domingo, março 11

Curiosidades

O governo inglês decidiu enviar uma cópia do filme de Al Gore a cada escola secundária (com clientes assim, dá gosto produzir dvds). Irá fazer o mesmo com o filme de Martin Durkin? O homem é até mais de esquerda que o outro, embora mal amado pelo lobby da militância ecológica: um marxista que acha que os países subdesenvolvidos também têm direito a poluir. De qualquer modo, o documentário de Durkin resguardou-se de usar tiradas demagógicas. Dominic Lawson escreve sobre o filme no Independent.


:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


Nos jornais e rádios de Espanha debatem-se hoje os números da manifestação de Madrid, ontem. Para uns 2 100 000, para outros 342 655; é desnecessário dizer quem são uns e outros. Mas era muita gente e a estrela de Zapatero ressentir-se-á, porque na verdade terá começado a declinar pelo menos desde o atentado da ETA.


:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


A RFI (que se escuta a certas horas em Lisboa em FM 90.4) passou esta manhã um depoimento de Eric Fassin, professor de sociologia na École Normale Supérieure, sobre a presença, no debate eleitoral em França, do tema das uniões homossexuais. Fassin, especialista de "género", dissertou sobre a construção da identidade sexual e sobre a sua teoria da democracia sexual. Disse várias coisas que não têm muito interesse porque são completamente previsiveis e não avançam nem atrasam. Perguntado sobre o papel das religiões como forças de oposição às alterações normativas que vão no sentido de maior liberdade sexual, afirmou que de facto algumas religiões têm de facto esse papel: sobretudo a religião muçulmana e por vezes também a católica. Desculpem, enganei-me. Isso diria um ignorante como eu. O que ele disse foi: sobretudo a religião católica e por vezes também a muçulmana.

Vou já à FNAC comprar uma Sociologia para Totós. A ver se começo a abrir os olhos.

quinta-feira, março 8

Mulheres


Nahid Keshavarz é uma de cerca de 50 mulheres que foram presas em Teerão no passado domingo, num protesto público. Há notícias de que terão sido libertadas ontem todas, excepto três.

Muito se falou hoje da ousadia das lutas de mulheres. A conversa incidiu quase toda sobre as lutas passadas. Mas não ouvi nas rádios ou tvs nem uma palavra sobre a submissão das mulheres nos países islâmicos ou nas comunidades islâmicas europeias. Aí é que a luta é hoje mais imperiosa e decisiva.

quarta-feira, março 7

TEIP

O Conselho Nacional da Educação apresentou mais um relatório sobre o estado da educação (ver PÚBLICO de hoje). Mais um diagnóstico, mais recomendações. Fala-se de programas extensos ou desadequados. Falar-se-á do número absurdo de disciplinas? Já se sabe tudo isto há tanto tempo. Como subproduto, os relatores descobrem que Bolonha vem trazer riscos para a qualidade do ensino superior. Em resumo, nada de novo.

Assim como não há nada de novo no âmbito dos contratos-programa do ministério com determinadas escolas para melhorar resultados nos 2º e 3º ciclos. Uma escola recebe, por exemplo, um psicólogo e dois animadores e terá direito a melhoria nos equipamentos desportivos. As escolas contempladas foram consideradas TEIP (territórios educativos de intervenção prioritária), deliciosa sigla da época em que Ana Benavente comandava as operações. No fundo, parece que o seu espírito continua ao comando. As palavras não são inocentes. Uma operação que usa esta sigla não me inspira confiança. Territórios são lugares que determinado grupo marca com seu chichi para impôr presença e domínio. Neste caso, não se percebe se é do chichi dos meninos ou do dos psicólogos e educadores que se trata. Não digo que não venha a sentir-se alguma consequência positiva da campanha etiológica em curso; o que não me parece é que o benefício seja no desempenho em português e matemática, por exemplo. Cem milhões lançados para os nossos olhos e para um território minado.

terça-feira, março 6

O grande embuste do aquecimento global

É o título de um documentário que o Canal 4 inglês apresenta no dia 8. O filme põe em causa a teoria "consensual" de que o aquecimento tem como causa a actividade humana. Participam climatologistas de centros de investigação e universidades prestigiadas.

Quarenta anos de uma obra prima

Gabriel Garcia Márquez acaba de fixar o texto de "Cem anos de solidão", agora editado em edição comemorativa, incluindo lista de vocábulos e estudos sobre a obra (entre eles um de Mário Vargas Llosa). Foi ponderado se se deveria mudar el partido de dominó para la partida de dominó e se na expressão las mandan a componer o a está a mais. A Real Academia Española participou na revisão do texto e nem todas as opiniões dos peritos foram aceites pelo autor. A língua presta-se pouco a ciência exacta. Com partido ou partida, com ou sem a, o que é importante é que com os "Cem anos" estamos menos sós.

sábado, março 3

Burka techno

http://www.youtube.com/watch?v=MOk5Ax40hcs&eurl=http%3A%2F%2Fastuteblogger%2Eblogspot%2Ecom%2F

Hoje é dia de nos deixarmos seduzir pela burka. Visto em Astute Blogger

quarta-feira, fevereiro 28

A conta da luz

O Tennessee Center for Policy Research divulgou as contas de electricidade e gás de Al Gore. Em 2006, na sua casa de Nashville, consumiu quase 221 000 kWh. A conta de gás excedeu a média de 1000 dólares mensais. No caso da electricidade, estes números representam um aumento de 10% relativamente ao consumo do mesmo cidadão no ano anterior e 20 vezes o consumo do americano médio.

Gore responde aqui à divulgação destes dados e segue-se uma animada troca de comentários.

Não sei se se trata de uma campanha de extrema direita para prejudicar Gore. Mas acho natural que qualquer pessoa que gaste cerca de 30 000 dólares anuais em energia se esforce por levar os outros a não gastar muito, e por promover vendas de dvds para pagar a conta.

terça-feira, fevereiro 27

Ouro e diamantes

Uma parte importante das energias da justiça em Portugal consome recursos à volta do insípido mexerico em torno de quem terá feito batota ao jogo, corrompendo árbitros e oferecendo uns presentes tristes onde se incluem prostitutas. Isto é incompreensível: qual é o prejuízo causado que justifica tanto empenho? As expectativas goradas dos adeptos? Como se o que interessasse à maioria deles fosse mais do que a vitória a qualquer preço e a descarga catártica que ela proporciona? Ainda por cima, tudo isto tem pernas para andar apenas porque certa ex-namorada subscreveu um livro de denúncias sem o qual ninguém teria competência para chegar a lado nenhum.

Muito mais interessante do que a coscuvilhice futebolística é o caso da "Universidade" Independente, onde parece caber tudo desde não se saber quem são os donos até um caso de relações escuras com diamantes e Angola, passando pela acção protectora de uma magistrada. Isto é o que os noticiários divulgaram hoje. Para encontrar algo de uma grandeza (ou gravidade) equiparável no mundo da bola teríamos que recuar até aos dez estádios do 2004, pelo menos sete dos quais construídos para as moscas. Mas nesse caso as p... são certamente mais finas.

O caso da Independente lá tem incubado em segredo, até que uma zanga com implicações que dão nas vistas obrigou as partes em conflito a pôr a boca nos trombones. Os Ministérios do ensino superior nunca deram por nada em anos sucessivos. Agora, com o caso nos noticiários de tv, parece que o actual ministro está preocupado. No mundo da justiça não se sabia de nada, parece. Se não há por aí outra amante traída e com veia literária, o alcance dos apitos esgota-se no ouro, não chega aos diamantes.

segunda-feira, fevereiro 26

O cinema, o novo farol do conhecimento

O filão do desastre climático já conduziu ao óscar: assunto encerrado. Mas a indústria das verdades convenientes veio para ficar. James Cameron (do "Titanic") dá hoje em Nova York uma conferência de imprensa sobre o assunto da sua nova produção. O cineasta afirma que a sua equipa terá descoberto a sepultura de Jesus Cristo. Tem provas até baseadas em DNA! Um dos subprodutos da descoberta é que a crucificação não existiu. Claro que pode haver algumas objeccçõezinhas aborrecidas, mas não incomodarão muito. E nada disto envolve riscos físicos, pois não é natural que algum cristão fanático condene à morte o produtor. Por outro lado, a teoria dá jeito: recupera e ultrapassa o caminho aberto pelo "Código" e aproveita a disponibilidade do público por ele criado; e pode acabar de vez com a guerra dos crucifixos. Ainda por cima, acaba por sustentar o ponto de vista do Islão segundo o qual Jesus, um profeta como os outros, não foi crucificado. Por acaso acho que isto é só coincidência, mas o que é certo é que, deste modo, o sucesso do filme ameaça meter no bolso o do ex-vice presidente convertido à climatologia.

Até agora, julgávamos que era a ciência que nos desvendava os segredos do mundo. Habituemo-nos: esse papel passou para as objectivas de Hollywood. É mais rápido e chega logo ás multidões, sem passar pelo enfadonho processo de revisão pelos pares.

terça-feira, fevereiro 20

Os direitos dos animais vistos à esquerda

O referendo ao estatuto de Andaluzia não excitou particularmente os andaluzes. Começa a ser normal a separação entre dois mundos com interesses disjuntos: o da gente "normal" e o dos profissionais da política. Apesar disso, estes lá vão levando a água ao seu moinho, talvez demorando mais, talvez deixando alguma pelo caminho.

No admirável mundo novo de Espanha já se anuncia outra grande causa: a dos direitos dos animais. Os touros de morte estão, agora sim, ameaçados de morte. É a ministra do ambiente,Cristina Narbona, que dá o tiro de partida, anunciando, para já, resultados de sondagens que revelam o fraco apoio dos espanhois à morte do touro na arena. Bem, apesar de tudo esse apoio parece subir aos 40% na Andaluzia. Ora aí está um tema que talvez desperte do seu torpor e indiferença as populações ingratas face ao labor dos governantes.

Não tenho simpatias pela tourada e não me comove o facto de os Picassos e Hemingways terem sido grandes aficcionados. Também me deixa indiferente a campanha que se antevê contra a matança do touro. Tenho só uma pequena curiosidade: irá a ministra contrariar a comercialização de carne halal, que já se realiza em gande escala no país? Ou o sofrimento infligido a animais será tolerável desde que feito em nome de uma determinada religião cujos seguidores nunca podem ser contrariados?

domingo, fevereiro 18

quinta-feira, fevereiro 15

O tempo visto de Gaza

O ressentimento e o desejo de vingança está em alta pelos lados da Fatah. Vingança contra o Hamas, claro. Num tiroteio entre as duas facções, há poucos dias, morreu o sobrinho de 16 anos do chefe local do Fatah, Khamis Bakr.
Há muita desconfiança, diz Bakr. Se o acordo (de Meca) durar seis meses já é um bom acordo.

