sábado, janeiro 20

Conversas com mulheres em fundo

A estupidez de algumas intervenções de bispos, padres e certos grupos de católicos-pimba no duelo pelo "não" dá fôlego a intervenções inúteis dos advogados do sim. Rui Tavares, por exemplo, no PÚBLICO de hoje, refere "ameaças sérias" e "ilegais" e "chantagem" sobre os votantes. Acreditará mesmo que a excomunhão suscita temor, aqui, hoje? Quando se trata de religião, a visão crítica "progressista", ao diabolizar tudo o que tem a ver com catolicismo, não faz mais do preparar o caminho a outras ameaças, mais próximas e sérias, em termos do espaço europeu, do que a distracção permite entender. A esquerda ocidental parece nem avaliar até que ponto já venceu ideologicamente (não por mérito próprio) a batalha contra a crença religiosa. Já não há inferno. E mesmo os "crentes" não levam a sério a maior parte dos textos bíblicos que, de resto, apenas uma ínfima minoria conhecerá.

Ontem, na SIC-Notícias, repunha-se uma intervenção de Pilar del Rio, uma presença encantadora e envolvente. Ponto forte foi a força das mulheres e a submissão a que são sujeitas a nível global. Pelo meio da entrevista, e a propósito dos livros de Saramago, referiu-se várias vezes à opressão vinda do catolicismo e, claro, a Inquisição marcou o ponto.

Num filme mais recente, Ségolène acaba de anunciar que a sua primeira lei visará defender as mulheres que sofrem maus tratos.

Não há progresso social compatível com a discriminação das mulheres. Espanha e França têm segmentos importantes de população que, com base em princípios religiosos, assumem a inferiorização das mulheres. Se não o soubéssemos já, não seria por Pilar ou Ségolène que o ouviríamos mencionar.

quarta-feira, janeiro 17

Enforcar com dignidade

Os lamentos sobre as recentes execuções de criminosos no Iraque são muito curiosos. É claro que as coisas não correram bem. Para evitar comunicação indesejada, hoje em dia nem nos exames se deixa entrar alunos com telemóveis. Houve insultos - coisa completamente supérflua quando se vai tirar a vida a alguém. Houve uma cabeça cortada - raro, mas pode acontecer, diz quem sabe. Deplorou-se a falta de "dignidade" nos procedimentos. E no entanto, esquecendo já que os condenados eram criminosos que promoviam a tortura de opositores políticos com trituradores de carne (entre outras engenhocas igualmente indignificantes), aparentemente as penas foram executadas com o cuidado de tudo se passar rapidamente. Nada parecido com o que costuma acontecer quando os carrascos não têm apuro técnico ou quando deliberadamente se pretende prolongar a agonia. Ou com outras formas de executar a pena de morte em países de cultura muçulmana. E mesmo com os processos mais sofisticados de matar há sempre a possibilidade de tudo correr mal: ainda muito recentemente, uma execução por injecção letal nos EUA alongou-se por quase meia hora. Quem estuda o assunto afirma que um nó adequado e uma queda calculada com precisão minimizam a duração do sofrimento. Está tudo tabelado. Para um condenado, dignidade é antes de tudo rapidez.

Fracos argumentos

Eu tenciono votar sim, mas faz-me pena assistir à sua defesa com estes argumentos.

O tráfico ilegal de droga também gera corrupção e (muito) dinheiro sujo. Não será então pelo menos igualmente urgente legalizar o comércio de droga?

quinta-feira, janeiro 11

Três enigmas

Ando intrigado com determinadas frases que temos lido no PÚBLICO ou ouvido na tv e na rádio, em relação com determinadas notícias dos últimos dias.

Uma tem a ver com a versão portuguesa da torre de Pisa. Pisa, aqui para nós, é Quarteira, claro. Um edifício começou a inclinar-se perigosamente: fala-se de "uma declinação de 30 centímetros em relação à vertical" (comunicado da Câmara Municipal de Loulé). Que será isto? Eu não digo que publiquem no jornal a inclinação em radianos, mas já agora, se fosse em graus poderíamos formar uma ideia melhor.

