segunda-feira, outubro 16

A FALAR complicamos tudo

O apodrecimento da Nomenclatura
...a Nomenclatura Gramatical Portuguesa foi, progressivamente, acusando a inexorável usura do tempo, tendo deixado, há muito, de constituir referência para a solução de problemas que têm vindo a ser identificados no campo do ensino da língua portuguesa, nomeadamente no que se refere à constituição de uma terminologia especializada, apta a instituir e a descrever os factos linguísticos, permitindo a criação de instrumentos de trabalho reconhecíveis por professores e alunos, delimitando o conhecimento pedagogicamente válido na área da linguística e clarificando as bases da relação entre os saberes escolares e os saberes científicos.

A aurora da Terminologia
Daí que, em 1997, tenha tido início, no âmbito do projecto FALAR (Formação de Acompanhantes Locais: Aprendizagem em Rede), da responsabilidade do Departamento do Ensino Secundário, tendo por objectivo a formação de professores de Português, ao nível nacional, um conjunto de acções, amplamente participadas (foram envolvidos cerca de 15000 professores dos ensinos básico e secundário), com vista à identificação de necessidades e lacunas. Em resultado da discussão pública gerada em torno dos documentos consequentes àquelas acções, foi constituído um grupo de trabalho integrado por representantes dos Departamentos do Ensino Secundário e da Educação Básica e da Associação de Professores de Português, por professores do ensino secundário, em exercício de funções lectivas, e por especialistas do ensino superior, que, levando em conta toda a documentação até então produzida e atingido o consenso entre as partes envolvidas, elaborou uma proposta de Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Este documento de trabalho foi entregue a equipas de investigadores universitários para definição e explicitação dos termos, segundo os domínios de especialidade definidos na Terminologia Linguística...

Esta embaladora redacção é o preâmbulo da Portaria n.º 1488/2004, onde logo a seguir se enumeram centenas e centenas de designações de tudo o que o Ministério da Educação comprou aos linguistas para facilitar a vida aos professores e alunos em matéria de Português.

Publicada no Diário da República e remetida para utilização por professores em pânico com o-a ensino-aprendizagem das categorias gramaticais às crianças, esta fabulosa peça liguística perdeu o seu impacto humorístico. Recentemente alvo de críticas, a TLEBS arrisca-se a passar pelo que não é: a lista não interessa para nada, até porque as perguntas de gramática nos exames pouco mais são do que pequenas charadas, sendo mais importante levar uma ou duas ideias bem assentes sobre a fome no mundo e talvez as alterações climáticas. O melhor da TLEBS é o preâmbulo da portaria, onde se descreve de modo exemplar como o ministério da educação aborda os problemas de conteúdos. A um diagnóstico inverosímil segue-se uma medida que transborda fantasia. Pelo meio, um ou outro lóbi colhe uns amendoins com acções de "formação" e ganhos de influência. Dessa vez foram linguistas e a tenebrosa Associação de Profs de Português os contemplados, mas com a sua participação acabaram por exibir, além da barroca erudição académica dos primeiros, uma tremenda falta de senso de todos. "Ciência" de ponta para o ensino básico! Estampada no jornal oficial! Se o mesmo for feito para outras disciplinas, o Diário da República vai competir com as melhores revistas científicas do planeta. Instalar-se-á um sistema de rigoroso controlo de qualidade e os nossos deputados correrão o risco de ver recusada a publicação de muitos dos seus projectos.

A estética ausente

O bispo D. António Marto lamentou, há poucos dias, que a estética esteja ausente em Fátima. Queria referir-se ao caos urbanístico e ao mostruário de bugigangas de inspiração religiosa que inundam as montras e as esquinas. Mas como podia ser de outra maneira? O kitsch que D. Marto execra começa na própria história das aparições, a ponto de a Igreja ser relutante a recomendar aos fiéis que a levem muito a sério. Se a história de Cristo já aparece aos nossos olhos de hoje como uma fábula que só a distância temporal permite normalizar, ela tem apesar de tudo um apelo poético e humano que lhe dá força: um deus feito igual a nós para sofrer como nós e nos “salvar” (não vale a pena perguntar de quê, pois matéria para lágrimas é o que menos falta neste mundo). Ao contrário da mensagem que se atribui ao filho, universal, positiva e radicalmente inovadora, a da Senhora está contaminada pela circunstância que lhe retira grandeza: meter-se na política da época e ao mesmo tempo mostrar um inferno prestes a ser desacreditado é um programa para esquecer. Mais vale acreditar que havia mesmo algum segredo que valesse a pena. Não fabrica evangelhos quem quer.

Não sei se D. Marto reparou, mas a violação da estética não está só em Fátima. Basta entrar na maioria das igrejas em hora de missa para o comprovar. A qualidade das homilias e da música que se ouve nos templos (com ou sem violas) é de estarrecer. Estou a falar do meu ponto de vista, claro, que admito que tenha alguma coincidência com o do bispo. Mas que outra coisa seria possível? Se o culto é para as “massas”, há que nos conformarmos ao gosto delas, que coincidirá já com o gosto da maioria dos padres, os quais vêm das “massas”. Naturalmente, as elites preferem Leonardo, Giotto ou Lucas Cranach às santinhas com corações trespassados em molduras de pechisbeque, e as paixões de Bach aos tristes e feios cânticos que não chegam ao céu, mas o problema é delas. Se a Igreja se revela incapaz de promover símbolos de qualidade (que possivelmente estariam de acordo com uma devoção de qualidade) o problema é dela.

sexta-feira, outubro 13

A Ciência é política



Está visto que hoje é dia de caricaturas. Mais informação a acompanhar o cartoon em Cox and Forkum.

(Nota: o título do post é uma citação de Richard Horton, editor da Lancet.)

Há uma discussão do artigo da Lancet aqui.

O cavalo de Teerão





O curioso caso de "Hugh Bradley", participante no concurso de caricaturas sobre o Holocausto promovido pelas autoridades iranianas. A história está contada aqui.





(Curiosidade: Portugal tem uma participação aceite.)

quarta-feira, outubro 11

"Há sempre um CD lá por casa"

Notícia hilariante, no PÚBLICO de hoje, que nos ajuda finalmente a compreender o significado da expressão enriquecimento curricular.

terça-feira, outubro 10

A parte é maior que o todo

O estatuto de vítima tornou-se tão atraente que no Reino Unido parece que a percentagem de vítimas na população já atinge os 73% (o que deixa muito pouco espaço livre para os opressores). Segundo o criminologista David Green a situação real é ainda pior: o número de vítimas excederá já o total da população, porque quando se é, é-se vítima de uma categoria específica de ódio (presumo que um árabe negro gay pode contar por três). No fim parece haver relativamente poucos agressores, a não ser que muitas vítimas de uma categoria sejam agressores noutra. De qualquer modo há aqui qualquer coisa que não funciona bem: o excesso de vítimas deveria causar a desvalorização da sua condição. Parece que os legisladores não previram este efeito perverso que contraria as suas boas intenções. Está-se mesmo a ver que, se os da mesma escola se põem a legislar em matéria fiscal, a taxa de IRS mínima vai acabar por ultrapassar a máxima.

Não ofender uns e ignorar outros



Ao mesmo tempo que há grande preocupação em não ofender os extremistas violentos, há tendência para ignorar os que se batem por liberdade, afrontando fanatismos em condições duríssimas. Não deveriam os meios de comunicação ocidentais dar mais atenção ao que se passou no passado sábado em Teerão?
(Via Gateway Pundit)

segunda-feira, outubro 9

Curiosidades

Uma reportagem emitida ontem pela SIC dava conta da diversidade de métodos em uso para ensinar as crianças a ler e a escrever. Ficámos a saber que, para além dos métodos mais ou menos tradicionais, estão no terreno as estratégias do Movimento Escola Moderna (MEM), já há algumas dezenas de anos. Os professores do MEM entrevistados fizeram, naturalmente, a apologia do seu ensino inovador. Os outros defenderam-se como puderam, alegando que não se sentiam preparados para experimentar uma actuação diferente e possivelmente pôr em risco o sucesso das turmas. Mas, aparentemente, não se sabe, e a reportagem não inquiriu, se afinal há diferenças entre os resultados da aprendizagem tradicional e os da inovadora. Talvez exigisse um trabalho de campo moroso e a requerer muito cuidado, mas valeria a pena. Curiosamente esse é o tipo de investigação que os profissionais das ciências de educação nunca fazem. Escrevem muitos artigos em que defendem os seus métodos na base de desejos e boas intenções, quando seria mais útil que nos mostrassem as diferenças a partir dos efeitos reais.

Fico curioso de saber se há diferenças sensíveis entre os que aprenderam a ler e a escrever à antiga ou à moderna: alguns têm maior dificuldade na leitura e compreensão de textos que outros? todos confundem à com ? Todos escrevem perguntas-te em vez de perguntaste? A SIC podia ter perguntado.

Aprendi também que o i é considerada por alguns professores a letra mais fácil, por isso é a primeira que ensinam. Mas não percebi porquê.

quarta-feira, outubro 4

Libertar é reprimir

Lésbica, mulher e palestiniana: é a tripla identidade que a si própria se atribui a senhora Rauda Moros. Um artigo do Guardian de há dois dias fala dela, da luta dos homossexuais palestinianos contra a perseguição e dos pequenos progressos que vão conseguindo. Os ingénuos leitores devem estar já a pensar que o grande problema enfrentado pela causa gay na Palestina é a rigidez do código moral islâmico, não? Ora, que bom que era se fosse só isso. Preparem-se: as maiores dificuldades vêm de Israel, pois claro! O facto de haver tolerância para com os homossexuais em Israel torna-os por sua vez mal vistos na Palestina.
Associar Israel com direitos dos homossexuais torna a vida difícil aos árabes gay. Israel e homossexuais constituem o duplo inimigo ideal para o islamismo conservador. Não por acaso, no jornal egípcio Sabah al-Kheir apareceu o título: "Golda Meir é lésbica."

O artigo continua dizendo que a história dos direitos dos homossexuais em Israel também tem muito que se lhe diga. No fundo, trata-se de uma estratégia israelita para se tornarem bem vistos ao mesmo tempo que a sociedade israelita se debate com outro tipo de desigualdades, não se está mesmo a ver?

Assim, os activistas palestinianos têm de convencer os compatriotas de que os gays israelitas são cidadãos decentes que apenas por acaso sentem atracção pelo mesmo sexo, o que em contexto de guerra e ocupação é um bico de obra.

Para um gay, fugir para Israel é traição, e ficar no território palestiniano é ficar sob suspeita, ser visto como colaborador.

Ler para crer.

Israel tem, pois, mais um desafio pela frente: por uma boa causa, deve abolir a descriminalização e outras modernices e começar de imediato a perseguir os homossexuais.

terça-feira, outubro 3

Teorizando

Os dirigentes da Igreja de Inglaterra têm uma explicação pós-moderna para a violência doméstica: o carácter masculino de Deus.

