sexta-feira, agosto 18

Os Rolling Stones têm finalmente os espectadores adequados

Ao contrário do que se passa por cá, os próximos concertos do grupo de velhotes de Mick Jagger, anunciados no Reino Unido, não estão a vender como se esperava, nem mesmo na internet. O caso é tão grave que as agências especializadas em eventos para a 3ª (ou maior) idade estão a aproveitar a situação para vender ao público pensionista bilhetes a metade do preço. Considerando que a soma das idades do grupo é 249 anos, este é o público certo no lugar certo.

A publicidade clama: 'See Gods of rock for yourself - The Rolling Stones return to rock in the UK live.' Live? Hummm... se não se despacham, Stones e espectadores, duvido.

terça-feira, agosto 15

Deve haver engano



(foto: http://isna.ir/Main/PicView.aspx?Pic=Pic-771739-1&Lang=P)

A polícia anda a recolher parabólicas nos telhados de Teerão. A ordem deve ter vindo de um incompetente mal informado. Que importância terão um ou dois canais pouco amigos do regime ao lado de uma multidão de outros em que as notícias e pontos de vista sobre a guerra mereceriam a aprovação regozijada de Ahmadinejad? No lugar do presidente eu até encorajava o consumo obrigatório de um bom número de telejornais ocidentais, para que os atrevidos com impulsos dissidentes percebessem que o mundo os ignora e despreza.

domingo, agosto 13

sábado, agosto 5

A ideologia de sucesso

Apesar de todo o avanço tecnológico e das contribuições do mundo ocidental para o bem estar de faixas de população cada vez mais alargadas, as ideologias que diabolizam e rejeitam os valores em que assentou o progresso triunfaram, ao ponto de tornarem as grandes massas de cidadãos incapazes de olhar o mundo sem a muleta daquelas lentes distorcidas e perversas. Foi, de resto, o nosso mundo, e particularmente a Europa - o mesmo mundo a que devemos boa parte do sucesso tecnológico e social - que incubou o pesadelo do comunismo e que alimentou durante séculos o ódio aos judeus.

A derrota do comunismo não aconteceu a nível das ideias. Os órfãos da doutrina rapidamente se reciclaram, integrando-a como lapa numa abundância de disciplinas a que o mundo universitário conferiu respeitabilidade. As circunstâncias políticas, num mundo imbuído de generosidade pouco reflectida por se julgar livre de ameaças, contribuiram para a difusão da velha ideologia travestida, servida agora sob a forma de catecismo de todos os bons comportamentos e todas as tolerâncias (não por acaso, nunca aplicáveis na prática aos judeus) que até são servidas em versão infantil nos currículos escolares. Liberto dos aspectos mais enfadonhos e assustadores exigidos pela militância nos partidos marxistas, este comunismo suave e requentado teve um sucesso muito maior, a nível da aceitação pelas massas, do que o original. Ele acabou por se transformar na matriz de pensamento de grande parte da respeitada intelectualidade ocidental e, por arrastamento, das largas massas que por natureza utilizam o pronto a pensar como utilizam o pronto a vestir ou a comer. Como subproduto de relevo, o ódio à América - o ex-imperialismo por excelência - nunca deixou o terreno.

Outro instrumento de sucesso veio potenciar a difusão da ideologia fácil e sedutora: a televisão. Sendo o meio de transmissão de informação mais omnipresente, favorecendo mais o consumo da emoção do que da análise, e habitada em grande parte por comentadores e jornalistas que foram estudantes aplicados do catecismo das novas crenças, executa no dia a dia uma doutrinação declarada ou subreptícia.

