Grupos de islamistas radicais foram rápidos a manifestar-se em vários paises muçulmanos em reacção às palavras do Papa. Ameaças de morte, bombas em igrejas cristãs, queima de uma efígie de Bento XVI e o assassinato de uma freira constituem o balanço recente. Nada surpreendente; certamente também não para o Papa (Vasco Pulido Valente escreve no PÚBLICO de hoje que a reacção islâmica terá deixado Bento XVI estupefacto, o que não me parece nada provável). Bento XVI é tudo menos ingénuo e distraído e com certeza mediu o que iria dizer, e as consequências, e quis assumir o risco. Ele não ignora que para os ouvidos do Islão, até mesmo para os chamados intelectuais, pouco importa que se tratasse de uma citação e que o contexto fosse o de uma palestra em ambiente universitário. E quanto aos grupos islâmicos radicais, se há coisa de que eles não precisam é de pretextos para a violência antiocidental. A conspiração para nos converter de certeza não dorme, e até que se registe um atentado mais mortífero que os anteriores, ou pelo menos a tentativa dele, é uma questão de tempo e sorte (ou azar). Bento sabia também com certeza que não seriam de esperar vozes de apoio, nem mesmo dentro da Igreja. A sua atitude tem um cunho mais político do que religioso: vem mostrar que o ocidente está paralisado e refém do medo (o que, de resto, também não é novidade) mas que ainda assim há quem tenha consciência da tremenda ameaça e escolha não ficar calado. A visão do perigo e a identificação do inimigo tornou-se especialmente difícil, mas é condição necessária para que se possa pensar a defesa.
Em face da grotesca reacção de responsáveis políticos muçulmanos (a quem nunca são requeridos pedidos de desculpa) fica óbvio que o "diálogo" entre as religiões só se fará com as regras impostas pelo Islão. É altura de reconhecer que as iniciativas de diálogo e aproximação conduzidas pelo papa anterior tiveram um resultado nulo neste campo. Os complexos de culpa e a falta de firmeza que enredam a política europeia abrem o caminho à submissão total.
Actualizado em 18/9: comentário a propósito no telegraph, hoje.
No First Things: It can be argued that the Regensburg lecture will turn out to be the most important statement by a world leader in the post–September 11 period.
No Times: The Pope’s actual quotation is not just a medieval point of view. It is a common modern view; even if it seldom reaches print; it can certainly be found on the internet. “Show me just what Muhammad brought that was new, and then you shall find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.”
Is it true that the Koran contains such a command, and has it influenced modern terrorists? The answers, unfortunately, are “yes” and “yes”.
No New York Sun: No, this pope is not naïve. It is our liberal, theologically illiterate politicians who are naïve. We are already at war — a holy war, which we may lose.
A nova era no Vaticano, cartoon publicado na Al Jazeera.
Anne Applebaum no Slate: nothing the pope has ever said comes even close to matching the vitriol, extremism, and hatred that pours out of the mouths of radical imams and fanatical clerics every day of the week all across Europe and the Muslim world, almost none of which ever provokes any Western response at all. And maybe it's time that it should: When Saudi Arabia publishes textbooks commanding good Wahhabi Muslims to "hate" Christians, Jews, and non-Wahhabi Muslims, for example, why shouldn't the Vatican, the Southern Baptists, Britain's chief rabbi, and the Council on American-Islamic Relations all condemn them—simultaneously. Equally, I see no reason why Swedish social democrats, British conservatives, and Dutch liberals couldn't occasionally forget their admittedly deep differences and agree unanimously that the practices of female circumcision and forced child marriage are totally unacceptable, whether in Somalia or Stockholm. Surely on this issue they all agree.
domingo, setembro 17
sexta-feira, setembro 15
Oriana Fallaci
Faleceu esta noite em Florença. O último artigo, "O inimigo que tratamos como amigo", aqui. Mais informação na edição extra do Corriere.
quarta-feira, setembro 13
A verdadeira conspiração
Na Holanda, o ministro da justiça pronuncia-se favoravelmente à introdução da sharia.
Aos poucos, a política de integração avança. Integração da Europa no Islão, bem entendido.
Aos poucos, a política de integração avança. Integração da Europa no Islão, bem entendido.
segunda-feira, setembro 11
11 de setembro
1 de novembro de 1755, 1 de dezembro de 1640, 6 de agosto, o outro 11 de setembro, 25 de abril podem ser recordados com nomes: terramoto, restauração, bomba atómica, golpe de Pinochet, revolução dos cravos ou golpe militar, segundo o gosto. Por vezes recordamo-nos de nomes e não de datas, pelo menos datas exactas: Katrina, invasão do Iraque... Quando o acontecimento é inominável, por não haver precedente que tenha justificado uma designação, resta a data como etiqueta.
Quase todas
Um spot da TSF a anunciar a programação especial para hoje diz mais ou menos isto: "depois do 11 de Setembro quase todas as religiões ficaram sob suspeita..."
Humm... quase todas? A TSF podia ser um pouco mais explícita e dizer "todas menos o Islão."
Humm... quase todas? A TSF podia ser um pouco mais explícita e dizer "todas menos o Islão."
sexta-feira, setembro 8
O amor nos tempos de internet (12)
-Oh Ritinha dá cá um beijo, nhhh, nhhh, até que enfim!
-Há quanto tempo? Quase meio ano, não? Estás óptima, deve ser da gravidez
-É incrível como a vida nos tira o tempo até para as amigas. Dantes viamo-nos todos os dias e agora quase só nos ouvimos pelo telefone
-O Carlos como vai, além de lhe dar para fazer de fantasma à noite?
-Não gozes, que eu tenho um medo que o diabo do homem caia e bata com a cabeça nalguma coisa
-Deixa lá, nessas crises eles devem ter um radar como os morcegos
-Mas olha que agora estou é mais preocupada com isto da minha mãe. Como te disse há uma semana, quando éramos para nos ter encontrado, ela estava com sinais de um AVC e entretanto confirmou-se.
-Que problema
-É para ela e é para mim. A médica de família disse-me ontem, tem que ficar com a sua mãe, ela não pode ficar sozinha
-…??
-e eu disse ó sotora, como é que eu posso, grávida, a trabalhar, com marido, num apartamento de três divisões, devia estar prevista uma solução para estes casos, e ela, mas normalmente nestes casos agudos conta-se com a família, e eu disse logo, olhe, não sei como vai ser mas comigo é que ela não fica, já basta o que ela fez à minha cabeça até que saí de casa
-ai meu Deus disseste isso?
-disse e hei-de dizer, tu conheces bem a história, primeiro estiveram sempre os amantes de sua excelência, agora não sou eu que me vou sacrificar
-Sim, mas alguma ajuda tens que dar à velhota, esquece essas coisas
-Olha, vamos para a mesa do canto para falarmos mais à vontade, e tens que me contar já a tua história antes que isto fique tudo cheio
-Cheira que é uma maravilha, se a comida que eu faço fosse tão boa como a deste self-service o estupor não andava atrás doutra, sabes eu levo isto a rir
-ahahahah
-Bom, então cá vou eu contar-te em segredo absoluto, ouviste? Não falo do caso a mais ninguém, absolutamente
-Rita, sabes que sim
-Lembras-te que te disse que tinha descoberto uma conversa do Eduardo no pc lá de casa
-Dantes ainda ia sabendo qualquer coisa do Eduardo pelo meu sobrinho, mas já há uns meses que não vejo o Dino
-Pois, então foi na segunda de manhã, há quinze dias, antes de ir para a empresa fui ao computador para completar um relatório que tinha o título co qualquer coisa e ensonada como estava não me lembrava em que pasta o tinha posto
-Estou a ver, tens tanto em que pensar
-de maneira que fiz search e além do meu apareceu outro documento com o nome co outra coisa
-Começa bem
-Sim, e aqui a tua amiga que é discretíssima mas muito curiosa vai ver, é uma conversa do Eduardo com um fulano de Coimbra
-Nunca me falaste de nenhuma personagem de Coimbra
-Não, mas falo agora, é um tipo que entrou nas amizades do estupor através da ex, uma pessoa muito bem colocada, trabalha numa firma de advogados muito ligada ao partido em que tu votaste
-Ó Rita, como é que tu sabes isso tudo?
-Claudinha, é tão fácil, com o que se vai ouvindo e com o resto, está tudo na net
-Qual é a firma?
-Ora, o Carmelo Reis e Associados, sabes, é quase uma ordem religiosa
-Ai nossa senhora, mas não te percas
-A perna de borrego está óptima
-Di-vi-na, mas diz mais
-Pois então imagina: lendo a conversa percebe-se que o advogado de Coimbra está a arrastar o Eduardo para preparar uma à mulher dele
-À mulher? Arrastar como?
-Sim, o tal tipo é casado, mas acho que aquilo deixou de funcionar, o L. às vezes falava disso, que andam há muito tempo num impasse e acho que agora quer ver-se livre do casamento com proveito
-e…?
-e eu acho que ele fez a cabeça do miúdo
-Então mas qual é o papel do Eduardo nisso?
- Parece que a Clara, é assim que ela se chama, já conversou com outro homem num chat da net mas é muito cuidadosa e o marido não tem provas claras, só um indício
-Já estou a ver o resto, quer que o rapaz colabore numa armadilha… E o Eduardo vai nisso? Não o conheço bem mas tinha uma óptima impressão dele. E porque é que o advogado não a deixa a mulher, simplesmente?
-Ó minha querida, se conseguir o divórcio em determinadas condições tem hipóteses de ficar com um casarão
-Ah é?
-Isto sou já eu a supor, mas não devo enganar-me muito, porque segundo o que ouço contar pelo L., ela tem muita massa
-Ah bom
-Têm um T4 e uma vivenda, e acho que não é com o ordenado dele que os compraram
-Bom, nada que não se tenha visto, mas mesmo assim como é que esse homem tem à-vontade com o rapaz para andar a meter-lhe na cabeça uma coisa dessas?
-Realmente, para se chegar àquele nível de confiança alguma coisa há-de haver que eu não sei o que é
-Mesmo assim não percebo… o que é que o rapaz lucra com isso? … e a outra suspeitará de alguma coisa?
-Não tenho ideia. Pelo que li, o miúdo pareceu-me de pé atrás, mas interessado ao mesmo tempo. Vê lá a família que eu estava quase a arranjar, digo isto porque estou com um pé dentro e outro fora
-A minha opinião não conta, mas acho isso esquisito… como é que iriam conseguir tramá-la?
-Não se percebe bem só com base no que eu vi, mas talvez se ela tiver uma troca de mimos comprometedores com outra pessoa ao telefone ou na net e essa pessoa gravar… topas? O colaborador fará o papel de quem está a chantagear o marido
-Pois… mas isso provará o quê? E não podem ser descobertos? O tipo sendo advogado arrisca muito, e o miúdo trama-se
-Minha querida, todos arriscamos qualquer coisa, e uns arriscam mais alto quando acham que vale a pena
-Meu Deus, que história
-O L. anda transtornado, já deve ter visto o que eu vi
-Então e mudando de assunto ele continua atrás da outra do norte?
-Acho que ele está um pouco perdido, e eu já me desinteressei do assunto porque vou saltar do barco. O mais certo é eu já não chegar a saber os episódios seguintes… Bom, isto está a encher e aqui há sempre gente conhecida, por isso vamos falar de outros filmes. Tens ido ao cinema?
-Há quanto tempo? Quase meio ano, não? Estás óptima, deve ser da gravidez
-É incrível como a vida nos tira o tempo até para as amigas. Dantes viamo-nos todos os dias e agora quase só nos ouvimos pelo telefone
-O Carlos como vai, além de lhe dar para fazer de fantasma à noite?
-Não gozes, que eu tenho um medo que o diabo do homem caia e bata com a cabeça nalguma coisa
-Deixa lá, nessas crises eles devem ter um radar como os morcegos
-Mas olha que agora estou é mais preocupada com isto da minha mãe. Como te disse há uma semana, quando éramos para nos ter encontrado, ela estava com sinais de um AVC e entretanto confirmou-se.
-Que problema
-É para ela e é para mim. A médica de família disse-me ontem, tem que ficar com a sua mãe, ela não pode ficar sozinha
-…??
-e eu disse ó sotora, como é que eu posso, grávida, a trabalhar, com marido, num apartamento de três divisões, devia estar prevista uma solução para estes casos, e ela, mas normalmente nestes casos agudos conta-se com a família, e eu disse logo, olhe, não sei como vai ser mas comigo é que ela não fica, já basta o que ela fez à minha cabeça até que saí de casa
-ai meu Deus disseste isso?
-disse e hei-de dizer, tu conheces bem a história, primeiro estiveram sempre os amantes de sua excelência, agora não sou eu que me vou sacrificar
-Sim, mas alguma ajuda tens que dar à velhota, esquece essas coisas
-Olha, vamos para a mesa do canto para falarmos mais à vontade, e tens que me contar já a tua história antes que isto fique tudo cheio
-Cheira que é uma maravilha, se a comida que eu faço fosse tão boa como a deste self-service o estupor não andava atrás doutra, sabes eu levo isto a rir
-ahahahah
-Bom, então cá vou eu contar-te em segredo absoluto, ouviste? Não falo do caso a mais ninguém, absolutamente
-Rita, sabes que sim
-Lembras-te que te disse que tinha descoberto uma conversa do Eduardo no pc lá de casa
-Dantes ainda ia sabendo qualquer coisa do Eduardo pelo meu sobrinho, mas já há uns meses que não vejo o Dino
-Pois, então foi na segunda de manhã, há quinze dias, antes de ir para a empresa fui ao computador para completar um relatório que tinha o título co qualquer coisa e ensonada como estava não me lembrava em que pasta o tinha posto
-Estou a ver, tens tanto em que pensar
-de maneira que fiz search e além do meu apareceu outro documento com o nome co outra coisa
-Começa bem
-Sim, e aqui a tua amiga que é discretíssima mas muito curiosa vai ver, é uma conversa do Eduardo com um fulano de Coimbra
-Nunca me falaste de nenhuma personagem de Coimbra
-Não, mas falo agora, é um tipo que entrou nas amizades do estupor através da ex, uma pessoa muito bem colocada, trabalha numa firma de advogados muito ligada ao partido em que tu votaste
-Ó Rita, como é que tu sabes isso tudo?
-Claudinha, é tão fácil, com o que se vai ouvindo e com o resto, está tudo na net
-Qual é a firma?
-Ora, o Carmelo Reis e Associados, sabes, é quase uma ordem religiosa
-Ai nossa senhora, mas não te percas
-A perna de borrego está óptima
-Di-vi-na, mas diz mais
-Pois então imagina: lendo a conversa percebe-se que o advogado de Coimbra está a arrastar o Eduardo para preparar uma à mulher dele
-À mulher? Arrastar como?
-Sim, o tal tipo é casado, mas acho que aquilo deixou de funcionar, o L. às vezes falava disso, que andam há muito tempo num impasse e acho que agora quer ver-se livre do casamento com proveito
-e…?
-e eu acho que ele fez a cabeça do miúdo
-Então mas qual é o papel do Eduardo nisso?
- Parece que a Clara, é assim que ela se chama, já conversou com outro homem num chat da net mas é muito cuidadosa e o marido não tem provas claras, só um indício
-Já estou a ver o resto, quer que o rapaz colabore numa armadilha… E o Eduardo vai nisso? Não o conheço bem mas tinha uma óptima impressão dele. E porque é que o advogado não a deixa a mulher, simplesmente?
-Ó minha querida, se conseguir o divórcio em determinadas condições tem hipóteses de ficar com um casarão
-Ah é?
-Isto sou já eu a supor, mas não devo enganar-me muito, porque segundo o que ouço contar pelo L., ela tem muita massa
-Ah bom
-Têm um T4 e uma vivenda, e acho que não é com o ordenado dele que os compraram
-Bom, nada que não se tenha visto, mas mesmo assim como é que esse homem tem à-vontade com o rapaz para andar a meter-lhe na cabeça uma coisa dessas?
-Realmente, para se chegar àquele nível de confiança alguma coisa há-de haver que eu não sei o que é
-Mesmo assim não percebo… o que é que o rapaz lucra com isso? … e a outra suspeitará de alguma coisa?
-Não tenho ideia. Pelo que li, o miúdo pareceu-me de pé atrás, mas interessado ao mesmo tempo. Vê lá a família que eu estava quase a arranjar, digo isto porque estou com um pé dentro e outro fora
-A minha opinião não conta, mas acho isso esquisito… como é que iriam conseguir tramá-la?
-Não se percebe bem só com base no que eu vi, mas talvez se ela tiver uma troca de mimos comprometedores com outra pessoa ao telefone ou na net e essa pessoa gravar… topas? O colaborador fará o papel de quem está a chantagear o marido
-Pois… mas isso provará o quê? E não podem ser descobertos? O tipo sendo advogado arrisca muito, e o miúdo trama-se
-Minha querida, todos arriscamos qualquer coisa, e uns arriscam mais alto quando acham que vale a pena
-Meu Deus, que história
-O L. anda transtornado, já deve ter visto o que eu vi
-Então e mudando de assunto ele continua atrás da outra do norte?
-Acho que ele está um pouco perdido, e eu já me desinteressei do assunto porque vou saltar do barco. O mais certo é eu já não chegar a saber os episódios seguintes… Bom, isto está a encher e aqui há sempre gente conhecida, por isso vamos falar de outros filmes. Tens ido ao cinema?
As vítimas da pedagogia
Alan Johnson, secretário de estado britânico para a educação, acaba de reconhecer que as metodologias impostas pelos governos para o ensino da aritmética e da escrita, desde finais dos anos 90, terão prejudicado a aquisição de conhecimentos de mais de cinco milhões de alunos. A tabuada vai ser ensinada mais cedo do que nos anos recentes, bem como a maneira de efectuar no papel operações elementares. Descobre-se agora também que os rapazes não têm mais dificuldade do que as raparigas em aprender a ler! Parece que afinal basta ensiná-los de modo sistemático, sem recurso às técnicas delirantes inventadas pelos marcianos da pedagogia.