Tem razão. Com base nos factos recentes, seis meses para esse efeito, em Gaza, é a eternidade.

terça-feira, fevereiro 13

Variações rápidas

A velocidade de fusão do gelo da Gronelândia está a diminuir. Depois de ter duplicado ao longo de 2004, decresceu agora para níveis próximos dos anteriores àquela subida. De resto, nos anos 30 do século passado a Gronelândia era tão ou mais quente que agora, e os glaciares eram menores. Quem o diz é Ian Howat, co-autor de um artigo acabado de sair na Science, cujos resultados sugerem moderação nas previsões catastrofistas recentemente muito divulgadas.

Deve ter-se especial cuidado no modo como estas e outras perdas de massa são avaliadas, especialmente ao fazer extrapolações para o futuro, porque picos de curto prazo podem sugerir tendências de longo prazo incorrectas.

segunda-feira, fevereiro 12

Declarações inconvenientes

O aquecimento global é um falso mito e as pessoas sérias e cientistas confirmam-no. O IPPC não é uma instituição científica: é um órgão político, uma espécie de ONG com sabor a verde Não é um forum de cientistas neutros nem um grupo equilibrado de cientistas. Essas pessoas são cientistas politizados que têm uma posição unilateral e uma encomenda unilateral. (...) Se a Comissão Europeia vai a correr a comprar esse embuste, temos outra boa razão para para crer que os próprios países, e não a Comissão, é que devem tomar decisões sobre tais matérias.

O ambientalismo como ideologia metafísica e como visão do mundo não tem nada a ver com as ciências da natureza nem com o clima. Infelizmente, nem sequer tem a ver com ciências sociais. No entanto, está na moda e isso assusta-me. (...) Como homem orientado para a ciência, sei ler relatórios científicos sobres estas questões (...) e nos artigos que li, as conclusões de que os media falam estão simplesmente ausentes. (...) por isso comecei a escrever um artigo sobre o assunto no natal. O artigo cresceu para um livro e sairá dentro de uns meses. Ambientalismo e ideologia verde é algo muito diferente de ciência do clima. Vários resultados e alertas de cientistas estão a sofrer abusos por parte desta ideologia.


Vaclav Klaus, presidente da República Checa, em entrevista ao jornal de economia Hospodárské noviny.

Corolário do Sim

Houve grande regozijo perante a evidência de muitos católicos terem votado sim. Os adeptos do ataque sistemático à Igreja Católica podem descansar um bocado. Se ela assusta alguém, é só a eles.

quinta-feira, fevereiro 8

Que descanso não ter útero

A lei em vigor, que penaliza as mulheres que abortam em determinadas condições, é o ponto alto da discriminação em função do sexo, e por isso intolerável.

Nenhuma filosofia ou contribuição da ciência nos permitirá definir de modo inequívoco, consensual, o estatuto de um feto humano. Do ponto de vista prático, há que chegar a convenções socialmente aceitáveis.

Uma vida humana é normalmente gerada a partir do encontro de um homem e uma mulher. Sucede que só ela tem um útero, só ela tem a estrutura de acolhimento à nova pessoa. Mas só ela é responsável pela gravidez? Não brinquemos. É ela quem mais sofre quando as coisas dão para o torto, isso sim. A partir do momento em que se convenciona que aborto é crime, independentemente das semanas, horas, minutos e segundos, uma lei não discriminatória obrigaria a que, após a detecção de um aborto, as polícias não se limitassem a identificar a mulher que o praticou, mas a ir também no encalço do homem envolvido e implicá-lo no mesmo delito. Na época da gloriosa igualdade de género, é admissível tipificar um crime em que o agente é, à partida, mulher?

quarta-feira, fevereiro 7

E se...

... a falsa "pandemia" da gripe das aves, que na Ásia matou escassas centenas de pessoas, fosse uma maneira de desviar a preocupação dos Europeus da "pandemia" islâmica?

... a premência de liberalizar o aborto fosse uma ardilosa manobra de diversão, enquanto se deterioram as condições de vida dos portugueses, incapazes de contornar a falta de produtividade endémica na era da globalização?

segunda-feira, fevereiro 5

A invenção de Sónia

Há menos de um ano, imprensa e televisões mostraram-nos o exemplo encorajador de Sónia Moreira: educada na obra do padre Gregório, descobriu a sua vocação para a matemática com uma explicadora (a stora dela não explicava muito bem) e foi por aí acima até à olimpíada europeia da disciplina. O desempenho valeu-lhe uma bolsa para ir estudar medicina em Oxford.

Ontem, a TVI veio revelar que toda a história é inventada. A acumulação de detalhes, misturando o verosímil com o suspeito, torna o caso notável pela simplicidade com que foi urdido e deglutido. Numa das notícias surgem mesmo declarações da psicóloga que dirige a instituição que acolhia Sónia. A TVI refere que Sónia não deve ter actuado sozinha e até pode ter havido intenções menos inofensivas do que simplesmente criar uma historieta de falsa notoriedade.

Sozinha, certamente que não. Para efeitos de divulgação, teve a "comunicação social" do seu lado. O resultado não é muito bom para estes media. Se uma Sónia de 21 anos os enrola desta maneira, o que não poderemos pensar de gente muito mais sabida e com muito mais meios à disposição, como alguns educadores, alguns artistas, algum político convertido a cineasta de terror?

domingo, fevereiro 4

Resumo da teoria de cordas

Desenho de Randall Munroe, xkcd.com. Via Physicsweb.

A competitividade

A tentativa de Sócrates de salvar as declarações de Manuel Pinho sobre os baixos salários não foi lá muito bem sucedida. No fundo tanto um como outro tinham que ocultar o verdadeiro sentido das afirmações do ministro: o país é competitivo porque fica bastante em conta comer nos restaurantes chineses e comprar nas lojas chinesas (com excepção de algum objecto que inclua fecho éclair - esses só funcionam uma vez). Era a produtividade do comércio e dos restaurantes chineses que o ministro tinha em mente.

sexta-feira, fevereiro 2

Bin Laden seguidor de Darwin?

Harun Yahya (pseudónimo do cidadão turco Adnan Oktar) é um nome provavelmente não muito reconhecível, mais por distracção nossa do que pelas iniciativas do próprio. O seu Atlas da Criação, a par de inúmeros materiais relacionados, estão disponíveis na internet há anos. Os criacionistas nos Estados Unidos bem podem invejar o impacto e influência deste rival. Harun vem-se batendo por abrir os olhos do mundo à verdade sobre a Criação e aos erros de Darwin, que afirma estarem na base do nazismo e do fascismo. O Corão é profusamente citado. Agora editou um manual muito bem impresso (770 páginas ilustradas) que acaba de enviar como oferta aos liceus e universidades em França. Esta versão é mais completa e atribui também à teoria evolucionista as raizes do terrorismo.

Os que perpetuam o terror no mundo são na realidade darwinistas. O darwinismo é a única filosofia que que valoriza, e por isso encoraja, o conflito, lê-se como legenda de uma foto que ilustra os atentados do 11 de setembro. Segundo o Figaro, o ministro da educação pediu "discretamente" aos reitores que não incluam o livro nos centros de documentação das escolas, já que o que nele se defende não corresponde ao conteúdo dos programas aprovados.

Desconhece-se quem financiou a edição e o envio do livro.

quinta-feira, fevereiro 1

Al Gore nomeado

... para o Nobel 2007 pelos seus esforços de divulgação dos efeitos das alterações climáticas.

Progresso imparável

Não é permitido bater nas mulheres em público, nem queimá-las vivas, nem lançar-lhes ácido à cara. Ah, e podem votar e conduzir automóveis. Em Hérouxville, Canadá.

quarta-feira, janeiro 31

À flor da pele

Um leitor do PÚBLICO mostrava-se ontem incomodado com uma crónica recente onde Eduardo Prado Coelho nos revelou o seu êxtase - justificado - perante esfoliantes, hidratantes e cremes para as rugas masculinas. É razão do desagrado o facto de se tratar de um desperdício da coluna de E.P.C.: um homem de esquerda, bem pensante, vem ocupar a sua crónica com cosméticos para homens! coisa que o leitor (apesar de mais novo que E.P.C.!) aprendeu ser mais adequada a mulheres ou efeminados. Naturalmente, segue-se o anátema: depois disto, o leitor considera E.P.C. incapaz de emitir qualquer juizo válido sobre a sociedade portuguesa.

Que leitor tão exigente. Pegando em três crónicas de E.P.C. ao acaso, deixando de lado a série de redacções sobre O Outro, os assuntos são variados: futebol, A. João Jardim, Ségolène. Ou seja: o âmbito da suprema coscuvilhice masculina, um bombo da festa da esquerda e um ídolo recém criado da mesma. No texto sobre a candidata à presidência, Eduardo confessava-se rendido ao talento daquela mulher que, no entender dele, estava a reinventar a esquerda! (Ela até sabia falar dos problemas comezinhos de segurança.) Comparando as várias crónicas, e com a excepção de uma tomada de posição sobre a TLEBS que eu subscreveria, julgo que E.P.C. nunca esteve tão lúcido como no elogio dos esfoliantes e hidratantes. Em matéria de temas epidérmicos, não há dúvida de que emite juizos de confiança.

segunda-feira, janeiro 29

Bento e Heba

Bento XVI, 27 de janeiro: O matrimónio é fruto do consentimento de homem e mulher. A sua indissolubilidade não provém da vontade dos contraentes: é intrínseca à natureza do forte laço estabelecido pelo Criador. A mentalidade relativística, que até pode insinuar-se na comunidade eclesiástica, deixa-se seduzir por caminhos interpretativos que implicam rotura com a tradição da Igreja. Perante Deus, o matrimónio é entre homem e mulher, indissolúvel e definitivo.

Noutras paragens, a dra. Heba Kotb fala a uma crescente audiência no canal egípcio Al Mehwar, transmitido por satélite. Tentando não contradizer o Corão, aborda com frequência as posições sexuais, o orgasmo feminino e a impotência. A homossexualidade é descrita como doença, mas para já não consta que advogue a eliminação dos doentes. Recentemente aconselhou um telespectador a não se privar de sexo durante o ramadão. Os conservadores parecem andar irritados com o programa. Heba está convencida de que o Islão compreendeu o sexo muito antes do resto do mundo.