Entretanto, à soleira da nossa porta, um inimigo espreita. O tempo está-lhe de feição. Encarnado em Ahmadinejad ou Nasrallah, basta-lhe ser apenas ligeiramente mais inteligente do que a maioria de nós para perceber que pode pisar todos os riscos porque nós não estamos do nosso lado, mas sim do dele. Ele disfruta de uma vantagem absolutamente nova: a inconsciência de um mundo tão anestesiado que não identifica o seu agressor, mesmo quando este confessa abertamente os fins. Na guerra em curso, ele tira partido dessa disposição suicidária. Sabe que, do lado de cá, não se percebe bem o que está em jogo, ou então finge-se não perceber. E a guerra passa muito pela televisão: ao mostrar a exibição de baixas causadas por Israel, a tv fá-lo com a mesma ingenuidade e candura com que passa "manifestações" encenadas por governos de países onde não há liberdade de ter uma parabólica, quanto mais de manifestação. A tv do lado de cá está ao serviço do lado de lá.

A atitude dos meios de informação, com as tvs à frente, também terá a ver com a facilidade, o comodismo e o medo, numa Europa em que a população islâmica atingiu já níveis muito importantes. Apesar das tomadas de posição anti-ocidentais de muita gente bem pensante, até os idiotas úteis não ignoram que criticar Israel ou o Papa é de borla, mas ofender dirigentes muçulmanos extremistas ou fazer humor com o chamado profeta é estar pedir churrasco em casa.

Post scriptum: Se for conveniente até se retocam as imagens, a fim de tornar mais glamorosa a destruição operada pelas forças de Israel. É o caso desta foto publicada pela Reuters, cuja desmontagem se pode ver aqui.

Também nos últimos dias se acumulam as notícias de que a guerra está a provocar união de sunitas e xiitas. Mas ainda há pouco um influente religioso egípcio lançou uma fatwa sobre o Hezebollah. E o que continuamos a ver no dia a dia do Iraque mostra que se trata possivelmente mais de desejos do que de notícias.

segunda-feira, julho 31

No tempo dos milagres


(Jan Vermeyen, 1530)

E quando o mestre da cerimónia provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha(...) chamou o noivo e disse-lhe, toda a gente serve o bom vinho em primeiro lugar (...) mas tu guardaste-o para o fim.

Pouca sorte ser civil no Líbano


Enquanto os media debitam uma versão mais do que esperada sobre a violência da guerra, o drama de certas áreas residenciais no Líbano, documentado nesta e noutras fotos, parece estar a ser completamente ignorado.

É interessante também que os adeptos das teorias de conspiração fiquem sossegados com um material tão promissor à mão: parece que houve um intervalo de sete horas enre o ataque aéreo ao edifício de Qana e o colapso, e também que só passado esse tempo chegaram as ambulâncias e os socorros. Antes disso, sem derrocada e sem câmaras prontas no terreno, parece que a operação não valia a pena...

segunda-feira, julho 24

A reabilitação da carta

O presidente do Irão não pára. Depois de Angela, agora é Jacques que tem correio.

De olhos bem fechados...

...pensam eles que está quem os lê. Os abaixo assinantes contra a operação militar israelita dão as suas razões pela voz de Eduardo Lourenço: preocupa-os não se saber onde é que as coisas irão parar. O que não dizem é que, na ausência da acção militar, sabe-se muito bem onde é que as coisas iriam parar. Curioso observar na turma antifascista-laica-progressista a atracção sistemática pelo pior dos fascismos, associado a uma ideologia medieval retrógrada disfarçada de religião. Mistérios da vida animal.

sábado, julho 22

A paz é uma palavra bonita

A terrível realidade é, no entanto, muito mais complexa. Quando se clama pelo cessar fogo, supõe-se que ele deverá resultar de um acordo entre duas partes tais que cada uma acredita no que a outra afirma como compromisso. Na actual guerra do Líbano, uma das partes será Israel. Mas qual será a outra? O governo libanês? O Hezebollah? O primeiro já se viu que não controla o segundo e este é um interlocutor inaceitável e marioneta do Irão.

