Decorridos cinco meses sobre a fuga de Sofia, sentia-me na corda bamba. Já não era a ausência dela que me atormentava, mas a indefinição e vagueza dos meus próprios sentimentos. Tinha-me apercebido de que já não sofria desde aquela manhã que a empregada, a D. Adília, dedicara a uma limpeza mais profunda: aspirou o ralo da banheira com o desentupidor, atirou restos do cabelo alourado de Sofia pelo cano abaixo e eu, que ainda estava em casa e presenciei a cena, não senti nada.
A Rita tinha-me salvo de um naufrágio mais completo, mas não poderia mentir a mim próprio convencendo-me de que quereria estar com ela a longo prazo. A Matilde caiu como lava sobre gelo. O fim de semana no Norte tinha sido perfeito e, se não sou demasiado ingénuo a avaliar as mulheres, convenci-me de que para ela tinha sido tão agradável como para mim. No entanto, quando lhe sugeri timidamente um convite para vir a Lisboa, ela enredou e desviou o assunto. Seguiram-se ambíguos sinais de esfriamento. Quando na segunda à noite lhe liguei, antes de sair do escritório, fui parar à caixa de correio. Diabos, pensei, lá em casa com a Rita não posso telefonar, a não ser que lhe conte tudo, mas neste momento nem tenho a certeza do que é tudo. Tentei passados dez minutos e apareceu o timbre doce e firme: Olá!
-Olá, amor, já tinha tentado há bocado, onde estavas?
-Tinha ficado sem bateria. Agora já carreguei
-Tinha tantas saudades de te ouvir. Já pensaste no que te disse?
-Disseste-me tanta coisa, não sei se já pensei em tudo
-Parece que estás a falar a medo, os teus pais estão aí perto?
-Não, devem estar a chegar
-Eu como te disse estou seguro de mim, só espero a tua decisão
A chamada caiu. Senti um alívio amargo, porque na realidade as coisas iriam complicar-se se a Matilde dissesse que sim, que viria para Lisboa, para viver comigo. Se não nos déssemos bem eu não a prenderia. Sim, mas com que cara fico diante dos meus pais? era, aparentemente, a grande questão dela. Eu sabia tão bem como ela que a questão não era nada simples, mas o meu feitio aventureiro impelia-me para diante. Voltei a marcar e fui parar outra vez à caixa de correio e ao pânico de não saber o que se passava do outro lado. Nos dias seguintes não houve contacto nem por telefone nem no chat. Na quinta feira seguinte, quando liguei o pc na Companhia, apareceu-me a caixa de diálogo do messenger: a terezinha18, nick que eu desconhecia, queria ser adicionada à minha lista. Intrigado, fiz ok. Ao fim da tarde, quando me preparava para sair do escritório, a terezinha18 apareceu online.
terezinha18 diz:
ola
L. diz:
ola, conhecemo-nos?
terezinha18 diz:
quem sabe, mas podemos vir a conhecer-nos
L. diz:
nao me lembro de termos contactado aqui antes
terezinha18 diz:
és de lisboa?
L. diz:
sim, e tu?
terezinha18 diz:
estou perto
L. diz:
mas que misterio
terezinha18 diz:
o misterio sera desfeito em breve. Como vais de amores?
Uma que me conhece ou ao serviço de alguma que me conhece, pensei.
L diz:
confesso que estou atrapalhado
terezinha18 diz:
se es casado nao quero atrapalhar
L. diz:
Por isso nao será, estou separado
terezinha18 diz:
a sério? e nao há namorada à espera
L. diz:
porque queres saber, se eu não te conheço?
terezinha18 diz:
não quero, estava a brincar contigo
L. diz:
que alívio
terezinha18 diz:
e dás conta do recado com os filhos?
L. diz:
filhos só tenho um
Aqui caí em mim, gravei o diálogo e desliguei-me. Estava a cair no jogo como um adolescente: falar de mim com uma brincalhona ou pior que tem a vantagem do anonimato. O que a princípio me pareceu uma ajuda para esquecer a Matilde por uns momentos acabou por assumir o aspecto de potencial ameaça. Fragilizado, dei-me conta de sentir medo: em situação normal, não deixaria de tirar partido do episódio nem que fosse só pelo gozo inconsequente.
Mas na sexta feira todos estes acontecimentos e dúvidas estavam destinados a descer de categoria, expulsos do pódio por um documento que descobri, de modo fortuito, no pc de casa. Tinha trazido cópia da conversa com a terezinha18 para guardar no computador, e ao abrir a pasta chamou-me a atenção um documento desconhecido com o título cb0412. Fui ver e logo me apercebi de que era parte de uma conversa tida, no messenger, pelo Eduardo com alguém de Coimbra, no fim de semana anterior. Com certeza por descuido, o Eduardo tinha-se esquecido de a apagar. Quando li pela terceira vez, tive a noção de ter intuído, com grande segurança, quem era o interlocutor. E de ouvir uma voz de consciência, se é que existe, a martelar: tens um filho e não lhe ligas nada, não admira que não saibas nada dele. A Rita apercebeu-se da minha perturbação e tive que inventar uma dor de estômago, que rapidamente se tornou real.
segunda-feira, maio 8
domingo, maio 7
O ruído de Laramie

Em Outubro de 1998, na cidade de Laramie, Matthew Shepard, rapaz homossexual de 22 anos, foi assassinado com grande brutalidade por Aaron McKinney e Russell A. Henderson. Os assassinos acabaram por ser condenados a prisão perpétua. Ainda Matthew agonizava no hospital e já o caso atraía à cidade um exército de gente dos media, activistas políticos e artistas "comprometidos" com as grandes causas. A grande causa, aqui, era a janela de oportunidade que se abria à propaganda a favor de legislação contra os "crimes de ódio". O texto que serve de base à peça em cena no Maria Matos estrutura-se a partir de uma série de entrevistas com pessoas da cidade e das suas visões da tragédia.
O problema de "Laramie", como peça de teatro, é que de teatro tem muito pouco. Os autores do texto (M. Kaufman e o Tectonic Theater Project) não trabalharam verdadeiramente o material recolhido, a não ser para sobrepôr à complexa realidade a trivialidade sensaborona de duas ou três ideias feitas que eles próprios já tinham na cabeça. Assim, em "Laramie" não há drama, há comício. Contrariamente ao que apregoam frases publicitárias, "Laramie" nunca comove. Compreende-se porquê: estamos perante uma cópia preguiçosa da realidade, ainda por cima desfigurada e simplificada por um figurino ideológico vulgar.
A encenação de Diogo Infante como que vem apenas mostrar que é possível construir um relativo êxito com grande economia de talento. O espaço cénico, de uma fealdade violenta, acolhe cenas e poses em que tudo (pessoas, objectos) aparenta estar pouco à vontade e fora do lugar.
Salvam-se dois momentos em que há teatro: os monólogos do homem do táxi (Albano Jerónimo) e da esposa do polícia (Isabel Abreu), excelentemente interpretados. Quase tudo o resto é ruído.
sábado, maio 6
Quotas
Entre os candidatos à próxima eleição para a Comissão de Direitos Humanos da ONU:
China, Irão, Cuba, Rússia, Tunísia, Paquistão, Arábia Saudita, Argélia, Nigéria...
O sistema de quotas regionais (que implica quotas para países onde não há respeito pelos direitos humanos) permitirá, possivelmente, a eleição de alguns deles.
China, Irão, Cuba, Rússia, Tunísia, Paquistão, Arábia Saudita, Argélia, Nigéria...
O sistema de quotas regionais (que implica quotas para países onde não há respeito pelos direitos humanos) permitirá, possivelmente, a eleição de alguns deles.
Tédio, Seca e Farsa
O "cansaço" e a coluna de Freitas. A "vitória" de Mendes. O congresso dessa curiosidade chamada PP. Tão excitante como uma comemoração do 5 de outubro seguida da leitura de um número do Diário da República, II série. Juntar tudo isto no mesmo fim de semana deveria ser proibido por uma alta autoridade contra o tédio.
A TSF amplia o bocejo abrindo os seus boletins informativos com estas "notícias", a que se acrescentam comentários irrelevantes, proferidos durante minutos que parecem uma eternidade.
A TSF amplia o bocejo abrindo os seus boletins informativos com estas "notícias", a que se acrescentam comentários irrelevantes, proferidos durante minutos que parecem uma eternidade.
sexta-feira, maio 5
Auto-desprezo
Fala-se de auto-estima por tudo e por nada, tanto a propósito de indivíduos como de nações inteiras. Ora, no estado actual da visão que nós, ocidentais, e em particular europeus, temos do que somos e do caminho que ao longo de séculos nos trouxe ao presente, deveria falar-se muito mais de auto-desprezo. Como ainda nenhuma mitologia académica se ocupou de vulgarizar a palavra, o que ela quer dizer passa mais despercebido. No entanto, auto-desprezo, auto-repugnância, ou o que quisermos, é o que melhor caracteriza a as disposições e atitudes dos ocidentais, em virtude do sucesso de algumas das mais perversas ideologias e utopias que fabricámos.
O auto-desprezo exibe-se frequentemente, por acusações e incriminações, de modo directo e frontal. Noutras ocasiões, utiliza, de modo pretensamente mais subtil, o artifício do relativismo e do politicamente correcto. Assim, quando muitos afirmam que se tem de ser tolerante com as religiões, estão a pensar em todas menos nas de raiz judaica ou cristã; inversamente, se apontam os riscos do fundamentalismo religioso, é aos cristãos fundamentalistas que de facto se referem.
E se a qualidade dos líderes das democracias não é entusiasmante, a violência da crítica interna, impossível nos regimes ditatoriais, corrói as nossas defesas. O auto-desprezo avaria os instintos e confunde os sinais de perigo. Quando se fazem comparações que, na melhor das hipóteses, equiparam governantes ocidentais a tiranos populistas e fanáticos, fica claro que se tomou partido por estes.
O auto-desprezo exibe-se frequentemente, por acusações e incriminações, de modo directo e frontal. Noutras ocasiões, utiliza, de modo pretensamente mais subtil, o artifício do relativismo e do politicamente correcto. Assim, quando muitos afirmam que se tem de ser tolerante com as religiões, estão a pensar em todas menos nas de raiz judaica ou cristã; inversamente, se apontam os riscos do fundamentalismo religioso, é aos cristãos fundamentalistas que de facto se referem.
E se a qualidade dos líderes das democracias não é entusiasmante, a violência da crítica interna, impossível nos regimes ditatoriais, corrói as nossas defesas. O auto-desprezo avaria os instintos e confunde os sinais de perigo. Quando se fazem comparações que, na melhor das hipóteses, equiparam governantes ocidentais a tiranos populistas e fanáticos, fica claro que se tomou partido por estes.
quinta-feira, maio 4
Olho por olho

Por ordem de um tribunal islâmico, um rapaz de 16 anos executa em público, à facada, o assassino do pai. Mais fotos aqui.
terça-feira, maio 2
Português precário
Ontem, nos noticiários de televisão, Carvalho da Silva falou em precariedade e vários jornalistas repetiram a palavra mais de uma vez.
Post scriptum em 3 de Maio: depois de vários reparos, constato que de facto existem as duas grafias: precaridade e precariedade. Só posso concluir que o título do post se referia, sem que eu o soubesse, ao meu português.
Post scriptum em 3 de Maio: depois de vários reparos, constato que de facto existem as duas grafias: precaridade e precariedade. Só posso concluir que o título do post se referia, sem que eu o soubesse, ao meu português.
segunda-feira, maio 1
A boa invasão
George Clooney, cujas tomadas de posição contra a política da administração americana se tornaram bem conhecidas, apela ao envolvimento dos Estados Unidos no Sudão para acabar com o genocídio no Darfur.
Terá o actor reparado nos riscos de lhe levarem a mal as intenções? É que o Sudão é rico em petróleo e gás natural.
Terá o actor reparado nos riscos de lhe levarem a mal as intenções? É que o Sudão é rico em petróleo e gás natural.
sábado, abril 29
Lingerie e quotas para mulheres
O governo da Arábia Saudita aprovou legislação determinando que a venda de roupa íntima feminina seja feita por mulheres. Os estabelecimentos têm dois meses para substituir empregados por empregadas, sob pena de multas ou outras medidas coercivas. Os dirigentes sauditas estão, obviamente, a encetar reformas quase revolucionárias, prudentemente disfarçadas de conservadoras e de respeito pela tradição: trazer as mulheres ao mercado de trabalho é, com certeza, apenas o início.
sexta-feira, abril 28
Áreas de investigação emergentes em aeronáutica
Um workshop científico-religioso que terminou em 25 de Abril passado na Malásia ("O Islão e a Vida no Espaço"), motivado pela participação de um cidadão daquele país predominantemente muçulmano no programa espacial russo, ocupou-se da análise de temas como:
Como é que um astronauta muçulmano rezará 5 vezes por dia quando um dia em órbita são só 90 minutos? Como vai determinar a direcção de Meca numa estação espacial que se move a grande velocidade? Terá que fazer 80 orações em 24 horas?
Um alto reponsável do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que o ritual da oração não pode ser dispensado por um astronauta muçulmano no espaço.
O ritual da genuflexão e prostração na ausência de gravidade coloca igualmente grandes desafios. O mais difícil de resolver parece ser o de realizar abluções. O Corão nota que a água pode ser substituída por cinza, mas também é difícil obter cinza em ambiente de estação espacial.
Foi recordado aos participantes da conferência que a grande civilização muçulmana deu ao ocidente a álgebra, o zero e o sistema de numeração, não se podendo apontar a religião como causa do seu ulterior retrocesso.
Como é que um astronauta muçulmano rezará 5 vezes por dia quando um dia em órbita são só 90 minutos? Como vai determinar a direcção de Meca numa estação espacial que se move a grande velocidade? Terá que fazer 80 orações em 24 horas?
Um alto reponsável do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que o ritual da oração não pode ser dispensado por um astronauta muçulmano no espaço.
O ritual da genuflexão e prostração na ausência de gravidade coloca igualmente grandes desafios. O mais difícil de resolver parece ser o de realizar abluções. O Corão nota que a água pode ser substituída por cinza, mas também é difícil obter cinza em ambiente de estação espacial.
Foi recordado aos participantes da conferência que a grande civilização muçulmana deu ao ocidente a álgebra, o zero e o sistema de numeração, não se podendo apontar a religião como causa do seu ulterior retrocesso.
terça-feira, abril 25
O mal maior
Diante da incerteza na próxima volta das eleições peruanas, Mário Vargas Llosa não tem dúvidas sobre qual é o mal maior e defende a aliança entre Alan Garcia e Lourdes Flores.
Dentro de la confusión contradictoria y delirante de sus amenazas y proyecciones, aquel clan que aboga por fusilamientos masivos -entre ellos de homosexuales-, por leyes de excepción para periodistas, por nacionalizaciones y por la militarización del país, debe ser atajado en la segunda vuelta electoral mediante una gran concentración de todas las fuerzas democráticas, aunque para ello sea preciso vencer escrúpulos, olvidar agravios y votar tapándose la nariz.
Dentro de la confusión contradictoria y delirante de sus amenazas y proyecciones, aquel clan que aboga por fusilamientos masivos -entre ellos de homosexuales-, por leyes de excepción para periodistas, por nacionalizaciones y por la militarización del país, debe ser atajado en la segunda vuelta electoral mediante una gran concentración de todas las fuerzas democráticas, aunque para ello sea preciso vencer escrúpulos, olvidar agravios y votar tapándose la nariz.
domingo, abril 23
Três razões para não bombardear o Irão - por enquanto
Edward N. Luttwak (conselheiro do Center for Strategic and International Studies) expõe as suas razões para desaconselhar um ataque ao Irão.
Luttwak mostra-se convicto de que num futuro não muito distante vai ser possível uma relação amistosa EU-Irão. Com a excepção de uma minoria extremista, os iranianos não são anti-americanos. Largos sectores da imensa juventude do país (65% dos 70 milhões de habitantes estão abaixo dos 25 anos) têm interesse por aspectos da cultura americana. Além disso, os longos anos de opressão religiosa poderão estar a criar o embrião de uma forte rejeição do Islão político a curto prazo.
Por outro lado, bombardear o Irão é precisamente aquilo que os poder ultra-fundamentalista deseja: a guerra pode ser o único meio de recuperar prestígio por parte de uma população hostil aos governantes. Além disso, com uma altíssima e explosiva taxa de desemprego, a guerra poderia até ter o papel de regulador do excesso de população - dizimando, precisamente, as camadas mais jovens e por isso mais perigosas para o regime.
Finalmente, o programa nuclear apregoado pelo Irão começou há três décadas sem que a produção de armamento nuclear tenha sido conseguida. Embora não mereçam crédito as afirmações de que o programa tem fins pacíficos (o Irão tem enormes reservas de gás que poderiam ser usadas para produzir electricidade barata) o facto é que a aventura nuclear iraniana tem assentado em colaborações de eficácia duvidosa, ao mesmo tempo que o país não é suficientemente organizado do ponto de vista técnico para que as coisas corram com a facilidade que os responsáveis iranianos actualmente apregoam. (Até na extracção de petróleo, ou na obtenção de peças para aviões, o país é altamente dependente de contratos com o exterior, como mostram os recentes e graves acidentes aéreos.)
A proclamação de que o Irão já domina a tecnologia nuclear pode, pois, estar a meio caminho entre a farsa e a realidade. Há aqui algumas parecenças com o Iraque de Saddam: hoje critica-se, e bem, a incompetência dos serviços de informações a respeito das famosas "armas de destruição maciça", mas o facto é que o próprio Saddam convenceu o mundo e, ao que parece, alguns dos seus generais, de que elas existiriam.
Claro que, do ponto de vista americano, o Irão com armas nucleares é inaceitável. Se actualmente os dirigentes iranianos já praticam uma enorme agressividade (de que as recentes notícias do recrutamento e treino de milhares de suicidas é apenas um sinal entre muitos), pode maginar-se o que será quando dispuserem do escudo nuclear. Apesar de tudo, atacar o Irão nas condições actuais poderia ter efeitos que rapidamente se virariam contra o atacante.
Entretanto, ontem, no PÚBLICO, Rui Tavares fazia referência pontos de vista mais favoráveis ao ataque e ironizava: os partidários do ataque acham que não se pode permitir a posse de armas nucleares a quem "acredita no regresso do 12º imã e no fim do mundo", devendo esse privilégio estar "reservado a quem acredita no regresso de Cristo e no fim do mundo". Ora, em matéria de crenças, os homens são muito variados. E, muito mais ingénuos do que os dois que são subentendidos na frase, são os que têm a crença que um e outro constituem perigos comparáveis. E também só os ingénuos podem interpretar a comparação como distanciação neutra: ela é uma tomada de partido implícita por Ahmadinejad.