Qualquer um destes discursos tem pontos que se prestam a ser ridicularizados: a realidade nos mundos respectivos faz de algumas destas asserções meros desejos bem (ou menos bem) intencionados. No entanto, ambos vão ao encontro de um vazio nos espaços onde surgem. Falar abertamente de sexo no mundo árabe - sobretudo sendo uma mulher a fazê-lo - pode contribuir para não deixar tudo na mesma. Falar da dimensão sagrada do casamento, mesmo com o risco de irritar os defensores de causas identitárias, pode não levar muito longe, mas é um alerta sobre os riscos que corre uma sociedade em declínio biológico.

sexta-feira, janeiro 26

Área de projecto

Já se sabia que o ensino moderno proporciona às crianças muito divertimento ao mesmo tempo que pode contribuir para lhes negar o acesso ao conhecimento. Mas, cuidado, pode também causar-lhes danos físicos. Numa escola primária do Reino Unido, uma professora fotocopiou a cara de um aluno de cinco anos. Depois de queixas da criança, o hospital informou que o menino estava a sofrer de conjuntivite por exposição a luz muito forte.

Parece que o procedimento se integrava numa actividade de projecto sobre o claro e o escuro, que tinha em particular o objectivo de dar a conhecer o funcionamento de uma fotocopiadora.

Certamente pouco apta em matéria de ciência, a professora não deve ter tido oportunidade de frequentar alguma acção de formação sobre fotocopiadoras. Nada que não se possa remediar no futuro, mas será bom não esquecer, já agora, de incluir umas ideias sobre o laser, não vá uma professora noutro dia qualquer querer desaparafusar a tampa de um leitor de cd para mostrar como funciona. De resto, com a tecnologia em avanço constante, não há limite para os perigos à espreita. Claro que era mais simples exigir conhecimentos básicos aos professores e ocupar o tempo de escola com actividades em que eles pudessem ensinar matérias que efectivamente são supostos saberem. Mas, na era do "aprender a aprender", isso é já uma miragem.

terça-feira, janeiro 23

Ocidente em extinção

A parentalidade tornou-se no Ocidente um fardo que intrépidos aventureiros teimam arreigar surdos aos reparos reprovadores dos mais sensatos. Até há algumas décadas, o investimento na prole revertia ao fim de alguns anos quando aquela adquiria, bem antes da adolescência, a capacidade de arar a terra, ordenhar as vacas ou forjar o ferro e dobrava no entardecer da vida, quando a mesma assumia naturalmente o compromisso de cuidar de seus progenitores, por amor e gratidão ou simplesmente por misericórdia cristã. Depois hordas de camponeses abandonaram os campos e trilharam o caminho da proletarização na suja periferia da cidade reluzente, que garantia trabalho em qualquer estação do ano, na canícula prolongada ou no Inverno mais adverso, mas onde lições telúricas milenares se revelaram de pouco proveito. Um sistema auto-subsistente deu lugar a um outro mais complexo inter-dependente, que compartimentou os saberes e as actividades e desnorteou a sociedade. Contrariando o mais básico instinto humano, mandaram-se os filhos às urtigas assim que a multiplicação se tornou sinónimo de divisão de rendimentos. Desapareceram das ruas os risos estridentes dos gaiatos e investiu-se no planeamento familiar, essa modernidade subvencionada pelo Estado que se resumiu a impedir a concepção e a renovação geracional, a fim de prolongar a agonia do endividamento familiar por meros bens (ou males) de consumo.

sábado, janeiro 20

Conversas com mulheres em fundo

A estupidez de algumas intervenções de bispos, padres e certos grupos de católicos-pimba no duelo pelo "não" dá fôlego a intervenções inúteis dos advogados do sim. Rui Tavares, por exemplo, no PÚBLICO de hoje, refere "ameaças sérias" e "ilegais" e "chantagem" sobre os votantes. Acreditará mesmo que a excomunhão suscita temor, aqui, hoje? Quando se trata de religião, a visão crítica "progressista", ao diabolizar tudo o que tem a ver com catolicismo, não faz mais do preparar o caminho a outras ameaças, mais próximas e sérias, em termos do espaço europeu, do que a distracção permite entender. A esquerda ocidental parece nem avaliar até que ponto já venceu ideologicamente (não por mérito próprio) a batalha contra a crença religiosa. Já não há inferno. E mesmo os "crentes" não levam a sério a maior parte dos textos bíblicos que, de resto, apenas uma ínfima minoria conhecerá.

Ontem, na SIC-Notícias, repunha-se uma intervenção de Pilar del Rio, uma presença encantadora e envolvente. Ponto forte foi a força das mulheres e a submissão a que são sujeitas a nível global. Pelo meio da entrevista, e a propósito dos livros de Saramago, referiu-se várias vezes à opressão vinda do catolicismo e, claro, a Inquisição marcou o ponto.

Num filme mais recente, Ségolène acaba de anunciar que a sua primeira lei visará defender as mulheres que sofrem maus tratos.

Não há progresso social compatível com a discriminação das mulheres. Espanha e França têm segmentos importantes de população que, com base em princípios religiosos, assumem a inferiorização das mulheres. Se não o soubéssemos já, não seria por Pilar ou Ségolène que o ouviríamos mencionar.

quarta-feira, janeiro 17

Enforcar com dignidade

Os lamentos sobre as recentes execuções de criminosos no Iraque são muito curiosos. É claro que as coisas não correram bem. Para evitar comunicação indesejada, hoje em dia nem nos exames se deixa entrar alunos com telemóveis. Houve insultos - coisa completamente supérflua quando se vai tirar a vida a alguém. Houve uma cabeça cortada - raro, mas pode acontecer, diz quem sabe. Deplorou-se a falta de "dignidade" nos procedimentos. E no entanto, esquecendo já que os condenados eram criminosos que promoviam a tortura de opositores políticos com trituradores de carne (entre outras engenhocas igualmente indignificantes), aparentemente as penas foram executadas com o cuidado de tudo se passar rapidamente. Nada parecido com o que costuma acontecer quando os carrascos não têm apuro técnico ou quando deliberadamente se pretende prolongar a agonia. Ou com outras formas de executar a pena de morte em países de cultura muçulmana. E mesmo com os processos mais sofisticados de matar há sempre a possibilidade de tudo correr mal: ainda muito recentemente, uma execução por injecção letal nos EUA alongou-se por quase meia hora. Quem estuda o assunto afirma que um nó adequado e uma queda calculada com precisão minimizam a duração do sofrimento. Está tudo tabelado. Para um condenado, dignidade é antes de tudo rapidez.

Fracos argumentos

Eu tenciono votar sim, mas faz-me pena assistir à sua defesa com estes argumentos.

O tráfico ilegal de droga também gera corrupção e (muito) dinheiro sujo. Não será então pelo menos igualmente urgente legalizar o comércio de droga?

quinta-feira, janeiro 11

Três enigmas

Ando intrigado com determinadas frases que temos lido no PÚBLICO ou ouvido na tv e na rádio, em relação com determinadas notícias dos últimos dias.

Uma tem a ver com a versão portuguesa da torre de Pisa. Pisa, aqui para nós, é Quarteira, claro. Um edifício começou a inclinar-se perigosamente: fala-se de "uma declinação de 30 centímetros em relação à vertical" (comunicado da Câmara Municipal de Loulé). Que será isto? Eu não digo que publiquem no jornal a inclinação em radianos, mas já agora, se fosse em graus poderíamos formar uma ideia melhor.

O segundo mistério relaciona-se com a frota de aviões que alguns parlamentares europeus perseguem com furor. Mais precisamente: com os alegadamente desgraçados neles transportados, os quais foram descritos como "agrilhoados" ou "acorrentados". Lembrei-me logo do Ben-Hur, do Spartacus e do Conde Monte Cristo. Ainda usam correntes? Pensava que desde meados do século 18 já não se fabricavam. O que me leva a uma pergunta conspirativa: seriam mesmo aviões? Com um atraso tecnológico destes, não admira que Ana Gomes e a Visão apanhem a CIA com a boca na botija.

Finalmente o último enigma. Valentim Loureiro acaba de desmentir categoricamente, num jornal de tv, revelações de Carolina. Afirma que nunca almoçou, lanchou ou jantou com ela e Jorge Nuno. A distracção fatal pode ser aproveitada pela procuradora: VL não negou nada que pudesse envolver o pequeno almoço.

terça-feira, janeiro 9

Choque electrónico

De acordo com o PÚBLICO de ontem, o MIC de Alegre vai tomar posição, sobre o referendo a respeito do aborto, com base na opinião dos seus membros
expressa em votação electrónica.

Cá está um toque de grande originalidade e modernidade. Para quê perder tempo com discussões e confrontos de teorias? De que vale ter princípios, se temos a aritmética?

A indignação pública tem preferências

Será retomado amanhã o julgamento de Nazanin Fatehi, de 18 anos. Foi condenada à forca por ter esfaqueado um homem de um grupo de três que tentaram violá-la e atacar também uma sobrinha em 2005. O tribunal poderá comutar ou confirmar a sentença.

Nazanin poderia, claro, não ter resistido e ter consentido a violação. Nesse caso o castigo seria reduzido a cem chicotadas. (Se fosse casada poderia ser condenada a apedrejamento.)

Há na net uma petição para salvar a vida de Nazanin.

A má sorte de Nazanin é ser uma mulher anónima e ter nascido no Irão, no nosso tempo. Se tivesse a notoriedade de um déspota com muitos milhares de vítimas no currículo, por ela se reuniriam coros de indignação de governantes e outras figuras públicas contra a pena de morte, por ela se fariam greves de fome, por ela se iluminaria o coliseu de Roma.

segunda-feira, janeiro 8

Prémio Euler

O Euler Book Prize da Mathematial Association of America foi atribuído a John Derbyshire pelo seu livro Prime Obsession. Derbyshire é também um dos principais animadores do Iconoclast (um blog muito atento às tentativas de islamização do Ocidente), que fica em link aqui ao lado.

sábado, janeiro 6

A doença infantil do concreto

Um dos sintomas do retrocesso que certo "pós-modernismo" representa é a colagem infantil ao concreto e circunstancial, desprezando a capacidade de abstracção que faz parte da nossa estrutura e natureza.

Por exemplo, no ensino pós-moderno da matemática, as recomendações pedagógicas da moda pretendem que, sistematicamente, cada novo conceito seja ancorado na experiência particular do aluno. Se isto é razoável e até necessário em muitos casos, não o é por sistema; o resultado é o empobrecimento dos conteúdos, dos quais tudo o que exija uma pitada de abstracção vai sendo relegado para um plano secundário, privando os estudantes de desenvolver a capacidade de lidar com o abstracto.

