
-A senhora Mita disse-me que quando fores mais crescida vai ensinar-te o trabalho de enfermeira para poderes entrar para o hospital.
-Não quero, são umas desgraçadas.
-Pior é a Felisa.
-As enfermeiras andam sempre com as batas gastas e rotas.
-Mas é melhor do que ser criada.
-De que escapou o senhor?
-De ser morto por um marido cornudo.
-Mas o senhor nunca sai se não for com a senhora.
-Mas quando era solteiro salvou-se de ser esfaqueado mais de uma vez. Vai para enfermeira, Amparo.
-Sei de uma enfermeira que pariu solteira.
-A tua irmã também pariu solteira, quem julgas que és?
(......)
-Amparo, tens que levar esta carta ao correio. Penteia bem o meu negrinho, daqui a bocado vamos levá-lo a ver a mãe.
-Levo-o comigo ao correio, senhor.
-Amparo, lembra-te que juraste que não dirias a ninguém.
- Eu não disse a ninguém. Deus me mate aqui já.
-Nunca digas a Mita que temos um segredo.
-Não, senhor. Mas a senhora perguntou-me porque é que eu tinha o braço negro.
-Negro de quê?
-De quando o senhor viu que eu o vi atrás da porta , à escuta da conversa delas.
-Que braço negro?
-O senhor sem se dar conta apertou-me com muita força até que lhe jurei que não ia dizer nada à senhora Mita.
Manuel Puig, La traición de Rita Hayworth, edição definitiva 1976. Quadro de António Berni.