À atenção da Sra Maria de Lurdes Rodrigues, que umas vezes parece perceber para onde vai e outras vezes não. Está quase a fazer um ano a operação de emergência para salvar o ensino da matemática, coordenada por uma larga maioria de marcianos, com um ou outro terrestre no papel ingrato de minoria quase sem voz. Espera-se que um dia se venham a avaliar os resultados. Receio que sejam fracos, além de, para já, dar mais força aos marcianos.
À atenção da Sra Maria de Lurdes Rodrigues, que umas vezes parece perceber para onde vai e outras vezes não. Está quase a fazer um ano a operação de emergência para salvar o ensino da matemática, coordenada por uma larga maioria de marcianos, com um ou outro terrestre no papel ingrato de minoria quase sem voz. Espera-se que um dia se venham a avaliar os resultados. Receio que sejam fracos, além de, para já, dar mais força aos marcianos.
quarta-feira, setembro 6
O horror em 2006
Nas cadeias do Irão há seis mulheres à espera de execução por apedrejamento. O caso que recentemente motivou mais protestos, pela sua urgência, é o de Ashraf Kolhari, de 37 anos, condenada em 2001 a 15 anos de prisão por alegada colaboração na morte do marido e à morte por apedrejamento por relações sexuais com outro homem (ele também condenado: 100 chicotadas e morte por apedrejamento). Com a sentença de prisão longe de estar cumprida, a execução de Ashraf esteve prevista para Agosto, mas encontra-se suspensa graças aos protestos, em que a Amnistia Internacional esteve envolvida. Não há, de modo nenhum, garantias de que a sentença não venha a ser executada.
(A Sra Ana Gomes terá muito com que se ocupar de modo útil, caso se interesse por casos como este.)
(A Sra Ana Gomes terá muito com que se ocupar de modo útil, caso se interesse por casos como este.)
quinta-feira, agosto 31
É já a seguir
É com muito gosto que anuncio aos 10 leitores deste blog que a blognovela quase periódica vai regressar. O Lino2, terminada a sua tese "Concepções Teórico Metodológicas sobre a Introdução e a Utilização de Computadores no Processo Ensino/Aprendizagem", e gozadas as merecidas férias, vai postar mais um episódio já daqui a poucos dias.
(É tudo verdade menos o título da tese: alguém que tivesse escrito uma tese com aquele nome, ou partes dele, seria despedido deste blog com justa causa.)
(É tudo verdade menos o título da tese: alguém que tivesse escrito uma tese com aquele nome, ou partes dele, seria despedido deste blog com justa causa.)
Rir (mesmo da guerra) é saudável
quarta-feira, agosto 30
A justiça
Documentário da BBC sobre a execução de uma rapariga de 16 anos, acusada de adultério. Irão, 2004.
Naguib Mahfouz (1911-2006)
Escolhemos uma mesa sob um eucalipto no cafezinho na margem do Nilo, onde o sol da tarde perseguia sem força o frio cortante do inverno no Cairo. Evitando sempre os meus olhos, ela disse "Não devia ter vindo".
"Mas vieste", respondi, tranquilizante. "Está decidido."
"Nada está decidido, acredita."
Olhei-a. Tinha que aceitar o jogo. "Tenho a certeza que por estares aqui..."
"Não. Simplesmente não quis ficar sozinha com as tuas cartas."
"Não há nada de novo nas minhas cartas."
"Mas escreveste-as a alguém que não existe." Toquei-lhe a mão sobre a mesa como que a provar que ela existia. Retirou a mão. "Vieram com quatro anos de atraso."
"Mas falam-te de coisas que não têm a ver com o tempo nem com o lugar."
"Não vês que me sinto sem forças e desgraçada?"
"Também eu. Os nossos amigos olham-me como um espião. Eu vejo-me a mim próprio como um renegado e um traidor. Só te tenho a ti."
"Grande consolo."
"Não me resta mais nada. Excepto a loucura ou a morte."
Suspirou como se doesse. "Traí-o na minha cabeça há muito tempo."
"Não. Foste um exemplo de lealdade falsa."
"É outra maneira de dizer."
"Sofremos sem um motivo real", expliquei, irritado, "Essa é que é a tragédia."
(Miramar, 1967)
"Mas vieste", respondi, tranquilizante. "Está decidido."
"Nada está decidido, acredita."
Olhei-a. Tinha que aceitar o jogo. "Tenho a certeza que por estares aqui..."
"Não. Simplesmente não quis ficar sozinha com as tuas cartas."
"Não há nada de novo nas minhas cartas."
"Mas escreveste-as a alguém que não existe." Toquei-lhe a mão sobre a mesa como que a provar que ela existia. Retirou a mão. "Vieram com quatro anos de atraso."
"Mas falam-te de coisas que não têm a ver com o tempo nem com o lugar."
"Não vês que me sinto sem forças e desgraçada?"
"Também eu. Os nossos amigos olham-me como um espião. Eu vejo-me a mim próprio como um renegado e um traidor. Só te tenho a ti."
"Grande consolo."
"Não me resta mais nada. Excepto a loucura ou a morte."
Suspirou como se doesse. "Traí-o na minha cabeça há muito tempo."
"Não. Foste um exemplo de lealdade falsa."
"É outra maneira de dizer."
"Sofremos sem um motivo real", expliquei, irritado, "Essa é que é a tragédia."
(Miramar, 1967)
terça-feira, agosto 29
Crimes, dizem eles
A Amnistia Internacional acusou recentemente Israel de crimes de guerra. O comentário feito ao comunicado pela Al Jazeera termina, talvez com satisfação, talvez com surpresa, com a frase:
AI has not issued a report accusing Hezbollah of war crimes.
AI has not issued a report accusing Hezbollah of war crimes.
segunda-feira, agosto 28
O segundo rapto de Natasha
A menina recusa-se a ver os pais. Está rodeada de "especialistas" por todos os lados. Longe de mim fazer juizos sobre os comportamentos induzidos por uma experiência tão terrível, mas lendo a "carta de miss Kampusch" não posso evitar a sensação desconfortável de imaginar os psis, os advogados e até os anti-tabagistas a teclar sob os dedos da menina. Sabendo-se que podem estar em jogo somas chorudas provenientes de uma indemnização, não faltará quem queira mostrar muito trabalho. Os sublimes interesses do avanço da ciência também não são de desprezar, pois o caso promete render um bom punhado de posters e artigos em revistas da "especialidade". Para manter as coisas sob controlo, o passo seguinte terá de ser o acompanhamento dos pais, para que eles também se convençam, dados os aspectos censuráveis da sua vida privada, de que não é bom andarem por perto da filha.
domingo, agosto 27
Auto de Mateus
Não sei se o público do futebol se sente prejudicado com a não realização de jogos quando, em substituição, tem o Auto de Mateus (singela homenagem ao nome do clube). As questões em discussão, as grotescas personagens em cena e as movimentações em palco são matéria de primeira classe para ruminação das imensas bancadas centrais que proliferam no país. O picante adicional fornecido pelas peripécias judiciais envolvidas é mais um aliciante: há três anos (sensivelmente desde o início do processo casa pia) que os media nos vêm impingindo um curso de direito em pastilhas e é necessário manter vivos e operacionais os conhecimentos.
Eu não vibro com isto mas também não estou a menorizar o assunto: deixo isso para os detractores do futebol. Na realidade tenho uma certa fascinação pelo enredo que me permitiu dar conta de que existem o Mateus, o Sr. Fiúza, órgãos judiciais dedicados e um clube de Barcelos com o nome de Gil Vicente (embora ache que o Gil não merecia isto). De resto, acho a trama bem mais interessante do que muitas outras, da ficção ou da chamada vida real, a que as tvs consagram longas horas: estou a lembrar-me dos morangos nas várias versões açucaradas ou da inenarrável fofoquice cor-de-rosa em que, no fatimalopes-sic, três ou quatro senhoras, onde se inclui um homem, discutem os namorados e as namoradas de pessoas mais irrelevantes que os jogadores de futebol.
Actualização em 30 de agosto: Com a entrada em cena das personagens Loureiro e Leal a trama adensa-se. Ainda não estamos ao nível do Velho da Horta, mas para lá caminhamos.
Eu não vibro com isto mas também não estou a menorizar o assunto: deixo isso para os detractores do futebol. Na realidade tenho uma certa fascinação pelo enredo que me permitiu dar conta de que existem o Mateus, o Sr. Fiúza, órgãos judiciais dedicados e um clube de Barcelos com o nome de Gil Vicente (embora ache que o Gil não merecia isto). De resto, acho a trama bem mais interessante do que muitas outras, da ficção ou da chamada vida real, a que as tvs consagram longas horas: estou a lembrar-me dos morangos nas várias versões açucaradas ou da inenarrável fofoquice cor-de-rosa em que, no fatimalopes-sic, três ou quatro senhoras, onde se inclui um homem, discutem os namorados e as namoradas de pessoas mais irrelevantes que os jogadores de futebol.
Actualização em 30 de agosto: Com a entrada em cena das personagens Loureiro e Leal a trama adensa-se. Ainda não estamos ao nível do Velho da Horta, mas para lá caminhamos.
domingo, agosto 20
Leituras de domingo
- Pontos de vista de personalidades e colunas publicadas em jornais do mundo árabe a respeito do conflito no Médio Oriente.
Ashraf Al-Ajrami, colunista do jornal da Autoridade palestiniana “Al-Ayyam”: "It may be said that the Damascus-Tehran axis, which includes Hezbollah and Hamas - who are supporting actors but are playing a primary role - wanted to wreak havoc in the region, and [carried out this plan] in two main arenas - Palestine and Lebanon. [They] used the Palestinians and the Lebanese as pawns in the international game, in order to promote the interests of Tehran and Damascus in their conflict with the U.S. and in order to strengthen their international status..."
Mohammad Ali Boza no jornal governamental sírio “Al-Thawra”: "[The actions of] targeting Lebanon, changing its face, and redrawing its map are merely another stage in the series of hasty, foolish and reckless actions taken by the neo-conservatives in the U.S. and by their ally Israel with the aim of suborning the region to their authority, defeating it, and breaking its will”.
“It is the Bush administration that is running... this destructive and murderous war, which moves [from one country to another in the Middle East], while Olmert's government supplies the mechanism [for carrying it out]. [In light of] the failure of [the American] strategy in Iraq and its helplessness [there] after so many years... America [has decided] - in order to compensate itself and cover up [its failure]... - to expand the circle of fire and death by aiming all this criminal, blind hatred at Lebanon..."
A teoria da super-conspiração noutro artigo no mesmo jornal: "The war that is currently waging [in Lebanon], with its declared and undeclared goals, makes us more certain than ever that Israel and the U.S. are the forces behind the assassination of [former Lebanese prime minister] Rafiq Al-Hariri. The assassination was part of an unsuccessful attempt by the U.S. to enforce U.N. Resolution 1559. The aggression [we see] today began because Israel, as it turns out, is the only one who benefits from this resolution and from Al-Hariri's assassination..”
Passatempo de domingo: fazer uma lista de jornalistas e personalidades nacionais que poderiam subscrever cada um dos textos reproduzidos e comparar o comprimento das listas.
- Carta aberta a Gunther Grass, por Daniel Johnson.
You are often compared to Thomas Mann, but you are no more a Mann than you are a man. The only Mann character with whom you have much in common is Felix Krull, the confidence trickster. Your rise and fall recalls the greatest of all German myths, that of Faust, which Mann explicitly connected with Nazism.
Ashraf Al-Ajrami, colunista do jornal da Autoridade palestiniana “Al-Ayyam”: "It may be said that the Damascus-Tehran axis, which includes Hezbollah and Hamas - who are supporting actors but are playing a primary role - wanted to wreak havoc in the region, and [carried out this plan] in two main arenas - Palestine and Lebanon. [They] used the Palestinians and the Lebanese as pawns in the international game, in order to promote the interests of Tehran and Damascus in their conflict with the U.S. and in order to strengthen their international status..."
Mohammad Ali Boza no jornal governamental sírio “Al-Thawra”: "[The actions of] targeting Lebanon, changing its face, and redrawing its map are merely another stage in the series of hasty, foolish and reckless actions taken by the neo-conservatives in the U.S. and by their ally Israel with the aim of suborning the region to their authority, defeating it, and breaking its will”.
“It is the Bush administration that is running... this destructive and murderous war, which moves [from one country to another in the Middle East], while Olmert's government supplies the mechanism [for carrying it out]. [In light of] the failure of [the American] strategy in Iraq and its helplessness [there] after so many years... America [has decided] - in order to compensate itself and cover up [its failure]... - to expand the circle of fire and death by aiming all this criminal, blind hatred at Lebanon..."
A teoria da super-conspiração noutro artigo no mesmo jornal: "The war that is currently waging [in Lebanon], with its declared and undeclared goals, makes us more certain than ever that Israel and the U.S. are the forces behind the assassination of [former Lebanese prime minister] Rafiq Al-Hariri. The assassination was part of an unsuccessful attempt by the U.S. to enforce U.N. Resolution 1559. The aggression [we see] today began because Israel, as it turns out, is the only one who benefits from this resolution and from Al-Hariri's assassination..”
Passatempo de domingo: fazer uma lista de jornalistas e personalidades nacionais que poderiam subscrever cada um dos textos reproduzidos e comparar o comprimento das listas.
- Carta aberta a Gunther Grass, por Daniel Johnson.
You are often compared to Thomas Mann, but you are no more a Mann than you are a man. The only Mann character with whom you have much in common is Felix Krull, the confidence trickster. Your rise and fall recalls the greatest of all German myths, that of Faust, which Mann explicitly connected with Nazism.
sábado, agosto 19
sexta-feira, agosto 18
Os Rolling Stones têm finalmente os espectadores adequados
Ao contrário do que se passa por cá, os próximos concertos do grupo de velhotes de Mick Jagger, anunciados no Reino Unido, não estão a vender como se esperava, nem mesmo na internet. O caso é tão grave que as agências especializadas em eventos para a 3ª (ou maior) idade estão a aproveitar a situação para vender ao público pensionista bilhetes a metade do preço. Considerando que a soma das idades do grupo é 249 anos, este é o público certo no lugar certo.
A publicidade clama: 'See Gods of rock for yourself - The Rolling Stones return to rock in the UK live.' Live? Hummm... se não se despacham, Stones e espectadores, duvido.
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terça-feira, agosto 15
Deve haver engano

(foto: http://isna.ir/Main/PicView.aspx?Pic=Pic-771739-1&Lang=P)
A polícia anda a recolher parabólicas nos telhados de Teerão. A ordem deve ter vindo de um incompetente mal informado. Que importância terão um ou dois canais pouco amigos do regime ao lado de uma multidão de outros em que as notícias e pontos de vista sobre a guerra mereceriam a aprovação regozijada de Ahmadinejad? No lugar do presidente eu até encorajava o consumo obrigatório de um bom número de telejornais ocidentais, para que os atrevidos com impulsos dissidentes percebessem que o mundo os ignora e despreza.
domingo, agosto 13
sábado, agosto 5
A ideologia de sucesso
Apesar de todo o avanço tecnológico e das contribuições do mundo ocidental para o bem estar de faixas de população cada vez mais alargadas, as ideologias que diabolizam e rejeitam os valores em que assentou o progresso triunfaram, ao ponto de tornarem as grandes massas de cidadãos incapazes de olhar o mundo sem a muleta daquelas lentes distorcidas e perversas. Foi, de resto, o nosso mundo, e particularmente a Europa - o mesmo mundo a que devemos boa parte do sucesso tecnológico e social - que incubou o pesadelo do comunismo e que alimentou durante séculos o ódio aos judeus.
A derrota do comunismo não aconteceu a nível das ideias. Os órfãos da doutrina rapidamente se reciclaram, integrando-a como lapa numa abundância de disciplinas a que o mundo universitário conferiu respeitabilidade. As circunstâncias políticas, num mundo imbuído de generosidade pouco reflectida por se julgar livre de ameaças, contribuiram para a difusão da velha ideologia travestida, servida agora sob a forma de catecismo de todos os bons comportamentos e todas as tolerâncias (não por acaso, nunca aplicáveis na prática aos judeus) que até são servidas em versão infantil nos currículos escolares. Liberto dos aspectos mais enfadonhos e assustadores exigidos pela militância nos partidos marxistas, este comunismo suave e requentado teve um sucesso muito maior, a nível da aceitação pelas massas, do que o original. Ele acabou por se transformar na matriz de pensamento de grande parte da respeitada intelectualidade ocidental e, por arrastamento, das largas massas que por natureza utilizam o pronto a pensar como utilizam o pronto a vestir ou a comer. Como subproduto de relevo, o ódio à América - o ex-imperialismo por excelência - nunca deixou o terreno.
Outro instrumento de sucesso veio potenciar a difusão da ideologia fácil e sedutora: a televisão. Sendo o meio de transmissão de informação mais omnipresente, favorecendo mais o consumo da emoção do que da análise, e habitada em grande parte por comentadores e jornalistas que foram estudantes aplicados do catecismo das novas crenças, executa no dia a dia uma doutrinação declarada ou subreptícia.
Entretanto, à soleira da nossa porta, um inimigo espreita. O tempo está-lhe de feição. Encarnado em Ahmadinejad ou Nasrallah, basta-lhe ser apenas ligeiramente mais inteligente do que a maioria de nós para perceber que pode pisar todos os riscos porque nós não estamos do nosso lado, mas sim do dele. Ele disfruta de uma vantagem absolutamente nova: a inconsciência de um mundo tão anestesiado que não identifica o seu agressor, mesmo quando este confessa abertamente os fins. Na guerra em curso, ele tira partido dessa disposição suicidária. Sabe que, do lado de cá, não se percebe bem o que está em jogo, ou então finge-se não perceber. E a guerra passa muito pela televisão: ao mostrar a exibição de baixas causadas por Israel, a tv fá-lo com a mesma ingenuidade e candura com que passa "manifestações" encenadas por governos de países onde não há liberdade de ter uma parabólica, quanto mais de manifestação. A tv do lado de cá está ao serviço do lado de lá.