Luttwak mostra-se convicto de que num futuro não muito distante vai ser possível uma relação amistosa EU-Irão. Com a excepção de uma minoria extremista, os iranianos não são anti-americanos. Largos sectores da imensa juventude do país (65% dos 70 milhões de habitantes estão abaixo dos 25 anos) têm interesse por aspectos da cultura americana. Além disso, os longos anos de opressão religiosa poderão estar a criar o embrião de uma forte rejeição do Islão político a curto prazo.
Por outro lado, bombardear o Irão é precisamente aquilo que os poder ultra-fundamentalista deseja: a guerra pode ser o único meio de recuperar prestígio por parte de uma população hostil aos governantes. Além disso, com uma altíssima e explosiva taxa de desemprego, a guerra poderia até ter o papel de regulador do excesso de população - dizimando, precisamente, as camadas mais jovens e por isso mais perigosas para o regime.
Finalmente, o programa nuclear apregoado pelo Irão começou há três décadas sem que a produção de armamento nuclear tenha sido conseguida. Embora não mereçam crédito as afirmações de que o programa tem fins pacíficos (o Irão tem enormes reservas de gás que poderiam ser usadas para produzir electricidade barata) o facto é que a aventura nuclear iraniana tem assentado em colaborações de eficácia duvidosa, ao mesmo tempo que o país não é suficientemente organizado do ponto de vista técnico para que as coisas corram com a facilidade que os responsáveis iranianos actualmente apregoam. (Até na extracção de petróleo, ou na obtenção de peças para aviões, o país é altamente dependente de contratos com o exterior, como mostram os recentes e graves acidentes aéreos.)
A proclamação de que o Irão já domina a tecnologia nuclear pode, pois, estar a meio caminho entre a farsa e a realidade. Há aqui algumas parecenças com o Iraque de Saddam: hoje critica-se, e bem, a incompetência dos serviços de informações a respeito das famosas "armas de destruição maciça", mas o facto é que o próprio Saddam convenceu o mundo e, ao que parece, alguns dos seus generais, de que elas existiriam.
Claro que, do ponto de vista americano, o Irão com armas nucleares é inaceitável. Se actualmente os dirigentes iranianos já praticam uma enorme agressividade (de que as recentes notícias do recrutamento e treino de milhares de suicidas é apenas um sinal entre muitos), pode maginar-se o que será quando dispuserem do escudo nuclear. Apesar de tudo, atacar o Irão nas condições actuais poderia ter efeitos que rapidamente se virariam contra o atacante.
Entretanto, ontem, no PÚBLICO, Rui Tavares fazia referência pontos de vista mais favoráveis ao ataque e ironizava: os partidários do ataque acham que não se pode permitir a posse de armas nucleares a quem "acredita no regresso do 12º imã e no fim do mundo", devendo esse privilégio estar "reservado a quem acredita no regresso de Cristo e no fim do mundo". Ora, em matéria de crenças, os homens são muito variados. E, muito mais ingénuos do que os dois que são subentendidos na frase, são os que têm a crença que um e outro constituem perigos comparáveis. E também só os ingénuos podem interpretar a comparação como distanciação neutra: ela é uma tomada de partido implícita por Ahmadinejad.
sábado, abril 22
A tabuada é hardcore
O manual de educação sexual, destinado a crianças de 6 a 12 anos, editado pelo Ministerio de Educacion y Ciencia, em Espanha, está a suscitar reacções de desagrado.
São considerados inapropriados excertos como:
...hay sexualidad cuando un niño y una niña sienten como su corazón se acelera mientras se besan a escondidas detrás de un árbol, o cuando una niña siente un temblor especial al rozarse con la piel de otra niña.
Un intercambio placentero a través del cuerpo, también a través de sus genitales, donde exista afecto y consideración mutua, está bien.
e relatos de actividades na sala de aula como:
En una clase de segundo de Primaria (6-7 años), los niños quisieron besar a las niñas, y se pusieron a besarlas a lo loco, sin límites, sin saber hasta dónde podían tocar, besar o explorar el cuerpo de ellas. (...) la maestra vio, consintió y un día o días más tarde, «en la asamblea semanal, les dijo: «Sé que ahora estáis jugando a los novios y a las novias, ¿me queréis contar esto? Y se pusieron a hablar porque sintieron un clima de confianza (...)
Lá como cá, podemos constatar que o ponto de vista dos pedagogos no poder é: as crianças só são imaturas para aprender a tabuada, somar fracções, escrever correctamente, e situar no tempo, por meio de datas, alguns factos históricos básicos para compreender o passado e o presente. Para tudo o mais, estão podres de maduras. Acordem-se cedo os sentidos. Ler, escrever, contar e abastecer a memória são violências, tornadas hardcore para adultos.
São considerados inapropriados excertos como:
...hay sexualidad cuando un niño y una niña sienten como su corazón se acelera mientras se besan a escondidas detrás de un árbol, o cuando una niña siente un temblor especial al rozarse con la piel de otra niña.
Un intercambio placentero a través del cuerpo, también a través de sus genitales, donde exista afecto y consideración mutua, está bien.
e relatos de actividades na sala de aula como:
En una clase de segundo de Primaria (6-7 años), los niños quisieron besar a las niñas, y se pusieron a besarlas a lo loco, sin límites, sin saber hasta dónde podían tocar, besar o explorar el cuerpo de ellas. (...) la maestra vio, consintió y un día o días más tarde, «en la asamblea semanal, les dijo: «Sé que ahora estáis jugando a los novios y a las novias, ¿me queréis contar esto? Y se pusieron a hablar porque sintieron un clima de confianza (...)
Lá como cá, podemos constatar que o ponto de vista dos pedagogos no poder é: as crianças só são imaturas para aprender a tabuada, somar fracções, escrever correctamente, e situar no tempo, por meio de datas, alguns factos históricos básicos para compreender o passado e o presente. Para tudo o mais, estão podres de maduras. Acordem-se cedo os sentidos. Ler, escrever, contar e abastecer a memória são violências, tornadas hardcore para adultos.
sexta-feira, abril 21
Com a verdade nos enganas
Tanto dirigentes russos como responsáveis das Nações Unidas têm declarado não haver provas de que o programa nuclear do Irão tenha como finalidade aquirir armamento.
Efectivamente, o Irão tem afirmado, pela boca do seu presidente, que o programa tem fins pacíficos e que o país tem todo o direito de o levar a cabo.
Acontece que Ahmadinajed tem também afirmado, repetidamente, que é necessário riscar Israel do mapa e que Israel irá ser aniquilado por uma tempestade.
Infere-se que os que levam a sério as palavras de Ahmadinajed ou estão de acordo com a aniquilação de Israel, ou utilizam um estranho critério, que valia a pena explicitar, para dar crédito a umas afirmações e desvalorizar outras.
Efectivamente, o Irão tem afirmado, pela boca do seu presidente, que o programa tem fins pacíficos e que o país tem todo o direito de o levar a cabo.
Acontece que Ahmadinajed tem também afirmado, repetidamente, que é necessário riscar Israel do mapa e que Israel irá ser aniquilado por uma tempestade.
Infere-se que os que levam a sério as palavras de Ahmadinajed ou estão de acordo com a aniquilação de Israel, ou utilizam um estranho critério, que valia a pena explicitar, para dar crédito a umas afirmações e desvalorizar outras.
quinta-feira, abril 20
A Europa será muçulmana dentro de uns anos, diz ele
Descubra aqui os laços que se podem estabelecer entre Lionel Ritchie, José Carreras e Mohamar Ghadaffi. Veja porque é que Ghadaffi convida o presidente americano para Meca e porque propõe uma revisão da Bíblia.
domingo, abril 16
Reflexão radical
Duas semanas de trânsito fácil em Lisboa estão a chegar ao fim. A melhor maneira de resolver o problema do tráfego nas grandes cidades seria encerrar as escolas.
Quatro vantagens
A avaliação que Ahmadinejad faz das vantagens de que dispõe sobre os infiéis, segundo Amir Taheri:
O Islão tem quatro vezes mais jovens em idade de lutar do que o Ocidente, com a sua população envelhecida. Centenas de milhões de "combatentes sagrados" anseiam por se tornar mártires, enquanto os jovens infiéis, amantes da vida e tementes da morte, detestam combater. O Islão tem quatro quintos das reservas de petróleo, e por isso controla um recurso vital para os infiéis. Mais importante, os EEUU, única potência infiel ainda capaz de lutar, é odiada por quase todas as outras nações.
(...) A estratégia actual do Irão é, pois, esperar pela saída de Bush. E isso, por "coincidência divina", corresponde ao tempo necessário para o Irão desenvolver o seu arsenal nuclear, acedendo assim à única vantagem de que dispõe o infiel.
O Islão tem quatro vezes mais jovens em idade de lutar do que o Ocidente, com a sua população envelhecida. Centenas de milhões de "combatentes sagrados" anseiam por se tornar mártires, enquanto os jovens infiéis, amantes da vida e tementes da morte, detestam combater. O Islão tem quatro quintos das reservas de petróleo, e por isso controla um recurso vital para os infiéis. Mais importante, os EEUU, única potência infiel ainda capaz de lutar, é odiada por quase todas as outras nações.
(...) A estratégia actual do Irão é, pois, esperar pela saída de Bush. E isso, por "coincidência divina", corresponde ao tempo necessário para o Irão desenvolver o seu arsenal nuclear, acedendo assim à única vantagem de que dispõe o infiel.
Evangelho de Judas (II)
Adam Gopnik no New Yoker:
(...) Apesar de tudo o Evangelho de Judas é uma revelação. Primeiro, porque é útil recordar, num tempo de fundamentalismo renovado, que as religiões não têm, de facto, fundamento: que os textos sem erros e os sagrados inatacáveis de qualquer fé são obra dos homens e do tempo. Qualquer ortodoxia é o instantâneo de um momento. Que o facto de a Igreja há muito ter respostas ao gnosticismo, em todas as suas variantes, não significa que o gnosticismo sempre esteve condenado a ser heresia.
(...) o novo Evangelho enfeitiça - especialmente os livre-pensadores - porque nos recorda a força literária dos Evangelhos canónicos, precisamente por terem realizado a fusão do celeste com o lugar comum. (...) como editores, os pais da Igreja primitiva fizeram um trabalho notável ao seleccionar as histórias fortes e ao rejeitar as mais estranhas. O canon ortodoxo dá-nos um Cristo convincente como personagem de uma maneira que o (Cristo) Gnóstico não o é: irado e impaciente e eticamente comprometido (...) brilhantemente concreto nas suas parábolas e humano na sua dor. Quer se acredite (...)que este homem viveu, ensinou e morreu, ou, com S. Paulo, que ele viveu e morreu e ressuscitou, é difícil não o preferir ao Jesus do novo Evangelho, com os seus risos teatrais e (...) mensagens cifradas. Tornar Judas mais humano diminui a humanidade em Jesus, que surge menos como um homem com um horrível fardo divino do que como mais um sabe-tudo com auréola. Como verdade ou metáfora, ficamos com o velho conto.
(...) Apesar de tudo o Evangelho de Judas é uma revelação. Primeiro, porque é útil recordar, num tempo de fundamentalismo renovado, que as religiões não têm, de facto, fundamento: que os textos sem erros e os sagrados inatacáveis de qualquer fé são obra dos homens e do tempo. Qualquer ortodoxia é o instantâneo de um momento. Que o facto de a Igreja há muito ter respostas ao gnosticismo, em todas as suas variantes, não significa que o gnosticismo sempre esteve condenado a ser heresia.
(...) o novo Evangelho enfeitiça - especialmente os livre-pensadores - porque nos recorda a força literária dos Evangelhos canónicos, precisamente por terem realizado a fusão do celeste com o lugar comum. (...) como editores, os pais da Igreja primitiva fizeram um trabalho notável ao seleccionar as histórias fortes e ao rejeitar as mais estranhas. O canon ortodoxo dá-nos um Cristo convincente como personagem de uma maneira que o (Cristo) Gnóstico não o é: irado e impaciente e eticamente comprometido (...) brilhantemente concreto nas suas parábolas e humano na sua dor. Quer se acredite (...)que este homem viveu, ensinou e morreu, ou, com S. Paulo, que ele viveu e morreu e ressuscitou, é difícil não o preferir ao Jesus do novo Evangelho, com os seus risos teatrais e (...) mensagens cifradas. Tornar Judas mais humano diminui a humanidade em Jesus, que surge menos como um homem com um horrível fardo divino do que como mais um sabe-tudo com auréola. Como verdade ou metáfora, ficamos com o velho conto.
sábado, abril 15
Critérios de respeito
Comedy Central, a produtora da série South Park, suspendeu um episódio que satirizava a questão das caricaturas de Maomé. Em outros episódios, tinham sido já ridicularizados católicos, judeus e a cientologia. Noutro desenho animado da mesma produtora, aparece Cristo a defecar sobre Bush e a bandeira americana.
A MTV, entretanto, está a produzir uma série em que a crucificação é ridicularizada.
Os porta vozes da Comedy Central justificaram a censura com argumentos de tolerância religiosa, mas mencionaram também o receio de colocar em perigo a sua segurança. A censura exerceu-se unicamente em relação ao episódio das caricaturas de Maomé.
Estes factos e estas declarações são muito reveladores da faceta de cobardia que se abriga por trás da "compreensão" e da "tolerância" que muito se apregoa. O critério para exercer respeito por uma religião é, simplesmente, o amor à pele: se há risco de represálias violentas, respeita-se; caso contrário, não há razões para preocupação.
A liberdade de rir de tudo, e de nós próprios em particular, é conquista da sociedade ocidental. Mas, exercida selectivamente, e apenas contra nós, é sintoma de medo e de uma doentia pulsão suicida. Actos que já foram tidos como ousados ou irreverentes deveriam agora simplesmente fazer corar de vergonha os seus autores.
A MTV, entretanto, está a produzir uma série em que a crucificação é ridicularizada.
Os porta vozes da Comedy Central justificaram a censura com argumentos de tolerância religiosa, mas mencionaram também o receio de colocar em perigo a sua segurança. A censura exerceu-se unicamente em relação ao episódio das caricaturas de Maomé.
Estes factos e estas declarações são muito reveladores da faceta de cobardia que se abriga por trás da "compreensão" e da "tolerância" que muito se apregoa. O critério para exercer respeito por uma religião é, simplesmente, o amor à pele: se há risco de represálias violentas, respeita-se; caso contrário, não há razões para preocupação.
A liberdade de rir de tudo, e de nós próprios em particular, é conquista da sociedade ocidental. Mas, exercida selectivamente, e apenas contra nós, é sintoma de medo e de uma doentia pulsão suicida. Actos que já foram tidos como ousados ou irreverentes deveriam agora simplesmente fazer corar de vergonha os seus autores.
O inimigo no meio de nós

O WWR, Conselho científico para o governo na Holanda, acaba de produzir um relatório onde condena os responsáveis políticos do país pelo clima de confrontação com o Islão, e dá um parecer positivo à formação de um partido que tenha a sharia como fonte de inspiração.
Um porta voz do partido de governo CDA reagiu afirmando que o WWR não se baseia em factos, mas sim em apreciações políticas inexactas. A deputada Hirsi Ali, que sabe bem do que fala, afirma que o WWR é estranho ao mundo real, pede reacção adequada do governo e requer ao primeiro ministro distanciação clara das recomendações do relatório.
Hirsi Ali está a concluir Submissão II, um filme que aborda a vida de homossexuais nos países de cultura islâmica.
sexta-feira, abril 14
As pontes de mad country
Nem sempre é fácil perceber exactamente contra que é que a voz do povo se insurge. Há uma grande indignação com as faltas de deputados ao plenário de anteontem da AR. Ao mesmo tempo, o país está quase fechado para férias desde o meio da semana. Porque não hão-de os deputados agir à imagem do país? Eu acho que assim é que nos representam verdadeiramente. Se "metemos" férias por todos estes dias é porque não há nada assim tão urgente a fazer: o trabalho pode esperar. Alguém sabe o que é que havia assim de tão importante a tratar na AR? No site do Parlamento não encontrei a ordem de trabalhos. Como esta situação de "ponte" já era de prever, se houvesse assuntos prementes poderia ter-lhes sido dada prioridade em reuniões anteriores. Adiando, por exemplo, a comemoração do aniversário da constituição, em 6 de Abril, que apenas trouxe retórica ultra-previsível e interjeições pouco originais de apoio ("muito bem!") ou repúdio ("ohh!"), algumas hilariantes no contexto - com destaque para a deixa de Odete Santos: "Mais velhas ainda..." referindo-se à avó de Jerónimo de Sousa.
No fundo, os portugueses têm as pontes e as férias no coração. Não se percebe porque repudiam tão grande consonância de atitude por parte dos seus eleitos.
Por outro lado, atendendo ao enredo legislativo em que já estamos mergulhados, talvez até haja vantagem nestas paragens de vez em quando.
Parece que Cavaco Silva vai tomar posição sobre o assunto daqui a uns dias. Com certeza que o fará com mil cautelas, recordado do banimento de uma ponte carnavalesca que muito contribuiu para a sua queda em desgraça, noutros tempos.
No fundo, os portugueses têm as pontes e as férias no coração. Não se percebe porque repudiam tão grande consonância de atitude por parte dos seus eleitos.
Por outro lado, atendendo ao enredo legislativo em que já estamos mergulhados, talvez até haja vantagem nestas paragens de vez em quando.
Parece que Cavaco Silva vai tomar posição sobre o assunto daqui a uns dias. Com certeza que o fará com mil cautelas, recordado do banimento de uma ponte carnavalesca que muito contribuiu para a sua queda em desgraça, noutros tempos.
quinta-feira, abril 13
Tonterías
O jornalismo em Portugal está a entrar numa roda livre de interpretações arbitrárias e de falta de respeito pelo que as palavras significam. Aparece hoje a notícia de que tv e internet são "novos pecados", a propósito de palavras ditas ontem em Roma pelo cardeal Stafford. Não sei em que fonte se basearam. Ora, não é bem isso o que se lê aqui, mas sim que
...o cardeal pediu aos fiéis que reflectissem em quanto tempo passaram a ler jornais e revistas ou a ver televisão ou a usar a internet, em comparação com o tempo investido na meditação e a ler as sagradas escrituras.