Este argumento tem um alcance teórico que pareceu escapar aos seus descobridores. O carácter masculino de Deus explica também porque é que, no acesso à carreira de padre, bispo ou arcebispo, a posse de um pénis parece ter prioridade sobre a capacidade de analisar a realidade e reflectir sobre ela.

segunda-feira, outubro 2

Concorrência

A BBC emitiu ontem um documentário com revelações comprometedoras para a Igreja Católica e onde também Ratzinger é visado . O caso tem a ver com a alegada cobertura a padres indiciados de abuso sexual de crianças.

Nos arquivos do Panorama registam-se três trabalhos, desde 2000, sobre os escândalos de pedofilia no seio da Igreja Católica. Ainda bem que tudo se vem a saber. Bem, nem tudo. O abuso de crianças não é um exclusivo da Igreja e não faltam pontas por onde pegar no assunto. Mas não seria justo que a BBC açambarcasse tudo: com certeza a Al Jazeera está atenta e fará a parte que lhe toca. Vai ser já a seguir.

domingo, outubro 1

Decassílabos perigosos

A isto mais se ajunta que um devoto
Sacerdote da lei de Mafamede,
Dos ódios concebidos não remoto
Contra a divina fé, que tudo excede,
Em forma do Profeta falso e noto
Que do filho da escrava Agar procede,
Baco odioso em sonhos lhe aparece,
Que de seus ódios inda se não dece.


Se a tendência para a auto-censura for para continuar, vai haver muito para desbastar nos Lusíadas. A versão corrigida vai ficar tão magra que poderá até voltar a ser leitura recomendada no ensino básico.

quarta-feira, setembro 27

Cristiano assobiado

Esta noite, no jornal de um dos canais de tv, comentavam-se os assobios de ontem, na Luz, dirigidos a Cristiano Ronaldo. O canal foi buscar um sociólogo para explicar o fenómeno. O homem lá disse umas coisas, mas eu estou convencido de que a D. Vitória, a minha estimável empregada de limpeza (que não é excelente a limpar o pó mas até percebe de futebol) explicaria melhor e mais depressa.

segunda-feira, setembro 25

Faraday e o copianço pós-moderno

Também no Reino Unido se fala de um aumento vertiginoso da fraude nos exames, graças aos avanços tecnológicos em matéria de comunicação por telemóveis e mp3.

Ora, depois de anos e anos de investigação em educação, de sofisticados estudos docimológicos em tudo o que é universidade que se preze, o melhor que se pode dizer de Jean Underwood, perita em assuntos escolares, é que não passa de uma bota de elástico irrecuperável: propõe Underwood, para emudecer os telemóveis, a instalação de gaiolas de Faraday nas salas de exame! (Antevê-se, em resposta, o regresso às cábulas de papel.) Electromagnetismo novecentista. Bah!

Os dejectos dos tapetes

Por motivo de incêndio numa casa de meninas em prédio colado ao Rossio, o PÚBLICO-LOCAL mobilizou uma repórter. O resultado vem lá hoje com caixa alta. Os vizinhos dão largas ao desagrado pela companhia que lhes coube. A Dona Glória, que faz anunciar as suas meninas nos classificados do Correio da Manhã, sacode "tapetes com dejectos esquisitos". O artigo não nos elucida sobre a natureza dos objectos, mas fica-se curioso. Talvez venha a ser objecto de uma peça jornalística mais aprofundada. Seria interessante até fazer um estudo comparativo com os dejectos de tapetes provenientes das casas de meninas anunciadas nos classificados do próprio PÚBLICO. Simples curiosidade científica.

domingo, setembro 24

A conspiração dos 25%

Um quarto dos portugueses ficará em casa durante a pandemia ( de gripe das aves).
Um quarto dos portugueses sofre de rinite alérgica.
Um quarto dos portugueses assistem a concertos.
Um quarto dos portugueses comprará na Internet em 2007.
Um quarto dos portugueses tem casa de férias.
Um quarto dos portugueses afirmou ter alterado os seus hábitos alimentares e de bebida nos últimos três anos
Um quarto dos portugueses prefeririam ser espanhois. ( Notícia de O Sol, ontem)


Estou a desconfiar disto. Provavelmente são sempre os mesmos. Respondem sim a tudo.

A submissão para além da morte em Bulwell

Na construção do novo cemitério de Bulwell, Nottingham, está previsto que todas as sepulturas estejam orientadas para Meca. Quem pretender um enterramento diferente, terá de fazer uma requisição especial. Curiosamente, a percentagem de população muçulmana em Nottingham não chega aos 5%. Tudo leva a crer que as iniciativas das autoridades locais vão já bem à frente das reivindicações. Pouco a pouco, por enquanto em aspectos aparentemente anedóticos, inócuos, a integração faz o seu caminho.

Cedências que contemplam o que está para lá da morte. Prenúncio terrível de uma possível, e provável, submissão em vida?

domingo, setembro 17

O homem só

Grupos de islamistas radicais foram rápidos a manifestar-se em vários paises muçulmanos em reacção às palavras do Papa. Ameaças de morte, bombas em igrejas cristãs, queima de uma efígie de Bento XVI e o assassinato de uma freira constituem o balanço recente. Nada surpreendente; certamente também não para o Papa (Vasco Pulido Valente escreve no PÚBLICO de hoje que a reacção islâmica terá deixado Bento XVI estupefacto, o que não me parece nada provável). Bento XVI é tudo menos ingénuo e distraído e com certeza mediu o que iria dizer, e as consequências, e quis assumir o risco. Ele não ignora que para os ouvidos do Islão, até mesmo para os chamados intelectuais, pouco importa que se tratasse de uma citação e que o contexto fosse o de uma palestra em ambiente universitário. E quanto aos grupos islâmicos radicais, se há coisa de que eles não precisam é de pretextos para a violência antiocidental. A conspiração para nos converter de certeza não dorme, e até que se registe um atentado mais mortífero que os anteriores, ou pelo menos a tentativa dele, é uma questão de tempo e sorte (ou azar). Bento sabia também com certeza que não seriam de esperar vozes de apoio, nem mesmo dentro da Igreja. A sua atitude tem um cunho mais político do que religioso: vem mostrar que o ocidente está paralisado e refém do medo (o que, de resto, também não é novidade) mas que ainda assim há quem tenha consciência da tremenda ameaça e escolha não ficar calado. A visão do perigo e a identificação do inimigo tornou-se especialmente difícil, mas é condição necessária para que se possa pensar a defesa.

Em face da grotesca reacção de responsáveis políticos muçulmanos (a quem nunca são requeridos pedidos de desculpa) fica óbvio que o "diálogo" entre as religiões só se fará com as regras impostas pelo Islão. É altura de reconhecer que as iniciativas de diálogo e aproximação conduzidas pelo papa anterior tiveram um resultado nulo neste campo. Os complexos de culpa e a falta de firmeza que enredam a política europeia abrem o caminho à submissão total.

Actualizado em 18/9: comentário a propósito no telegraph, hoje.

No First Things: It can be argued that the Regensburg lecture will turn out to be the most important statement by a world leader in the post–September 11 period.

No Times: The Pope’s actual quotation is not just a medieval point of view. It is a common modern view; even if it seldom reaches print; it can certainly be found on the internet. “Show me just what Muhammad brought that was new, and then you shall find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.”

Is it true that the Koran contains such a command, and has it influenced modern terrorists? The answers, unfortunately, are “yes” and “yes”.


No New York Sun: No, this pope is not naïve. It is our liberal, theologically illiterate politicians who are naïve. We are already at war — a holy war, which we may lose.

A nova era no Vaticano, cartoon publicado na Al Jazeera.

Anne Applebaum no Slate: nothing the pope has ever said comes even close to matching the vitriol, extremism, and hatred that pours out of the mouths of radical imams and fanatical clerics every day of the week all across Europe and the Muslim world, almost none of which ever provokes any Western response at all. And maybe it's time that it should: When Saudi Arabia publishes textbooks commanding good Wahhabi Muslims to "hate" Christians, Jews, and non-Wahhabi Muslims, for example, why shouldn't the Vatican, the Southern Baptists, Britain's chief rabbi, and the Council on American-Islamic Relations all condemn them—simultaneously. Equally, I see no reason why Swedish social democrats, British conservatives, and Dutch liberals couldn't occasionally forget their admittedly deep differences and agree unanimously that the practices of female circumcision and forced child marriage are totally unacceptable, whether in Somalia or Stockholm. Surely on this issue they all agree.

sexta-feira, setembro 15

Oriana Fallaci

Faleceu esta noite em Florença. O último artigo, "O inimigo que tratamos como amigo", aqui. Mais informação na edição extra do Corriere.

quarta-feira, setembro 13

A verdadeira conspiração

Na Holanda, o ministro da justiça pronuncia-se favoravelmente à introdução da sharia.

Aos poucos, a política de integração avança. Integração da Europa no Islão, bem entendido.

segunda-feira, setembro 11

11 de setembro

1 de novembro de 1755, 1 de dezembro de 1640, 6 de agosto, o outro 11 de setembro, 25 de abril podem ser recordados com nomes: terramoto, restauração, bomba atómica, golpe de Pinochet, revolução dos cravos ou golpe militar, segundo o gosto. Por vezes recordamo-nos de nomes e não de datas, pelo menos datas exactas: Katrina, invasão do Iraque... Quando o acontecimento é inominável, por não haver precedente que tenha justificado uma designação, resta a data como etiqueta.

Quase todas

Um spot da TSF a anunciar a programação especial para hoje diz mais ou menos isto: "depois do 11 de Setembro quase todas as religiões ficaram sob suspeita..."