A atitude dos meios de informação, com as tvs à frente, também terá a ver com a facilidade, o comodismo e o medo, numa Europa em que a população islâmica atingiu já níveis muito importantes. Apesar das tomadas de posição anti-ocidentais de muita gente bem pensante, até os idiotas úteis não ignoram que criticar Israel ou o Papa é de borla, mas ofender dirigentes muçulmanos extremistas ou fazer humor com o chamado profeta é estar pedir churrasco em casa.
Post scriptum: Se for conveniente até se retocam as imagens, a fim de tornar mais glamorosa a destruição operada pelas forças de Israel. É o caso desta foto publicada pela Reuters, cuja desmontagem se pode ver aqui.
Também nos últimos dias se acumulam as notícias de que a guerra está a provocar união de sunitas e xiitas. Mas ainda há pouco um influente religioso egípcio lançou uma fatwa sobre o Hezebollah. E o que continuamos a ver no dia a dia do Iraque mostra que se trata possivelmente mais de desejos do que de notícias.
A derrota do comunismo não aconteceu a nível das ideias. Os órfãos da doutrina rapidamente se reciclaram, integrando-a como lapa numa abundância de disciplinas a que o mundo universitário conferiu respeitabilidade. As circunstâncias políticas, num mundo imbuído de generosidade pouco reflectida por se julgar livre de ameaças, contribuiram para a difusão da velha ideologia travestida, servida agora sob a forma de catecismo de todos os bons comportamentos e todas as tolerâncias (não por acaso, nunca aplicáveis na prática aos judeus) que até são servidas em versão infantil nos currículos escolares. Liberto dos aspectos mais enfadonhos e assustadores exigidos pela militância nos partidos marxistas, este comunismo suave e requentado teve um sucesso muito maior, a nível da aceitação pelas massas, do que o original. Ele acabou por se transformar na matriz de pensamento de grande parte da respeitada intelectualidade ocidental e, por arrastamento, das largas massas que por natureza utilizam o pronto a pensar como utilizam o pronto a vestir ou a comer. Como subproduto de relevo, o ódio à América - o ex-imperialismo por excelência - nunca deixou o terreno.
Outro instrumento de sucesso veio potenciar a difusão da ideologia fácil e sedutora: a televisão. Sendo o meio de transmissão de informação mais omnipresente, favorecendo mais o consumo da emoção do que da análise, e habitada em grande parte por comentadores e jornalistas que foram estudantes aplicados do catecismo das novas crenças, executa no dia a dia uma doutrinação declarada ou subreptícia.
Entretanto, à soleira da nossa porta, um inimigo espreita. O tempo está-lhe de feição. Encarnado em Ahmadinejad ou Nasrallah, basta-lhe ser apenas ligeiramente mais inteligente do que a maioria de nós para perceber que pode pisar todos os riscos porque nós não estamos do nosso lado, mas sim do dele. Ele disfruta de uma vantagem absolutamente nova: a inconsciência de um mundo tão anestesiado que não identifica o seu agressor, mesmo quando este confessa abertamente os fins. Na guerra em curso, ele tira partido dessa disposição suicidária. Sabe que, do lado de cá, não se percebe bem o que está em jogo, ou então finge-se não perceber. E a guerra passa muito pela televisão: ao mostrar a exibição de baixas causadas por Israel, a tv fá-lo com a mesma ingenuidade e candura com que passa "manifestações" encenadas por governos de países onde não há liberdade de ter uma parabólica, quanto mais de manifestação. A tv do lado de cá está ao serviço do lado de lá.
A atitude dos meios de informação, com as tvs à frente, também terá a ver com a facilidade, o comodismo e o medo, numa Europa em que a população islâmica atingiu já níveis muito importantes. Apesar das tomadas de posição anti-ocidentais de muita gente bem pensante, até os idiotas úteis não ignoram que criticar Israel ou o Papa é de borla, mas ofender dirigentes muçulmanos extremistas ou fazer humor com o chamado profeta é estar pedir churrasco em casa.
Post scriptum: Se for conveniente até se retocam as imagens, a fim de tornar mais glamorosa a destruição operada pelas forças de Israel. É o caso desta foto publicada pela Reuters, cuja desmontagem se pode ver aqui.
Também nos últimos dias se acumulam as notícias de que a guerra está a provocar união de sunitas e xiitas. Mas ainda há pouco um influente religioso egípcio lançou uma fatwa sobre o Hezebollah. E o que continuamos a ver no dia a dia do Iraque mostra que se trata possivelmente mais de desejos do que de notícias.
segunda-feira, julho 31
No tempo dos milagres
Pouca sorte ser civil no Líbano

Enquanto os media debitam uma versão mais do que esperada sobre a violência da guerra, o drama de certas áreas residenciais no Líbano, documentado nesta e noutras fotos, parece estar a ser completamente ignorado.
É interessante também que os adeptos das teorias de conspiração fiquem sossegados com um material tão promissor à mão: parece que houve um intervalo de sete horas enre o ataque aéreo ao edifício de Qana e o colapso, e também que só passado esse tempo chegaram as ambulâncias e os socorros. Antes disso, sem derrocada e sem câmaras prontas no terreno, parece que a operação não valia a pena...
segunda-feira, julho 24
A reabilitação da carta
O presidente do Irão não pára. Depois de Angela, agora é Jacques que tem correio.
De olhos bem fechados...
...pensam eles que está quem os lê. Os abaixo assinantes contra a operação militar israelita dão as suas razões pela voz de Eduardo Lourenço: preocupa-os não se saber onde é que as coisas irão parar. O que não dizem é que, na ausência da acção militar, sabe-se muito bem onde é que as coisas iriam parar. Curioso observar na turma antifascista-laica-progressista a atracção sistemática pelo pior dos fascismos, associado a uma ideologia medieval retrógrada disfarçada de religião. Mistérios da vida animal.
domingo, julho 23
sábado, julho 22
A paz é uma palavra bonita
A terrível realidade é, no entanto, muito mais complexa. Quando se clama pelo cessar fogo, supõe-se que ele deverá resultar de um acordo entre duas partes tais que cada uma acredita no que a outra afirma como compromisso. Na actual guerra do Líbano, uma das partes será Israel. Mas qual será a outra? O governo libanês? O Hezebollah? O primeiro já se viu que não controla o segundo e este é um interlocutor inaceitável e marioneta do Irão.
Também é duvidoso que as Nações Unidas possam ser um mediador fiável. Em 2000, membros do Hezebollah raptaram e assassinaram três soldados israelitas, aparentemente com a passividade colaborante daquela organização. A autoridade moral da UN parece frágil quando há memória.
Também é duvidoso que as Nações Unidas possam ser um mediador fiável. Em 2000, membros do Hezebollah raptaram e assassinaram três soldados israelitas, aparentemente com a passividade colaborante daquela organização. A autoridade moral da UN parece frágil quando há memória.
quarta-feira, julho 19
terça-feira, julho 18
Agora a sério
O que se passa com os exames nacionais, particularmente com os infelizmente notórios de Química e Física, é sintoma nítido de que o ministério da educação é incapaz de controlar a máquina defeituosa que pôs em movimento. Fala-se de perguntas que não avaliam nada que tenha a ver com os programas e até de algumas a que os próprios professores são incapazes de responder. Situações igualmente caricatas, embora de menor gravidade, têm atingido exames de outras disciplinas.
Os exames reflectem e procuram respeitar, tanto quanto me apercebo, os programas e as suas indicações metodológicas. Para os menos informados, que julgo constituirem a maioria da população, as ditas são consideradas, pela ortodoxia instalada (associações de professores incluídas), essenciais e indissociáveis dos conteúdos programáticos. Sucede que as indicações costumam incluir o catecismo da didáctica politicamente correcta, onde têm lugar elucubrações, transformadas em lei, das mentes tresloucadas de cientistas da educação, nacionais e estrangeiros. Quem consultar o programa oficial de uma disciplina encontra mais facilmente este rosário de loucuras do que a matéria que se espera que seja ensinada. As indicações costumam ter reflexos bem visíveis no modo como certas questões são formuladas em exames. Tenho razões para crer que o problema agora exposto à luz do dia é bem anterior ao fabrico dos exames, embora as comissões que elaboram as provas tenham uma parte importante de responsabilidade no desastre.
Não conheço o caso concreto da Química e da Física, mas conheço em detalhe o da Matemática. Considero as indicações metodológicas que embrulham os programas inadequadas e pedagogicamente nocivas. Por acaso (ou por muita ponderação e habilidade de quem tem feito as provas) não tiveram, até agora, reflexos gravosos nos exames nacionais. Mas num sistema tão infectado pela falta de bom senso, o desastre espreita a cada momento. Uma pequena variação na composição de uma comissão ou um momento de cansaço e distracção podem ser fatais ao nível dos resultados. Por agora, a borboleta bateu as asas lá para os lados da Química e da Física. Irá o caos ficar por aqui?
Os exames reflectem e procuram respeitar, tanto quanto me apercebo, os programas e as suas indicações metodológicas. Para os menos informados, que julgo constituirem a maioria da população, as ditas são consideradas, pela ortodoxia instalada (associações de professores incluídas), essenciais e indissociáveis dos conteúdos programáticos. Sucede que as indicações costumam incluir o catecismo da didáctica politicamente correcta, onde têm lugar elucubrações, transformadas em lei, das mentes tresloucadas de cientistas da educação, nacionais e estrangeiros. Quem consultar o programa oficial de uma disciplina encontra mais facilmente este rosário de loucuras do que a matéria que se espera que seja ensinada. As indicações costumam ter reflexos bem visíveis no modo como certas questões são formuladas em exames. Tenho razões para crer que o problema agora exposto à luz do dia é bem anterior ao fabrico dos exames, embora as comissões que elaboram as provas tenham uma parte importante de responsabilidade no desastre.
Não conheço o caso concreto da Química e da Física, mas conheço em detalhe o da Matemática. Considero as indicações metodológicas que embrulham os programas inadequadas e pedagogicamente nocivas. Por acaso (ou por muita ponderação e habilidade de quem tem feito as provas) não tiveram, até agora, reflexos gravosos nos exames nacionais. Mas num sistema tão infectado pela falta de bom senso, o desastre espreita a cada momento. Uma pequena variação na composição de uma comissão ou um momento de cansaço e distracção podem ser fatais ao nível dos resultados. Por agora, a borboleta bateu as asas lá para os lados da Química e da Física. Irá o caos ficar por aqui?
Incrível!
Por mero acaso, descobriu-se que Bush pensa que o Hezebollah anda a fazer merda. O mundo ficou surpreendido e chocado. Com razão. Se Bush tivesse dito que a comissão de exames do ensino secundário e o ministério da educação português andam a fazer merda, até eu poderia estar de acordo. Merda é uma palavra pouco apropriada para descrever rapto de soldados, envio de bombistas mártires para matar civis e disparo de mísseis iranianos sobre cidades de Israel. Para mim, Bush sabia perfeitamente que o microfone estava "on" e quis mostrar ao mundo que é moderado e adepto da solução diplomática.
terça-feira, julho 11
Sobras do mundial

1. Que disse Materazzi a Zidane? Chamou-lhe porco terrorista? Chamou puta à irmã? Esta é a questão. O próprio nega tudo e ironiza: nem conhece o significado de "terrorista" ou "islâmico". Sobre "puta" nada disse. A SOS Racismo já encontrou terreno para surfar e vai querer que a FIFA faça qualquer coisa para desagravar a ofensa desconhecida. Surdos experimentados em leitura de lábios já foram mobilizados para decifrar o enigma.
2. Isenção de IRS por um ganhar um lugar que não existe não é nada disso que já muita gente está por aí a pensar: é ilusionismo. Há de facto mais qualquer coisa para alem do futebol.
3. Esta manhã o sociólogo Boaventura S. Santos dava na TSF a sua opinião sobre o que nos poderia mobilizar nesta fase de entusiasmo. E apontou duas ou três coisas de que ainda ninguém se tinha lembrado, o que só por si é indício de que o investimento no Laboratório Associado do senhor está mais do que recuperado. A primeira coisa era mobilizarmo-nos para uma educação de qualidade. A segunda era valorizar a ciência. A terceira tinha a ver com a justiça. Depois vieram outras coisas várias e nem sequer o abominável preço dos vinhos nos restaurantes foi esquecido como exemplo dos caminhos que não devemos seguir. Mas que bem lembrado! Obrigado, BSS, espero que não tenha estado só eu a escutar.
segunda-feira, julho 10
Ensaio sobre uma teoria de conspiração
Concluiu-se, com menos alarido que previsto, a visita do Papa a Espanha. Claro que houve fortes sublinhados sobre o papel da família baseada na união de um homem e uma mulher, mas nada de condenações explícitas nem censuras nítidas aos dirigentes políticos. As palavras de Bento XVI, de que os anátemas estiveram ausentes, terão sido até menos incisivas que algumas declarações do porta voz dos lusobispos no que toca aos temas fissurantes (estou farto da outra palavra) que sabemos.
Uns minutinhos de reflexão são suficientes para concluir que o Papa não se deu à maçada de ir a Espanha para pregar contra o casamento unisexo e as uniões de facto. Essas formas de acasalamento com reconhecimento recente têm evidentemente uma grande importância simbólica, mas são apenas mais um elemento de desvio das sociedades ocidentais em relação aos padrões de comportamento que a Igreja Católica gostaria de ver respeitados. Como cada um já vive praticamente como quer (ou pode), pondo o bem estar material (onde o sexual se inclui), e o gozo dos mil e um brinquedos à disposição, à frente do fardo biológico de criar e educar meninos, a indiferença às normas da doutrina já está mais que enraizada. Não há nada a fazer, e uma pessoa bem educada e reflectida como Bento XVI sabe-o muito bem.
Mas então, se não foi a Espanha para proferir palavras duras ou para guerrear com Zapatero, qual é o alcance da viagem? Poderá dizer-se que seria o de dar algum alento às hostes de fieis em declínio. Pouco alento, já que parece que eles esperavam mais.
Eu tenho uma teoria: o Papa foi na verdade lançar um aviso aos praticantes do casamento unisexo e da união de facto, sim, mas procurando zelar pela sobrevivência dos interessados. Observador atento do espectro que ameaça a Europa, Bento sabe que empurrar as pessoas para as novas formas de compromisso registadas em papel é oferecer uma mão cheia de alvos para a prática da degolação a um prazo não muito distante. Não é preciso esperar pela adopção da sharia nos nossos sistemas penais: basta que, por força da demografia e das contínuas cedências, as administrações das cidades europeias fiquem parcialmente nas mãos de islâmicos moderados, que se verão obrigados a aplacar o tédio das milícias de serviço fornecendo-lhes listas de pecadores. Gente ansiosa de nos ensinar a virtude segundo o Corão não faltará, e os métodos serão bem mais persuasivos que os do Papa.
Claro que este enorme risco não ocupa a cabeça dos porta-bandeiras profissionais, interessados apenas em marcar terreno e angariar uns votos nas franjas bem pensantes e distraídas. São eles os que se ajoelham perante exigências crescentes de dirigentes religiosos fanáticos e que fazem cara de indignados quando as críticas atingem o islão.
Comparados com os tempos de horror que hão-de vir, a homofobia das bandas pop jamaicanas, que apenas por palavras reclama o afogamento dos depravados, há-de deixar saudades. Entretanto, os idiotas úteis vão-se deleitando, para já, com a anunciada revolução nos costumes sexuais em Cuba, liderada por Mariela Castro, funcionária-sobrinha do dinossauro. O entusiasmo com o engodo de maior compreensão da homossexualidade, num país onde não há liberdade para escrever um blog, só pode ser sintoma de cegueira ou idiotia.
Uns minutinhos de reflexão são suficientes para concluir que o Papa não se deu à maçada de ir a Espanha para pregar contra o casamento unisexo e as uniões de facto. Essas formas de acasalamento com reconhecimento recente têm evidentemente uma grande importância simbólica, mas são apenas mais um elemento de desvio das sociedades ocidentais em relação aos padrões de comportamento que a Igreja Católica gostaria de ver respeitados. Como cada um já vive praticamente como quer (ou pode), pondo o bem estar material (onde o sexual se inclui), e o gozo dos mil e um brinquedos à disposição, à frente do fardo biológico de criar e educar meninos, a indiferença às normas da doutrina já está mais que enraizada. Não há nada a fazer, e uma pessoa bem educada e reflectida como Bento XVI sabe-o muito bem.
Mas então, se não foi a Espanha para proferir palavras duras ou para guerrear com Zapatero, qual é o alcance da viagem? Poderá dizer-se que seria o de dar algum alento às hostes de fieis em declínio. Pouco alento, já que parece que eles esperavam mais.
Eu tenho uma teoria: o Papa foi na verdade lançar um aviso aos praticantes do casamento unisexo e da união de facto, sim, mas procurando zelar pela sobrevivência dos interessados. Observador atento do espectro que ameaça a Europa, Bento sabe que empurrar as pessoas para as novas formas de compromisso registadas em papel é oferecer uma mão cheia de alvos para a prática da degolação a um prazo não muito distante. Não é preciso esperar pela adopção da sharia nos nossos sistemas penais: basta que, por força da demografia e das contínuas cedências, as administrações das cidades europeias fiquem parcialmente nas mãos de islâmicos moderados, que se verão obrigados a aplacar o tédio das milícias de serviço fornecendo-lhes listas de pecadores. Gente ansiosa de nos ensinar a virtude segundo o Corão não faltará, e os métodos serão bem mais persuasivos que os do Papa.
Claro que este enorme risco não ocupa a cabeça dos porta-bandeiras profissionais, interessados apenas em marcar terreno e angariar uns votos nas franjas bem pensantes e distraídas. São eles os que se ajoelham perante exigências crescentes de dirigentes religiosos fanáticos e que fazem cara de indignados quando as críticas atingem o islão.
