Sampaio, possivelmente confundido a respeito do seu próprio papel, vem lembrar o governo canadiano de que deve também expulsar emigrantes espanhóis e italianos.
Freitas do Amaral, apesar do humilhante resultado da sua visita, e num óbvio acesso de irrealismo, parece querer perfilar-se como futuro candidato a ministro canadiano da economia ao avançar com razões por que os emigrantes portugueses não devem ser expulsos "as necessidades da economia de Toronto em matéria de construção Civil, (...) ficariam profundamente afectadas, com grave prejuízo para a economia do Canadá, se de repente os trabalhadores portugueses desse sector começassem todos a ser mandados embora".
sexta-feira, março 31
quinta-feira, março 30
O amor nos tempos de internet (10)
-Estou sim
-Rita? É a Cláudia. Tudo bem?
-Olá, Claudinha, estou. Desculpa não ter dito nada ontem, mas o dia foi agitado
-Calculo... mas as coisas com o L. vão bem ou nem por isso?
-Nem sei o que te responda. Esse homem dá cabo da minha cabeça
-Mas vocês afinal gostam-se, ou não?
-De mim sei eu, mas ele, ui, é um caso sério. Acho que não põe o jogo todo à vista... mas vamos almoçar um destes dias que eu conto-te a novela. E tu, sempre se confirma?
-É verdade, estou grávida, já está confirmado
-Uau, parabens! Imagino que estás radiante
-Sim, mas sabes que agora há uma coisa no Carlos que me preocupa?
-Sim, o quê?
-Vê lá tu que de um dia para o outro tornou-se sonâmbulo. Foi a semana passada a primeira vez, eu nem liguei, não te tinha falado nisso
-???
-mas nestas últimas duas noites levantou-se a dormir, foi fazer café à cozinha e voltou para a cama - sempre a dormir
-Mas tu viste?
-Claro, fiquei com o sono leve por causa disto. Levanto-me e vou vigiar, tenho medo que tropece e parta alguma coisa e se parta a ele
-Ó filha, não te rales com isso. Quem me dera a mim que fossem esses os meus problemas
-Ele fez-te mais alguma?
-Muita sorte se for só uma... mas ele disfarça bem. Acho que anda outra em cena mas não tenho prova nenhuma
-Ora, isso é impressão tua. Ele não ia arriscar uma coisa dessas na situação em que está. Sem ti fica na fossa
-Sei lá, ele é muito estranho. Eu é que sou muito boa: já estive para dizer bye.
-Ah sim?
-Sim, imagina que depois daquela ida a Barcelona que me ficou atravessada já duas vezes que me diz que tem que ir ao Porto - sempre em trabalho, tá-se mesmo a ver, não tás? e depois acaba por aparecer em casa mais tarde.
-??
-Cá pra mim anda atrás doutra que lhe troca as voltas. Sempre agarrado ao computador e de olho no telemóvel... tás a ver?
-Rita, acho que andas a ler novelas sobre as novas tecnologias
-Mais dia menos dia dou o salto e ele fica sozinho. E depois outra que o ature a ele e ao filho.
-A mim não me enganas, Rita, quantas mais ele te faz mais gostas dele
-Olha que há limites. Ah, mudando de assunto, acho que não te disse que o L. ultimamente anda muito preocupado com o Eduardo
-Ah sim? porquê?
-Não sei bem, parece-me que o rapaz se viu metido num problema... eu até gosto do miúdo e oficialmente não sei de nada. Mas depois conto-te.
-Não me digas que tem a ver com aquilo que tu me contaste do bilhete no bolso do blusão
-Ah... não sei... não. Indirectamente, pode ter. Mas agora não posso falar, Cláudia
-Ai conta, conta
-Pelo telefone não. Amanhã ligo-te para irmos almoçar e falamos melhor
-Que má. Tá, então liga antes do meio dia
-Xau, beijinhos
-jinhos até amanhã
-Rita? É a Cláudia. Tudo bem?
-Olá, Claudinha, estou. Desculpa não ter dito nada ontem, mas o dia foi agitado
-Calculo... mas as coisas com o L. vão bem ou nem por isso?
-Nem sei o que te responda. Esse homem dá cabo da minha cabeça
-Mas vocês afinal gostam-se, ou não?
-De mim sei eu, mas ele, ui, é um caso sério. Acho que não põe o jogo todo à vista... mas vamos almoçar um destes dias que eu conto-te a novela. E tu, sempre se confirma?
-É verdade, estou grávida, já está confirmado
-Uau, parabens! Imagino que estás radiante
-Sim, mas sabes que agora há uma coisa no Carlos que me preocupa?
-Sim, o quê?
-Vê lá tu que de um dia para o outro tornou-se sonâmbulo. Foi a semana passada a primeira vez, eu nem liguei, não te tinha falado nisso
-???
-mas nestas últimas duas noites levantou-se a dormir, foi fazer café à cozinha e voltou para a cama - sempre a dormir
-Mas tu viste?
-Claro, fiquei com o sono leve por causa disto. Levanto-me e vou vigiar, tenho medo que tropece e parta alguma coisa e se parta a ele
-Ó filha, não te rales com isso. Quem me dera a mim que fossem esses os meus problemas
-Ele fez-te mais alguma?
-Muita sorte se for só uma... mas ele disfarça bem. Acho que anda outra em cena mas não tenho prova nenhuma
-Ora, isso é impressão tua. Ele não ia arriscar uma coisa dessas na situação em que está. Sem ti fica na fossa
-Sei lá, ele é muito estranho. Eu é que sou muito boa: já estive para dizer bye.
-Ah sim?
-Sim, imagina que depois daquela ida a Barcelona que me ficou atravessada já duas vezes que me diz que tem que ir ao Porto - sempre em trabalho, tá-se mesmo a ver, não tás? e depois acaba por aparecer em casa mais tarde.
-??
-Cá pra mim anda atrás doutra que lhe troca as voltas. Sempre agarrado ao computador e de olho no telemóvel... tás a ver?
-Rita, acho que andas a ler novelas sobre as novas tecnologias
-Mais dia menos dia dou o salto e ele fica sozinho. E depois outra que o ature a ele e ao filho.
-A mim não me enganas, Rita, quantas mais ele te faz mais gostas dele
-Olha que há limites. Ah, mudando de assunto, acho que não te disse que o L. ultimamente anda muito preocupado com o Eduardo
-Ah sim? porquê?
-Não sei bem, parece-me que o rapaz se viu metido num problema... eu até gosto do miúdo e oficialmente não sei de nada. Mas depois conto-te.
-Não me digas que tem a ver com aquilo que tu me contaste do bilhete no bolso do blusão
-Ah... não sei... não. Indirectamente, pode ter. Mas agora não posso falar, Cláudia
-Ai conta, conta
-Pelo telefone não. Amanhã ligo-te para irmos almoçar e falamos melhor
-Que má. Tá, então liga antes do meio dia
-Xau, beijinhos
-jinhos até amanhã
domingo, março 26
A infinita compreensão dos ocidentais
Sayed Rahmatullah Hashemi, com as funções de destacado ex-porta voz taliban no curriculum, resolveu mudar a área dos seus "estudos", quis ingressar em Yale e foi admitido. A habitual "compreensão" de motivações e especificidades culturais serviu aqui para branquear um passado terrorista: uma declaração da universidade refere-se a Hashemi como um "fugitivo do naufrágio afegão".
A deputada afegã Malalai Joia criticou a universidade, classificando o acto de admitir Hashemi como revoltante e insultuoso.
Curiosamente, parece que a compreensão só é accionada precisamente em relação aos que usam a violência e são ou foram adeptos assumidos da barbárie.
