O Presidente da Associação Portuguesa de Linguística, João Costa, aparece hoje, em carta ao Director do PÚBLICO, em defesa da TLEBS. Mas não responde a nenhuma das pertinentes objecções de que a manobra TLEBS tem sido alvo. Aguardo, curioso, o surgimento de alguma defesa da operação que não venha do seu núcleo gerador e incubador (alguns linguistas, a Associação de Professores de Português e o Ministério da Educação).
Que a TLEBS não é um manual de gramática já todos percebemos. O que se contesta é a sua utilidade e necessidade, bem como a sua exótica legitimação através de portaria, cheia de considerandos que tresandam fantasia. Quando se diz que a TLEBS introduz termos relevantes para uma boa descrição do funcionamento da língua portuguesa, a resposta mais benevolente é: talvez, mas não para as necessidades do EBS e dos professores de português nesse nível. A utilidade da gigantesca lista de designações para o ensino do uso correcto da língua é a mesma que teria, para o ensino da Matemática, classificar os números em pequenos, grandes e assim-assim, ou uma nova lista de designações para classificar os triângulos a partir da posição do ortocentro. No fim, vai haver a mesma confusão entre há, à (para já não falar de á), entre ficaste e ficas-te.
João Costa afirma que muitas das classificações propostas são para esclarecimento dos docentes. Dada a perplexidade originada com o documento, parece razoável pensar que o esclarecimento era bem dispensável.
A TLEBS não passa de uma resposta pretensiosa e inadequada a um problema inexistente, e que na substância não difere muito do modo como os sucessivos ministérios da educação vêm aprovando conteúdos e metodologias para os ensinos básico e secundário. Em matérias como a Matemática isso é menos escrutinável pelo grande público, mas os mesmos sinais de incompetência e falta de bom senso estão lá todos.
quarta-feira, novembro 15
segunda-feira, novembro 13
Desnatando o Natal

No Reino Unido, instituições governamentais e governos locais têm-se esforçado por esvaziar as festas do Natal do significado cristão que lhes dá corpo, com receio de irritar a população emigrante muçulmana. Nos selos de correio ou nas iluminações há estrelas e bonecos de neve, mas não há presépios. Já foi proposto um nome politicamente correcto para os festejos: Winterval, porque Christmas pode ter uma ressonância inoportuna.
No meio disto, vem um Forum Cristão Muçulmano, lançado pelo Arcebispo de Cantuária, pedir que se deixe o Natal em paz. Os muçulmanos representados no Forum não querem ser olhados como aqueles que atacam as raízes da cultura cristã no país. Declararam ainda que a vontade de secularizar festas religiosas é ofensiva para ambas as comunidades.
As soluções simples
Se pudesse,Elton John acabaria com a religião: pelo menos é o que declarou, numa entrevista publicada no fim de semana. Além de lançarem ódio contra os gays, os chefes religiosos nada fazem pela paz. Não ouviram o apelo de Sir Elton para uma grande cimeira após o 11/9.
A popestrela queixa-se também da falta de militância das gentes, que em vez de sairem à rua defender as suas (dele, presume-se) ideias, ficam a protestar no teclado global. Apesar de tudo, é sensível à apreciação que o vasto público lhe dispensa e crê assumir um papel respeitável, equivalente ao da rainha mãe.
As considerações do cantor não têm nada de mal e são com certeza adequadas aos media onde são publicadas. Quem preferir a mesma visão simples sobre o mundo embrulhada num discurso mais sofisticado tem muito por onde procurar.
A popestrela queixa-se também da falta de militância das gentes, que em vez de sairem à rua defender as suas (dele, presume-se) ideias, ficam a protestar no teclado global. Apesar de tudo, é sensível à apreciação que o vasto público lhe dispensa e crê assumir um papel respeitável, equivalente ao da rainha mãe.
As considerações do cantor não têm nada de mal e são com certeza adequadas aos media onde são publicadas. Quem preferir a mesma visão simples sobre o mundo embrulhada num discurso mais sofisticado tem muito por onde procurar.
sábado, novembro 11
O estado da língua
No PÚBLICO de hoje há um anúncio de página inteira, assumindo a forma de carta aberta ao Provedor de Justiça, que pretende esclarecer a opinião pública sobre os contornos de determinado processo.