Na arte contemporânea o vício do concreto está bem à vista em obras ditas de arte conceptual, que normalmente reproduzem soundbytes de uma ideologia ou tendência política que nada de novo traz à arte em questão. O vício propagou-se nas últimas décadas ao teatro e à ópera. O mais recente e mediatizado exemplo é dado pela encenação do "Candide" por Robert Carsen, que abriu um conflito com a direcção do Scala por causa da cena espúria em que actores em cuecas ridicularizam determinados líderes políticos do momento. Defende-se Carsen dizendo que "o público do Scala é suficientemente sofisticado para compreender os objectivos de Voltaire". Que falha de raciocínio! Quanto mais sofisticado é o público, menos deverá necessitar de ilustrações rasteiras para uma mensagem dotada de uma certa universalidade.

Sexo por roupas

De acordo com este artigo do Guardian, a infecção por HIV está a preocupar as autoridades no Irão. Nas boutiques de moda feminina de Teerão, jovens prostitutas vendem o corpo para comprar roupa. Ninguém parece muito informado sobre os perigos do contágio. Em tomada de posição sobre o assunto, um grupo de 17 ayatollahs desculpabiliza o uso do preservativo mas insiste na prevenção e esclarecimento.

quinta-feira, janeiro 4

Alarme na escola inclusiva

Parece que os resultados escolares dos rapazes no Reino Unido persistem ano após ano num nível inferior ao das raparigas. Christine Gilbert, inspectora geral para as escolas, acaba de publicar as suas recomendações para lidar com o problema: os professores devem dar atenção às necessidades educativas especiais dos rapazes. É preciso que as escolas invistam em materiais didácticos específicos para cada sexo. Os rapazes devem ser encorajados a não se limitarem à literatura de ficção. A conclusão não se faz esperar: rapazes e raparigas devem estar em turmas separadas.

Um relatório encomendado pelo Muslim Council of Britain não faria melhor.

Os perigos de casar por amor

Mohammad Iqbal, paquistanês, casou com Shehnaz por amor. Mas Shehnaz pertence a uma tribo diferente, onde o casamento com gente de fora não é bem visto. Um grupo de homens armados executou a vingança: cortaram o nariz e as orelhas de Mohammad, as orelhas de um seu irmão e uma mão da mãe. A família está em tratamento num hospital. (Notícia da Reuters, transcrita aqui.)

domingo, dezembro 31

Gostava de Mateus Rosé

O seu tempo terminou ontem às 6 da manhã no Iraque. Tinha o Mateus Rosé como vinho favorito, embora nunca bebesse em público para não contrariar a imagem de bom muçulmano. Submeteu opositores, exterminou sem dó nem hesitações. Morreu a recitar versículos religiosos, mas provavelmente a maior angústia dos últimos instantes terá sido a consciência da impossibilidade de saber em que se tornarão aquilo que foi o "seu" Iraque, e os seus inimigos, daqui a cinco, dez, trinta anos.

(Via The Iconoclast.)

sábado, dezembro 30

Sob o véu

Já se chamou Elaine Atkinson. A bisavó foi sufragista e ela própria foi militante feminista. Agora chama-se Khadijah, depois de se converter ao Islão, onde encontrou as soluções para a vida. Khadijah foi escolhida pelo Channel 4 para a sua “mensagem de natal alternativa”, em que se apresentou de rosto coberto. Defendeu que o uso do véu liberta as mulheres e referiu o Minhaj-ul-Quran, grupo em que milita, como tolerante e respeitador de todos os credos. O Daily Mail quis saber mais e afirma que o Minhaj-ul-Quran é um grupo extremista com ligações ao Paquistão, onde pretende implantar um estado islâmico, e com o objectivo último de islamizar o mundo.

Khadijah vê com tristeza os “infiéis”, que compara com ratos desorientados numa gaiola. Pensa que o mundo seria muito melhor se em cada esquina um "pub" desse lugar a uma mesquita. Numa conferência islâmica, este ano, defendeu que não se deve ouvir música nem ver televisão. Provavelmente tem razão, sem o saber, no que toca ao Channel 4.

sexta-feira, dezembro 29

Engolir espadas e os seus efeitos secundários

Alguém poderia imaginar que engolir espadas e facas envolve riscos físicos e financeiros e pode ter efeitos indesejáveis? Mais incrível ainda: as piores complicações surgem quando o executante está distraído ou quando engole várias espadas, ou espadas fora do comum. Pensa o leitor que as surpresas ficam por aqui? Então prepare-se: os ferimentos associados à prática de engolir espadas ocorrem... no esófago!!! e podem causar... hemorragia gastro intestinal!!! Depois disto, acho que já nada me poderá espantar. Está tudo descrito neste artigo do British Medical Journal, acabadinho de sair. Ciência para ser apreciada por si, motivada unicamente pelo desejo do avanço do conhecimento. Ainda por cima, recheada de conclusões que contrariam o senso comum.

Ah, esquecia-me de acrescentar que se conclui também que os ferimentos causados por engolir espadas têm em regra prognósticos melhores que os induzidos por prática médica. Não admira: não se pode ser bom em tudo. Já basta a argúcia teórica de que os autores do artigo dão mostras.

(Via Pajamas Media).

terça-feira, dezembro 26

A guerra no Iraque salvou centenas de portugueses em 2006

Aliviado o preço do petróleo e atestada a carteira dos portugueses na antevéspera do Natal, rapidamente se inverteu a propalada tendência de diminuição da sinistralidade rodoviária dos últimos meses, vanglória imputada pelo governo socrático à implementação do novo código da estrada e às campanhas públicas de sensibilização. Dezoito patrícios pereceram no asfalto nos últimos cinco dias festivos -a França, seis vezes mais populosa, registou onze mortos em três dias. Se caucionar o consumo excessivo de álcool e impor realmente limites de velocidade poderia abalar a popularidade do actual governo, como se provou na vigência guterrista, a tributação abusiva crescente dos combustíveis, passando incólume ao cidadão comum, é pelo menos uma solução que engorda o Estado e limita os danos corporais fora das festas.

domingo, dezembro 24

Feliz Natal...


...aliás, feliz festa de inverno, não quero ofender ninguém... hummmm... aliás, feliz festa de verão... já agora também não quero irritar ninguém no hemisfério sul.

O beliscão e a tabuada

Um miúdo de cinco anos está acusado de assédio sexual por beliscar o rabo de uma menina lá na escola. O caso passa-se numa primária de Maryland. A directora, Darlene Teach, não teve dúvidas em confirmar a a acusação, que passará a constar do curriculum do menino.

O pai da criança diz que tem dificuldade em explicar ao filho o motivo da acusação. Eu também não percebo. Talvez esteja desactualizado quanto aos avanços da psicologia e suas aplicações ao moderno jardim de infância. Em todo o caso infiro que, se se exige discernimento para identificar um beliscão com um acto de natureza sexual aos cinco anos, com certeza o conhecimento correcto da escrita e da tabuada é exigido aos dois ou três. Não admira que aos dezoito, em muitos casos, já tudo tenha sido esquecido.

sexta-feira, dezembro 22

A escolha da Science

O avanço científico do ano, para Donald Kennedy, editor da Science: o trabalho solitário de Perelman que conduziu à demonstração da conjectura de Poincaré. Trabalho profundo, duríssimo, que foi objecto de atenção de outros matemáticos. "Um assombroso triunfo do intelecto."

quinta-feira, dezembro 21

Paz e amor

Não é descabida a relação entre a ausência de orgasmo, sobretudo feminino, e a violência. Substrato recente da sociedade ocidental, a emancipação feminina arrastou a assunção de direitos exclusivos outrora dos homens e confrontou os últimos inclusivamente com os seus vícios e defeitos. O desprendimento nas relações amorosas e a procura de sensações em detrimento das emoções é apanágio no momento dos dois sexos. Por exemplo, ao folhear hoje casualmente uma revista destinada a adolescentes, deparei com um artigo que ensinava o modo de uma rapariga namorar simultaneamente vários rapazes sem ser delatada por nenhum deles. Conselhos e dicas que se abstinham de enumerar os riscos de transmissão de infecções. Por outro lado, os casamentos de conveniência económica dão lugar aos de conveniência afectiva, sexual e amorosa. Dispara também a taxa de divórcios, mas raros são já aqueles resolvidos litigiosamente. Contrapondo, no mundo árabe, a libertação sexual é uma aspiração das mulheres, vítimas primeiras da prepotência e da impotência de homens que, receosos da vibração contagiante do clitóris, edificaram uma religião à imagem do seu pénis.

Boas novas

Subitamente, o Falta de Tempo fica a contar com um novo membro. Boas vindas ao Nino!

quarta-feira, dezembro 20

Delft

Entrei, por generosidade, no estúdio de um pintor que admiro há vários meses pelas "cores transparentes, composições inteligentes e brilhante uso da luz".

A longa marcha pela igualdade

No uso do véu, as mulheres não estão sós. Um dos homens mais procurados pela polícia britânica ilude a segurança em Heathrow, com passaporte falso e véu.

terça-feira, dezembro 19

O sindroma da árvore




Na província, no tempo da minha infância, o Pai Natal era quase um desconhecido e as árvores, ao contrário dos presépios, também não se usavam muito.

Assim como a Igreja sobrepôs o Natal às remotas motivações das festas de inverno, a evolução social e económica e, em particular, o sucesso do capitalismo, erodiu os símbolos cristãos e transformou a quadra num apogeu de negócio e consumismo. É provável que muita gente desconheça até o significado da palavra natal. Os símbolos hoje omnipresentes são quase sempre desprovidos de conteúdo religioso.

Em alguns países europeus tem havido preocupação de escolas e de comerciantes em não ferir a sensibilidade de outras religiões (dizem, pudicamente, no plural) assistindo-se, assim, ao cancelamento de autos de natal, à desaparição de tudo o que tinha a ver com o presépio nas iluminações de natal das cidades, e até à tentativa de banir o perú das refeições da época...

A indiferença das populações ocidentais à religião é um dado adquirido que não é de agora. Os cuidados com as outras religiões é que constituem uma faceta doentia e recente da nossa falta de cultura e reflexão, chegando-se ao ponto de proibir a árvore. No Reino Unido há também reservas, por outras razões, ao contacto de crianças com o Pai Natal...

Se o mal entendido sobre os símbolos alastra, preparemo-nos para a proibição do descanso ao domingo ou das compras em dezembro.

Espero que não nos integremos na Europa que aí vem. Não me agrada a ideia de comer bacalhau e azevias na clandestinidade.

domingo, dezembro 17

sexta-feira, dezembro 15

O código de Carolina

Os amantes que se consideram traídos ou maltratados podem transformar-se em inimigos temíveis. Em casos extremos, chegam a assassinar. Toda a gente sabe isto.