Comparados com os tempos de horror que hão-de vir, a homofobia das bandas pop jamaicanas, que apenas por palavras reclama o afogamento dos depravados, há-de deixar saudades. Entretanto, os idiotas úteis vão-se deleitando, para já, com a anunciada revolução nos costumes sexuais em Cuba, liderada por Mariela Castro, funcionária-sobrinha do dinossauro. O entusiasmo com o engodo de maior compreensão da homossexualidade, num país onde não há liberdade para escrever um blog, só pode ser sintoma de cegueira ou idiotia.
sábado, julho 8
sexta-feira, julho 7
A barbaridade de que não se fala muito
A próxima terça feira é o dia mundial de protesto contra a morte por apedrejamento. Só no Irão, seis mulheres aguardam em prisões a execução da sentença.
quarta-feira, julho 5
Vá lá, não vou deixar passar o dia sem falar de futebol
1. Há bocado a SIC passou, cheia de gozo, declarações de um jogador da selecção francesa mostrando que não distingue o Scolari de um jogador e exibindo igual desconhecimento sobre a equipa que daqui a umas horas vai reduzir a pó quem canta de galo. Não devem ter percebido que a pretensa ignorância é fingida e tem raizes no desprezo pelo adversário. Ou então o declarante é um leitor compulsivo de Pacheco Pereira (de quem a SIC não terá lata para rir).
2. O mundial não vem bafejar de optimismo apenas o homem da rua. Tambem o Movimento já não sei de quê, no impasse desde a derrota de Alegre por falta de assunto, encontrou o seu leit-motiv. Escreve hoje no PÚBLICO o poeta que Portugal tem nas mãos a missão de patrono dos pequenos, dos desditosos na mó de baixo (palavras do New York Times!) Por todos os oprimidos, periféricos, esquecidos, contra os grandes e dominadores, onde hoje se inclui a França, avante portugueses, por todos os deserdados do mundo! exorta Manuel. Assinale-se que o texto contém a importante descoberta da parte sã dos Estados Unidos: a minoria que fez do futebol uma forma de resistência aos gostos dominantes. Aguarda-se para ver em que categoria de militante se vai enquadrar Scolari no Movimento. O pior é que o pacote vai ter de incluir Nossa Senhora.
3. Recebi um sms de número desconhecido com um texto sobre a façanha que vamos concretizar à noite. Como nas mensagens de oração, pedem-me que envie aos amigos e não corte a corrente. Estou na dúvida se a ideia se deve à volúpia do lucro das sinistras operadoras de telecomunicações ou à candura e sentido de missão dos apoiantes do Movimento. Seja como for, se acabar por não obedecer, é por falta de tempo.
2. O mundial não vem bafejar de optimismo apenas o homem da rua. Tambem o Movimento já não sei de quê, no impasse desde a derrota de Alegre por falta de assunto, encontrou o seu leit-motiv. Escreve hoje no PÚBLICO o poeta que Portugal tem nas mãos a missão de patrono dos pequenos, dos desditosos na mó de baixo (palavras do New York Times!) Por todos os oprimidos, periféricos, esquecidos, contra os grandes e dominadores, onde hoje se inclui a França, avante portugueses, por todos os deserdados do mundo! exorta Manuel. Assinale-se que o texto contém a importante descoberta da parte sã dos Estados Unidos: a minoria que fez do futebol uma forma de resistência aos gostos dominantes. Aguarda-se para ver em que categoria de militante se vai enquadrar Scolari no Movimento. O pior é que o pacote vai ter de incluir Nossa Senhora.
3. Recebi um sms de número desconhecido com um texto sobre a façanha que vamos concretizar à noite. Como nas mensagens de oração, pedem-me que envie aos amigos e não corte a corrente. Estou na dúvida se a ideia se deve à volúpia do lucro das sinistras operadoras de telecomunicações ou à candura e sentido de missão dos apoiantes do Movimento. Seja como for, se acabar por não obedecer, é por falta de tempo.
O mistério público
O Ministério Público ocupa tempo e recursos da polícia e encarniça-se para produzir prova e levar à condenação um grupo de mulheres que fizeram aborto e o médico que as assistiu.
O Ministério Público acredita (neologismo em voga na comunicação social) que um bando de miúdos empurrou uma pessoa, debilitada por agressões e torturas que os próprios lhe infligiram, para um poço profundo, sem intenção de matar.
Expliquem-me como se fosse possível compreender.
O Ministério Público acredita (neologismo em voga na comunicação social) que um bando de miúdos empurrou uma pessoa, debilitada por agressões e torturas que os próprios lhe infligiram, para um poço profundo, sem intenção de matar.
Expliquem-me como se fosse possível compreender.
Falta-nos pelo menos um ecran gigante
O SuperHomem regressa, mas teremos de nos deslocar a Oviedo ou a Málaga para o ver em 3D. Parece que vale a pena.
sexta-feira, junho 30
Conversa de futebol
Está na ordem do dia falar de futebol ou queixarmo-nos do excesso com que dele se fala. Vasco Pulido Valente volta ao assunto hoje no PÚBLICO, confessando uma mistura de indiferença e fascínio pelo ambiente criado à volta do Mundial.
A conversa de futebol não é, claro está, interessante em si. Não envolve argumentos, mas sim desejos, declarações de fé e "prognósticos". A controvérsia fica, por regra, bem ao nível do balneário. O estado do músculo x do jogador Y ou uma contagem de cartões são as notícias mais excitantes.
Mas é uma ilusão pensar que a conversa que a rádio e a tv nos dão, habitualmente, é melhor do que isto. Deixemos de lado as inúmeras rádios-todas-iguais-às-outras que encharcam o FM com conversas matinais bem piores que o futebolês: a linguagem e os temas são os da pura e simples idiotês. O pior é que as conversas (matinais e não matinais) na Antena 2 não são nada melhores, ao contrário do que se poderia esperar. Os programas da manhã, os da Judite Lima e o ritornello, mais um ou dois de que não recordo o nome, destacam-se pela conversa que oscila entre o tonto e o que interessa só a um grupo restrito de amigos. Os funcionários e as funcionárias proferem banalidades sobre banalidades num dialecto ao pé do qual os diálogos dos morangos com açúcar fazem lembrar a Agustina. Além disso, elas entrevistam-se umas às outras e trazem à conversa muitos amigos, sempre maravilhosos e com um gosto musical óptimo. Por exemplo: parece que uma das funcionárias, Daniela Qualquer Coisa, entrevistou Catherine Deneuve; hoje de manhã as outras funcionárias entrevistaram-na ao telefone perguntando sobre a excitante experiência. A Daniela explicou que tinha ficado maravilhada com a militância de Deneuve contra a tortura, a pena de morte e a defesa do ambiente. Que Deneuve era uma senhora e isto e aquilo. Tudo polvilhado de elogios mútuos q.b.. Francamente! Pior do que isto só o Madail ou o major. Na rádio pretensamente "cultural" exibe-se diariamente uma cultura superficial que é mistura do reader's digest com o foyer do S. Carlos. Felizmente, a música que transmitem não é fabricada na casa. Não há pachorra para o culturês (ainda por cima pc).
A conversa de futebol não é, claro está, interessante em si. Não envolve argumentos, mas sim desejos, declarações de fé e "prognósticos". A controvérsia fica, por regra, bem ao nível do balneário. O estado do músculo x do jogador Y ou uma contagem de cartões são as notícias mais excitantes.
Mas é uma ilusão pensar que a conversa que a rádio e a tv nos dão, habitualmente, é melhor do que isto. Deixemos de lado as inúmeras rádios-todas-iguais-às-outras que encharcam o FM com conversas matinais bem piores que o futebolês: a linguagem e os temas são os da pura e simples idiotês. O pior é que as conversas (matinais e não matinais) na Antena 2 não são nada melhores, ao contrário do que se poderia esperar. Os programas da manhã, os da Judite Lima e o ritornello, mais um ou dois de que não recordo o nome, destacam-se pela conversa que oscila entre o tonto e o que interessa só a um grupo restrito de amigos. Os funcionários e as funcionárias proferem banalidades sobre banalidades num dialecto ao pé do qual os diálogos dos morangos com açúcar fazem lembrar a Agustina. Além disso, elas entrevistam-se umas às outras e trazem à conversa muitos amigos, sempre maravilhosos e com um gosto musical óptimo. Por exemplo: parece que uma das funcionárias, Daniela Qualquer Coisa, entrevistou Catherine Deneuve; hoje de manhã as outras funcionárias entrevistaram-na ao telefone perguntando sobre a excitante experiência. A Daniela explicou que tinha ficado maravilhada com a militância de Deneuve contra a tortura, a pena de morte e a defesa do ambiente. Que Deneuve era uma senhora e isto e aquilo. Tudo polvilhado de elogios mútuos q.b.. Francamente! Pior do que isto só o Madail ou o major. Na rádio pretensamente "cultural" exibe-se diariamente uma cultura superficial que é mistura do reader's digest com o foyer do S. Carlos. Felizmente, a música que transmitem não é fabricada na casa. Não há pachorra para o culturês (ainda por cima pc).
quinta-feira, junho 29
Sucesso

O êxito mais notável dos sindicatos de serviços públicos está, fora de dúvida, no facto de o cidadão comum, que indirectamente financia os salários, ter interiorizado a justeza de acções que lhe causam um pesado transtorno, com paciência ilimitada, ao mesmo tempo que interpreta o protesto como estando dirigido a uma entidade abstracta.
quarta-feira, junho 28
Injustiças
O grande clamor em torno do tratamento dos prisioneiros de Guatanamo, e dos raptos e transporte de suspeitos de terrorismo por esse mundo fora, tornou-se banalidade. Não há nada de tão insistente e sistemático, nos meios de comunicação com força para gritar alto, sobre as práticas bárbaras das polícias e as penas degradantes na execução da justiça em certos países islâmicos.
O famoso terrorista "Carlos, o Chacal", raptado por agentes franceses no Sudão em 94, condenado e preso em França desde 1997, vem juntar-se ao clamor, processando as autoridades francesas pelo rapto efectuado fora da lei e fazendo queixas severas sobre o seu regime prisional, que caracteriza por períodos de isolamento extremo, assédio frequente e privação do sono. Comparando o seu caso com o dos suspeitos raptados e deslocados em aviões da CIA, "Carlos" quer justiça. Fica no ar, implícito, que os franceses são pelo menos tão desrespeitadores de direitos humanos, no tratamento de prisioneiros, como os americanos. Lá no fundo talvez "Carlos" tenha uma secreta preferência por Guantanamo.
O famoso terrorista "Carlos, o Chacal", raptado por agentes franceses no Sudão em 94, condenado e preso em França desde 1997, vem juntar-se ao clamor, processando as autoridades francesas pelo rapto efectuado fora da lei e fazendo queixas severas sobre o seu regime prisional, que caracteriza por períodos de isolamento extremo, assédio frequente e privação do sono. Comparando o seu caso com o dos suspeitos raptados e deslocados em aviões da CIA, "Carlos" quer justiça. Fica no ar, implícito, que os franceses são pelo menos tão desrespeitadores de direitos humanos, no tratamento de prisioneiros, como os americanos. Lá no fundo talvez "Carlos" tenha uma secreta preferência por Guantanamo.
terça-feira, junho 27
A Caixa
Com imenso desvelo, somos presenteados com uma caixa de correio electrónico gratuito! Finalmente alguém faz alguma coisa por nós. Estávamos fartos das mensalidades exorbitantes do hotmail, do yahoo, do clix e do sapo: um verdadeiro assalto. Nem sei como é que o pobre orçamento familiar aguentava o luxo de ter 4 ou 5 endereços de email, pagos a peso de ouro. Só de facto num país onde se vive claramente acima das posses. Agora espera-se ansiosamente o passo seguinte: o governo vai anunciar, mais dia menos dia, um "mensageiro" gratuito para todos os portugueses (coisa inimaginável até hoje, mas a partir de agora o céu é o limite, como disse o outro a respeito de outra coisa)! Será com certeza um mensageiro seguríssimo, acessível - tal como o e-mail - em telemóvel e também na nova geração de frigoríficos inteligentes, que permitirá ao cidadão manter agradáveis chats com os funcionários e funcionárias da edp, epal, finanças, psp, ctt e até provavelmente da loja do cidadão e de ministérios. Tudo isto sem necessitar de ter computador, bastando upgradar o telemóvel ou o equipamento de cozinha.
Mas nem tudo é perfeito: à nova Caixa ou ao futuro Chat vai faltar o picante a que estávamos habituados no hotmail ou no yahoo. Um correio só para despachar assuntos burocráticos e pagar facturas fica triste demais. Ora, se os cidadãos e as cidadãs levarem para lá todos os amigos e amigas, todos os e todas as ex e futuro(a)s amantes, todos aqueles e aquelas com quem trocam anedotas e fotos de gajas ou gajos, não vai haver largueza de banda que aguente. A solução terá de passar por manter uma ou duas das nossas antigas caixinhas, mesmo pagando aquelas quantias incomportáveis. O tecnochoque deve estar a preparar milhões de correspondentes e interlocutores virtuais para animar o novo correio. Preparemo-nos: do e-boletim da autarquia até ao anúncio das fabulosas riquezas que ganharemos em certificados de aforro, passando pela abertura de mais um xizão para reciclagem, vamos ter muito que ler.
Mas nem tudo é perfeito: à nova Caixa ou ao futuro Chat vai faltar o picante a que estávamos habituados no hotmail ou no yahoo. Um correio só para despachar assuntos burocráticos e pagar facturas fica triste demais. Ora, se os cidadãos e as cidadãs levarem para lá todos os amigos e amigas, todos os e todas as ex e futuro(a)s amantes, todos aqueles e aquelas com quem trocam anedotas e fotos de gajas ou gajos, não vai haver largueza de banda que aguente. A solução terá de passar por manter uma ou duas das nossas antigas caixinhas, mesmo pagando aquelas quantias incomportáveis. O tecnochoque deve estar a preparar milhões de correspondentes e interlocutores virtuais para animar o novo correio. Preparemo-nos: do e-boletim da autarquia até ao anúncio das fabulosas riquezas que ganharemos em certificados de aforro, passando pela abertura de mais um xizão para reciclagem, vamos ter muito que ler.
Um Marlboro desalcatroado, por favor
Se as tabaqueiras estiverem atentas aos nichos de mercado com grande potencial, e ao vertiginoso progresso científico dos nossos dias, iremos ter em breve os cigarros com nicotina pura, desalcatroados. Quem sabe até se o novo produto não virá a ser classificado como especialidade farmacêutica (onde, a propósito, o vinho tinto já deveria ter sido incluído). Os cidadãos livres têm o direito a escolher entre o cancro de pulmão, o enfarte de miocárdio e a doença de Alzheimer.
segunda-feira, junho 26
Finalmente o divórcio gay torna-se possível
Chega ao fim o casamento de X e Y, menos de um ano depois de a nova lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo entrar em vigor em Espanha. X, alegando que a dedicação a Y o impediu de se realizar profissionalmente, exige o usufruto do lar durante 15 anos, a tutela dos cães do casal e uma pensão mensal de 7000 euros.
À atenção da JS e do BE: por cá ainda vamos a tempo de tornar obrigatório um seguro no acto de casamento. Afinal, casar deverá ser encarado pelo menos tão seriamente como comprar um automóvel. Ou não?
À atenção da JS e do BE: por cá ainda vamos a tempo de tornar obrigatório um seguro no acto de casamento. Afinal, casar deverá ser encarado pelo menos tão seriamente como comprar um automóvel. Ou não?
domingo, junho 25
Notícias da universidade
Steven E. Jones, professor de Física na Universidade Brigham Young (Utah), membro da Igreja de Cristo dos Últimos Dias e, segundo algumas fontes, admirador de Bush até há pouco tempo, juntou-se à brigada da Teoria da Conspiração ao publicar um artigo em que defende que, no 11 de setembro, as torres do WTC caíram por implosão, devido a explosivos. Os aviões teriam sido uma camuflagem para desviar atenções. No início deste mês participou, em Chicago, numa conferência transformada em comício contra as forças sinistras que pretendem apoderar-se dos EEUU.
Os especialistas não estão de acordo com as teses defendidas por Jones, mas no âmbito da Resistência de Materiais há liberdade de expressão suficiente para que ninguém seja perseguido pela sua visão dos factos. Já o mesmo não se pode dizer de matérias como os direitos que devem, ou não, ser concedidos aos homossexuais. Jeffrey Nielsen, professor de Filosofia na mesma Universidade Brigham Young, e membro da mesma Igreja, acaba de ser despedido por ter tornado pública uma opinião favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo, contrariando uma posição da universidade em apoio da emenda à constituição (destinada a impedir aquela forma de união de pessoas) que foi rejeitada no passado dia 7 pelo Senado americano.
Os especialistas não estão de acordo com as teses defendidas por Jones, mas no âmbito da Resistência de Materiais há liberdade de expressão suficiente para que ninguém seja perseguido pela sua visão dos factos. Já o mesmo não se pode dizer de matérias como os direitos que devem, ou não, ser concedidos aos homossexuais. Jeffrey Nielsen, professor de Filosofia na mesma Universidade Brigham Young, e membro da mesma Igreja, acaba de ser despedido por ter tornado pública uma opinião favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo, contrariando uma posição da universidade em apoio da emenda à constituição (destinada a impedir aquela forma de união de pessoas) que foi rejeitada no passado dia 7 pelo Senado americano.
terça-feira, junho 20
Os direitos das mulheres estão imparáveis
Só alguém com má vontade pode dizer que os governos de inspiração socialista têm desprezo pelos aspectos religiosos da vida em sociedade. O ministério do interior aqui do lado anuncia que passa a poder ser utilizada, no novo bilhete de identidade electrónico, fotografia de rosto com véu, nos casos em que sejam invocadas práticas, crenças, e pertença a ordens religiosas. As freiras de toda a Espanha agradecem, pois foi obviamente a pensar nelas que a revolucionária medida viu a luz.
segunda-feira, junho 19
Gaivota 2006
Não é a ampliação de uma linha de metro. É o nome da operação da PSP montada para proceder hoje à distribuição dos enunciados de exame. Poderíamos pensar que finalmente se percebe para que temos polícia, mas ao ler esta notícia e os respectivos comentários, logo nos apercebemos de que a estratégia é errada e o alvo falhado: a bem da igualdade de oportunidades, faria mais sentido pôr os tais milhares de polícias a vigiar os alunos nas salas de exame.