É natural pensar que a elaboração do texto deverá ter sido confiada a advogados ou alguém que mereça, em princípio, um grau de confiança equivalente para o efeito.
Surpreendentemente, ou nem por isso, os erros de sintaxe e colocação de vírgulas são de tal ordem que por vezes temos que reler para ver se compreendemos o que nos estão a contar.
Como está na moda analisar os mais variados textos nas aulas de Português, a página 27 do PÚBLICO vem, involuntariamente, proporcionar um grande exercício de ensino-aprendizagem: reescrever o texto do anúncio em português. Cuidado, porque algumas das frases precisam de uma boa volta.
É natural pensar que a elaboração do texto deverá ter sido confiada a advogados ou alguém que mereça, em princípio, um grau de confiança equivalente para o efeito.
Surpreendentemente, ou nem por isso, os erros de sintaxe e colocação de vírgulas são de tal ordem que por vezes temos que reler para ver se compreendemos o que nos estão a contar.
Como está na moda analisar os mais variados textos nas aulas de Português, a página 27 do PÚBLICO vem, involuntariamente, proporcionar um grande exercício de ensino-aprendizagem: reescrever o texto do anúncio em português. Cuidado, porque algumas das frases precisam de uma boa volta.
Mario Vargas LLosa, no ABC de hoje
Há muito que criticar, o Patriotic Act, Guantanamo, Abu Grahib... São fenómenos lamentáveis, perigosos, mas o interessante é que isso gerou críticas tão fortes quer nos Estados Unidos quer entreos seus inimigos e (...) pelo menos alguns foram corrigidos. (...) é muito interessante a a formidável capacidade autocrítica que os estadunidenses possuem (...), algo que na Europa, onde o antiamericanismo é tão cego, não é tido em conta. Se há uma sociedade que se confronta a si mesma com verdadeira ferocidade, é os Estados Unidos. A prova é a última campanha eleitoral.
Há muitos casos em que a democracia não surgiu de dentro, mas sim do exterior e com a ajuda de um exército estrangeiro; Alemenha, Japão... que são hoje democracias sólidas. (...) A história confirma que que a maioria dos países não tem tradição democrática e democracias muito estáveis e firmes têm uma escassa tradição democrática, como Espanha. Se em Espanha foi possível, se foi possível em vários países latino-americanos, porque não há-de ser possível no Médio Oriente?
... o terrorismo tem capacidade de destruição graças à fantástica evolução da tecnologia, que além disso a põe ao alcance de muitas organizações terroristas como a Al-Qaeda
... o empobrecimento do nível ético e cultural dos grandes meios de comunicação é um fenómeno gravíssimo do nosso tempo. Apesar de algumas excepções, há um sensacionalismo, uma predisposição a procurar o atractivo, quando não o escandaloso (...) e isso é uma maneira de deformar a realidade.
Há muitos casos em que a democracia não surgiu de dentro, mas sim do exterior e com a ajuda de um exército estrangeiro; Alemenha, Japão... que são hoje democracias sólidas. (...) A história confirma que que a maioria dos países não tem tradição democrática e democracias muito estáveis e firmes têm uma escassa tradição democrática, como Espanha. Se em Espanha foi possível, se foi possível em vários países latino-americanos, porque não há-de ser possível no Médio Oriente?
... o terrorismo tem capacidade de destruição graças à fantástica evolução da tecnologia, que além disso a põe ao alcance de muitas organizações terroristas como a Al-Qaeda
... o empobrecimento do nível ético e cultural dos grandes meios de comunicação é um fenómeno gravíssimo do nosso tempo. Apesar de algumas excepções, há um sensacionalismo, uma predisposição a procurar o atractivo, quando não o escandaloso (...) e isso é uma maneira de deformar a realidade.
quinta-feira, novembro 9
O inimigo número um
Com o estado de coisas a que se chegou no Iraque e os desígnios e objectivos da "luta antiterrorista" envoltos em nevoeiro espesso, a derrota dos Republicanos há-de proporcionar alguma possibilidade de mudança. A administração, que frequentemente foi acusada de incompetência ao não prevenir os atentados de 11/9 e ao contribuir para transformar, de facto, o Iraque numa incubadora de terrorismo, mostra que afinal partilhava o erro de percepção ingénua da realidade que se tem revelado em múltiplas sondagens: acreditou sempre que os Estados Unidos, talvez incorporados em Bush, eram a maior ameaça para o mundo. As eleições e o seu resultado são um primeiro golpe nesta crença.
