domingo, abril 16

Quatro vantagens

A avaliação que Ahmadinejad faz das vantagens de que dispõe sobre os infiéis, segundo Amir Taheri:

O Islão tem quatro vezes mais jovens em idade de lutar do que o Ocidente, com a sua população envelhecida. Centenas de milhões de "combatentes sagrados" anseiam por se tornar mártires, enquanto os jovens infiéis, amantes da vida e tementes da morte, detestam combater. O Islão tem quatro quintos das reservas de petróleo, e por isso controla um recurso vital para os infiéis. Mais importante, os EEUU, única potência infiel ainda capaz de lutar, é odiada por quase todas as outras nações.

(...) A estratégia actual do Irão é, pois, esperar pela saída de Bush. E isso, por "coincidência divina", corresponde ao tempo necessário para o Irão desenvolver o seu arsenal nuclear, acedendo assim à única vantagem de que dispõe o infiel.

Evangelho de Judas (II)

Adam Gopnik no New Yoker:

(...) Apesar de tudo o Evangelho de Judas é uma revelação. Primeiro, porque é útil recordar, num tempo de fundamentalismo renovado, que as religiões não têm, de facto, fundamento: que os textos sem erros e os sagrados inatacáveis de qualquer fé são obra dos homens e do tempo. Qualquer ortodoxia é o instantâneo de um momento. Que o facto de a Igreja há muito ter respostas ao gnosticismo, em todas as suas variantes, não significa que o gnosticismo sempre esteve condenado a ser heresia.

(...) o novo Evangelho enfeitiça - especialmente os livre-pensadores - porque nos recorda a força literária dos Evangelhos canónicos, precisamente por terem realizado a fusão do celeste com o lugar comum. (...) como editores, os pais da Igreja primitiva fizeram um trabalho notável ao seleccionar as histórias fortes e ao rejeitar as mais estranhas. O canon ortodoxo dá-nos um Cristo convincente como personagem de uma maneira que o (Cristo) Gnóstico não o é: irado e impaciente e eticamente comprometido (...) brilhantemente concreto nas suas parábolas e humano na sua dor. Quer se acredite (...)que este homem viveu, ensinou e morreu, ou, com S. Paulo, que ele viveu e morreu e ressuscitou, é difícil não o preferir ao Jesus do novo Evangelho, com os seus risos teatrais e (...) mensagens cifradas. Tornar Judas mais humano diminui a humanidade em Jesus, que surge menos como um homem com um horrível fardo divino do que como mais um sabe-tudo com auréola. Como verdade ou metáfora, ficamos com o velho conto.

sábado, abril 15

Critérios de respeito

Comedy Central, a produtora da série South Park, suspendeu um episódio que satirizava a questão das caricaturas de Maomé. Em outros episódios, tinham sido já ridicularizados católicos, judeus e a cientologia. Noutro desenho animado da mesma produtora, aparece Cristo a defecar sobre Bush e a bandeira americana.

A MTV, entretanto, está a produzir uma série em que a crucificação é ridicularizada.

Os porta vozes da Comedy Central justificaram a censura com argumentos de tolerância religiosa, mas mencionaram também o receio de colocar em perigo a sua segurança. A censura exerceu-se unicamente em relação ao episódio das caricaturas de Maomé.

Estes factos e estas declarações são muito reveladores da faceta de cobardia que se abriga por trás da "compreensão" e da "tolerância" que muito se apregoa. O critério para exercer respeito por uma religião é, simplesmente, o amor à pele: se há risco de represálias violentas, respeita-se; caso contrário, não há razões para preocupação.

A liberdade de rir de tudo, e de nós próprios em particular, é conquista da sociedade ocidental. Mas, exercida selectivamente, e apenas contra nós, é sintoma de medo e de uma doentia pulsão suicida. Actos que já foram tidos como ousados ou irreverentes deveriam agora simplesmente fazer corar de vergonha os seus autores.

O inimigo no meio de nós



O WWR, Conselho científico para o governo na Holanda, acaba de produzir um relatório onde condena os responsáveis políticos do país pelo clima de confrontação com o Islão, e dá um parecer positivo à formação de um partido que tenha a sharia como fonte de inspiração.