Banal, portanto. De qualquer maneira, tenha o cardeal dito uma coisa ou outra, do que não há dúvida é que ele perdeu uma boa ocasião de estar calado em vez de dizer tonterias (peço desculpa pelo uso do castelhano, mas não temos em português um substantivo tão adequado à situação como este).
Mas o cardeal disse outras coisas na mesma ocasião. Infelizmente, ao misturar tudo, o trivial a roçar a idiotia e questões que nenhuma reflexão profunda resolveu até hoje, o discurso de Stafford, como o de muitas autoridades católicas que não primam por uma grande cultura e capacidade de reflexão, perde força e presta-se ao ridículo. Stafford referiu, a propósito de afirmações de jovens americanos que pensam que certos crimes - como a violência sobre crianças - são imperdoáveis, que muitos acham que é difícil perdoar e procurar o perdão. E contrapôs que o sofrimento de Cristo oferece o perdão para todos os pecados, para aqueles que o procuram.
Depois de ontem jornais, rádios e tvs terem batido até à exaustão no acórdao do Supremo, é imperdoável que não tenham feito referência a estas frases, e se limitem a transcrever afirmações que ficam bem como bombo de uma festa. A pobreza intelectual do cardeal Stafford está bem para a de alguns jornalistas que o transcrevem.
...o cardeal pediu aos fiéis que reflectissem em quanto tempo passaram a ler jornais e revistas ou a ver televisão ou a usar a internet, em comparação com o tempo investido na meditação e a ler as sagradas escrituras.
Banal, portanto. De qualquer maneira, tenha o cardeal dito uma coisa ou outra, do que não há dúvida é que ele perdeu uma boa ocasião de estar calado em vez de dizer tonterias (peço desculpa pelo uso do castelhano, mas não temos em português um substantivo tão adequado à situação como este).
Mas o cardeal disse outras coisas na mesma ocasião. Infelizmente, ao misturar tudo, o trivial a roçar a idiotia e questões que nenhuma reflexão profunda resolveu até hoje, o discurso de Stafford, como o de muitas autoridades católicas que não primam por uma grande cultura e capacidade de reflexão, perde força e presta-se ao ridículo. Stafford referiu, a propósito de afirmações de jovens americanos que pensam que certos crimes - como a violência sobre crianças - são imperdoáveis, que muitos acham que é difícil perdoar e procurar o perdão. E contrapôs que o sofrimento de Cristo oferece o perdão para todos os pecados, para aqueles que o procuram.
Depois de ontem jornais, rádios e tvs terem batido até à exaustão no acórdao do Supremo, é imperdoável que não tenham feito referência a estas frases, e se limitem a transcrever afirmações que ficam bem como bombo de uma festa. A pobreza intelectual do cardeal Stafford está bem para a de alguns jornalistas que o transcrevem.
segunda-feira, abril 10
Islamização em França é já hoje
Para quem quer ver, os sintomas são já abundantes: dos mais chocantes (Sohane queimada viva, Ghofrane, apedrejada até à morte, Schérazad e Ilan Halimi torturados até á morte) até aos pequenos nadas de que pouco se fala e que dizem tudo. Por exemplo, no relatório, já com quase dois anos, de Jean-Pierre Odin sobre os sinais de pertença religiosa nas escolas de França, deixo de lado os aspectos aparentemente mais inquietantes e transcrevo o pequeno parágrafo que descreve as dificuldades sentidas pelos professores de matemática:
A única dificuldade mencionada pelos professores desta disciplina, em lugares bastante afastados, denotando a mesma obsessão ou doutrinação, é a recusa de utilizar qualquer símbolo ou desenhar qualquer figura (ângulo recto, etc.) que se pareça de perto ou de longe com uma cruz.
A única dificuldade mencionada pelos professores desta disciplina, em lugares bastante afastados, denotando a mesma obsessão ou doutrinação, é a recusa de utilizar qualquer símbolo ou desenhar qualquer figura (ângulo recto, etc.) que se pareça de perto ou de longe com uma cruz.
domingo, abril 9
Faltas de educação
«O pai lava o carro, está sentado a ler o jornal ou a ver a televisão; por seu turno, a mãe está sempre a varrer, a limpar a casa ou a fazer comida, havendo, em muitos dos manuais, a omissão clara do tema e, em alguns casos, a questão do aparelho reprodutor é incluído no aparelho respiratório»,
Nestes termos dá conta uma especialista dos erros encontrados em manuais ecolares de educação sexual.
Sobriedade, clareza e qualidade científica não costumam ser características de programas aprovados pelo ministério. Neles abundam, pelo contrário, palavrosas listas de "competências" de desvairadas espécies e recomendações metodológicas limitadoras da iniciativa dos professores. Por exemplo: se se consultar o documento de 15 páginas, colocado na página do ministério, sobre a disciplina de matemática no 3º ciclo, é impossível perceber se fazem parte do programa coisas como a área de um triângulo ou o cálculo de (a+b)^2. Assim, os manuais limitam-se, possivelmente, a reproduzir uma tradição que corre o risco de acabar por existir apenas nas memórias dos que conheceram programas de épocas anteriores. Como também é grande o risco de alguns autores de manuais somarem a sua incompetência no assunto à do ministério a aprovar programas, não admira que apareçam muitos disparates nos livros de texto. Se o ministério insiste em homologar programas, ao menos que o faça com muito cuidado. Em matérias menos consensuais do que a matemática supostamente pode ser, a cautela tem de ser ainda maior. Seria bom esclarecer se em matemática se deve ensinar a área de um triângulo e também, em definitivo, se o aparelho reprodutor fica ao lado, por cima ou por baixo do aparelho respiratório. Caso contrário, as situações de que se queixa a especialista vão multiplicar-se.
Nestes termos dá conta uma especialista dos erros encontrados em manuais ecolares de educação sexual.
Sobriedade, clareza e qualidade científica não costumam ser características de programas aprovados pelo ministério. Neles abundam, pelo contrário, palavrosas listas de "competências" de desvairadas espécies e recomendações metodológicas limitadoras da iniciativa dos professores. Por exemplo: se se consultar o documento de 15 páginas, colocado na página do ministério, sobre a disciplina de matemática no 3º ciclo, é impossível perceber se fazem parte do programa coisas como a área de um triângulo ou o cálculo de (a+b)^2. Assim, os manuais limitam-se, possivelmente, a reproduzir uma tradição que corre o risco de acabar por existir apenas nas memórias dos que conheceram programas de épocas anteriores. Como também é grande o risco de alguns autores de manuais somarem a sua incompetência no assunto à do ministério a aprovar programas, não admira que apareçam muitos disparates nos livros de texto. Se o ministério insiste em homologar programas, ao menos que o faça com muito cuidado. Em matérias menos consensuais do que a matemática supostamente pode ser, a cautela tem de ser ainda maior. Seria bom esclarecer se em matemática se deve ensinar a área de um triângulo e também, em definitivo, se o aparelho reprodutor fica ao lado, por cima ou por baixo do aparelho respiratório. Caso contrário, as situações de que se queixa a especialista vão multiplicar-se.
sábado, abril 8
As invenções do Ocidente

Mas tu excedê-los-ás a todos. Porque hás-de sacrificar o homem que me reveste. Já a tua trombeta se levantou, a tua cólera se atiçou, o brilho da tua estrela se mostrou...
Já tudo te foi dito. Ergue os olhos para a nuvem e para luz que ela traz dentro e para as estrelas que arodeiam. A estrela dianteira é a tua.
Judas ergueu os olhos, viu a nuvem luminosa e entrou nela. (...)
Eles aproximaram-se de Judas e disseram-lhe, "Que fazes aqui? és discípulo de Jesus".
Judas respondeu como eles queriam. E recebeu algum dinheiro e entregou-o.
A recente notícia do lançamento de uma nova tradução do "Evangelho de Judas" veio recordar-me algumas das razões por que, embora não crente, tenho uma imensa admiração pelas invenções do Cristianismo (doutrina escrita e algumas práticas). Na verdade, lá está o embrião de muitas das invenções que moldaram a nossa civilização. O amar-nos uns aos outros pode estar na base do que hoje chamamos os direitos humanos; oferecer a outra face e perdoar setenta vezes sete pode ter inspirado o privilegiar da recuperação do delinquente sobre a sua punição e até a nossa infinita compreensão por quem nos agride; a declaração de que o reino dos céus mais depressa estará reservado aos pobres do que aos ricos pode ter dado origem à demonização do dinheiro e do lucro e, em última análise, às modernas utopias igualitárias. Sem retirar méritos a Freud, convém também lembrar que a psicanálise tem no acto de confissão um precedente à altura. Os exemplos poderiam continuar.
Para além de textos de qualidade com uma mensagem verdadeiramente admirável para a época, os evangelhos, no seu conjunto, têm também o mérito da invenção literária. A novela moderna trouxe-nos a multiplicação dos pontos de vista, o desdobramento do tempo e do espaço, a ilustração de que o quadro traçado aqui e agora pode ser desmentido ou revelar-se parcial noutro lugar. No evangelho de Judas há dados não explicitados nos outros, a mostrar-nos que o nosso olhar anterior sobre Judas era incompleto: a entrega de Jesus terá sido um acto não de traição, mas de obediência.
Lawrence Durrell, nos anos 50 do século passado, afirmou ter-se inspirado na teoria da relatividade ao tecer a forma do seu Quarteto. Podia ter invocado uma inspiração bem mais antiga. Os autores dos evangelhos já se tinham antecipado.
sexta-feira, abril 7
O segredo de A e B
Durante o tempo em que as senhoras A e B foram companheiras em relação amorosa, a senhora A teve duas meninas, agora com 4 e 7 anos. Em 2002 veio o desentendimento e a separação. A senhora A procurou afastar as filhas da ex-amante, mudando de residência para outra cidade e com uma nova companheira, a qual não precisamos de designar por outra letra porque não vai ter relevo neste relato.
A senhora B acaba de ver reconhecida, em tribunal, a tutela das meninas, já que os direitos adquiridos em co-habitação não podiam ser exercidos após a fuga da senhora A. O juiz considerou que não há forma de as crianças, criadas em conjunto por A e B, fazerem a distinção entre a mãe biológica e a ex-companheira.
A senhora B acaba de ver reconhecida, em tribunal, a tutela das meninas, já que os direitos adquiridos em co-habitação não podiam ser exercidos após a fuga da senhora A. O juiz considerou que não há forma de as crianças, criadas em conjunto por A e B, fazerem a distinção entre a mãe biológica e a ex-companheira.
domingo, abril 2
Fatwa sobre a arte egípcia

O mufti Ali Gomaa, uma alta autoridade religiosa do Egipto, lançou uma fatwa sobre a representação humana em estátuas. Há quem desvalorize o facto, mas intelectuais e artistas temem que a sentença posa vir a transformar-se em bomba de relógio contra a arte do antigo Egipto.
sábado, abril 1
1 de Abril
É difícil escolher hoje, no PÚBLICO, qual será a notícia alusiva à data:
-Manuel Alegre em jantar do MIC a dizer que Portugal vive um período como o da União Nacional dos piores tempos do salazarismo e que a continuar ainda acabamos pior que Itália? E a referir-se à sua candidatura como "vencedora"?
-Natasha Nunes do BE a dizer que a adopção por casais homossexuais é uma reivindicação da sociedade?
-Freitas do Amaral a anunciar a criação de um "canal permanente" entre Portugal e o Canadá para maior cooperação na deportação de imigrantes ilegais?
Tudo isto vem lá escrito, não invento nada. Como os jornais costumam limitar-se a uma mentira neste dia, fico preocupado (singela homenagem a Sampaio) porque pelo menos duas destas notícias podem ser verdadeiras. (Por exemplo, se as afirmações de Alegre correspondem à verdade, a situação é ainda pior do que a que ele descreve, pois poderá ter sido empossado como presidente da república um candidato que não venceu as eleições - ainda mais grave porque ninguém parece ter dado pelo engano. Já teremos ultrapassado em muito a Itália: se calhar já vamos em Cuba ou na Coreia do Norte.)
Como se isso não bastasse, há ainda Rui Tavares a comparar a queixa de Margarida Rebelo Pinto, contra um ensaio crítico que lhe é desfavorável, ao protesto da Apple perante o que considera ser "pirataria de estado" por parte da França. E termina criticando "os neoliberais" por quererem conferir direito de propriedade sobre "aquilo que sempre foi de todos: folclore, ideias, frases feitas (o itálico é meu). Estará Tavares a sugerir veladamente que a tecnologia que levou ao iPod e ao iTunes também lhe é, em parte, devida? Se se confirmar, talvez seja esse o segredo do choque tecnológico.
-Manuel Alegre em jantar do MIC a dizer que Portugal vive um período como o da União Nacional dos piores tempos do salazarismo e que a continuar ainda acabamos pior que Itália? E a referir-se à sua candidatura como "vencedora"?
-Natasha Nunes do BE a dizer que a adopção por casais homossexuais é uma reivindicação da sociedade?
-Freitas do Amaral a anunciar a criação de um "canal permanente" entre Portugal e o Canadá para maior cooperação na deportação de imigrantes ilegais?
Tudo isto vem lá escrito, não invento nada. Como os jornais costumam limitar-se a uma mentira neste dia, fico preocupado (singela homenagem a Sampaio) porque pelo menos duas destas notícias podem ser verdadeiras. (Por exemplo, se as afirmações de Alegre correspondem à verdade, a situação é ainda pior do que a que ele descreve, pois poderá ter sido empossado como presidente da república um candidato que não venceu as eleições - ainda mais grave porque ninguém parece ter dado pelo engano. Já teremos ultrapassado em muito a Itália: se calhar já vamos em Cuba ou na Coreia do Norte.)
Como se isso não bastasse, há ainda Rui Tavares a comparar a queixa de Margarida Rebelo Pinto, contra um ensaio crítico que lhe é desfavorável, ao protesto da Apple perante o que considera ser "pirataria de estado" por parte da França. E termina criticando "os neoliberais" por quererem conferir direito de propriedade sobre "aquilo que sempre foi de todos: folclore, ideias, frases feitas (o itálico é meu). Estará Tavares a sugerir veladamente que a tecnologia que levou ao iPod e ao iTunes também lhe é, em parte, devida? Se se confirmar, talvez seja esse o segredo do choque tecnológico.
sexta-feira, março 31
PS 42%, PSD 35%
(Sondagem para a TSF divulgada hoje.) Os resultados só podem ser atribuídos à lucidez do eleitorado, que está, manifestamente, a virar à direita.
Assim vai o nosso pequeno mundo
Sampaio, possivelmente confundido a respeito do seu próprio papel, vem lembrar o governo canadiano de que deve também expulsar emigrantes espanhóis e italianos.
Freitas do Amaral, apesar do humilhante resultado da sua visita, e num óbvio acesso de irrealismo, parece querer perfilar-se como futuro candidato a ministro canadiano da economia ao avançar com razões por que os emigrantes portugueses não devem ser expulsos "as necessidades da economia de Toronto em matéria de construção Civil, (...) ficariam profundamente afectadas, com grave prejuízo para a economia do Canadá, se de repente os trabalhadores portugueses desse sector começassem todos a ser mandados embora".
Freitas do Amaral, apesar do humilhante resultado da sua visita, e num óbvio acesso de irrealismo, parece querer perfilar-se como futuro candidato a ministro canadiano da economia ao avançar com razões por que os emigrantes portugueses não devem ser expulsos "as necessidades da economia de Toronto em matéria de construção Civil, (...) ficariam profundamente afectadas, com grave prejuízo para a economia do Canadá, se de repente os trabalhadores portugueses desse sector começassem todos a ser mandados embora".
quinta-feira, março 30
O amor nos tempos de internet (10)
-Estou sim
-Rita? É a Cláudia. Tudo bem?
-Olá, Claudinha, estou. Desculpa não ter dito nada ontem, mas o dia foi agitado
-Calculo... mas as coisas com o L. vão bem ou nem por isso?
-Nem sei o que te responda. Esse homem dá cabo da minha cabeça
-Mas vocês afinal gostam-se, ou não?
-De mim sei eu, mas ele, ui, é um caso sério. Acho que não põe o jogo todo à vista... mas vamos almoçar um destes dias que eu conto-te a novela. E tu, sempre se confirma?
-É verdade, estou grávida, já está confirmado
-Uau, parabens! Imagino que estás radiante
-Sim, mas sabes que agora há uma coisa no Carlos que me preocupa?
-Sim, o quê?
-Vê lá tu que de um dia para o outro tornou-se sonâmbulo. Foi a semana passada a primeira vez, eu nem liguei, não te tinha falado nisso
-???
-mas nestas últimas duas noites levantou-se a dormir, foi fazer café à cozinha e voltou para a cama - sempre a dormir
-Mas tu viste?
-Claro, fiquei com o sono leve por causa disto. Levanto-me e vou vigiar, tenho medo que tropece e parta alguma coisa e se parta a ele
-Ó filha, não te rales com isso. Quem me dera a mim que fossem esses os meus problemas
-Ele fez-te mais alguma?
-Muita sorte se for só uma... mas ele disfarça bem. Acho que anda outra em cena mas não tenho prova nenhuma
-Ora, isso é impressão tua. Ele não ia arriscar uma coisa dessas na situação em que está. Sem ti fica na fossa
-Sei lá, ele é muito estranho. Eu é que sou muito boa: já estive para dizer bye.
-Ah sim?
-Sim, imagina que depois daquela ida a Barcelona que me ficou atravessada já duas vezes que me diz que tem que ir ao Porto - sempre em trabalho, tá-se mesmo a ver, não tás? e depois acaba por aparecer em casa mais tarde.
-??
-Cá pra mim anda atrás doutra que lhe troca as voltas. Sempre agarrado ao computador e de olho no telemóvel... tás a ver?
-Rita, acho que andas a ler novelas sobre as novas tecnologias
-Mais dia menos dia dou o salto e ele fica sozinho. E depois outra que o ature a ele e ao filho.
-A mim não me enganas, Rita, quantas mais ele te faz mais gostas dele
-Olha que há limites. Ah, mudando de assunto, acho que não te disse que o L. ultimamente anda muito preocupado com o Eduardo
-Ah sim? porquê?
-Não sei bem, parece-me que o rapaz se viu metido num problema... eu até gosto do miúdo e oficialmente não sei de nada. Mas depois conto-te.