Talvez agora se possam começar a levar a sério as intenções do inimigo (para os Estados Unidos e para a Europa) mais perigoso, mais difuso e cada vez mais poderoso, e dar-lhe o lugar que merece no pódio das ameaças.
Talvez agora se possam começar a levar a sério as intenções do inimigo (para os Estados Unidos e para a Europa) mais perigoso, mais difuso e cada vez mais poderoso, e dar-lhe o lugar que merece no pódio das ameaças.
terça-feira, novembro 7
Veladamente
Depois do caso de uma professora, agora é o de uma advogada: o uso do véu a colidir com a eficácia do acto de comunicar. Um juiz suspende um julgamento por a advogada se recusar a levantar o véu.
Assim de repente só me ocorre uma situação onde o véu passa bastante bem e até vem a calhar: é o caso das dentistas ou cirurgiãs.
No entanto, intriga-me como é que, em qualquer caso, se faz a verificação da identidade: quem se mete na cadeira de um dentista de que não pode fazer o reconhecimento?
Assim de repente só me ocorre uma situação onde o véu passa bastante bem e até vem a calhar: é o caso das dentistas ou cirurgiãs.
No entanto, intriga-me como é que, em qualquer caso, se faz a verificação da identidade: quem se mete na cadeira de um dentista de que não pode fazer o reconhecimento?
segunda-feira, novembro 6
Lamentos sobre uma pena de morte
A notícia da condenação à morte de Saddam Hussein foi já seguida por manifestações de apoio a uma comutação da pena, vindas de dirigentes políticos e do próprio Vaticano.
Não quero aqui discutir a pena de morte nem sequer o caso especial de que se trata. O que me parece é que as pessoas com responsabilidades de poder que genuinamente estão preocupadas com a existência de pena de morte deviam manifestar-se com mais frequência, pois infelizmente não faltam execuções legais em cada dia que passa. Isto para já não falar de penas degradantes e desumanas infligidas em certos países por delitos que nós não consideramos como tais. Se, nos governos que têm capacidade para exercer alguma pressão, as vozes em defesa da dignidade da vida humana se fizessem ouvir com mais insistência, de vez em quando acabariam por acertar em pessoas bem mais merecedoras dos lamentos do que Saddam.
Não quero aqui discutir a pena de morte nem sequer o caso especial de que se trata. O que me parece é que as pessoas com responsabilidades de poder que genuinamente estão preocupadas com a existência de pena de morte deviam manifestar-se com mais frequência, pois infelizmente não faltam execuções legais em cada dia que passa. Isto para já não falar de penas degradantes e desumanas infligidas em certos países por delitos que nós não consideramos como tais. Se, nos governos que têm capacidade para exercer alguma pressão, as vozes em defesa da dignidade da vida humana se fizessem ouvir com mais insistência, de vez em quando acabariam por acertar em pessoas bem mais merecedoras dos lamentos do que Saddam.
quinta-feira, novembro 2
A propósito de arte comprometida
Foram anunciados ontem os vencedores do concurso de caricaturas sobre o Holocausto promovido pelo governo do Irão.
Atentas às violações da liberdade de expressão no perverso mundo ocidental, as autoridades não divulgaram a identidade do 2º classificado, um cidadão francês, que correria o risco de perseguição por negacionismo pelo regime despótico que vigora em França.
O ministro da cultura iraniano aproveitou para reafirmar que o Holocausto não passa de um mito, atribuindo a quebra do tabu ao presidente Ahmadinejad. Mas aqui não esteve bem: convém lembrar que o presidente não tem originalidade nenhuma. Era o que faltava, irem vender-nos mais uma grande descoberta teórica como sendo originalidade do Islão. Negacionistas e revisionistas não faltam na Europa. Com certeza ainda não nos esquecemos de David Irving. E também é justo mencionar a propósito Felix Ermacora, que de resto fez uma crítica muito favorável à Guerra de Hitler daquele autor. Ermacora foi fundador do Instituto Internacional para a Lei das Nacionalidades e o Regionalismo, em que colaboraram ex-nazis. Ermacora foi também o mestre de Nowak (referido em dois posts abaixo), o tal muito preocupado com a tortura em Guantanamo. Joe Rosenthal conta tudo, com documentação, aqui.