Neto radical
Hossein Khomeini, neto do famoso ayatollah, em entrevista à Al-Arabiya, critica o regime de Teerão e apela à invasão pelos Estados Unidos. Diz que todos os caminhos são bons para chegar à democracia. Não deixa de ser extraordinário. Quanto tempo demorará até que o regime o silencie?
domingo, junho 18
Injectocarro

"Vem aí o carro da injecção" pode ser uma frase que tem sentido na China, mas não para significar que se aproxima uma equipa de cuidados médicos. É o modo de executar as sentenças de morte que está a mudar: a injecção letal está a ser adoptada com prevalência ao tiro na cabeça e de forma descentralizada. Para evitar os custos com o transporte de condenados até às prisões com equipamento, o injectocarro vai ter com eles. Também se diz que este meio de execução deixa o cadáver em muito melhor estado para efeito de extracção de órgãos. Desta mistura da morte com mesquinhas preocupações economicistas ninguém pode acusar as autoridades em regimes islâmicos, como se pode constatar aqui.
quinta-feira, junho 15
Reflexões triviais sobre o Mundial2006
Vamos ganhar ao Irão por 2-0! diz um fervoroso adepto da Selecção. O locutor pergunta-lhe se não tem dúvidas e ele reafirma. Estas certezas são tão frequentes como os jogos de futebol. Que eu me lembre, só Cavaco foi criticado por dizer que não tinha dúvidas.
Ronaldo tem tonturas na cabeça e bolhas nos pés. Nada de grave: efeitos da pressão que sofre por estarem cravados em si todos os olhos do mundo. É o stress, essa miraculosa explicação de todos os males, que agora disputa o lugar das antigas iras dos deuses. Uma prova medíocre da existência da alma.
Uma ruidosa multidão de fãos e fãs esperava o autocarro da Selecção à chegada ao hotel em Frankfurt. Uma fã excitada tinha visto o Cristiano Ronaldo e o Figo. Um fão estava lá desde as 4 da manhã e disse que tinha valido muito a pena.
Ser estrela do futebol agora não é uma pera doce: além da sobrenatural destreza física, os jogadores na berra têm que aturar rodas de jornalistas e debitar prognósticos e razões, com anúncios da sagres e da tmn em cenário de fundo. O Figo é um ás também neste campo: com evidente bom senso e desprezo pelos profetas de bancada, diz sempre, em essência, que ganharemos a não ser que venhamos a perder.
E ontem falou-se do Irão como um país de fanáticos... por futebol.
Era bom que fosse só isso.
O que é também mais ou menos cristalino é que o grande público, ao contrário da aparência, não aprecia futebol por aí além. Pelo menos não se nota grande movimentação e euforia a propósito de jogos que não envolvem Portugal, e parece que há várias equipas boas a competir. Mas a cidade só se transfigura, e só irrompem clamores de frustração e alegria vindos do interior dos prédios, quando "nós" jogamos. Os homens gostam sobretudo da coscuvilhice à volta das compras e vendas no grande talho da carne futeboleira, e das intrigas com árbitros e dirigentes; as mulheres normalmente não ligam a essas futilidades, mas estão na onda por causa dos namorados, maridos e, vá lá, de um ou outro jogador.
Do que a malta gosta também, claro, é de sofrer e gozar com a sua Selecção, fazendo de duas horas de exposição ao mundo uma imaginária suspensão da nossa irrelevância.
POST SCRIPTUM: 1) Tenho que reconhecer que o adepto sem dúvidas acertou em cheio.
2) Fotos à volta do Portugal-Irão aqui.
Ronaldo tem tonturas na cabeça e bolhas nos pés. Nada de grave: efeitos da pressão que sofre por estarem cravados em si todos os olhos do mundo. É o stress, essa miraculosa explicação de todos os males, que agora disputa o lugar das antigas iras dos deuses. Uma prova medíocre da existência da alma.
Uma ruidosa multidão de fãos e fãs esperava o autocarro da Selecção à chegada ao hotel em Frankfurt. Uma fã excitada tinha visto o Cristiano Ronaldo e o Figo. Um fão estava lá desde as 4 da manhã e disse que tinha valido muito a pena.
Ser estrela do futebol agora não é uma pera doce: além da sobrenatural destreza física, os jogadores na berra têm que aturar rodas de jornalistas e debitar prognósticos e razões, com anúncios da sagres e da tmn em cenário de fundo. O Figo é um ás também neste campo: com evidente bom senso e desprezo pelos profetas de bancada, diz sempre, em essência, que ganharemos a não ser que venhamos a perder.
E ontem falou-se do Irão como um país de fanáticos... por futebol.
Era bom que fosse só isso.
O que é também mais ou menos cristalino é que o grande público, ao contrário da aparência, não aprecia futebol por aí além. Pelo menos não se nota grande movimentação e euforia a propósito de jogos que não envolvem Portugal, e parece que há várias equipas boas a competir. Mas a cidade só se transfigura, e só irrompem clamores de frustração e alegria vindos do interior dos prédios, quando "nós" jogamos. Os homens gostam sobretudo da coscuvilhice à volta das compras e vendas no grande talho da carne futeboleira, e das intrigas com árbitros e dirigentes; as mulheres normalmente não ligam a essas futilidades, mas estão na onda por causa dos namorados, maridos e, vá lá, de um ou outro jogador.
Do que a malta gosta também, claro, é de sofrer e gozar com a sua Selecção, fazendo de duas horas de exposição ao mundo uma imaginária suspensão da nossa irrelevância.
POST SCRIPTUM: 1) Tenho que reconhecer que o adepto sem dúvidas acertou em cheio.
2) Fotos à volta do Portugal-Irão aqui.
The wrong way
O governo irlandês vai adiar a decisão de deixar de incluir o mérito académico entre os critérios para selecção de professores. Dois dos principais sindicatos de professores insurgem-se, e sustentam que o adiamento é um mau serviço prestado a professores, pais e alunos. "É a maneira errada de lidar com a educação e o futuro das crianças", declarou um dirigente.
segunda-feira, junho 12
Alto e pára o baile!
Vamos lá interromper a desinteressante discussão em torno desse jogo digno de dó entre Portugal e Angola. Está ao rubro uma controvérsia muito mais excitante entre defensores da teoria de cordas e um militante do contra. O assunto foi reavivado em artigos publicados no Times, ontem e hoje, relacionados com o livro Not even wrong, de Peter Woit. Sempre se fala de visões do universo e de definições de ciência... O céu não é o limite, aqui.
domingo, junho 11
O cerco aperta-se
Desde ontem, estão em funcionamento as redes de telemóvel nas linhas do metro de Lisboa. Deixa de ser possível aos amantes infiéis, quando a pessoa traída pergunta onde estavam, invocar como desculpa: "não atendi porque fiquei sem rede, ia apanhar o metro".
sábado, junho 10
sexta-feira, junho 9
Novo regulamento sobre ruído...
...aprovado ontem em Conselho de Ministros. O facto vai ser comemorado com arraiais de santos populares.
A qualidade das medidas
Anuncia-se mais um programa dispendioso e complicado para melhorar os resultados dos alunos em Matemática. Por exemplo, lê-se que
Cada agrupamento de escolas define a sua própria estratégia com autonomia, podendo por exemplo aumentar a carga horária da disciplina, criar equipas de dois professores por turma ou constituir equipas multidisciplinares de docentes para realizar actividades de apoio à Matemática nas áreas não curriculares como o Estudo Acompanhado.
Adquirir material didáctico ou software específico e melhorar ou criar de raiz espaços laboratoriais são outras estratégias que podem ser seguidas pelos estabelecimentos de ensino, com base no apoio financeiro da tutela.
Para se candidatarem às verbas, as escolas têm de apresentar um plano onde constem os resultados alcançados pelos alunos no ano de escolaridade anterior, a identificação das causas que influenciaram negativamente as notas e ainda as estratégias de melhoria das aprendizagens, além de uma estimativa dos custos do projecto.
Caso seja aceite o plano, que será avaliado por uma comissão nomeada para o efeito, a escola celebra com o Ministério um contrato-programa onde ficam definidas as metas a atingir e os apoios e recursos concedidos pela tutela.
Em cada escola haverá depois um docente nomeado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), que ficará responsável pelo acompanhamento do projecto.
Ora, dado o número de disciplinas que já compõem o currículo, mais actividades extra-curriculares, mais estudos com acompanhantes, mais horas extraordinárias aqui e ali, daqui a pouco as escolas terão de estar abertas até às 22h (mais ou menos). Pior do que isso, vão-se obrigar as crianças a estar sentadas um número excessivo de horas e ainda alguém virá com toda a lata exigir que não engordem.
Por outro lado, a complicação à volta das candidaturas das escolas ao programa não vai, obviamente, permitir aos professores envolvidos que se concentrem no objectivo principal que é ensinar Matemática bem. Aquisição de software específico? É um embuste pretender que a qualidade das aprendizagens (como eu gosto desta novilíngua) em Matemática, a nível básico, tem uma dependência significativa do uso de tecnologia.
Torna-se cada vez mais evidente que é preciso, antes de mais, melhorar a qualidade das medidas ministeriais.
Vamos ter estudo acompanhado obrigatório. Que tal a ideia de tornar o sucesso não obrigatório? Seria mais simples e barato e com certeza muito mais eficaz.
NOTA. As competências matemáticas (expressão deliciosa) descritas por lunáticos e outros extra-terrestres podem consultar-se aqui. Também ontem se realizou em Lisboa um seminário sobre as ditas, tendo como objectivo reflectir sobre as implicações da formulação da ideia de competências matemáticas, nomeadamente para o reconhecimento e avaliação de competências, para a valorização dos saberes e formação dos adultos e para o desenvolvimento curricular em matemática. Não se esclarece quem irá reflectir sobre as implicações da ideia de formulação da ideia de competências matemáticas, mas tenho a certeza de que não vão faltar candidatos.
Cada agrupamento de escolas define a sua própria estratégia com autonomia, podendo por exemplo aumentar a carga horária da disciplina, criar equipas de dois professores por turma ou constituir equipas multidisciplinares de docentes para realizar actividades de apoio à Matemática nas áreas não curriculares como o Estudo Acompanhado.
Adquirir material didáctico ou software específico e melhorar ou criar de raiz espaços laboratoriais são outras estratégias que podem ser seguidas pelos estabelecimentos de ensino, com base no apoio financeiro da tutela.
Para se candidatarem às verbas, as escolas têm de apresentar um plano onde constem os resultados alcançados pelos alunos no ano de escolaridade anterior, a identificação das causas que influenciaram negativamente as notas e ainda as estratégias de melhoria das aprendizagens, além de uma estimativa dos custos do projecto.
Caso seja aceite o plano, que será avaliado por uma comissão nomeada para o efeito, a escola celebra com o Ministério um contrato-programa onde ficam definidas as metas a atingir e os apoios e recursos concedidos pela tutela.
Em cada escola haverá depois um docente nomeado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), que ficará responsável pelo acompanhamento do projecto.
Ora, dado o número de disciplinas que já compõem o currículo, mais actividades extra-curriculares, mais estudos com acompanhantes, mais horas extraordinárias aqui e ali, daqui a pouco as escolas terão de estar abertas até às 22h (mais ou menos). Pior do que isso, vão-se obrigar as crianças a estar sentadas um número excessivo de horas e ainda alguém virá com toda a lata exigir que não engordem.
Por outro lado, a complicação à volta das candidaturas das escolas ao programa não vai, obviamente, permitir aos professores envolvidos que se concentrem no objectivo principal que é ensinar Matemática bem. Aquisição de software específico? É um embuste pretender que a qualidade das aprendizagens (como eu gosto desta novilíngua) em Matemática, a nível básico, tem uma dependência significativa do uso de tecnologia.
Torna-se cada vez mais evidente que é preciso, antes de mais, melhorar a qualidade das medidas ministeriais.
Vamos ter estudo acompanhado obrigatório. Que tal a ideia de tornar o sucesso não obrigatório? Seria mais simples e barato e com certeza muito mais eficaz.
NOTA. As competências matemáticas (expressão deliciosa) descritas por lunáticos e outros extra-terrestres podem consultar-se aqui. Também ontem se realizou em Lisboa um seminário sobre as ditas, tendo como objectivo reflectir sobre as implicações da formulação da ideia de competências matemáticas, nomeadamente para o reconhecimento e avaliação de competências, para a valorização dos saberes e formação dos adultos e para o desenvolvimento curricular em matemática. Não se esclarece quem irá reflectir sobre as implicações da ideia de formulação da ideia de competências matemáticas, mas tenho a certeza de que não vão faltar candidatos.
terça-feira, junho 6
Sugestão
O Ministério da Educação tem em vista um complexo, moroso e dispendioso sistema de avaliação de manuais escolares que poderá determinar a não aprovação de alguns deles. A iniciativa é absurda, até porque é bem conhecido que os alunos não costumam abrir os livros de texto. O Falta de Tempo, interessado na poupança deste escassíssimo bem, assim como na redução da despesa pública (para possibilitar o pagamento de uma aposentação que se antevê problemático) sugere que simplesmente seja obrigatória a inclusão de rótulos como
Usar este manual prejudica gravemente a tua saúde mental e a dos que te rodeiam. Abstem-te!
Folhear este manual pode incapacitar-te para a escrita e o cálculo durante décadas. Não o abras!
Poderiam adicionar-se fotos de jovens adultos escrevendo há quando é à e vice versa, ou encontrar-mos, ou tentando multiplicar 2 por 1/2 e obtendo zero como resultado.
As escolas desencorajariam o uso de livros de texto e criariam espaços para os viciados irrecuperáveis poderem abri-los e folheá-los.
Em cada ano lectivo seriam atribuídos rótulos, por sorteio, a não mais de 75% dos manuais comercializados. Para além da poupança, o efeito poderia ser surpreendente: com o atractivo da proibição, os estudantes talvez passassem a ler manuais.
Usar este manual prejudica gravemente a tua saúde mental e a dos que te rodeiam. Abstem-te!
Folhear este manual pode incapacitar-te para a escrita e o cálculo durante décadas. Não o abras!
Poderiam adicionar-se fotos de jovens adultos escrevendo há quando é à e vice versa, ou encontrar-mos, ou tentando multiplicar 2 por 1/2 e obtendo zero como resultado.
As escolas desencorajariam o uso de livros de texto e criariam espaços para os viciados irrecuperáveis poderem abri-los e folheá-los.
Em cada ano lectivo seriam atribuídos rótulos, por sorteio, a não mais de 75% dos manuais comercializados. Para além da poupança, o efeito poderia ser surpreendente: com o atractivo da proibição, os estudantes talvez passassem a ler manuais.
segunda-feira, junho 5
Qualquer variedade tridimensional...
... sem bordo, compacta e simplesmente conexa é homeomorfa à esfera tridimensional. Dois matemáticos chineses, Zhu Xiping e Cao Huaidong, trabalhando sob a direcção de Shing-Tung Yau, professor de Harvard, reclamam ter demonstrado a famosa "conjectura de Poincaré", um dos grandes desafios matemáticos do milénio.
Huai-Dong Cao and Xi-Ping Zhu, A Complete Proof of the Poincaré and Geometrization Conjectures - application of the Hamilton-Perelman theory of the Ricci flow, (mais de 300 páginas) Asian Journal of Mathematics, Junho 2006.
Huai-Dong Cao and Xi-Ping Zhu, A Complete Proof of the Poincaré and Geometrization Conjectures - application of the Hamilton-Perelman theory of the Ricci flow, (mais de 300 páginas) Asian Journal of Mathematics, Junho 2006.
domingo, junho 4
O perguntador
Tem-se discutido muito sobre qual seria a pergunta certa, a propósito da interrogação do Papa em Auschwitz. A pergunta é velha e atravessa séculos de filosofia e artes. Num belo filme dos anos 60, "Luz de Inverno", Bergman formula-a através de uma das suas personagens.
Para os que têm fé, a questão é destituída de sentido. À luz das escrituras, sabe-se que a conduta correcta é sofrer e calar. Deus dá carta branca a Satanás para cobrir de bolhas e chagas o corpo de Job, que as coçará com um caco. A aposta era que Job mesmo assim não maldiria o nome de Deus e Deus ganha. E se pensarmos no que Deus reservava para o seu "filho" estamos mais que conversados.
No PÚBLICO, Rui Tavares sustentava ontem que a pergunta correcta deveria ser onde estavam as pessoas nesses dias e Vasco Pulido Valente escreve hoje que a pergunta necessária é onde estava a Igreja. De certo modo, dizem o mesmo e têm alguma razão.
Mas parece-me que a novidade interessante não está na pergunta, que todos os homens inteligentes, Ratzinger incluído, sabem que não tem reposta, mas sim em quem pergunta. Deixando de lado a fragilidade e incómodo da posição do chefe da Igreja Católica na terrível questão, aquilo a que assistimos é inteiramente novo: é como se o Papa confessasse a angústia da consciência de que Deus é obra dos homens. Não estou a insinuar que a Igreja poderá ter em Ratzinger o seu Gorbachov, mas sim que o cardeal pensa pela própria cabeça com mais liberdade que alguns dos seus críticos.
Para os que têm fé, a questão é destituída de sentido. À luz das escrituras, sabe-se que a conduta correcta é sofrer e calar. Deus dá carta branca a Satanás para cobrir de bolhas e chagas o corpo de Job, que as coçará com um caco. A aposta era que Job mesmo assim não maldiria o nome de Deus e Deus ganha. E se pensarmos no que Deus reservava para o seu "filho" estamos mais que conversados.
