domingo, abril 15

16:9


Vamos lá abordar temas profundos e importantes. Intriga-me um subproduto do materialismo vigente, que consiste na utilização de um objecto pelo gozo único da sua ostentação, distorcendo a função para que ele está concebido. Poderia dar muitos exemplos, mas há um que, literalmente, entra pelos olhos dentro. Desde que apareceram os televisores panorâmicos, não há quem não goste de ter o seu. Eles estão nos hipermercados, nos consultórios, nos cafés, nas casas. Como as emissões no formato panorâmico não são frequentes, só tenho memória de ver, nesses ecrans alongados, cenas com personagens artificialmente atarracadas por uma compressão vertical. Ninguém parece incomodar-se com isso, embora a restauração do formato correcto esteja à distância de uma tecla. O que é preciso é encher o olho (neste caso, o ecran).

sexta-feira, abril 6

Giovanni Bellini

Dúvidas

Esta manhã ouvi no RCP uma conversa bem disposta com uma psicóloga (Ana Oliveira). A certa altura, a conversadora sustentou que as mulheres são, em geral, mais fiéis do que os homens nas suas relações amorosas.

Em apoio da tese, referiu que os casais de lésbicas são os mais estáveis. Mas fiquei intrigado quando a senhora referiu que isso tinha a ver com o facto de num casal de lésbicas o sexo estar ausente.

Por outro lado, se os homens são mais infiéis, cada um dos ditos estará a ter encontros furtivos com... mulheres, não? Deve haver então uma "pool" de mulheres descomprometidas, para quem esses encontros não representam infidelidade. Ou então... bem, vou pensar.

quinta-feira, abril 5

Convite a Sampaio

Zapatero convidou Jorge Sampaio a presidir à Aliança de Civilizações, depois de uma recusa de Kofi Annan. Sampaio ainda não aceitou.

A terrível páscoa do Primeiro Ministro

A demora de Sócrates em responder às dúvidas que se têm levantado em jornais, rádio e tv torna as futuras explicações mais difíceis. Em cada dia que passa, surge uma nova questão. Adivinha-se uma páscoa angustiante para o governo, ocupado em preparar o contra-ataque.

Aproveitar a crise da UnI é uma tentação, mas também um pau de dois bicos. Por outro lado, as declarações de Augusto Santos Silva, tentando reduzir o caso a mera conspiração política, não são muito mais que uma fuga às dificuldades reais de enfrentar o problema. Diz Santos Silva que mesmo assim o PS voltará a ganhar eleições: que grande admiração, dada a qualidade das alternativas.

Percebe-se também que mesmo do lado dos sectores de esquerda e do próprio PS despertem desejos de ajustes de contas. A satisfação e labor com que Mário Crespo, no jornal das 21 da SIC Notícias, se dedicou a sublinhar os pontos fracos do caso da obtenção da licenciatura, tendo-se mesmo falado (pela primeira vez, parece-me) da hipótese de demissão do Primeiro Ministro, é sintoma de que a balança pesa perigosamente para o lado dos opositores de Sócrates.

Prendas

Nos dois últimos dias, em dois países cujos dirigentes exibem mútua simpatia, foram distribuídas prendas.

Na Venezuela, os captores de um empresário português devolveram-no à liberdade, ganhando com isso mais de 200 000 euros. (Há outros portugueses raptados que ainda não foram contemplados.)