Atentas às violações da liberdade de expressão no perverso mundo ocidental, as autoridades não divulgaram a identidade do 2º classificado, um cidadão francês, que correria o risco de perseguição por negacionismo pelo regime despótico que vigora em França.
O ministro da cultura iraniano aproveitou para reafirmar que o Holocausto não passa de um mito, atribuindo a quebra do tabu ao presidente Ahmadinejad. Mas aqui não esteve bem: convém lembrar que o presidente não tem originalidade nenhuma. Era o que faltava, irem vender-nos mais uma grande descoberta teórica como sendo originalidade do Islão. Negacionistas e revisionistas não faltam na Europa. Com certeza ainda não nos esquecemos de David Irving. E também é justo mencionar a propósito Felix Ermacora, que de resto fez uma crítica muito favorável à Guerra de Hitler daquele autor. Ermacora foi fundador do Instituto Internacional para a Lei das Nacionalidades e o Regionalismo, em que colaboraram ex-nazis. Ermacora foi também o mestre de Nowak (referido em dois posts abaixo), o tal muito preocupado com a tortura em Guantanamo. Joe Rosenthal conta tudo, com documentação, aqui.
quarta-feira, novembro 1
Manual de boas maneiras
Uma autoridade local no West Yorkshire acaba de lançar um manual para educação dos seus funcionários nas regras do politicamente correcto.
Algumas das normas não têm novidade nenhuma: quem é que não está já inteirado da carga ofensiva de palavras como fireman ou policeman, verdadeiras bombas de exclusão?
A novidade é que a expressão politicamente correcto passa também a ser proscrita. Não é caso para admirar. Na Europa quase ninguém tem orgulho em seja que crença for, incluindo os simpatizantes de ideologias aparentadas com fascismos.
Pelo meio fica a notícia de outra norma preocupante: o manual ensina que mudar a arrumação da secretária de alguém equivale a dar um empurrão ou um pontapé na pessoa em causa. Imagine-se a litigiosidade daqui decorrente se alguém se lembra de aplicar o preceito à prestação de trabalho doméstico. Mas o pior é que, ao equiparar a desarrumação ao pontapé, este fica desvalorizado e um potencial agressor tenderá a aplicar o grau seguinte da violência. Os autores do manual não se dão conta de que estão a ofender gravemente as pessoas que têm tendência para usar o pontapé, diminuindo-lhes o alcance da atitude.
O manual terá reduzida importância, mas acusa o sintoma doentio da inclinação para achar que tudo é igual. Noutra escala, quando Manfred Nowak, relator das Nações Unidas, classificou como tortura a alimentação forçada de presos de Guantanamo em greve da fome, como é que se terão sentido os arrancadores de unhas, os empaladores, e os mutiladores de genitais? Ah, pois, eles também têm o direito à indignação.
Algumas das normas não têm novidade nenhuma: quem é que não está já inteirado da carga ofensiva de palavras como fireman ou policeman, verdadeiras bombas de exclusão?
A novidade é que a expressão politicamente correcto passa também a ser proscrita. Não é caso para admirar. Na Europa quase ninguém tem orgulho em seja que crença for, incluindo os simpatizantes de ideologias aparentadas com fascismos.
Pelo meio fica a notícia de outra norma preocupante: o manual ensina que mudar a arrumação da secretária de alguém equivale a dar um empurrão ou um pontapé na pessoa em causa. Imagine-se a litigiosidade daqui decorrente se alguém se lembra de aplicar o preceito à prestação de trabalho doméstico. Mas o pior é que, ao equiparar a desarrumação ao pontapé, este fica desvalorizado e um potencial agressor tenderá a aplicar o grau seguinte da violência. Os autores do manual não se dão conta de que estão a ofender gravemente as pessoas que têm tendência para usar o pontapé, diminuindo-lhes o alcance da atitude.
