantes".

Lemos e compreendemos a mensagem porque já automatizámos a deturpação dos sentidos das palavras.

quinta-feira, março 22

Doutores e engenheiros

O caso Sócrates, que o PÚBLICO agora desenterrou da blogosfera onde já era conhecido seguramente há mais de um ano, pode ter implicações morais de relevo, mas talvez aparente mais importância graças a um vício português que os nossos media, naturalmente, assumem em conjunto. Raramente se nomeia uma figura da política nacional sem lhe antepor um título académico. Ele é o dr. Marques Mendes, era o eng. Guterres, é o dr. (ou prof.) Cavaco, o dr. Santana Lopes... tanta reverência deslocada do contexto! Na verdade os jornalistas mais não fazem do que seguir o procedimento normal entre nós. Em Portugal, até numa simples reunião de condóminos há diferenças de tratamento: dum lado o Sr. João, a D. Adelaide, do outro o Eng. Ricardo ou a Dra. Fátima. Médicos, engenheiros e até tristes advogados e professores toleram o epíteto com gosto ou indiferença e não poem os interlocutores na ordem. O grau académico não tem que ser sistematicamente chamado à conversa, e tanto menos nas circunstâncias em que as pessoas não estão a exercer a correspondente função profissional. Noutros países da Europa ou nos Estados Unidos, os presidentes e ministros são tratados por Sr. ou Sra. Fulano de Tal. Entre nós, "Sr." tem conotação quase depreciativa: é o que reservamos para o pintor de paredes ou o mecânico da oficina auto onde mudamos o óleo. Para gente, enfim, que pode desempenhar uma função com competência sem estar agarrado a um canudo obtido talvez com muitos 10 e 11's à força de repetir exames.

José Sócrates, que, por sinal, até nos troca as voltas no modo como se dá a conhecer pelo nome (ocultando o apelido), o primeiro ministro tão hábil a controlar tudo, perdeu uma boa oportunidade de impôr que fosse referido simplesmente como Sr. José... Sócrates, vá lá. Teria dado um exemplo que o poria agora numa posição mais confortável. Com o adjectivo(?) Engº colado ao nome, o caso será mais difícil de esquecer.

Reitor caído em desgraça

Alain Morvan, reitor de Lyon, é forçado a demitir-se por se opor à criação de um liceu islâmico na periferia da cidade. Morvan afirma bater-se contra o integrismo e pelos interesses das crianças.

terça-feira, março 20

Um mestrado de morte

Não gostar de Física, Matemática, Medicina, Direito, Informática ou Geografia não é motivo para não seguir carreira académica. Atenta à procura que ao que parece se regista no sentido de transformar os funerais em celebrações da vida, a Universidade de Bath criou o seu mestrado em morte. A coisa é séria, tem ligações à actividade empresarial (via Associação de Agências Funerárias) e tem a dignidade universitária do costume, com revistas especializadas e tudo, como esta ou esta.
No site próprio, avisam-se os interessados de que não se trata de enfrentar o problema da mortalidade e recomenda-se cautela a quem sofreu uma perda dolorosa.

É evidente que se trata aqui de um afunilamento de áreas vindas da sociologia ou das chamadas ciências de educação e nada disto é muito novo (ver, por exemplo, esta lista de teses universitárias no Québec).

Imagino que a pequena festinha após a discussão da tese tenha lugar numa câmara mortuária.

segunda-feira, março 19

Súplicas atendidas


"Stop global warming." Seja a quem for que o pedido foi dirigido, a resposta foi rápida. Foto publicada, e depois retirada, em boston.com. Via Tim Blair.

Alcobendas, Madrid


Duas mulheres (talvez) passeiam num centro comercial. No El Mundo.

A equação da felicidade

Num filme italiano a preto e branco que vi há muitos anos, quando o galã tranquilizava a heroína dizendo-lhe ti amo, ela perguntava, ansiosa: ma quanto? quanto?

Neste curioso artigo de D. G. Blanchflower e A. J. Oswald, publicado em 2004, os autores propõem uma equação para a felicidade:

r = h(u(y, s, z, t)) + e

onde r é um grau de satisfação declarado; u é a o bem estar do indivíduo; h é uma função não diferenciável que relaciona o bem estar real com o declarado; y representa o rendimento; s é a actividade sexual; z é um conjunto de características demográficas e pessoais; t é o tempo; e é um termo de erro.

O estudo, que envolveu vários milhares de cidadãos americanos, contém informações e conclusões interessantes, embora não demasiado surpreendentes. Eis algumas:

- Entre os adultos de mais de 40 anos, as mulheres têm sexo em média 1 vez por mês, mas os homens têm 2 ou 3.

- A felicidade depende fortemente do grau de satisfação sexual, e em sensivelmente menor escala do rendimento. O dinheiro poderá comprar felicidade, mas não amor. (Em particular, não há correlação entre o rendimento e o número de parceiros sexuais.)

- Sexo pelo menos 4 vezes por semana dá 0.12 pontos de felicidade, o que é muito na escala utilizada, representando, por exemplo, metade do efeito proporcionado pelo casamento.

- Qual o número de parceiros sexuais no ano anterior que maximiza a felicidade? A resposta é: um.

- A orientação da sexualidade de cada indivíduo não tem correlação com a felicidade.

- Os desempregados tendem a ter maior número de parceiros sexuais. Homossexuais e bissexuais masculinos têm mais parceiros sexuais do que os homens heterossexuais. A diferença não é estatisticamente significativa no caso das lésbicas.

quinta-feira, março 15

Dia do consumidor II

Vamos lá elevar o nível: do que nós precisamos, neste dia do consumidor, é de reflectir sobre uma realidade que, ao contrário do que parece, não é nada simples. Nada melhor do que um pouco de pós-estruturalismo francês, esse brilhante obscurantismo profissional, para imergirmos na fina análise do que nos surge mascarado de trivialidade.

Quer sejamos capazes ou não de provar que as possibilidades de consumo estão a ser igualizadas (diferenciais de salário reduzidos, redistribuição social, a mesma moda par todos, com os mesmos programas de TV e os mesmos destinos de férias), isto não quer dizer nada, porque pôr o problema em termos da igualização do consumo é já substituir os problemas reais e a sua análise lógica e sociológica pela procura de objectos e sinais (nível de substituição). Analisar a Abundância não significa, de todo em todo, procurar a sua verificação nas estatísticas, que só podem ser tão míticas como o mito, mas sim mudar radicalmente de ponto de vista e abordar o mito da Abundância com uma lógica diferente da que lhe é própria.
(Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo.)

O estado vela por nós

Da minha janela, vi-os chegar bem cedo frente à sede do metro. De uma carrinha sairam as calhas metálicas que os camiões seriam obrigados a pisar. Depois, uma pequena mesa de apoio, talvez para passar comodamente as multas. E a vida normal começou a deixar de o ser: um camião com terra, outro com estruturas metálicas, uma carrinha Danone, outra carrinha com fruta, mais comerciais parados e a fazerem parar o trânsito ao lado. E também, claro, um tripé para a câmara que nos contará as histórias numa televisão logo à noite.

Claro que isto não é normal. É a celebração do dia do consumidor. Assim como se se celebrasse o dia da mulher tentando atrapalhar o mais possível a vida dos homens. Para equilibrar as coisas, deve estar em projecto um dia do produtor, em que a polícia vigiará se cada um de nós se preocupa com a qualidade do que anda a consumir. Preparemo-nos para ser multados ao cair na tentação de pedir uma delícia da casa com natas fora do prazo.

Duas mulheres no aquecimento global

Liv Arnesen e Ann Bancroft, duas generosas militantes contra as altas temperaturas, deram início este mês a uma expedição ao Ártico a fim de mostrar aos jovens, aos professores, ao mundo, enfim, como o norte do planeta está a ficar quente. No seu imaginativo site estava prevista interacção com escolas para transmitir informação diária sobre o impacto das alterações climáticas no Ártico.