Humm... quase todas? A TSF podia ser um pouco mais explícita e dizer "todas menos o Islão."

sexta-feira, setembro 8

O amor nos tempos de internet (12)

-Oh Ritinha dá cá um beijo, nhhh, nhhh, até que enfim!
-Há quanto tempo? Quase meio ano, não? Estás óptima, deve ser da gravidez
-É incrível como a vida nos tira o tempo até para as amigas. Dantes viamo-nos todos os dias e agora quase só nos ouvimos pelo telefone
-O Carlos como vai, além de lhe dar para fazer de fantasma à noite?
-Não gozes, que eu tenho um medo que o diabo do homem caia e bata com a cabeça nalguma coisa
-Deixa lá, nessas crises eles devem ter um radar como os morcegos
-Mas olha que agora estou é mais preocupada com isto da minha mãe. Como te disse há uma semana, quando éramos para nos ter encontrado, ela estava com sinais de um AVC e entretanto confirmou-se.
-Que problema
-É para ela e é para mim. A médica de família disse-me ontem, tem que ficar com a sua mãe, ela não pode ficar sozinha
-…??
-e eu disse ó sotora, como é que eu posso, grávida, a trabalhar, com marido, num apartamento de três divisões, devia estar prevista uma solução para estes casos, e ela, mas normalmente nestes casos agudos conta-se com a família, e eu disse logo, olhe, não sei como vai ser mas comigo é que ela não fica, já basta o que ela fez à minha cabeça até que saí de casa
-ai meu Deus disseste isso?
-disse e hei-de dizer, tu conheces bem a história, primeiro estiveram sempre os amantes de sua excelência, agora não sou eu que me vou sacrificar
-Sim, mas alguma ajuda tens que dar à velhota, esquece essas coisas
-Olha, vamos para a mesa do canto para falarmos mais à vontade, e tens que me contar já a tua história antes que isto fique tudo cheio
-Cheira que é uma maravilha, se a comida que eu faço fosse tão boa como a deste self-service o estupor não andava atrás doutra, sabes eu levo isto a rir
-ahahahah
-Bom, então cá vou eu contar-te em segredo absoluto, ouviste? Não falo do caso a mais ninguém, absolutamente
-Rita, sabes que sim
-Lembras-te que te disse que tinha descoberto uma conversa do Eduardo no pc lá de casa
-Dantes ainda ia sabendo qualquer coisa do Eduardo pelo meu sobrinho, mas já há uns meses que não vejo o Dino
-Pois, então foi na segunda de manhã, há quinze dias, antes de ir para a empresa fui ao computador para completar um relatório que tinha o título co qualquer coisa e ensonada como estava não me lembrava em que pasta o tinha posto
-Estou a ver, tens tanto em que pensar
-de maneira que fiz search e além do meu apareceu outro documento com o nome co outra coisa
-Começa bem
-Sim, e aqui a tua amiga que é discretíssima mas muito curiosa vai ver, é uma conversa do Eduardo com um fulano de Coimbra
-Nunca me falaste de nenhuma personagem de Coimbra
-Não, mas falo agora, é um tipo que entrou nas amizades do estupor através da ex, uma pessoa muito bem colocada, trabalha numa firma de advogados muito ligada ao partido em que tu votaste
-Ó Rita, como é que tu sabes isso tudo?
-Claudinha, é tão fácil, com o que se vai ouvindo e com o resto, está tudo na net
-Qual é a firma?
-Ora, o Carmelo Reis e Associados, sabes, é quase uma ordem religiosa
-Ai nossa senhora, mas não te percas
-A perna de borrego está óptima
-Di-vi-na, mas diz mais
-Pois então imagina: lendo a conversa percebe-se que o advogado de Coimbra está a arrastar o Eduardo para preparar uma à mulher dele
-À mulher? Arrastar como?
-Sim, o tal tipo é casado, mas acho que aquilo deixou de funcionar, o L. às vezes falava disso, que andam há muito tempo num impasse e acho que agora quer ver-se livre do casamento com proveito
-e…?
-e eu acho que ele fez a cabeça do miúdo
-Então mas qual é o papel do Eduardo nisso?
- Parece que a Clara, é assim que ela se chama, já conversou com outro homem num chat da net mas é muito cuidadosa e o marido não tem provas claras, só um indício
-Já estou a ver o resto, quer que o rapaz colabore numa armadilha… E o Eduardo vai nisso? Não o conheço bem mas tinha uma óptima impressão dele. E porque é que o advogado não a deixa a mulher, simplesmente?
-Ó minha querida, se conseguir o divórcio em determinadas condições tem hipóteses de ficar com um casarão
-Ah é?
-Isto sou já eu a supor, mas não devo enganar-me muito, porque segundo o que ouço contar pelo L., ela tem muita massa
-Ah bom
-Têm um T4 e uma vivenda, e acho que não é com o ordenado dele que os compraram
-Bom, nada que não se tenha visto, mas mesmo assim como é que esse homem tem à-vontade com o rapaz para andar a meter-lhe na cabeça uma coisa dessas?
-Realmente, para se chegar àquele nível de confiança alguma coisa há-de haver que eu não sei o que é
-Mesmo assim não percebo… o que é que o rapaz lucra com isso? … e a outra suspeitará de alguma coisa?
-Não tenho ideia. Pelo que li, o miúdo pareceu-me de pé atrás, mas interessado ao mesmo tempo. Vê lá a família que eu estava quase a arranjar, digo isto porque estou com um pé dentro e outro fora
-A minha opinião não conta, mas acho isso esquisito… como é que iriam conseguir tramá-la?
-Não se percebe bem só com base no que eu vi, mas talvez se ela tiver uma troca de mimos comprometedores com outra pessoa ao telefone ou na net e essa pessoa gravar… topas? O colaborador fará o papel de quem está a chantagear o marido
-Pois… mas isso provará o quê? E não podem ser descobertos? O tipo sendo advogado arrisca muito, e o miúdo trama-se
-Minha querida, todos arriscamos qualquer coisa, e uns arriscam mais alto quando acham que vale a pena
-Meu Deus, que história
-O L. anda transtornado, já deve ter visto o que eu vi
-Então e mudando de assunto ele continua atrás da outra do norte?
-Acho que ele está um pouco perdido, e eu já me desinteressei do assunto porque vou saltar do barco. O mais certo é eu já não chegar a saber os episódios seguintes… Bom, isto está a encher e aqui há sempre gente conhecida, por isso vamos falar de outros filmes. Tens ido ao cinema?

As vítimas da pedagogia

Alan Johnson, secretário de estado britânico para a educação, acaba de reconhecer que as metodologias impostas pelos governos para o ensino da aritmética e da escrita, desde finais dos anos 90, terão prejudicado a aquisição de conhecimentos de mais de cinco milhões de alunos. A tabuada vai ser ensinada mais cedo do que nos anos recentes, bem como a maneira de efectuar no papel operações elementares. Descobre-se agora também que os rapazes não têm mais dificuldade do que as raparigas em aprender a ler! Parece que afinal basta ensiná-los de modo sistemático, sem recurso às técnicas delirantes inventadas pelos marcianos da pedagogia.

À atenção da Sra Maria de Lurdes Rodrigues, que umas vezes parece perceber para onde vai e outras vezes não. Está quase a fazer um ano a operação de emergência para salvar o ensino da matemática, coordenada por uma larga maioria de marcianos, com um ou outro terrestre no papel ingrato de minoria quase sem voz. Espera-se que um dia se venham a avaliar os resultados. Receio que sejam fracos, além de, para já, dar mais força aos marcianos.

quarta-feira, setembro 6

O horror em 2006

Nas cadeias do Irão há seis mulheres à espera de execução por apedrejamento. O caso que recentemente motivou mais protestos, pela sua urgência, é o de Ashraf Kolhari, de 37 anos, condenada em 2001 a 15 anos de prisão por alegada colaboração na morte do marido e à morte por apedrejamento por relações sexuais com outro homem (ele também condenado: 100 chicotadas e morte por apedrejamento). Com a sentença de prisão longe de estar cumprida, a execução de Ashraf esteve prevista para Agosto, mas encontra-se suspensa graças aos protestos, em que a Amnistia Internacional esteve envolvida. Não há, de modo nenhum, garantias de que a sentença não venha a ser executada.

(A Sra Ana Gomes terá muito com que se ocupar de modo útil, caso se interesse por casos como este.)

quinta-feira, agosto 31

É já a seguir

É com muito gosto que anuncio aos 10 leitores deste blog que a blognovela quase periódica vai regressar. O Lino2, terminada a sua tese "Concepções Teórico Metodológicas sobre a Introdução e a Utilização de Computadores no Processo Ensino/Aprendizagem", e gozadas as merecidas férias, vai postar mais um episódio já daqui a poucos dias.

(É tudo verdade menos o título da tese: alguém que tivesse escrito uma tese com aquele nome, ou partes dele, seria despedido deste blog com justa causa.)

Rir (mesmo da guerra) é saudável

Quando shiitas dos subúrbios de Beirute correm de mão erguida com os dedos em V, que querem dizer? É para indicar que na zona de onde vêm só ficaram dois prédios em pé.

Esta e várias outras anedotas que correm no Líbano podem ser lidas aqui e aqui.

quarta-feira, agosto 30

A justiça

Documentário da BBC sobre a execução de uma rapariga de 16 anos, acusada de adultério. Irão, 2004.

Naguib Mahfouz (1911-2006)

Escolhemos uma mesa sob um eucalipto no cafezinho na margem do Nilo, onde o sol da tarde perseguia sem força o frio cortante do inverno no Cairo. Evitando sempre os meus olhos, ela disse "Não devia ter vindo".
"Mas vieste", respondi, tranquilizante. "Está decidido."
"Nada está decidido, acredita."
Olhei-a. Tinha que aceitar o jogo. "Tenho a certeza que por estares aqui..."
"Não. Simplesmente não quis ficar sozinha com as tuas cartas."
"Não há nada de novo nas minhas cartas."
"Mas escreveste-as a alguém que não existe." Toquei-lhe a mão sobre a mesa como que a provar que ela existia. Retirou a mão. "Vieram com quatro anos de atraso."
"Mas falam-te de coisas que não têm a ver com o tempo nem com o lugar."
"Não vês que me sinto sem forças e desgraçada?"
"Também eu. Os nossos amigos olham-me como um espião. Eu vejo-me a mim próprio como um renegado e um traidor. Só te tenho a ti."
"Grande consolo."
"Não me resta mais nada. Excepto a loucura ou a morte."
Suspirou como se doesse. "Traí-o na minha cabeça há muito tempo."
"Não. Foste um exemplo de lealdade falsa."
"É outra maneira de dizer."
"Sofremos sem um motivo real", expliquei, irritado, "Essa é que é a tragédia."

(Miramar, 1967)

terça-feira, agosto 29

Crimes, dizem eles

A Amnistia Internacional acusou recentemente Israel de crimes de guerra. O comentário feito ao comunicado pela Al Jazeera termina, talvez com satisfação, talvez com surpresa, com a frase:
AI has not issued a report accusing Hezbollah of war crimes.

segunda-feira, agosto 28

O segundo rapto de Natasha

A menina recusa-se a ver os pais. Está rodeada de "especialistas" por todos os lados. Longe de mim fazer juizos sobre os comportamentos induzidos por uma experiência tão terrível, mas lendo a "carta de miss Kampusch" não posso evitar a sensação desconfortável de imaginar os psis, os advogados e até os anti-tabagistas a teclar sob os dedos da menina. Sabendo-se que podem estar em jogo somas chorudas provenientes de uma indemnização, não faltará quem queira mostrar muito trabalho. Os sublimes interesses do avanço da ciência também não são de desprezar, pois o caso promete render um bom punhado de posters e artigos em revistas da "especialidade". Para manter as coisas sob controlo, o passo seguinte terá de ser o acompanhamento dos pais, para que eles também se convençam, dados os aspectos censuráveis da sua vida privada, de que não é bom andarem por perto da filha.

domingo, agosto 27

Auto de Mateus

Não sei se o público do futebol se sente prejudicado com a não realização de jogos quando, em substituição, tem o Auto de Mateus (singela homenagem ao nome do clube). As questões em discussão, as grotescas personagens em cena e as movimentações em palco são matéria de primeira classe para ruminação das imensas bancadas centrais que proliferam no país. O picante adicional fornecido pelas peripécias judiciais envolvidas é mais um aliciante: há três anos (sensivelmente desde o início do processo casa pia) que os media nos vêm impingindo um curso de direito em pastilhas e é necessário manter vivos e operacionais os conhecimentos.