O manual terá reduzida importância, mas acusa o sintoma doentio da inclinação para achar que tudo é igual. Noutra escala, quando Manfred Nowak, relator das Nações Unidas, classificou como tortura a alimentação forçada de presos de Guantanamo em greve da fome, como é que se terão sentido os arrancadores de unhas, os empaladores, e os mutiladores de genitais? Ah, pois, eles também têm o direito à indignação.
segunda-feira, outubro 30
quarta-feira, outubro 25
Curiosidades
Numa notícia de há poucos dias, o Daily Mail contava o caso de uma professora de quarenta anos e com filhos adolescentes, que se envolveu sentimentalmente com um aluno de 14 anos, amigo de um dos filhos. A professora foi julgada e condenada com uma sentença de prisão e pena suspensa. Tanto quanto se sabe, não houve relações sexuais entre professora e aluno. Mesmo assim, a notícia era abundante em referências detalhadas ao modo como os amantes se relacionavam.
Nos Estados Unidos, os jornais, televisões e blogs têm falado muito do caso do congressista republicano Mark Foley. Recentemente, foram tornadas públicas conversas registadas num instant messenger entre Foley e estagiários de 18 anos ou talvez menos, com conteúdo sexual explícito. Fica claro que houve, no mínimo, tentativa de abordagem sexual por parte do congressista em relação aos jovens. Prestando-se a fácil exploração política em época de eleições, muitos órgãos de informação têm-se empenhado na divulgação das tais conversas, cujas passagens escabrosas as tornaria apropriadas a diálogos de filme porno se os filmes porno tivessem diálogos. Em vez de ficção porno, que poderia ser mal vista, serve-se aos leitores pornografia sob o pretexto de notícia.
Os media, interpretando o sentir do bom cidadão, cerram fileiras contra tudo o que cheire a pedofilia, mas estão-se nas tintas para a privacidade dos menores eventualmente envolvidos nos casos e para os possíveis efeitos de sedução (tanto em adultos como em adolescentes) dos episódios relatados. Se o pormenor chocante vende, então publica-se.
Nestes dois casos as acusações incidem apenas sobre relações virtuais. Nem por isso os relatos detalhados deixam de poder ter um efeito potencialmente perverso.
Nos Estados Unidos os escândalos sexuais são publicitados e explorados em maior escala que na Europa. No caso de envolvimento de menores, o facto de a idade de consentimento ser mais baixa na Europa pode ter a ver com essa diferença. Mas a atitude europeia também tem os seus pontos curiosos. Como bem recordou John Rosenthal, o que é politicamente correcto em certas esferas de pensamento, a que a universidade confere respeitabilidade, é uma defesa dupla dos menores: defesa do assédio não desejado e defesa do direito a relações desejadas (sim, mesmo com adultos). Disso é exemplo a tese de H. Graupner, aprovada por um júri de que fez parte o Prof. Manfred Nowak, que por acaso, ou talvez não, é também militante da causa dos presos de Guantanamo.
Nos Estados Unidos, os jornais, televisões e blogs têm falado muito do caso do congressista republicano Mark Foley. Recentemente, foram tornadas públicas conversas registadas num instant messenger entre Foley e estagiários de 18 anos ou talvez menos, com conteúdo sexual explícito. Fica claro que houve, no mínimo, tentativa de abordagem sexual por parte do congressista em relação aos jovens. Prestando-se a fácil exploração política em época de eleições, muitos órgãos de informação têm-se empenhado na divulgação das tais conversas, cujas passagens escabrosas as tornaria apropriadas a diálogos de filme porno se os filmes porno tivessem diálogos. Em vez de ficção porno, que poderia ser mal vista, serve-se aos leitores pornografia sob o pretexto de notícia.
Os media, interpretando o sentir do bom cidadão, cerram fileiras contra tudo o que cheire a pedofilia, mas estão-se nas tintas para a privacidade dos menores eventualmente envolvidos nos casos e para os possíveis efeitos de sedução (tanto em adultos como em adolescentes) dos episódios relatados. Se o pormenor chocante vende, então publica-se.
Nestes dois casos as acusações incidem apenas sobre relações virtuais. Nem por isso os relatos detalhados deixam de poder ter um efeito potencialmente perverso.