-Não me digas que tem a ver com aquilo que tu me contaste do bilhete no bolso do blusão
-Ah... não sei... não. Indirectamente, pode ter. Mas agora não posso falar, Cláudia
-Ai conta, conta
-Pelo telefone não. Amanhã ligo-te para irmos almoçar e falamos melhor
-Que má. Tá, então liga antes do meio dia
-Xau, beijinhos
-jinhos até amanhã
-Rita? É a Cláudia. Tudo bem?
-Olá, Claudinha, estou. Desculpa não ter dito nada ontem, mas o dia foi agitado
-Calculo... mas as coisas com o L. vão bem ou nem por isso?
-Nem sei o que te responda. Esse homem dá cabo da minha cabeça
-Mas vocês afinal gostam-se, ou não?
-De mim sei eu, mas ele, ui, é um caso sério. Acho que não põe o jogo todo à vista... mas vamos almoçar um destes dias que eu conto-te a novela. E tu, sempre se confirma?
-É verdade, estou grávida, já está confirmado
-Uau, parabens! Imagino que estás radiante
-Sim, mas sabes que agora há uma coisa no Carlos que me preocupa?
-Sim, o quê?
-Vê lá tu que de um dia para o outro tornou-se sonâmbulo. Foi a semana passada a primeira vez, eu nem liguei, não te tinha falado nisso
-???
-mas nestas últimas duas noites levantou-se a dormir, foi fazer café à cozinha e voltou para a cama - sempre a dormir
-Mas tu viste?
-Claro, fiquei com o sono leve por causa disto. Levanto-me e vou vigiar, tenho medo que tropece e parta alguma coisa e se parta a ele
-Ó filha, não te rales com isso. Quem me dera a mim que fossem esses os meus problemas
-Ele fez-te mais alguma?
-Muita sorte se for só uma... mas ele disfarça bem. Acho que anda outra em cena mas não tenho prova nenhuma
-Ora, isso é impressão tua. Ele não ia arriscar uma coisa dessas na situação em que está. Sem ti fica na fossa
-Sei lá, ele é muito estranho. Eu é que sou muito boa: já estive para dizer bye.
-Ah sim?
-Sim, imagina que depois daquela ida a Barcelona que me ficou atravessada já duas vezes que me diz que tem que ir ao Porto - sempre em trabalho, tá-se mesmo a ver, não tás? e depois acaba por aparecer em casa mais tarde.
-??
-Cá pra mim anda atrás doutra que lhe troca as voltas. Sempre agarrado ao computador e de olho no telemóvel... tás a ver?
-Rita, acho que andas a ler novelas sobre as novas tecnologias
-Mais dia menos dia dou o salto e ele fica sozinho. E depois outra que o ature a ele e ao filho.
-A mim não me enganas, Rita, quantas mais ele te faz mais gostas dele
-Olha que há limites. Ah, mudando de assunto, acho que não te disse que o L. ultimamente anda muito preocupado com o Eduardo
-Ah sim? porquê?
-Não sei bem, parece-me que o rapaz se viu metido num problema... eu até gosto do miúdo e oficialmente não sei de nada. Mas depois conto-te.
-Não me digas que tem a ver com aquilo que tu me contaste do bilhete no bolso do blusão
-Ah... não sei... não. Indirectamente, pode ter. Mas agora não posso falar, Cláudia
-Ai conta, conta
-Pelo telefone não. Amanhã ligo-te para irmos almoçar e falamos melhor
-Que má. Tá, então liga antes do meio dia
-Xau, beijinhos
-jinhos até amanhã
domingo, março 26
A infinita compreensão dos ocidentais
Sayed Rahmatullah Hashemi, com as funções de destacado ex-porta voz taliban no curriculum, resolveu mudar a área dos seus "estudos", quis ingressar em Yale e foi admitido. A habitual "compreensão" de motivações e especificidades culturais serviu aqui para branquear um passado terrorista: uma declaração da universidade refere-se a Hashemi como um "fugitivo do naufrágio afegão".
A deputada afegã Malalai Joia criticou a universidade, classificando o acto de admitir Hashemi como revoltante e insultuoso.
Curiosamente, parece que a compreensão só é accionada precisamente em relação aos que usam a violência e são ou foram adeptos assumidos da barbárie.
É que, em 2002, um projecto de Paula Nirschel (da organização Iniciativa para a Educação das Mulheres Afegãs) para permitir às jovens do Afeganistão pós-taliban prosseguir estudos superiores, esbarrou com a recusa de Yale em disponiblizar vagas.
A respeito da sentença de morte que pode vir a ser decretada contra Abdul Rahman, por se ter convertido ao cristianismo, deve haver também muita compreensão nas nossas fileiras. Abdul Raoulf, considerado moderado por ter estado na oposição aos Taliban, já disse: "Rejeitar o Islão é insultar Deus e não podemos permitir que Deus seja humilhado. este homem tem que morrer".
Tanto quanto sei, não há opinião do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou de
outro seu homólogo europeu, sobre o assunto. Provavelmente estão de acordo, ou compreendem. Ou então o caso tem muito menos importância para eles do que uns desenhos. É apenas a vida de um homem obscuro em jogo, e a religião espezinhada é apenas o Cristianismo, com o qual temos vergonha de ter alguma coisa a ver.
Última hora: o tribunal não aceitou a queixa contra Abdul Rahman.
A deputada afegã Malalai Joia criticou a universidade, classificando o acto de admitir Hashemi como revoltante e insultuoso.
Curiosamente, parece que a compreensão só é accionada precisamente em relação aos que usam a violência e são ou foram adeptos assumidos da barbárie.
É que, em 2002, um projecto de Paula Nirschel (da organização Iniciativa para a Educação das Mulheres Afegãs) para permitir às jovens do Afeganistão pós-taliban prosseguir estudos superiores, esbarrou com a recusa de Yale em disponiblizar vagas.
A respeito da sentença de morte que pode vir a ser decretada contra Abdul Rahman, por se ter convertido ao cristianismo, deve haver também muita compreensão nas nossas fileiras. Abdul Raoulf, considerado moderado por ter estado na oposição aos Taliban, já disse: "Rejeitar o Islão é insultar Deus e não podemos permitir que Deus seja humilhado. este homem tem que morrer".
Tanto quanto sei, não há opinião do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou de
outro seu homólogo europeu, sobre o assunto. Provavelmente estão de acordo, ou compreendem. Ou então o caso tem muito menos importância para eles do que uns desenhos. É apenas a vida de um homem obscuro em jogo, e a religião espezinhada é apenas o Cristianismo, com o qual temos vergonha de ter alguma coisa a ver.
Última hora: o tribunal não aceitou a queixa contra Abdul Rahman.
sábado, março 25
Minority Report em versão rasca
A polícia prende ébrios em bares do Texas mesmo antes que ocorra qualquer transgressão da lei. O passo seguinte adivinha-se: beber além de um certo limite ou, talvez, simplesmente beber, é crime.
segunda-feira, março 20
O colapso dos materiais
Cenas da vida real, noutra civilização
Abdul Rahman, afegão convertido ao cristianismo, arrisca-se a uma sentença de morte em tribunal.
Tem actualmente 41 anos. Emigrante na Alemanha durante 9 anos, regressa ao Afeganistão em 2002 para reclamar a tutela de duas filhas adolescentes.
A família, com quem se encontra em conflito, denunciou a conversão de Abdul enquanto o processo decorria. As consequências da acusação vão espelhar um pouco da luta entre tradição e reforma no Afeganistão, com uma vida a jogar-se em pano de fundo.
Tem actualmente 41 anos. Emigrante na Alemanha durante 9 anos, regressa ao Afeganistão em 2002 para reclamar a tutela de duas filhas adolescentes.
A família, com quem se encontra em conflito, denunciou a conversão de Abdul enquanto o processo decorria. As consequências da acusação vão espelhar um pouco da luta entre tradição e reforma no Afeganistão, com uma vida a jogar-se em pano de fundo.
domingo, março 19
Terceiro aniversário
Assinalou-se o terceiro aniversário da invasão do Iraque. As entidades organizadoras dos habituais protestos - parece que desta vez menos concorridos - apelam à retirada de todos os ocupantes. Mas não é aos terroristas e todo o tipo de mercenários infiltrados, que matam diariamente iraquianos, que se referem, não: esses e os seus crimes devem ser o que apelidam de "resistência do povo iraquiano". Como se pode ler nas linhas e entrelinhas dos apelos a manifestações - por exemplo, o texto da FENPROF - a mira está apontada, sem surpresa, aos Estados Unidos e perfila-se já o alinhamento ao lado dos regimes da Síria e do Irão contra o que der e vier. As eleições realizadas no Iraque são postas entre aspas e classificadas sumariamene de fraude. Na verdade nada disto é novo: os simpatizantes do comunismo nunca tiveram apreço por eleições, a não ser como meio táctico de acesso à partilha do poder nas "democracias burguesas".
Por muito criticável que seja o modo como a administração Bush tratou o problema do Iraque, afirmações como as que se podem ler no texto citado são certamente um insulto para boa parte do "povo iraquiano" com quem os autores se dizem tão preocupados. Por outro lado, quem critica não pode deixar de ter em conta os efeitos da retirada, para não falar já em alternativas à ocorrência da intervenção. (Dois artigos interessantes, longe do padrão derrotista da abordagem habitual, podem ver-se aqui e aqui.)
A propósito, também ontem passou o terceiro aniversário de uma vaga de repressão em Cuba, resultando na prisão de 75 pessoas (activistas de direitos humanos, jornalistas e outros trabalhadores, editores) cujo delito são as ideias de democracia que defendem. As condenações foram severas, tendo sido libertadas 15 das pessoas presas por razões de saúde. O acontecimento não foi muito assinalado. Que interessa a liberdade de pensamento e expressão à longa lista de promotores de protestos anti-EEUU? Obviamente, nada. O ditador Castro não está na sua agenda, a não ser para acções de discreta simpatia.
Por muito criticável que seja o modo como a administração Bush tratou o problema do Iraque, afirmações como as que se podem ler no texto citado são certamente um insulto para boa parte do "povo iraquiano" com quem os autores se dizem tão preocupados. Por outro lado, quem critica não pode deixar de ter em conta os efeitos da retirada, para não falar já em alternativas à ocorrência da intervenção. (Dois artigos interessantes, longe do padrão derrotista da abordagem habitual, podem ver-se aqui e aqui.)
A propósito, também ontem passou o terceiro aniversário de uma vaga de repressão em Cuba, resultando na prisão de 75 pessoas (activistas de direitos humanos, jornalistas e outros trabalhadores, editores) cujo delito são as ideias de democracia que defendem. As condenações foram severas, tendo sido libertadas 15 das pessoas presas por razões de saúde. O acontecimento não foi muito assinalado. Que interessa a liberdade de pensamento e expressão à longa lista de promotores de protestos anti-EEUU? Obviamente, nada. O ditador Castro não está na sua agenda, a não ser para acções de discreta simpatia.
quarta-feira, março 15
Choque aritmético?
Estou muito céptico a respeito de uma notícia do dia: vai ser obrigatório publicitar a taxa de juro nos anúncios de crédito ao consumo.
Esta medida só poderia ser realmente eficaz depois de tornar obrigatória, para a concessão de crédito, a aprovação num exame nacional de Matemática (ou, pelo menos, de Aritmética Elementar, dirigida para as aplicações ao dia-a-dia). Não percamos a esperança e aguardemos pela regulamentação da lei.
Esta medida só poderia ser realmente eficaz depois de tornar obrigatória, para a concessão de crédito, a aprovação num exame nacional de Matemática (ou, pelo menos, de Aritmética Elementar, dirigida para as aplicações ao dia-a-dia). Não percamos a esperança e aguardemos pela regulamentação da lei.
sábado, março 11
Para 13 instrumentos de sopro
Para não parecer que tenho alguma má vontade contra W. A. Mozart, hoje rendo-me às comemorações. A minha sugestão de escuta é a Gran Partita k361. Pode-se ouvir uma amostra desses sons magníficos aqui.
Voltaire e(ntre) nós

Num artigo de opinião que aparece no PÚBLICO de hoje, Rui M. Tavares efabula sobre o que seriam as atitudes de Voltaire se ele vivesse nos dias de hoje. No domínio do fantástico, cada um escreve o que quer ou de acordo com a cartilha em que acredita. Assim, aparece-nos Voltaire a defender as minorias, a recusar a "superioridade civilizacional" e nunca a alinhar com o lado do "Ocidente", muito menos ainda com o "judeo-cristão".
Antes de Voltaire, também as atitudes de Cristo e de Maomé perante o caso das caricaturas são objecto de reflexão. Estamos, claro, em pleno delírio ficcional, mas o autor conclui em segurança que ambos encarariam a crise com magnânima indiferença. Eu não sei se tem ou deixa de ter razão, porque a afirmação é simplesmente vazia de significado. Fico é a pensar que Rui Tavares não terá lido com atenção os Evangelhos e o Corão.
Espantosa distorção da realidade pelos desejos, especialmente quando se trata de um historiador! Rui Tavares não explicita, mas a sua mensagem subliminar é clara: Voltaire está entre nós e é português! Fisicamente não é muito parecido com o original, mas por acaso até é ministro e já escreveu uma peça na actual reencarnação.
sexta-feira, março 10
O 8 de março em Teerão

Há notícia de que alguns gupos de mulheres sairam à rua em Teerão no 8 de março, a reclamar direitos. Terá havido espancamentos por parte da polícia, e prisões. Nas nossas televisões e jornais, tanto quanto sei, nada passou. Será porque a agência oficial iraniana não teve a gentileza de informar ninguém?
Claro que notícias como esta, divulgadas através de certos sites da internet, podem ser difíceis de verificar. Mas as que constituem propaganda óbvia do regime costumam passar como retratando fielmente a realidade e sem lugar a dúvidas.
NOTA ACRESCENTADA ÀS 22:00: O telejornal desta noite passou notícia da manifestação, com imagens.
quinta-feira, março 9
O cartão de eleitor e as peúgas brancas
Ontem ouviu-se falar muito do novo cartão único do cidadão. Explicaram que ele poderia funcionar também como cartão de eleitor. Ora, eu nunca percebi o que é que este cartão acrescentava ao bilhete de identidade, ou porque é que este não faz prova da condição de eleitor na freguesia onde se está inscrito. Haverá alguém que possa explicar isto?
A partir daqui lembrei-me, por associação, de um outro mistério, noutro âmbito, que também considero impenetrável: a generalidade das pessoas considera inadequado e piroso que os homens usem peúgas brancas. Poderá alguém dar razões que sustentem esse ditame? Seria interessante detectar a sua origem e saber se se trata de uma norma seguida em muitos lugares. O certo é que é a norma está instalada, a tal ponto que é difícil encontrar, no comércio, peúgas que não sejam pretas ou azul-escuras.
Aquilo que distingue as escuras, quanto a mim, é que se sujam sem se dar por isso. Assim, é presumível que alguém poderá aproveitar o facto para se limitar à mudança semanal de peúgas. Por outro lado, é bem sabido que a peúga branca é mais saudável, pelo facto de permitir maior dispersão do calor. Suspeito que ainda um dia alguma polícia da saúde vai virar a norma do avesso.
A partir daqui lembrei-me, por associação, de um outro mistério, noutro âmbito, que também considero impenetrável: a generalidade das pessoas considera inadequado e piroso que os homens usem peúgas brancas. Poderá alguém dar razões que sustentem esse ditame? Seria interessante detectar a sua origem e saber se se trata de uma norma seguida em muitos lugares. O certo é que é a norma está instalada, a tal ponto que é difícil encontrar, no comércio, peúgas que não sejam pretas ou azul-escuras.
Aquilo que distingue as escuras, quanto a mim, é que se sujam sem se dar por isso. Assim, é presumível que alguém poderá aproveitar o facto para se limitar à mudança semanal de peúgas. Por outro lado, é bem sabido que a peúga branca é mais saudável, pelo facto de permitir maior dispersão do calor. Suspeito que ainda um dia alguma polícia da saúde vai virar a norma do avesso.
terça-feira, março 7
O amor nos tempos de internet (9)
SOFIA
Desde que passei a viver com o Filipe, tenho que vir no meu velho punto para o trabalho em Lisboa. A diferença de horários e a distância entre os lugares de trabalho não nos permitem usar um só carro. Mudanças menores. Sabendo ele que eu estava habituada ao palácio do L., foi com um ar tímido que me disse, a primeira vez que me levou a sua casa: Aqui não tens electrodomésticos topo de gama... e eu comentei nessa altura que me bastava uma máquina de lavar roupa razoável: a invenção mais injustamente subestimada, provavelmente emsombrada pela pílula.
Para queimar os quarenta minutos que agora passo, todas as manhãs, no IC19, ligo o rádio, mas só como contrabalanço do ruído exterior da estrada. Os ouvidos não lhe dão atenção. O pensamento foge sistematicamente para episódios vividos em datas recentes. Todos os dias me recordo da decisão que tomei, chocada com o desfecho infeliz do meu namoro de faculdade, quando não quis ficar de braços cruzados à espera do que viria a seguir. Os colegas já tinham falado de uma coisa nova que tinha aparecido na internet, um site de namoros . Fui então ao namoros.com e redigi um anúncio piroso: "Não sou Vénus mas com certeza não darás como perdido o tempo que gastares para me conhecer. Idade não importa". Dois dias depois o L. enviava-me um número de telefone. No fim fiz sofrer o L. e fiz-me mal também a mim.
Mas ultimamente o que passa obsessivamente na minha cabeça, como uma cena de filme que se pode ver e rever em disco, é o episódio da nossa ida a Coimbra, no último ano em que estivemos juntos. O meu contacto com o Eduardo tinha sido sempre difícil: nunca perdoou ao L. a separação da mãe. Numa certa sexta feira de Janeiro o Eduardo estava connosco e o L. sugeriu que fôssemos sair de Lisboa. Fiz então mais uma tentativa de ser agradável: era boa altura de irmos visitar o António Reis, advogado bem estabelecido em Coimbra. Tinha sido meu colega e amigo muito próximo num 1º ano em que ele, por engano, frequentara economia. E todos os meses renovava o convite para lá irmos. Poderia ser de interesse para o Eduardo, finalista quase a ser despejado no difícil mercado de trabalho, ter um contacto potencialmente muito útil.