O segundo mistério relaciona-se com a frota de aviões que alguns parlamentares europeus perseguem com furor. Mais precisamente: com os alegadamente desgraçados neles transportados, os quais foram descritos como "agrilhoados" ou "acorrentados". Lembrei-me logo do Ben-Hur, do Spartacus e do Conde Monte Cristo. Ainda usam correntes? Pensava que desde meados do século 18 já não se fabricavam. O que me leva a uma pergunta conspirativa: seriam mesmo aviões? Com um atraso tecnológico destes, não admira que Ana Gomes e a Visão apanhem a CIA com a boca na botija.

Finalmente o último enigma. Valentim Loureiro acaba de desmentir categoricamente, num jornal de tv, revelações de Carolina. Afirma que nunca almoçou, lanchou ou jantou com ela e Jorge Nuno. A distracção fatal pode ser aproveitada pela procuradora: VL não negou nada que pudesse envolver o pequeno almoço.

terça-feira, janeiro 9

Choque electrónico

De acordo com o PÚBLICO de ontem, o MIC de Alegre vai tomar posição, sobre o referendo a respeito do aborto, com base na opinião dos seus membros
expressa em votação electrónica.

Cá está um toque de grande originalidade e modernidade. Para quê perder tempo com discussões e confrontos de teorias? De que vale ter princípios, se temos a aritmética?

A indignação pública tem preferências

Será retomado amanhã o julgamento de Nazanin Fatehi, de 18 anos. Foi condenada à forca por ter esfaqueado um homem de um grupo de três que tentaram violá-la e atacar também uma sobrinha em 2005. O tribunal poderá comutar ou confirmar a sentença.

Nazanin poderia, claro, não ter resistido e ter consentido a violação. Nesse caso o castigo seria reduzido a cem chicotadas. (Se fosse casada poderia ser condenada a apedrejamento.)

Há na net uma petição para salvar a vida de Nazanin.

A má sorte de Nazanin é ser uma mulher anónima e ter nascido no Irão, no nosso tempo. Se tivesse a notoriedade de um déspota com muitos milhares de vítimas no currículo, por ela se reuniriam coros de indignação de governantes e outras figuras públicas contra a pena de morte, por ela se fariam greves de fome, por ela se iluminaria o coliseu de Roma.

segunda-feira, janeiro 8

Prémio Euler

O Euler Book Prize da Mathematial Association of America foi atribuído a John Derbyshire pelo seu livro Prime Obsession. Derbyshire é também um dos principais animadores do Iconoclast (um blog muito atento às tentativas de islamização do Ocidente), que fica em link aqui ao lado.

sábado, janeiro 6

A doença infantil do concreto

Um dos sintomas do retrocesso que certo "pós-modernismo" representa é a colagem infantil ao concreto e circunstancial, desprezando a capacidade de abstracção que faz parte da nossa estrutura e natureza.

Por exemplo, no ensino pós-moderno da matemática, as recomendações pedagógicas da moda pretendem que, sistematicamente, cada novo conceito seja ancorado na experiência particular do aluno. Se isto é razoável e até necessário em muitos casos, não o é por sistema; o resultado é o empobrecimento dos conteúdos, dos quais tudo o que exija uma pitada de abstracção vai sendo relegado para um plano secundário, privando os estudantes de desenvolver a capacidade de lidar com o abstracto.

Na arte contemporânea o vício do concreto está bem à vista em obras ditas de arte conceptual, que normalmente reproduzem soundbytes de uma ideologia ou tendência política que nada de novo traz à arte em questão. O vício propagou-se nas últimas décadas ao teatro e à ópera. O mais recente e mediatizado exemplo é dado pela encenação do "Candide" por Robert Carsen, que abriu um conflito com a direcção do Scala por causa da cena espúria em que actores em cuecas ridicularizam determinados líderes políticos do momento. Defende-se Carsen dizendo que "o público do Scala é suficientemente sofisticado para compreender os objectivos de Voltaire". Que falha de raciocínio! Quanto mais sofisticado é o público, menos deverá necessitar de ilustrações rasteiras para uma mensagem dotada de uma certa universalidade.

