terça-feira, julho 11

Sobras do mundial



1. Que disse Materazzi a Zidane? Chamou-lhe porco terrorista? Chamou puta à irmã? Esta é a questão. O próprio nega tudo e ironiza: nem conhece o significado de "terrorista" ou "islâmico". Sobre "puta" nada disse. A SOS Racismo já encontrou terreno para surfar e vai querer que a FIFA faça qualquer coisa para desagravar a ofensa desconhecida. Surdos experimentados em leitura de lábios já foram mobilizados para decifrar o enigma.

2. Isenção de IRS por um ganhar um lugar que não existe não é nada disso que já muita gente está por aí a pensar: é ilusionismo. Há de facto mais qualquer coisa para alem do futebol.

3. Esta manhã o sociólogo Boaventura S. Santos dava na TSF a sua opinião sobre o que nos poderia mobilizar nesta fase de entusiasmo. E apontou duas ou três coisas de que ainda ninguém se tinha lembrado, o que só por si é indício de que o investimento no Laboratório Associado do senhor está mais do que recuperado. A primeira coisa era mobilizarmo-nos para uma educação de qualidade. A segunda era valorizar a ciência. A terceira tinha a ver com a justiça. Depois vieram outras coisas várias e nem sequer o abominável preço dos vinhos nos restaurantes foi esquecido como exemplo dos caminhos que não devemos seguir. Mas que bem lembrado! Obrigado, BSS, espero que não tenha estado só eu a escutar.

segunda-feira, julho 10

Ensaio sobre uma teoria de conspiração

Concluiu-se, com menos alarido que previsto, a visita do Papa a Espanha. Claro que houve fortes sublinhados sobre o papel da família baseada na união de um homem e uma mulher, mas nada de condenações explícitas nem censuras nítidas aos dirigentes políticos. As palavras de Bento XVI, de que os anátemas estiveram ausentes, terão sido até menos incisivas que algumas declarações do porta voz dos lusobispos no que toca aos temas fissurantes (estou farto da outra palavra) que sabemos.

Uns minutinhos de reflexão são suficientes para concluir que o Papa não se deu à maçada de ir a Espanha para pregar contra o casamento unisexo e as uniões de facto. Essas formas de acasalamento com reconhecimento recente têm evidentemente uma grande importância simbólica, mas são apenas mais um elemento de desvio das sociedades ocidentais em relação aos padrões de comportamento que a Igreja Católica gostaria de ver respeitados. Como cada um já vive praticamente como quer (ou pode), pondo o bem estar material (onde o sexual se inclui), e o gozo dos mil e um brinquedos à disposição, à frente do fardo biológico de criar e educar meninos, a indiferença às normas da doutrina já está mais que enraizada. Não há nada a fazer, e uma pessoa bem educada e reflectida como Bento XVI sabe-o muito bem.

Mas então, se não foi a Espanha para proferir palavras duras ou para guerrear com Zapatero, qual é o alcance da viagem? Poderá dizer-se que seria o de dar algum alento às hostes de fieis em declínio. Pouco alento, já que parece que eles esperavam mais.

Eu tenho uma teoria: o Papa foi na verdade lançar um aviso aos praticantes do casamento unisexo e da união de facto, sim, mas procurando zelar pela sobrevivência dos interessados. Observador atento do espectro que ameaça a Europa, Bento sabe que empurrar as pessoas para as novas formas de compromisso registadas em papel é oferecer uma mão cheia de alvos para a prática da degolação a um prazo não muito distante. Não é preciso esperar pela adopção da sharia nos nossos sistemas penais: basta que, por força da demografia e das contínuas cedências, as administrações das cidades europeias fiquem parcialmente nas mãos de islâmicos moderados, que se verão obrigados a aplacar o tédio das milícias de serviço fornecendo-lhes listas de pecadores. Gente ansiosa de nos ensinar a virtude segundo o Corão não faltará, e os métodos serão bem mais persuasivos que os do Papa.

Claro que este enorme risco não ocupa a cabeça dos porta-bandeiras profissionais, interessados apenas em marcar terreno e angariar uns votos nas franjas bem pensantes e distraídas. São eles os que se ajoelham perante exigências crescentes de dirigentes religiosos fanáticos e que fazem cara de indignados quando as críticas atingem o islão.