É que, em 2002, um projecto de Paula Nirschel (da organização Iniciativa para a Educação das Mulheres Afegãs) para permitir às jovens do Afeganistão pós-taliban prosseguir estudos superiores, esbarrou com a recusa de Yale em disponiblizar vagas.
A respeito da sentença de morte que pode vir a ser decretada contra Abdul Rahman, por se ter convertido ao cristianismo, deve haver também muita compreensão nas nossas fileiras. Abdul Raoulf, considerado moderado por ter estado na oposição aos Taliban, já disse: "Rejeitar o Islão é insultar Deus e não podemos permitir que Deus seja humilhado. este homem tem que morrer".
Tanto quanto sei, não há opinião do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou de
outro seu homólogo europeu, sobre o assunto. Provavelmente estão de acordo, ou compreendem. Ou então o caso tem muito menos importância para eles do que uns desenhos. É apenas a vida de um homem obscuro em jogo, e a religião espezinhada é apenas o Cristianismo, com o qual temos vergonha de ter alguma coisa a ver.
Última hora: o tribunal não aceitou a queixa contra Abdul Rahman.
A deputada afegã Malalai Joia criticou a universidade, classificando o acto de admitir Hashemi como revoltante e insultuoso.
Curiosamente, parece que a compreensão só é accionada precisamente em relação aos que usam a violência e são ou foram adeptos assumidos da barbárie.
É que, em 2002, um projecto de Paula Nirschel (da organização Iniciativa para a Educação das Mulheres Afegãs) para permitir às jovens do Afeganistão pós-taliban prosseguir estudos superiores, esbarrou com a recusa de Yale em disponiblizar vagas.
A respeito da sentença de morte que pode vir a ser decretada contra Abdul Rahman, por se ter convertido ao cristianismo, deve haver também muita compreensão nas nossas fileiras. Abdul Raoulf, considerado moderado por ter estado na oposição aos Taliban, já disse: "Rejeitar o Islão é insultar Deus e não podemos permitir que Deus seja humilhado. este homem tem que morrer".
Tanto quanto sei, não há opinião do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou de
outro seu homólogo europeu, sobre o assunto. Provavelmente estão de acordo, ou compreendem. Ou então o caso tem muito menos importância para eles do que uns desenhos. É apenas a vida de um homem obscuro em jogo, e a religião espezinhada é apenas o Cristianismo, com o qual temos vergonha de ter alguma coisa a ver.
Última hora: o tribunal não aceitou a queixa contra Abdul Rahman.
sábado, março 25
Minority Report em versão rasca
A polícia prende ébrios em bares do Texas mesmo antes que ocorra qualquer transgressão da lei. O passo seguinte adivinha-se: beber além de um certo limite ou, talvez, simplesmente beber, é crime.
segunda-feira, março 20
O colapso dos materiais
Cenas da vida real, noutra civilização
Abdul Rahman, afegão convertido ao cristianismo, arrisca-se a uma sentença de morte em tribunal.
Tem actualmente 41 anos. Emigrante na Alemanha durante 9 anos, regressa ao Afeganistão em 2002 para reclamar a tutela de duas filhas adolescentes.
A família, com quem se encontra em conflito, denunciou a conversão de Abdul enquanto o processo decorria. As consequências da acusação vão espelhar um pouco da luta entre tradição e reforma no Afeganistão, com uma vida a jogar-se em pano de fundo.
Tem actualmente 41 anos. Emigrante na Alemanha durante 9 anos, regressa ao Afeganistão em 2002 para reclamar a tutela de duas filhas adolescentes.
A família, com quem se encontra em conflito, denunciou a conversão de Abdul enquanto o processo decorria. As consequências da acusação vão espelhar um pouco da luta entre tradição e reforma no Afeganistão, com uma vida a jogar-se em pano de fundo.
domingo, março 19
Terceiro aniversário
Assinalou-se o terceiro aniversário da invasão do Iraque. As entidades organizadoras dos habituais protestos - parece que desta vez menos concorridos - apelam à retirada de todos os ocupantes. Mas não é aos terroristas e todo o tipo de mercenários infiltrados, que matam diariamente iraquianos, que se referem, não: esses e os seus crimes devem ser o que apelidam de "resistência do povo iraquiano". Como se pode ler nas linhas e entrelinhas dos apelos a manifestações - por exemplo, o texto da FENPROF - a mira está apontada, sem surpresa, aos Estados Unidos e perfila-se já o alinhamento ao lado dos regimes da Síria e do Irão contra o que der e vier. As eleições realizadas no Iraque são postas entre aspas e classificadas sumariamene de fraude. Na verdade nada disto é novo: os simpatizantes do comunismo nunca tiveram apreço por eleições, a não ser como meio táctico de acesso à partilha do poder nas "democracias burguesas".
Por muito criticável que seja o modo como a administração Bush tratou o problema do Iraque, afirmações como as que se podem ler no texto citado são certamente um insulto para boa parte do "povo iraquiano" com quem os autores se dizem tão preocupados. Por outro lado, quem critica não pode deixar de ter em conta os efeitos da retirada, para não falar já em alternativas à ocorrência da intervenção. (Dois artigos interessantes, longe do padrão derrotista da abordagem habitual, podem ver-se aqui e aqui.)
A propósito, também ontem passou o terceiro aniversário de uma vaga de repressão em Cuba, resultando na prisão de 75 pessoas (activistas de direitos humanos, jornalistas e outros trabalhadores, editores) cujo delito são as ideias de democracia que defendem. As condenações foram severas, tendo sido libertadas 15 das pessoas presas por razões de saúde. O acontecimento não foi muito assinalado. Que interessa a liberdade de pensamento e expressão à longa lista de promotores de protestos anti-EEUU? Obviamente, nada. O ditador Castro não está na sua agenda, a não ser para acções de discreta simpatia.
Por muito criticável que seja o modo como a administração Bush tratou o problema do Iraque, afirmações como as que se podem ler no texto citado são certamente um insulto para boa parte do "povo iraquiano" com quem os autores se dizem tão preocupados. Por outro lado, quem critica não pode deixar de ter em conta os efeitos da retirada, para não falar já em alternativas à ocorrência da intervenção. (Dois artigos interessantes, longe do padrão derrotista da abordagem habitual, podem ver-se aqui e aqui.)
A propósito, também ontem passou o terceiro aniversário de uma vaga de repressão em Cuba, resultando na prisão de 75 pessoas (activistas de direitos humanos, jornalistas e outros trabalhadores, editores) cujo delito são as ideias de democracia que defendem. As condenações foram severas, tendo sido libertadas 15 das pessoas presas por razões de saúde. O acontecimento não foi muito assinalado. Que interessa a liberdade de pensamento e expressão à longa lista de promotores de protestos anti-EEUU? Obviamente, nada. O ditador Castro não está na sua agenda, a não ser para acções de discreta simpatia.
quarta-feira, março 15
Choque aritmético?
Estou muito céptico a respeito de uma notícia do dia: vai ser obrigatório publicitar a taxa de juro nos anúncios de crédito ao consumo.
Esta medida só poderia ser realmente eficaz depois de tornar obrigatória, para a concessão de crédito, a aprovação num exame nacional de Matemática (ou, pelo menos, de Aritmética Elementar, dirigida para as aplicações ao dia-a-dia). Não percamos a esperança e aguardemos pela regulamentação da lei.