No sábado passeámos pela fila de praias entre a Consolação e S. Pedro de Muel e depois rumámos a Coimbra, onde o António e a Clara nos esperavam para jantar. O casal pareceu genuinamente simpatizar muito com o L. e o Eduardo, que tinha estado razoavelmente animado para o que era costume. Depois da fantástica perna de borrego no forno com um Rioja jovem, a Clara sugeriu que fôssemos ver a vivenda "deslumbrante" que tinham comprado em S. Martinho. Mas o António e o Eduardo estavam já enredados numa grande conversa sobre temas de advocacia. Clara, levas tu o L. e a Sofia, parece que o Eduardo tem vontade de ver os meus arquivos e a biblioteca.
O António era ele próprio um verdadeiro arquivo. Além de poder recitar os vários números de telemóvel de amigos e conhecidos, os NIB das contas bancárias, os números de utente disto e daquilo, tinha uma colecção descomunal de acórdãos que sabia quase de cor.
Nós fomos então com a Clara e eles ficaram. Quando voltámos, o Eduardo e o António tinham saído. A Clara tinha sido prevenida pelo telemóvel: vou fazer de guia do Eduardo à vida nocturna de Coimbra. Ficámos na conversa e no whisky até eles chegarem, já passava das duas. O Eduardo parecia estar ausente, talvez num sítio dentro de si mas longe dos outros, e quase não abriu a boca até ao regresso a Lisboa. A memória não teria regressado com insistência a esse dia se não fossem os factos de que o L. me falou recentemente.
Desde que passei a viver com o Filipe, tenho que vir no meu velho punto para o trabalho em Lisboa. A diferença de horários e a distância entre os lugares de trabalho não nos permitem usar um só carro. Mudanças menores. Sabendo ele que eu estava habituada ao palácio do L., foi com um ar tímido que me disse, a primeira vez que me levou a sua casa: Aqui não tens electrodomésticos topo de gama... e eu comentei nessa altura que me bastava uma máquina de lavar roupa razoável: a invenção mais injustamente subestimada, provavelmente emsombrada pela pílula.
Para queimar os quarenta minutos que agora passo, todas as manhãs, no IC19, ligo o rádio, mas só como contrabalanço do ruído exterior da estrada. Os ouvidos não lhe dão atenção. O pensamento foge sistematicamente para episódios vividos em datas recentes. Todos os dias me recordo da decisão que tomei, chocada com o desfecho infeliz do meu namoro de faculdade, quando não quis ficar de braços cruzados à espera do que viria a seguir. Os colegas já tinham falado de uma coisa nova que tinha aparecido na internet, um site de namoros . Fui então ao namoros.com e redigi um anúncio piroso: "Não sou Vénus mas com certeza não darás como perdido o tempo que gastares para me conhecer. Idade não importa". Dois dias depois o L. enviava-me um número de telefone. No fim fiz sofrer o L. e fiz-me mal também a mim.
Mas ultimamente o que passa obsessivamente na minha cabeça, como uma cena de filme que se pode ver e rever em disco, é o episódio da nossa ida a Coimbra, no último ano em que estivemos juntos. O meu contacto com o Eduardo tinha sido sempre difícil: nunca perdoou ao L. a separação da mãe. Numa certa sexta feira de Janeiro o Eduardo estava connosco e o L. sugeriu que fôssemos sair de Lisboa. Fiz então mais uma tentativa de ser agradável: era boa altura de irmos visitar o António Reis, advogado bem estabelecido em Coimbra. Tinha sido meu colega e amigo muito próximo num 1º ano em que ele, por engano, frequentara economia. E todos os meses renovava o convite para lá irmos. Poderia ser de interesse para o Eduardo, finalista quase a ser despejado no difícil mercado de trabalho, ter um contacto potencialmente muito útil.
No sábado passeámos pela fila de praias entre a Consolação e S. Pedro de Muel e depois rumámos a Coimbra, onde o António e a Clara nos esperavam para jantar. O casal pareceu genuinamente simpatizar muito com o L. e o Eduardo, que tinha estado razoavelmente animado para o que era costume. Depois da fantástica perna de borrego no forno com um Rioja jovem, a Clara sugeriu que fôssemos ver a vivenda "deslumbrante" que tinham comprado em S. Martinho. Mas o António e o Eduardo estavam já enredados numa grande conversa sobre temas de advocacia. Clara, levas tu o L. e a Sofia, parece que o Eduardo tem vontade de ver os meus arquivos e a biblioteca.
O António era ele próprio um verdadeiro arquivo. Além de poder recitar os vários números de telemóvel de amigos e conhecidos, os NIB das contas bancárias, os números de utente disto e daquilo, tinha uma colecção descomunal de acórdãos que sabia quase de cor.
Nós fomos então com a Clara e eles ficaram. Quando voltámos, o Eduardo e o António tinham saído. A Clara tinha sido prevenida pelo telemóvel: vou fazer de guia do Eduardo à vida nocturna de Coimbra. Ficámos na conversa e no whisky até eles chegarem, já passava das duas. O Eduardo parecia estar ausente, talvez num sítio dentro de si mas longe dos outros, e quase não abriu a boca até ao regresso a Lisboa. A memória não teria regressado com insistência a esse dia se não fossem os factos de que o L. me falou recentemente.
segunda-feira, março 6
Silêncio não inocente
Excertos adaptados do livro "Death of Feminism", de Phyllis Chesler, emerita professor of psychology and women's studies na City University of New York's College of Staten Island:
Os terroristas islâmicos declararam guerra ao "ocidente infiel" e contra todos os que aspiram à liberdade. As mulheres no mundo islâmico são tratadas a nível sub-humano. Embora algumas feministas tenham feito soar o sinal de alarme, muitas mais permaneceram em silêncio. Porque é que tantas erradamente romanticizaram terroristas como combatentes da liberdade, condenando a América e Israel como os verdadeiros terroristas e causa do terrorismo? Em nome da correcção multicultural, a academia e os media feministas parecem ter abandonado por completo as pessoas mais vulneráveis.
Por serem tão fortemente influenciados pelo pensamento de esquerda, os académicos e meios feministas julgam que falar de véus, chador, casamentos forçados, poligamia, gravidez forçada ou mutilação genital feminina é "imperialista" ou "cruzadista".
A maioria dos académicos e activistas não fazem nada, na realidade: lêem, escrevem, submetem artigos. Não podem libertar escravos ou prisioneiros como o pode fazer um exército, mas podem pensar com clareza, de maneira complexa e corajosa, e podem enunciar uma visão da liberdade e da dignidade para mulheres e homens. É crucial que o façam.
As mulheres e as minorias nos países muçulmanos não ocidentais, e na Europa crescentemente islamizada, estão em perigo como nunca antes estiveram. Em 2004 o cineasta holandês Theo van Gogh foi esfaqueado por um jihadista nas ruas de Amsterdão por ter feito um filme, Submissão, em que mostrava como as mulheres são abusadas sob o Islão Corânico. Contudo, o silêncio tanto de feministas como de cineastas sobre o assassinato de van Gogh é ensurdecedor e desmoralizador. Os mesmos que em Hollywood são rápidos a condenar bem alto o Presidente Bush por ter invadido o Afganistão e o Iraque têm, pelo menos até agora, permanecido em silêncio a respeito do terrível efeito que um tal assassínio à luz do dia pode ter na liberdade de expressão académica e artística.
Os terroristas islâmicos declararam guerra ao "ocidente infiel" e contra todos os que aspiram à liberdade. As mulheres no mundo islâmico são tratadas a nível sub-humano. Embora algumas feministas tenham feito soar o sinal de alarme, muitas mais permaneceram em silêncio. Porque é que tantas erradamente romanticizaram terroristas como combatentes da liberdade, condenando a América e Israel como os verdadeiros terroristas e causa do terrorismo? Em nome da correcção multicultural, a academia e os media feministas parecem ter abandonado por completo as pessoas mais vulneráveis.
Por serem tão fortemente influenciados pelo pensamento de esquerda, os académicos e meios feministas julgam que falar de véus, chador, casamentos forçados, poligamia, gravidez forçada ou mutilação genital feminina é "imperialista" ou "cruzadista".
A maioria dos académicos e activistas não fazem nada, na realidade: lêem, escrevem, submetem artigos. Não podem libertar escravos ou prisioneiros como o pode fazer um exército, mas podem pensar com clareza, de maneira complexa e corajosa, e podem enunciar uma visão da liberdade e da dignidade para mulheres e homens. É crucial que o façam.
As mulheres e as minorias nos países muçulmanos não ocidentais, e na Europa crescentemente islamizada, estão em perigo como nunca antes estiveram. Em 2004 o cineasta holandês Theo van Gogh foi esfaqueado por um jihadista nas ruas de Amsterdão por ter feito um filme, Submissão, em que mostrava como as mulheres são abusadas sob o Islão Corânico. Contudo, o silêncio tanto de feministas como de cineastas sobre o assassinato de van Gogh é ensurdecedor e desmoralizador. Os mesmos que em Hollywood são rápidos a condenar bem alto o Presidente Bush por ter invadido o Afganistão e o Iraque têm, pelo menos até agora, permanecido em silêncio a respeito do terrível efeito que um tal assassínio à luz do dia pode ter na liberdade de expressão académica e artística.
sábado, março 4
Mulher, marido, adeus
Esta notícia do ABC conta que as fórmulas de registo de família em Espanha vão passar a ser escritas em novilíngua. Marido e mulher darão lugar a "cônjuge A" e "cônjuge B"; pai e mãe a "progenitor A" e "progenitor B".
Parece, no entanto, que continuará a ser permitido o uso dos termos tradicionais no caso de uniões heterossexuais, apesar de o texto publicado no Boletim Oficial não o explicitar.
Parece, no entanto, que continuará a ser permitido o uso dos termos tradicionais no caso de uniões heterossexuais, apesar de o texto publicado no Boletim Oficial não o explicitar.
domingo, fevereiro 26
Longínquos carnavais
Vasco Pulido Valente refere hoje, na sua crónica no PÚBLICO, os carnavais dos velhos tempos salazaristas que "metem dó"... e diz que "felizmente, a polícia de Ditadura suprimiu estas manifestações". É verdade: os carnavais até ao fim dos anos 50 implicavam, tanto quanto me permite recordar a minha memória de criança, brincadeiras inaceitáveis para os nossos padrões de hoje. Vivi até à adolescência numa vila alentejana e não esqueço uma partida de carnaval a que assisti de perto. Naquele tempo, quando se chegava à porta de alguém, não havia campainhas, mas sim uns martelos metálicos. A família A, que vivia uma porta a seguir à minha, tinha um velho contencioso com a família B (universalmente considerada antipática), que vivia no outro lado da rua. Num carnaval que a minha memória e discreção não me permitem precisar, a criada (agora diz-se empregada doméstica, mas nessa altura essa expressão pareceria de um outro planeta) da família A foi untar o martelo da porta da família B com fezes (dos A, obviamente), veio contar às crianças da rua e ficámos todos atrás das cortinas a ver quando chegava o Sr. B a casa: gritou impropérios ao perceber que tinha posto a mão em merda.
E a minha avó materna falava dos "batecus" de ainda mais antigamente: dois fulanos abordavam um sujeito indefeso, um pegava-lhe pelos braços e outro pelas pernas e faziam-no bater repetidamente com o traseiro no chão.
Mas há outra memória do carnaval daqueles tempos que tem mais elevação: as "danças". As danças eram grupos de homens que percorriam a vila, parando aqui e além, executando uma coreografia monótona mas embaladora, tendo por fundo um texto do qual não recordo uma palavra, e com muita percussão, muitas pandeiretas. Metade actuavam como homens e outra metade travestidos de mulheres, lábios pintados de encarnado e maquilhados com enormes rosetas nas faces. As pessoas diziam "vamos ver as danças", ou "vem aí a dança", e tudo parava a ver e escutar. Provavelmente tratava-se da sobrevivência de um ritual medieval, que poderia fazer as delícias de antropólogos sem assunto e motivar alguma tese de mestrado ou doutoramento mais interessante do que muitas. Talvez existam estudos sobre o assunto, mas não os não conheço. Garanto, eu vi as danças, da minha janela, muitos anos atrás, quando era tão pequeno que não me deixavam sair à rua sozinho.
E a minha avó materna falava dos "batecus" de ainda mais antigamente: dois fulanos abordavam um sujeito indefeso, um pegava-lhe pelos braços e outro pelas pernas e faziam-no bater repetidamente com o traseiro no chão.
Mas há outra memória do carnaval daqueles tempos que tem mais elevação: as "danças". As danças eram grupos de homens que percorriam a vila, parando aqui e além, executando uma coreografia monótona mas embaladora, tendo por fundo um texto do qual não recordo uma palavra, e com muita percussão, muitas pandeiretas. Metade actuavam como homens e outra metade travestidos de mulheres, lábios pintados de encarnado e maquilhados com enormes rosetas nas faces. As pessoas diziam "vamos ver as danças", ou "vem aí a dança", e tudo parava a ver e escutar. Provavelmente tratava-se da sobrevivência de um ritual medieval, que poderia fazer as delícias de antropólogos sem assunto e motivar alguma tese de mestrado ou doutoramento mais interessante do que muitas. Talvez existam estudos sobre o assunto, mas não os não conheço. Garanto, eu vi as danças, da minha janela, muitos anos atrás, quando era tão pequeno que não me deixavam sair à rua sozinho.
sexta-feira, fevereiro 24
Palavras e expressões de que não gosto
nomeadamente
designadamente
ensino-aprendizagem (ou é com barra?)
flexibilidade curricular
atitudes, competências, cidadania (quando utilizadas nos textos do ministério ou dos chamados especialistas da educação ou a propósito do "movimento" de Manuel Alegre)
territórios educativos
dificuldades educativas acrescidas
escola inclusiva
processo de bolonha (Bolonha é uma bela cidade que não tem culpa)
em sede de
moldura penal
assistente (quando utilizada num processo jurídico)
Há mais. Estas são as que me ocorrem em primeiro lugar. Fica aqui o apelo ao Lino2 para indicar as suas escolhas, mas que isso não seja desculpa para se atrasar com a blognovela. Já agora, gostava também de conhecer as listas do ON e do OMWO do Prozacland (link ao lado).
designadamente
ensino-aprendizagem (ou é com barra?)
flexibilidade curricular
atitudes, competências, cidadania (quando utilizadas nos textos do ministério ou dos chamados especialistas da educação ou a propósito do "movimento" de Manuel Alegre)
territórios educativos
dificuldades educativas acrescidas
escola inclusiva
processo de bolonha (Bolonha é uma bela cidade que não tem culpa)
em sede de
moldura penal
assistente (quando utilizada num processo jurídico)
Há mais. Estas são as que me ocorrem em primeiro lugar. Fica aqui o apelo ao Lino2 para indicar as suas escolhas, mas que isso não seja desculpa para se atrasar com a blognovela. Já agora, gostava também de conhecer as listas do ON e do OMWO do Prozacland (link ao lado).
quinta-feira, fevereiro 23
As ruas de Teerão

Já me referi a um aspecto irritante dos noticiários de tv que ontem voltou a repetir-se. Num telejornal da noite foram mostradas imagens encenadas em Teerão da habitual queima de bandeiras em frente de embaixadas ocidentais. O que se via era um pequeno grupo de figurantes filmado à altura do operador de câmara, mas o locutor falava de "ruas cheias em Teerão".
Este modo acrítico de reproduzir os materiais provenientes de países onde as manifestações são encenadas pelo poder e por grupos extremistas pode dever-se a desleixo e incompetência, mas também podemos perguntar-nos se não terá a ver com posições políticas, dentro das redacções, daqueles que nunca deixaram de viver uma longa paixão por tudo o que é regime totalitário.
(Cartoon de Mike Luckovich, Atlanta Journal)
domingo, fevereiro 19
A ciência
Eu, como certamente os meus 7 ou 8 leitores, temos alguma noção de que a queda de uma maçã e os movimentos dos planetas têm uma causa universal comum. Ou das intimidades entre campo eléctrico e campo magnético. Mas, francamente, se me perguntassem em que aspectos ficam afectadas as mulheres atingidas por doença que levou à ablação de um seio, eu provavelmente responderia, depois de um esforço grande: sei lá, talvez na capacidade de cozinhar ou de conduzir um automóvel. Felizmente ontem à noite o telejornal da RTP1 veio abrir-me os olhos: foi divulgado um estudo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada onde se concluía que afinal aquelas senhoras ficam afectadas mas é na auto-estima, na relação com o corpo e na sexualidade.
Se não fosse a ciência, o que seria a nossa visão do mundo?
Se não fosse a ciência, o que seria a nossa visão do mundo?
sábado, fevereiro 18
O amor nos tempos de internet (8)
O primeiro sinal da fuga iminente de Sofia, a que verdadeiramente não prestei atenção, surgiu pouco depois da Páscoa do ano passado. Ela tinha começado nesse ano a dar um curso de formação noutra empresa fora de horas. As aulas terminavam às 11 da noite e costumava chegar a casa entre as 11.15 e as 11.20. Certa noite do fim de Abril, eu estava muito cansado e deitei-me antes de ela chegar. Adormeci pesadamente mas acordei passado pouco tempo. Estendi o braço e toquei na ausência de Sofia. Acendi a luz, vi que passava da meia noite. Levantei-me a correr, e quando confirmei que não estava corri para o telemóvel. A chamada foi recusada, mas passado um minuto a chave rodava na porta.
Que foi, amor? Perguntei, já estava assustado. Os alunos hoje retiveram-me imenso tempo depois da aula, explicou, tranquilizante. Gerou-se uma discussão enorme à volta de um problema prático que confundiu a turma toda. Cortei-te a chamada porque não valia a pena gastares o impulso, já estava na garagem. Abraçou-me e beijou-me de fugida e passados menos de dez minutos estávamos a adormecer abraçados, como era hábito. Mas, meses mais tarde, este episódio iria ser revisto por mim como o primeiro sintoma do que estava a preparar-se. Embora sem voltar a falar nisso, fiquei com a certeza de que, naquela noite, Sofia tinha estado com o outro, talvez apenas num passeio nocturno a seguir à aula, talvez algo mais.
No início de Maio o comportamento de Sofia começou a chamar-me a atenção. Um domingo de manhã, num fim de semana quente que o Eduardo não tinha vindo passar connosco, estava ela no escritório a folhear dossiers e eu entrei para lhe perguntar, como era hábito, o que íamos fazer. Ela levou instintivamente a mão ao telemóvel que estava em cima da secretária. Foi um gesto muito rápido, inconsciente, indício de um receio comprometido. Este sinal perturbou-me, mas por ser isolado não me entretive a dar-lhe importância. Depois de almoço passeámos longamente costa do Alentejo abaixo e mergulhámos em Melides. No regresso jantámos num restaurante da estrada, a caminho de Comporta, frente à planície e ao pôr do sol com uma luz magnífica feita de vermelhos e azuis-cinzentos. Como sempre, foi a Sofia que escolheu com prazer o vinho. Quando brindámos disse, também como era hábito: À tua, meu querido, muitos anos de vida para me fazeres feliz.