Infelizmente, a expedição acaba de ser suspensa. Aparentemente, as condições lá no norte não eram bem as esperadas. As senhoras chegaram a medir temperaturas entre -50º C e -75º C, e uma delas, Arnesen, sofreu uma queimadura de gelo num pé que evoluiu para uma perigosa ferida, que a não ser tratada poderia levar à necessidade de amputação. Ainda tentaram aplicar garrafas de água quente no pé afectado, mas a água congelava.

Outra senhora, Ann Atwood, que ajudou a organizar a expedição, comenta: é irónico que uma viagem destinada a chamar a atenção para o aquecimento global tenha que ser cancelada em parte devido a temperaturas extremamente baixas.

Acho o comentário pouco feliz, dadas as intenções. Deve haver por aí uns registos de temperaturas de há vinte anos atrás com valores entre -55ºC e -77ºC. Eu não tenho dúvidas de que o aquecimento global está aí, e estou a falar a sério.

domingo, março 11

Curiosidades

O governo inglês decidiu enviar uma cópia do filme de Al Gore a cada escola secundária (com clientes assim, dá gosto produzir dvds). Irá fazer o mesmo com o filme de Martin Durkin? O homem é até mais de esquerda que o outro, embora mal amado pelo lobby da militância ecológica: um marxista que acha que os países subdesenvolvidos também têm direito a poluir. De qualquer modo, o documentário de Durkin resguardou-se de usar tiradas demagógicas. Dominic Lawson escreve sobre o filme no Independent.


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Nos jornais e rádios de Espanha debatem-se hoje os números da manifestação de Madrid, ontem. Para uns 2 100 000, para outros 342 655; é desnecessário dizer quem são uns e outros. Mas era muita gente e a estrela de Zapatero ressentir-se-á, porque na verdade terá começado a declinar pelo menos desde o atentado da ETA.


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A RFI (que se escuta a certas horas em Lisboa em FM 90.4) passou esta manhã um depoimento de Eric Fassin, professor de sociologia na École Normale Supérieure, sobre a presença, no debate eleitoral em França, do tema das uniões homossexuais. Fassin, especialista de "género", dissertou sobre a construção da identidade sexual e sobre a sua teoria da democracia sexual. Disse várias coisas que não têm muito interesse porque são completamente previsiveis e não avançam nem atrasam. Perguntado sobre o papel das religiões como forças de oposição às alterações normativas que vão no sentido de maior liberdade sexual, afirmou que de facto algumas religiões têm de facto esse papel: sobretudo a religião muçulmana e por vezes também a católica. Desculpem, enganei-me. Isso diria um ignorante como eu. O que ele disse foi: sobretudo a religião católica e por vezes também a muçulmana.

Vou já à FNAC comprar uma Sociologia para Totós. A ver se começo a abrir os olhos.

quinta-feira, março 8

Mulheres


Nahid Keshavarz é uma de cerca de 50 mulheres que foram presas em Teerão no passado domingo, num protesto público. Há notícias de que terão sido libertadas ontem todas, excepto três.

Muito se falou hoje da ousadia das lutas de mulheres. A conversa incidiu quase toda sobre as lutas passadas. Mas não ouvi nas rádios ou tvs nem uma palavra sobre a submissão das mulheres nos países islâmicos ou nas comunidades islâmicas europeias. Aí é que a luta é hoje mais imperiosa e decisiva.

quarta-feira, março 7

TEIP

O Conselho Nacional da Educação apresentou mais um relatório sobre o estado da educação (ver PÚBLICO de hoje). Mais um diagnóstico, mais recomendações. Fala-se de programas extensos ou desadequados. Falar-se-á do número absurdo de disciplinas? Já se sabe tudo isto há tanto tempo. Como subproduto, os relatores descobrem que Bolonha vem trazer riscos para a qualidade do ensino superior. Em resumo, nada de novo.

Assim como não há nada de novo no âmbito dos contratos-programa do ministério com determinadas escolas para melhorar resultados nos 2º e 3º ciclos. Uma escola recebe, por exemplo, um psicólogo e dois animadores e terá direito a melhoria nos equipamentos desportivos. As escolas contempladas foram consideradas TEIP (territórios educativos de intervenção prioritária), deliciosa sigla da época em que Ana Benavente comandava as operações. No fundo, parece que o seu espírito continua ao comando. As palavras não são inocentes. Uma operação que usa esta sigla não me inspira confiança. Territórios são lugares que determinado grupo marca com seu chichi para impôr presença e domínio. Neste caso, não se percebe se é do chichi dos meninos ou do dos psicólogos e educadores que se trata. Não digo que não venha a sentir-se alguma consequência positiva da campanha etiológica em curso; o que não me parece é que o benefício seja no desempenho em português e matemática, por exemplo. Cem milhões lançados para os nossos olhos e para um território minado.

terça-feira, março 6

O grande embuste do aquecimento global

É o título de um documentário que o Canal 4 inglês apresenta no dia 8. O filme põe em causa a teoria "consensual" de que o aquecimento tem como causa a actividade humana. Participam climatologistas de centros de investigação e universidades prestigiadas.

Quarenta anos de uma obra prima

Gabriel Garcia Márquez acaba de fixar o texto de "Cem anos de solidão", agora editado em edição comemorativa, incluindo lista de vocábulos e estudos sobre a obra (entre eles um de Mário Vargas Llosa). Foi ponderado se se deveria mudar el partido de dominó para la partida de dominó e se na expressão las mandan a componer o a está a mais. A Real Academia Española participou na revisão do texto e nem todas as opiniões dos peritos foram aceites pelo autor. A língua presta-se pouco a ciência exacta. Com partido ou partida, com ou sem a, o que é importante é que com os "Cem anos" estamos menos sós.

sábado, março 3

Burka techno

http://www.youtube.com/watch?v=MOk5Ax40hcs&eurl=http%3A%2F%2Fastuteblogger%2Eblogspot%2Ecom%2F

Hoje é dia de nos deixarmos seduzir pela burka. Visto em Astute Blogger

quarta-feira, fevereiro 28

A conta da luz

O Tennessee Center for Policy Research divulgou as contas de electricidade e gás de Al Gore. Em 2006, na sua casa de Nashville, consumiu quase 221 000 kWh. A conta de gás excedeu a média de 1000 dólares mensais. No caso da electricidade, estes números representam um aumento de 10% relativamente ao consumo do mesmo cidadão no ano anterior e 20 vezes o consumo do americano médio.

Gore responde aqui à divulgação destes dados e segue-se uma animada troca de comentários.

Não sei se se trata de uma campanha de extrema direita para prejudicar Gore. Mas acho natural que qualquer pessoa que gaste cerca de 30 000 dólares anuais em energia se esforce por levar os outros a não gastar muito, e por promover vendas de dvds para pagar a conta.

terça-feira, fevereiro 27

Ouro e diamantes

Uma parte importante das energias da justiça em Portugal consome recursos à volta do insípido mexerico em torno de quem terá feito batota ao jogo, corrompendo árbitros e oferecendo uns presentes tristes onde se incluem prostitutas. Isto é incompreensível: qual é o prejuízo causado que justifica tanto empenho? As expectativas goradas dos adeptos? Como se o que interessasse à maioria deles fosse mais do que a vitória a qualquer preço e a descarga catártica que ela proporciona? Ainda por cima, tudo isto tem pernas para andar apenas porque certa ex-namorada subscreveu um livro de denúncias sem o qual ninguém teria competência para chegar a lado nenhum.

Muito mais interessante do que a coscuvilhice futebolística é o caso da "Universidade" Independente, onde parece caber tudo desde não se saber quem são os donos até um caso de relações escuras com diamantes e Angola, passando pela acção protectora de uma magistrada. Isto é o que os noticiários divulgaram hoje. Para encontrar algo de uma grandeza (ou gravidade) equiparável no mundo da bola teríamos que recuar até aos dez estádios do 2004, pelo menos sete dos quais construídos para as moscas. Mas nesse caso as p... são certamente mais finas.