Um porta voz do partido de governo CDA reagiu afirmando que o WWR não se baseia em factos, mas sim em apreciações políticas inexactas. A deputada Hirsi Ali, que sabe bem do que fala, afirma que o WWR é estranho ao mundo real, pede reacção adequada do governo e requer ao primeiro ministro distanciação clara das recomendações do relatório.

Hirsi Ali está a concluir Submissão II, um filme que aborda a vida de homossexuais nos países de cultura islâmica.

sexta-feira, abril 14

As pontes de mad country

Nem sempre é fácil perceber exactamente contra que é que a voz do povo se insurge. Há uma grande indignação com as faltas de deputados ao plenário de anteontem da AR. Ao mesmo tempo, o país está quase fechado para férias desde o meio da semana. Porque não hão-de os deputados agir à imagem do país? Eu acho que assim é que nos representam verdadeiramente. Se "metemos" férias por todos estes dias é porque não há nada assim tão urgente a fazer: o trabalho pode esperar. Alguém sabe o que é que havia assim de tão importante a tratar na AR? No site do Parlamento não encontrei a ordem de trabalhos. Como esta situação de "ponte" já era de prever, se houvesse assuntos prementes poderia ter-lhes sido dada prioridade em reuniões anteriores. Adiando, por exemplo, a comemoração do aniversário da constituição, em 6 de Abril, que apenas trouxe retórica ultra-previsível e interjeições pouco originais de apoio ("muito bem!") ou repúdio ("ohh!"), algumas hilariantes no contexto - com destaque para a deixa de Odete Santos: "Mais velhas ainda..." referindo-se à avó de Jerónimo de Sousa.

No fundo, os portugueses têm as pontes e as férias no coração. Não se percebe porque repudiam tão grande consonância de atitude por parte dos seus eleitos.

Por outro lado, atendendo ao enredo legislativo em que já estamos mergulhados, talvez até haja vantagem nestas paragens de vez em quando.

Parece que Cavaco Silva vai tomar posição sobre o assunto daqui a uns dias. Com certeza que o fará com mil cautelas, recordado do banimento de uma ponte carnavalesca que muito contribuiu para a sua queda em desgraça, noutros tempos.

quinta-feira, abril 13

Tonterías

O jornalismo em Portugal está a entrar numa roda livre de interpretações arbitrárias e de falta de respeito pelo que as palavras significam. Aparece hoje a notícia de que tv e internet são "novos pecados", a propósito de palavras ditas ontem em Roma pelo cardeal Stafford. Não sei em que fonte se basearam. Ora, não é bem isso o que se lê aqui, mas sim que

...o cardeal pediu aos fiéis que reflectissem em quanto tempo passaram a ler jornais e revistas ou a ver televisão ou a usar a internet, em comparação com o tempo investido na meditação e a ler as sagradas escrituras.

Banal, portanto. De qualquer maneira, tenha o cardeal dito uma coisa ou outra, do que não há dúvida é que ele perdeu uma boa ocasião de estar calado em vez de dizer tonterias (peço desculpa pelo uso do castelhano, mas não temos em português um substantivo tão adequado à situação como este).

Mas o cardeal disse outras coisas na mesma ocasião. Infelizmente, ao misturar tudo, o trivial a roçar a idiotia e questões que nenhuma reflexão profunda resolveu até hoje, o discurso de Stafford, como o de muitas autoridades católicas que não primam por uma grande cultura e capacidade de reflexão, perde força e presta-se ao ridículo. Stafford referiu, a propósito de afirmações de jovens americanos que pensam que certos crimes - como a violência sobre crianças - são imperdoáveis, que muitos acham que é difícil perdoar e procurar o perdão. E contrapôs que o sofrimento de Cristo oferece o perdão para todos os pecados, para aqueles que o procuram.