Carolina, que até tem familiaridade com o mundo da prestação de serviços de pancadaria, não precisa de recorrer à violência. Subscrever um livro é eficaz, elegante e dá milhões. Carolina, que nada tem a perder, sabe como é frágil a posição do seu ex-amante. Carolina sabe que ele, mergulhado no futebol e publicamente exposto, não tem credibilidade superior à sua, e que o interesse de um público ávido de escândalos e as invejas dos outros balneários farão o resto. A justiça bem tentou evitar meter-se em alhadas. Magistrados que podem ter escapado a Dan Brown sofrem agora a humilhação de não poder escapar a Carolina.

Tão inimigos que eles são

Suspeito que riscar Israel do mapa não é suficiente para resolver o conflito do Médio Oriente.

quinta-feira, dezembro 14

O inferno do ensino-aprendizagem

A educação básica, nos Estados Unidos, atravessa um momento mau, em muitos aspectos semelhante ao que se passa entre nós, com os estudantes americanos a ficarem mal classificados em competições internacionais. Num relatório publicado em Setembro passado, Arthur Levine, da Columbia University, faz um diagnóstico dos erros na formação de professores nos Estados Unidos e avança com algumas recomendações. Do lado negativo, destaca a tendência das escolas superiores de educação para aceitar alunos de nível medíocre. Inquéritos mostraram que, no fim dos seus cursos, os estudantes não se sentem prepararados para dar aulas. As avaliações realizadas durante os estudos incidem mais sobre procedimentos do que sobre questões substantivas. O relatório recomenda que os programas de estudo dos futuros professores incluam uma licenciatura na respectiva especialidade e que uma percentagem significativa de professores seja formada em universidades prestigiadas pela investigação que fazem.

Não é por acaso que podemos aqui reconhecer problemas e propostas de solução de que já ouvimos falar entre nós. Os profissionais de educação portugueses (como os de outros países europeus) acusam uma fortíssima influência das modas educativas que, a par de outras más ideias, foram acolhidas em universidades americanas (da "boa América", como se diz agora). Alguns deles receberam formação (PhD) em universidades americanas com departamentos especializados na formação de formadores de professores.

Referindo um caso que conheço: os programas de Matemática aprovados e as metodologias para esta disciplina impostas pelo ministério da educação desde 1997 acusam uma influência forte das directivas emanadas do NCTM, National Council of Teachers of Mathematics. Também a Associação de Professores de Matemática costuma apoiar sistematicamente as posições do NCTM.

Tem sido reinante, nesta e noutras disciplinas, uma filosofia vulgar, importada de centros medíocres, e em grande expansão desde o início dos anos 90. Essa filosofia vem reduzindo a prática profissional dos professores a uma sucessão de actos burocratizados, ao mesmo tempo que menoriza a substância dos conteúdos disciplinares. Expressões-chavão como ensino centrado no aluno, desenvolvimento da auto-estima e de métodos de expressão autónoma, e referência ao professor como um facilitador as aprendizagens, passaram a ser usadas abundantemente em documentos oficiais, mas muitos professores, descrentes do catecismo que quiseram impor-lhes, não conseguem ouvi-las ou utilizá-las - quando a isso são obrigados - sem um riso interior de desprezo.

Entretanto, sucedem-se mexidas nos programas e alterações metodológicas frequentemente absurdas. Inseguros cientificamente ou desinteressados das suas matérias de ensino, uma parte considerável dos professores encara sem espírito crítico as alterações curriculares mais disparatadas. A baixa do nível de formação de docentes ajusta-se perfeitamente à política de arbitrariedade centralizada.

Os modernos gurus da educação usam até à náusea a feia expressão ensino-aprendizagem. Ingenuamente, pensam que nos convencem de que não conseguem desligar o acto de ensinar do acto de aprender (como isso fosse possível), mas já quase toda a gente percebeu que estão apenas preocupados em simplificar o primeiro. O problema é que acabaram por complicá-lo ainda mais para a maioria, tornando cada alteração curricular menor num quebra-cabeças, acessível apenas depois de acções e mais acções de formação, a cargo da clique de iniciados. São estes que vão explicar tudo aos outros, como se eles fossem muito burros. A vida dos professores já é um inferno há muito tempo.

domingo, dezembro 10

O relatório e os aplausos


(http://www.townhall.com/funnies/cartoonist/GaryVarvel/2006/12/1/)

Em face do desastre em que se transformou a invasão do Iraque, não há soluções fáceis. O relatório do Grupo de Estudo sobre o Iraque diz, entre outras coisas, isso mesmo, mas ousa avançar com propostas de acção surpreendentes. Não pela novidade, mas precisamente por não serem novidade. Colocando em destaque a solução do conflito entre Israel e a Palestina, os relatores legitimam a grande causa árabe das últimas décadas, edificada em torno de um povo que aos próprios vizinhos só interessa como bandeira. O relatório não menciona que este problema tem uma solução simples e talvez nenhuma outra: a destruição de Israel. A recomendação de negociar com toda gente, desde Irão até aos terroristas "moderados", (a Al-Qaeda fica de fora, porque sim), é tudo menos original: até cá em casa temos um ex-presidente, ilustre defensor dessa linha política, e que provavelmente teria ido mais longe, não propondo aquela limitação.

Não é, pois, muito original a substância do relatório, tal como não é novo o desconforto que ele provoca. No tempo das palavras de ordem contra a guerra no Iraque já se sentiu o mesmo. Se a lista dos que o aplaudem com entusiasmo inclui personagens e centros de poder pouco recomendáveis, algo não bate certo. O problema é que a lista de potenciais subscritores do relatório é grande demais.


Notícias do dia: Para variar, alguém queima retratos que não são de Bush. Onde? Claro que isto só poderia acontecer em Teerão, onde estudantes de uma universidade fizeram frente a Ahmadinejad, boicotando-lhe um discurso. Que pensarão estes estudantes, e outros estratos do povo iraniano com ódio ao regime, das recomendações para o diálogo com os actuais dirigentes?

Também em Teerão começa hoje um simpósio "científico" de natureza negacionista sobre o Holocausto. Participam 67 intelectuais e investigadores de 30 países. Um advogado palestiniano com passaporte israelita, com intervenção prevista, acabou por ter o visto recusado.

terça-feira, dezembro 5

domingo, dezembro 3

Luzes não poluentes



Só podem ser vistas em passeio a pé.

Para acabar de vez com a TLEBS

Como o meu último post sobre a TLEBS teve um número inabitual de comentários para este blog, volto ao assunto pela última vez.

A TLEBS é o exemplo acabado de como o ministério da educação, ao pretender resolver um problema, cria um problema maior. Acontece agora no português mas já aconteceu noutras disciplinas. A actual ministra tem aqui uma oportunidade, que o destino lhe oferece de bandeja, para mostrar que tem coragem e bom senso acima da média dos dos seus antecessores e que está mesmo preocupada com o bom funcionamento do sistema: se desTLEBSar imediatamente o ensino da língua materna fará um figurão. É um detalhe, é certo, mas é importante porque descomplica muita coisa.

A própria Maria Helena Mateus meteu os pés pelas mãos esta manhã, em declarações à Antena 2, afirmando que não se pretendia que tudo aquilo fosse ensinado nas escolas, ao mesmo tempo que admitia que não havia indicações claras para os professores sobre os limites de utilização da tenebrosa lista de nomes.

Não se trata de contestar o ensino da gramática, mas sim a necessidade da copiosa lista de designações para níveis básicos de ensino. Em certa medida, a TLEBS está a ser para o Português o que as recomendações dos programas oficiais, para que se faça referência a certos temas de ponta muito em moda, já são há alguns anos para a Matemática. Tais referências não podem passar do nível de conversa de café; e, a par da ênfase doentia nas virtudes das "novas tecnologias", destinam-se objectivamente a desviar a atenção do essencial e a mascarar com roupagem de novo rico a má estruturação dos programas.

Os linguistas têm culpas da situação? Alguma terão, mas a responsabilidade é do ministério, que oficializou com total insensibilidade, sob a forma de portaria, o produto que aqueles gostosamente lhe puseram nas mãos por encomenda.

Sem surpresa, chega-se à conclusão de que muita gente, a quem se reconhece autoridade para ter uma opinião na matéria, discorda profundamente da solução. Isto mesmo aconteceu a partir de 1995 em relação aos programas de Matemática: as críticas vindas de muitos docentes universitários não demoveram o ministério um milímetro na aprovação do trabalho encomendado a uma determinada equipa. A razão, para mim, é simples: as equipas a quem as encomendas são feitas acabam por ficar, conscientemente ou não, nas mãos de certos "especialistas" de educação e certas direcções de associações de professores que comandam o processo, e cujo apoio tem peso determinante nas decisões.

No caso concreto da TLEBS, o que está em causa é o facto de a encomenda se destinar ao ensino básico e secundário. Sou a favor da TLEBS mas apenas entre adultos e com consentimento mútuo.

sábado, dezembro 2

quinta-feira, novembro 30

terça-feira, novembro 21

O terrorismo linguístico

Toda a magia fora extinta. As longas cavalgadas que ela tanto adorava fazer. Um dia tinha caído mesmo junto àquela árvore que se encontrava à sua direita. À esquerda, um lago suficientemente grande para passar os dias de Verão. Depois, ao pôr-do-Sol, avistava-se ao longe o cume das montanhas, e alguns veados que por lá andavam.

.........................
Todos sabemos como são importantes as séries no nosso quotidiano. Alguns, pensam que estas fitas fragmentadas ao longo de um período, não são mais do que criações americanas para nos ajudarem a ‘passar o tempo’! E, eu até estou totalmente de acordo!


.........................

Estas frases pertencem a textos colocados sob a entrada "Boas Leituras na Net" no site da Associação de Professores de Português (APP). Boas? Estranho qualificativo, para já não falar de discordância sintática e colocação errada de vírgulas.

Uma coisa estes textos permitem compreender: o desprezo da APP pelo bom gosto e pela correcção no uso língua portuguesa. Segundo o PÚBLICO de hoje, um abaixo assinado que reune as assinaturas de V. Graça Moura, E. Prado Coelho e José Saramago, e onde a TLEBS é contestada, não impressiona a APP: o seu presidente afirma estar à espera dos pontos de vista de quem dá aulas e não dos de escritores. Não precisava de explicar: já se tinha percebido há muito tempo.

sábado, novembro 18

Post light

A minha escolha entre as coisas que só acontecem no cinema:

- Um tipo vai na rua e apetece-lhe cantar e dançar. Uma orquestra invisível, mas completa e afinada, está pronta a acompanhar, e toda a gente com quem o tipo se cruza acerta com a coreografia.

-No quarto de dormir, depois de se apagar a luz, todos os objectos continuam visíveis, apenas um pouco azulados.