Eu não vibro com isto mas também não estou a menorizar o assunto: deixo isso para os detractores do futebol. Na realidade tenho uma certa fascinação pelo enredo que me permitiu dar conta de que existem o Mateus, o Sr. Fiúza, órgãos judiciais dedicados e um clube de Barcelos com o nome de Gil Vicente (embora ache que o Gil não merecia isto). De resto, acho a trama bem mais interessante do que muitas outras, da ficção ou da chamada vida real, a que as tvs consagram longas horas: estou a lembrar-me dos morangos nas várias versões açucaradas ou da inenarrável fofoquice cor-de-rosa em que, no fatimalopes-sic, três ou quatro senhoras, onde se inclui um homem, discutem os namorados e as namoradas de pessoas mais irrelevantes que os jogadores de futebol.

Actualização em 30 de agosto: Com a entrada em cena das personagens Loureiro e Leal a trama adensa-se. Ainda não estamos ao nível do Velho da Horta, mas para lá caminhamos.

Apoio a Plutão

Não é justo: os planetas grandes estão cada vez maiores, e os pequenos cada vez menores. Famílias da classe média entram em depressão: "os nossos filhos vão crescer com apenas 8 planetas".

domingo, agosto 20

Leituras de domingo

- Pontos de vista de personalidades e colunas publicadas em jornais do mundo árabe a respeito do conflito no Médio Oriente.

Ashraf Al-Ajrami, colunista do jornal da Autoridade palestiniana “Al-Ayyam”: "It may be said that the Damascus-Tehran axis, which includes Hezbollah and Hamas - who are supporting actors but are playing a primary role - wanted to wreak havoc in the region, and [carried out this plan] in two main arenas - Palestine and Lebanon. [They] used the Palestinians and the Lebanese as pawns in the international game, in order to promote the interests of Tehran and Damascus in their conflict with the U.S. and in order to strengthen their international status..."

Mohammad Ali Boza no jornal governamental sírio “Al-Thawra”: "[The actions of] targeting Lebanon, changing its face, and redrawing its map are merely another stage in the series of hasty, foolish and reckless actions taken by the neo-conservatives in the U.S. and by their ally Israel with the aim of suborning the region to their authority, defeating it, and breaking its will”.

“It is the Bush administration that is running... this destructive and murderous war, which moves [from one country to another in the Middle East], while Olmert's government supplies the mechanism [for carrying it out]. [In light of] the failure of [the American] strategy in Iraq and its helplessness [there] after so many years... America [has decided] - in order to compensate itself and cover up [its failure]... - to expand the circle of fire and death by aiming all this criminal, blind hatred at Lebanon..."

A teoria da super-conspiração noutro artigo no mesmo jornal: "The war that is currently waging [in Lebanon], with its declared and undeclared goals, makes us more certain than ever that Israel and the U.S. are the forces behind the assassination of [former Lebanese prime minister] Rafiq Al-Hariri. The assassination was part of an unsuccessful attempt by the U.S. to enforce U.N. Resolution 1559. The aggression [we see] today began because Israel, as it turns out, is the only one who benefits from this resolution and from Al-Hariri's assassination..”

Passatempo de domingo: fazer uma lista de jornalistas e personalidades nacionais que poderiam subscrever cada um dos textos reproduzidos e comparar o comprimento das listas.

- Carta aberta a Gunther Grass, por Daniel Johnson.

You are often compared to Thomas Mann, but you are no more a Mann than you are a man. The only Mann character with whom you have much in common is Felix Krull, the confidence trickster. Your rise and fall recalls the greatest of all German myths, that of Faust, which Mann explicitly connected with Nazism.

sábado, agosto 19

sexta-feira, agosto 18

Os Rolling Stones têm finalmente os espectadores adequados

Ao contrário do que se passa por cá, os próximos concertos do grupo de velhotes de Mick Jagger, anunciados no Reino Unido, não estão a vender como se esperava, nem mesmo na internet. O caso é tão grave que as agências especializadas em eventos para a 3ª (ou maior) idade estão a aproveitar a situação para vender ao público pensionista bilhetes a metade do preço. Considerando que a soma das idades do grupo é 249 anos, este é o público certo no lugar certo.

A publicidade clama: 'See Gods of rock for yourself - The Rolling Stones return to rock in the UK live.' Live? Hummm... se não se despacham, Stones e espectadores, duvido.

terça-feira, agosto 15

Deve haver engano



(foto: http://isna.ir/Main/PicView.aspx?Pic=Pic-771739-1&Lang=P)

A polícia anda a recolher parabólicas nos telhados de Teerão. A ordem deve ter vindo de um incompetente mal informado. Que importância terão um ou dois canais pouco amigos do regime ao lado de uma multidão de outros em que as notícias e pontos de vista sobre a guerra mereceriam a aprovação regozijada de Ahmadinejad? No lugar do presidente eu até encorajava o consumo obrigatório de um bom número de telejornais ocidentais, para que os atrevidos com impulsos dissidentes percebessem que o mundo os ignora e despreza.

domingo, agosto 13

sábado, agosto 5

A ideologia de sucesso

Apesar de todo o avanço tecnológico e das contribuições do mundo ocidental para o bem estar de faixas de população cada vez mais alargadas, as ideologias que diabolizam e rejeitam os valores em que assentou o progresso triunfaram, ao ponto de tornarem as grandes massas de cidadãos incapazes de olhar o mundo sem a muleta daquelas lentes distorcidas e perversas. Foi, de resto, o nosso mundo, e particularmente a Europa - o mesmo mundo a que devemos boa parte do sucesso tecnológico e social - que incubou o pesadelo do comunismo e que alimentou durante séculos o ódio aos judeus.

A derrota do comunismo não aconteceu a nível das ideias. Os órfãos da doutrina rapidamente se reciclaram, integrando-a como lapa numa abundância de disciplinas a que o mundo universitário conferiu respeitabilidade. As circunstâncias políticas, num mundo imbuído de generosidade pouco reflectida por se julgar livre de ameaças, contribuiram para a difusão da velha ideologia travestida, servida agora sob a forma de catecismo de todos os bons comportamentos e todas as tolerâncias (não por acaso, nunca aplicáveis na prática aos judeus) que até são servidas em versão infantil nos currículos escolares. Liberto dos aspectos mais enfadonhos e assustadores exigidos pela militância nos partidos marxistas, este comunismo suave e requentado teve um sucesso muito maior, a nível da aceitação pelas massas, do que o original. Ele acabou por se transformar na matriz de pensamento de grande parte da respeitada intelectualidade ocidental e, por arrastamento, das largas massas que por natureza utilizam o pronto a pensar como utilizam o pronto a vestir ou a comer. Como subproduto de relevo, o ódio à América - o ex-imperialismo por excelência - nunca deixou o terreno.

Outro instrumento de sucesso veio potenciar a difusão da ideologia fácil e sedutora: a televisão. Sendo o meio de transmissão de informação mais omnipresente, favorecendo mais o consumo da emoção do que da análise, e habitada em grande parte por comentadores e jornalistas que foram estudantes aplicados do catecismo das novas crenças, executa no dia a dia uma doutrinação declarada ou subreptícia.

Entretanto, à soleira da nossa porta, um inimigo espreita. O tempo está-lhe de feição. Encarnado em Ahmadinejad ou Nasrallah, basta-lhe ser apenas ligeiramente mais inteligente do que a maioria de nós para perceber que pode pisar todos os riscos porque nós não estamos do nosso lado, mas sim do dele. Ele disfruta de uma vantagem absolutamente nova: a inconsciência de um mundo tão anestesiado que não identifica o seu agressor, mesmo quando este confessa abertamente os fins. Na guerra em curso, ele tira partido dessa disposição suicidária. Sabe que, do lado de cá, não se percebe bem o que está em jogo, ou então finge-se não perceber. E a guerra passa muito pela televisão: ao mostrar a exibição de baixas causadas por Israel, a tv fá-lo com a mesma ingenuidade e candura com que passa "manifestações" encenadas por governos de países onde não há liberdade de ter uma parabólica, quanto mais de manifestação. A tv do lado de cá está ao serviço do lado de lá.

A atitude dos meios de informação, com as tvs à frente, também terá a ver com a facilidade, o comodismo e o medo, numa Europa em que a população islâmica atingiu já níveis muito importantes. Apesar das tomadas de posição anti-ocidentais de muita gente bem pensante, até os idiotas úteis não ignoram que criticar Israel ou o Papa é de borla, mas ofender dirigentes muçulmanos extremistas ou fazer humor com o chamado profeta é estar pedir churrasco em casa.

Post scriptum: Se for conveniente até se retocam as imagens, a fim de tornar mais glamorosa a destruição operada pelas forças de Israel. É o caso desta foto publicada pela Reuters, cuja desmontagem se pode ver aqui.

Também nos últimos dias se acumulam as notícias de que a guerra está a provocar união de sunitas e xiitas. Mas ainda há pouco um influente religioso egípcio lançou uma fatwa sobre o Hezebollah. E o que continuamos a ver no dia a dia do Iraque mostra que se trata possivelmente mais de desejos do que de notícias.

segunda-feira, julho 31

No tempo dos milagres


(Jan Vermeyen, 1530)

E quando o mestre da cerimónia provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha(...) chamou o noivo e disse-lhe, toda a gente serve o bom vinho em primeiro lugar (...) mas tu guardaste-o para o fim.

Pouca sorte ser civil no Líbano


Enquanto os media debitam uma versão mais do que esperada sobre a violência da guerra, o drama de certas áreas residenciais no Líbano, documentado nesta e noutras fotos, parece estar a ser completamente ignorado.

É interessante também que os adeptos das teorias de conspiração fiquem sossegados com um material tão promissor à mão: parece que houve um intervalo de sete horas enre o ataque aéreo ao edifício de Qana e o colapso, e também que só passado esse tempo chegaram as ambulâncias e os socorros. Antes disso, sem derrocada e sem câmaras prontas no terreno, parece que a operação não valia a pena...

segunda-feira, julho 24

A reabilitação da carta

O presidente do Irão não pára. Depois de Angela, agora é Jacques que tem correio.

De olhos bem fechados...