Depois de ontem jornais, rádios e tvs terem batido até à exaustão no acórdao do Supremo, é imperdoável que não tenham feito referência a estas frases, e se limitem a transcrever afirmações que ficam bem como bombo de uma festa. A pobreza intelectual do cardeal Stafford está bem para a de alguns jornalistas que o transcrevem.

segunda-feira, abril 10

Islamização em França é já hoje

Para quem quer ver, os sintomas são já abundantes: dos mais chocantes (Sohane queimada viva, Ghofrane, apedrejada até à morte, Schérazad e Ilan Halimi torturados até á morte) até aos pequenos nadas de que pouco se fala e que dizem tudo. Por exemplo, no relatório, já com quase dois anos, de Jean-Pierre Odin sobre os sinais de pertença religiosa nas escolas de França, deixo de lado os aspectos aparentemente mais inquietantes e transcrevo o pequeno parágrafo que descreve as dificuldades sentidas pelos professores de matemática:

A única dificuldade mencionada pelos professores desta disciplina, em lugares bastante afastados, denotando a mesma obsessão ou doutrinação, é a recusa de utilizar qualquer símbolo ou desenhar qualquer figura (ângulo recto, etc.) que se pareça de perto ou de longe com uma cruz.

domingo, abril 9

Faltas de educação

«O pai lava o carro, está sentado a ler o jornal ou a ver a televisão; por seu turno, a mãe está sempre a varrer, a limpar a casa ou a fazer comida, havendo, em muitos dos manuais, a omissão clara do tema e, em alguns casos, a questão do aparelho reprodutor é incluído no aparelho respiratório»,

Nestes termos dá conta uma especialista dos erros encontrados em manuais ecolares de educação sexual.

Sobriedade, clareza e qualidade científica não costumam ser características de programas aprovados pelo ministério. Neles abundam, pelo contrário, palavrosas listas de "competências" de desvairadas espécies e recomendações metodológicas limitadoras da iniciativa dos professores. Por exemplo: se se consultar o documento de 15 páginas, colocado na página do ministério, sobre a disciplina de matemática no 3º ciclo, é impossível perceber se fazem parte do programa coisas como a área de um triângulo ou o cálculo de (a+b)^2. Assim, os manuais limitam-se, possivelmente, a reproduzir uma tradição que corre o risco de acabar por existir apenas nas memórias dos que conheceram programas de épocas anteriores. Como também é grande o risco de alguns autores de manuais somarem a sua incompetência no assunto à do ministério a aprovar programas, não admira que apareçam muitos disparates nos livros de texto. Se o ministério insiste em homologar programas, ao menos que o faça com muito cuidado. Em matérias menos consensuais do que a matemática supostamente pode ser, a cautela tem de ser ainda maior. Seria bom esclarecer se em matemática se deve ensinar a área de um triângulo e também, em definitivo, se o aparelho reprodutor fica ao lado, por cima ou por baixo do aparelho respiratório. Caso contrário, as situações de que se queixa a especialista vão multiplicar-se.

sábado, abril 8

As invenções do Ocidente



Mas tu excedê-los-ás a todos. Porque hás-de sacrificar o homem que me reveste. Já a tua trombeta se levantou, a tua cólera se atiçou, o brilho da tua estrela se mostrou...

Já tudo te foi dito. Ergue os olhos para a nuvem e para luz que ela traz dentro e para as estrelas que arodeiam. A estrela dianteira é a tua.

Judas ergueu os olhos, viu a nuvem luminosa e entrou nela. (...)

Eles aproximaram-se de Judas e disseram-lhe, "Que fazes aqui? és discípulo de Jesus".

Judas respondeu como eles queriam. E recebeu algum dinheiro e entregou-o.


A recente notícia do lançamento de uma nova tradução do "Evangelho de Judas" veio recordar-me algumas das razões por que, embora não crente, tenho uma imensa admiração pelas invenções do Cristianismo (doutrina escrita e algumas práticas). Na verdade, lá está o embrião de muitas das invenções que moldaram a nossa civilização. O amar-nos uns aos outros pode estar na base do que hoje chamamos os direitos humanos; oferecer a outra face e perdoar setenta vezes sete pode ter inspirado o privilegiar da recuperação do delinquente sobre a sua punição e até a nossa infinita compreensão por quem nos agride; a declaração de que o reino dos céus mais depressa estará reservado aos pobres do que aos ricos pode ter dado origem à demonização do dinheiro e do lucro e, em última análise, às modernas utopias igualitárias. Sem retirar méritos a Freud, convém também lembrar que a psicanálise tem no acto de confissão um precedente à altura. Os exemplos poderiam continuar.