(via kariba).

sexta-feira, novembro 17

O pecado segundo o Corão

Uma mulher de 39 anos, viúva há seis, deu à luz uma criança em Hail, Arábia Saudita. Em consequência, foi condenada à morte por apedrejamento. A mulher não recorreu da sentença, que aceita como purificação. Os seus três outros filhos foram recolhidos num reformatório.

quinta-feira, novembro 16

Filosofia de fino recorte técnico

Reclamar a posse completa da verdade absoluta (...) é tão vão como a rejeição categórica da verdade (...)

Quem escreveu esta frase, quem? nada mais nada menos que Mohammad Khatami, ex-presidente do Irão, que acaba de participar no forum do Washington Post sobre "religião e monopólio da verdade". A escrita mostra que o autor não brinca em serviço. Pelo menos é um bom aprendiz do uso de certa linguagem bem reconhecível: militando na Aliança de Civilizações (leia-se do Islão com alguma esquerda europeia) o homem adquiriu capacidades que pedem meças a qualquer Eduardo Prado Coelho ou até Boaventura Sousa Santos. Aprecie-se só como ele sabe referir-se aos indivíduos incompletos que falsamente reclamam completude e procuram afirmar o próprio "Eu" obliterando a identidade do "Outro"!

Noutra passagem, Khatami fala de eliminar obstáculos e atingir objectivos. Nós, mal intencionados, lembramo-nos logo de Israel e de bombas atómicas.

Execução

Um homem condenado por sodomia foi enforcado anteontem à tarde em Kermanshah, no Irão. A execução foi aplaudida por algumas centenas de espectadores.

quarta-feira, novembro 15

Mais TLEBS

O Presidente da Associação Portuguesa de Linguística, João Costa, aparece hoje, em carta ao Director do PÚBLICO, em defesa da TLEBS. Mas não responde a nenhuma das pertinentes objecções de que a manobra TLEBS tem sido alvo. Aguardo, curioso, o surgimento de alguma defesa da operação que não venha do seu núcleo gerador e incubador (alguns linguistas, a Associação de Professores de Português e o Ministério da Educação).

Que a TLEBS não é um manual de gramática já todos percebemos. O que se contesta é a sua utilidade e necessidade, bem como a sua exótica legitimação através de portaria, cheia de considerandos que tresandam fantasia. Quando se diz que a TLEBS introduz termos relevantes para uma boa descrição do funcionamento da língua portuguesa, a resposta mais benevolente é: talvez, mas não para as necessidades do EBS e dos professores de português nesse nível. A utilidade da gigantesca lista de designações para o ensino do uso correcto da língua é a mesma que teria, para o ensino da Matemática, classificar os números em pequenos, grandes e assim-assim, ou uma nova lista de designações para classificar os triângulos a partir da posição do ortocentro. No fim, vai haver a mesma confusão entre há, à (para já não falar de á), entre ficaste e ficas-te.

João Costa afirma que muitas das classificações propostas são para esclarecimento dos docentes. Dada a perplexidade originada com o documento, parece razoável pensar que o esclarecimento era bem dispensável.

A TLEBS não passa de uma resposta pretensiosa e inadequada a um problema inexistente, e que na substância não difere muito do modo como os sucessivos ministérios da educação vêm aprovando conteúdos e metodologias para os ensinos básico e secundário. Em matérias como a Matemática isso é menos escrutinável pelo grande público, mas os mesmos sinais de incompetência e falta de bom senso estão lá todos.

segunda-feira, novembro 13

Desnatando o Natal



No Reino Unido, instituições governamentais e governos locais têm-se esforçado por esvaziar as festas do Natal do significado cristão que lhes dá corpo, com receio de irritar a população emigrante muçulmana. Nos selos de correio ou nas iluminações há estrelas e bonecos de neve, mas não há presépios. Já foi proposto um nome politicamente correcto para os festejos: Winterval, porque Christmas pode ter uma ressonância inoportuna.

No meio disto, vem um Forum Cristão Muçulmano, lançado pelo Arcebispo de Cantuária, pedir que se deixe o Natal em paz. Os muçulmanos representados no Forum não querem ser olhados como aqueles que atacam as raízes da cultura cristã no país. Declararam ainda que a vontade de secularizar festas religiosas é ofensiva para ambas as comunidades.

As soluções simples

Se pudesse,Elton John acabaria com a religião: pelo menos é o que declarou, numa entrevista publicada no fim de semana. Além de lançarem ódio contra os gays, os chefes religiosos nada fazem pela paz. Não ouviram o apelo de Sir Elton para uma grande cimeira após o 11/9.

A popestrela queixa-se também da falta de militância das gentes, que em vez de sairem à rua defender as suas (dele, presume-se) ideias, ficam a protestar no teclado global. Apesar de tudo, é sensível à apreciação que o vasto público lhe dispensa e crê assumir um papel respeitável, equivalente ao da rainha mãe.

As considerações do cantor não têm nada de mal e são com certeza adequadas aos media onde são publicadas. Quem preferir a mesma visão simples sobre o mundo embrulhada num discurso mais sofisticado tem muito por onde procurar.

sábado, novembro 11

O estado da língua

No PÚBLICO de hoje há um anúncio de página inteira, assumindo a forma de carta aberta ao Provedor de Justiça, que pretende esclarecer a opinião pública sobre os contornos de determinado processo.

É natural pensar que a elaboração do texto deverá ter sido confiada a advogados ou alguém que mereça, em princípio, um grau de confiança equivalente para o efeito.

Surpreendentemente, ou nem por isso, os erros de sintaxe e colocação de vírgulas são de tal ordem que por vezes temos que reler para ver se compreendemos o que nos estão a contar.

Como está na moda analisar os mais variados textos nas aulas de Português, a página 27 do PÚBLICO vem, involuntariamente, proporcionar um grande exercício de ensino-aprendizagem: reescrever o texto do anúncio em português. Cuidado, porque algumas das frases precisam de uma boa volta.

Mario Vargas LLosa, no ABC de hoje

Há muito que criticar, o Patriotic Act, Guantanamo, Abu Grahib... São fenómenos lamentáveis, perigosos, mas o interessante é que isso gerou críticas tão fortes quer nos Estados Unidos quer entreos seus inimigos e (...) pelo menos alguns foram corrigidos. (...) é muito interessante a a formidável capacidade autocrítica que os estadunidenses possuem (...), algo que na Europa, onde o antiamericanismo é tão cego, não é tido em conta. Se há uma sociedade que se confronta a si mesma com verdadeira ferocidade, é os Estados Unidos. A prova é a última campanha eleitoral.

Há muitos casos em que a democracia não surgiu de dentro, mas sim do exterior e com a ajuda de um exército estrangeiro; Alemenha, Japão... que são hoje democracias sólidas. (...) A história confirma que que a maioria dos países não tem tradição democrática e democracias muito estáveis e firmes têm uma escassa tradição democrática, como Espanha. Se em Espanha foi possível, se foi possível em vários países latino-americanos, porque não há-de ser possível no Médio Oriente?

... o terrorismo tem capacidade de destruição graças à fantástica evolução da tecnologia, que além disso a põe ao alcance de muitas organizações terroristas como a Al-Qaeda

... o empobrecimento do nível ético e cultural dos grandes meios de comunicação é um fenómeno gravíssimo do nosso tempo. Apesar de algumas excepções, há um sensacionalismo, uma predisposição a procurar o atractivo, quando não o escandaloso (...) e isso é uma maneira de deformar a realidade.

quinta-feira, novembro 9

O inimigo número um

Com o estado de coisas a que se chegou no Iraque e os desígnios e objectivos da "luta antiterrorista" envoltos em nevoeiro espesso, a derrota dos Republicanos há-de proporcionar alguma possibilidade de mudança. A administração, que frequentemente foi acusada de incompetência ao não prevenir os atentados de 11/9 e ao contribuir para transformar, de facto, o Iraque numa incubadora de terrorismo, mostra que afinal partilhava o erro de percepção ingénua da realidade que se tem revelado em múltiplas sondagens: acreditou sempre que os Estados Unidos, talvez incorporados em Bush, eram a maior ameaça para o mundo. As eleições e o seu resultado são um primeiro golpe nesta crença.

Talvez agora se possam começar a levar a sério as intenções do inimigo (para os Estados Unidos e para a Europa) mais perigoso, mais difuso e cada vez mais poderoso, e dar-lhe o lugar que merece no pódio das ameaças.

terça-feira, novembro 7

Veladamente

Depois do caso de uma professora, agora é o de uma advogada: o uso do véu a colidir com a eficácia do acto de comunicar. Um juiz suspende um julgamento por a advogada se recusar a levantar o véu.

Assim de repente só me ocorre uma situação onde o véu passa bastante bem e até vem a calhar: é o caso das dentistas ou cirurgiãs.

No entanto, intriga-me como é que, em qualquer caso, se faz a verificação da identidade: quem se mete na cadeira de um dentista de que não pode fazer o reconhecimento?

segunda-feira, novembro 6

Lamentos sobre uma pena de morte

A notícia da condenação à morte de Saddam Hussein foi já seguida por manifestações de apoio a uma comutação da pena, vindas de dirigentes políticos e do próprio Vaticano.

Não quero aqui discutir a pena de morte nem sequer o caso especial de que se trata. O que me parece é que as pessoas com responsabilidades de poder que genuinamente estão preocupadas com a existência de pena de morte deviam manifestar-se com mais frequência, pois infelizmente não faltam execuções legais em cada dia que passa. Isto para já não falar de penas degradantes e desumanas infligidas em certos países por delitos que nós não consideramos como tais. Se, nos governos que têm capacidade para exercer alguma pressão, as vozes em defesa da dignidade da vida humana se fizessem ouvir com mais insistência, de vez em quando acabariam por acertar em pessoas bem mais merecedoras dos lamentos do que Saddam.

quinta-feira, novembro 2

A propósito de arte comprometida

Foram anunciados ontem os vencedores do concurso de caricaturas sobre o Holocausto promovido pelo governo do Irão.

Atentas às violações da liberdade de expressão no perverso mundo ocidental, as autoridades não divulgaram a identidade do 2º classificado, um cidadão francês, que correria o risco de perseguição por negacionismo pelo regime despótico que vigora em França.