No PÚBLICO, Rui Tavares sustentava ontem que a pergunta correcta deveria ser onde estavam as pessoas nesses dias e Vasco Pulido Valente escreve hoje que a pergunta necessária é onde estava a Igreja. De certo modo, dizem o mesmo e têm alguma razão.
Mas parece-me que a novidade interessante não está na pergunta, que todos os homens inteligentes, Ratzinger incluído, sabem que não tem reposta, mas sim em quem pergunta. Deixando de lado a fragilidade e incómodo da posição do chefe da Igreja Católica na terrível questão, aquilo a que assistimos é inteiramente novo: é como se o Papa confessasse a angústia da consciência de que Deus é obra dos homens. Não estou a insinuar que a Igreja poderá ter em Ratzinger o seu Gorbachov, mas sim que o cardeal pensa pela própria cabeça com mais liberdade que alguns dos seus críticos.
Professores, avaliações, aflições
Com o objectivo de diminuir a despesa pública e, vá lá, "melhorar a qualidade do ensino", têm vindo a ser anunciadas medidas necessárias para a avaliação de professores e filtragem do acesso aos níveis elevados da carreira. Estando de acordo com o princípio da necessidade de avaliação (assim como o do condicionamento de acesso à carreira em exame nacional), entrevejo uma mão cheia de possibilidades de enviesamento do processo. Ou me engano muito, ou uma parte substancial da concretização das avaliações pode ficar nas mãos do lobby das "ciências" da educação, dado que há uma elevada possibilidade de os coordenadores de departamento curricular (a quem vai incumbir atribuir classificações) serem recrutados entre os inúmeros mestres e doutores, especializados em estudos de acaso, que durante anos interiorizaram a ideologia pedagógica em vigor. Podemos estar a assistir à criação de um corpo de guardiões da execução das orientações metodológicas rígidas e irrealistas que recheiam os programas oficiais. Ironicamente, muitos deles terão sido doutrinados sobre a inadequação dos exames como método de avaliação...
Lendo o anteprojecto de estatuto da carreira docente, disponível no site do ministério da educação, não fico muito descansado quando reconheço, aqui e além, os traços distintivos da escrita em eduquês. Por exemplo, no artigo 36-2º diz-se que são competências dos professores
gerir os conteúdos programáticos, criando situações de aprendizagem que favoreçam a apropriação activa, criativa e autónoma dos saberes da disciplina ou da área disciplinar, de forma integrada com o desenvolvimento de competências transversais.
Isto já foi escrito muitas vezes e não deixou boas recordações.
A avaliação pelos pais, no contexto de facilitismo com que o ensino foi contaminado nos últimos tempos, corre o risco de reflectir, em grande medida, os simulacros de avaliação feitas pelos próprios alunos em 1974 e 1975.
A ministra afirma ainda (PÚBLICO de hoje) que a escola já dispõe de meios de exercer autoridade. Do alto do "observatório da violência" a escola deve ser um pontinho longínquo e perdido no espaço: talvez o envio de uma sonda permita conclusões mais fiáveis. E, quando se humilha publicamente, em bloco, a classe dos professores, a questão deixa de ser a de saber se eles merecem ou não as frases reprovadoras, passando a ser a de avaliar se o efeito não será o mesmo que dizer: batam-lhes mais, que eles merecem.
Lendo o anteprojecto de estatuto da carreira docente, disponível no site do ministério da educação, não fico muito descansado quando reconheço, aqui e além, os traços distintivos da escrita em eduquês. Por exemplo, no artigo 36-2º diz-se que são competências dos professores
gerir os conteúdos programáticos, criando situações de aprendizagem que favoreçam a apropriação activa, criativa e autónoma dos saberes da disciplina ou da área disciplinar, de forma integrada com o desenvolvimento de competências transversais.
Isto já foi escrito muitas vezes e não deixou boas recordações.
A avaliação pelos pais, no contexto de facilitismo com que o ensino foi contaminado nos últimos tempos, corre o risco de reflectir, em grande medida, os simulacros de avaliação feitas pelos próprios alunos em 1974 e 1975.
A ministra afirma ainda (PÚBLICO de hoje) que a escola já dispõe de meios de exercer autoridade. Do alto do "observatório da violência" a escola deve ser um pontinho longínquo e perdido no espaço: talvez o envio de uma sonda permita conclusões mais fiáveis. E, quando se humilha publicamente, em bloco, a classe dos professores, a questão deixa de ser a de saber se eles merecem ou não as frases reprovadoras, passando a ser a de avaliar se o efeito não será o mesmo que dizer: batam-lhes mais, que eles merecem.
sábado, junho 3
Choque disfórico
Vai ser possível, pelo menos em Espanha, reclamar o sexo com que cada um mais se identifica, mesmo sem operação cirúrgica. Basta um atestado de disforia de género: habituemo-nos à palavra. Ainda por cima pode escolher-se o nome a condizer, e tudo isto mantendo o número do BI. Só acho que todo este avanço cai, sem se aperceber, na armadilha de acreditar que apenas existem dois sexos. Por agora, as clientelas ficam satisfeitas com a possibilidade de alternar, mas não tardará a insurgência das insuspeitadas maiorias que não se revêem na armadilha estruturalista da dicotomia M/F.
domingo, maio 28
sábado, maio 27
As vozes do dono
Em estimativa grosseira e não fundamentada, calculo que há para aí uns 50% de professores incompetentes nas escolas do país e para aí uns 93,4% de pais incompetentes para os avaliarem de maneira honesta.
Mas os sindicatos perdem tempo ao virem dizer estas frases aos microfones. Opor-se a que os pais sejam actores do processo de avaliação e reafirmar que eles são fundamentais na dinamização da escola e do projecto educativo é repetir as lenga-lengas ocas que o mesmo ministério lhes vem inculcando nas cabeças há décadas de modo a limitar-lhes e banalizar-lhes as formas de expressão, para finalmente se rir deles, pois fica a nu que não perceberam nada.
Mas os sindicatos perdem tempo ao virem dizer estas frases aos microfones. Opor-se a que os pais sejam actores do processo de avaliação e reafirmar que eles são fundamentais na dinamização da escola e do projecto educativo é repetir as lenga-lengas ocas que o mesmo ministério lhes vem inculcando nas cabeças há décadas de modo a limitar-lhes e banalizar-lhes as formas de expressão, para finalmente se rir deles, pois fica a nu que não perceberam nada.
Consumismo frustrado
Hoje comprei umas colunas (excelentes, mas não devo fazer publicidade) para ouvir cds e rádio. Preparava-me para as instalar na banheira (obviamente), mas parei a tempo: as safety instructions do manual aconselhavam a não utilizar o material na banheira, na máquina de lavar ou na pia da cozinha. Não está certo! Deviam avisar na loja. Quase 500 euros e não se pode usar com o jacuzi???
O Mundial
Onde é que isto irá parar? Depois do código Da Vinci, é a vez do Mundial 2006. Até onde poderá descer um blogger para aparecer nos motores de busca? Ainda por cima escrevendo sobre matérias que desconhece.
O que está fora de dúvida é que começou um período de euforia e felicidade para os portugueses: os festivais de música são o prelúdio, as bandeiras começaram a sair dos armários, alguns cafés já promovem a imperial quase à borla nos dias em que jogará a Selecção, e a Sport Tv rendeu-se ao impulso autárquico de oferecer futebol aos cidadãos. Os ecrans gigantes não são baratos, mas não nos preocupemos: as despesas com os estádios do Euro 2004 são muito maiores e os munícipes aceitam com alegria que as suas contribuições em IMI, IMT e taxas de esgotos sejam lançadas cano abaixo nesses investimentos.
Eu compreendo bem a irritação do jcs com o que nos espera a partir de 9 de junho. Os canais de rádio e tv falarão do mesmo durante longas horas, o silêncio dos prédios será interrompido por coros bem sincronizados de júbilo ou decepção, e há mesmo a possibilidade de alguns buzinões desassossegarem as cidades. No entanto, sem ser apreciador de futebol, não vejo mal nenhum nisto. A verdade é que, embora omnipresente, o futebol ainda não é obrigatório: vê-se e ouve-se por opção individual inteiramente livre. Para além de não ter nada contra a felicidade geral, até acho agradável a tranquilidade que se instala nas ruas e no trânsito quando tudo corre para o ecran mais próximo à hora dos jogos, fazendo lembrar, para melhor, Lisboa em Agosto.
Por outro lado, temos que reconhecer que é no âmbito do futebol que os portugueses criaram produtos de primeira água. Os descobrimentos e os Jerónimos estão feitos há quase cinco séculos, os Lusíadas têm a mesma idade, e de então para cá nada nas artes, na ciência, ou na técnica, relevante em termos globais, tem a marca portuguesa. Se é certo que de vez em quando alguns nomes adquirem merecido destaque internacional, não temos primeiros lugares no pódio fora do futebol. Dar ao mundo vários jogadores de cinco estrelas e um treinador topo de gama é obra e, para bem ou para mal, condicionante da imagem que temos de nós próprios.
O que está fora de dúvida é que começou um período de euforia e felicidade para os portugueses: os festivais de música são o prelúdio, as bandeiras começaram a sair dos armários, alguns cafés já promovem a imperial quase à borla nos dias em que jogará a Selecção, e a Sport Tv rendeu-se ao impulso autárquico de oferecer futebol aos cidadãos. Os ecrans gigantes não são baratos, mas não nos preocupemos: as despesas com os estádios do Euro 2004 são muito maiores e os munícipes aceitam com alegria que as suas contribuições em IMI, IMT e taxas de esgotos sejam lançadas cano abaixo nesses investimentos.
Eu compreendo bem a irritação do jcs com o que nos espera a partir de 9 de junho. Os canais de rádio e tv falarão do mesmo durante longas horas, o silêncio dos prédios será interrompido por coros bem sincronizados de júbilo ou decepção, e há mesmo a possibilidade de alguns buzinões desassossegarem as cidades. No entanto, sem ser apreciador de futebol, não vejo mal nenhum nisto. A verdade é que, embora omnipresente, o futebol ainda não é obrigatório: vê-se e ouve-se por opção individual inteiramente livre. Para além de não ter nada contra a felicidade geral, até acho agradável a tranquilidade que se instala nas ruas e no trânsito quando tudo corre para o ecran mais próximo à hora dos jogos, fazendo lembrar, para melhor, Lisboa em Agosto.
Por outro lado, temos que reconhecer que é no âmbito do futebol que os portugueses criaram produtos de primeira água. Os descobrimentos e os Jerónimos estão feitos há quase cinco séculos, os Lusíadas têm a mesma idade, e de então para cá nada nas artes, na ciência, ou na técnica, relevante em termos globais, tem a marca portuguesa. Se é certo que de vez em quando alguns nomes adquirem merecido destaque internacional, não temos primeiros lugares no pódio fora do futebol. Dar ao mundo vários jogadores de cinco estrelas e um treinador topo de gama é obra e, para bem ou para mal, condicionante da imagem que temos de nós próprios.
domingo, maio 21
Tentando descodificar
Tem que ser: um post sobre o Código da Vinci. Em primeiro lugar, não li o livro, nem tenciono lê-lo nem ver o filme (se tiver que dar algum mau passo, antes a missão impossível nº3). Desde que comecei a observar o sucesso da novela vivo intrigado com o que nela atrai massas de leitores pouco habituais. O mistério descrito em estilo de "policial"? A avidez por teorias improváveis (no sentido literal de que não podem ser provadas), como as que alimentam as mais disparatadas fábulas de conspiração? Tudo isto e com certeza mais. O facto de as teorias, neste caso, terem o Cristo histórico e a Igreja Católica como objecto, deve ser um factor decisivo na explicação do interesse suscitado. Isso não deixa de me causar perplexidade, dada a laicização das nossas sociedades: tendo o interesse pela religião descido a níveis tão baixos, não se pode explicar o fenómeno por coscuvilhice pura e simples.
Por outro lado, parece que o filme não está a ter um êxito comparável. Eu acho que em matéria de código Da Vinci de mais uma especulação não vem mal nenhum ao mundo, e portanto aqui vai. Tendo de condensar em duas horas a série de devaneios contidos no livro, ainda por cima com as técnicas narrativas mais-do-que-já-vistas do cinema americano, com música aterradora muito alta e ruídos fragorosos em dolby digital, o filme provavelmente exibe, de modo excessivo, a banalidade da estorieta subjacente. Muitos sairão de lá desiludidos ao constatarem que o que tomaram por apoio consistente à sua visão de um Cristo dessacralizado e de uma Igreja tenebrosa, mais não parece, afinal, do que uma crendice que se cobre a si própria de ridículo.
O mistério tragável estava no livro. Talvez muita gente tenha descoberto que, afinal, do que gosta é de ler.
Por outro lado, parece que o filme não está a ter um êxito comparável. Eu acho que em matéria de código Da Vinci de mais uma especulação não vem mal nenhum ao mundo, e portanto aqui vai. Tendo de condensar em duas horas a série de devaneios contidos no livro, ainda por cima com as técnicas narrativas mais-do-que-já-vistas do cinema americano, com música aterradora muito alta e ruídos fragorosos em dolby digital, o filme provavelmente exibe, de modo excessivo, a banalidade da estorieta subjacente. Muitos sairão de lá desiludidos ao constatarem que o que tomaram por apoio consistente à sua visão de um Cristo dessacralizado e de uma Igreja tenebrosa, mais não parece, afinal, do que uma crendice que se cobre a si própria de ridículo.
O mistério tragável estava no livro. Talvez muita gente tenha descoberto que, afinal, do que gosta é de ler.
sábado, maio 20
Nova carta na mesa
Ahmadinejad está a preparar agora uma carta para o Papa. Certamente que o conteúdo não será surpresa: aposto que vai copiar, como fez na carta a Bush, o discurso contestatário dos pretensos laicos ocidentais - os que, na realidade, sofrem de fé incurável nas utopias totalitárias que a nossa cultura incubou. Pode ser problemático provar que o Irão persegue o fabrico da arma nuclear, mas vai ser simples acusar o presidente de plágio. Presumo que não vão ser poucos os que poderiam exigir indemnização, mas entre camaradas de luta essas coisas podem bem ficar esquecidas.
A Europa tem, apesar de tudo, motivos para ficar despeitada. Fica a nu a nulidade prática dos seus dirigentes políticos. Se algum tiver direito a carta, será em segunda escolha.
A Europa tem, apesar de tudo, motivos para ficar despeitada. Fica a nu a nulidade prática dos seus dirigentes políticos. Se algum tiver direito a carta, será em segunda escolha.
terça-feira, maio 16
Lingerie e quotas II
Uma alta autoridade religiosa saudita criticou as medidas anunciadas pelo ministro do trabalho, afirmando que elas levariam à imoralidade e ao fogo do inferno. Numa cassete recente, Bin Laden afirma que o ministro é um herege e merece a morte. Assim, a chegada das mulheres ao mercado de trabalho na Arábia Saudita vai ter de esperar.
domingo, maio 14
A estratégia epistolar

(www.filibustercartoons.com)
Há já muito tempo que Ahmadinejad fala não apenas para o mundo islâmico mas, sobretudo, para os ocidentais. Isto mesmo é sublinhado hoje no editorial do PÚBLICO por José Manuel Fernandes, a propósito da famosa carta a Bush, de que o jornal hoje publica o essencial. A leitura do texto confirma essa impressão e exibe como a opinião pública na Europa e nos Estados Unidos abriu caminho fácil à estratégia mediática dos dirigentes iranianos. É impossível, em face da carta, não sentir o incómodo de constatar que ela poderia ter sido escrita, e facilmente subscrita, por figuras notórias do nosso mundo político e cultural, e por não poucos entre os nossos amigos, conhecidos e vizinhos. Nalguns casos, pequenas alterações de pormenor seriam suficientes: conjecturo que Louçã e Drago recomendassem a retirada das referências a Jesus Cristo e que Freitas do Amaral, Mário Soares e Maria do Céu Guerra, cada um pelas suas razões, requeressem uma alteração de forma no parágrafo final, em que o convite à conversão é apontado como solução para os problemas do mundo.
O Ayatollah Ahamd Jannati, grande leader da oração de 6ª feira em Teerão, tem uma opinião que choca com esta minha visão, porque ele afirma que a carta teve inspiração divina. (Terá o pensamento dos nossos políticos e mentores de opinião, mesmo dos mais empedernidamente laicos, sido contaminado, sem que eles o saibam, pela luz proveniente de um Todo Poderoso?)
Claro que a opinião de Jannaty é que pode estar minada pela conveniência política que a circunstância lhe aconselha. Se é de um apelo à conversão que se trata, porque é que, como nota o analista iraniano Mehran Riazaty, Ahmadinejad não se dirigiu em primeiro lugar aos dirigentes ateus chineses e russos? Só porque estes não têm dificultado o caminho para a bomba?
Com suprema ironia, Ahmadinejad pergunta ao destinatário se acha que os resultados das políticas recentes dos EEUU são compatíveis com os ensinamentos de Jesus Cristo e os direitos humanos. Ele sabe que a questão não lhe pode ser devolvida. Direitos humanos é coisa com a qual o Corão nada tem a ver: a teocracia está no rumo certo.
sábado, maio 13
O gosto
Santarém, Lisboa, Castelo Branco, Tomar... a Semana Académica confirma, por todo o país, que o gosto das massas estudantis, supostamente representado pelo dos seus dirigentes associativos, tem pelo menos um objecto comum e estável: Quim Barreiros. Compreende-se assim melhor que as maiorias não sejam apreciadoras de Análise Infinitesimal, Geometria, Mecânica Quântica... Gostos não se discutem mas aprendem-se, e a estudantada não se mostra muito inclinada para isso.
quarta-feira, maio 10
Saudades de Guantanamo Bay
A China pediu a extradição de cinco suspeitos de terrorismo libertados de Guantanamo Bay e actualmente refugiados na Albânia. Se a resposta ao pedido da China for positiva, alguém vai ter saudades de Guantanamo.
segunda-feira, maio 8
O amor nos tempos de internet (11)
Decorridos cinco meses sobre a fuga de Sofia, sentia-me na corda bamba. Já não era a ausência dela que me atormentava, mas a indefinição e vagueza dos meus próprios sentimentos. Tinha-me apercebido de que já não sofria desde aquela manhã que a empregada, a D. Adília, dedicara a uma limpeza mais profunda: aspirou o ralo da banheira com o desentupidor, atirou restos do cabelo alourado de Sofia pelo cano abaixo e eu, que ainda estava em casa e presenciei a cena, não senti nada.