O caso da Independente lá tem incubado em segredo, até que uma zanga com implicações que dão nas vistas obrigou as partes em conflito a pôr a boca nos trombones. Os Ministérios do ensino superior nunca deram por nada em anos sucessivos. Agora, com o caso nos noticiários de tv, parece que o actual ministro está preocupado. No mundo da justiça não se sabia de nada, parece. Se não há por aí outra amante traída e com veia literária, o alcance dos apitos esgota-se no ouro, não chega aos diamantes.

segunda-feira, fevereiro 26

O cinema, o novo farol do conhecimento

O filão do desastre climático já conduziu ao óscar: assunto encerrado. Mas a indústria das verdades convenientes veio para ficar. James Cameron (do "Titanic") dá hoje em Nova York uma conferência de imprensa sobre o assunto da sua nova produção. O cineasta afirma que a sua equipa terá descoberto a sepultura de Jesus Cristo. Tem provas até baseadas em DNA! Um dos subprodutos da descoberta é que a crucificação não existiu. Claro que pode haver algumas objeccçõezinhas aborrecidas, mas não incomodarão muito. E nada disto envolve riscos físicos, pois não é natural que algum cristão fanático condene à morte o produtor. Por outro lado, a teoria dá jeito: recupera e ultrapassa o caminho aberto pelo "Código" e aproveita a disponibilidade do público por ele criado; e pode acabar de vez com a guerra dos crucifixos. Ainda por cima, acaba por sustentar o ponto de vista do Islão segundo o qual Jesus, um profeta como os outros, não foi crucificado. Por acaso acho que isto é só coincidência, mas o que é certo é que, deste modo, o sucesso do filme ameaça meter no bolso o do ex-vice presidente convertido à climatologia.

Até agora, julgávamos que era a ciência que nos desvendava os segredos do mundo. Habituemo-nos: esse papel passou para as objectivas de Hollywood. É mais rápido e chega logo ás multidões, sem passar pelo enfadonho processo de revisão pelos pares.

terça-feira, fevereiro 20

Os direitos dos animais vistos à esquerda

O referendo ao estatuto de Andaluzia não excitou particularmente os andaluzes. Começa a ser normal a separação entre dois mundos com interesses disjuntos: o da gente "normal" e o dos profissionais da política. Apesar disso, estes lá vão levando a água ao seu moinho, talvez demorando mais, talvez deixando alguma pelo caminho.

No admirável mundo novo de Espanha já se anuncia outra grande causa: a dos direitos dos animais. Os touros de morte estão, agora sim, ameaçados de morte. É a ministra do ambiente,Cristina Narbona, que dá o tiro de partida, anunciando, para já, resultados de sondagens que revelam o fraco apoio dos espanhois à morte do touro na arena. Bem, apesar de tudo esse apoio parece subir aos 40% na Andaluzia. Ora aí está um tema que talvez desperte do seu torpor e indiferença as populações ingratas face ao labor dos governantes.

Não tenho simpatias pela tourada e não me comove o facto de os Picassos e Hemingways terem sido grandes aficcionados. Também me deixa indiferente a campanha que se antevê contra a matança do touro. Tenho só uma pequena curiosidade: irá a ministra contrariar a comercialização de carne halal, que já se realiza em gande escala no país? Ou o sofrimento infligido a animais será tolerável desde que feito em nome de uma determinada religião cujos seguidores nunca podem ser contrariados?

domingo, fevereiro 18

quinta-feira, fevereiro 15

O tempo visto de Gaza

O ressentimento e o desejo de vingança está em alta pelos lados da Fatah. Vingança contra o Hamas, claro. Num tiroteio entre as duas facções, há poucos dias, morreu o sobrinho de 16 anos do chefe local do Fatah, Khamis Bakr.
Há muita desconfiança, diz Bakr. Se o acordo (de Meca) durar seis meses já é um bom acordo.

Tem razão. Com base nos factos recentes, seis meses para esse efeito, em Gaza, é a eternidade.

terça-feira, fevereiro 13

Variações rápidas

A velocidade de fusão do gelo da Gronelândia está a diminuir. Depois de ter duplicado ao longo de 2004, decresceu agora para níveis próximos dos anteriores àquela subida. De resto, nos anos 30 do século passado a Gronelândia era tão ou mais quente que agora, e os glaciares eram menores. Quem o diz é Ian Howat, co-autor de um artigo acabado de sair na Science, cujos resultados sugerem moderação nas previsões catastrofistas recentemente muito divulgadas.

Deve ter-se especial cuidado no modo como estas e outras perdas de massa são avaliadas, especialmente ao fazer extrapolações para o futuro, porque picos de curto prazo podem sugerir tendências de longo prazo incorrectas.

segunda-feira, fevereiro 12

Declarações inconvenientes

O aquecimento global é um falso mito e as pessoas sérias e cientistas confirmam-no. O IPPC não é uma instituição científica: é um órgão político, uma espécie de ONG com sabor a verde Não é um forum de cientistas neutros nem um grupo equilibrado de cientistas. Essas pessoas são cientistas politizados que têm uma posição unilateral e uma encomenda unilateral. (...) Se a Comissão Europeia vai a correr a comprar esse embuste, temos outra boa razão para para crer que os próprios países, e não a Comissão, é que devem tomar decisões sobre tais matérias.

O ambientalismo como ideologia metafísica e como visão do mundo não tem nada a ver com as ciências da natureza nem com o clima. Infelizmente, nem sequer tem a ver com ciências sociais. No entanto, está na moda e isso assusta-me. (...) Como homem orientado para a ciência, sei ler relatórios científicos sobres estas questões (...) e nos artigos que li, as conclusões de que os media falam estão simplesmente ausentes. (...) por isso comecei a escrever um artigo sobre o assunto no natal. O artigo cresceu para um livro e sairá dentro de uns meses. Ambientalismo e ideologia verde é algo muito diferente de ciência do clima. Vários resultados e alertas de cientistas estão a sofrer abusos por parte desta ideologia.


Vaclav Klaus, presidente da República Checa, em entrevista ao jornal de economia Hospodárské noviny.

Corolário do Sim

Houve grande regozijo perante a evidência de muitos católicos terem votado sim. Os adeptos do ataque sistemático à Igreja Católica podem descansar um bocado. Se ela assusta alguém, é só a eles.

quinta-feira, fevereiro 8

Que descanso não ter útero

A lei em vigor, que penaliza as mulheres que abortam em determinadas condições, é o ponto alto da discriminação em função do sexo, e por isso intolerável.

Nenhuma filosofia ou contribuição da ciência nos permitirá definir de modo inequívoco, consensual, o estatuto de um feto humano. Do ponto de vista prático, há que chegar a convenções socialmente aceitáveis.

Uma vida humana é normalmente gerada a partir do encontro de um homem e uma mulher. Sucede que só ela tem um útero, só ela tem a estrutura de acolhimento à nova pessoa. Mas só ela é responsável pela gravidez? Não brinquemos. É ela quem mais sofre quando as coisas dão para o torto, isso sim. A partir do momento em que se convenciona que aborto é crime, independentemente das semanas, horas, minutos e segundos, uma lei não discriminatória obrigaria a que, após a detecção de um aborto, as polícias não se limitassem a identificar a mulher que o praticou, mas a ir também no encalço do homem envolvido e implicá-lo no mesmo delito. Na época da gloriosa igualdade de género, é admissível tipificar um crime em que o agente é, à partida, mulher?

quarta-feira, fevereiro 7

E se...

... a falsa "pandemia" da gripe das aves, que na Ásia matou escassas centenas de pessoas, fosse uma maneira de desviar a preocupação dos Europeus da "pandemia" islâmica?

... a premência de liberalizar o aborto fosse uma ardilosa manobra de diversão, enquanto se deterioram as condições de vida dos portugueses, incapazes de contornar a falta de produtividade endémica na era da globalização?

segunda-feira, fevereiro 5

A invenção de Sónia

Há menos de um ano, imprensa e televisões mostraram-nos o exemplo encorajador de Sónia Moreira: educada na obra do padre Gregório, descobriu a sua vocação para a matemática com uma explicadora (a stora dela não explicava muito bem) e foi por aí acima até à olimpíada europeia da disciplina. O desempenho valeu-lhe uma bolsa para ir estudar medicina em Oxford.