Também é duvidoso que as Nações Unidas possam ser um mediador fiável. Em 2000, membros do Hezebollah raptaram e assassinaram três soldados israelitas, aparentemente com a passividade colaborante daquela organização. A autoridade moral da UN parece frágil quando há memória.

quarta-feira, julho 19

Há um ano, no Irão



Mahmoud Asgari e Ayaz Marhoni, Mashad, Irão, 19 de Julho de 2005

terça-feira, julho 18

Agora a sério

O que se passa com os exames nacionais, particularmente com os infelizmente notórios de Química e Física, é sintoma nítido de que o ministério da educação é incapaz de controlar a máquina defeituosa que pôs em movimento. Fala-se de perguntas que não avaliam nada que tenha a ver com os programas e até de algumas a que os próprios professores são incapazes de responder. Situações igualmente caricatas, embora de menor gravidade, têm atingido exames de outras disciplinas.

Os exames reflectem e procuram respeitar, tanto quanto me apercebo, os programas e as suas indicações metodológicas. Para os menos informados, que julgo constituirem a maioria da população, as ditas são consideradas, pela ortodoxia instalada (associações de professores incluídas), essenciais e indissociáveis dos conteúdos programáticos. Sucede que as indicações costumam incluir o catecismo da didáctica politicamente correcta, onde têm lugar elucubrações, transformadas em lei, das mentes tresloucadas de cientistas da educação, nacionais e estrangeiros. Quem consultar o programa oficial de uma disciplina encontra mais facilmente este rosário de loucuras do que a matéria que se espera que seja ensinada. As indicações costumam ter reflexos bem visíveis no modo como certas questões são formuladas em exames. Tenho razões para crer que o problema agora exposto à luz do dia é bem anterior ao fabrico dos exames, embora as comissões que elaboram as provas tenham uma parte importante de responsabilidade no desastre.

Não conheço o caso concreto da Química e da Física, mas conheço em detalhe o da Matemática. Considero as indicações metodológicas que embrulham os programas inadequadas e pedagogicamente nocivas. Por acaso (ou por muita ponderação e habilidade de quem tem feito as provas) não tiveram, até agora, reflexos gravosos nos exames nacionais. Mas num sistema tão infectado pela falta de bom senso, o desastre espreita a cada momento. Uma pequena variação na composição de uma comissão ou um momento de cansaço e distracção podem ser fatais ao nível dos resultados. Por agora, a borboleta bateu as asas lá para os lados da Química e da Física. Irá o caos ficar por aqui?

Incrível!

Por mero acaso, descobriu-se que Bush pensa que o Hezebollah anda a fazer merda. O mundo ficou surpreendido e chocado. Com razão. Se Bush tivesse dito que a comissão de exames do ensino secundário e o ministério da educação português andam a fazer merda, até eu poderia estar de acordo. Merda é uma palavra pouco apropriada para descrever rapto de soldados, envio de bombistas mártires para matar civis e disparo de mísseis iranianos sobre cidades de Israel. Para mim, Bush sabia perfeitamente que o microfone estava "on" e quis mostrar ao mundo que é moderado e adepto da solução diplomática.

terça-feira, julho 11

Sobras do mundial



1. Que disse Materazzi a Zidane? Chamou-lhe porco terrorista? Chamou puta à irmã? Esta é a questão. O próprio nega tudo e ironiza: nem conhece o significado de "terrorista" ou "islâmico". Sobre "puta" nada disse. A SOS Racismo já encontrou terreno para surfar e vai querer que a FIFA faça qualquer coisa para desagravar a ofensa desconhecida. Surdos experimentados em leitura de lábios já foram mobilizados para decifrar o enigma.

2. Isenção de IRS por um ganhar um lugar que não existe não é nada disso que já muita gente está por aí a pensar: é ilusionismo. Há de facto mais qualquer coisa para alem do futebol.