O ministro da cultura iraniano aproveitou para reafirmar que o Holocausto não passa de um mito, atribuindo a quebra do tabu ao presidente Ahmadinejad. Mas aqui não esteve bem: convém lembrar que o presidente não tem originalidade nenhuma. Era o que faltava, irem vender-nos mais uma grande descoberta teórica como sendo originalidade do Islão. Negacionistas e revisionistas não faltam na Europa. Com certeza ainda não nos esquecemos de David Irving. E também é justo mencionar a propósito Felix Ermacora, que de resto fez uma crítica muito favorável à Guerra de Hitler daquele autor. Ermacora foi fundador do Instituto Internacional para a Lei das Nacionalidades e o Regionalismo, em que colaboraram ex-nazis. Ermacora foi também o mestre de Nowak (referido em dois posts abaixo), o tal muito preocupado com a tortura em Guantanamo. Joe Rosenthal conta tudo, com documentação, aqui.

quarta-feira, novembro 1

Manual de boas maneiras

Uma autoridade local no West Yorkshire acaba de lançar um manual para educação dos seus funcionários nas regras do politicamente correcto.

Algumas das normas não têm novidade nenhuma: quem é que não está já inteirado da carga ofensiva de palavras como fireman ou policeman, verdadeiras bombas de exclusão?

A novidade é que a expressão politicamente correcto passa também a ser proscrita. Não é caso para admirar. Na Europa quase ninguém tem orgulho em seja que crença for, incluindo os simpatizantes de ideologias aparentadas com fascismos.

Pelo meio fica a notícia de outra norma preocupante: o manual ensina que mudar a arrumação da secretária de alguém equivale a dar um empurrão ou um pontapé na pessoa em causa. Imagine-se a litigiosidade daqui decorrente se alguém se lembra de aplicar o preceito à prestação de trabalho doméstico. Mas o pior é que, ao equiparar a desarrumação ao pontapé, este fica desvalorizado e um potencial agressor tenderá a aplicar o grau seguinte da violência. Os autores do manual não se dão conta de que estão a ofender gravemente as pessoas que têm tendência para usar o pontapé, diminuindo-lhes o alcance da atitude.

O manual terá reduzida importância, mas acusa o sintoma doentio da inclinação para achar que tudo é igual. Noutra escala, quando Manfred Nowak, relator das Nações Unidas, classificou como tortura a alimentação forçada de presos de Guantanamo em greve da fome, como é que se terão sentido os arrancadores de unhas, os empaladores, e os mutiladores de genitais? Ah, pois, eles também têm o direito à indignação.

segunda-feira, outubro 30

quarta-feira, outubro 25

Curiosidades

Numa notícia de há poucos dias, o Daily Mail contava o caso de uma professora de quarenta anos e com filhos adolescentes, que se envolveu sentimentalmente com um aluno de 14 anos, amigo de um dos filhos. A professora foi julgada e condenada com uma sentença de prisão e pena suspensa. Tanto quanto se sabe, não houve relações sexuais entre professora e aluno. Mesmo assim, a notícia era abundante em referências detalhadas ao modo como os amantes se relacionavam.

Nos Estados Unidos, os jornais, televisões e blogs têm falado muito do caso do congressista republicano Mark Foley. Recentemente, foram tornadas públicas conversas registadas num instant messenger entre Foley e estagiários de 18 anos ou talvez menos, com conteúdo sexual explícito. Fica claro que houve, no mínimo, tentativa de abordagem sexual por parte do congressista em relação aos jovens. Prestando-se a fácil exploração política em época de eleições, muitos órgãos de informação têm-se empenhado na divulgação das tais conversas, cujas passagens escabrosas as tornaria apropriadas a diálogos de filme porno se os filmes porno tivessem diálogos. Em vez de ficção porno, que poderia ser mal vista, serve-se aos leitores pornografia sob o pretexto de notícia.

Os media, interpretando o sentir do bom cidadão, cerram fileiras contra tudo o que cheire a pedofilia, mas estão-se nas tintas para a privacidade dos menores eventualmente envolvidos nos casos e para os possíveis efeitos de sedução (tanto em adultos como em adolescentes) dos episódios relatados. Se o pormenor chocante vende, então publica-se.

Nestes dois casos as acusações incidem apenas sobre relações virtuais. Nem por isso os relatos detalhados deixam de poder ter um efeito potencialmente perverso.

Nos Estados Unidos os escândalos sexuais são publicitados e explorados em maior escala que na Europa. No caso de envolvimento de menores, o facto de a idade de consentimento ser mais baixa na Europa pode ter a ver com essa diferença. Mas a atitude europeia também tem os seus pontos curiosos. Como bem recordou John Rosenthal, o que é politicamente correcto em certas esferas de pensamento, a que a universidade confere respeitabilidade, é uma defesa dupla dos menores: defesa do assédio não desejado e defesa do direito a relações desejadas (sim, mesmo com adultos). Disso é exemplo a tese de H. Graupner, aprovada por um júri de que fez parte o Prof. Manfred Nowak, que por acaso, ou talvez não, é também militante da causa dos presos de Guantanamo.

terça-feira, outubro 24

segunda-feira, outubro 23

As palavras perigosas

Daniela Santachè, deputada italiana, afirmou na sexta feira num debate de tv com o imã milanês Ali Abu Shwaima que o véu não é um símbolo religioso, mas sim um sinal de submissão das mulheres. O iman respondeu violentamente declarando-a infiel, ignorante e semeadora de ódio. As ameaças produzidas em directo podem ser consideradas uma fatwa implícita.

Santachè vai estar sob escolta policial mas não se intimidou. Convencida de que é necessário falar das coisas como elas são, sem rodeios, voltou a reafirmar publicamente a sua convicção e comparou o véu à estrela amarela para os judeus. Apesar de alguma solidariedade que lhe foi manifestada, inquieta-a o silêncio das feministas. "Não se trata de medir centímetros de véu nem de apreciar, como já foi feito, se fica bem às mulheres ou não. É um símbolo que devemos rejeitar, estamos em Itália e não há lugar aqui para califados."

segunda-feira, outubro 16

A FALAR complicamos tudo

O apodrecimento da Nomenclatura
...a Nomenclatura Gramatical Portuguesa foi, progressivamente, acusando a inexorável usura do tempo, tendo deixado, há muito, de constituir referência para a solução de problemas que têm vindo a ser identificados no campo do ensino da língua portuguesa, nomeadamente no que se refere à constituição de uma terminologia especializada, apta a instituir e a descrever os factos linguísticos, permitindo a criação de instrumentos de trabalho reconhecíveis por professores e alunos, delimitando o conhecimento pedagogicamente válido na área da linguística e clarificando as bases da relação entre os saberes escolares e os saberes científicos.

A aurora da Terminologia
Daí que, em 1997, tenha tido início, no âmbito do projecto FALAR (Formação de Acompanhantes Locais: Aprendizagem em Rede), da responsabilidade do Departamento do Ensino Secundário, tendo por objectivo a formação de professores de Português, ao nível nacional, um conjunto de acções, amplamente participadas (foram envolvidos cerca de 15000 professores dos ensinos básico e secundário), com vista à identificação de necessidades e lacunas. Em resultado da discussão pública gerada em torno dos documentos consequentes àquelas acções, foi constituído um grupo de trabalho integrado por representantes dos Departamentos do Ensino Secundário e da Educação Básica e da Associação de Professores de Português, por professores do ensino secundário, em exercício de funções lectivas, e por especialistas do ensino superior, que, levando em conta toda a documentação até então produzida e atingido o consenso entre as partes envolvidas, elaborou uma proposta de Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Este documento de trabalho foi entregue a equipas de investigadores universitários para definição e explicitação dos termos, segundo os domínios de especialidade definidos na Terminologia Linguística...

Esta embaladora redacção é o preâmbulo da Portaria n.º 1488/2004, onde logo a seguir se enumeram centenas e centenas de designações de tudo o que o Ministério da Educação comprou aos linguistas para facilitar a vida aos professores e alunos em matéria de Português.

Publicada no Diário da República e remetida para utilização por professores em pânico com o-a ensino-aprendizagem das categorias gramaticais às crianças, esta fabulosa peça liguística perdeu o seu impacto humorístico. Recentemente alvo de críticas, a TLEBS arrisca-se a passar pelo que não é: a lista não interessa para nada, até porque as perguntas de gramática nos exames pouco mais são do que pequenas charadas, sendo mais importante levar uma ou duas ideias bem assentes sobre a fome no mundo e talvez as alterações climáticas. O melhor da TLEBS é o preâmbulo da portaria, onde se descreve de modo exemplar como o ministério da educação aborda os problemas de conteúdos. A um diagnóstico inverosímil segue-se uma medida que transborda fantasia. Pelo meio, um ou outro lóbi colhe uns amendoins com acções de "formação" e ganhos de influência. Dessa vez foram linguistas e a tenebrosa Associação de Profs de Português os contemplados, mas com a sua participação acabaram por exibir, além da barroca erudição académica dos primeiros, uma tremenda falta de senso de todos. "Ciência" de ponta para o ensino básico! Estampada no jornal oficial! Se o mesmo for feito para outras disciplinas, o Diário da República vai competir com as melhores revistas científicas do planeta. Instalar-se-á um sistema de rigoroso controlo de qualidade e os nossos deputados correrão o risco de ver recusada a publicação de muitos dos seus projectos.

A estética ausente

O bispo D. António Marto lamentou, há poucos dias, que a estética esteja ausente em Fátima. Queria referir-se ao caos urbanístico e ao mostruário de bugigangas de inspiração religiosa que inundam as montras e as esquinas. Mas como podia ser de outra maneira? O kitsch que D. Marto execra começa na própria história das aparições, a ponto de a Igreja ser relutante a recomendar aos fiéis que a levem muito a sério. Se a história de Cristo já aparece aos nossos olhos de hoje como uma fábula que só a distância temporal permite normalizar, ela tem apesar de tudo um apelo poético e humano que lhe dá força: um deus feito igual a nós para sofrer como nós e nos “salvar” (não vale a pena perguntar de quê, pois matéria para lágrimas é o que menos falta neste mundo). Ao contrário da mensagem que se atribui ao filho, universal, positiva e radicalmente inovadora, a da Senhora está contaminada pela circunstância que lhe retira grandeza: meter-se na política da época e ao mesmo tempo mostrar um inferno prestes a ser desacreditado é um programa para esquecer. Mais vale acreditar que havia mesmo algum segredo que valesse a pena. Não fabrica evangelhos quem quer.

Não sei se D. Marto reparou, mas a violação da estética não está só em Fátima. Basta entrar na maioria das igrejas em hora de missa para o comprovar. A qualidade das homilias e da música que se ouve nos templos (com ou sem violas) é de estarrecer. Estou a falar do meu ponto de vista, claro, que admito que tenha alguma coincidência com o do bispo. Mas que outra coisa seria possível? Se o culto é para as “massas”, há que nos conformarmos ao gosto delas, que coincidirá já com o gosto da maioria dos padres, os quais vêm das “massas”. Naturalmente, as elites preferem Leonardo, Giotto ou Lucas Cranach às santinhas com corações trespassados em molduras de pechisbeque, e as paixões de Bach aos tristes e feios cânticos que não chegam ao céu, mas o problema é delas. Se a Igreja se revela incapaz de promover símbolos de qualidade (que possivelmente estariam de acordo com uma devoção de qualidade) o problema é dela.

sexta-feira, outubro 13

A Ciência é política



Está visto que hoje é dia de caricaturas. Mais informação a acompanhar o cartoon em Cox and Forkum.