Ontem, a TVI veio revelar que toda a história é inventada. A acumulação de detalhes, misturando o verosímil com o suspeito, torna o caso notável pela simplicidade com que foi urdido e deglutido. Numa das notícias surgem mesmo declarações da psicóloga que dirige a instituição que acolhia Sónia. A TVI refere que Sónia não deve ter actuado sozinha e até pode ter havido intenções menos inofensivas do que simplesmente criar uma historieta de falsa notoriedade.

Sozinha, certamente que não. Para efeitos de divulgação, teve a "comunicação social" do seu lado. O resultado não é muito bom para estes media. Se uma Sónia de 21 anos os enrola desta maneira, o que não poderemos pensar de gente muito mais sabida e com muito mais meios à disposição, como alguns educadores, alguns artistas, algum político convertido a cineasta de terror?

domingo, fevereiro 4

Resumo da teoria de cordas

Desenho de Randall Munroe, xkcd.com. Via Physicsweb.

A competitividade

A tentativa de Sócrates de salvar as declarações de Manuel Pinho sobre os baixos salários não foi lá muito bem sucedida. No fundo tanto um como outro tinham que ocultar o verdadeiro sentido das afirmações do ministro: o país é competitivo porque fica bastante em conta comer nos restaurantes chineses e comprar nas lojas chinesas (com excepção de algum objecto que inclua fecho éclair - esses só funcionam uma vez). Era a produtividade do comércio e dos restaurantes chineses que o ministro tinha em mente.

sexta-feira, fevereiro 2

Bin Laden seguidor de Darwin?

Harun Yahya (pseudónimo do cidadão turco Adnan Oktar) é um nome provavelmente não muito reconhecível, mais por distracção nossa do que pelas iniciativas do próprio. O seu Atlas da Criação, a par de inúmeros materiais relacionados, estão disponíveis na internet há anos. Os criacionistas nos Estados Unidos bem podem invejar o impacto e influência deste rival. Harun vem-se batendo por abrir os olhos do mundo à verdade sobre a Criação e aos erros de Darwin, que afirma estarem na base do nazismo e do fascismo. O Corão é profusamente citado. Agora editou um manual muito bem impresso (770 páginas ilustradas) que acaba de enviar como oferta aos liceus e universidades em França. Esta versão é mais completa e atribui também à teoria evolucionista as raizes do terrorismo.

Os que perpetuam o terror no mundo são na realidade darwinistas. O darwinismo é a única filosofia que que valoriza, e por isso encoraja, o conflito, lê-se como legenda de uma foto que ilustra os atentados do 11 de setembro. Segundo o Figaro, o ministro da educação pediu "discretamente" aos reitores que não incluam o livro nos centros de documentação das escolas, já que o que nele se defende não corresponde ao conteúdo dos programas aprovados.

Desconhece-se quem financiou a edição e o envio do livro.

quinta-feira, fevereiro 1

Al Gore nomeado

... para o Nobel 2007 pelos seus esforços de divulgação dos efeitos das alterações climáticas.

Progresso imparável

Não é permitido bater nas mulheres em público, nem queimá-las vivas, nem lançar-lhes ácido à cara. Ah, e podem votar e conduzir automóveis. Em Hérouxville, Canadá.

quarta-feira, janeiro 31

À flor da pele

Um leitor do PÚBLICO mostrava-se ontem incomodado com uma crónica recente onde Eduardo Prado Coelho nos revelou o seu êxtase - justificado - perante esfoliantes, hidratantes e cremes para as rugas masculinas. É razão do desagrado o facto de se tratar de um desperdício da coluna de E.P.C.: um homem de esquerda, bem pensante, vem ocupar a sua crónica com cosméticos para homens! coisa que o leitor (apesar de mais novo que E.P.C.!) aprendeu ser mais adequada a mulheres ou efeminados. Naturalmente, segue-se o anátema: depois disto, o leitor considera E.P.C. incapaz de emitir qualquer juizo válido sobre a sociedade portuguesa.

Que leitor tão exigente. Pegando em três crónicas de E.P.C. ao acaso, deixando de lado a série de redacções sobre O Outro, os assuntos são variados: futebol, A. João Jardim, Ségolène. Ou seja: o âmbito da suprema coscuvilhice masculina, um bombo da festa da esquerda e um ídolo recém criado da mesma. No texto sobre a candidata à presidência, Eduardo confessava-se rendido ao talento daquela mulher que, no entender dele, estava a reinventar a esquerda! (Ela até sabia falar dos problemas comezinhos de segurança.) Comparando as várias crónicas, e com a excepção de uma tomada de posição sobre a TLEBS que eu subscreveria, julgo que E.P.C. nunca esteve tão lúcido como no elogio dos esfoliantes e hidratantes. Em matéria de temas epidérmicos, não há dúvida de que emite juizos de confiança.

segunda-feira, janeiro 29

Bento e Heba

Bento XVI, 27 de janeiro: O matrimónio é fruto do consentimento de homem e mulher. A sua indissolubilidade não provém da vontade dos contraentes: é intrínseca à natureza do forte laço estabelecido pelo Criador. A mentalidade relativística, que até pode insinuar-se na comunidade eclesiástica, deixa-se seduzir por caminhos interpretativos que implicam rotura com a tradição da Igreja. Perante Deus, o matrimónio é entre homem e mulher, indissolúvel e definitivo.

Noutras paragens, a dra. Heba Kotb fala a uma crescente audiência no canal egípcio Al Mehwar, transmitido por satélite. Tentando não contradizer o Corão, aborda com frequência as posições sexuais, o orgasmo feminino e a impotência. A homossexualidade é descrita como doença, mas para já não consta que advogue a eliminação dos doentes. Recentemente aconselhou um telespectador a não se privar de sexo durante o ramadão. Os conservadores parecem andar irritados com o programa. Heba está convencida de que o Islão compreendeu o sexo muito antes do resto do mundo.

Qualquer um destes discursos tem pontos que se prestam a ser ridicularizados: a realidade nos mundos respectivos faz de algumas destas asserções meros desejos bem (ou menos bem) intencionados. No entanto, ambos vão ao encontro de um vazio nos espaços onde surgem. Falar abertamente de sexo no mundo árabe - sobretudo sendo uma mulher a fazê-lo - pode contribuir para não deixar tudo na mesma. Falar da dimensão sagrada do casamento, mesmo com o risco de irritar os defensores de causas identitárias, pode não levar muito longe, mas é um alerta sobre os riscos que corre uma sociedade em declínio biológico.

sexta-feira, janeiro 26

Área de projecto

Já se sabia que o ensino moderno proporciona às crianças muito divertimento ao mesmo tempo que pode contribuir para lhes negar o acesso ao conhecimento. Mas, cuidado, pode também causar-lhes danos físicos. Numa escola primária do Reino Unido, uma professora fotocopiou a cara de um aluno de cinco anos. Depois de queixas da criança, o hospital informou que o menino estava a sofrer de conjuntivite por exposição a luz muito forte.

Parece que o procedimento se integrava numa actividade de projecto sobre o claro e o escuro, que tinha em particular o objectivo de dar a conhecer o funcionamento de uma fotocopiadora.