Esta medida só poderia ser realmente eficaz depois de tornar obrigatória, para a concessão de crédito, a aprovação num exame nacional de Matemática (ou, pelo menos, de Aritmética Elementar, dirigida para as aplicações ao dia-a-dia). Não percamos a esperança e aguardemos pela regulamentação da lei.
sábado, março 11
Para 13 instrumentos de sopro
Para não parecer que tenho alguma má vontade contra W. A. Mozart, hoje rendo-me às comemorações. A minha sugestão de escuta é a Gran Partita k361. Pode-se ouvir uma amostra desses sons magníficos aqui.
Voltaire e(ntre) nós

Num artigo de opinião que aparece no PÚBLICO de hoje, Rui M. Tavares efabula sobre o que seriam as atitudes de Voltaire se ele vivesse nos dias de hoje. No domínio do fantástico, cada um escreve o que quer ou de acordo com a cartilha em que acredita. Assim, aparece-nos Voltaire a defender as minorias, a recusar a "superioridade civilizacional" e nunca a alinhar com o lado do "Ocidente", muito menos ainda com o "judeo-cristão".
Antes de Voltaire, também as atitudes de Cristo e de Maomé perante o caso das caricaturas são objecto de reflexão. Estamos, claro, em pleno delírio ficcional, mas o autor conclui em segurança que ambos encarariam a crise com magnânima indiferença. Eu não sei se tem ou deixa de ter razão, porque a afirmação é simplesmente vazia de significado. Fico é a pensar que Rui Tavares não terá lido com atenção os Evangelhos e o Corão.
Espantosa distorção da realidade pelos desejos, especialmente quando se trata de um historiador! Rui Tavares não explicita, mas a sua mensagem subliminar é clara: Voltaire está entre nós e é português! Fisicamente não é muito parecido com o original, mas por acaso até é ministro e já escreveu uma peça na actual reencarnação.
sexta-feira, março 10
O 8 de março em Teerão

Há notícia de que alguns gupos de mulheres sairam à rua em Teerão no 8 de março, a reclamar direitos. Terá havido espancamentos por parte da polícia, e prisões. Nas nossas televisões e jornais, tanto quanto sei, nada passou. Será porque a agência oficial iraniana não teve a gentileza de informar ninguém?
Claro que notícias como esta, divulgadas através de certos sites da internet, podem ser difíceis de verificar. Mas as que constituem propaganda óbvia do regime costumam passar como retratando fielmente a realidade e sem lugar a dúvidas.
NOTA ACRESCENTADA ÀS 22:00: O telejornal desta noite passou notícia da manifestação, com imagens.
quinta-feira, março 9
O cartão de eleitor e as peúgas brancas
Ontem ouviu-se falar muito do novo cartão único do cidadão. Explicaram que ele poderia funcionar também como cartão de eleitor. Ora, eu nunca percebi o que é que este cartão acrescentava ao bilhete de identidade, ou porque é que este não faz prova da condição de eleitor na freguesia onde se está inscrito. Haverá alguém que possa explicar isto?
A partir daqui lembrei-me, por associação, de um outro mistério, noutro âmbito, que também considero impenetrável: a generalidade das pessoas considera inadequado e piroso que os homens usem peúgas brancas. Poderá alguém dar razões que sustentem esse ditame? Seria interessante detectar a sua origem e saber se se trata de uma norma seguida em muitos lugares. O certo é que é a norma está instalada, a tal ponto que é difícil encontrar, no comércio, peúgas que não sejam pretas ou azul-escuras.
Aquilo que distingue as escuras, quanto a mim, é que se sujam sem se dar por isso. Assim, é presumível que alguém poderá aproveitar o facto para se limitar à mudança semanal de peúgas. Por outro lado, é bem sabido que a peúga branca é mais saudável, pelo facto de permitir maior dispersão do calor. Suspeito que ainda um dia alguma polícia da saúde vai virar a norma do avesso.
A partir daqui lembrei-me, por associação, de um outro mistério, noutro âmbito, que também considero impenetrável: a generalidade das pessoas considera inadequado e piroso que os homens usem peúgas brancas. Poderá alguém dar razões que sustentem esse ditame? Seria interessante detectar a sua origem e saber se se trata de uma norma seguida em muitos lugares. O certo é que é a norma está instalada, a tal ponto que é difícil encontrar, no comércio, peúgas que não sejam pretas ou azul-escuras.
Aquilo que distingue as escuras, quanto a mim, é que se sujam sem se dar por isso. Assim, é presumível que alguém poderá aproveitar o facto para se limitar à mudança semanal de peúgas. Por outro lado, é bem sabido que a peúga branca é mais saudável, pelo facto de permitir maior dispersão do calor. Suspeito que ainda um dia alguma polícia da saúde vai virar a norma do avesso.
terça-feira, março 7
O amor nos tempos de internet (9)
SOFIA
Desde que passei a viver com o Filipe, tenho que vir no meu velho punto para o trabalho em Lisboa. A diferença de horários e a distância entre os lugares de trabalho não nos permitem usar um só carro. Mudanças menores. Sabendo ele que eu estava habituada ao palácio do L., foi com um ar tímido que me disse, a primeira vez que me levou a sua casa: Aqui não tens electrodomésticos topo de gama... e eu comentei nessa altura que me bastava uma máquina de lavar roupa razoável: a invenção mais injustamente subestimada, provavelmente emsombrada pela pílula.
Para queimar os quarenta minutos que agora passo, todas as manhãs, no IC19, ligo o rádio, mas só como contrabalanço do ruído exterior da estrada. Os ouvidos não lhe dão atenção. O pensamento foge sistematicamente para episódios vividos em datas recentes. Todos os dias me recordo da decisão que tomei, chocada com o desfecho infeliz do meu namoro de faculdade, quando não quis ficar de braços cruzados à espera do que viria a seguir. Os colegas já tinham falado de uma coisa nova que tinha aparecido na internet, um site de namoros . Fui então ao namoros.com e redigi um anúncio piroso: "Não sou Vénus mas com certeza não darás como perdido o tempo que gastares para me conhecer. Idade não importa". Dois dias depois o L. enviava-me um número de telefone. No fim fiz sofrer o L. e fiz-me mal também a mim.
Mas ultimamente o que passa obsessivamente na minha cabeça, como uma cena de filme que se pode ver e rever em disco, é o episódio da nossa ida a Coimbra, no último ano em que estivemos juntos. O meu contacto com o Eduardo tinha sido sempre difícil: nunca perdoou ao L. a separação da mãe. Numa certa sexta feira de Janeiro o Eduardo estava connosco e o L. sugeriu que fôssemos sair de Lisboa. Fiz então mais uma tentativa de ser agradável: era boa altura de irmos visitar o António Reis, advogado bem estabelecido em Coimbra. Tinha sido meu colega e amigo muito próximo num 1º ano em que ele, por engano, frequentara economia. E todos os meses renovava o convite para lá irmos. Poderia ser de interesse para o Eduardo, finalista quase a ser despejado no difícil mercado de trabalho, ter um contacto potencialmente muito útil.
No sábado passeámos pela fila de praias entre a Consolação e S. Pedro de Muel e depois rumámos a Coimbra, onde o António e a Clara nos esperavam para jantar. O casal pareceu genuinamente simpatizar muito com o L. e o Eduardo, que tinha estado razoavelmente animado para o que era costume. Depois da fantástica perna de borrego no forno com um Rioja jovem, a Clara sugeriu que fôssemos ver a vivenda "deslumbrante" que tinham comprado em S. Martinho. Mas o António e o Eduardo estavam já enredados numa grande conversa sobre temas de advocacia. Clara, levas tu o L. e a Sofia, parece que o Eduardo tem vontade de ver os meus arquivos e a biblioteca.
O António era ele próprio um verdadeiro arquivo. Além de poder recitar os vários números de telemóvel de amigos e conhecidos, os NIB das contas bancárias, os números de utente disto e daquilo, tinha uma colecção descomunal de acórdãos que sabia quase de cor.