No Irão, os captores de 15 marinheiros britânicos, por sinal as próprias autoridades do país, decidiram devolver-lhes a liberdade quando, sublinham, poderiam tê-los submetido a julgamento. O acontecimento pode ter resultado de uma disputa interna entre governantes, mas o Presidente do Irão não deixou de aproveitar para se afirmar e confirmar como encenador de talento. Com garantia de transmissão em todos os canais, a mini-novela mostra que a produção de reality-shows é encarada com muito profissionalismo em Teerão. Não só pelo aproveitamento das reviravoltas no argumento, algumas provavelmente motivadas por cedência ao gosto do público ou pela inevitabilidade das coisas, mas também pela atenção ao guarda-roupa (promoção do iraniano-chic) e à qualidade dos diálogos. As falas de Ahmadinejad e as réplicas dos cativos foram de uma qualidade cénica exemplar e, sobretudo no caso do Presidente, impregnadas de um humor fino que goza da ambiguidade de muitos espectadores não estarem alerta para o tomarem como tal. De qualquer modo, os bons da fita ficaram muito bem identificados, e, ao libertar os 15 para o mundo (como numa expulsão da Casa do Big Brother), a estória vai ter ainda mais publicidade garantida. O público-alvo somos nós.

quarta-feira, abril 4

A conversão

Há muitos anos, quando eu andava na primária, a Dona Paulina, minha professora (por acaso competente em gramática e aritmética) pedia-nos todos os dias que rezássemos pela conversão da Rússia. A Rússia já está convertida, embora não exactamente ao que a minha professora desejaria, mas as conversões não ficam por aqui e escapam pela tangente para zonas que antes seriam insuspeitas.

É verdade: há notícias de que Gaspar Llamazares, o dirigente da Izquierda Unida, nosso vizinho aqui ao lado, atravessa uma encruzilhada espiritual e pode ser anunciada a curto prazo a sua conversão ao Islão. Llamazares ainda recentemente apoiou a reivindicação dos muçulmanos de Andaluzia para que a catedral de Córdova (ex-mesquita, e antes disso ex-templo cristão) fosse aberta ao culto islâmico.

Cerca de 70% dos espanhóis convertidos ao Islão nos últimos quinze anos são ex-militantes de grupos radicais de esquerda, segundo a fonte desta notícia do Alerta Digital.

domingo, abril 1

O camião




Estudantes manifestaram-se em Teerão em frente da embaixada britânica. O governo iraniano é exímio nestas encenações que lhe ficam muito baratas. A difusão quase obediente está garantida, até (sobretudo?) pelas televisões ocidentais. Na reportagem transmitida hoje pela BBC era bem visível este camião com pedras posto à disposição dos alegres e ruidosos jovens. E eu a julgar que eles se tinham dado ao trabalho de levar a sua pedrinha ou de arrancar alguma do chão.

As televisões não se ocupam destes pormenores. As opiniões públicas europeias entusiasmam-se mais com os seus fantasmas fascistas passados ou presentes. O Irão sabe que pode descansar.

(Foto Fars News Agency. Via Gateway Pundit.)

terça-feira, março 27

Na televisão

Ontem e hoje cruzei-me com várias pessoas consternadas pela vitória de Salazar num concurso de televisão que aí houve. Não tenho registo da mesma apreensão a respeito de Cunhal. Claro que Salazar teve a oportunidade e todo o tempo para fazer mal ao país e Cunhal não, felizmente. Além disso, por muito que nos custe, Salazar foi eleito por demérito próprio, ao passo que Cunhal deve o seu 2º lugar, em parte, a Salazar. Mas, que diabo, foi só um tele-concurso! Os que quiseram exteriorizar um estado de birra fizeram-no com êxito.

Tanto quanto sei, os consternados não votaram. Como lhes compete (e a mim, já agora), não se metem onde não se sentem chamados. Não vêm concursos ou telenovelas na tv; essas coisas têm o seu público e os planos não se misturam. Por isso não compreendo aqueles estados de alma. Faz tanto sentido esse desgosto como lamentar que haja poucos leitores para Proust e muitos para Paulo Coelho.

O grande perdedor é o major Valentim Loureiro. Agora ninguém irá dar crédito ao seu julgamento na televisão.

Publicidade para discalcúlicos

Anda por aí o anúncio de um banco onde devem ter colocado as frases ao contrário. Onde se lê o que se lê, parece-me que deveria estar:

Faça o seu depósito a prazo de 7500 Euros a um ano remunerado com um magnífico GPS!
E ganhe ainda uma taxa de 2% (TANB)!