Comparados com os tempos de horror que hão-de vir, a homofobia das bandas pop jamaicanas, que apenas por palavras reclama o afogamento dos depravados, há-de deixar saudades. Entretanto, os idiotas úteis vão-se deleitando, para já, com a anunciada revolução nos costumes sexuais em Cuba, liderada por Mariela Castro, funcionária-sobrinha do dinossauro. O entusiasmo com o engodo de maior compreensão da homossexualidade, num país onde não há liberdade para escrever um blog, só pode ser sintoma de cegueira ou idiotia.

sexta-feira, julho 7

A barbaridade de que não se fala muito

A próxima terça feira é o dia mundial de protesto contra a morte por apedrejamento. Só no Irão, seis mulheres aguardam em prisões a execução da sentença.

quarta-feira, julho 5

O homem que morreu duas vezes

Parece ser o caso do pai de Ahmadinejad.

Vá lá, não vou deixar passar o dia sem falar de futebol

1. Há bocado a SIC passou, cheia de gozo, declarações de um jogador da selecção francesa mostrando que não distingue o Scolari de um jogador e exibindo igual desconhecimento sobre a equipa que daqui a umas horas vai reduzir a pó quem canta de galo. Não devem ter percebido que a pretensa ignorância é fingida e tem raizes no desprezo pelo adversário. Ou então o declarante é um leitor compulsivo de Pacheco Pereira (de quem a SIC não terá lata para rir).

2. O mundial não vem bafejar de optimismo apenas o homem da rua. Tambem o Movimento já não sei de quê, no impasse desde a derrota de Alegre por falta de assunto, encontrou o seu leit-motiv. Escreve hoje no PÚBLICO o poeta que Portugal tem nas mãos a missão de patrono dos pequenos, dos desditosos na mó de baixo (palavras do New York Times!) Por todos os oprimidos, periféricos, esquecidos, contra os grandes e dominadores, onde hoje se inclui a França, avante portugueses, por todos os deserdados do mundo! exorta Manuel. Assinale-se que o texto contém a importante descoberta da parte sã dos Estados Unidos: a minoria que fez do futebol uma forma de resistência aos gostos dominantes. Aguarda-se para ver em que categoria de militante se vai enquadrar Scolari no Movimento. O pior é que o pacote vai ter de incluir Nossa Senhora.

3. Recebi um sms de número desconhecido com um texto sobre a façanha que vamos concretizar à noite. Como nas mensagens de oração, pedem-me que envie aos amigos e não corte a corrente. Estou na dúvida se a ideia se deve à volúpia do lucro das sinistras operadoras de telecomunicações ou à candura e sentido de missão dos apoiantes do Movimento. Seja como for, se acabar por não obedecer, é por falta de tempo.

O mistério público

O Ministério Público ocupa tempo e recursos da polícia e encarniça-se para produzir prova e levar à condenação um grupo de mulheres que fizeram aborto e o médico que as assistiu.
O Ministério Público acredita (neologismo em voga na comunicação social) que um bando de miúdos empurrou uma pessoa, debilitada por agressões e torturas que os próprios lhe infligiram, para um poço profundo, sem intenção de matar.
Expliquem-me como se fosse possível compreender.

Falta-nos pelo menos um ecran gigante

O SuperHomem regressa, mas teremos de nos deslocar a Oviedo ou a Málaga para o ver em 3D. Parece que vale a pena.

sexta-feira, junho 30

Conversa de futebol

Está na ordem do dia falar de futebol ou queixarmo-nos do excesso com que dele se fala. Vasco Pulido Valente volta ao assunto hoje no PÚBLICO, confessando uma mistura de indiferença e fascínio pelo ambiente criado à volta do Mundial.

A conversa de futebol não é, claro está, interessante em si. Não envolve argumentos, mas sim desejos, declarações de fé e "prognósticos". A controvérsia fica, por regra, bem ao nível do balneário. O estado do músculo x do jogador Y ou uma contagem de cartões são as notícias mais excitantes.