Certamente pouco apta em matéria de ciência, a professora não deve ter tido oportunidade de frequentar alguma acção de formação sobre fotocopiadoras. Nada que não se possa remediar no futuro, mas será bom não esquecer, já agora, de incluir umas ideias sobre o laser, não vá uma professora noutro dia qualquer querer desaparafusar a tampa de um leitor de cd para mostrar como funciona. De resto, com a tecnologia em avanço constante, não há limite para os perigos à espreita. Claro que era mais simples exigir conhecimentos básicos aos professores e ocupar o tempo de escola com actividades em que eles pudessem ensinar matérias que efectivamente são supostos saberem. Mas, na era do "aprender a aprender", isso é já uma miragem.

terça-feira, janeiro 23

Ocidente em extinção

A parentalidade tornou-se no Ocidente um fardo que intrépidos aventureiros teimam arreigar surdos aos reparos reprovadores dos mais sensatos. Até há algumas décadas, o investimento na prole revertia ao fim de alguns anos quando aquela adquiria, bem antes da adolescência, a capacidade de arar a terra, ordenhar as vacas ou forjar o ferro e dobrava no entardecer da vida, quando a mesma assumia naturalmente o compromisso de cuidar de seus progenitores, por amor e gratidão ou simplesmente por misericórdia cristã. Depois hordas de camponeses abandonaram os campos e trilharam o caminho da proletarização na suja periferia da cidade reluzente, que garantia trabalho em qualquer estação do ano, na canícula prolongada ou no Inverno mais adverso, mas onde lições telúricas milenares se revelaram de pouco proveito. Um sistema auto-subsistente deu lugar a um outro mais complexo inter-dependente, que compartimentou os saberes e as actividades e desnorteou a sociedade. Contrariando o mais básico instinto humano, mandaram-se os filhos às urtigas assim que a multiplicação se tornou sinónimo de divisão de rendimentos. Desapareceram das ruas os risos estridentes dos gaiatos e investiu-se no planeamento familiar, essa modernidade subvencionada pelo Estado que se resumiu a impedir a concepção e a renovação geracional, a fim de prolongar a agonia do endividamento familiar por meros bens (ou males) de consumo.

sábado, janeiro 20

Conversas com mulheres em fundo

A estupidez de algumas intervenções de bispos, padres e certos grupos de católicos-pimba no duelo pelo "não" dá fôlego a intervenções inúteis dos advogados do sim. Rui Tavares, por exemplo, no PÚBLICO de hoje, refere "ameaças sérias" e "ilegais" e "chantagem" sobre os votantes. Acreditará mesmo que a excomunhão suscita temor, aqui, hoje? Quando se trata de religião, a visão crítica "progressista", ao diabolizar tudo o que tem a ver com catolicismo, não faz mais do preparar o caminho a outras ameaças, mais próximas e sérias, em termos do espaço europeu, do que a distracção permite entender. A esquerda ocidental parece nem avaliar até que ponto já venceu ideologicamente (não por mérito próprio) a batalha contra a crença religiosa. Já não há inferno. E mesmo os "crentes" não levam a sério a maior parte dos textos bíblicos que, de resto, apenas uma ínfima minoria conhecerá.

Ontem, na SIC-Notícias, repunha-se uma intervenção de Pilar del Rio, uma presença encantadora e envolvente. Ponto forte foi a força das mulheres e a submissão a que são sujeitas a nível global. Pelo meio da entrevista, e a propósito dos livros de Saramago, referiu-se várias vezes à opressão vinda do catolicismo e, claro, a Inquisição marcou o ponto.

Num filme mais recente, Ségolène acaba de anunciar que a sua primeira lei visará defender as mulheres que sofrem maus tratos.

Não há progresso social compatível com a discriminação das mulheres. Espanha e França têm segmentos importantes de população que, com base em princípios religiosos, assumem a inferiorização das mulheres. Se não o soubéssemos já, não seria por Pilar ou Ségolène que o ouviríamos mencionar.

quarta-feira, janeiro 17

Enforcar com dignidade

Os lamentos sobre as recentes execuções de criminosos no Iraque são muito curiosos. É claro que as coisas não correram bem. Para evitar comunicação indesejada, hoje em dia nem nos exames se deixa entrar alunos com telemóveis. Houve insultos - coisa completamente supérflua quando se vai tirar a vida a alguém. Houve uma cabeça cortada - raro, mas pode acontecer, diz quem sabe. Deplorou-se a falta de "dignidade" nos procedimentos. E no entanto, esquecendo já que os condenados eram criminosos que promoviam a tortura de opositores políticos com trituradores de carne (entre outras engenhocas igualmente indignificantes), aparentemente as penas foram executadas com o cuidado de tudo se passar rapidamente. Nada parecido com o que costuma acontecer quando os carrascos não têm apuro técnico ou quando deliberadamente se pretende prolongar a agonia. Ou com outras formas de executar a pena de morte em países de cultura muçulmana. E mesmo com os processos mais sofisticados de matar há sempre a possibilidade de tudo correr mal: ainda muito recentemente, uma execução por injecção letal nos EUA alongou-se por quase meia hora. Quem estuda o assunto afirma que um nó adequado e uma queda calculada com precisão minimizam a duração do sofrimento. Está tudo tabelado. Para um condenado, dignidade é antes de tudo rapidez.

Fracos argumentos

Eu tenciono votar sim, mas faz-me pena assistir à sua defesa com estes argumentos.

O tráfico ilegal de droga também gera corrupção e (muito) dinheiro sujo. Não será então pelo menos igualmente urgente legalizar o comércio de droga?

quinta-feira, janeiro 11

Três enigmas

Ando intrigado com determinadas frases que temos lido no PÚBLICO ou ouvido na tv e na rádio, em relação com determinadas notícias dos últimos dias.

Uma tem a ver com a versão portuguesa da torre de Pisa. Pisa, aqui para nós, é Quarteira, claro. Um edifício começou a inclinar-se perigosamente: fala-se de "uma declinação de 30 centímetros em relação à vertical" (comunicado da Câmara Municipal de Loulé). Que será isto? Eu não digo que publiquem no jornal a inclinação em radianos, mas já agora, se fosse em graus poderíamos formar uma ideia melhor.

O segundo mistério relaciona-se com a frota de aviões que alguns parlamentares europeus perseguem com furor. Mais precisamente: com os alegadamente desgraçados neles transportados, os quais foram descritos como "agrilhoados" ou "acorrentados". Lembrei-me logo do Ben-Hur, do Spartacus e do Conde Monte Cristo. Ainda usam correntes? Pensava que desde meados do século 18 já não se fabricavam. O que me leva a uma pergunta conspirativa: seriam mesmo aviões? Com um atraso tecnológico destes, não admira que Ana Gomes e a Visão apanhem a CIA com a boca na botija.

Finalmente o último enigma. Valentim Loureiro acaba de desmentir categoricamente, num jornal de tv, revelações de Carolina. Afirma que nunca almoçou, lanchou ou jantou com ela e Jorge Nuno. A distracção fatal pode ser aproveitada pela procuradora: VL não negou nada que pudesse envolver o pequeno almoço.

terça-feira, janeiro 9

Choque electrónico

De acordo com o PÚBLICO de ontem, o MIC de Alegre vai tomar posição, sobre o referendo a respeito do aborto, com base na opinião dos seus membros
expressa em votação electrónica.

Cá está um toque de grande originalidade e modernidade. Para quê perder tempo com discussões e confrontos de teorias? De que vale ter princípios, se temos a aritmética?

A indignação pública tem preferências

Será retomado amanhã o julgamento de Nazanin Fatehi, de 18 anos. Foi condenada à forca por ter esfaqueado um homem de um grupo de três que tentaram violá-la e atacar também uma sobrinha em 2005. O tribunal poderá comutar ou confirmar a sentença.

Nazanin poderia, claro, não ter resistido e ter consentido a violação. Nesse caso o castigo seria reduzido a cem chicotadas. (Se fosse casada poderia ser condenada a apedrejamento.)

Há na net uma petição para salvar a vida de Nazanin.

A má sorte de Nazanin é ser uma mulher anónima e ter nascido no Irão, no nosso tempo. Se tivesse a notoriedade de um déspota com muitos milhares de vítimas no currículo, por ela se reuniriam coros de indignação de governantes e outras figuras públicas contra a pena de morte, por ela se fariam greves de fome, por ela se iluminaria o coliseu de Roma.

segunda-feira, janeiro 8

Prémio Euler

O Euler Book Prize da Mathematial Association of America foi atribuído a John Derbyshire pelo seu livro Prime Obsession. Derbyshire é também um dos principais animadores do Iconoclast (um blog muito atento às tentativas de islamização do Ocidente), que fica em link aqui ao lado.

sábado, janeiro 6

A doença infantil do concreto

Um dos sintomas do retrocesso que certo "pós-modernismo" representa é a colagem infantil ao concreto e circunstancial, desprezando a capacidade de abstracção que faz parte da nossa estrutura e natureza.