(Nota: o título do post é uma citação de Richard Horton, editor da Lancet.)

Há uma discussão do artigo da Lancet aqui.

O cavalo de Teerão





O curioso caso de "Hugh Bradley", participante no concurso de caricaturas sobre o Holocausto promovido pelas autoridades iranianas. A história está contada aqui.





(Curiosidade: Portugal tem uma participação aceite.)

quarta-feira, outubro 11

"Há sempre um CD lá por casa"

Notícia hilariante, no PÚBLICO de hoje, que nos ajuda finalmente a compreender o significado da expressão enriquecimento curricular.

terça-feira, outubro 10

A parte é maior que o todo

O estatuto de vítima tornou-se tão atraente que no Reino Unido parece que a percentagem de vítimas na população já atinge os 73% (o que deixa muito pouco espaço livre para os opressores). Segundo o criminologista David Green a situação real é ainda pior: o número de vítimas excederá já o total da população, porque quando se é, é-se vítima de uma categoria específica de ódio (presumo que um árabe negro gay pode contar por três). No fim parece haver relativamente poucos agressores, a não ser que muitas vítimas de uma categoria sejam agressores noutra. De qualquer modo há aqui qualquer coisa que não funciona bem: o excesso de vítimas deveria causar a desvalorização da sua condição. Parece que os legisladores não previram este efeito perverso que contraria as suas boas intenções. Está-se mesmo a ver que, se os da mesma escola se põem a legislar em matéria fiscal, a taxa de IRS mínima vai acabar por ultrapassar a máxima.

Não ofender uns e ignorar outros



Ao mesmo tempo que há grande preocupação em não ofender os extremistas violentos, há tendência para ignorar os que se batem por liberdade, afrontando fanatismos em condições duríssimas. Não deveriam os meios de comunicação ocidentais dar mais atenção ao que se passou no passado sábado em Teerão?
(Via Gateway Pundit)

segunda-feira, outubro 9

Curiosidades

Uma reportagem emitida ontem pela SIC dava conta da diversidade de métodos em uso para ensinar as crianças a ler e a escrever. Ficámos a saber que, para além dos métodos mais ou menos tradicionais, estão no terreno as estratégias do Movimento Escola Moderna (MEM), já há algumas dezenas de anos. Os professores do MEM entrevistados fizeram, naturalmente, a apologia do seu ensino inovador. Os outros defenderam-se como puderam, alegando que não se sentiam preparados para experimentar uma actuação diferente e possivelmente pôr em risco o sucesso das turmas. Mas, aparentemente, não se sabe, e a reportagem não inquiriu, se afinal há diferenças entre os resultados da aprendizagem tradicional e os da inovadora. Talvez exigisse um trabalho de campo moroso e a requerer muito cuidado, mas valeria a pena. Curiosamente esse é o tipo de investigação que os profissionais das ciências de educação nunca fazem. Escrevem muitos artigos em que defendem os seus métodos na base de desejos e boas intenções, quando seria mais útil que nos mostrassem as diferenças a partir dos efeitos reais.

Fico curioso de saber se há diferenças sensíveis entre os que aprenderam a ler e a escrever à antiga ou à moderna: alguns têm maior dificuldade na leitura e compreensão de textos que outros? todos confundem à com ? Todos escrevem perguntas-te em vez de perguntaste? A SIC podia ter perguntado.

Aprendi também que o i é considerada por alguns professores a letra mais fácil, por isso é a primeira que ensinam. Mas não percebi porquê.

quarta-feira, outubro 4

Libertar é reprimir

Lésbica, mulher e palestiniana: é a tripla identidade que a si própria se atribui a senhora Rauda Moros. Um artigo do Guardian de há dois dias fala dela, da luta dos homossexuais palestinianos contra a perseguição e dos pequenos progressos que vão conseguindo. Os ingénuos leitores devem estar já a pensar que o grande problema enfrentado pela causa gay na Palestina é a rigidez do código moral islâmico, não? Ora, que bom que era se fosse só isso. Preparem-se: as maiores dificuldades vêm de Israel, pois claro! O facto de haver tolerância para com os homossexuais em Israel torna-os por sua vez mal vistos na Palestina.
Associar Israel com direitos dos homossexuais torna a vida difícil aos árabes gay. Israel e homossexuais constituem o duplo inimigo ideal para o islamismo conservador. Não por acaso, no jornal egípcio Sabah al-Kheir apareceu o título: "Golda Meir é lésbica."

O artigo continua dizendo que a história dos direitos dos homossexuais em Israel também tem muito que se lhe diga. No fundo, trata-se de uma estratégia israelita para se tornarem bem vistos ao mesmo tempo que a sociedade israelita se debate com outro tipo de desigualdades, não se está mesmo a ver?

Assim, os activistas palestinianos têm de convencer os compatriotas de que os gays israelitas são cidadãos decentes que apenas por acaso sentem atracção pelo mesmo sexo, o que em contexto de guerra e ocupação é um bico de obra.

Para um gay, fugir para Israel é traição, e ficar no território palestiniano é ficar sob suspeita, ser visto como colaborador.

Ler para crer.

Israel tem, pois, mais um desafio pela frente: por uma boa causa, deve abolir a descriminalização e outras modernices e começar de imediato a perseguir os homossexuais.

terça-feira, outubro 3

Teorizando

Os dirigentes da Igreja de Inglaterra têm uma explicação pós-moderna para a violência doméstica: o carácter masculino de Deus.

Este argumento tem um alcance teórico que pareceu escapar aos seus descobridores. O carácter masculino de Deus explica também porque é que, no acesso à carreira de padre, bispo ou arcebispo, a posse de um pénis parece ter prioridade sobre a capacidade de analisar a realidade e reflectir sobre ela.

segunda-feira, outubro 2

Concorrência

A BBC emitiu ontem um documentário com revelações comprometedoras para a Igreja Católica e onde também Ratzinger é visado . O caso tem a ver com a alegada cobertura a padres indiciados de abuso sexual de crianças.

Nos arquivos do Panorama registam-se três trabalhos, desde 2000, sobre os escândalos de pedofilia no seio da Igreja Católica. Ainda bem que tudo se vem a saber. Bem, nem tudo. O abuso de crianças não é um exclusivo da Igreja e não faltam pontas por onde pegar no assunto. Mas não seria justo que a BBC açambarcasse tudo: com certeza a Al Jazeera está atenta e fará a parte que lhe toca. Vai ser já a seguir.

domingo, outubro 1

Decassílabos perigosos

A isto mais se ajunta que um devoto
Sacerdote da lei de Mafamede,
Dos ódios concebidos não remoto
Contra a divina fé, que tudo excede,
Em forma do Profeta falso e noto
Que do filho da escrava Agar procede,
Baco odioso em sonhos lhe aparece,
Que de seus ódios inda se não dece.


Se a tendência para a auto-censura for para continuar, vai haver muito para desbastar nos Lusíadas. A versão corrigida vai ficar tão magra que poderá até voltar a ser leitura recomendada no ensino básico.

quarta-feira, setembro 27

Cristiano assobiado

Esta noite, no jornal de um dos canais de tv, comentavam-se os assobios de ontem, na Luz, dirigidos a Cristiano Ronaldo. O canal foi buscar um sociólogo para explicar o fenómeno. O homem lá disse umas coisas, mas eu estou convencido de que a D. Vitória, a minha estimável empregada de limpeza (que não é excelente a limpar o pó mas até percebe de futebol) explicaria melhor e mais depressa.

segunda-feira, setembro 25

Faraday e o copianço pós-moderno

Também no Reino Unido se fala de um aumento vertiginoso da fraude nos exames, graças aos avanços tecnológicos em matéria de comunicação por telemóveis e mp3.

Ora, depois de anos e anos de investigação em educação, de sofisticados estudos docimológicos em tudo o que é universidade que se preze, o melhor que se pode dizer de Jean Underwood, perita em assuntos escolares, é que não passa de uma bota de elástico irrecuperável: propõe Underwood, para emudecer os telemóveis, a instalação de gaiolas de Faraday nas salas de exame! (Antevê-se, em resposta, o regresso às cábulas de papel.) Electromagnetismo novecentista. Bah!

Os dejectos dos tapetes

Por motivo de incêndio numa casa de meninas em prédio colado ao Rossio, o PÚBLICO-LOCAL mobilizou uma repórter. O resultado vem lá hoje com caixa alta. Os vizinhos dão largas ao desagrado pela companhia que lhes coube. A Dona Glória, que faz anunciar as suas meninas nos classificados do Correio da Manhã, sacode "tapetes com dejectos esquisitos". O artigo não nos elucida sobre a natureza dos objectos, mas fica-se curioso. Talvez venha a ser objecto de uma peça jornalística mais aprofundada. Seria interessante até fazer um estudo comparativo com os dejectos de tapetes provenientes das casas de meninas anunciadas nos classificados do próprio PÚBLICO. Simples curiosidade científica.

domingo, setembro 24

A conspiração dos 25%

Um quarto dos portugueses ficará em casa durante a pandemia ( de gripe das aves).
Um quarto dos portugueses sofre de rinite alérgica.
Um quarto dos portugueses assistem a concertos.
Um quarto dos portugueses comprará na Internet em 2007.
Um quarto dos portugueses tem casa de férias.
Um quarto dos portugueses afirmou ter alterado os seus hábitos alimentares e de bebida nos últimos três anos
Um quarto dos portugueses prefeririam ser espanhois. ( Notícia de O Sol, ontem)


Estou a desconfiar disto. Provavelmente são sempre os mesmos. Respondem sim a tudo.

A submissão para além da morte em Bulwell

Na construção do novo cemitério de Bulwell, Nottingham, está previsto que todas as sepulturas estejam orientadas para Meca. Quem pretender um enterramento diferente, terá de fazer uma requisição especial. Curiosamente, a percentagem de população muçulmana em Nottingham não chega aos 5%. Tudo leva a crer que as iniciativas das autoridades locais vão já bem à frente das reivindicações. Pouco a pouco, por enquanto em aspectos aparentemente anedóticos, inócuos, a integração faz o seu caminho.

Cedências que contemplam o que está para lá da morte. Prenúncio terrível de uma possível, e provável, submissão em vida?