Nós fomos então com a Clara e eles ficaram. Quando voltámos, o Eduardo e o António tinham saído. A Clara tinha sido prevenida pelo telemóvel: vou fazer de guia do Eduardo à vida nocturna de Coimbra. Ficámos na conversa e no whisky até eles chegarem, já passava das duas. O Eduardo parecia estar ausente, talvez num sítio dentro de si mas longe dos outros, e quase não abriu a boca até ao regresso a Lisboa. A memória não teria regressado com insistência a esse dia se não fossem os factos de que o L. me falou recentemente.
Desde que passei a viver com o Filipe, tenho que vir no meu velho punto para o trabalho em Lisboa. A diferença de horários e a distância entre os lugares de trabalho não nos permitem usar um só carro. Mudanças menores. Sabendo ele que eu estava habituada ao palácio do L., foi com um ar tímido que me disse, a primeira vez que me levou a sua casa: Aqui não tens electrodomésticos topo de gama... e eu comentei nessa altura que me bastava uma máquina de lavar roupa razoável: a invenção mais injustamente subestimada, provavelmente emsombrada pela pílula.
Para queimar os quarenta minutos que agora passo, todas as manhãs, no IC19, ligo o rádio, mas só como contrabalanço do ruído exterior da estrada. Os ouvidos não lhe dão atenção. O pensamento foge sistematicamente para episódios vividos em datas recentes. Todos os dias me recordo da decisão que tomei, chocada com o desfecho infeliz do meu namoro de faculdade, quando não quis ficar de braços cruzados à espera do que viria a seguir. Os colegas já tinham falado de uma coisa nova que tinha aparecido na internet, um site de namoros . Fui então ao namoros.com e redigi um anúncio piroso: "Não sou Vénus mas com certeza não darás como perdido o tempo que gastares para me conhecer. Idade não importa". Dois dias depois o L. enviava-me um número de telefone. No fim fiz sofrer o L. e fiz-me mal também a mim.
Mas ultimamente o que passa obsessivamente na minha cabeça, como uma cena de filme que se pode ver e rever em disco, é o episódio da nossa ida a Coimbra, no último ano em que estivemos juntos. O meu contacto com o Eduardo tinha sido sempre difícil: nunca perdoou ao L. a separação da mãe. Numa certa sexta feira de Janeiro o Eduardo estava connosco e o L. sugeriu que fôssemos sair de Lisboa. Fiz então mais uma tentativa de ser agradável: era boa altura de irmos visitar o António Reis, advogado bem estabelecido em Coimbra. Tinha sido meu colega e amigo muito próximo num 1º ano em que ele, por engano, frequentara economia. E todos os meses renovava o convite para lá irmos. Poderia ser de interesse para o Eduardo, finalista quase a ser despejado no difícil mercado de trabalho, ter um contacto potencialmente muito útil.
No sábado passeámos pela fila de praias entre a Consolação e S. Pedro de Muel e depois rumámos a Coimbra, onde o António e a Clara nos esperavam para jantar. O casal pareceu genuinamente simpatizar muito com o L. e o Eduardo, que tinha estado razoavelmente animado para o que era costume. Depois da fantástica perna de borrego no forno com um Rioja jovem, a Clara sugeriu que fôssemos ver a vivenda "deslumbrante" que tinham comprado em S. Martinho. Mas o António e o Eduardo estavam já enredados numa grande conversa sobre temas de advocacia. Clara, levas tu o L. e a Sofia, parece que o Eduardo tem vontade de ver os meus arquivos e a biblioteca.
O António era ele próprio um verdadeiro arquivo. Além de poder recitar os vários números de telemóvel de amigos e conhecidos, os NIB das contas bancárias, os números de utente disto e daquilo, tinha uma colecção descomunal de acórdãos que sabia quase de cor.
Nós fomos então com a Clara e eles ficaram. Quando voltámos, o Eduardo e o António tinham saído. A Clara tinha sido prevenida pelo telemóvel: vou fazer de guia do Eduardo à vida nocturna de Coimbra. Ficámos na conversa e no whisky até eles chegarem, já passava das duas. O Eduardo parecia estar ausente, talvez num sítio dentro de si mas longe dos outros, e quase não abriu a boca até ao regresso a Lisboa. A memória não teria regressado com insistência a esse dia se não fossem os factos de que o L. me falou recentemente.
segunda-feira, março 6
Silêncio não inocente
Excertos adaptados do livro "Death of Feminism", de Phyllis Chesler, emerita professor of psychology and women's studies na City University of New York's College of Staten Island:
Os terroristas islâmicos declararam guerra ao "ocidente infiel" e contra todos os que aspiram à liberdade. As mulheres no mundo islâmico são tratadas a nível sub-humano. Embora algumas feministas tenham feito soar o sinal de alarme, muitas mais permaneceram em silêncio. Porque é que tantas erradamente romanticizaram terroristas como combatentes da liberdade, condenando a América e Israel como os verdadeiros terroristas e causa do terrorismo? Em nome da correcção multicultural, a academia e os media feministas parecem ter abandonado por completo as pessoas mais vulneráveis.
Por serem tão fortemente influenciados pelo pensamento de esquerda, os académicos e meios feministas julgam que falar de véus, chador, casamentos forçados, poligamia, gravidez forçada ou mutilação genital feminina é "imperialista" ou "cruzadista".
A maioria dos académicos e activistas não fazem nada, na realidade: lêem, escrevem, submetem artigos. Não podem libertar escravos ou prisioneiros como o pode fazer um exército, mas podem pensar com clareza, de maneira complexa e corajosa, e podem enunciar uma visão da liberdade e da dignidade para mulheres e homens. É crucial que o façam.
As mulheres e as minorias nos países muçulmanos não ocidentais, e na Europa crescentemente islamizada, estão em perigo como nunca antes estiveram. Em 2004 o cineasta holandês Theo van Gogh foi esfaqueado por um jihadista nas ruas de Amsterdão por ter feito um filme, Submissão, em que mostrava como as mulheres são abusadas sob o Islão Corânico. Contudo, o silêncio tanto de feministas como de cineastas sobre o assassinato de van Gogh é ensurdecedor e desmoralizador. Os mesmos que em Hollywood são rápidos a condenar bem alto o Presidente Bush por ter invadido o Afganistão e o Iraque têm, pelo menos até agora, permanecido em silêncio a respeito do terrível efeito que um tal assassínio à luz do dia pode ter na liberdade de expressão académica e artística.
Os terroristas islâmicos declararam guerra ao "ocidente infiel" e contra todos os que aspiram à liberdade. As mulheres no mundo islâmico são tratadas a nível sub-humano. Embora algumas feministas tenham feito soar o sinal de alarme, muitas mais permaneceram em silêncio. Porque é que tantas erradamente romanticizaram terroristas como combatentes da liberdade, condenando a América e Israel como os verdadeiros terroristas e causa do terrorismo? Em nome da correcção multicultural, a academia e os media feministas parecem ter abandonado por completo as pessoas mais vulneráveis.
Por serem tão fortemente influenciados pelo pensamento de esquerda, os académicos e meios feministas julgam que falar de véus, chador, casamentos forçados, poligamia, gravidez forçada ou mutilação genital feminina é "imperialista" ou "cruzadista".
A maioria dos académicos e activistas não fazem nada, na realidade: lêem, escrevem, submetem artigos. Não podem libertar escravos ou prisioneiros como o pode fazer um exército, mas podem pensar com clareza, de maneira complexa e corajosa, e podem enunciar uma visão da liberdade e da dignidade para mulheres e homens. É crucial que o façam.