Por exemplo, no ensino pós-moderno da matemática, as recomendações pedagógicas da moda pretendem que, sistematicamente, cada novo conceito seja ancorado na experiência particular do aluno. Se isto é razoável e até necessário em muitos casos, não o é por sistema; o resultado é o empobrecimento dos conteúdos, dos quais tudo o que exija uma pitada de abstracção vai sendo relegado para um plano secundário, privando os estudantes de desenvolver a capacidade de lidar com o abstracto.

Na arte contemporânea o vício do concreto está bem à vista em obras ditas de arte conceptual, que normalmente reproduzem soundbytes de uma ideologia ou tendência política que nada de novo traz à arte em questão. O vício propagou-se nas últimas décadas ao teatro e à ópera. O mais recente e mediatizado exemplo é dado pela encenação do "Candide" por Robert Carsen, que abriu um conflito com a direcção do Scala por causa da cena espúria em que actores em cuecas ridicularizam determinados líderes políticos do momento. Defende-se Carsen dizendo que "o público do Scala é suficientemente sofisticado para compreender os objectivos de Voltaire". Que falha de raciocínio! Quanto mais sofisticado é o público, menos deverá necessitar de ilustrações rasteiras para uma mensagem dotada de uma certa universalidade.

Sexo por roupas

De acordo com este artigo do Guardian, a infecção por HIV está a preocupar as autoridades no Irão. Nas boutiques de moda feminina de Teerão, jovens prostitutas vendem o corpo para comprar roupa. Ninguém parece muito informado sobre os perigos do contágio. Em tomada de posição sobre o assunto, um grupo de 17 ayatollahs desculpabiliza o uso do preservativo mas insiste na prevenção e esclarecimento.

quinta-feira, janeiro 4

Alarme na escola inclusiva

Parece que os resultados escolares dos rapazes no Reino Unido persistem ano após ano num nível inferior ao das raparigas. Christine Gilbert, inspectora geral para as escolas, acaba de publicar as suas recomendações para lidar com o problema: os professores devem dar atenção às necessidades educativas especiais dos rapazes. É preciso que as escolas invistam em materiais didácticos específicos para cada sexo. Os rapazes devem ser encorajados a não se limitarem à literatura de ficção. A conclusão não se faz esperar: rapazes e raparigas devem estar em turmas separadas.

Um relatório encomendado pelo Muslim Council of Britain não faria melhor.

Os perigos de casar por amor

Mohammad Iqbal, paquistanês, casou com Shehnaz por amor. Mas Shehnaz pertence a uma tribo diferente, onde o casamento com gente de fora não é bem visto. Um grupo de homens armados executou a vingança: cortaram o nariz e as orelhas de Mohammad, as orelhas de um seu irmão e uma mão da mãe. A família está em tratamento num hospital. (Notícia da Reuters, transcrita aqui.)

domingo, dezembro 31

Gostava de Mateus Rosé

O seu tempo terminou ontem às 6 da manhã no Iraque. Tinha o Mateus Rosé como vinho favorito, embora nunca bebesse em público para não contrariar a imagem de bom muçulmano. Submeteu opositores, exterminou sem dó nem hesitações. Morreu a recitar versículos religiosos, mas provavelmente a maior angústia dos últimos instantes terá sido a consciência da impossibilidade de saber em que se tornarão aquilo que foi o "seu" Iraque, e os seus inimigos, daqui a cinco, dez, trinta anos.

(Via The Iconoclast.)

sábado, dezembro 30

Sob o véu

Já se chamou Elaine Atkinson. A bisavó foi sufragista e ela própria foi militante feminista. Agora chama-se Khadijah, depois de se converter ao Islão, onde encontrou as soluções para a vida. Khadijah foi escolhida pelo Channel 4 para a sua “mensagem de natal alternativa”, em que se apresentou de rosto coberto. Defendeu que o uso do véu liberta as mulheres e referiu o Minhaj-ul-Quran, grupo em que milita, como tolerante e respeitador de todos os credos. O Daily Mail quis saber mais e afirma que o Minhaj-ul-Quran é um grupo extremista com ligações ao Paquistão, onde pretende implantar um estado islâmico, e com o objectivo último de islamizar o mundo.

Khadijah vê com tristeza os “infiéis”, que compara com ratos desorientados numa gaiola. Pensa que o mundo seria muito melhor se em cada esquina um "pub" desse lugar a uma mesquita. Numa conferência islâmica, este ano, defendeu que não se deve ouvir música nem ver televisão. Provavelmente tem razão, sem o saber, no que toca ao Channel 4.

sexta-feira, dezembro 29

Engolir espadas e os seus efeitos secundários

Alguém poderia imaginar que engolir espadas e facas envolve riscos físicos e financeiros e pode ter efeitos indesejáveis? Mais incrível ainda: as piores complicações surgem quando o executante está distraído ou quando engole várias espadas, ou espadas fora do comum. Pensa o leitor que as surpresas ficam por aqui? Então prepare-se: os ferimentos associados à prática de engolir espadas ocorrem... no esófago!!! e podem causar... hemorragia gastro intestinal!!! Depois disto, acho que já nada me poderá espantar. Está tudo descrito neste artigo do British Medical Journal, acabadinho de sair. Ciência para ser apreciada por si, motivada unicamente pelo desejo do avanço do conhecimento. Ainda por cima, recheada de conclusões que contrariam o senso comum.

Ah, esquecia-me de acrescentar que se conclui também que os ferimentos causados por engolir espadas têm em regra prognósticos melhores que os induzidos por prática médica. Não admira: não se pode ser bom em tudo. Já basta a argúcia teórica de que os autores do artigo dão mostras.

(Via Pajamas Media).

terça-feira, dezembro 26

A guerra no Iraque salvou centenas de portugueses em 2006

Aliviado o preço do petróleo e atestada a carteira dos portugueses na antevéspera do Natal, rapidamente se inverteu a propalada tendência de diminuição da sinistralidade rodoviária dos últimos meses, vanglória imputada pelo governo socrático à implementação do novo código da estrada e às campanhas públicas de sensibilização. Dezoito patrícios pereceram no asfalto nos últimos cinco dias festivos -a França, seis vezes mais populosa, registou onze mortos em três dias. Se caucionar o consumo excessivo de álcool e impor realmente limites de velocidade poderia abalar a popularidade do actual governo, como se provou na vigência guterrista, a tributação abusiva crescente dos combustíveis, passando incólume ao cidadão comum, é pelo menos uma solução que engorda o Estado e limita os danos corporais fora das festas.

domingo, dezembro 24

Feliz Natal...


...aliás, feliz festa de inverno, não quero ofender ninguém... hummmm... aliás, feliz festa de verão... já agora também não quero irritar ninguém no hemisfério sul.

O beliscão e a tabuada

Um miúdo de cinco anos está acusado de assédio sexual por beliscar o rabo de uma menina lá na escola. O caso passa-se numa primária de Maryland. A directora, Darlene Teach, não teve dúvidas em confirmar a a acusação, que passará a constar do curriculum do menino.