Mas é uma ilusão pensar que a conversa que a rádio e a tv nos dão, habitualmente, é melhor do que isto. Deixemos de lado as inúmeras rádios-todas-iguais-às-outras que encharcam o FM com conversas matinais bem piores que o futebolês: a linguagem e os temas são os da pura e simples idiotês. O pior é que as conversas (matinais e não matinais) na Antena 2 não são nada melhores, ao contrário do que se poderia esperar. Os programas da manhã, os da Judite Lima e o ritornello, mais um ou dois de que não recordo o nome, destacam-se pela conversa que oscila entre o tonto e o que interessa só a um grupo restrito de amigos. Os funcionários e as funcionárias proferem banalidades sobre banalidades num dialecto ao pé do qual os diálogos dos morangos com açúcar fazem lembrar a Agustina. Além disso, elas entrevistam-se umas às outras e trazem à conversa muitos amigos, sempre maravilhosos e com um gosto musical óptimo. Por exemplo: parece que uma das funcionárias, Daniela Qualquer Coisa, entrevistou Catherine Deneuve; hoje de manhã as outras funcionárias entrevistaram-na ao telefone perguntando sobre a excitante experiência. A Daniela explicou que tinha ficado maravilhada com a militância de Deneuve contra a tortura, a pena de morte e a defesa do ambiente. Que Deneuve era uma senhora e isto e aquilo. Tudo polvilhado de elogios mútuos q.b.. Francamente! Pior do que isto só o Madail ou o major. Na rádio pretensamente "cultural" exibe-se diariamente uma cultura superficial que é mistura do reader's digest com o foyer do S. Carlos. Felizmente, a música que transmitem não é fabricada na casa. Não há pachorra para o culturês (ainda por cima pc).

quinta-feira, junho 29

Sucesso


O êxito mais notável dos sindicatos de serviços públicos está, fora de dúvida, no facto de o cidadão comum, que indirectamente financia os salários, ter interiorizado a justeza de acções que lhe causam um pesado transtorno, com paciência ilimitada, ao mesmo tempo que interpreta o protesto como estando dirigido a uma entidade abstracta.

quarta-feira, junho 28

Injustiças

O grande clamor em torno do tratamento dos prisioneiros de Guatanamo, e dos raptos e transporte de suspeitos de terrorismo por esse mundo fora, tornou-se banalidade. Não há nada de tão insistente e sistemático, nos meios de comunicação com força para gritar alto, sobre as práticas bárbaras das polícias e as penas degradantes na execução da justiça em certos países islâmicos.

O famoso terrorista "Carlos, o Chacal", raptado por agentes franceses no Sudão em 94, condenado e preso em França desde 1997, vem juntar-se ao clamor, processando as autoridades francesas pelo rapto efectuado fora da lei e fazendo queixas severas sobre o seu regime prisional, que caracteriza por períodos de isolamento extremo, assédio frequente e privação do sono. Comparando o seu caso com o dos suspeitos raptados e deslocados em aviões da CIA, "Carlos" quer justiça. Fica no ar, implícito, que os franceses são pelo menos tão desrespeitadores de direitos humanos, no tratamento de prisioneiros, como os americanos. Lá no fundo talvez "Carlos" tenha uma secreta preferência por Guantanamo.

Elas têm ciúmes

Nem todas querem mais futebol.

terça-feira, junho 27

A Caixa

Com imenso desvelo, somos presenteados com uma caixa de correio electrónico gratuito! Finalmente alguém faz alguma coisa por nós. Estávamos fartos das mensalidades exorbitantes do hotmail, do yahoo, do clix e do sapo: um verdadeiro assalto. Nem sei como é que o pobre orçamento familiar aguentava o luxo de ter 4 ou 5 endereços de email, pagos a peso de ouro. Só de facto num país onde se vive claramente acima das posses. Agora espera-se ansiosamente o passo seguinte: o governo vai anunciar, mais dia menos dia, um "mensageiro" gratuito para todos os portugueses (coisa inimaginável até hoje, mas a partir de agora o céu é o limite, como disse o outro a respeito de outra coisa)! Será com certeza um mensageiro seguríssimo, acessível - tal como o e-mail - em telemóvel e também na nova geração de frigoríficos inteligentes, que permitirá ao cidadão manter agradáveis chats com os funcionários e funcionárias da edp, epal, finanças, psp, ctt e até provavelmente da loja do cidadão e de ministérios. Tudo isto sem necessitar de ter computador, bastando upgradar o telemóvel ou o equipamento de cozinha.