Para além de textos de qualidade com uma mensagem verdadeiramente admirável para a época, os evangelhos, no seu conjunto, têm também o mérito da invenção literária. A novela moderna trouxe-nos a multiplicação dos pontos de vista, o desdobramento do tempo e do espaço, a ilustração de que o quadro traçado aqui e agora pode ser desmentido ou revelar-se parcial noutro lugar. No evangelho de Judas há dados não explicitados nos outros, a mostrar-nos que o nosso olhar anterior sobre Judas era incompleto: a entrega de Jesus terá sido um acto não de traição, mas de obediência.

Lawrence Durrell, nos anos 50 do século passado, afirmou ter-se inspirado na teoria da relatividade ao tecer a forma do seu Quarteto. Podia ter invocado uma inspiração bem mais antiga. Os autores dos evangelhos já se tinham antecipado.

sexta-feira, abril 7

O segredo de A e B

Durante o tempo em que as senhoras A e B foram companheiras em relação amorosa, a senhora A teve duas meninas, agora com 4 e 7 anos. Em 2002 veio o desentendimento e a separação. A senhora A procurou afastar as filhas da ex-amante, mudando de residência para outra cidade e com uma nova companheira, a qual não precisamos de designar por outra letra porque não vai ter relevo neste relato.

A senhora B acaba de ver reconhecida, em tribunal, a tutela das meninas, já que os direitos adquiridos em co-habitação não podiam ser exercidos após a fuga da senhora A. O juiz considerou que não há forma de as crianças, criadas em conjunto por A e B, fazerem a distinção entre a mãe biológica e a ex-companheira.

domingo, abril 2

Fatwa sobre a arte egípcia



O mufti Ali Gomaa, uma alta autoridade religiosa do Egipto, lançou uma fatwa sobre a representação humana em estátuas. Há quem desvalorize o facto, mas intelectuais e artistas temem que a sentença posa vir a transformar-se em bomba de relógio contra a arte do antigo Egipto.

sábado, abril 1

1 de Abril

É difícil escolher hoje, no PÚBLICO, qual será a notícia alusiva à data:
-Manuel Alegre em jantar do MIC a dizer que Portugal vive um período como o da União Nacional dos piores tempos do salazarismo e que a continuar ainda acabamos pior que Itália? E a referir-se à sua candidatura como "vencedora"?
-Natasha Nunes do BE a dizer que a adopção por casais homossexuais é uma reivindicação da sociedade?
-Freitas do Amaral a anunciar a criação de um "canal permanente" entre Portugal e o Canadá para maior cooperação na deportação de imigrantes ilegais?

Tudo isto vem lá escrito, não invento nada. Como os jornais costumam limitar-se a uma mentira neste dia, fico preocupado (singela homenagem a Sampaio) porque pelo menos duas destas notícias podem ser verdadeiras. (Por exemplo, se as afirmações de Alegre correspondem à verdade, a situação é ainda pior do que a que ele descreve, pois poderá ter sido empossado como presidente da república um candidato que não venceu as eleições - ainda mais grave porque ninguém parece ter dado pelo engano. Já teremos ultrapassado em muito a Itália: se calhar já vamos em Cuba ou na Coreia do Norte.)

Como se isso não bastasse, há ainda Rui Tavares a comparar a queixa de Margarida Rebelo Pinto, contra um ensaio crítico que lhe é desfavorável, ao protesto da Apple perante o que considera ser "pirataria de estado" por parte da França. E termina criticando "os neoliberais" por quererem conferir direito de propriedade sobre "aquilo que sempre foi de todos: folclore, ideias, frases feitas (o itálico é meu). Estará Tavares a sugerir veladamente que a tecnologia que levou ao iPod e ao iTunes também lhe é, em parte, devida? Se se confirmar, talvez seja esse o segredo do choque tecnológico.

sexta-feira, março 31

PS 42%, PSD 35%

(Sondagem para a TSF divulgada hoje.) Os resultados só podem ser atribuídos à lucidez do eleitorado, que está, manifestamente, a virar à direita.

Assim vai o nosso pequeno mundo

Sampaio, possivelmente confundido a respeito do seu próprio papel, vem lembrar o governo canadiano de que deve também expulsar emigrantes espanhóis e italianos.