Nos Estados Unidos os escândalos sexuais são publicitados e explorados em maior escala que na Europa. No caso de envolvimento de menores, o facto de a idade de consentimento ser mais baixa na Europa pode ter a ver com essa diferença. Mas a atitude europeia também tem os seus pontos curiosos. Como bem recordou John Rosenthal, o que é politicamente correcto em certas esferas de pensamento, a que a universidade confere respeitabilidade, é uma defesa dupla dos menores: defesa do assédio não desejado e defesa do direito a relações desejadas (sim, mesmo com adultos). Disso é exemplo a tese de H. Graupner, aprovada por um júri de que fez parte o Prof. Manfred Nowak, que por acaso, ou talvez não, é também militante da causa dos presos de Guantanamo.
terça-feira, outubro 24
segunda-feira, outubro 23
As palavras perigosas
Daniela Santachè, deputada italiana, afirmou na sexta feira num debate de tv com o imã milanês Ali Abu Shwaima que o véu não é um símbolo religioso, mas sim um sinal de submissão das mulheres. O iman respondeu violentamente declarando-a infiel, ignorante e semeadora de ódio. As ameaças produzidas em directo podem ser consideradas uma fatwa implícita.
Santachè vai estar sob escolta policial mas não se intimidou. Convencida de que é necessário falar das coisas como elas são, sem rodeios, voltou a reafirmar publicamente a sua convicção e comparou o véu à estrela amarela para os judeus. Apesar de alguma solidariedade que lhe foi manifestada, inquieta-a o silêncio das feministas. "Não se trata de medir centímetros de véu nem de apreciar, como já foi feito, se fica bem às mulheres ou não. É um símbolo que devemos rejeitar, estamos em Itália e não há lugar aqui para califados."
Santachè vai estar sob escolta policial mas não se intimidou. Convencida de que é necessário falar das coisas como elas são, sem rodeios, voltou a reafirmar publicamente a sua convicção e comparou o véu à estrela amarela para os judeus. Apesar de alguma solidariedade que lhe foi manifestada, inquieta-a o silêncio das feministas. "Não se trata de medir centímetros de véu nem de apreciar, como já foi feito, se fica bem às mulheres ou não. É um símbolo que devemos rejeitar, estamos em Itália e não há lugar aqui para califados."
sexta-feira, outubro 20
segunda-feira, outubro 16
A FALAR complicamos tudo
O apodrecimento da Nomenclatura
...a Nomenclatura Gramatical Portuguesa foi, progressivamente, acusando a inexorável usura do tempo, tendo deixado, há muito, de constituir referência para a solução de problemas que têm vindo a ser identificados no campo do ensino da língua portuguesa, nomeadamente no que se refere à constituição de uma terminologia especializada, apta a instituir e a descrever os factos linguísticos, permitindo a criação de instrumentos de trabalho reconhecíveis por professores e alunos, delimitando o conhecimento pedagogicamente válido na área da linguística e clarificando as bases da relação entre os saberes escolares e os saberes científicos.
A aurora da Terminologia
Daí que, em 1997, tenha tido início, no âmbito do projecto FALAR (Formação de Acompanhantes Locais: Aprendizagem em Rede), da responsabilidade do Departamento do Ensino Secundário, tendo por objectivo a formação de professores de Português, ao nível nacional, um conjunto de acções, amplamente participadas (foram envolvidos cerca de 15000 professores dos ensinos básico e secundário), com vista à identificação de necessidades e lacunas. Em resultado da discussão pública gerada em torno dos documentos consequentes àquelas acções, foi constituído um grupo de trabalho integrado por representantes dos Departamentos do Ensino Secundário e da Educação Básica e da Associação de Professores de Português, por professores do ensino secundário, em exercício de funções lectivas, e por especialistas do ensino superior, que, levando em conta toda a documentação até então produzida e atingido o consenso entre as partes envolvidas, elaborou uma proposta de Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Este documento de trabalho foi entregue a equipas de investigadores universitários para definição e explicitação dos termos, segundo os domínios de especialidade definidos na Terminologia Linguística...
Esta embaladora redacção é o preâmbulo da Portaria n.º 1488/2004, onde logo a seguir se enumeram centenas e centenas de designações de tudo o que o Ministério da Educação comprou aos linguistas para facilitar a vida aos professores e alunos em matéria de Português.