A Rita tinha-me salvo de um naufrágio mais completo, mas não poderia mentir a mim próprio convencendo-me de que quereria estar com ela a longo prazo. A Matilde caiu como lava sobre gelo. O fim de semana no Norte tinha sido perfeito e, se não sou demasiado ingénuo a avaliar as mulheres, convenci-me de que para ela tinha sido tão agradável como para mim. No entanto, quando lhe sugeri timidamente um convite para vir a Lisboa, ela enredou e desviou o assunto. Seguiram-se ambíguos sinais de esfriamento. Quando na segunda à noite lhe liguei, antes de sair do escritório, fui parar à caixa de correio. Diabos, pensei, lá em casa com a Rita não posso telefonar, a não ser que lhe conte tudo, mas neste momento nem tenho a certeza do que é tudo. Tentei passados dez minutos e apareceu o timbre doce e firme: Olá!
-Olá, amor, já tinha tentado há bocado, onde estavas?
-Tinha ficado sem bateria. Agora já carreguei
-Tinha tantas saudades de te ouvir. Já pensaste no que te disse?
-Disseste-me tanta coisa, não sei se já pensei em tudo
-Parece que estás a falar a medo, os teus pais estão aí perto?
-Não, devem estar a chegar
-Eu como te disse estou seguro de mim, só espero a tua decisão
A chamada caiu. Senti um alívio amargo, porque na realidade as coisas iriam complicar-se se a Matilde dissesse que sim, que viria para Lisboa, para viver comigo. Se não nos déssemos bem eu não a prenderia. Sim, mas com que cara fico diante dos meus pais? era, aparentemente, a grande questão dela. Eu sabia tão bem como ela que a questão não era nada simples, mas o meu feitio aventureiro impelia-me para diante. Voltei a marcar e fui parar outra vez à caixa de correio e ao pânico de não saber o que se passava do outro lado. Nos dias seguintes não houve contacto nem por telefone nem no chat. Na quinta feira seguinte, quando liguei o pc na Companhia, apareceu-me a caixa de diálogo do messenger: a terezinha18, nick que eu desconhecia, queria ser adicionada à minha lista. Intrigado, fiz ok. Ao fim da tarde, quando me preparava para sair do escritório, a terezinha18 apareceu online.
terezinha18 diz:
ola
L. diz:
ola, conhecemo-nos?
terezinha18 diz:
quem sabe, mas podemos vir a conhecer-nos
L. diz:
nao me lembro de termos contactado aqui antes
terezinha18 diz:
és de lisboa?
L. diz:
sim, e tu?
terezinha18 diz:
estou perto
L. diz:
mas que misterio
terezinha18 diz:
o misterio sera desfeito em breve. Como vais de amores?
Uma que me conhece ou ao serviço de alguma que me conhece, pensei.
L diz:
confesso que estou atrapalhado
terezinha18 diz:
se es casado nao quero atrapalhar
L. diz:
Por isso nao será, estou separado
terezinha18 diz:
a sério? e nao há namorada à espera
L. diz:
porque queres saber, se eu não te conheço?
terezinha18 diz:
não quero, estava a brincar contigo
L. diz:
que alívio
terezinha18 diz:
e dás conta do recado com os filhos?
L. diz:
filhos só tenho um
Aqui caí em mim, gravei o diálogo e desliguei-me. Estava a cair no jogo como um adolescente: falar de mim com uma brincalhona ou pior que tem a vantagem do anonimato. O que a princípio me pareceu uma ajuda para esquecer a Matilde por uns momentos acabou por assumir o aspecto de potencial ameaça. Fragilizado, dei-me conta de sentir medo: em situação normal, não deixaria de tirar partido do episódio nem que fosse só pelo gozo inconsequente.
Mas na sexta feira todos estes acontecimentos e dúvidas estavam destinados a descer de categoria, expulsos do pódio por um documento que descobri, de modo fortuito, no pc de casa. Tinha trazido cópia da conversa com a terezinha18 para guardar no computador, e ao abrir a pasta chamou-me a atenção um documento desconhecido com o título cb0412. Fui ver e logo me apercebi de que era parte de uma conversa tida, no messenger, pelo Eduardo com alguém de Coimbra, no fim de semana anterior. Com certeza por descuido, o Eduardo tinha-se esquecido de a apagar. Quando li pela terceira vez, tive a noção de ter intuído, com grande segurança, quem era o interlocutor. E de ouvir uma voz de consciência, se é que existe, a martelar: tens um filho e não lhe ligas nada, não admira que não saibas nada dele. A Rita apercebeu-se da minha perturbação e tive que inventar uma dor de estômago, que rapidamente se tornou real.
A Rita tinha-me salvo de um naufrágio mais completo, mas não poderia mentir a mim próprio convencendo-me de que quereria estar com ela a longo prazo. A Matilde caiu como lava sobre gelo. O fim de semana no Norte tinha sido perfeito e, se não sou demasiado ingénuo a avaliar as mulheres, convenci-me de que para ela tinha sido tão agradável como para mim. No entanto, quando lhe sugeri timidamente um convite para vir a Lisboa, ela enredou e desviou o assunto. Seguiram-se ambíguos sinais de esfriamento. Quando na segunda à noite lhe liguei, antes de sair do escritório, fui parar à caixa de correio. Diabos, pensei, lá em casa com a Rita não posso telefonar, a não ser que lhe conte tudo, mas neste momento nem tenho a certeza do que é tudo. Tentei passados dez minutos e apareceu o timbre doce e firme: Olá!
-Olá, amor, já tinha tentado há bocado, onde estavas?
-Tinha ficado sem bateria. Agora já carreguei
-Tinha tantas saudades de te ouvir. Já pensaste no que te disse?
-Disseste-me tanta coisa, não sei se já pensei em tudo
-Parece que estás a falar a medo, os teus pais estão aí perto?
-Não, devem estar a chegar
-Eu como te disse estou seguro de mim, só espero a tua decisão
A chamada caiu. Senti um alívio amargo, porque na realidade as coisas iriam complicar-se se a Matilde dissesse que sim, que viria para Lisboa, para viver comigo. Se não nos déssemos bem eu não a prenderia. Sim, mas com que cara fico diante dos meus pais? era, aparentemente, a grande questão dela. Eu sabia tão bem como ela que a questão não era nada simples, mas o meu feitio aventureiro impelia-me para diante. Voltei a marcar e fui parar outra vez à caixa de correio e ao pânico de não saber o que se passava do outro lado. Nos dias seguintes não houve contacto nem por telefone nem no chat. Na quinta feira seguinte, quando liguei o pc na Companhia, apareceu-me a caixa de diálogo do messenger: a terezinha18, nick que eu desconhecia, queria ser adicionada à minha lista. Intrigado, fiz ok. Ao fim da tarde, quando me preparava para sair do escritório, a terezinha18 apareceu online.
terezinha18 diz:
ola
L. diz:
ola, conhecemo-nos?
terezinha18 diz:
quem sabe, mas podemos vir a conhecer-nos
L. diz:
nao me lembro de termos contactado aqui antes
terezinha18 diz:
és de lisboa?
L. diz:
sim, e tu?
terezinha18 diz:
estou perto
L. diz:
mas que misterio
terezinha18 diz:
o misterio sera desfeito em breve. Como vais de amores?
Uma que me conhece ou ao serviço de alguma que me conhece, pensei.
L diz:
confesso que estou atrapalhado
terezinha18 diz:
se es casado nao quero atrapalhar
L. diz:
Por isso nao será, estou separado
terezinha18 diz:
a sério? e nao há namorada à espera
L. diz:
porque queres saber, se eu não te conheço?
terezinha18 diz:
não quero, estava a brincar contigo
L. diz:
que alívio
terezinha18 diz:
e dás conta do recado com os filhos?
L. diz:
filhos só tenho um
Aqui caí em mim, gravei o diálogo e desliguei-me. Estava a cair no jogo como um adolescente: falar de mim com uma brincalhona ou pior que tem a vantagem do anonimato. O que a princípio me pareceu uma ajuda para esquecer a Matilde por uns momentos acabou por assumir o aspecto de potencial ameaça. Fragilizado, dei-me conta de sentir medo: em situação normal, não deixaria de tirar partido do episódio nem que fosse só pelo gozo inconsequente.
Mas na sexta feira todos estes acontecimentos e dúvidas estavam destinados a descer de categoria, expulsos do pódio por um documento que descobri, de modo fortuito, no pc de casa. Tinha trazido cópia da conversa com a terezinha18 para guardar no computador, e ao abrir a pasta chamou-me a atenção um documento desconhecido com o título cb0412. Fui ver e logo me apercebi de que era parte de uma conversa tida, no messenger, pelo Eduardo com alguém de Coimbra, no fim de semana anterior. Com certeza por descuido, o Eduardo tinha-se esquecido de a apagar. Quando li pela terceira vez, tive a noção de ter intuído, com grande segurança, quem era o interlocutor. E de ouvir uma voz de consciência, se é que existe, a martelar: tens um filho e não lhe ligas nada, não admira que não saibas nada dele. A Rita apercebeu-se da minha perturbação e tive que inventar uma dor de estômago, que rapidamente se tornou real.
domingo, maio 7
O ruído de Laramie

Em Outubro de 1998, na cidade de Laramie, Matthew Shepard, rapaz homossexual de 22 anos, foi assassinado com grande brutalidade por Aaron McKinney e Russell A. Henderson. Os assassinos acabaram por ser condenados a prisão perpétua. Ainda Matthew agonizava no hospital e já o caso atraía à cidade um exército de gente dos media, activistas políticos e artistas "comprometidos" com as grandes causas. A grande causa, aqui, era a janela de oportunidade que se abria à propaganda a favor de legislação contra os "crimes de ódio". O texto que serve de base à peça em cena no Maria Matos estrutura-se a partir de uma série de entrevistas com pessoas da cidade e das suas visões da tragédia.
O problema de "Laramie", como peça de teatro, é que de teatro tem muito pouco. Os autores do texto (M. Kaufman e o Tectonic Theater Project) não trabalharam verdadeiramente o material recolhido, a não ser para sobrepôr à complexa realidade a trivialidade sensaborona de duas ou três ideias feitas que eles próprios já tinham na cabeça. Assim, em "Laramie" não há drama, há comício. Contrariamente ao que apregoam frases publicitárias, "Laramie" nunca comove. Compreende-se porquê: estamos perante uma cópia preguiçosa da realidade, ainda por cima desfigurada e simplificada por um figurino ideológico vulgar.
A encenação de Diogo Infante como que vem apenas mostrar que é possível construir um relativo êxito com grande economia de talento. O espaço cénico, de uma fealdade violenta, acolhe cenas e poses em que tudo (pessoas, objectos) aparenta estar pouco à vontade e fora do lugar.
Salvam-se dois momentos em que há teatro: os monólogos do homem do táxi (Albano Jerónimo) e da esposa do polícia (Isabel Abreu), excelentemente interpretados. Quase tudo o resto é ruído.
sábado, maio 6
Quotas
Entre os candidatos à próxima eleição para a Comissão de Direitos Humanos da ONU:
China, Irão, Cuba, Rússia, Tunísia, Paquistão, Arábia Saudita, Argélia, Nigéria...
O sistema de quotas regionais (que implica quotas para países onde não há respeito pelos direitos humanos) permitirá, possivelmente, a eleição de alguns deles.
China, Irão, Cuba, Rússia, Tunísia, Paquistão, Arábia Saudita, Argélia, Nigéria...
O sistema de quotas regionais (que implica quotas para países onde não há respeito pelos direitos humanos) permitirá, possivelmente, a eleição de alguns deles.
Tédio, Seca e Farsa
O "cansaço" e a coluna de Freitas. A "vitória" de Mendes. O congresso dessa curiosidade chamada PP. Tão excitante como uma comemoração do 5 de outubro seguida da leitura de um número do Diário da República, II série. Juntar tudo isto no mesmo fim de semana deveria ser proibido por uma alta autoridade contra o tédio.
A TSF amplia o bocejo abrindo os seus boletins informativos com estas "notícias", a que se acrescentam comentários irrelevantes, proferidos durante minutos que parecem uma eternidade.
A TSF amplia o bocejo abrindo os seus boletins informativos com estas "notícias", a que se acrescentam comentários irrelevantes, proferidos durante minutos que parecem uma eternidade.
sexta-feira, maio 5
Auto-desprezo
Fala-se de auto-estima por tudo e por nada, tanto a propósito de indivíduos como de nações inteiras. Ora, no estado actual da visão que nós, ocidentais, e em particular europeus, temos do que somos e do caminho que ao longo de séculos nos trouxe ao presente, deveria falar-se muito mais de auto-desprezo. Como ainda nenhuma mitologia académica se ocupou de vulgarizar a palavra, o que ela quer dizer passa mais despercebido. No entanto, auto-desprezo, auto-repugnância, ou o que quisermos, é o que melhor caracteriza a as disposições e atitudes dos ocidentais, em virtude do sucesso de algumas das mais perversas ideologias e utopias que fabricámos.
O auto-desprezo exibe-se frequentemente, por acusações e incriminações, de modo directo e frontal. Noutras ocasiões, utiliza, de modo pretensamente mais subtil, o artifício do relativismo e do politicamente correcto. Assim, quando muitos afirmam que se tem de ser tolerante com as religiões, estão a pensar em todas menos nas de raiz judaica ou cristã; inversamente, se apontam os riscos do fundamentalismo religioso, é aos cristãos fundamentalistas que de facto se referem.
E se a qualidade dos líderes das democracias não é entusiasmante, a violência da crítica interna, impossível nos regimes ditatoriais, corrói as nossas defesas. O auto-desprezo avaria os instintos e confunde os sinais de perigo. Quando se fazem comparações que, na melhor das hipóteses, equiparam governantes ocidentais a tiranos populistas e fanáticos, fica claro que se tomou partido por estes.
O auto-desprezo exibe-se frequentemente, por acusações e incriminações, de modo directo e frontal. Noutras ocasiões, utiliza, de modo pretensamente mais subtil, o artifício do relativismo e do politicamente correcto. Assim, quando muitos afirmam que se tem de ser tolerante com as religiões, estão a pensar em todas menos nas de raiz judaica ou cristã; inversamente, se apontam os riscos do fundamentalismo religioso, é aos cristãos fundamentalistas que de facto se referem.
E se a qualidade dos líderes das democracias não é entusiasmante, a violência da crítica interna, impossível nos regimes ditatoriais, corrói as nossas defesas. O auto-desprezo avaria os instintos e confunde os sinais de perigo. Quando se fazem comparações que, na melhor das hipóteses, equiparam governantes ocidentais a tiranos populistas e fanáticos, fica claro que se tomou partido por estes.
quinta-feira, maio 4
Olho por olho

Por ordem de um tribunal islâmico, um rapaz de 16 anos executa em público, à facada, o assassino do pai. Mais fotos aqui.
terça-feira, maio 2
Português precário
Ontem, nos noticiários de televisão, Carvalho da Silva falou em precariedade e vários jornalistas repetiram a palavra mais de uma vez.
Post scriptum em 3 de Maio: depois de vários reparos, constato que de facto existem as duas grafias: precaridade e precariedade. Só posso concluir que o título do post se referia, sem que eu o soubesse, ao meu português.
Post scriptum em 3 de Maio: depois de vários reparos, constato que de facto existem as duas grafias: precaridade e precariedade. Só posso concluir que o título do post se referia, sem que eu o soubesse, ao meu português.
segunda-feira, maio 1
A boa invasão
George Clooney, cujas tomadas de posição contra a política da administração americana se tornaram bem conhecidas, apela ao envolvimento dos Estados Unidos no Sudão para acabar com o genocídio no Darfur.
Terá o actor reparado nos riscos de lhe levarem a mal as intenções? É que o Sudão é rico em petróleo e gás natural.
Terá o actor reparado nos riscos de lhe levarem a mal as intenções? É que o Sudão é rico em petróleo e gás natural.
sábado, abril 29
Lingerie e quotas para mulheres
O governo da Arábia Saudita aprovou legislação determinando que a venda de roupa íntima feminina seja feita por mulheres. Os estabelecimentos têm dois meses para substituir empregados por empregadas, sob pena de multas ou outras medidas coercivas. Os dirigentes sauditas estão, obviamente, a encetar reformas quase revolucionárias, prudentemente disfarçadas de conservadoras e de respeito pela tradição: trazer as mulheres ao mercado de trabalho é, com certeza, apenas o início.
sexta-feira, abril 28
Áreas de investigação emergentes em aeronáutica
Um workshop científico-religioso que terminou em 25 de Abril passado na Malásia ("O Islão e a Vida no Espaço"), motivado pela participação de um cidadão daquele país predominantemente muçulmano no programa espacial russo, ocupou-se da análise de temas como:
Como é que um astronauta muçulmano rezará 5 vezes por dia quando um dia em órbita são só 90 minutos? Como vai determinar a direcção de Meca numa estação espacial que se move a grande velocidade? Terá que fazer 80 orações em 24 horas?
Um alto reponsável do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que o ritual da oração não pode ser dispensado por um astronauta muçulmano no espaço.
O ritual da genuflexão e prostração na ausência de gravidade coloca igualmente grandes desafios. O mais difícil de resolver parece ser o de realizar abluções. O Corão nota que a água pode ser substituída por cinza, mas também é difícil obter cinza em ambiente de estação espacial.