Esta liberdade publicitária só é possível num país pouco dado à matemática, onde, em certos hipermercados, uma embalagem da bebida X pode custar 1,37 Eur e uma embalagem com um conjunto de três 4,31 Eur.

segunda-feira, março 26

RTP escreve epílogo do livro de José Gil

José Gil, no seu lúcido "Portugal: Medo de Existir", demonstrara como em Portugal nada se inscreve - pois até os assassinos são condecorados e elogiados publicamente e os corruptos admirados e tornados modelares -, o que se expressa na intriga permanente, no desprezo do sucesso de outrem, no nosso medo de nos exprimirmos e na ânsia de obedecer a alguém superior, que se digna a cuidar de nós. É assim com toda a naturalidade que Salazar e Cunhal, dois inimigos da liberdade, foram eleitos "os maiores portugueses de sempre".

Socorro, vem aí o fascismo

O PÚBLICO tem hoje uma notícia de duas páginas onde dá conta da presença de uma lista de extrema direita nas eleições para a associação de estudantes de Letras, em Lisboa. A outra lista é da Juventude Comunista Portuguesa.

Lá aparece a preocupação do presidente do conselho directivo da faculdade e até a do reitor, apesar de tudo "confiante no espírito democrático dos estudantes".

Lemos e compreendemos a mensagem porque já automatizámos a deturpação dos sentidos das palavras.

quinta-feira, março 22

Doutores e engenheiros

O caso Sócrates, que o PÚBLICO agora desenterrou da blogosfera onde já era conhecido seguramente há mais de um ano, pode ter implicações morais de relevo, mas talvez aparente mais importância graças a um vício português que os nossos media, naturalmente, assumem em conjunto. Raramente se nomeia uma figura da política nacional sem lhe antepor um título académico. Ele é o dr. Marques Mendes, era o eng. Guterres, é o dr. (ou prof.) Cavaco, o dr. Santana Lopes... tanta reverência deslocada do contexto! Na verdade os jornalistas mais não fazem do que seguir o procedimento normal entre nós. Em Portugal, até numa simples reunião de condóminos há diferenças de tratamento: dum lado o Sr. João, a D. Adelaide, do outro o Eng. Ricardo ou a Dra. Fátima. Médicos, engenheiros e até tristes advogados e professores toleram o epíteto com gosto ou indiferença e não poem os interlocutores na ordem. O grau académico não tem que ser sistematicamente chamado à conversa, e tanto menos nas circunstâncias em que as pessoas não estão a exercer a correspondente função profissional. Noutros países da Europa ou nos Estados Unidos, os presidentes e ministros são tratados por Sr. ou Sra. Fulano de Tal. Entre nós, "Sr." tem conotação quase depreciativa: é o que reservamos para o pintor de paredes ou o mecânico da oficina auto onde mudamos o óleo. Para gente, enfim, que pode desempenhar uma função com competência sem estar agarrado a um canudo obtido talvez com muitos 10 e 11's à força de repetir exames.

José Sócrates, que, por sinal, até nos troca as voltas no modo como se dá a conhecer pelo nome (ocultando o apelido), o primeiro ministro tão hábil a controlar tudo, perdeu uma boa oportunidade de impôr que fosse referido simplesmente como Sr. José... Sócrates, vá lá. Teria dado um exemplo que o poria agora numa posição mais confortável. Com o adjectivo(?) Engº colado ao nome, o caso será mais difícil de esquecer.

Reitor caído em desgraça

Alain Morvan, reitor de Lyon, é forçado a demitir-se por se opor à criação de um liceu islâmico na periferia da cidade. Morvan afirma bater-se contra o integrismo e pelos interesses das crianças.

terça-feira, março 20

Um mestrado de morte

Não gostar de Física, Matemática, Medicina, Direito, Informática ou Geografia não é motivo para não seguir carreira académica. Atenta à procura que ao que parece se regista no sentido de transformar os funerais em celebrações da vida, a Universidade de Bath criou o seu mestrado em morte. A coisa é séria, tem ligações à actividade empresarial (via Associação de Agências Funerárias) e tem a dignidade universitária do costume, com revistas especializadas e tudo, como esta ou esta.
No site próprio, avisam-se os interessados de que não se trata de enfrentar o problema da mortalidade e recomenda-se cautela a quem sofreu uma perda dolorosa.