...pensam eles que está quem os lê. Os abaixo assinantes contra a operação militar israelita dão as suas razões pela voz de Eduardo Lourenço: preocupa-os não se saber onde é que as coisas irão parar. O que não dizem é que, na ausência da acção militar, sabe-se muito bem onde é que as coisas iriam parar. Curioso observar na turma antifascista-laica-progressista a atracção sistemática pelo pior dos fascismos, associado a uma ideologia medieval retrógrada disfarçada de religião. Mistérios da vida animal.

sábado, julho 22

A paz é uma palavra bonita

A terrível realidade é, no entanto, muito mais complexa. Quando se clama pelo cessar fogo, supõe-se que ele deverá resultar de um acordo entre duas partes tais que cada uma acredita no que a outra afirma como compromisso. Na actual guerra do Líbano, uma das partes será Israel. Mas qual será a outra? O governo libanês? O Hezebollah? O primeiro já se viu que não controla o segundo e este é um interlocutor inaceitável e marioneta do Irão.

Também é duvidoso que as Nações Unidas possam ser um mediador fiável. Em 2000, membros do Hezebollah raptaram e assassinaram três soldados israelitas, aparentemente com a passividade colaborante daquela organização. A autoridade moral da UN parece frágil quando há memória.

quarta-feira, julho 19

Há um ano, no Irão



Mahmoud Asgari e Ayaz Marhoni, Mashad, Irão, 19 de Julho de 2005

terça-feira, julho 18

Agora a sério

O que se passa com os exames nacionais, particularmente com os infelizmente notórios de Química e Física, é sintoma nítido de que o ministério da educação é incapaz de controlar a máquina defeituosa que pôs em movimento. Fala-se de perguntas que não avaliam nada que tenha a ver com os programas e até de algumas a que os próprios professores são incapazes de responder. Situações igualmente caricatas, embora de menor gravidade, têm atingido exames de outras disciplinas.

Os exames reflectem e procuram respeitar, tanto quanto me apercebo, os programas e as suas indicações metodológicas. Para os menos informados, que julgo constituirem a maioria da população, as ditas são consideradas, pela ortodoxia instalada (associações de professores incluídas), essenciais e indissociáveis dos conteúdos programáticos. Sucede que as indicações costumam incluir o catecismo da didáctica politicamente correcta, onde têm lugar elucubrações, transformadas em lei, das mentes tresloucadas de cientistas da educação, nacionais e estrangeiros. Quem consultar o programa oficial de uma disciplina encontra mais facilmente este rosário de loucuras do que a matéria que se espera que seja ensinada. As indicações costumam ter reflexos bem visíveis no modo como certas questões são formuladas em exames. Tenho razões para crer que o problema agora exposto à luz do dia é bem anterior ao fabrico dos exames, embora as comissões que elaboram as provas tenham uma parte importante de responsabilidade no desastre.

Não conheço o caso concreto da Química e da Física, mas conheço em detalhe o da Matemática. Considero as indicações metodológicas que embrulham os programas inadequadas e pedagogicamente nocivas. Por acaso (ou por muita ponderação e habilidade de quem tem feito as provas) não tiveram, até agora, reflexos gravosos nos exames nacionais. Mas num sistema tão infectado pela falta de bom senso, o desastre espreita a cada momento. Uma pequena variação na composição de uma comissão ou um momento de cansaço e distracção podem ser fatais ao nível dos resultados. Por agora, a borboleta bateu as asas lá para os lados da Química e da Física. Irá o caos ficar por aqui?

Incrível!

Por mero acaso, descobriu-se que Bush pensa que o Hezebollah anda a fazer merda. O mundo ficou surpreendido e chocado. Com razão. Se Bush tivesse dito que a comissão de exames do ensino secundário e o ministério da educação português andam a fazer merda, até eu poderia estar de acordo. Merda é uma palavra pouco apropriada para descrever rapto de soldados, envio de bombistas mártires para matar civis e disparo de mísseis iranianos sobre cidades de Israel. Para mim, Bush sabia perfeitamente que o microfone estava "on" e quis mostrar ao mundo que é moderado e adepto da solução diplomática.

terça-feira, julho 11

Sobras do mundial



1. Que disse Materazzi a Zidane? Chamou-lhe porco terrorista? Chamou puta à irmã? Esta é a questão. O próprio nega tudo e ironiza: nem conhece o significado de "terrorista" ou "islâmico". Sobre "puta" nada disse. A SOS Racismo já encontrou terreno para surfar e vai querer que a FIFA faça qualquer coisa para desagravar a ofensa desconhecida. Surdos experimentados em leitura de lábios já foram mobilizados para decifrar o enigma.

2. Isenção de IRS por um ganhar um lugar que não existe não é nada disso que já muita gente está por aí a pensar: é ilusionismo. Há de facto mais qualquer coisa para alem do futebol.

3. Esta manhã o sociólogo Boaventura S. Santos dava na TSF a sua opinião sobre o que nos poderia mobilizar nesta fase de entusiasmo. E apontou duas ou três coisas de que ainda ninguém se tinha lembrado, o que só por si é indício de que o investimento no Laboratório Associado do senhor está mais do que recuperado. A primeira coisa era mobilizarmo-nos para uma educação de qualidade. A segunda era valorizar a ciência. A terceira tinha a ver com a justiça. Depois vieram outras coisas várias e nem sequer o abominável preço dos vinhos nos restaurantes foi esquecido como exemplo dos caminhos que não devemos seguir. Mas que bem lembrado! Obrigado, BSS, espero que não tenha estado só eu a escutar.

segunda-feira, julho 10

Ensaio sobre uma teoria de conspiração

Concluiu-se, com menos alarido que previsto, a visita do Papa a Espanha. Claro que houve fortes sublinhados sobre o papel da família baseada na união de um homem e uma mulher, mas nada de condenações explícitas nem censuras nítidas aos dirigentes políticos. As palavras de Bento XVI, de que os anátemas estiveram ausentes, terão sido até menos incisivas que algumas declarações do porta voz dos lusobispos no que toca aos temas fissurantes (estou farto da outra palavra) que sabemos.

Uns minutinhos de reflexão são suficientes para concluir que o Papa não se deu à maçada de ir a Espanha para pregar contra o casamento unisexo e as uniões de facto. Essas formas de acasalamento com reconhecimento recente têm evidentemente uma grande importância simbólica, mas são apenas mais um elemento de desvio das sociedades ocidentais em relação aos padrões de comportamento que a Igreja Católica gostaria de ver respeitados. Como cada um já vive praticamente como quer (ou pode), pondo o bem estar material (onde o sexual se inclui), e o gozo dos mil e um brinquedos à disposição, à frente do fardo biológico de criar e educar meninos, a indiferença às normas da doutrina já está mais que enraizada. Não há nada a fazer, e uma pessoa bem educada e reflectida como Bento XVI sabe-o muito bem.

Mas então, se não foi a Espanha para proferir palavras duras ou para guerrear com Zapatero, qual é o alcance da viagem? Poderá dizer-se que seria o de dar algum alento às hostes de fieis em declínio. Pouco alento, já que parece que eles esperavam mais.

Eu tenho uma teoria: o Papa foi na verdade lançar um aviso aos praticantes do casamento unisexo e da união de facto, sim, mas procurando zelar pela sobrevivência dos interessados. Observador atento do espectro que ameaça a Europa, Bento sabe que empurrar as pessoas para as novas formas de compromisso registadas em papel é oferecer uma mão cheia de alvos para a prática da degolação a um prazo não muito distante. Não é preciso esperar pela adopção da sharia nos nossos sistemas penais: basta que, por força da demografia e das contínuas cedências, as administrações das cidades europeias fiquem parcialmente nas mãos de islâmicos moderados, que se verão obrigados a aplacar o tédio das milícias de serviço fornecendo-lhes listas de pecadores. Gente ansiosa de nos ensinar a virtude segundo o Corão não faltará, e os métodos serão bem mais persuasivos que os do Papa.

Claro que este enorme risco não ocupa a cabeça dos porta-bandeiras profissionais, interessados apenas em marcar terreno e angariar uns votos nas franjas bem pensantes e distraídas. São eles os que se ajoelham perante exigências crescentes de dirigentes religiosos fanáticos e que fazem cara de indignados quando as críticas atingem o islão.

Comparados com os tempos de horror que hão-de vir, a homofobia das bandas pop jamaicanas, que apenas por palavras reclama o afogamento dos depravados, há-de deixar saudades. Entretanto, os idiotas úteis vão-se deleitando, para já, com a anunciada revolução nos costumes sexuais em Cuba, liderada por Mariela Castro, funcionária-sobrinha do dinossauro. O entusiasmo com o engodo de maior compreensão da homossexualidade, num país onde não há liberdade para escrever um blog, só pode ser sintoma de cegueira ou idiotia.

sexta-feira, julho 7

A barbaridade de que não se fala muito

A próxima terça feira é o dia mundial de protesto contra a morte por apedrejamento. Só no Irão, seis mulheres aguardam em prisões a execução da sentença.

quarta-feira, julho 5

O homem que morreu duas vezes

Parece ser o caso do pai de Ahmadinejad.

Vá lá, não vou deixar passar o dia sem falar de futebol

1. Há bocado a SIC passou, cheia de gozo, declarações de um jogador da selecção francesa mostrando que não distingue o Scolari de um jogador e exibindo igual desconhecimento sobre a equipa que daqui a umas horas vai reduzir a pó quem canta de galo. Não devem ter percebido que a pretensa ignorância é fingida e tem raizes no desprezo pelo adversário. Ou então o declarante é um leitor compulsivo de Pacheco Pereira (de quem a SIC não terá lata para rir).

2. O mundial não vem bafejar de optimismo apenas o homem da rua. Tambem o Movimento já não sei de quê, no impasse desde a derrota de Alegre por falta de assunto, encontrou o seu leit-motiv. Escreve hoje no PÚBLICO o poeta que Portugal tem nas mãos a missão de patrono dos pequenos, dos desditosos na mó de baixo (palavras do New York Times!) Por todos os oprimidos, periféricos, esquecidos, contra os grandes e dominadores, onde hoje se inclui a França, avante portugueses, por todos os deserdados do mundo! exorta Manuel. Assinale-se que o texto contém a importante descoberta da parte sã dos Estados Unidos: a minoria que fez do futebol uma forma de resistência aos gostos dominantes. Aguarda-se para ver em que categoria de militante se vai enquadrar Scolari no Movimento. O pior é que o pacote vai ter de incluir Nossa Senhora.

3. Recebi um sms de número desconhecido com um texto sobre a façanha que vamos concretizar à noite. Como nas mensagens de oração, pedem-me que envie aos amigos e não corte a corrente. Estou na dúvida se a ideia se deve à volúpia do lucro das sinistras operadoras de telecomunicações ou à candura e sentido de missão dos apoiantes do Movimento. Seja como for, se acabar por não obedecer, é por falta de tempo.

O mistério público

O Ministério Público ocupa tempo e recursos da polícia e encarniça-se para produzir prova e levar à condenação um grupo de mulheres que fizeram aborto e o médico que as assistiu.
O Ministério Público acredita (neologismo em voga na comunicação social) que um bando de miúdos empurrou uma pessoa, debilitada por agressões e torturas que os próprios lhe infligiram, para um poço profundo, sem intenção de matar.
Expliquem-me como se fosse possível compreender.