As mulheres e as minorias nos países muçulmanos não ocidentais, e na Europa crescentemente islamizada, estão em perigo como nunca antes estiveram. Em 2004 o cineasta holandês Theo van Gogh foi esfaqueado por um jihadista nas ruas de Amsterdão por ter feito um filme, Submissão, em que mostrava como as mulheres são abusadas sob o Islão Corânico. Contudo, o silêncio tanto de feministas como de cineastas sobre o assassinato de van Gogh é ensurdecedor e desmoralizador. Os mesmos que em Hollywood são rápidos a condenar bem alto o Presidente Bush por ter invadido o Afganistão e o Iraque têm, pelo menos até agora, permanecido em silêncio a respeito do terrível efeito que um tal assassínio à luz do dia pode ter na liberdade de expressão académica e artística.
sábado, março 4
Mulher, marido, adeus
Esta notícia do ABC conta que as fórmulas de registo de família em Espanha vão passar a ser escritas em novilíngua. Marido e mulher darão lugar a "cônjuge A" e "cônjuge B"; pai e mãe a "progenitor A" e "progenitor B".
Parece, no entanto, que continuará a ser permitido o uso dos termos tradicionais no caso de uniões heterossexuais, apesar de o texto publicado no Boletim Oficial não o explicitar.
Parece, no entanto, que continuará a ser permitido o uso dos termos tradicionais no caso de uniões heterossexuais, apesar de o texto publicado no Boletim Oficial não o explicitar.
domingo, fevereiro 26
Longínquos carnavais
Vasco Pulido Valente refere hoje, na sua crónica no PÚBLICO, os carnavais dos velhos tempos salazaristas que "metem dó"... e diz que "felizmente, a polícia de Ditadura suprimiu estas manifestações". É verdade: os carnavais até ao fim dos anos 50 implicavam, tanto quanto me permite recordar a minha memória de criança, brincadeiras inaceitáveis para os nossos padrões de hoje. Vivi até à adolescência numa vila alentejana e não esqueço uma partida de carnaval a que assisti de perto. Naquele tempo, quando se chegava à porta de alguém, não havia campainhas, mas sim uns martelos metálicos. A família A, que vivia uma porta a seguir à minha, tinha um velho contencioso com a família B (universalmente considerada antipática), que vivia no outro lado da rua. Num carnaval que a minha memória e discreção não me permitem precisar, a criada (agora diz-se empregada doméstica, mas nessa altura essa expressão pareceria de um outro planeta) da família A foi untar o martelo da porta da família B com fezes (dos A, obviamente), veio contar às crianças da rua e ficámos todos atrás das cortinas a ver quando chegava o Sr. B a casa: gritou impropérios ao perceber que tinha posto a mão em merda.
E a minha avó materna falava dos "batecus" de ainda mais antigamente: dois fulanos abordavam um sujeito indefeso, um pegava-lhe pelos braços e outro pelas pernas e faziam-no bater repetidamente com o traseiro no chão.
Mas há outra memória do carnaval daqueles tempos que tem mais elevação: as "danças". As danças eram grupos de homens que percorriam a vila, parando aqui e além, executando uma coreografia monótona mas embaladora, tendo por fundo um texto do qual não recordo uma palavra, e com muita percussão, muitas pandeiretas. Metade actuavam como homens e outra metade travestidos de mulheres, lábios pintados de encarnado e maquilhados com enormes rosetas nas faces. As pessoas diziam "vamos ver as danças", ou "vem aí a dança", e tudo parava a ver e escutar. Provavelmente tratava-se da sobrevivência de um ritual medieval, que poderia fazer as delícias de antropólogos sem assunto e motivar alguma tese de mestrado ou doutoramento mais interessante do que muitas. Talvez existam estudos sobre o assunto, mas não os não conheço. Garanto, eu vi as danças, da minha janela, muitos anos atrás, quando era tão pequeno que não me deixavam sair à rua sozinho.
E a minha avó materna falava dos "batecus" de ainda mais antigamente: dois fulanos abordavam um sujeito indefeso, um pegava-lhe pelos braços e outro pelas pernas e faziam-no bater repetidamente com o traseiro no chão.
Mas há outra memória do carnaval daqueles tempos que tem mais elevação: as "danças". As danças eram grupos de homens que percorriam a vila, parando aqui e além, executando uma coreografia monótona mas embaladora, tendo por fundo um texto do qual não recordo uma palavra, e com muita percussão, muitas pandeiretas. Metade actuavam como homens e outra metade travestidos de mulheres, lábios pintados de encarnado e maquilhados com enormes rosetas nas faces. As pessoas diziam "vamos ver as danças", ou "vem aí a dança", e tudo parava a ver e escutar. Provavelmente tratava-se da sobrevivência de um ritual medieval, que poderia fazer as delícias de antropólogos sem assunto e motivar alguma tese de mestrado ou doutoramento mais interessante do que muitas. Talvez existam estudos sobre o assunto, mas não os não conheço. Garanto, eu vi as danças, da minha janela, muitos anos atrás, quando era tão pequeno que não me deixavam sair à rua sozinho.
sexta-feira, fevereiro 24
Palavras e expressões de que não gosto
nomeadamente
designadamente
ensino-aprendizagem (ou é com barra?)
flexibilidade curricular
atitudes, competências, cidadania (quando utilizadas nos textos do ministério ou dos chamados especialistas da educação ou a propósito do "movimento" de Manuel Alegre)
territórios educativos
dificuldades educativas acrescidas
escola inclusiva
processo de bolonha (Bolonha é uma bela cidade que não tem culpa)
em sede de
moldura penal
assistente (quando utilizada num processo jurídico)
Há mais. Estas são as que me ocorrem em primeiro lugar. Fica aqui o apelo ao Lino2 para indicar as suas escolhas, mas que isso não seja desculpa para se atrasar com a blognovela. Já agora, gostava também de conhecer as listas do ON e do OMWO do Prozacland (link ao lado).
designadamente
ensino-aprendizagem (ou é com barra?)
flexibilidade curricular
atitudes, competências, cidadania (quando utilizadas nos textos do ministério ou dos chamados especialistas da educação ou a propósito do "movimento" de Manuel Alegre)
territórios educativos
dificuldades educativas acrescidas
escola inclusiva
processo de bolonha (Bolonha é uma bela cidade que não tem culpa)
em sede de
moldura penal
assistente (quando utilizada num processo jurídico)
Há mais. Estas são as que me ocorrem em primeiro lugar. Fica aqui o apelo ao Lino2 para indicar as suas escolhas, mas que isso não seja desculpa para se atrasar com a blognovela. Já agora, gostava também de conhecer as listas do ON e do OMWO do Prozacland (link ao lado).
quinta-feira, fevereiro 23
As ruas de Teerão

Já me referi a um aspecto irritante dos noticiários de tv que ontem voltou a repetir-se. Num telejornal da noite foram mostradas imagens encenadas em Teerão da habitual queima de bandeiras em frente de embaixadas ocidentais. O que se via era um pequeno grupo de figurantes filmado à altura do operador de câmara, mas o locutor falava de "ruas cheias em Teerão".
Este modo acrítico de reproduzir os materiais provenientes de países onde as manifestações são encenadas pelo poder e por grupos extremistas pode dever-se a desleixo e incompetência, mas também podemos perguntar-nos se não terá a ver com posições políticas, dentro das redacções, daqueles que nunca deixaram de viver uma longa paixão por tudo o que é regime totalitário.