Foi recordado aos participantes da conferência que a grande civilização muçulmana deu ao ocidente a álgebra, o zero e o sistema de numeração, não se podendo apontar a religião como causa do seu ulterior retrocesso.
Como é que um astronauta muçulmano rezará 5 vezes por dia quando um dia em órbita são só 90 minutos? Como vai determinar a direcção de Meca numa estação espacial que se move a grande velocidade? Terá que fazer 80 orações em 24 horas?
Um alto reponsável do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que o ritual da oração não pode ser dispensado por um astronauta muçulmano no espaço.
O ritual da genuflexão e prostração na ausência de gravidade coloca igualmente grandes desafios. O mais difícil de resolver parece ser o de realizar abluções. O Corão nota que a água pode ser substituída por cinza, mas também é difícil obter cinza em ambiente de estação espacial.
Foi recordado aos participantes da conferência que a grande civilização muçulmana deu ao ocidente a álgebra, o zero e o sistema de numeração, não se podendo apontar a religião como causa do seu ulterior retrocesso.
terça-feira, abril 25
O mal maior
Diante da incerteza na próxima volta das eleições peruanas, Mário Vargas Llosa não tem dúvidas sobre qual é o mal maior e defende a aliança entre Alan Garcia e Lourdes Flores.
Dentro de la confusión contradictoria y delirante de sus amenazas y proyecciones, aquel clan que aboga por fusilamientos masivos -entre ellos de homosexuales-, por leyes de excepción para periodistas, por nacionalizaciones y por la militarización del país, debe ser atajado en la segunda vuelta electoral mediante una gran concentración de todas las fuerzas democráticas, aunque para ello sea preciso vencer escrúpulos, olvidar agravios y votar tapándose la nariz.
Dentro de la confusión contradictoria y delirante de sus amenazas y proyecciones, aquel clan que aboga por fusilamientos masivos -entre ellos de homosexuales-, por leyes de excepción para periodistas, por nacionalizaciones y por la militarización del país, debe ser atajado en la segunda vuelta electoral mediante una gran concentración de todas las fuerzas democráticas, aunque para ello sea preciso vencer escrúpulos, olvidar agravios y votar tapándose la nariz.
domingo, abril 23
Três razões para não bombardear o Irão - por enquanto
Edward N. Luttwak (conselheiro do Center for Strategic and International Studies) expõe as suas razões para desaconselhar um ataque ao Irão.
Luttwak mostra-se convicto de que num futuro não muito distante vai ser possível uma relação amistosa EU-Irão. Com a excepção de uma minoria extremista, os iranianos não são anti-americanos. Largos sectores da imensa juventude do país (65% dos 70 milhões de habitantes estão abaixo dos 25 anos) têm interesse por aspectos da cultura americana. Além disso, os longos anos de opressão religiosa poderão estar a criar o embrião de uma forte rejeição do Islão político a curto prazo.
Por outro lado, bombardear o Irão é precisamente aquilo que os poder ultra-fundamentalista deseja: a guerra pode ser o único meio de recuperar prestígio por parte de uma população hostil aos governantes. Além disso, com uma altíssima e explosiva taxa de desemprego, a guerra poderia até ter o papel de regulador do excesso de população - dizimando, precisamente, as camadas mais jovens e por isso mais perigosas para o regime.
Finalmente, o programa nuclear apregoado pelo Irão começou há três décadas sem que a produção de armamento nuclear tenha sido conseguida. Embora não mereçam crédito as afirmações de que o programa tem fins pacíficos (o Irão tem enormes reservas de gás que poderiam ser usadas para produzir electricidade barata) o facto é que a aventura nuclear iraniana tem assentado em colaborações de eficácia duvidosa, ao mesmo tempo que o país não é suficientemente organizado do ponto de vista técnico para que as coisas corram com a facilidade que os responsáveis iranianos actualmente apregoam. (Até na extracção de petróleo, ou na obtenção de peças para aviões, o país é altamente dependente de contratos com o exterior, como mostram os recentes e graves acidentes aéreos.)
A proclamação de que o Irão já domina a tecnologia nuclear pode, pois, estar a meio caminho entre a farsa e a realidade. Há aqui algumas parecenças com o Iraque de Saddam: hoje critica-se, e bem, a incompetência dos serviços de informações a respeito das famosas "armas de destruição maciça", mas o facto é que o próprio Saddam convenceu o mundo e, ao que parece, alguns dos seus generais, de que elas existiriam.
Claro que, do ponto de vista americano, o Irão com armas nucleares é inaceitável. Se actualmente os dirigentes iranianos já praticam uma enorme agressividade (de que as recentes notícias do recrutamento e treino de milhares de suicidas é apenas um sinal entre muitos), pode maginar-se o que será quando dispuserem do escudo nuclear. Apesar de tudo, atacar o Irão nas condições actuais poderia ter efeitos que rapidamente se virariam contra o atacante.
Entretanto, ontem, no PÚBLICO, Rui Tavares fazia referência pontos de vista mais favoráveis ao ataque e ironizava: os partidários do ataque acham que não se pode permitir a posse de armas nucleares a quem "acredita no regresso do 12º imã e no fim do mundo", devendo esse privilégio estar "reservado a quem acredita no regresso de Cristo e no fim do mundo". Ora, em matéria de crenças, os homens são muito variados. E, muito mais ingénuos do que os dois que são subentendidos na frase, são os que têm a crença que um e outro constituem perigos comparáveis. E também só os ingénuos podem interpretar a comparação como distanciação neutra: ela é uma tomada de partido implícita por Ahmadinejad.
Luttwak mostra-se convicto de que num futuro não muito distante vai ser possível uma relação amistosa EU-Irão. Com a excepção de uma minoria extremista, os iranianos não são anti-americanos. Largos sectores da imensa juventude do país (65% dos 70 milhões de habitantes estão abaixo dos 25 anos) têm interesse por aspectos da cultura americana. Além disso, os longos anos de opressão religiosa poderão estar a criar o embrião de uma forte rejeição do Islão político a curto prazo.
Por outro lado, bombardear o Irão é precisamente aquilo que os poder ultra-fundamentalista deseja: a guerra pode ser o único meio de recuperar prestígio por parte de uma população hostil aos governantes. Além disso, com uma altíssima e explosiva taxa de desemprego, a guerra poderia até ter o papel de regulador do excesso de população - dizimando, precisamente, as camadas mais jovens e por isso mais perigosas para o regime.
Finalmente, o programa nuclear apregoado pelo Irão começou há três décadas sem que a produção de armamento nuclear tenha sido conseguida. Embora não mereçam crédito as afirmações de que o programa tem fins pacíficos (o Irão tem enormes reservas de gás que poderiam ser usadas para produzir electricidade barata) o facto é que a aventura nuclear iraniana tem assentado em colaborações de eficácia duvidosa, ao mesmo tempo que o país não é suficientemente organizado do ponto de vista técnico para que as coisas corram com a facilidade que os responsáveis iranianos actualmente apregoam. (Até na extracção de petróleo, ou na obtenção de peças para aviões, o país é altamente dependente de contratos com o exterior, como mostram os recentes e graves acidentes aéreos.)
A proclamação de que o Irão já domina a tecnologia nuclear pode, pois, estar a meio caminho entre a farsa e a realidade. Há aqui algumas parecenças com o Iraque de Saddam: hoje critica-se, e bem, a incompetência dos serviços de informações a respeito das famosas "armas de destruição maciça", mas o facto é que o próprio Saddam convenceu o mundo e, ao que parece, alguns dos seus generais, de que elas existiriam.
Claro que, do ponto de vista americano, o Irão com armas nucleares é inaceitável. Se actualmente os dirigentes iranianos já praticam uma enorme agressividade (de que as recentes notícias do recrutamento e treino de milhares de suicidas é apenas um sinal entre muitos), pode maginar-se o que será quando dispuserem do escudo nuclear. Apesar de tudo, atacar o Irão nas condições actuais poderia ter efeitos que rapidamente se virariam contra o atacante.
Entretanto, ontem, no PÚBLICO, Rui Tavares fazia referência pontos de vista mais favoráveis ao ataque e ironizava: os partidários do ataque acham que não se pode permitir a posse de armas nucleares a quem "acredita no regresso do 12º imã e no fim do mundo", devendo esse privilégio estar "reservado a quem acredita no regresso de Cristo e no fim do mundo". Ora, em matéria de crenças, os homens são muito variados. E, muito mais ingénuos do que os dois que são subentendidos na frase, são os que têm a crença que um e outro constituem perigos comparáveis. E também só os ingénuos podem interpretar a comparação como distanciação neutra: ela é uma tomada de partido implícita por Ahmadinejad.
sábado, abril 22
A tabuada é hardcore
O manual de educação sexual, destinado a crianças de 6 a 12 anos, editado pelo Ministerio de Educacion y Ciencia, em Espanha, está a suscitar reacções de desagrado.
São considerados inapropriados excertos como:
...hay sexualidad cuando un niño y una niña sienten como su corazón se acelera mientras se besan a escondidas detrás de un árbol, o cuando una niña siente un temblor especial al rozarse con la piel de otra niña.
Un intercambio placentero a través del cuerpo, también a través de sus genitales, donde exista afecto y consideración mutua, está bien.
e relatos de actividades na sala de aula como:
En una clase de segundo de Primaria (6-7 años), los niños quisieron besar a las niñas, y se pusieron a besarlas a lo loco, sin límites, sin saber hasta dónde podían tocar, besar o explorar el cuerpo de ellas. (...) la maestra vio, consintió y un día o días más tarde, «en la asamblea semanal, les dijo: «Sé que ahora estáis jugando a los novios y a las novias, ¿me queréis contar esto? Y se pusieron a hablar porque sintieron un clima de confianza (...)
Lá como cá, podemos constatar que o ponto de vista dos pedagogos no poder é: as crianças só são imaturas para aprender a tabuada, somar fracções, escrever correctamente, e situar no tempo, por meio de datas, alguns factos históricos básicos para compreender o passado e o presente. Para tudo o mais, estão podres de maduras. Acordem-se cedo os sentidos. Ler, escrever, contar e abastecer a memória são violências, tornadas hardcore para adultos.
São considerados inapropriados excertos como:
...hay sexualidad cuando un niño y una niña sienten como su corazón se acelera mientras se besan a escondidas detrás de un árbol, o cuando una niña siente un temblor especial al rozarse con la piel de otra niña.
Un intercambio placentero a través del cuerpo, también a través de sus genitales, donde exista afecto y consideración mutua, está bien.
e relatos de actividades na sala de aula como:
En una clase de segundo de Primaria (6-7 años), los niños quisieron besar a las niñas, y se pusieron a besarlas a lo loco, sin límites, sin saber hasta dónde podían tocar, besar o explorar el cuerpo de ellas. (...) la maestra vio, consintió y un día o días más tarde, «en la asamblea semanal, les dijo: «Sé que ahora estáis jugando a los novios y a las novias, ¿me queréis contar esto? Y se pusieron a hablar porque sintieron un clima de confianza (...)
Lá como cá, podemos constatar que o ponto de vista dos pedagogos no poder é: as crianças só são imaturas para aprender a tabuada, somar fracções, escrever correctamente, e situar no tempo, por meio de datas, alguns factos históricos básicos para compreender o passado e o presente. Para tudo o mais, estão podres de maduras. Acordem-se cedo os sentidos. Ler, escrever, contar e abastecer a memória são violências, tornadas hardcore para adultos.
sexta-feira, abril 21
Com a verdade nos enganas
Tanto dirigentes russos como responsáveis das Nações Unidas têm declarado não haver provas de que o programa nuclear do Irão tenha como finalidade aquirir armamento.
Efectivamente, o Irão tem afirmado, pela boca do seu presidente, que o programa tem fins pacíficos e que o país tem todo o direito de o levar a cabo.
Acontece que Ahmadinajed tem também afirmado, repetidamente, que é necessário riscar Israel do mapa e que Israel irá ser aniquilado por uma tempestade.
Infere-se que os que levam a sério as palavras de Ahmadinajed ou estão de acordo com a aniquilação de Israel, ou utilizam um estranho critério, que valia a pena explicitar, para dar crédito a umas afirmações e desvalorizar outras.
Efectivamente, o Irão tem afirmado, pela boca do seu presidente, que o programa tem fins pacíficos e que o país tem todo o direito de o levar a cabo.
Acontece que Ahmadinajed tem também afirmado, repetidamente, que é necessário riscar Israel do mapa e que Israel irá ser aniquilado por uma tempestade.
Infere-se que os que levam a sério as palavras de Ahmadinajed ou estão de acordo com a aniquilação de Israel, ou utilizam um estranho critério, que valia a pena explicitar, para dar crédito a umas afirmações e desvalorizar outras.
quinta-feira, abril 20
A Europa será muçulmana dentro de uns anos, diz ele
Descubra aqui os laços que se podem estabelecer entre Lionel Ritchie, José Carreras e Mohamar Ghadaffi. Veja porque é que Ghadaffi convida o presidente americano para Meca e porque propõe uma revisão da Bíblia.
domingo, abril 16
Reflexão radical
Duas semanas de trânsito fácil em Lisboa estão a chegar ao fim. A melhor maneira de resolver o problema do tráfego nas grandes cidades seria encerrar as escolas.
Quatro vantagens
A avaliação que Ahmadinejad faz das vantagens de que dispõe sobre os infiéis, segundo Amir Taheri:
O Islão tem quatro vezes mais jovens em idade de lutar do que o Ocidente, com a sua população envelhecida. Centenas de milhões de "combatentes sagrados" anseiam por se tornar mártires, enquanto os jovens infiéis, amantes da vida e tementes da morte, detestam combater. O Islão tem quatro quintos das reservas de petróleo, e por isso controla um recurso vital para os infiéis. Mais importante, os EEUU, única potência infiel ainda capaz de lutar, é odiada por quase todas as outras nações.
(...) A estratégia actual do Irão é, pois, esperar pela saída de Bush. E isso, por "coincidência divina", corresponde ao tempo necessário para o Irão desenvolver o seu arsenal nuclear, acedendo assim à única vantagem de que dispõe o infiel.
O Islão tem quatro vezes mais jovens em idade de lutar do que o Ocidente, com a sua população envelhecida. Centenas de milhões de "combatentes sagrados" anseiam por se tornar mártires, enquanto os jovens infiéis, amantes da vida e tementes da morte, detestam combater. O Islão tem quatro quintos das reservas de petróleo, e por isso controla um recurso vital para os infiéis. Mais importante, os EEUU, única potência infiel ainda capaz de lutar, é odiada por quase todas as outras nações.
(...) A estratégia actual do Irão é, pois, esperar pela saída de Bush. E isso, por "coincidência divina", corresponde ao tempo necessário para o Irão desenvolver o seu arsenal nuclear, acedendo assim à única vantagem de que dispõe o infiel.
Evangelho de Judas (II)
Adam Gopnik no New Yoker:
(...) Apesar de tudo o Evangelho de Judas é uma revelação. Primeiro, porque é útil recordar, num tempo de fundamentalismo renovado, que as religiões não têm, de facto, fundamento: que os textos sem erros e os sagrados inatacáveis de qualquer fé são obra dos homens e do tempo. Qualquer ortodoxia é o instantâneo de um momento. Que o facto de a Igreja há muito ter respostas ao gnosticismo, em todas as suas variantes, não significa que o gnosticismo sempre esteve condenado a ser heresia.
(...) o novo Evangelho enfeitiça - especialmente os livre-pensadores - porque nos recorda a força literária dos Evangelhos canónicos, precisamente por terem realizado a fusão do celeste com o lugar comum. (...) como editores, os pais da Igreja primitiva fizeram um trabalho notável ao seleccionar as histórias fortes e ao rejeitar as mais estranhas. O canon ortodoxo dá-nos um Cristo convincente como personagem de uma maneira que o (Cristo) Gnóstico não o é: irado e impaciente e eticamente comprometido (...) brilhantemente concreto nas suas parábolas e humano na sua dor. Quer se acredite (...)que este homem viveu, ensinou e morreu, ou, com S. Paulo, que ele viveu e morreu e ressuscitou, é difícil não o preferir ao Jesus do novo Evangelho, com os seus risos teatrais e (...) mensagens cifradas. Tornar Judas mais humano diminui a humanidade em Jesus, que surge menos como um homem com um horrível fardo divino do que como mais um sabe-tudo com auréola. Como verdade ou metáfora, ficamos com o velho conto.
(...) Apesar de tudo o Evangelho de Judas é uma revelação. Primeiro, porque é útil recordar, num tempo de fundamentalismo renovado, que as religiões não têm, de facto, fundamento: que os textos sem erros e os sagrados inatacáveis de qualquer fé são obra dos homens e do tempo. Qualquer ortodoxia é o instantâneo de um momento. Que o facto de a Igreja há muito ter respostas ao gnosticismo, em todas as suas variantes, não significa que o gnosticismo sempre esteve condenado a ser heresia.
(...) o novo Evangelho enfeitiça - especialmente os livre-pensadores - porque nos recorda a força literária dos Evangelhos canónicos, precisamente por terem realizado a fusão do celeste com o lugar comum. (...) como editores, os pais da Igreja primitiva fizeram um trabalho notável ao seleccionar as histórias fortes e ao rejeitar as mais estranhas. O canon ortodoxo dá-nos um Cristo convincente como personagem de uma maneira que o (Cristo) Gnóstico não o é: irado e impaciente e eticamente comprometido (...) brilhantemente concreto nas suas parábolas e humano na sua dor. Quer se acredite (...)que este homem viveu, ensinou e morreu, ou, com S. Paulo, que ele viveu e morreu e ressuscitou, é difícil não o preferir ao Jesus do novo Evangelho, com os seus risos teatrais e (...) mensagens cifradas. Tornar Judas mais humano diminui a humanidade em Jesus, que surge menos como um homem com um horrível fardo divino do que como mais um sabe-tudo com auréola. Como verdade ou metáfora, ficamos com o velho conto.
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