Falta-nos pelo menos um ecran gigante

O SuperHomem regressa, mas teremos de nos deslocar a Oviedo ou a Málaga para o ver em 3D. Parece que vale a pena.

sexta-feira, junho 30

Conversa de futebol

Está na ordem do dia falar de futebol ou queixarmo-nos do excesso com que dele se fala. Vasco Pulido Valente volta ao assunto hoje no PÚBLICO, confessando uma mistura de indiferença e fascínio pelo ambiente criado à volta do Mundial.

A conversa de futebol não é, claro está, interessante em si. Não envolve argumentos, mas sim desejos, declarações de fé e "prognósticos". A controvérsia fica, por regra, bem ao nível do balneário. O estado do músculo x do jogador Y ou uma contagem de cartões são as notícias mais excitantes.

Mas é uma ilusão pensar que a conversa que a rádio e a tv nos dão, habitualmente, é melhor do que isto. Deixemos de lado as inúmeras rádios-todas-iguais-às-outras que encharcam o FM com conversas matinais bem piores que o futebolês: a linguagem e os temas são os da pura e simples idiotês. O pior é que as conversas (matinais e não matinais) na Antena 2 não são nada melhores, ao contrário do que se poderia esperar. Os programas da manhã, os da Judite Lima e o ritornello, mais um ou dois de que não recordo o nome, destacam-se pela conversa que oscila entre o tonto e o que interessa só a um grupo restrito de amigos. Os funcionários e as funcionárias proferem banalidades sobre banalidades num dialecto ao pé do qual os diálogos dos morangos com açúcar fazem lembrar a Agustina. Além disso, elas entrevistam-se umas às outras e trazem à conversa muitos amigos, sempre maravilhosos e com um gosto musical óptimo. Por exemplo: parece que uma das funcionárias, Daniela Qualquer Coisa, entrevistou Catherine Deneuve; hoje de manhã as outras funcionárias entrevistaram-na ao telefone perguntando sobre a excitante experiência. A Daniela explicou que tinha ficado maravilhada com a militância de Deneuve contra a tortura, a pena de morte e a defesa do ambiente. Que Deneuve era uma senhora e isto e aquilo. Tudo polvilhado de elogios mútuos q.b.. Francamente! Pior do que isto só o Madail ou o major. Na rádio pretensamente "cultural" exibe-se diariamente uma cultura superficial que é mistura do reader's digest com o foyer do S. Carlos. Felizmente, a música que transmitem não é fabricada na casa. Não há pachorra para o culturês (ainda por cima pc).

quinta-feira, junho 29

Sucesso


O êxito mais notável dos sindicatos de serviços públicos está, fora de dúvida, no facto de o cidadão comum, que indirectamente financia os salários, ter interiorizado a justeza de acções que lhe causam um pesado transtorno, com paciência ilimitada, ao mesmo tempo que interpreta o protesto como estando dirigido a uma entidade abstracta.

quarta-feira, junho 28

Injustiças

O grande clamor em torno do tratamento dos prisioneiros de Guatanamo, e dos raptos e transporte de suspeitos de terrorismo por esse mundo fora, tornou-se banalidade. Não há nada de tão insistente e sistemático, nos meios de comunicação com força para gritar alto, sobre as práticas bárbaras das polícias e as penas degradantes na execução da justiça em certos países islâmicos.

O famoso terrorista "Carlos, o Chacal", raptado por agentes franceses no Sudão em 94, condenado e preso em França desde 1997, vem juntar-se ao clamor, processando as autoridades francesas pelo rapto efectuado fora da lei e fazendo queixas severas sobre o seu regime prisional, que caracteriza por períodos de isolamento extremo, assédio frequente e privação do sono. Comparando o seu caso com o dos suspeitos raptados e deslocados em aviões da CIA, "Carlos" quer justiça. Fica no ar, implícito, que os franceses são pelo menos tão desrespeitadores de direitos humanos, no tratamento de prisioneiros, como os americanos. Lá no fundo talvez "Carlos" tenha uma secreta preferência por Guantanamo.

Elas têm ciúmes

Nem todas querem mais futebol.

terça-feira, junho 27

A Caixa

Com imenso desvelo, somos presenteados com uma caixa de correio electrónico gratuito! Finalmente alguém faz alguma coisa por nós. Estávamos fartos das mensalidades exorbitantes do hotmail, do yahoo, do clix e do sapo: um verdadeiro assalto. Nem sei como é que o pobre orçamento familiar aguentava o luxo de ter 4 ou 5 endereços de email, pagos a peso de ouro. Só de facto num país onde se vive claramente acima das posses. Agora espera-se ansiosamente o passo seguinte: o governo vai anunciar, mais dia menos dia, um "mensageiro" gratuito para todos os portugueses (coisa inimaginável até hoje, mas a partir de agora o céu é o limite, como disse o outro a respeito de outra coisa)! Será com certeza um mensageiro seguríssimo, acessível - tal como o e-mail - em telemóvel e também na nova geração de frigoríficos inteligentes, que permitirá ao cidadão manter agradáveis chats com os funcionários e funcionárias da edp, epal, finanças, psp, ctt e até provavelmente da loja do cidadão e de ministérios. Tudo isto sem necessitar de ter computador, bastando upgradar o telemóvel ou o equipamento de cozinha.

Mas nem tudo é perfeito: à nova Caixa ou ao futuro Chat vai faltar o picante a que estávamos habituados no hotmail ou no yahoo. Um correio só para despachar assuntos burocráticos e pagar facturas fica triste demais. Ora, se os cidadãos e as cidadãs levarem para lá todos os amigos e amigas, todos os e todas as ex e futuro(a)s amantes, todos aqueles e aquelas com quem trocam anedotas e fotos de gajas ou gajos, não vai haver largueza de banda que aguente. A solução terá de passar por manter uma ou duas das nossas antigas caixinhas, mesmo pagando aquelas quantias incomportáveis. O tecnochoque deve estar a preparar milhões de correspondentes e interlocutores virtuais para animar o novo correio. Preparemo-nos: do e-boletim da autarquia até ao anúncio das fabulosas riquezas que ganharemos em certificados de aforro, passando pela abertura de mais um xizão para reciclagem, vamos ter muito que ler.

Um Marlboro desalcatroado, por favor

Se as tabaqueiras estiverem atentas aos nichos de mercado com grande potencial, e ao vertiginoso progresso científico dos nossos dias, iremos ter em breve os cigarros com nicotina pura, desalcatroados. Quem sabe até se o novo produto não virá a ser classificado como especialidade farmacêutica (onde, a propósito, o vinho tinto já deveria ter sido incluído). Os cidadãos livres têm o direito a escolher entre o cancro de pulmão, o enfarte de miocárdio e a doença de Alzheimer.

segunda-feira, junho 26

Finalmente o divórcio gay torna-se possível

Chega ao fim o casamento de X e Y, menos de um ano depois de a nova lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo entrar em vigor em Espanha. X, alegando que a dedicação a Y o impediu de se realizar profissionalmente, exige o usufruto do lar durante 15 anos, a tutela dos cães do casal e uma pensão mensal de 7000 euros.

À atenção da JS e do BE: por cá ainda vamos a tempo de tornar obrigatório um seguro no acto de casamento. Afinal, casar deverá ser encarado pelo menos tão seriamente como comprar um automóvel. Ou não?

domingo, junho 25

Notícias da universidade

Steven E. Jones, professor de Física na Universidade Brigham Young (Utah), membro da Igreja de Cristo dos Últimos Dias e, segundo algumas fontes, admirador de Bush até há pouco tempo, juntou-se à brigada da Teoria da Conspiração ao publicar um artigo em que defende que, no 11 de setembro, as torres do WTC caíram por implosão, devido a explosivos. Os aviões teriam sido uma camuflagem para desviar atenções. No início deste mês participou, em Chicago, numa conferência transformada em comício contra as forças sinistras que pretendem apoderar-se dos EEUU.

Os especialistas não estão de acordo com as teses defendidas por Jones, mas no âmbito da Resistência de Materiais há liberdade de expressão suficiente para que ninguém seja perseguido pela sua visão dos factos. Já o mesmo não se pode dizer de matérias como os direitos que devem, ou não, ser concedidos aos homossexuais. Jeffrey Nielsen, professor de Filosofia na mesma Universidade Brigham Young, e membro da mesma Igreja, acaba de ser despedido por ter tornado pública uma opinião favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo, contrariando uma posição da universidade em apoio da emenda à constituição (destinada a impedir aquela forma de união de pessoas) que foi rejeitada no passado dia 7 pelo Senado americano.

terça-feira, junho 20

Os direitos das mulheres estão imparáveis

Só alguém com má vontade pode dizer que os governos de inspiração socialista têm desprezo pelos aspectos religiosos da vida em sociedade. O ministério do interior aqui do lado anuncia que passa a poder ser utilizada, no novo bilhete de identidade electrónico, fotografia de rosto com véu, nos casos em que sejam invocadas práticas, crenças, e pertença a ordens religiosas. As freiras de toda a Espanha agradecem, pois foi obviamente a pensar nelas que a revolucionária medida viu a luz.

segunda-feira, junho 19

Gaivota 2006

Não é a ampliação de uma linha de metro. É o nome da operação da PSP montada para proceder hoje à distribuição dos enunciados de exame. Poderíamos pensar que finalmente se percebe para que temos polícia, mas ao ler esta notícia e os respectivos comentários, logo nos apercebemos de que a estratégia é errada e o alvo falhado: a bem da igualdade de oportunidades, faria mais sentido pôr os tais milhares de polícias a vigiar os alunos nas salas de exame.

Neto radical

Hossein Khomeini, neto do famoso ayatollah, em entrevista à Al-Arabiya, critica o regime de Teerão e apela à invasão pelos Estados Unidos. Diz que todos os caminhos são bons para chegar à democracia. Não deixa de ser extraordinário. Quanto tempo demorará até que o regime o silencie?

domingo, junho 18

Injectocarro



"Vem aí o carro da injecção" pode ser uma frase que tem sentido na China, mas não para significar que se aproxima uma equipa de cuidados médicos. É o modo de executar as sentenças de morte que está a mudar: a injecção letal está a ser adoptada com prevalência ao tiro na cabeça e de forma descentralizada. Para evitar os custos com o transporte de condenados até às prisões com equipamento, o injectocarro vai ter com eles. Também se diz que este meio de execução deixa o cadáver em muito melhor estado para efeito de extracção de órgãos. Desta mistura da morte com mesquinhas preocupações economicistas ninguém pode acusar as autoridades em regimes islâmicos, como se pode constatar aqui.

quinta-feira, junho 15

Reflexões triviais sobre o Mundial2006

Vamos ganhar ao Irão por 2-0! diz um fervoroso adepto da Selecção. O locutor pergunta-lhe se não tem dúvidas e ele reafirma. Estas certezas são tão frequentes como os jogos de futebol. Que eu me lembre, só Cavaco foi criticado por dizer que não tinha dúvidas.