(Cartoon de Mike Luckovich, Atlanta Journal)
domingo, fevereiro 19
A ciência
Eu, como certamente os meus 7 ou 8 leitores, temos alguma noção de que a queda de uma maçã e os movimentos dos planetas têm uma causa universal comum. Ou das intimidades entre campo eléctrico e campo magnético. Mas, francamente, se me perguntassem em que aspectos ficam afectadas as mulheres atingidas por doença que levou à ablação de um seio, eu provavelmente responderia, depois de um esforço grande: sei lá, talvez na capacidade de cozinhar ou de conduzir um automóvel. Felizmente ontem à noite o telejornal da RTP1 veio abrir-me os olhos: foi divulgado um estudo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada onde se concluía que afinal aquelas senhoras ficam afectadas mas é na auto-estima, na relação com o corpo e na sexualidade.
Se não fosse a ciência, o que seria a nossa visão do mundo?
Se não fosse a ciência, o que seria a nossa visão do mundo?
sábado, fevereiro 18
O amor nos tempos de internet (8)
O primeiro sinal da fuga iminente de Sofia, a que verdadeiramente não prestei atenção, surgiu pouco depois da Páscoa do ano passado. Ela tinha começado nesse ano a dar um curso de formação noutra empresa fora de horas. As aulas terminavam às 11 da noite e costumava chegar a casa entre as 11.15 e as 11.20. Certa noite do fim de Abril, eu estava muito cansado e deitei-me antes de ela chegar. Adormeci pesadamente mas acordei passado pouco tempo. Estendi o braço e toquei na ausência de Sofia. Acendi a luz, vi que passava da meia noite. Levantei-me a correr, e quando confirmei que não estava corri para o telemóvel. A chamada foi recusada, mas passado um minuto a chave rodava na porta.
Que foi, amor? Perguntei, já estava assustado. Os alunos hoje retiveram-me imenso tempo depois da aula, explicou, tranquilizante. Gerou-se uma discussão enorme à volta de um problema prático que confundiu a turma toda. Cortei-te a chamada porque não valia a pena gastares o impulso, já estava na garagem. Abraçou-me e beijou-me de fugida e passados menos de dez minutos estávamos a adormecer abraçados, como era hábito. Mas, meses mais tarde, este episódio iria ser revisto por mim como o primeiro sintoma do que estava a preparar-se. Embora sem voltar a falar nisso, fiquei com a certeza de que, naquela noite, Sofia tinha estado com o outro, talvez apenas num passeio nocturno a seguir à aula, talvez algo mais.
No início de Maio o comportamento de Sofia começou a chamar-me a atenção. Um domingo de manhã, num fim de semana quente que o Eduardo não tinha vindo passar connosco, estava ela no escritório a folhear dossiers e eu entrei para lhe perguntar, como era hábito, o que íamos fazer. Ela levou instintivamente a mão ao telemóvel que estava em cima da secretária. Foi um gesto muito rápido, inconsciente, indício de um receio comprometido. Este sinal perturbou-me, mas por ser isolado não me entretive a dar-lhe importância. Depois de almoço passeámos longamente costa do Alentejo abaixo e mergulhámos em Melides. No regresso jantámos num restaurante da estrada, a caminho de Comporta, frente à planície e ao pôr do sol com uma luz magnífica feita de vermelhos e azuis-cinzentos. Como sempre, foi a Sofia que escolheu com prazer o vinho. Quando brindámos disse, também como era hábito: À tua, meu querido, muitos anos de vida para me fazeres feliz.
Semanas mais tarde, esta cena iria intrigar-me. O dia havia de ser depois recordado como o último em que tinha estado na praia com Sofia. Talvez ela não quisesse, de facto, deixar-me, mas alguma coisa mais forte do que a sua vontade já tinha posto em marcha o golpe de ruptura.
O aviso final surgiu no fim de Maio. A aula de formação à sexta-feira terminava às dez da noite. Eu ficava a trabalhar até mais tarde e ia buscá-la para jantar fora. Dessa vez não aconteceu, e não voltaria a acontecer. Na véspera à noite tinha-me dito: A minha mãe tem insistido tanto para eu ir lá, por causa do problema da casa... estou a pensar ir lá jantar amanhã, importas-te? Senti um golpe interior e reagi sem grande firmeza. Oh, mas porquê mesmo amanhã? Porque já não os vejo há bastante tempo e também lá está amanhã o meu irmão, a justificação veio pronta, mostrando que a decisão estava tomada. Como as relações com os meus sogros eram geladas, para usar um eufemismo, nada do que acontecesse nessa sexta seria fácil de verificar. Deitei-me às duas, sem Sofia e sem sono.
Que foi, amor? Perguntei, já estava assustado. Os alunos hoje retiveram-me imenso tempo depois da aula, explicou, tranquilizante. Gerou-se uma discussão enorme à volta de um problema prático que confundiu a turma toda. Cortei-te a chamada porque não valia a pena gastares o impulso, já estava na garagem. Abraçou-me e beijou-me de fugida e passados menos de dez minutos estávamos a adormecer abraçados, como era hábito. Mas, meses mais tarde, este episódio iria ser revisto por mim como o primeiro sintoma do que estava a preparar-se. Embora sem voltar a falar nisso, fiquei com a certeza de que, naquela noite, Sofia tinha estado com o outro, talvez apenas num passeio nocturno a seguir à aula, talvez algo mais.
No início de Maio o comportamento de Sofia começou a chamar-me a atenção. Um domingo de manhã, num fim de semana quente que o Eduardo não tinha vindo passar connosco, estava ela no escritório a folhear dossiers e eu entrei para lhe perguntar, como era hábito, o que íamos fazer. Ela levou instintivamente a mão ao telemóvel que estava em cima da secretária. Foi um gesto muito rápido, inconsciente, indício de um receio comprometido. Este sinal perturbou-me, mas por ser isolado não me entretive a dar-lhe importância. Depois de almoço passeámos longamente costa do Alentejo abaixo e mergulhámos em Melides. No regresso jantámos num restaurante da estrada, a caminho de Comporta, frente à planície e ao pôr do sol com uma luz magnífica feita de vermelhos e azuis-cinzentos. Como sempre, foi a Sofia que escolheu com prazer o vinho. Quando brindámos disse, também como era hábito: À tua, meu querido, muitos anos de vida para me fazeres feliz.
Semanas mais tarde, esta cena iria intrigar-me. O dia havia de ser depois recordado como o último em que tinha estado na praia com Sofia. Talvez ela não quisesse, de facto, deixar-me, mas alguma coisa mais forte do que a sua vontade já tinha posto em marcha o golpe de ruptura.
O aviso final surgiu no fim de Maio. A aula de formação à sexta-feira terminava às dez da noite. Eu ficava a trabalhar até mais tarde e ia buscá-la para jantar fora. Dessa vez não aconteceu, e não voltaria a acontecer. Na véspera à noite tinha-me dito: A minha mãe tem insistido tanto para eu ir lá, por causa do problema da casa... estou a pensar ir lá jantar amanhã, importas-te? Senti um golpe interior e reagi sem grande firmeza. Oh, mas porquê mesmo amanhã? Porque já não os vejo há bastante tempo e também lá está amanhã o meu irmão, a justificação veio pronta, mostrando que a decisão estava tomada. Como as relações com os meus sogros eram geladas, para usar um eufemismo, nada do que acontecesse nessa sexta seria fácil de verificar. Deitei-me às duas, sem Sofia e sem sono.
Da vida real
Ilan Hilami, 23 anos, trabalhava numa loja de telemóveis na área de Paris. Uma jovem cliente assídua conquista-lhe a simpatia e um dia convida-o para tomar um copo. O convite é uma armadilha: Ilan é raptado por um bando de delinquentes, chefiado por Youssef Fofana, que pedem um resgate de 450 000 euros. A mãe de Ilan não tem meios de fazer face ao resgate. O corpo de Ilan, com mostras evidentes de tortura, apareceu no passado dia 13.