O pai da criança diz que tem dificuldade em explicar ao filho o motivo da acusação. Eu também não percebo. Talvez esteja desactualizado quanto aos avanços da psicologia e suas aplicações ao moderno jardim de infância. Em todo o caso infiro que, se se exige discernimento para identificar um beliscão com um acto de natureza sexual aos cinco anos, com certeza o conhecimento correcto da escrita e da tabuada é exigido aos dois ou três. Não admira que aos dezoito, em muitos casos, já tudo tenha sido esquecido.

sexta-feira, dezembro 22

A escolha da Science

O avanço científico do ano, para Donald Kennedy, editor da Science: o trabalho solitário de Perelman que conduziu à demonstração da conjectura de Poincaré. Trabalho profundo, duríssimo, que foi objecto de atenção de outros matemáticos. "Um assombroso triunfo do intelecto."

quinta-feira, dezembro 21

Paz e amor

Não é descabida a relação entre a ausência de orgasmo, sobretudo feminino, e a violência. Substrato recente da sociedade ocidental, a emancipação feminina arrastou a assunção de direitos exclusivos outrora dos homens e confrontou os últimos inclusivamente com os seus vícios e defeitos. O desprendimento nas relações amorosas e a procura de sensações em detrimento das emoções é apanágio no momento dos dois sexos. Por exemplo, ao folhear hoje casualmente uma revista destinada a adolescentes, deparei com um artigo que ensinava o modo de uma rapariga namorar simultaneamente vários rapazes sem ser delatada por nenhum deles. Conselhos e dicas que se abstinham de enumerar os riscos de transmissão de infecções. Por outro lado, os casamentos de conveniência económica dão lugar aos de conveniência afectiva, sexual e amorosa. Dispara também a taxa de divórcios, mas raros são já aqueles resolvidos litigiosamente. Contrapondo, no mundo árabe, a libertação sexual é uma aspiração das mulheres, vítimas primeiras da prepotência e da impotência de homens que, receosos da vibração contagiante do clitóris, edificaram uma religião à imagem do seu pénis.

Boas novas

Subitamente, o Falta de Tempo fica a contar com um novo membro. Boas vindas ao Nino!

quarta-feira, dezembro 20

Delft

Entrei, por generosidade, no estúdio de um pintor que admiro há vários meses pelas "cores transparentes, composições inteligentes e brilhante uso da luz".

A longa marcha pela igualdade

No uso do véu, as mulheres não estão sós. Um dos homens mais procurados pela polícia britânica ilude a segurança em Heathrow, com passaporte falso e véu.

terça-feira, dezembro 19

O sindroma da árvore




Na província, no tempo da minha infância, o Pai Natal era quase um desconhecido e as árvores, ao contrário dos presépios, também não se usavam muito.

Assim como a Igreja sobrepôs o Natal às remotas motivações das festas de inverno, a evolução social e económica e, em particular, o sucesso do capitalismo, erodiu os símbolos cristãos e transformou a quadra num apogeu de negócio e consumismo. É provável que muita gente desconheça até o significado da palavra natal. Os símbolos hoje omnipresentes são quase sempre desprovidos de conteúdo religioso.

Em alguns países europeus tem havido preocupação de escolas e de comerciantes em não ferir a sensibilidade de outras religiões (dizem, pudicamente, no plural) assistindo-se, assim, ao cancelamento de autos de natal, à desaparição de tudo o que tinha a ver com o presépio nas iluminações de natal das cidades, e até à tentativa de banir o perú das refeições da época...

A indiferença das populações ocidentais à religião é um dado adquirido que não é de agora. Os cuidados com as outras religiões é que constituem uma faceta doentia e recente da nossa falta de cultura e reflexão, chegando-se ao ponto de proibir a árvore. No Reino Unido há também reservas, por outras razões, ao contacto de crianças com o Pai Natal...

Se o mal entendido sobre os símbolos alastra, preparemo-nos para a proibição do descanso ao domingo ou das compras em dezembro.

Espero que não nos integremos na Europa que aí vem. Não me agrada a ideia de comer bacalhau e azevias na clandestinidade.

domingo, dezembro 17

sexta-feira, dezembro 15

O código de Carolina

Os amantes que se consideram traídos ou maltratados podem transformar-se em inimigos temíveis. Em casos extremos, chegam a assassinar. Toda a gente sabe isto.

Carolina, que até tem familiaridade com o mundo da prestação de serviços de pancadaria, não precisa de recorrer à violência. Subscrever um livro é eficaz, elegante e dá milhões. Carolina, que nada tem a perder, sabe como é frágil a posição do seu ex-amante. Carolina sabe que ele, mergulhado no futebol e publicamente exposto, não tem credibilidade superior à sua, e que o interesse de um público ávido de escândalos e as invejas dos outros balneários farão o resto. A justiça bem tentou evitar meter-se em alhadas. Magistrados que podem ter escapado a Dan Brown sofrem agora a humilhação de não poder escapar a Carolina.

Tão inimigos que eles são

Suspeito que riscar Israel do mapa não é suficiente para resolver o conflito do Médio Oriente.

quinta-feira, dezembro 14

O inferno do ensino-aprendizagem

A educação básica, nos Estados Unidos, atravessa um momento mau, em muitos aspectos semelhante ao que se passa entre nós, com os estudantes americanos a ficarem mal classificados em competições internacionais. Num relatório publicado em Setembro passado, Arthur Levine, da Columbia University, faz um diagnóstico dos erros na formação de professores nos Estados Unidos e avança com algumas recomendações. Do lado negativo, destaca a tendência das escolas superiores de educação para aceitar alunos de nível medíocre. Inquéritos mostraram que, no fim dos seus cursos, os estudantes não se sentem prepararados para dar aulas. As avaliações realizadas durante os estudos incidem mais sobre procedimentos do que sobre questões substantivas. O relatório recomenda que os programas de estudo dos futuros professores incluam uma licenciatura na respectiva especialidade e que uma percentagem significativa de professores seja formada em universidades prestigiadas pela investigação que fazem.

Não é por acaso que podemos aqui reconhecer problemas e propostas de solução de que já ouvimos falar entre nós. Os profissionais de educação portugueses (como os de outros países europeus) acusam uma fortíssima influência das modas educativas que, a par de outras más ideias, foram acolhidas em universidades americanas (da "boa América", como se diz agora). Alguns deles receberam formação (PhD) em universidades americanas com departamentos especializados na formação de formadores de professores.

Referindo um caso que conheço: os programas de Matemática aprovados e as metodologias para esta disciplina impostas pelo ministério da educação desde 1997 acusam uma influência forte das directivas emanadas do NCTM, National Council of Teachers of Mathematics. Também a Associação de Professores de Matemática costuma apoiar sistematicamente as posições do NCTM.

Tem sido reinante, nesta e noutras disciplinas, uma filosofia vulgar, importada de centros medíocres, e em grande expansão desde o início dos anos 90. Essa filosofia vem reduzindo a prática profissional dos professores a uma sucessão de actos burocratizados, ao mesmo tempo que menoriza a substância dos conteúdos disciplinares. Expressões-chavão como ensino centrado no aluno, desenvolvimento da auto-estima e de métodos de expressão autónoma, e referência ao professor como um facilitador as aprendizagens, passaram a ser usadas abundantemente em documentos oficiais, mas muitos professores, descrentes do catecismo que quiseram impor-lhes, não conseguem ouvi-las ou utilizá-las - quando a isso são obrigados - sem um riso interior de desprezo.

Entretanto, sucedem-se mexidas nos programas e alterações metodológicas frequentemente absurdas. Inseguros cientificamente ou desinteressados das suas matérias de ensino, uma parte considerável dos professores encara sem espírito crítico as alterações curriculares mais disparatadas. A baixa do nível de formação de docentes ajusta-se perfeitamente à política de arbitrariedade centralizada.

Os modernos gurus da educação usam até à náusea a feia expressão ensino-aprendizagem. Ingenuamente, pensam que nos convencem de que não conseguem desligar o acto de ensinar do acto de aprender (como isso fosse possível), mas já quase toda a gente percebeu que estão apenas preocupados em simplificar o primeiro. O problema é que acabaram por complicá-lo ainda mais para a maioria, tornando cada alteração curricular menor num quebra-cabeças, acessível apenas depois de acções e mais acções de formação, a cargo da clique de iniciados. São estes que vão explicar tudo aos outros, como se eles fossem muito burros. A vida dos professores já é um inferno há muito tempo.

domingo, dezembro 10

O relatório e os aplausos


(http://www.townhall.com/funnies/cartoonist/GaryVarvel/2006/12/1/)

Em face do desastre em que se transformou a invasão do Iraque, não há soluções fáceis. O relatório do Grupo de Estudo sobre o Iraque diz, entre outras coisas, isso mesmo, mas ousa avançar com propostas de acção surpreendentes. Não pela novidade, mas precisamente por não serem novidade. Colocando em destaque a solução do conflito entre Israel e a Palestina, os relatores legitimam a grande causa árabe das últimas décadas, edificada em torno de um povo que aos próprios vizinhos só interessa como bandeira. O relatório não menciona que este problema tem uma solução simples e talvez nenhuma outra: a destruição de Israel. A recomendação de negociar com toda gente, desde Irão até aos terroristas "moderados", (a Al-Qaeda fica de fora, porque sim), é tudo menos original: até cá em casa temos um ex-presidente, ilustre defensor dessa linha política, e que provavelmente teria ido mais longe, não propondo aquela limitação.