É evidente que se trata aqui de um afunilamento de áreas vindas da sociologia ou das chamadas ciências de educação e nada disto é muito novo (ver, por exemplo, esta lista de teses universitárias no Québec).

Imagino que a pequena festinha após a discussão da tese tenha lugar numa câmara mortuária.

segunda-feira, março 19

Súplicas atendidas


"Stop global warming." Seja a quem for que o pedido foi dirigido, a resposta foi rápida. Foto publicada, e depois retirada, em boston.com. Via Tim Blair.

Alcobendas, Madrid


Duas mulheres (talvez) passeiam num centro comercial. No El Mundo.

A equação da felicidade

Num filme italiano a preto e branco que vi há muitos anos, quando o galã tranquilizava a heroína dizendo-lhe ti amo, ela perguntava, ansiosa: ma quanto? quanto?

Neste curioso artigo de D. G. Blanchflower e A. J. Oswald, publicado em 2004, os autores propõem uma equação para a felicidade:

r = h(u(y, s, z, t)) + e

onde r é um grau de satisfação declarado; u é a o bem estar do indivíduo; h é uma função não diferenciável que relaciona o bem estar real com o declarado; y representa o rendimento; s é a actividade sexual; z é um conjunto de características demográficas e pessoais; t é o tempo; e é um termo de erro.

O estudo, que envolveu vários milhares de cidadãos americanos, contém informações e conclusões interessantes, embora não demasiado surpreendentes. Eis algumas:

- Entre os adultos de mais de 40 anos, as mulheres têm sexo em média 1 vez por mês, mas os homens têm 2 ou 3.

- A felicidade depende fortemente do grau de satisfação sexual, e em sensivelmente menor escala do rendimento. O dinheiro poderá comprar felicidade, mas não amor. (Em particular, não há correlação entre o rendimento e o número de parceiros sexuais.)

- Sexo pelo menos 4 vezes por semana dá 0.12 pontos de felicidade, o que é muito na escala utilizada, representando, por exemplo, metade do efeito proporcionado pelo casamento.

- Qual o número de parceiros sexuais no ano anterior que maximiza a felicidade? A resposta é: um.

- A orientação da sexualidade de cada indivíduo não tem correlação com a felicidade.

- Os desempregados tendem a ter maior número de parceiros sexuais. Homossexuais e bissexuais masculinos têm mais parceiros sexuais do que os homens heterossexuais. A diferença não é estatisticamente significativa no caso das lésbicas.

quinta-feira, março 15

Dia do consumidor II

Vamos lá elevar o nível: do que nós precisamos, neste dia do consumidor, é de reflectir sobre uma realidade que, ao contrário do que parece, não é nada simples. Nada melhor do que um pouco de pós-estruturalismo francês, esse brilhante obscurantismo profissional, para imergirmos na fina análise do que nos surge mascarado de trivialidade.

Quer sejamos capazes ou não de provar que as possibilidades de consumo estão a ser igualizadas (diferenciais de salário reduzidos, redistribuição social, a mesma moda par todos, com os mesmos programas de TV e os mesmos destinos de férias), isto não quer dizer nada, porque pôr o problema em termos da igualização do consumo é já substituir os problemas reais e a sua análise lógica e sociológica pela procura de objectos e sinais (nível de substituição). Analisar a Abundância não significa, de todo em todo, procurar a sua verificação nas estatísticas, que só podem ser tão míticas como o mito, mas sim mudar radicalmente de ponto de vista e abordar o mito da Abundância com uma lógica diferente da que lhe é própria.
(Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo.)