Publicada no Diário da República e remetida para utilização por professores em pânico com o-a ensino-aprendizagem das categorias gramaticais às crianças, esta fabulosa peça liguística perdeu o seu impacto humorístico. Recentemente alvo de críticas, a TLEBS arrisca-se a passar pelo que não é: a lista não interessa para nada, até porque as perguntas de gramática nos exames pouco mais são do que pequenas charadas, sendo mais importante levar uma ou duas ideias bem assentes sobre a fome no mundo e talvez as alterações climáticas. O melhor da TLEBS é o preâmbulo da portaria, onde se descreve de modo exemplar como o ministério da educação aborda os problemas de conteúdos. A um diagnóstico inverosímil segue-se uma medida que transborda fantasia. Pelo meio, um ou outro lóbi colhe uns amendoins com acções de "formação" e ganhos de influência. Dessa vez foram linguistas e a tenebrosa Associação de Profs de Português os contemplados, mas com a sua participação acabaram por exibir, além da barroca erudição académica dos primeiros, uma tremenda falta de senso de todos. "Ciência" de ponta para o ensino básico! Estampada no jornal oficial! Se o mesmo for feito para outras disciplinas, o Diário da República vai competir com as melhores revistas científicas do planeta. Instalar-se-á um sistema de rigoroso controlo de qualidade e os nossos deputados correrão o risco de ver recusada a publicação de muitos dos seus projectos.
...a Nomenclatura Gramatical Portuguesa foi, progressivamente, acusando a inexorável usura do tempo, tendo deixado, há muito, de constituir referência para a solução de problemas que têm vindo a ser identificados no campo do ensino da língua portuguesa, nomeadamente no que se refere à constituição de uma terminologia especializada, apta a instituir e a descrever os factos linguísticos, permitindo a criação de instrumentos de trabalho reconhecíveis por professores e alunos, delimitando o conhecimento pedagogicamente válido na área da linguística e clarificando as bases da relação entre os saberes escolares e os saberes científicos.
A aurora da Terminologia
Daí que, em 1997, tenha tido início, no âmbito do projecto FALAR (Formação de Acompanhantes Locais: Aprendizagem em Rede), da responsabilidade do Departamento do Ensino Secundário, tendo por objectivo a formação de professores de Português, ao nível nacional, um conjunto de acções, amplamente participadas (foram envolvidos cerca de 15000 professores dos ensinos básico e secundário), com vista à identificação de necessidades e lacunas. Em resultado da discussão pública gerada em torno dos documentos consequentes àquelas acções, foi constituído um grupo de trabalho integrado por representantes dos Departamentos do Ensino Secundário e da Educação Básica e da Associação de Professores de Português, por professores do ensino secundário, em exercício de funções lectivas, e por especialistas do ensino superior, que, levando em conta toda a documentação até então produzida e atingido o consenso entre as partes envolvidas, elaborou uma proposta de Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Este documento de trabalho foi entregue a equipas de investigadores universitários para definição e explicitação dos termos, segundo os domínios de especialidade definidos na Terminologia Linguística...
Esta embaladora redacção é o preâmbulo da Portaria n.º 1488/2004, onde logo a seguir se enumeram centenas e centenas de designações de tudo o que o Ministério da Educação comprou aos linguistas para facilitar a vida aos professores e alunos em matéria de Português.
Publicada no Diário da República e remetida para utilização por professores em pânico com o-a ensino-aprendizagem das categorias gramaticais às crianças, esta fabulosa peça liguística perdeu o seu impacto humorístico. Recentemente alvo de críticas, a TLEBS arrisca-se a passar pelo que não é: a lista não interessa para nada, até porque as perguntas de gramática nos exames pouco mais são do que pequenas charadas, sendo mais importante levar uma ou duas ideias bem assentes sobre a fome no mundo e talvez as alterações climáticas. O melhor da TLEBS é o preâmbulo da portaria, onde se descreve de modo exemplar como o ministério da educação aborda os problemas de conteúdos. A um diagnóstico inverosímil segue-se uma medida que transborda fantasia. Pelo meio, um ou outro lóbi colhe uns amendoins com acções de "formação" e ganhos de influência. Dessa vez foram linguistas e a tenebrosa Associação de Profs de Português os contemplados, mas com a sua participação acabaram por exibir, além da barroca erudição académica dos primeiros, uma tremenda falta de senso de todos. "Ciência" de ponta para o ensino básico! Estampada no jornal oficial! Se o mesmo for feito para outras disciplinas, o Diário da República vai competir com as melhores revistas científicas do planeta. Instalar-se-á um sistema de rigoroso controlo de qualidade e os nossos deputados correrão o risco de ver recusada a publicação de muitos dos seus projectos.