Sexo por roupas

De acordo com este artigo do Guardian, a infecção por HIV está a preocupar as autoridades no Irão. Nas boutiques de moda feminina de Teerão, jovens prostitutas vendem o corpo para comprar roupa. Ninguém parece muito informado sobre os perigos do contágio. Em tomada de posição sobre o assunto, um grupo de 17 ayatollahs desculpabiliza o uso do preservativo mas insiste na prevenção e esclarecimento.

quinta-feira, janeiro 4

Alarme na escola inclusiva

Parece que os resultados escolares dos rapazes no Reino Unido persistem ano após ano num nível inferior ao das raparigas. Christine Gilbert, inspectora geral para as escolas, acaba de publicar as suas recomendações para lidar com o problema: os professores devem dar atenção às necessidades educativas especiais dos rapazes. É preciso que as escolas invistam em materiais didácticos específicos para cada sexo. Os rapazes devem ser encorajados a não se limitarem à literatura de ficção. A conclusão não se faz esperar: rapazes e raparigas devem estar em turmas separadas.

Um relatório encomendado pelo Muslim Council of Britain não faria melhor.

Os perigos de casar por amor

Mohammad Iqbal, paquistanês, casou com Shehnaz por amor. Mas Shehnaz pertence a uma tribo diferente, onde o casamento com gente de fora não é bem visto. Um grupo de homens armados executou a vingança: cortaram o nariz e as orelhas de Mohammad, as orelhas de um seu irmão e uma mão da mãe. A família está em tratamento num hospital. (Notícia da Reuters, transcrita aqui.)

domingo, dezembro 31

Gostava de Mateus Rosé

O seu tempo terminou ontem às 6 da manhã no Iraque. Tinha o Mateus Rosé como vinho favorito, embora nunca bebesse em público para não contrariar a imagem de bom muçulmano. Submeteu opositores, exterminou sem dó nem hesitações. Morreu a recitar versículos religiosos, mas provavelmente a maior angústia dos últimos instantes terá sido a consciência da impossibilidade de saber em que se tornarão aquilo que foi o "seu" Iraque, e os seus inimigos, daqui a cinco, dez, trinta anos.

(Via The Iconoclast.)

sábado, dezembro 30

Sob o véu

Já se chamou Elaine Atkinson. A bisavó foi sufragista e ela própria foi militante feminista. Agora chama-se Khadijah, depois de se converter ao Islão, onde encontrou as soluções para a vida. Khadijah foi escolhida pelo Channel 4 para a sua “mensagem de natal alternativa”, em que se apresentou de rosto coberto. Defendeu que o uso do véu liberta as mulheres e referiu o Minhaj-ul-Quran, grupo em que milita, como tolerante e respeitador de todos os credos. O Daily Mail quis saber mais e afirma que o Minhaj-ul-Quran é um grupo extremista com ligações ao Paquistão, onde pretende implantar um estado islâmico, e com o objectivo último de islamizar o mundo.

Khadijah vê com tristeza os “infiéis”, que compara com ratos desorientados numa gaiola. Pensa que o mundo seria muito melhor se em cada esquina um "pub" desse lugar a uma mesquita. Numa conferência islâmica, este ano, defendeu que não se deve ouvir música nem ver televisão. Provavelmente tem razão, sem o saber, no que toca ao Channel 4.

sexta-feira, dezembro 29

Engolir espadas e os seus efeitos secundários

Alguém poderia imaginar que engolir espadas e facas envolve riscos físicos e financeiros e pode ter efeitos indesejáveis? Mais incrível ainda: as piores complicações surgem quando o executante está distraído ou quando engole várias espadas, ou espadas fora do comum. Pensa o leitor que as surpresas ficam por aqui? Então prepare-se: os ferimentos associados à prática de engolir espadas ocorrem... no esófago!!! e podem causar... hemorragia gastro intestinal!!! Depois disto, acho que já nada me poderá espantar. Está tudo descrito neste artigo do British Medical Journal, acabadinho de sair. Ciência para ser apreciada por si, motivada unicamente pelo desejo do avanço do conhecimento. Ainda por cima, recheada de conclusões que contrariam o senso comum.