Mas nem tudo é perfeito: à nova Caixa ou ao futuro Chat vai faltar o picante a que estávamos habituados no hotmail ou no yahoo. Um correio só para despachar assuntos burocráticos e pagar facturas fica triste demais. Ora, se os cidadãos e as cidadãs levarem para lá todos os amigos e amigas, todos os e todas as ex e futuro(a)s amantes, todos aqueles e aquelas com quem trocam anedotas e fotos de gajas ou gajos, não vai haver largueza de banda que aguente. A solução terá de passar por manter uma ou duas das nossas antigas caixinhas, mesmo pagando aquelas quantias incomportáveis. O tecnochoque deve estar a preparar milhões de correspondentes e interlocutores virtuais para animar o novo correio. Preparemo-nos: do e-boletim da autarquia até ao anúncio das fabulosas riquezas que ganharemos em certificados de aforro, passando pela abertura de mais um xizão para reciclagem, vamos ter muito que ler.

Um Marlboro desalcatroado, por favor

Se as tabaqueiras estiverem atentas aos nichos de mercado com grande potencial, e ao vertiginoso progresso científico dos nossos dias, iremos ter em breve os cigarros com nicotina pura, desalcatroados. Quem sabe até se o novo produto não virá a ser classificado como especialidade farmacêutica (onde, a propósito, o vinho tinto já deveria ter sido incluído). Os cidadãos livres têm o direito a escolher entre o cancro de pulmão, o enfarte de miocárdio e a doença de Alzheimer.

segunda-feira, junho 26

Finalmente o divórcio gay torna-se possível

Chega ao fim o casamento de X e Y, menos de um ano depois de a nova lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo entrar em vigor em Espanha. X, alegando que a dedicação a Y o impediu de se realizar profissionalmente, exige o usufruto do lar durante 15 anos, a tutela dos cães do casal e uma pensão mensal de 7000 euros.

À atenção da JS e do BE: por cá ainda vamos a tempo de tornar obrigatório um seguro no acto de casamento. Afinal, casar deverá ser encarado pelo menos tão seriamente como comprar um automóvel. Ou não?

domingo, junho 25

Notícias da universidade

Steven E. Jones, professor de Física na Universidade Brigham Young (Utah), membro da Igreja de Cristo dos Últimos Dias e, segundo algumas fontes, admirador de Bush até há pouco tempo, juntou-se à brigada da Teoria da Conspiração ao publicar um artigo em que defende que, no 11 de setembro, as torres do WTC caíram por implosão, devido a explosivos. Os aviões teriam sido uma camuflagem para desviar atenções. No início deste mês participou, em Chicago, numa conferência transformada em comício contra as forças sinistras que pretendem apoderar-se dos EEUU.

Os especialistas não estão de acordo com as teses defendidas por Jones, mas no âmbito da Resistência de Materiais há liberdade de expressão suficiente para que ninguém seja perseguido pela sua visão dos factos. Já o mesmo não se pode dizer de matérias como os direitos que devem, ou não, ser concedidos aos homossexuais. Jeffrey Nielsen, professor de Filosofia na mesma Universidade Brigham Young, e membro da mesma Igreja, acaba de ser despedido por ter tornado pública uma opinião favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo, contrariando uma posição da universidade em apoio da emenda à constituição (destinada a impedir aquela forma de união de pessoas) que foi rejeitada no passado dia 7 pelo Senado americano.

terça-feira, junho 20

Os direitos das mulheres estão imparáveis

Só alguém com má vontade pode dizer que os governos de inspiração socialista têm desprezo pelos aspectos religiosos da vida em sociedade. O ministério do interior aqui do lado anuncia que passa a poder ser utilizada, no novo bilhete de identidade electrónico, fotografia de rosto com véu, nos casos em que sejam invocadas práticas, crenças, e pertença a ordens religiosas. As freiras de toda a Espanha agradecem, pois foi obviamente a pensar nelas que a revolucionária medida viu a luz.

segunda-feira, junho 19

Gaivota 2006

Não é a ampliação de uma linha de metro. É o nome da operação da PSP montada para proceder hoje à distribuição dos enunciados de exame. Poderíamos pensar que finalmente se percebe para que temos polícia, mas ao ler esta notícia e os respectivos comentários, logo nos apercebemos de que a estratégia é errada e o alvo falhado: a bem da igualdade de oportunidades, faria mais sentido pôr os tais milhares de polícias a vigiar os alunos nas salas de exame.

Neto radical

Hossein Khomeini, neto do famoso ayatollah, em entrevista à Al-Arabiya, critica o regime de Teerão e apela à invasão pelos Estados Unidos. Diz que todos os caminhos são bons para chegar à democracia. Não deixa de ser extraordinário. Quanto tempo demorará até que o regime o silencie?