A estética ausente
O bispo D. António Marto lamentou, há poucos dias, que a estética esteja ausente em Fátima. Queria referir-se ao caos urbanístico e ao mostruário de bugigangas de inspiração religiosa que inundam as montras e as esquinas. Mas como podia ser de outra maneira? O kitsch que D. Marto execra começa na própria história das aparições, a ponto de a Igreja ser relutante a recomendar aos fiéis que a levem muito a sério. Se a história de Cristo já aparece aos nossos olhos de hoje como uma fábula que só a distância temporal permite normalizar, ela tem apesar de tudo um apelo poético e humano que lhe dá força: um deus feito igual a nós para sofrer como nós e nos “salvar” (não vale a pena perguntar de quê, pois matéria para lágrimas é o que menos falta neste mundo). Ao contrário da mensagem que se atribui ao filho, universal, positiva e radicalmente inovadora, a da Senhora está contaminada pela circunstância que lhe retira grandeza: meter-se na política da época e ao mesmo tempo mostrar um inferno prestes a ser desacreditado é um programa para esquecer. Mais vale acreditar que havia mesmo algum segredo que valesse a pena. Não fabrica evangelhos quem quer.
Não sei se D. Marto reparou, mas a violação da estética não está só em Fátima. Basta entrar na maioria das igrejas em hora de missa para o comprovar. A qualidade das homilias e da música que se ouve nos templos (com ou sem violas) é de estarrecer. Estou a falar do meu ponto de vista, claro, que admito que tenha alguma coincidência com o do bispo. Mas que outra coisa seria possível? Se o culto é para as “massas”, há que nos conformarmos ao gosto delas, que coincidirá já com o gosto da maioria dos padres, os quais vêm das “massas”. Naturalmente, as elites preferem Leonardo, Giotto ou Lucas Cranach às santinhas com corações trespassados em molduras de pechisbeque, e as paixões de Bach aos tristes e feios cânticos que não chegam ao céu, mas o problema é delas. Se a Igreja se revela incapaz de promover símbolos de qualidade (que possivelmente estariam de acordo com uma devoção de qualidade) o problema é dela.
Não sei se D. Marto reparou, mas a violação da estética não está só em Fátima. Basta entrar na maioria das igrejas em hora de missa para o comprovar. A qualidade das homilias e da música que se ouve nos templos (com ou sem violas) é de estarrecer. Estou a falar do meu ponto de vista, claro, que admito que tenha alguma coincidência com o do bispo. Mas que outra coisa seria possível? Se o culto é para as “massas”, há que nos conformarmos ao gosto delas, que coincidirá já com o gosto da maioria dos padres, os quais vêm das “massas”. Naturalmente, as elites preferem Leonardo, Giotto ou Lucas Cranach às santinhas com corações trespassados em molduras de pechisbeque, e as paixões de Bach aos tristes e feios cânticos que não chegam ao céu, mas o problema é delas. Se a Igreja se revela incapaz de promover símbolos de qualidade (que possivelmente estariam de acordo com uma devoção de qualidade) o problema é dela.
sexta-feira, outubro 13
A Ciência é política

Está visto que hoje é dia de caricaturas. Mais informação a acompanhar o cartoon em Cox and Forkum.
(Nota: o título do post é uma citação de Richard Horton, editor da Lancet.)
Há uma discussão do artigo da Lancet aqui.
O cavalo de Teerão

O curioso caso de "Hugh Bradley", participante no concurso de caricaturas sobre o Holocausto promovido pelas autoridades iranianas. A história está contada aqui.

(Curiosidade: Portugal tem uma participação aceite.)
quarta-feira, outubro 11
"Há sempre um CD lá por casa"
Notícia hilariante, no PÚBLICO de hoje, que nos ajuda finalmente a compreender o significado da expressão enriquecimento curricular.
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