Ah, esquecia-me de acrescentar que se conclui também que os ferimentos causados por engolir espadas têm em regra prognósticos melhores que os induzidos por prática médica. Não admira: não se pode ser bom em tudo. Já basta a argúcia teórica de que os autores do artigo dão mostras.

(Via Pajamas Media).

terça-feira, dezembro 26

A guerra no Iraque salvou centenas de portugueses em 2006

Aliviado o preço do petróleo e atestada a carteira dos portugueses na antevéspera do Natal, rapidamente se inverteu a propalada tendência de diminuição da sinistralidade rodoviária dos últimos meses, vanglória imputada pelo governo socrático à implementação do novo código da estrada e às campanhas públicas de sensibilização. Dezoito patrícios pereceram no asfalto nos últimos cinco dias festivos -a França, seis vezes mais populosa, registou onze mortos em três dias. Se caucionar o consumo excessivo de álcool e impor realmente limites de velocidade poderia abalar a popularidade do actual governo, como se provou na vigência guterrista, a tributação abusiva crescente dos combustíveis, passando incólume ao cidadão comum, é pelo menos uma solução que engorda o Estado e limita os danos corporais fora das festas.

domingo, dezembro 24

Feliz Natal...


...aliás, feliz festa de inverno, não quero ofender ninguém... hummmm... aliás, feliz festa de verão... já agora também não quero irritar ninguém no hemisfério sul.

O beliscão e a tabuada

Um miúdo de cinco anos está acusado de assédio sexual por beliscar o rabo de uma menina lá na escola. O caso passa-se numa primária de Maryland. A directora, Darlene Teach, não teve dúvidas em confirmar a a acusação, que passará a constar do curriculum do menino.

O pai da criança diz que tem dificuldade em explicar ao filho o motivo da acusação. Eu também não percebo. Talvez esteja desactualizado quanto aos avanços da psicologia e suas aplicações ao moderno jardim de infância. Em todo o caso infiro que, se se exige discernimento para identificar um beliscão com um acto de natureza sexual aos cinco anos, com certeza o conhecimento correcto da escrita e da tabuada é exigido aos dois ou três. Não admira que aos dezoito, em muitos casos, já tudo tenha sido esquecido.

sexta-feira, dezembro 22

A escolha da Science

O avanço científico do ano, para Donald Kennedy, editor da Science: o trabalho solitário de Perelman que conduziu à demonstração da conjectura de Poincaré. Trabalho profundo, duríssimo, que foi objecto de atenção de outros matemáticos. "Um assombroso triunfo do intelecto."

quinta-feira, dezembro 21

Paz e amor

Não é descabida a relação entre a ausência de orgasmo, sobretudo feminino, e a violência. Substrato recente da sociedade ocidental, a emancipação feminina arrastou a assunção de direitos exclusivos outrora dos homens e confrontou os últimos inclusivamente com os seus vícios e defeitos. O desprendimento nas relações amorosas e a procura de sensações em detrimento das emoções é apanágio no momento dos dois sexos. Por exemplo, ao folhear hoje casualmente uma revista destinada a adolescentes, deparei com um artigo que ensinava o modo de uma rapariga namorar simultaneamente vários rapazes sem ser delatada por nenhum deles. Conselhos e dicas que se abstinham de enumerar os riscos de transmissão de infecções. Por outro lado, os casamentos de conveniência económica dão lugar aos de conveniência afectiva, sexual e amorosa. Dispara também a taxa de divórcios, mas raros são já aqueles resolvidos litigiosamente. Contrapondo, no mundo árabe, a libertação sexual é uma aspiração das mulheres, vítimas primeiras da prepotência e da impotência de homens que, receosos da vibração contagiante do clitóris, edificaram uma religião à imagem do seu pénis.

Boas novas

Subitamente, o Falta de Tempo fica a contar com um novo membro. Boas vindas ao Nino!