Freitas do Amaral, apesar do humilhante resultado da sua visita, e num óbvio acesso de irrealismo, parece querer perfilar-se como futuro candidato a ministro canadiano da economia ao avançar com razões por que os emigrantes portugueses não devem ser expulsos "as necessidades da economia de Toronto em matéria de construção Civil, (...) ficariam profundamente afectadas, com grave prejuízo para a economia do Canadá, se de repente os trabalhadores portugueses desse sector começassem todos a ser mandados embora".

quinta-feira, março 30

O amor nos tempos de internet (10)

-Estou sim
-Rita? É a Cláudia. Tudo bem?
-Olá, Claudinha, estou. Desculpa não ter dito nada ontem, mas o dia foi agitado
-Calculo... mas as coisas com o L. vão bem ou nem por isso?
-Nem sei o que te responda. Esse homem dá cabo da minha cabeça
-Mas vocês afinal gostam-se, ou não?
-De mim sei eu, mas ele, ui, é um caso sério. Acho que não põe o jogo todo à vista... mas vamos almoçar um destes dias que eu conto-te a novela. E tu, sempre se confirma?
-É verdade, estou grávida, já está confirmado
-Uau, parabens! Imagino que estás radiante
-Sim, mas sabes que agora há uma coisa no Carlos que me preocupa?
-Sim, o quê?
-Vê lá tu que de um dia para o outro tornou-se sonâmbulo. Foi a semana passada a primeira vez, eu nem liguei, não te tinha falado nisso
-???
-mas nestas últimas duas noites levantou-se a dormir, foi fazer café à cozinha e voltou para a cama - sempre a dormir
-Mas tu viste?
-Claro, fiquei com o sono leve por causa disto. Levanto-me e vou vigiar, tenho medo que tropece e parta alguma coisa e se parta a ele
-Ó filha, não te rales com isso. Quem me dera a mim que fossem esses os meus problemas
-Ele fez-te mais alguma?
-Muita sorte se for só uma... mas ele disfarça bem. Acho que anda outra em cena mas não tenho prova nenhuma
-Ora, isso é impressão tua. Ele não ia arriscar uma coisa dessas na situação em que está. Sem ti fica na fossa
-Sei lá, ele é muito estranho. Eu é que sou muito boa: já estive para dizer bye.
-Ah sim?
-Sim, imagina que depois daquela ida a Barcelona que me ficou atravessada já duas vezes que me diz que tem que ir ao Porto - sempre em trabalho, tá-se mesmo a ver, não tás? e depois acaba por aparecer em casa mais tarde.
-??
-Cá pra mim anda atrás doutra que lhe troca as voltas. Sempre agarrado ao computador e de olho no telemóvel... tás a ver?
-Rita, acho que andas a ler novelas sobre as novas tecnologias
-Mais dia menos dia dou o salto e ele fica sozinho. E depois outra que o ature a ele e ao filho.
-A mim não me enganas, Rita, quantas mais ele te faz mais gostas dele
-Olha que há limites. Ah, mudando de assunto, acho que não te disse que o L. ultimamente anda muito preocupado com o Eduardo
-Ah sim? porquê?
-Não sei bem, parece-me que o rapaz se viu metido num problema... eu até gosto do miúdo e oficialmente não sei de nada. Mas depois conto-te.
-Não me digas que tem a ver com aquilo que tu me contaste do bilhete no bolso do blusão
-Ah... não sei... não. Indirectamente, pode ter. Mas agora não posso falar, Cláudia
-Ai conta, conta
-Pelo telefone não. Amanhã ligo-te para irmos almoçar e falamos melhor
-Que má. Tá, então liga antes do meio dia
-Xau, beijinhos
-jinhos até amanhã

domingo, março 26

A infinita compreensão dos ocidentais

Sayed Rahmatullah Hashemi, com as funções de destacado ex-porta voz taliban no curriculum, resolveu mudar a área dos seus "estudos", quis ingressar em Yale e foi admitido. A habitual "compreensão" de motivações e especificidades culturais serviu aqui para branquear um passado terrorista: uma declaração da universidade refere-se a Hashemi como um "fugitivo do naufrágio afegão".

A deputada afegã Malalai Joia criticou a universidade, classificando o acto de admitir Hashemi como revoltante e insultuoso.

Curiosamente, parece que a compreensão só é accionada precisamente em relação aos que usam a violência e são ou foram adeptos assumidos da barbárie.