Não é, pois, muito original a substância do relatório, tal como não é novo o desconforto que ele provoca. No tempo das palavras de ordem contra a guerra no Iraque já se sentiu o mesmo. Se a lista dos que o aplaudem com entusiasmo inclui personagens e centros de poder pouco recomendáveis, algo não bate certo. O problema é que a lista de potenciais subscritores do relatório é grande demais.


Notícias do dia: Para variar, alguém queima retratos que não são de Bush. Onde? Claro que isto só poderia acontecer em Teerão, onde estudantes de uma universidade fizeram frente a Ahmadinejad, boicotando-lhe um discurso. Que pensarão estes estudantes, e outros estratos do povo iraniano com ódio ao regime, das recomendações para o diálogo com os actuais dirigentes?

Também em Teerão começa hoje um simpósio "científico" de natureza negacionista sobre o Holocausto. Participam 67 intelectuais e investigadores de 30 países. Um advogado palestiniano com passaporte israelita, com intervenção prevista, acabou por ter o visto recusado.

terça-feira, dezembro 5

domingo, dezembro 3

Luzes não poluentes



Só podem ser vistas em passeio a pé.

Para acabar de vez com a TLEBS

Como o meu último post sobre a TLEBS teve um número inabitual de comentários para este blog, volto ao assunto pela última vez.

A TLEBS é o exemplo acabado de como o ministério da educação, ao pretender resolver um problema, cria um problema maior. Acontece agora no português mas já aconteceu noutras disciplinas. A actual ministra tem aqui uma oportunidade, que o destino lhe oferece de bandeja, para mostrar que tem coragem e bom senso acima da média dos dos seus antecessores e que está mesmo preocupada com o bom funcionamento do sistema: se desTLEBSar imediatamente o ensino da língua materna fará um figurão. É um detalhe, é certo, mas é importante porque descomplica muita coisa.

A própria Maria Helena Mateus meteu os pés pelas mãos esta manhã, em declarações à Antena 2, afirmando que não se pretendia que tudo aquilo fosse ensinado nas escolas, ao mesmo tempo que admitia que não havia indicações claras para os professores sobre os limites de utilização da tenebrosa lista de nomes.

Não se trata de contestar o ensino da gramática, mas sim a necessidade da copiosa lista de designações para níveis básicos de ensino. Em certa medida, a TLEBS está a ser para o Português o que as recomendações dos programas oficiais, para que se faça referência a certos temas de ponta muito em moda, já são há alguns anos para a Matemática. Tais referências não podem passar do nível de conversa de café; e, a par da ênfase doentia nas virtudes das "novas tecnologias", destinam-se objectivamente a desviar a atenção do essencial e a mascarar com roupagem de novo rico a má estruturação dos programas.

Os linguistas têm culpas da situação? Alguma terão, mas a responsabilidade é do ministério, que oficializou com total insensibilidade, sob a forma de portaria, o produto que aqueles gostosamente lhe puseram nas mãos por encomenda.

Sem surpresa, chega-se à conclusão de que muita gente, a quem se reconhece autoridade para ter uma opinião na matéria, discorda profundamente da solução. Isto mesmo aconteceu a partir de 1995 em relação aos programas de Matemática: as críticas vindas de muitos docentes universitários não demoveram o ministério um milímetro na aprovação do trabalho encomendado a uma determinada equipa. A razão, para mim, é simples: as equipas a quem as encomendas são feitas acabam por ficar, conscientemente ou não, nas mãos de certos "especialistas" de educação e certas direcções de associações de professores que comandam o processo, e cujo apoio tem peso determinante nas decisões.

No caso concreto da TLEBS, o que está em causa é o facto de a encomenda se destinar ao ensino básico e secundário. Sou a favor da TLEBS mas apenas entre adultos e com consentimento mútuo.

sábado, dezembro 2

quinta-feira, novembro 30

terça-feira, novembro 21

O terrorismo linguístico

Toda a magia fora extinta. As longas cavalgadas que ela tanto adorava fazer. Um dia tinha caído mesmo junto àquela árvore que se encontrava à sua direita. À esquerda, um lago suficientemente grande para passar os dias de Verão. Depois, ao pôr-do-Sol, avistava-se ao longe o cume das montanhas, e alguns veados que por lá andavam.

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Todos sabemos como são importantes as séries no nosso quotidiano. Alguns, pensam que estas fitas fragmentadas ao longo de um período, não são mais do que criações americanas para nos ajudarem a ‘passar o tempo’! E, eu até estou totalmente de acordo!


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Estas frases pertencem a textos colocados sob a entrada "Boas Leituras na Net" no site da Associação de Professores de Português (APP). Boas? Estranho qualificativo, para já não falar de discordância sintática e colocação errada de vírgulas.

Uma coisa estes textos permitem compreender: o desprezo da APP pelo bom gosto e pela correcção no uso língua portuguesa. Segundo o PÚBLICO de hoje, um abaixo assinado que reune as assinaturas de V. Graça Moura, E. Prado Coelho e José Saramago, e onde a TLEBS é contestada, não impressiona a APP: o seu presidente afirma estar à espera dos pontos de vista de quem dá aulas e não dos de escritores. Não precisava de explicar: já se tinha percebido há muito tempo.

sábado, novembro 18

Post light

A minha escolha entre as coisas que só acontecem no cinema:

- Um tipo vai na rua e apetece-lhe cantar e dançar. Uma orquestra invisível, mas completa e afinada, está pronta a acompanhar, e toda a gente com quem o tipo se cruza acerta com a coreografia.

-No quarto de dormir, depois de se apagar a luz, todos os objectos continuam visíveis, apenas um pouco azulados.

(via kariba).

sexta-feira, novembro 17

O pecado segundo o Corão

Uma mulher de 39 anos, viúva há seis, deu à luz uma criança em Hail, Arábia Saudita. Em consequência, foi condenada à morte por apedrejamento. A mulher não recorreu da sentença, que aceita como purificação. Os seus três outros filhos foram recolhidos num reformatório.

quinta-feira, novembro 16

Filosofia de fino recorte técnico

Reclamar a posse completa da verdade absoluta (...) é tão vão como a rejeição categórica da verdade (...)

Quem escreveu esta frase, quem? nada mais nada menos que Mohammad Khatami, ex-presidente do Irão, que acaba de participar no forum do Washington Post sobre "religião e monopólio da verdade". A escrita mostra que o autor não brinca em serviço. Pelo menos é um bom aprendiz do uso de certa linguagem bem reconhecível: militando na Aliança de Civilizações (leia-se do Islão com alguma esquerda europeia) o homem adquiriu capacidades que pedem meças a qualquer Eduardo Prado Coelho ou até Boaventura Sousa Santos. Aprecie-se só como ele sabe referir-se aos indivíduos incompletos que falsamente reclamam completude e procuram afirmar o próprio "Eu" obliterando a identidade do "Outro"!

Noutra passagem, Khatami fala de eliminar obstáculos e atingir objectivos. Nós, mal intencionados, lembramo-nos logo de Israel e de bombas atómicas.

Execução

Um homem condenado por sodomia foi enforcado anteontem à tarde em Kermanshah, no Irão. A execução foi aplaudida por algumas centenas de espectadores.