Ronaldo tem tonturas na cabeça e bolhas nos pés. Nada de grave: efeitos da pressão que sofre por estarem cravados em si todos os olhos do mundo. É o stress, essa miraculosa explicação de todos os males, que agora disputa o lugar das antigas iras dos deuses. Uma prova medíocre da existência da alma.

Uma ruidosa multidão de fãos e fãs esperava o autocarro da Selecção à chegada ao hotel em Frankfurt. Uma fã excitada tinha visto o Cristiano Ronaldo e o Figo. Um fão estava lá desde as 4 da manhã e disse que tinha valido muito a pena.

Ser estrela do futebol agora não é uma pera doce: além da sobrenatural destreza física, os jogadores na berra têm que aturar rodas de jornalistas e debitar prognósticos e razões, com anúncios da sagres e da tmn em cenário de fundo. O Figo é um ás também neste campo: com evidente bom senso e desprezo pelos profetas de bancada, diz sempre, em essência, que ganharemos a não ser que venhamos a perder.

E ontem falou-se do Irão como um país de fanáticos... por futebol.
Era bom que fosse só isso.

O que é também mais ou menos cristalino é que o grande público, ao contrário da aparência, não aprecia futebol por aí além. Pelo menos não se nota grande movimentação e euforia a propósito de jogos que não envolvem Portugal, e parece que há várias equipas boas a competir. Mas a cidade só se transfigura, e só irrompem clamores de frustração e alegria vindos do interior dos prédios, quando "nós" jogamos. Os homens gostam sobretudo da coscuvilhice à volta das compras e vendas no grande talho da carne futeboleira, e das intrigas com árbitros e dirigentes; as mulheres normalmente não ligam a essas futilidades, mas estão na onda por causa dos namorados, maridos e, vá lá, de um ou outro jogador.

Do que a malta gosta também, claro, é de sofrer e gozar com a sua Selecção, fazendo de duas horas de exposição ao mundo uma imaginária suspensão da nossa irrelevância.


POST SCRIPTUM: 1) Tenho que reconhecer que o adepto sem dúvidas acertou em cheio.
2) Fotos à volta do Portugal-Irão aqui.

The wrong way

O governo irlandês vai adiar a decisão de deixar de incluir o mérito académico entre os critérios para selecção de professores. Dois dos principais sindicatos de professores insurgem-se, e sustentam que o adiamento é um mau serviço prestado a professores, pais e alunos. "É a maneira errada de lidar com a educação e o futuro das crianças", declarou um dirigente.

segunda-feira, junho 12

Alto e pára o baile!

Vamos lá interromper a desinteressante discussão em torno desse jogo digno de dó entre Portugal e Angola. Está ao rubro uma controvérsia muito mais excitante entre defensores da teoria de cordas e um militante do contra. O assunto foi reavivado em artigos publicados no Times, ontem e hoje, relacionados com o livro Not even wrong, de Peter Woit. Sempre se fala de visões do universo e de definições de ciência... O céu não é o limite, aqui.

domingo, junho 11

O cerco aperta-se

Desde ontem, estão em funcionamento as redes de telemóvel nas linhas do metro de Lisboa. Deixa de ser possível aos amantes infiéis, quando a pessoa traída pergunta onde estavam, invocar como desculpa: "não atendi porque fiquei sem rede, ia apanhar o metro".

sexta-feira, junho 9

Novo regulamento sobre ruído...

...aprovado ontem em Conselho de Ministros. O facto vai ser comemorado com arraiais de santos populares.

A qualidade das medidas

Anuncia-se mais um programa dispendioso e complicado para melhorar os resultados dos alunos em Matemática. Por exemplo, lê-se que


Cada agrupamento de escolas define a sua própria estratégia com autonomia, podendo por exemplo aumentar a carga horária da disciplina, criar equipas de dois professores por turma ou constituir equipas multidisciplinares de docentes para realizar actividades de apoio à Matemática nas áreas não curriculares como o Estudo Acompanhado.

Adquirir material didáctico ou software específico e melhorar ou criar de raiz espaços laboratoriais são outras estratégias que podem ser seguidas pelos estabelecimentos de ensino, com base no apoio financeiro da tutela.

Para se candidatarem às verbas, as escolas têm de apresentar um plano onde constem os resultados alcançados pelos alunos no ano de escolaridade anterior, a identificação das causas que influenciaram negativamente as notas e ainda as estratégias de melhoria das aprendizagens, além de uma estimativa dos custos do projecto.

Caso seja aceite o plano, que será avaliado por uma comissão nomeada para o efeito, a escola celebra com o Ministério um contrato-programa onde ficam definidas as metas a atingir e os apoios e recursos concedidos pela tutela.

Em cada escola haverá depois um docente nomeado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), que ficará responsável pelo acompanhamento do projecto.


Ora, dado o número de disciplinas que já compõem o currículo, mais actividades extra-curriculares, mais estudos com acompanhantes, mais horas extraordinárias aqui e ali, daqui a pouco as escolas terão de estar abertas até às 22h (mais ou menos). Pior do que isso, vão-se obrigar as crianças a estar sentadas um número excessivo de horas e ainda alguém virá com toda a lata exigir que não engordem.

Por outro lado, a complicação à volta das candidaturas das escolas ao programa não vai, obviamente, permitir aos professores envolvidos que se concentrem no objectivo principal que é ensinar Matemática bem. Aquisição de software específico? É um embuste pretender que a qualidade das aprendizagens (como eu gosto desta novilíngua) em Matemática, a nível básico, tem uma dependência significativa do uso de tecnologia.

Torna-se cada vez mais evidente que é preciso, antes de mais, melhorar a qualidade das medidas ministeriais.

Vamos ter estudo acompanhado obrigatório. Que tal a ideia de tornar o sucesso não obrigatório? Seria mais simples e barato e com certeza muito mais eficaz.

NOTA. As competências matemáticas (expressão deliciosa) descritas por lunáticos e outros extra-terrestres podem consultar-se aqui. Também ontem se realizou em Lisboa um seminário sobre as ditas, tendo como objectivo reflectir sobre as implicações da formulação da ideia de competências matemáticas, nomeadamente para o reconhecimento e avaliação de competências, para a valorização dos saberes e formação dos adultos e para o desenvolvimento curricular em matemática. Não se esclarece quem irá reflectir sobre as implicações da ideia de formulação da ideia de competências matemáticas, mas tenho a certeza de que não vão faltar candidatos.

terça-feira, junho 6

Sugestão

O Ministério da Educação tem em vista um complexo, moroso e dispendioso sistema de avaliação de manuais escolares que poderá determinar a não aprovação de alguns deles. A iniciativa é absurda, até porque é bem conhecido que os alunos não costumam abrir os livros de texto. O Falta de Tempo, interessado na poupança deste escassíssimo bem, assim como na redução da despesa pública (para possibilitar o pagamento de uma aposentação que se antevê problemático) sugere que simplesmente seja obrigatória a inclusão de rótulos como

Usar este manual prejudica gravemente a tua saúde mental e a dos que te rodeiam. Abstem-te!

Folhear este manual pode incapacitar-te para a escrita e o cálculo durante décadas. Não o abras!


Poderiam adicionar-se fotos de jovens adultos escrevendo quando é à e vice versa, ou encontrar-mos, ou tentando multiplicar 2 por 1/2 e obtendo zero como resultado.

As escolas desencorajariam o uso de livros de texto e criariam espaços para os viciados irrecuperáveis poderem abri-los e folheá-los.

Em cada ano lectivo seriam atribuídos rótulos, por sorteio, a não mais de 75% dos manuais comercializados. Para além da poupança, o efeito poderia ser surpreendente: com o atractivo da proibição, os estudantes talvez passassem a ler manuais.

segunda-feira, junho 5

Qualquer variedade tridimensional...

... sem bordo, compacta e simplesmente conexa é homeomorfa à esfera tridimensional. Dois matemáticos chineses, Zhu Xiping e Cao Huaidong, trabalhando sob a direcção de Shing-Tung Yau, professor de Harvard, reclamam ter demonstrado a famosa "conjectura de Poincaré", um dos grandes desafios matemáticos do milénio.

Huai-Dong Cao and Xi-Ping Zhu, A Complete Proof of the Poincaré and Geometrization Conjectures - application of the Hamilton-Perelman theory of the Ricci flow, (mais de 300 páginas) Asian Journal of Mathematics, Junho 2006.

domingo, junho 4

O perguntador

Tem-se discutido muito sobre qual seria a pergunta certa, a propósito da interrogação do Papa em Auschwitz. A pergunta é velha e atravessa séculos de filosofia e artes. Num belo filme dos anos 60, "Luz de Inverno", Bergman formula-a através de uma das suas personagens.

Para os que têm fé, a questão é destituída de sentido. À luz das escrituras, sabe-se que a conduta correcta é sofrer e calar. Deus dá carta branca a Satanás para cobrir de bolhas e chagas o corpo de Job, que as coçará com um caco. A aposta era que Job mesmo assim não maldiria o nome de Deus e Deus ganha. E se pensarmos no que Deus reservava para o seu "filho" estamos mais que conversados.

No PÚBLICO, Rui Tavares sustentava ontem que a pergunta correcta deveria ser onde estavam as pessoas nesses dias e Vasco Pulido Valente escreve hoje que a pergunta necessária é onde estava a Igreja. De certo modo, dizem o mesmo e têm alguma razão.
Mas parece-me que a novidade interessante não está na pergunta, que todos os homens inteligentes, Ratzinger incluído, sabem que não tem reposta, mas sim em quem pergunta. Deixando de lado a fragilidade e incómodo da posição do chefe da Igreja Católica na terrível questão, aquilo a que assistimos é inteiramente novo: é como se o Papa confessasse a angústia da consciência de que Deus é obra dos homens. Não estou a insinuar que a Igreja poderá ter em Ratzinger o seu Gorbachov, mas sim que o cardeal pensa pela própria cabeça com mais liberdade que alguns dos seus críticos.

Professores, avaliações, aflições

Com o objectivo de diminuir a despesa pública e, vá lá, "melhorar a qualidade do ensino", têm vindo a ser anunciadas medidas necessárias para a avaliação de professores e filtragem do acesso aos níveis elevados da carreira. Estando de acordo com o princípio da necessidade de avaliação (assim como o do condicionamento de acesso à carreira em exame nacional), entrevejo uma mão cheia de possibilidades de enviesamento do processo. Ou me engano muito, ou uma parte substancial da concretização das avaliações pode ficar nas mãos do lobby das "ciências" da educação, dado que há uma elevada possibilidade de os coordenadores de departamento curricular (a quem vai incumbir atribuir classificações) serem recrutados entre os inúmeros mestres e doutores, especializados em estudos de acaso, que durante anos interiorizaram a ideologia pedagógica em vigor. Podemos estar a assistir à criação de um corpo de guardiões da execução das orientações metodológicas rígidas e irrealistas que recheiam os programas oficiais. Ironicamente, muitos deles terão sido doutrinados sobre a inadequação dos exames como método de avaliação...