É que, em 2002, um projecto de Paula Nirschel (da organização Iniciativa para a Educação das Mulheres Afegãs) para permitir às jovens do Afeganistão pós-taliban prosseguir estudos superiores, esbarrou com a recusa de Yale em disponiblizar vagas.

A respeito da sentença de morte que pode vir a ser decretada contra Abdul Rahman, por se ter convertido ao cristianismo, deve haver também muita compreensão nas nossas fileiras. Abdul Raoulf, considerado moderado por ter estado na oposição aos Taliban, já disse: "Rejeitar o Islão é insultar Deus e não podemos permitir que Deus seja humilhado. este homem tem que morrer".

Tanto quanto sei, não há opinião do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou de
outro seu homólogo europeu, sobre o assunto. Provavelmente estão de acordo, ou compreendem. Ou então o caso tem muito menos importância para eles do que uns desenhos. É apenas a vida de um homem obscuro em jogo, e a religião espezinhada é apenas o Cristianismo, com o qual temos vergonha de ter alguma coisa a ver.

Última hora: o tribunal não aceitou a queixa contra Abdul Rahman.

sábado, março 25

Minority Report em versão rasca

A polícia prende ébrios em bares do Texas mesmo antes que ocorra qualquer transgressão da lei. O passo seguinte adivinha-se: beber além de um certo limite ou, talvez, simplesmente beber, é crime.

segunda-feira, março 20

O colapso dos materiais




O momento em que o viaduto nº 1, da auto-estrada entre Caracas e o aeroporto, se despenhou, ontem de manhã. (Via Publius Pundit - link ao lado).

Cenas da vida real, noutra civilização

Abdul Rahman, afegão convertido ao cristianismo, arrisca-se a uma sentença de morte em tribunal.

Tem actualmente 41 anos. Emigrante na Alemanha durante 9 anos, regressa ao Afeganistão em 2002 para reclamar a tutela de duas filhas adolescentes.

A família, com quem se encontra em conflito, denunciou a conversão de Abdul enquanto o processo decorria. As consequências da acusação vão espelhar um pouco da luta entre tradição e reforma no Afeganistão, com uma vida a jogar-se em pano de fundo.

domingo, março 19

Terceiro aniversário

Assinalou-se o terceiro aniversário da invasão do Iraque. As entidades organizadoras dos habituais protestos - parece que desta vez menos concorridos - apelam à retirada de todos os ocupantes. Mas não é aos terroristas e todo o tipo de mercenários infiltrados, que matam diariamente iraquianos, que se referem, não: esses e os seus crimes devem ser o que apelidam de "resistência do povo iraquiano". Como se pode ler nas linhas e entrelinhas dos apelos a manifestações - por exemplo, o texto da FENPROF - a mira está apontada, sem surpresa, aos Estados Unidos e perfila-se já o alinhamento ao lado dos regimes da Síria e do Irão contra o que der e vier. As eleições realizadas no Iraque são postas entre aspas e classificadas sumariamene de fraude. Na verdade nada disto é novo: os simpatizantes do comunismo nunca tiveram apreço por eleições, a não ser como meio táctico de acesso à partilha do poder nas "democracias burguesas".

Por muito criticável que seja o modo como a administração Bush tratou o problema do Iraque, afirmações como as que se podem ler no texto citado são certamente um insulto para boa parte do "povo iraquiano" com quem os autores se dizem tão preocupados. Por outro lado, quem critica não pode deixar de ter em conta os efeitos da retirada, para não falar já em alternativas à ocorrência da intervenção. (Dois artigos interessantes, longe do padrão derrotista da abordagem habitual, podem ver-se aqui e aqui.)

A propósito, também ontem passou o terceiro aniversário de uma vaga de repressão em Cuba, resultando na prisão de 75 pessoas (activistas de direitos humanos, jornalistas e outros trabalhadores, editores) cujo delito são as ideias de democracia que defendem. As condenações foram severas, tendo sido libertadas 15 das pessoas presas por razões de saúde. O acontecimento não foi muito assinalado. Que interessa a liberdade de pensamento e expressão à longa lista de promotores de protestos anti-EEUU? Obviamente, nada. O ditador Castro não está na sua agenda, a não ser para acções de discreta simpatia.