Semanas mais tarde, esta cena iria intrigar-me. O dia havia de ser depois recordado como o último em que tinha estado na praia com Sofia. Talvez ela não quisesse, de facto, deixar-me, mas alguma coisa mais forte do que a sua vontade já tinha posto em marcha o golpe de ruptura.
O aviso final surgiu no fim de Maio. A aula de formação à sexta-feira terminava às dez da noite. Eu ficava a trabalhar até mais tarde e ia buscá-la para jantar fora. Dessa vez não aconteceu, e não voltaria a acontecer. Na véspera à noite tinha-me dito: A minha mãe tem insistido tanto para eu ir lá, por causa do problema da casa... estou a pensar ir lá jantar amanhã, importas-te? Senti um golpe interior e reagi sem grande firmeza. Oh, mas porquê mesmo amanhã? Porque já não os vejo há bastante tempo e também lá está amanhã o meu irmão, a justificação veio pronta, mostrando que a decisão estava tomada. Como as relações com os meus sogros eram geladas, para usar um eufemismo, nada do que acontecesse nessa sexta seria fácil de verificar. Deitei-me às duas, sem Sofia e sem sono.
Que foi, amor? Perguntei, já estava assustado. Os alunos hoje retiveram-me imenso tempo depois da aula, explicou, tranquilizante. Gerou-se uma discussão enorme à volta de um problema prático que confundiu a turma toda. Cortei-te a chamada porque não valia a pena gastares o impulso, já estava na garagem. Abraçou-me e beijou-me de fugida e passados menos de dez minutos estávamos a adormecer abraçados, como era hábito. Mas, meses mais tarde, este episódio iria ser revisto por mim como o primeiro sintoma do que estava a preparar-se. Embora sem voltar a falar nisso, fiquei com a certeza de que, naquela noite, Sofia tinha estado com o outro, talvez apenas num passeio nocturno a seguir à aula, talvez algo mais.
No início de Maio o comportamento de Sofia começou a chamar-me a atenção. Um domingo de manhã, num fim de semana quente que o Eduardo não tinha vindo passar connosco, estava ela no escritório a folhear dossiers e eu entrei para lhe perguntar, como era hábito, o que íamos fazer. Ela levou instintivamente a mão ao telemóvel que estava em cima da secretária. Foi um gesto muito rápido, inconsciente, indício de um receio comprometido. Este sinal perturbou-me, mas por ser isolado não me entretive a dar-lhe importância. Depois de almoço passeámos longamente costa do Alentejo abaixo e mergulhámos em Melides. No regresso jantámos num restaurante da estrada, a caminho de Comporta, frente à planície e ao pôr do sol com uma luz magnífica feita de vermelhos e azuis-cinzentos. Como sempre, foi a Sofia que escolheu com prazer o vinho. Quando brindámos disse, também como era hábito: À tua, meu querido, muitos anos de vida para me fazeres feliz.
Semanas mais tarde, esta cena iria intrigar-me. O dia havia de ser depois recordado como o último em que tinha estado na praia com Sofia. Talvez ela não quisesse, de facto, deixar-me, mas alguma coisa mais forte do que a sua vontade já tinha posto em marcha o golpe de ruptura.
O aviso final surgiu no fim de Maio. A aula de formação à sexta-feira terminava às dez da noite. Eu ficava a trabalhar até mais tarde e ia buscá-la para jantar fora. Dessa vez não aconteceu, e não voltaria a acontecer. Na véspera à noite tinha-me dito: A minha mãe tem insistido tanto para eu ir lá, por causa do problema da casa... estou a pensar ir lá jantar amanhã, importas-te? Senti um golpe interior e reagi sem grande firmeza. Oh, mas porquê mesmo amanhã? Porque já não os vejo há bastante tempo e também lá está amanhã o meu irmão, a justificação veio pronta, mostrando que a decisão estava tomada. Como as relações com os meus sogros eram geladas, para usar um eufemismo, nada do que acontecesse nessa sexta seria fácil de verificar. Deitei-me às duas, sem Sofia e sem sono.
Da vida real
Ilan Hilami, 23 anos, trabalhava numa loja de telemóveis na área de Paris. Uma jovem cliente assídua conquista-lhe a simpatia e um dia convida-o para tomar um copo. O convite é uma armadilha: Ilan é raptado por um bando de delinquentes, chefiado por Youssef Fofana, que pedem um resgate de 450 000 euros. A mãe de Ilan não tem meios de fazer face ao resgate. O corpo de Ilan, com mostras evidentes de tortura, apareceu no passado dia 13.
Ilan era judeu. Youssef é muçulmano.
Ilan era judeu. Youssef é muçulmano.
Os moderados existem
"É uma ironia que hoje viva num estado democrático europeu e tenha que lutar contra os mesmos fanáticos religiosos de que fugi no Irão há anos". Palavras de Kamran Tahmasebi, refugiado na Dinamarca desde 1989. O caso das caricaturas levou-o a levantar a voz contra os imams na Dinamarca, que afirma prejudicarem a o processo de integração e constituirem um dos maiores problemas que o país enfrenta. Sabe bem que enfrenta riscos sérios, mas envolveu-se na dinamização de uma Rede de Muçulmanos Moderados.
Alguns responsáveis ocidentais ajoelham-se e pedem desculpas aos que têm comportamentos violentos e inadmissíveis contra o nosso modo de vida. Costumam invocar a distinção entre muçulmanos moderados e extremistas. Na verdade, estão a pedir desculpas aos extremistas, e é provável que não acreditem na existência dos tais moderados. Se acreditassem, deveriam ter em conta que a atitude capitulacionista é, antes de mais, uma bofetada aos que têm apreço pelos nossos valores, independentemente da sua origem ou credo.
Alguns responsáveis ocidentais ajoelham-se e pedem desculpas aos que têm comportamentos violentos e inadmissíveis contra o nosso modo de vida. Costumam invocar a distinção entre muçulmanos moderados e extremistas. Na verdade, estão a pedir desculpas aos extremistas, e é provável que não acreditem na existência dos tais moderados. Se acreditassem, deveriam ter em conta que a atitude capitulacionista é, antes de mais, uma bofetada aos que têm apreço pelos nossos valores, independentemente da sua origem ou credo.
sexta-feira, fevereiro 17
Cinco manias - resposta
Finalmente respondo ao ON do Prozacland, após um esforço (fácil) para identificar 5 manias confessáveis:
1ª dormir cedo e com duas gretas do estore abertas
2ª jantar num restaurante pelo menos um dia por semana
3ª ir de preferência às sessões de cinema das 18 ou 19 (para evitar adormecer quando o filme não presta)
4ª ler novelas no original quando conheço a língua
5ª comprar cds com versões de canções de Cole Porter, quando os descubro
1ª dormir cedo e com duas gretas do estore abertas
2ª jantar num restaurante pelo menos um dia por semana
3ª ir de preferência às sessões de cinema das 18 ou 19 (para evitar adormecer quando o filme não presta)
4ª ler novelas no original quando conheço a língua
5ª comprar cds com versões de canções de Cole Porter, quando os descubro
quinta-feira, fevereiro 16
Homens, mulheres e fantasmas
quarta-feira, fevereiro 15
Liberdade de expressão armadilhada
É curioso como os meios de informação com maior impacto frequentemente malbaratam a liberdade de expressão e a independência que seriam supostos possuir.
Repare-se, por exemplo, nas referências ao Irão durante a crise actual. Fala-se, claro, no enriquecimento de urânio, que é notícia. Mas não me recordo de ter ouvido ou visto nada sobre a recente greve de motoristas em Teerão, que desencadeou uma vaga de prisões e repressão sobre as famílias dos organizadores do protesto. Parece que a direcção da associação de motoristas pede a solidariedade de sindicatos franceses.
Há também rumores de que as comemorações do 27º aniversário da revolução islâmica esbarraram na falta de entusiasmo da população, não tendo havido multidão para mostrar nas ruas.
Entretanto, Amir Abbas Fakhravar, proeminente dissidente que actualmente vive escondido, deu uma entrevista à National Review Online.
Estas notícias podem requerer confirmações e investigação. Mas que fazem, por exemplo, as televisões? Em termos de imagem, limitam-se a passar as violências e queimas de bandeiras junto a embaixadas ocidentais em Teerão: encenações rombas, risíveis, com umas dezenas de figurantes inexperientes que fariam o fracasso de qualquer filme comercial. Ora, quem põe no ar as imagens não é ingénuo. Podemos concluir que há entre nós muita gente que assume com naturalidade o papel de porta voz do regime teocrático.
Repare-se, por exemplo, nas referências ao Irão durante a crise actual. Fala-se, claro, no enriquecimento de urânio, que é notícia. Mas não me recordo de ter ouvido ou visto nada sobre a recente greve de motoristas em Teerão, que desencadeou uma vaga de prisões e repressão sobre as famílias dos organizadores do protesto. Parece que a direcção da associação de motoristas pede a solidariedade de sindicatos franceses.
Há também rumores de que as comemorações do 27º aniversário da revolução islâmica esbarraram na falta de entusiasmo da população, não tendo havido multidão para mostrar nas ruas.
Entretanto, Amir Abbas Fakhravar, proeminente dissidente que actualmente vive escondido, deu uma entrevista à National Review Online.
Estas notícias podem requerer confirmações e investigação. Mas que fazem, por exemplo, as televisões? Em termos de imagem, limitam-se a passar as violências e queimas de bandeiras junto a embaixadas ocidentais em Teerão: encenações rombas, risíveis, com umas dezenas de figurantes inexperientes que fariam o fracasso de qualquer filme comercial. Ora, quem põe no ar as imagens não é ingénuo. Podemos concluir que há entre nós muita gente que assume com naturalidade o papel de porta voz do regime teocrático.
terça-feira, fevereiro 14
De vez em quando também se distraem...
... os guardiões da linguagem politicamente correcta. Ainda não ouvi mencionar o dia dos namorados e das namoradas. Imperdoável!
segunda-feira, fevereiro 13
O lugar do mas
A crise dos cartoons veio, curiosamente, exigir clarificação de posições políticas no que toca ao tema muito sensível da liberdade de expressão e desmascarar hipocrisias que costumavam passar despercebidas sob o manto do progressismo, sobretudo no campo da esquerda órfã do Muro.
A linha divisória não é entre esquerda e direita, conceitos vagos e inapropriados, mas, no caso concreto, entre os que defendem a liberdade de expressão mas compreendem - quando não justificam - a susceptibilidade dos sentimentos religiosos e as reacções dos fanáticos que fazem ameaças de morte, e os que reconhecem o direito ao protesto e às suas consequências em estado de direito mas põem em primeiro lugar a defesa da liberdade de expressão. Tudo depende, como se vê, do lugar que as frases ocupam em relação à palavrinha adversativa.
Na prática, a piedosa tolerância para com os sentimentos religiosos exibida pelos sectores da esquerda empedernida e todos os que, noutras esferas políticas, por aqueles têm sido contagiados, só se manifesta, como se vê, quando a religião ofendida é a mesma que obriga a vestir burkas, apedrejar mulheres e que, numa palavra, prega a condenação à morte dos apóstatas e infiéis. Se se tratasse de uma posição de princípio, motivos não teriam faltado para que os mesmos se fizessem ouvir entre nós em muitas ocasiões. Pelo que podemos concluir que, dependendo do que lhes convém, ora gritam A mas B, ora sussurram B mas A.
A linha divisória não é entre esquerda e direita, conceitos vagos e inapropriados, mas, no caso concreto, entre os que defendem a liberdade de expressão mas compreendem - quando não justificam - a susceptibilidade dos sentimentos religiosos e as reacções dos fanáticos que fazem ameaças de morte, e os que reconhecem o direito ao protesto e às suas consequências em estado de direito mas põem em primeiro lugar a defesa da liberdade de expressão. Tudo depende, como se vê, do lugar que as frases ocupam em relação à palavrinha adversativa.
Na prática, a piedosa tolerância para com os sentimentos religiosos exibida pelos sectores da esquerda empedernida e todos os que, noutras esferas políticas, por aqueles têm sido contagiados, só se manifesta, como se vê, quando a religião ofendida é a mesma que obriga a vestir burkas, apedrejar mulheres e que, numa palavra, prega a condenação à morte dos apóstatas e infiéis. Se se tratasse de uma posição de princípio, motivos não teriam faltado para que os mesmos se fizessem ouvir entre nós em muitas ocasiões. Pelo que podemos concluir que, dependendo do que lhes convém, ora gritam A mas B, ora sussurram B mas A.
sábado, fevereiro 11
Os nossos valores estão a ser espezinhados. Exigimos desculpas
Sonia Mikish exige desculpas a governos de países onde os nossos valores não são respeitados.
I feel offended.
Zealots are nailing veils onto the faces of my sisters in Afghanistan and Pakistan and are busy hanging women, homosexuals, adulterers and non-believers.
But human rights, women's rights and the right to liberty are the most exalted in the history of humanity; this is the tradition in which I was raised. Values that make the world better and more peaceful.
I demand that the governments of Saudi Arabia, Palestine, Indonesia and Egypt apologise to me. Otherwise I am unfortunately forced to threaten, beat up, kidnap or behead their citizens. Because I am somewhat sensitive about my cultural identity. (...)
Artigo publicado em Die Tageszeitung, 6 de fevereiro.
I feel offended.
Zealots are nailing veils onto the faces of my sisters in Afghanistan and Pakistan and are busy hanging women, homosexuals, adulterers and non-believers.
But human rights, women's rights and the right to liberty are the most exalted in the history of humanity; this is the tradition in which I was raised. Values that make the world better and more peaceful.
I demand that the governments of Saudi Arabia, Palestine, Indonesia and Egypt apologise to me. Otherwise I am unfortunately forced to threaten, beat up, kidnap or behead their citizens. Because I am somewhat sensitive about my cultural identity. (...)
Artigo publicado em Die Tageszeitung, 6 de fevereiro.
quarta-feira, fevereiro 8
Os respeitos e o medo
É lugar comum comentar, a propósito das fricções entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, que os muçulmanos não são todos terroristas e nem todos se deixam guiar pelos incitamentos à violência por militantes, agitadores e governos radicais.
Eu estou de acordo com o pressuposto. Quero até acreditar que uma parte muito importante da população de países islâmicos, uma parte com potencialidades para desempenhar um papel activo na transformação política dos respectivos regimes, partilha apreço por valores ocidentais e gostaria de poder usufruir deles nos seus países.
Então a quem servem os constantes "reconhecimentos de erros", auto-humilhações e pedidos de desculpa dos porta-vozes ocidentais face à ameaça ululante de quem queima e assassina? Não, certamente, aos que no mundo islâmico gostariam de poder lutar por mais abertura e liberdade. Claro que também não creio que os nossos timoratos líderes que se ajoelham queiram servir os radicais: simplesmente, perante a sua fúria, tremem de medo. É nisto que estamos.
Eu estou de acordo com o pressuposto. Quero até acreditar que uma parte muito importante da população de países islâmicos, uma parte com potencialidades para desempenhar um papel activo na transformação política dos respectivos regimes, partilha apreço por valores ocidentais e gostaria de poder usufruir deles nos seus países.
Então a quem servem os constantes "reconhecimentos de erros", auto-humilhações e pedidos de desculpa dos porta-vozes ocidentais face à ameaça ululante de quem queima e assassina? Não, certamente, aos que no mundo islâmico gostariam de poder lutar por mais abertura e liberdade. Claro que também não creio que os nossos timoratos líderes que se ajoelham queiram servir os radicais: simplesmente, perante a sua fúria, tremem de medo. É nisto que estamos.
quinta-feira, fevereiro 2
Dinamarca, Alemanha, Noruega, França
Aguarda-se que, em solidariedade, se façam ouvir as vozes dos destemidos que gostam de caricaturar símbolos religiosos, quando se trata da igreja católica. Afinal publicar desenhos do papa com preservativo no nariz é tão fácil como um passeio na Avenida.
quarta-feira, fevereiro 1
Recado a Odete
No forum tsf de hoje (que contou, diga-se de passagem, com algumas intervenções hilariantes, entre as quais a de um médico, se não erro) Odete Santos, perguntada sobre a posição do PCP sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, apontou o caso português como muito complicado, devido ao pretenso moralismo de natureza judaico-cristã (cito de cor, não garanto que as palavras exactas tenham sido estas). Odete não deve ter reparado que os países onde aquela forma de casamento está reconhecida são todos de cultura judaico-cristã. Esqueceu-se também de mencionar a lista dos países com regimes comunistas ou aparentados, ou que já os tiveram, onde duas pessoas do mesmo sexo podem casar à vontade.
A ausência de utopia
Porque está o liberalismo em recuo na América Latina? Artigo de Hector Ñaupari aqui.
terça-feira, janeiro 31
O amor nos tempos de internet (7)
-Está, Dino?
-Sim, olá Eduardo, que tal?
-Tudo bem. Conseguiste alguma coisa?
-Vê tu, dos escritórios a quem enviei currículos por enquanto só um é que me contactou e parece-me que não vai dar nada
-Eu começo a ficar desesperado
-Também não é para tanto, ó
-Não será para ti, Dino, mas para mim o estágio é vital
-Por causa do teu pai?
-Do meu pai e de tudo... E agora com a doença da minha mãe as coisas estão piores. Não tenho pachorra para o meu pai e tenho que ficar mais vezes lá em casa.
-Ele já anda com outra?
-Acho que anda com duas, uma que dorme lá quase sempre e outra que deve ter engatado há pouco tempo.
-Porra, que pedalada, devias ter orgulho num pai desses
-Vai-te lixar. Olha que eu só te conto isto a ti, no último dia que lá estive descobri no computador um bocado de conversa de chat com uma tipa do norte.
-Velha ou nova?
-Pelo meu cálculo, bem nova.
-Fogo!
-Certo é que ele quando estava com a outra gaja as atenções eram todas para ela e depois de ela lhe por os palitos ficou tão desorientado que nem é capaz de fixar a uma frase minha, já te falei disto. Dá-me guito mas não me dá atenção. Em resumo, preciso de ficar independente o mais rápido possível
-Mas como? No estágio não costumam pagar nada que se veja!