3. Esta manhã o sociólogo Boaventura S. Santos dava na TSF a sua opinião sobre o que nos poderia mobilizar nesta fase de entusiasmo. E apontou duas ou três coisas de que ainda ninguém se tinha lembrado, o que só por si é indício de que o investimento no Laboratório Associado do senhor está mais do que recuperado. A primeira coisa era mobilizarmo-nos para uma educação de qualidade. A segunda era valorizar a ciência. A terceira tinha a ver com a justiça. Depois vieram outras coisas várias e nem sequer o abominável preço dos vinhos nos restaurantes foi esquecido como exemplo dos caminhos que não devemos seguir. Mas que bem lembrado! Obrigado, BSS, espero que não tenha estado só eu a escutar.

segunda-feira, julho 10

Ensaio sobre uma teoria de conspiração

Concluiu-se, com menos alarido que previsto, a visita do Papa a Espanha. Claro que houve fortes sublinhados sobre o papel da família baseada na união de um homem e uma mulher, mas nada de condenações explícitas nem censuras nítidas aos dirigentes políticos. As palavras de Bento XVI, de que os anátemas estiveram ausentes, terão sido até menos incisivas que algumas declarações do porta voz dos lusobispos no que toca aos temas fissurantes (estou farto da outra palavra) que sabemos.

Uns minutinhos de reflexão são suficientes para concluir que o Papa não se deu à maçada de ir a Espanha para pregar contra o casamento unisexo e as uniões de facto. Essas formas de acasalamento com reconhecimento recente têm evidentemente uma grande importância simbólica, mas são apenas mais um elemento de desvio das sociedades ocidentais em relação aos padrões de comportamento que a Igreja Católica gostaria de ver respeitados. Como cada um já vive praticamente como quer (ou pode), pondo o bem estar material (onde o sexual se inclui), e o gozo dos mil e um brinquedos à disposição, à frente do fardo biológico de criar e educar meninos, a indiferença às normas da doutrina já está mais que enraizada. Não há nada a fazer, e uma pessoa bem educada e reflectida como Bento XVI sabe-o muito bem.

Mas então, se não foi a Espanha para proferir palavras duras ou para guerrear com Zapatero, qual é o alcance da viagem? Poderá dizer-se que seria o de dar algum alento às hostes de fieis em declínio. Pouco alento, já que parece que eles esperavam mais.

Eu tenho uma teoria: o Papa foi na verdade lançar um aviso aos praticantes do casamento unisexo e da união de facto, sim, mas procurando zelar pela sobrevivência dos interessados. Observador atento do espectro que ameaça a Europa, Bento sabe que empurrar as pessoas para as novas formas de compromisso registadas em papel é oferecer uma mão cheia de alvos para a prática da degolação a um prazo não muito distante. Não é preciso esperar pela adopção da sharia nos nossos sistemas penais: basta que, por força da demografia e das contínuas cedências, as administrações das cidades europeias fiquem parcialmente nas mãos de islâmicos moderados, que se verão obrigados a aplacar o tédio das milícias de serviço fornecendo-lhes listas de pecadores. Gente ansiosa de nos ensinar a virtude segundo o Corão não faltará, e os métodos serão bem mais persuasivos que os do Papa.

Claro que este enorme risco não ocupa a cabeça dos porta-bandeiras profissionais, interessados apenas em marcar terreno e angariar uns votos nas franjas bem pensantes e distraídas. São eles os que se ajoelham perante exigências crescentes de dirigentes religiosos fanáticos e que fazem cara de indignados quando as críticas atingem o islão.

Comparados com os tempos de horror que hão-de vir, a homofobia das bandas pop jamaicanas, que apenas por palavras reclama o afogamento dos depravados, há-de deixar saudades. Entretanto, os idiotas úteis vão-se deleitando, para já, com a anunciada revolução nos costumes sexuais em Cuba, liderada por Mariela Castro, funcionária-sobrinha do dinossauro. O entusiasmo com o engodo de maior compreensão da homossexualidade, num país onde não há liberdade para escrever um blog, só pode ser sintoma de cegueira ou idiotia.

sexta-feira, julho 7

A barbaridade de que não se fala muito

A próxima terça feira é o dia mundial de protesto contra a morte por apedrejamento. Só no Irão, seis mulheres aguardam em prisões a execução da sentença.