Lendo o anteprojecto de estatuto da carreira docente, disponível no site do ministério da educação, não fico muito descansado quando reconheço, aqui e além, os traços distintivos da escrita em eduquês. Por exemplo, no artigo 36-2º diz-se que são competências dos professores

gerir os conteúdos programáticos, criando situações de aprendizagem que favoreçam a apropriação activa, criativa e autónoma dos saberes da disciplina ou da área disciplinar, de forma integrada com o desenvolvimento de competências transversais.

Isto já foi escrito muitas vezes e não deixou boas recordações.

A avaliação pelos pais, no contexto de facilitismo com que o ensino foi contaminado nos últimos tempos, corre o risco de reflectir, em grande medida, os simulacros de avaliação feitas pelos próprios alunos em 1974 e 1975.

A ministra afirma ainda (PÚBLICO de hoje) que a escola já dispõe de meios de exercer autoridade. Do alto do "observatório da violência" a escola deve ser um pontinho longínquo e perdido no espaço: talvez o envio de uma sonda permita conclusões mais fiáveis. E, quando se humilha publicamente, em bloco, a classe dos professores, a questão deixa de ser a de saber se eles merecem ou não as frases reprovadoras, passando a ser a de avaliar se o efeito não será o mesmo que dizer: batam-lhes mais, que eles merecem.

sábado, junho 3

Choque disfórico

Vai ser possível, pelo menos em Espanha, reclamar o sexo com que cada um mais se identifica, mesmo sem operação cirúrgica. Basta um atestado de disforia de género: habituemo-nos à palavra. Ainda por cima pode escolher-se o nome a condizer, e tudo isto mantendo o número do BI. Só acho que todo este avanço cai, sem se aperceber, na armadilha de acreditar que apenas existem dois sexos. Por agora, as clientelas ficam satisfeitas com a possibilidade de alternar, mas não tardará a insurgência das insuspeitadas maiorias que não se revêem na armadilha estruturalista da dicotomia M/F.

sábado, maio 27

As vozes do dono

Em estimativa grosseira e não fundamentada, calculo que há para aí uns 50% de professores incompetentes nas escolas do país e para aí uns 93,4% de pais incompetentes para os avaliarem de maneira honesta.

Mas os sindicatos perdem tempo ao virem dizer estas frases aos microfones. Opor-se a que os pais sejam actores do processo de avaliação e reafirmar que eles são fundamentais na dinamização da escola e do projecto educativo é repetir as lenga-lengas ocas que o mesmo ministério lhes vem inculcando nas cabeças há décadas de modo a limitar-lhes e banalizar-lhes as formas de expressão, para finalmente se rir deles, pois fica a nu que não perceberam nada.

Consumismo frustrado

Hoje comprei umas colunas (excelentes, mas não devo fazer publicidade) para ouvir cds e rádio. Preparava-me para as instalar na banheira (obviamente), mas parei a tempo: as safety instructions do manual aconselhavam a não utilizar o material na banheira, na máquina de lavar ou na pia da cozinha. Não está certo! Deviam avisar na loja. Quase 500 euros e não se pode usar com o jacuzi???

O Mundial

Onde é que isto irá parar? Depois do código Da Vinci, é a vez do Mundial 2006. Até onde poderá descer um blogger para aparecer nos motores de busca? Ainda por cima escrevendo sobre matérias que desconhece.

O que está fora de dúvida é que começou um período de euforia e felicidade para os portugueses: os festivais de música são o prelúdio, as bandeiras começaram a sair dos armários, alguns cafés já promovem a imperial quase à borla nos dias em que jogará a Selecção, e a Sport Tv rendeu-se ao impulso autárquico de oferecer futebol aos cidadãos. Os ecrans gigantes não são baratos, mas não nos preocupemos: as despesas com os estádios do Euro 2004 são muito maiores e os munícipes aceitam com alegria que as suas contribuições em IMI, IMT e taxas de esgotos sejam lançadas cano abaixo nesses investimentos.

Eu compreendo bem a irritação do jcs com o que nos espera a partir de 9 de junho. Os canais de rádio e tv falarão do mesmo durante longas horas, o silêncio dos prédios será interrompido por coros bem sincronizados de júbilo ou decepção, e há mesmo a possibilidade de alguns buzinões desassossegarem as cidades. No entanto, sem ser apreciador de futebol, não vejo mal nenhum nisto. A verdade é que, embora omnipresente, o futebol ainda não é obrigatório: vê-se e ouve-se por opção individual inteiramente livre. Para além de não ter nada contra a felicidade geral, até acho agradável a tranquilidade que se instala nas ruas e no trânsito quando tudo corre para o ecran mais próximo à hora dos jogos, fazendo lembrar, para melhor, Lisboa em Agosto.

Por outro lado, temos que reconhecer que é no âmbito do futebol que os portugueses criaram produtos de primeira água. Os descobrimentos e os Jerónimos estão feitos há quase cinco séculos, os Lusíadas têm a mesma idade, e de então para cá nada nas artes, na ciência, ou na técnica, relevante em termos globais, tem a marca portuguesa. Se é certo que de vez em quando alguns nomes adquirem merecido destaque internacional, não temos primeiros lugares no pódio fora do futebol. Dar ao mundo vários jogadores de cinco estrelas e um treinador topo de gama é obra e, para bem ou para mal, condicionante da imagem que temos de nós próprios.

domingo, maio 21

Tentando descodificar

Tem que ser: um post sobre o Código da Vinci. Em primeiro lugar, não li o livro, nem tenciono lê-lo nem ver o filme (se tiver que dar algum mau passo, antes a missão impossível nº3). Desde que comecei a observar o sucesso da novela vivo intrigado com o que nela atrai massas de leitores pouco habituais. O mistério descrito em estilo de "policial"? A avidez por teorias improváveis (no sentido literal de que não podem ser provadas), como as que alimentam as mais disparatadas fábulas de conspiração? Tudo isto e com certeza mais. O facto de as teorias, neste caso, terem o Cristo histórico e a Igreja Católica como objecto, deve ser um factor decisivo na explicação do interesse suscitado. Isso não deixa de me causar perplexidade, dada a laicização das nossas sociedades: tendo o interesse pela religião descido a níveis tão baixos, não se pode explicar o fenómeno por coscuvilhice pura e simples.

Por outro lado, parece que o filme não está a ter um êxito comparável. Eu acho que em matéria de código Da Vinci de mais uma especulação não vem mal nenhum ao mundo, e portanto aqui vai. Tendo de condensar em duas horas a série de devaneios contidos no livro, ainda por cima com as técnicas narrativas mais-do-que-já-vistas do cinema americano, com música aterradora muito alta e ruídos fragorosos em dolby digital, o filme provavelmente exibe, de modo excessivo, a banalidade da estorieta subjacente. Muitos sairão de lá desiludidos ao constatarem que o que tomaram por apoio consistente à sua visão de um Cristo dessacralizado e de uma Igreja tenebrosa, mais não parece, afinal, do que uma crendice que se cobre a si própria de ridículo.

O mistério tragável estava no livro. Talvez muita gente tenha descoberto que, afinal, do que gosta é de ler.

sábado, maio 20

Nova carta na mesa

Ahmadinejad está a preparar agora uma carta para o Papa. Certamente que o conteúdo não será surpresa: aposto que vai copiar, como fez na carta a Bush, o discurso contestatário dos pretensos laicos ocidentais - os que, na realidade, sofrem de fé incurável nas utopias totalitárias que a nossa cultura incubou. Pode ser problemático provar que o Irão persegue o fabrico da arma nuclear, mas vai ser simples acusar o presidente de plágio. Presumo que não vão ser poucos os que poderiam exigir indemnização, mas entre camaradas de luta essas coisas podem bem ficar esquecidas.

A Europa tem, apesar de tudo, motivos para ficar despeitada. Fica a nu a nulidade prática dos seus dirigentes políticos. Se algum tiver direito a carta, será em segunda escolha.

terça-feira, maio 16

Lingerie e quotas II

Uma alta autoridade religiosa saudita criticou as medidas anunciadas pelo ministro do trabalho, afirmando que elas levariam à imoralidade e ao fogo do inferno. Numa cassete recente, Bin Laden afirma que o ministro é um herege e merece a morte. Assim, a chegada das mulheres ao mercado de trabalho na Arábia Saudita vai ter de esperar.

domingo, maio 14

A estratégia epistolar



(www.filibustercartoons.com)

Há já muito tempo que Ahmadinejad fala não apenas para o mundo islâmico mas, sobretudo, para os ocidentais. Isto mesmo é sublinhado hoje no editorial do PÚBLICO por José Manuel Fernandes, a propósito da famosa carta a Bush, de que o jornal hoje publica o essencial. A leitura do texto confirma essa impressão e exibe como a opinião pública na Europa e nos Estados Unidos abriu caminho fácil à estratégia mediática dos dirigentes iranianos. É impossível, em face da carta, não sentir o incómodo de constatar que ela poderia ter sido escrita, e facilmente subscrita, por figuras notórias do nosso mundo político e cultural, e por não poucos entre os nossos amigos, conhecidos e vizinhos. Nalguns casos, pequenas alterações de pormenor seriam suficientes: conjecturo que Louçã e Drago recomendassem a retirada das referências a Jesus Cristo e que Freitas do Amaral, Mário Soares e Maria do Céu Guerra, cada um pelas suas razões, requeressem uma alteração de forma no parágrafo final, em que o convite à conversão é apontado como solução para os problemas do mundo.

O Ayatollah Ahamd Jannati, grande leader da oração de 6ª feira em Teerão, tem uma opinião que choca com esta minha visão, porque ele afirma que a carta teve inspiração divina. (Terá o pensamento dos nossos políticos e mentores de opinião, mesmo dos mais empedernidamente laicos, sido contaminado, sem que eles o saibam, pela luz proveniente de um Todo Poderoso?)

Claro que a opinião de Jannaty é que pode estar minada pela conveniência política que a circunstância lhe aconselha. Se é de um apelo à conversão que se trata, porque é que, como nota o analista iraniano Mehran Riazaty, Ahmadinejad não se dirigiu em primeiro lugar aos dirigentes ateus chineses e russos? Só porque estes não têm dificultado o caminho para a bomba?

Com suprema ironia, Ahmadinejad pergunta ao destinatário se acha que os resultados das políticas recentes dos EEUU são compatíveis com os ensinamentos de Jesus Cristo e os direitos humanos. Ele sabe que a questão não lhe pode ser devolvida. Direitos humanos é coisa com a qual o Corão nada tem a ver: a teocracia está no rumo certo.