-Depende... há sítios onde te pagam, lembras-te do caso da Isabel Alves, aquela que andava a repetir Penal II? Arranjou logo em Agosto um escritório onde lhe prometeram 700 euros à entrada.
-Eu se queres que te diga não acredito muito nessa gaja, mas pode ser... de qualquer modo é um caso que não serve de exemplo... É tão raro que até parece que houve camas pelo meio. Tu topas bem como ela se punha nas aulas do Andrade?
-Não sei, acho que estás a exagerar. Sei lá, não ponho as mãos no lume. Ainda ficas muito tempo aí na Guarda?
-Vou para Lisboa no fim de semana
-Óptimo, apitas para irmos tomar um copo?
-Não sei, quando for para aí vou ficar em casa da Sandra a Setúbal, os pais dela foram a um cruzeiro... tenho que aproveitar mas a gente depois combina
-Ah, ok, um abraço
-Xau
-Sim, olá Eduardo, que tal?
-Tudo bem. Conseguiste alguma coisa?
-Vê tu, dos escritórios a quem enviei currículos por enquanto só um é que me contactou e parece-me que não vai dar nada
-Eu começo a ficar desesperado
-Também não é para tanto, ó
-Não será para ti, Dino, mas para mim o estágio é vital
-Por causa do teu pai?
-Do meu pai e de tudo... E agora com a doença da minha mãe as coisas estão piores. Não tenho pachorra para o meu pai e tenho que ficar mais vezes lá em casa.
-Ele já anda com outra?
-Acho que anda com duas, uma que dorme lá quase sempre e outra que deve ter engatado há pouco tempo.
-Porra, que pedalada, devias ter orgulho num pai desses
-Vai-te lixar. Olha que eu só te conto isto a ti, no último dia que lá estive descobri no computador um bocado de conversa de chat com uma tipa do norte.
-Velha ou nova?
-Pelo meu cálculo, bem nova.
-Fogo!
-Certo é que ele quando estava com a outra gaja as atenções eram todas para ela e depois de ela lhe por os palitos ficou tão desorientado que nem é capaz de fixar a uma frase minha, já te falei disto. Dá-me guito mas não me dá atenção. Em resumo, preciso de ficar independente o mais rápido possível
-Mas como? No estágio não costumam pagar nada que se veja!
-Depende... há sítios onde te pagam, lembras-te do caso da Isabel Alves, aquela que andava a repetir Penal II? Arranjou logo em Agosto um escritório onde lhe prometeram 700 euros à entrada.
-Eu se queres que te diga não acredito muito nessa gaja, mas pode ser... de qualquer modo é um caso que não serve de exemplo... É tão raro que até parece que houve camas pelo meio. Tu topas bem como ela se punha nas aulas do Andrade?
-Não sei, acho que estás a exagerar. Sei lá, não ponho as mãos no lume. Ainda ficas muito tempo aí na Guarda?
-Vou para Lisboa no fim de semana
-Óptimo, apitas para irmos tomar um copo?
-Não sei, quando for para aí vou ficar em casa da Sandra a Setúbal, os pais dela foram a um cruzeiro... tenho que aproveitar mas a gente depois combina
-Ah, ok, um abraço
-Xau
domingo, janeiro 29
Prova de vida
Eleições e terceiro-mundismo
Que caracteriza as eleições num país terceiro-mundista? Segundo Mario Vargas Llosa:
O protótipo de uma eleição terceiro-mundista é que nela tudo parece estar em questão e regressar ao zero, desde a própria natureza das instituições até à política económica e às relações entre poder e sociedade. E, em consequência, o país retrocede de imediato, perdendo da noite para o dia tudo o que ganhou ao longo de anos...
O protótipo de uma eleição terceiro-mundista é que nela tudo parece estar em questão e regressar ao zero, desde a própria natureza das instituições até à política económica e às relações entre poder e sociedade. E, em consequência, o país retrocede de imediato, perdendo da noite para o dia tudo o que ganhou ao longo de anos...
Greve em Teerão
Condutores de transportes públicos fizeram greve ontem em Teerão, apesar da forte repressão que teve como objecto activistas e as suas famílias. Esperam-se acusações falsas para legitimar condenações severas. (Via Publius Pundit)
sábado, janeiro 28
A mente não tão louca de Ahmadinejad
Nma lúcida análise de Victor Davis Hanson, traduzida em Libertad Digital, refere-se que a Europa, pelas piores razões, é um dos alvos do discurso de Ahmadinejad. Saliento:
...levantar dudas sobre ese genocidio es tan objetivo de Ahmadineyad, como apuntar sus armas al centro de Tel Aviv. La negación del Holocausto es un juego cansino pero su forma de abordarlo es distinta.
Ha estudiado la moderna mente postmoderna de Occidente, alimentada por la sagrada trinidad del multiculturalismo, la equivalencia moral y el relativismo. Como populista del Tercer Mundo, Ahmadineyad espera que su propio fascismo escape al escrutinio público si logra enumerar la suficiente cantidad de pecados pasados de Occidente. También entiende de victimismo. Así es que también sabe que para destruir a los israelíes, él –no ellos– debe convertirse en la víctima y que los europeos han de ser los que fuercen su mano. Citando a Ahmadineyad:
“De modo que les pregunto: Si en verdad ustedes cometieron ese gran crimen, ¿por qué la gente oprimida de Palestina debe ser castigada por ello? Si ustedes cometieron un crimen, son ustedes los que deberían pagar por ello.”
Ahmadineyad también comprende que hay millones de occidentales altamente educados pero cínicos, que no ven nada excepcional en su propia cultura. Si el democrático Estados Unidos tiene armas nucleares, ¿por qué no el Irán teocrático? “Los arsenales de Occidente rebosan a tope, sin embargo cuando es el turno de una nación como la mía para que desarrolle tecnología nuclear pacífica, ustedes objetan y recurren a las amenazas.”
Además, él sabe cómo funciona el relativismo occidental. De modo que, ¿quién puede decir que estos son “hechos”, o que esto es “verdad”, dada la tendencia de los poderosos a “construir” sus propias narrativas y llamar a ese resultado “Historia”? ¿No será que se exageró el Holocausto o que quizá hasta fue un invento, y que las simples cárceles se convirtieron en “campos de la muerte” gracias a un truco del lenguaje para apoderarse de tierra palestina?
Nos reímos pensando que todo esto es absurdo. Pero no deberíamos. El dinero, el petróleo y las amenazas han traído a los teócratas iraníes hasta el umbral mismo de un arsenal nuclear. Su extraordinario diagnóstico del malestar occidental los ha convencido ahora de que pueden fabricar cuidadosamente una realidad sin Holocausto en la cual los musulmanes son las víctimas y los judíos los agresores merecedores de castigo. Y por ende, el Irán moralmente agraviado (y nuclear) de Ahmadineyad podrá por fin, después de “cientos de años de guerra”, poner las cosas en su sitio en Oriente Medio.
Y entonces, a un mundo que desea continuar ganando dinero y conducir coches en paz no le importará mucho la forma cómo este hombre escogido por la divinidad termine finalmente con esa fastidiosa “guerra del destino”.
...levantar dudas sobre ese genocidio es tan objetivo de Ahmadineyad, como apuntar sus armas al centro de Tel Aviv. La negación del Holocausto es un juego cansino pero su forma de abordarlo es distinta.
Ha estudiado la moderna mente postmoderna de Occidente, alimentada por la sagrada trinidad del multiculturalismo, la equivalencia moral y el relativismo. Como populista del Tercer Mundo, Ahmadineyad espera que su propio fascismo escape al escrutinio público si logra enumerar la suficiente cantidad de pecados pasados de Occidente. También entiende de victimismo. Así es que también sabe que para destruir a los israelíes, él –no ellos– debe convertirse en la víctima y que los europeos han de ser los que fuercen su mano. Citando a Ahmadineyad:
“De modo que les pregunto: Si en verdad ustedes cometieron ese gran crimen, ¿por qué la gente oprimida de Palestina debe ser castigada por ello? Si ustedes cometieron un crimen, son ustedes los que deberían pagar por ello.”
Ahmadineyad también comprende que hay millones de occidentales altamente educados pero cínicos, que no ven nada excepcional en su propia cultura. Si el democrático Estados Unidos tiene armas nucleares, ¿por qué no el Irán teocrático? “Los arsenales de Occidente rebosan a tope, sin embargo cuando es el turno de una nación como la mía para que desarrolle tecnología nuclear pacífica, ustedes objetan y recurren a las amenazas.”
Además, él sabe cómo funciona el relativismo occidental. De modo que, ¿quién puede decir que estos son “hechos”, o que esto es “verdad”, dada la tendencia de los poderosos a “construir” sus propias narrativas y llamar a ese resultado “Historia”? ¿No será que se exageró el Holocausto o que quizá hasta fue un invento, y que las simples cárceles se convirtieron en “campos de la muerte” gracias a un truco del lenguaje para apoderarse de tierra palestina?
Nos reímos pensando que todo esto es absurdo. Pero no deberíamos. El dinero, el petróleo y las amenazas han traído a los teócratas iraníes hasta el umbral mismo de un arsenal nuclear. Su extraordinario diagnóstico del malestar occidental los ha convencido ahora de que pueden fabricar cuidadosamente una realidad sin Holocausto en la cual los musulmanes son las víctimas y los judíos los agresores merecedores de castigo. Y por ende, el Irán moralmente agraviado (y nuclear) de Ahmadineyad podrá por fin, después de “cientos de años de guerra”, poner las cosas en su sitio en Oriente Medio.
Y entonces, a un mundo que desea continuar ganando dinero y conducir coches en paz no le importará mucho la forma cómo este hombre escogido por la divinidad termine finalmente con esa fastidiosa “guerra del destino”.
O mundo ao contrário (lido nos jornais)
Luigi Cascioli acusou o padre Enrico Righi de abusar da credulidade popular ao apresentar Jesus Cristo como figura histórica. Esta notícia vem relatada no PÚBLICO de hoje e tinha já sido referida no Insurgente a partir de outra fonte. Mas a notícia diz também que o juiz do tribunal de Viterbo a quem a acusação foi apresentada vai ter "que ter tempo para reflectir se Jesus existiu ou não". Mais extraordinário do que a acusação é o facto de ela ter sido, ao que parece, aceite pelo juiz. No país onde Oriana Fallacci foi recentemente condenada por ofensas ao Islão, imagina-se um juiz a aceitar a queixa de alguém que pusesse em causa o facto de se propagar que Deus ditou o Corão a Maomé?
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Um polícia de 33 anos de Ronda (Málaga) assassinou a tiro a ex-namorada. O polícia era membro da Assembleia Local Contra a Violência de Género. Era considerado muito competente nos aspectos jurídico e policial, sendo por isso frequentemente elogiado pelas organizações de mulheres.
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Um polícia de 33 anos de Ronda (Málaga) assassinou a tiro a ex-namorada. O polícia era membro da Assembleia Local Contra a Violência de Género. Era considerado muito competente nos aspectos jurídico e policial, sendo por isso frequentemente elogiado pelas organizações de mulheres.
quinta-feira, janeiro 26
A Grande Muralha em versão Google
O Google entrou na China, mas deixa à porta temas cuja consulta não convém ao governo chinês (Amnesty, independência de Taiwan, Tiananmen, etc. etc.)
domingo, janeiro 22
Duas evidências
Primeira: "Esquerda" é uma ficção (como "Direita", aliás). Alguém imagina como se concretizaria um governo que juntasse Soares e Louçã, ou Louçã e Jerónimo, ou...?
Segunda: Sócrates seria o secretário geral ideal do PSD. O PS que está no governo actual já é, de resto, equivalente ao PSD em termos práticos.
Segunda: Sócrates seria o secretário geral ideal do PSD. O PS que está no governo actual já é, de resto, equivalente ao PSD em termos práticos.
Impressões do dia
Neste momento, o assunto eleitoral português é ainda tabu para efeitos de publicação. Tendo em conta o chorrilho de banalidades e insultos gratuitos que abundantemente nos matraqueram nos dias anteriores, pena é que o tabu se limite a estes dois dias.
Em Espanha, entretanto, passam-se coisas que poderão ter impactos significativos no futuro - o nosso incluído:
1. O Estatut avança: o acordo parece ter sido conseguido à custa de mencionar o termo nação, com referência à Catalunha, apenas no preâmbulo e não no articulado, onde não se passa da palavra nacionalidade. Subtilezas determinantes que não conseguem esconder uma fractura.
2. Em Barakaldo, Arnaldo Otegi interveio ontem num comício desafiando a proibição do congresso de Batasuna e pediu a Espanha e França que respeitem a nação basca.
3. Uma sondagem do ABC revela hoje que, a meio da legislatura, o PSOE é ultrapassado (1%) pelo PP em intenção de voto.
4. Recorda-se que a poligamia está às portas de Europa e que, já a propósito do casamento de homossexuais, José Luis Requero, porta voz do Conselho Geral de juízes, se interrogava como se poderia, num futuro próximo, evitar reconhecer o casamento poligâmico. Problema difícil, resposta difícil, a exigir um cuidado extremo nas motivações da acção política e na clarificação dos princípios e valores que se pretende defender.
Em Espanha, entretanto, passam-se coisas que poderão ter impactos significativos no futuro - o nosso incluído:
1. O Estatut avança: o acordo parece ter sido conseguido à custa de mencionar o termo nação, com referência à Catalunha, apenas no preâmbulo e não no articulado, onde não se passa da palavra nacionalidade. Subtilezas determinantes que não conseguem esconder uma fractura.
2. Em Barakaldo, Arnaldo Otegi interveio ontem num comício desafiando a proibição do congresso de Batasuna e pediu a Espanha e França que respeitem a nação basca.
3. Uma sondagem do ABC revela hoje que, a meio da legislatura, o PSOE é ultrapassado (1%) pelo PP em intenção de voto.
4. Recorda-se que a poligamia está às portas de Europa e que, já a propósito do casamento de homossexuais, José Luis Requero, porta voz do Conselho Geral de juízes, se interrogava como se poderia, num futuro próximo, evitar reconhecer o casamento poligâmico. Problema difícil, resposta difícil, a exigir um cuidado extremo nas motivações da acção política e na clarificação dos princípios e valores que se pretende defender.
sábado, janeiro 21
O amor nos tempos de internet (6)
Na tarde de sexta feira saí mais cedo e arranquei para o Porto. Tinha ficado combinado que me encontraria com a Matilde às 10 de sábado no terminal rodoviário. Apesar do excelente ambiente no hotel e da macieza do colchão não dormi muito: acordei às cinco e a minha cabeça, cheia de Matilde, não permitiu a reentrada do sono.
Nos dias anteriores tinha sido delicado manejar a convivência com a Rita. Prudentemente, não tínhamos tomado nenhuma decisão, mas ela dormia frequentemente lá em casa. Olha, vou ter que ir de urgência a Barcelona. Há reunião do conselho da Ibervida no sábado, disse eu. Surgiu a oportunidade de uma fusão com a Ellos e é necessário fazer uma avaliação prévia da situação.
Ah, sim? disse ela, sem levantar os olhos do dossier em que estava a preencher dados. Mas de quem partiu a proposta? Percebia-se a incredulidade que ela
pretendia sublinhar. Eu estava relativamente tranquilo: a situação da Rita na Mundial não lhe permitia ter acesso ao conhecimento das grandes operações que se desenhavam no mundo dos seguros. É verdade, insisti. Vai ser um dia inteiro de reunião e não sei se não continuará ao domingo. Que stress, isto caiu-me em cima de repente.
Como eu calculava, conhecendo a grande discreção da Rita, ela aceitou implicitamente que na sexta feira regressaria à sua casa e só voltaríamos a ver-nos na minha volta. Também não se ofereceu para me conduzir ao aeroporto, o que me evitou a maçada de pôr em acção o plano B, e a hora de chegada que lhe anunciei, para a manhã de 2ª feira, era totalmente dissuasora de uma espera.
Na manhã de sábado o Porto acordou com aguaceiros e frio. Quando me aproximei de carro a chuva tinha parado. Reconheci a Matilde imediatamente: vestia um casaco bege grosso e fazia oscilar na mão um pequeno guarda chuva azul claro, a linha do olhar perpendicular à estrada e a boca entreaberta num sorriso. Virou-se como se adivinhasse a minha aproximação. Ao entrar pôs a mão nas minhas e mostrou-me o olhar mais luminoso que eu já tinha visto. Não era uma mulher, era um milagre. Matilde diz: olá!!!, disse-me. Depois de uma fracção de segundo compreendi e retribuí: L. diz: agora sim, vou-te beijar, e passei ao acto quando já de trás me businavam. Foi o início de dois dias que marcaram todos os dias que se seguiram.
Na segunda feira, quando a Rita chegou para o jantar, lá estava a minha mala de viagem displicentemente abandonada no chão do quarto, com a etiqueta de um voo anterior porque eu tinha a certeza de que não lhe passaria pela cabeça ir controlar a data. Detesto ter de descrever o meu cinismo e a minha capacidade de fazer jogo duplo. Não me agrada que o autor disto nos ponha a falar na primeira pessoa. Um narrador omnisciente e distanciado falaria muito melhor do meu lado sombrio.
Nos dias anteriores tinha sido delicado manejar a convivência com a Rita. Prudentemente, não tínhamos tomado nenhuma decisão, mas ela dormia frequentemente lá em casa. Olha, vou ter que ir de urgência a Barcelona. Há reunião do conselho da Ibervida no sábado, disse eu. Surgiu a oportunidade de uma fusão com a Ellos e é necessário fazer uma avaliação prévia da situação.
Ah, sim? disse ela, sem levantar os olhos do dossier em que estava a preencher dados. Mas de quem partiu a proposta? Percebia-se a incredulidade que ela
pretendia sublinhar. Eu estava relativamente tranquilo: a situação da Rita na Mundial não lhe permitia ter acesso ao conhecimento das grandes operações que se desenhavam no mundo dos seguros. É verdade, insisti. Vai ser um dia inteiro de reunião e não sei se não continuará ao domingo. Que stress, isto caiu-me em cima de repente.
Como eu calculava, conhecendo a grande discreção da Rita, ela aceitou implicitamente que na sexta feira regressaria à sua casa e só voltaríamos a ver-nos na minha volta. Também não se ofereceu para me conduzir ao aeroporto, o que me evitou a maçada de pôr em acção o plano B, e a hora de chegada que lhe anunciei, para a manhã de 2ª feira, era totalmente dissuasora de uma espera.