Ilan era judeu. Youssef é muçulmano.
Ilan era judeu. Youssef é muçulmano.
Os moderados existem
"É uma ironia que hoje viva num estado democrático europeu e tenha que lutar contra os mesmos fanáticos religiosos de que fugi no Irão há anos". Palavras de Kamran Tahmasebi, refugiado na Dinamarca desde 1989. O caso das caricaturas levou-o a levantar a voz contra os imams na Dinamarca, que afirma prejudicarem a o processo de integração e constituirem um dos maiores problemas que o país enfrenta. Sabe bem que enfrenta riscos sérios, mas envolveu-se na dinamização de uma Rede de Muçulmanos Moderados.
Alguns responsáveis ocidentais ajoelham-se e pedem desculpas aos que têm comportamentos violentos e inadmissíveis contra o nosso modo de vida. Costumam invocar a distinção entre muçulmanos moderados e extremistas. Na verdade, estão a pedir desculpas aos extremistas, e é provável que não acreditem na existência dos tais moderados. Se acreditassem, deveriam ter em conta que a atitude capitulacionista é, antes de mais, uma bofetada aos que têm apreço pelos nossos valores, independentemente da sua origem ou credo.
Alguns responsáveis ocidentais ajoelham-se e pedem desculpas aos que têm comportamentos violentos e inadmissíveis contra o nosso modo de vida. Costumam invocar a distinção entre muçulmanos moderados e extremistas. Na verdade, estão a pedir desculpas aos extremistas, e é provável que não acreditem na existência dos tais moderados. Se acreditassem, deveriam ter em conta que a atitude capitulacionista é, antes de mais, uma bofetada aos que têm apreço pelos nossos valores, independentemente da sua origem ou credo.
sexta-feira, fevereiro 17
Cinco manias - resposta
Finalmente respondo ao ON do Prozacland, após um esforço (fácil) para identificar 5 manias confessáveis:
1ª dormir cedo e com duas gretas do estore abertas
2ª jantar num restaurante pelo menos um dia por semana
3ª ir de preferência às sessões de cinema das 18 ou 19 (para evitar adormecer quando o filme não presta)
4ª ler novelas no original quando conheço a língua
5ª comprar cds com versões de canções de Cole Porter, quando os descubro
1ª dormir cedo e com duas gretas do estore abertas
2ª jantar num restaurante pelo menos um dia por semana
3ª ir de preferência às sessões de cinema das 18 ou 19 (para evitar adormecer quando o filme não presta)
4ª ler novelas no original quando conheço a língua
5ª comprar cds com versões de canções de Cole Porter, quando os descubro
quinta-feira, fevereiro 16
Homens, mulheres e fantasmas
quarta-feira, fevereiro 15
Liberdade de expressão armadilhada
É curioso como os meios de informação com maior impacto frequentemente malbaratam a liberdade de expressão e a independência que seriam supostos possuir.
Repare-se, por exemplo, nas referências ao Irão durante a crise actual. Fala-se, claro, no enriquecimento de urânio, que é notícia. Mas não me recordo de ter ouvido ou visto nada sobre a recente greve de motoristas em Teerão, que desencadeou uma vaga de prisões e repressão sobre as famílias dos organizadores do protesto. Parece que a direcção da associação de motoristas pede a solidariedade de sindicatos franceses.
Há também rumores de que as comemorações do 27º aniversário da revolução islâmica esbarraram na falta de entusiasmo da população, não tendo havido multidão para mostrar nas ruas.
Entretanto, Amir Abbas Fakhravar, proeminente dissidente que actualmente vive escondido, deu uma entrevista à National Review Online.
Estas notícias podem requerer confirmações e investigação. Mas que fazem, por exemplo, as televisões? Em termos de imagem, limitam-se a passar as violências e queimas de bandeiras junto a embaixadas ocidentais em Teerão: encenações rombas, risíveis, com umas dezenas de figurantes inexperientes que fariam o fracasso de qualquer filme comercial. Ora, quem põe no ar as imagens não é ingénuo. Podemos concluir que há entre nós muita gente que assume com naturalidade o papel de porta voz do regime teocrático.
Repare-se, por exemplo, nas referências ao Irão durante a crise actual. Fala-se, claro, no enriquecimento de urânio, que é notícia. Mas não me recordo de ter ouvido ou visto nada sobre a recente greve de motoristas em Teerão, que desencadeou uma vaga de prisões e repressão sobre as famílias dos organizadores do protesto. Parece que a direcção da associação de motoristas pede a solidariedade de sindicatos franceses.
Há também rumores de que as comemorações do 27º aniversário da revolução islâmica esbarraram na falta de entusiasmo da população, não tendo havido multidão para mostrar nas ruas.
Entretanto, Amir Abbas Fakhravar, proeminente dissidente que actualmente vive escondido, deu uma entrevista à National Review Online.
Estas notícias podem requerer confirmações e investigação. Mas que fazem, por exemplo, as televisões? Em termos de imagem, limitam-se a passar as violências e queimas de bandeiras junto a embaixadas ocidentais em Teerão: encenações rombas, risíveis, com umas dezenas de figurantes inexperientes que fariam o fracasso de qualquer filme comercial. Ora, quem põe no ar as imagens não é ingénuo. Podemos concluir que há entre nós muita gente que assume com naturalidade o papel de porta voz do regime teocrático.
terça-feira, fevereiro 14
De vez em quando também se distraem...
... os guardiões da linguagem politicamente correcta. Ainda não ouvi mencionar o dia dos namorados e das namoradas. Imperdoável!
segunda-feira, fevereiro 13
O lugar do mas
A crise dos cartoons veio, curiosamente, exigir clarificação de posições políticas no que toca ao tema muito sensível da liberdade de expressão e desmascarar hipocrisias que costumavam passar despercebidas sob o manto do progressismo, sobretudo no campo da esquerda órfã do Muro.
A linha divisória não é entre esquerda e direita, conceitos vagos e inapropriados, mas, no caso concreto, entre os que defendem a liberdade de expressão mas compreendem - quando não justificam - a susceptibilidade dos sentimentos religiosos e as reacções dos fanáticos que fazem ameaças de morte, e os que reconhecem o direito ao protesto e às suas consequências em estado de direito mas põem em primeiro lugar a defesa da liberdade de expressão. Tudo depende, como se vê, do lugar que as frases ocupam em relação à palavrinha adversativa.
Na prática, a piedosa tolerância para com os sentimentos religiosos exibida pelos sectores da esquerda empedernida e todos os que, noutras esferas políticas, por aqueles têm sido contagiados, só se manifesta, como se vê, quando a religião ofendida é a mesma que obriga a vestir burkas, apedrejar mulheres e que, numa palavra, prega a condenação à morte dos apóstatas e infiéis. Se se tratasse de uma posição de princípio, motivos não teriam faltado para que os mesmos se fizessem ouvir entre nós em muitas ocasiões. Pelo que podemos concluir que, dependendo do que lhes convém, ora gritam A mas B, ora sussurram B mas A.
A linha divisória não é entre esquerda e direita, conceitos vagos e inapropriados, mas, no caso concreto, entre os que defendem a liberdade de expressão mas compreendem - quando não justificam - a susceptibilidade dos sentimentos religiosos e as reacções dos fanáticos que fazem ameaças de morte, e os que reconhecem o direito ao protesto e às suas consequências em estado de direito mas põem em primeiro lugar a defesa da liberdade de expressão. Tudo depende, como se vê, do lugar que as frases ocupam em relação à palavrinha adversativa.