Na manhã de sábado o Porto acordou com aguaceiros e frio. Quando me aproximei de carro a chuva tinha parado. Reconheci a Matilde imediatamente: vestia um casaco bege grosso e fazia oscilar na mão um pequeno guarda chuva azul claro, a linha do olhar perpendicular à estrada e a boca entreaberta num sorriso. Virou-se como se adivinhasse a minha aproximação. Ao entrar pôs a mão nas minhas e mostrou-me o olhar mais luminoso que eu já tinha visto. Não era uma mulher, era um milagre. Matilde diz: olá!!!, disse-me. Depois de uma fracção de segundo compreendi e retribuí: L. diz: agora sim, vou-te beijar, e passei ao acto quando já de trás me businavam. Foi o início de dois dias que marcaram todos os dias que se seguiram.
Na segunda feira, quando a Rita chegou para o jantar, lá estava a minha mala de viagem displicentemente abandonada no chão do quarto, com a etiqueta de um voo anterior porque eu tinha a certeza de que não lhe passaria pela cabeça ir controlar a data. Detesto ter de descrever o meu cinismo e a minha capacidade de fazer jogo duplo. Não me agrada que o autor disto nos ponha a falar na primeira pessoa. Um narrador omnisciente e distanciado falaria muito melhor do meu lado sombrio.
quinta-feira, janeiro 19
Direitos humanos
A introdução do World Report 2006 do Human Rights Watch, escrita por Kenneth Roth, está dividida em 13 parágrafos. Os quatro primeiros ocupam-se demoradamente, a nível de artigo de opinião, das violações de direitos humanos em que os Estados Unidos estarão implicados. Dois parágrafos seguintes referem de modo crítico certos aliados dos Estados Unidos. O 7º parágrafo enuncia, veladamente, uma justificação: as anteriores violações poderão originar incremento da actividade terrorista. Já estamos a meio do texto, é por isso altura de fazer algumas referências de obrigação: Sudão, Coreia do Norte, China, Rússia e vários outros. Da Arábia Saudita, da Síria e do Vietname mencionam-se, por exemplo, "restrições apertadas à sociedade civil". No parágrafo 9 há ainda espaço para referir a diminuição de credibilidade dos EEUU na defesa de direitos humanos. Há meia linha para as atrocidades na Chechénia. O Irão não é mencionado.
Claro que o relatório não se reduz à introdução, mas é aqui que se sublinham pontos fortes. O texto parece mais motivado por ideologia do que por factos. Assim, há risco de diminuição de credibilidade do Human Rights Watch.
PS: Em artigo publicado hoje no Los Angeles Times, Shirin Ebadi e Muhammad Sahimi escrevem: Western nations should help the U.N. appoint a special human rights monitor for Iran. It would remind the General Assembly of Iran's human rights record annually, and strongly condemn it if the record keeps deteriorating. Contrary to the general perception, Iran's clerics are sensitive to outside criticism.
The World Bank should stop providing Iran with loans and, instead, work with nongovernmental organizations and the private sector to strengthen civil society. The West should support Iran's human-rights and democracy advocates, nominate jailed leaders for international awards and keep the cause in the public eye. Western nations should downgrade diplomatic relations if Iran continues violating basic human rights.
Claro que o relatório não se reduz à introdução, mas é aqui que se sublinham pontos fortes. O texto parece mais motivado por ideologia do que por factos. Assim, há risco de diminuição de credibilidade do Human Rights Watch.
PS: Em artigo publicado hoje no Los Angeles Times, Shirin Ebadi e Muhammad Sahimi escrevem: Western nations should help the U.N. appoint a special human rights monitor for Iran. It would remind the General Assembly of Iran's human rights record annually, and strongly condemn it if the record keeps deteriorating. Contrary to the general perception, Iran's clerics are sensitive to outside criticism.
The World Bank should stop providing Iran with loans and, instead, work with nongovernmental organizations and the private sector to strengthen civil society. The West should support Iran's human-rights and democracy advocates, nominate jailed leaders for international awards and keep the cause in the public eye. Western nations should downgrade diplomatic relations if Iran continues violating basic human rights.
segunda-feira, janeiro 16
Futilidades
Primeira. Uma sociedade agrícola de Estremoz lançou um tinto de 2004 com nome de desodorizante: ÍNTIMO. É gostoso e, tendo em conta o preço, uma boa compra. O rótulo é parco nos habituais adjectivos, limitando-se a mencionar com modéstia "algum corpo e estrutura".
Segunda. Na minha opinião há pelo menos um nicho de mercado à espera de iniciativa: filmes em versão abreviada para quem não quer passar três horas, e às vezes nem duas, na sala escura. Como quase todos os filmes da produção corrente mostram muito mais que o estritamente necessário, editar a versão abreviada deve ser um exercício banal e que na maior parte dos casos só beneficia o filme. Os cinemas multiplex teriam então encontrado a sua verdadeira razão de existir, com uma distinção entre salas para quem tem tempo e salas para quem tem falta de tempo. Fico à espera.
Segunda. Na minha opinião há pelo menos um nicho de mercado à espera de iniciativa: filmes em versão abreviada para quem não quer passar três horas, e às vezes nem duas, na sala escura. Como quase todos os filmes da produção corrente mostram muito mais que o estritamente necessário, editar a versão abreviada deve ser um exercício banal e que na maior parte dos casos só beneficia o filme. Os cinemas multiplex teriam então encontrado a sua verdadeira razão de existir, com uma distinção entre salas para quem tem tempo e salas para quem tem falta de tempo. Fico à espera.
O racismo recuperado
Em artigo publicado hoje, a não perder, Mario Vargas Llosa faz notar que, apesar de ainda há poucos anos o racismo ter sido olhado como uma perigosa tara, ele está agora a recuperar protagonismo e respeitabilidade com a bênção de um sector irresponsável da esquerda, convertendo-se em valor que pode determinar a bondade e a maldade das pessoas, isto é, a sua correcção ou incorrecção política.
Figuras que têm vindo a contribuir para esta promoção: Chávez, Morales e agora também a família Humala no Peru.
Figuras que têm vindo a contribuir para esta promoção: Chávez, Morales e agora também a família Humala no Peru.
domingo, janeiro 15
Central Madeirense
É o nome de uma cadeia de supermercados na Venezuela, gerida por emigrantes madeirenses. Vem aqui referida a propósito da crescente escassez de alguns produtos alimentares e subida de inflacção.
sexta-feira, janeiro 13
Bem sei que ninguém perguntou...
... mas hoje vem a propósito responder: a listagem referida nesta "adivinha" obtém-se procurando no google (em português) sampaio preocupado. Se fosse hoje teria surgido um novo item:
escutas telefónicas
escutas telefónicas
quarta-feira, janeiro 11
O amor nos tempos de internet (5)
SOFIA
Sabia que ia fazer o L. sofrer muito, mas para mim também não tem sido fácil. Há cinco meses que saí da casa dele para viver com o Filipe e tenho frequentemente vontade de estar com ele. Como ele nunca mais me contactou, contenho-me. Um dia enviei-lhe um SMS: não quero incomodar-te só queria saber se estás bem. A resposta demorou três dias e tinha duas palavras: estou vivo.
É claro que não posso culpar-me de procurar o que a vida me pode dar. Seria hipocrisia estar com o L. e não me sentir completa. Os vinte e dois anos de diferença entre nós tinham começado a pesar um ano atrás. De repente tive a sensação de me descobrir aos trinta anos com a vida por viver. O Filipe devolveu-me uma boa parte do que me faltava. Mas tenho saudades da companhia e das conversas com o L. e até por vezes de fazer amor com ele. No trabalho, agora evitamo-nos um ao outro - o que não é problema, dantes é que tínhamos de fazer de propósito para nos encontrarmos. Um dia ele disse-me que agora andava com outra, mais ou menos da minha idade e que por coincidência trabalha na concorrência. Muito discreto nas informações, vê-se que não quer muita conversa comigo.
Por isso estranhei quando o L. me procurou certa manhã fria e nebulosa de dezembro. Por acaso, ou não, eu estava a pensar muito nele. Fiquei então a saber que havia um problema com o Eduardo. Preciso que me faças um grande favor: telefona ao teu amigo António, o advogado de Coimbra, e procura saber se ele estava em casa no sábado. Já te explico.
Conhecendo-o bem, percebi que estava transtornado. Eu sabia como o L. perdia a orientação quando havia um problema relacionado comigo ou com o filho.
RITA
Nunca percebi bem o que levou o L. a reatar comigo. Não entendo, pronto. Não sei o que diga mais. Aquela conversa de bem sabes que gostei muito de ti quando nos conhecemos mas nessa altura não era possível, mas agora que estou separado... Só sei que apesar do que muita gente pensa de mim, eu não sou parva, pelo menos não me considero. Quando estamos juntos é bom mas sinto no ar uma coisa esquisita, não sei o que diga mais. Há uma semana disse-me que tinha que ir a Barcelona em trabalho e nem me perguntou se eu queria ir com ele. Sim, eu podia pagar o bilhete de avião, mas ele nem me deu hipótese, desculpou-se com os aspectos profissionais da viagem. Mas para mim é esquisito, pronto, não sei o que diga mais. Agora de repente ficou muito preocupado com o filho. Durante anos e anos, desde o divórcio da primeira mulher, quase não lhe ligou. Para acordar agora é porque há sarilho com o Eduardo. Estúpida é que eu não sou.
Sabia que ia fazer o L. sofrer muito, mas para mim também não tem sido fácil. Há cinco meses que saí da casa dele para viver com o Filipe e tenho frequentemente vontade de estar com ele. Como ele nunca mais me contactou, contenho-me. Um dia enviei-lhe um SMS: não quero incomodar-te só queria saber se estás bem. A resposta demorou três dias e tinha duas palavras: estou vivo.
É claro que não posso culpar-me de procurar o que a vida me pode dar. Seria hipocrisia estar com o L. e não me sentir completa. Os vinte e dois anos de diferença entre nós tinham começado a pesar um ano atrás. De repente tive a sensação de me descobrir aos trinta anos com a vida por viver. O Filipe devolveu-me uma boa parte do que me faltava. Mas tenho saudades da companhia e das conversas com o L. e até por vezes de fazer amor com ele. No trabalho, agora evitamo-nos um ao outro - o que não é problema, dantes é que tínhamos de fazer de propósito para nos encontrarmos. Um dia ele disse-me que agora andava com outra, mais ou menos da minha idade e que por coincidência trabalha na concorrência. Muito discreto nas informações, vê-se que não quer muita conversa comigo.
Por isso estranhei quando o L. me procurou certa manhã fria e nebulosa de dezembro. Por acaso, ou não, eu estava a pensar muito nele. Fiquei então a saber que havia um problema com o Eduardo. Preciso que me faças um grande favor: telefona ao teu amigo António, o advogado de Coimbra, e procura saber se ele estava em casa no sábado. Já te explico.
Conhecendo-o bem, percebi que estava transtornado. Eu sabia como o L. perdia a orientação quando havia um problema relacionado comigo ou com o filho.
RITA
Nunca percebi bem o que levou o L. a reatar comigo. Não entendo, pronto. Não sei o que diga mais. Aquela conversa de bem sabes que gostei muito de ti quando nos conhecemos mas nessa altura não era possível, mas agora que estou separado... Só sei que apesar do que muita gente pensa de mim, eu não sou parva, pelo menos não me considero. Quando estamos juntos é bom mas sinto no ar uma coisa esquisita, não sei o que diga mais. Há uma semana disse-me que tinha que ir a Barcelona em trabalho e nem me perguntou se eu queria ir com ele. Sim, eu podia pagar o bilhete de avião, mas ele nem me deu hipótese, desculpou-se com os aspectos profissionais da viagem. Mas para mim é esquisito, pronto, não sei o que diga mais. Agora de repente ficou muito preocupado com o filho. Durante anos e anos, desde o divórcio da primeira mulher, quase não lhe ligou. Para acordar agora é porque há sarilho com o Eduardo. Estúpida é que eu não sou.
segunda-feira, janeiro 9
Odete e o tempo perdido
Tendo decidido ir ao cinema, escolhi Odete por ter duração de apenas uma hora e meia.
Alberto abandona Odete e informa-a de que isso é definitivo por sms que lemos em grande plano num nokiazinho. Duas frases em português ortograficamente impecável: um sinal de que não devemos levar o filme a sério.
Uma ideia potencialmente interessante é desbaratada por preguiça: o comportamento da personagem central (Odete?) parece inspirado não na vida mas numa qualquer vulgata freudiana estereotipada.
No final, após uma cena "fracturante" de mau gosto, surge a legenda "dedicado aos meus pais". Gargalhada geral na sala. O público não perdeu o juízo.
Alberto abandona Odete e informa-a de que isso é definitivo por sms que lemos em grande plano num nokiazinho. Duas frases em português ortograficamente impecável: um sinal de que não devemos levar o filme a sério.
Uma ideia potencialmente interessante é desbaratada por preguiça: o comportamento da personagem central (Odete?) parece inspirado não na vida mas numa qualquer vulgata freudiana estereotipada.
No final, após uma cena "fracturante" de mau gosto, surge a legenda "dedicado aos meus pais". Gargalhada geral na sala. O público não perdeu o juízo.
Contaminação
A TSF iniciou esta manhã uma série de curtos programas sobre o Padre Manuel Antunes. O primeiro depoimento foi de Barata Moura. Muitos elogios, o afloramento de uma dúvida a respeito da revolução de Abril logo esconjurado. Sobre o pensamento e a obra da figura recordada? Absolutamente nada: conteúdo zero. Talvez seja resultado da contaminação pelo discurso da campanha eleitoral.
domingo, janeiro 8
Humala no dominó de Chávez
...ou alargamento em perspectiva do eixo do bem ao Peru? artigo de Alvaro Vargas Llosa.
sexta-feira, janeiro 6
PRISA, um amigo
Evo Morales declarou ontem em Espanha que desde que el grupo mediático español Prisa se hizo con la participación en varios medios de comunicación bolivianos, estos han dejado de acosarlo, como hacían antes. Disse mesmo que o grupo PRISA parece o chefe de campanha do seu partido, o MAS.
quinta-feira, janeiro 5
Perguntar não ofende
Os grupos, partidos e blogs que se assumem defensores dos direitos dos homossexuais não têm nada que dizer acerca da história de Amir (uma entre muitas)?
Será por estarem entretidos com a homofobia do papa, ou com a falta de apoio explícito de Cavaco ao casamento gay? ou ainda porque o Irão é um pais amigo do eixo do bem?
Será por estarem entretidos com a homofobia do papa, ou com a falta de apoio explícito de Cavaco ao casamento gay? ou ainda porque o Irão é um pais amigo do eixo do bem?
quarta-feira, janeiro 4
O amor nos tempos de internet (4)
Recbi o teu mail. Liga-te agora. Ja te adicionei. Júlia
Enviado: 22-10-2004 21:58:03
L. diz:
olá Júlia!
Julia20 diz:
ola papá!
L. diz:
já fui e nao quero ser outra vez...
Julia20 diz:
tou a brincar ctg, fofo
Julia20 diz:
tá descansado k não tenho nenhum trauma com o pai nem inveja de penis
L. diz:
lol... fizeste-me rir
Julia20 diz:
nao era essa a ideia?
L. diz:
gostei mt da tua voz há bocado
Julia20 diz:
e eu da tua, nao parece de um homem da tua idd
L. diz:
e vais deixar-me ver-te agora?
L. diz:
eu dou o tiro de partida. aí estou eu, foi tirada há 4 meses
Julia20 diz:
uau, mt bem
L. diz:
és tu? isso é real?
Julia20 diz:
eu digitalizadinha
L. diz:
a rapaziada de guimaraes deve andar distraída, nao?
Julia20 diz:
gosto mais com a rodagem feita... lol
Julia20 diz:
olha, o meu nome não é júlia
L. diz:
???
Julia20 diz:
sou matilde
L. diz:
matilde... the most beautiful sound i ever heard
Julia20 diz:
nao sabia k tambem eras poeta
L. diz:
nao é meu, depois explico. quando posso então ver-te ao vivo e a cores?
Julia20 diz:
vem kuando kiseres
L. diz:
e os papás, os verdadeiros?
Julia20 diz:
digo k vou passar o fim de semana em kasa de uma colega no porto
L. diz:
sabado evaporo aqui e chovo aí
Ainda teclámos mais de uma hora. O primeiro contacto telefónico, momentos antes, com a Matilde que para mim ainda se chamava Júlia, descarregara-me o saldo do cartão mas tinha-me posto em movimento todos os fluidos interiores pela primeira vez desde a fuga de Sofia.
Enviado: 22-10-2004 21:58:03
L. diz:
olá Júlia!
Julia20 diz:
ola papá!
L. diz:
já fui e nao quero ser outra vez...
Julia20 diz:
tou a brincar ctg, fofo
Julia20 diz:
tá descansado k não tenho nenhum trauma com o pai nem inveja de penis
L. diz:
lol... fizeste-me rir
Julia20 diz:
nao era essa a ideia?
L. diz:
gostei mt da tua voz há bocado
Julia20 diz:
e eu da tua, nao parece de um homem da tua idd
L. diz:
e vais deixar-me ver-te agora?
L. diz:
eu dou o tiro de partida. aí estou eu, foi tirada há 4 meses
Julia20 diz:
uau, mt bem
L. diz:
és tu? isso é real?
Julia20 diz:
eu digitalizadinha
L. diz:
a rapaziada de guimaraes deve andar distraída, nao?
Julia20 diz:
gosto mais com a rodagem feita... lol
Julia20 diz:
olha, o meu nome não é júlia
L. diz:
???
Julia20 diz:
sou matilde
L. diz:
matilde... the most beautiful sound i ever heard
Julia20 diz:
nao sabia k tambem eras poeta
L. diz:
nao é meu, depois explico. quando posso então ver-te ao vivo e a cores?
Julia20 diz:
vem kuando kiseres
L. diz:
e os papás, os verdadeiros?
Julia20 diz:
digo k vou passar o fim de semana em kasa de uma colega no porto
L. diz:
sabado evaporo aqui e chovo aí
Ainda teclámos mais de uma hora. O primeiro contacto telefónico, momentos antes, com a Matilde que para mim ainda se chamava Júlia, descarregara-me o saldo do cartão mas tinha-me posto em movimento todos os fluidos interiores pela primeira vez desde a fuga de Sofia.
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