Na prática, a piedosa tolerância para com os sentimentos religiosos exibida pelos sectores da esquerda empedernida e todos os que, noutras esferas políticas, por aqueles têm sido contagiados, só se manifesta, como se vê, quando a religião ofendida é a mesma que obriga a vestir burkas, apedrejar mulheres e que, numa palavra, prega a condenação à morte dos apóstatas e infiéis. Se se tratasse de uma posição de princípio, motivos não teriam faltado para que os mesmos se fizessem ouvir entre nós em muitas ocasiões. Pelo que podemos concluir que, dependendo do que lhes convém, ora gritam A mas B, ora sussurram B mas A.
sábado, fevereiro 11
Os nossos valores estão a ser espezinhados. Exigimos desculpas
Sonia Mikish exige desculpas a governos de países onde os nossos valores não são respeitados.
I feel offended.
Zealots are nailing veils onto the faces of my sisters in Afghanistan and Pakistan and are busy hanging women, homosexuals, adulterers and non-believers.
But human rights, women's rights and the right to liberty are the most exalted in the history of humanity; this is the tradition in which I was raised. Values that make the world better and more peaceful.
I demand that the governments of Saudi Arabia, Palestine, Indonesia and Egypt apologise to me. Otherwise I am unfortunately forced to threaten, beat up, kidnap or behead their citizens. Because I am somewhat sensitive about my cultural identity. (...)
Artigo publicado em Die Tageszeitung, 6 de fevereiro.
I feel offended.
Zealots are nailing veils onto the faces of my sisters in Afghanistan and Pakistan and are busy hanging women, homosexuals, adulterers and non-believers.
But human rights, women's rights and the right to liberty are the most exalted in the history of humanity; this is the tradition in which I was raised. Values that make the world better and more peaceful.
I demand that the governments of Saudi Arabia, Palestine, Indonesia and Egypt apologise to me. Otherwise I am unfortunately forced to threaten, beat up, kidnap or behead their citizens. Because I am somewhat sensitive about my cultural identity. (...)
Artigo publicado em Die Tageszeitung, 6 de fevereiro.
quarta-feira, fevereiro 8
Os respeitos e o medo
É lugar comum comentar, a propósito das fricções entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, que os muçulmanos não são todos terroristas e nem todos se deixam guiar pelos incitamentos à violência por militantes, agitadores e governos radicais.
Eu estou de acordo com o pressuposto. Quero até acreditar que uma parte muito importante da população de países islâmicos, uma parte com potencialidades para desempenhar um papel activo na transformação política dos respectivos regimes, partilha apreço por valores ocidentais e gostaria de poder usufruir deles nos seus países.
Então a quem servem os constantes "reconhecimentos de erros", auto-humilhações e pedidos de desculpa dos porta-vozes ocidentais face à ameaça ululante de quem queima e assassina? Não, certamente, aos que no mundo islâmico gostariam de poder lutar por mais abertura e liberdade. Claro que também não creio que os nossos timoratos líderes que se ajoelham queiram servir os radicais: simplesmente, perante a sua fúria, tremem de medo. É nisto que estamos.
Eu estou de acordo com o pressuposto. Quero até acreditar que uma parte muito importante da população de países islâmicos, uma parte com potencialidades para desempenhar um papel activo na transformação política dos respectivos regimes, partilha apreço por valores ocidentais e gostaria de poder usufruir deles nos seus países.
Então a quem servem os constantes "reconhecimentos de erros", auto-humilhações e pedidos de desculpa dos porta-vozes ocidentais face à ameaça ululante de quem queima e assassina? Não, certamente, aos que no mundo islâmico gostariam de poder lutar por mais abertura e liberdade. Claro que também não creio que os nossos timoratos líderes que se ajoelham queiram servir os radicais: simplesmente, perante a sua fúria, tremem de medo. É nisto que estamos.
quinta-feira, fevereiro 2
Dinamarca, Alemanha, Noruega, França
Aguarda-se que, em solidariedade, se façam ouvir as vozes dos destemidos que gostam de caricaturar símbolos religiosos, quando se trata da igreja católica. Afinal publicar desenhos do papa com preservativo no nariz é tão fácil como um passeio na Avenida.
quarta-feira, fevereiro 1
Recado a Odete
No forum tsf de hoje (que contou, diga-se de passagem, com algumas intervenções hilariantes, entre as quais a de um médico, se não erro) Odete Santos, perguntada sobre a posição do PCP sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, apontou o caso português como muito complicado, devido ao pretenso moralismo de natureza judaico-cristã (cito de cor, não garanto que as palavras exactas tenham sido estas). Odete não deve ter reparado que os países onde aquela forma de casamento está reconhecida são todos de cultura judaico-cristã. Esqueceu-se também de mencionar a lista dos países com regimes comunistas ou aparentados, ou que já os tiveram, onde duas pessoas do mesmo sexo podem casar à vontade.
A ausência de utopia
Porque está o liberalismo em recuo na América Latina? Artigo de Hector Ñaupari aqui.
terça-feira, janeiro 31
O amor nos tempos de internet (7)
-Está, Dino?
-Sim, olá Eduardo, que tal?
-Tudo bem. Conseguiste alguma coisa?
-Vê tu, dos escritórios a quem enviei currículos por enquanto só um é que me contactou e parece-me que não vai dar nada
-Eu começo a ficar desesperado
-Também não é para tanto, ó
-Não será para ti, Dino, mas para mim o estágio é vital
-Por causa do teu pai?
-Do meu pai e de tudo... E agora com a doença da minha mãe as coisas estão piores. Não tenho pachorra para o meu pai e tenho que ficar mais vezes lá em casa.
-Ele já anda com outra?
-Acho que anda com duas, uma que dorme lá quase sempre e outra que deve ter engatado há pouco tempo.
-Porra, que pedalada, devias ter orgulho num pai desses
-Vai-te lixar. Olha que eu só te conto isto a ti, no último dia que lá estive descobri no computador um bocado de conversa de chat com uma tipa do norte.
-Velha ou nova?
-Pelo meu cálculo, bem nova.
-Fogo!
-Certo é que ele quando estava com a outra gaja as atenções eram todas para ela e depois de ela lhe por os palitos ficou tão desorientado que nem é capaz de fixar a uma frase minha, já te falei disto. Dá-me guito mas não me dá atenção. Em resumo, preciso de ficar independente o mais rápido possível
-Mas como? No estágio não costumam pagar nada que se veja!
-Depende... há sítios onde te pagam, lembras-te do caso da Isabel Alves, aquela que andava a repetir Penal II? Arranjou logo em Agosto um escritório onde lhe prometeram 700 euros à entrada.
-Eu se queres que te diga não acredito muito nessa gaja, mas pode ser... de qualquer modo é um caso que não serve de exemplo... É tão raro que até parece que houve camas pelo meio. Tu topas bem como ela se punha nas aulas do Andrade?
-Não sei, acho que estás a exagerar. Sei lá, não ponho as mãos no lume. Ainda ficas muito tempo aí na Guarda?
-Vou para Lisboa no fim de semana
-Óptimo, apitas para irmos tomar um copo?
-Não sei, quando for para aí vou ficar em casa da Sandra a Setúbal, os pais dela foram a um cruzeiro... tenho que aproveitar mas a gente depois combina
-Ah, ok, um abraço
-Xau
-Sim, olá Eduardo, que tal?
-Tudo bem. Conseguiste alguma coisa?
-Vê tu, dos escritórios a quem enviei currículos por enquanto só um é que me contactou e parece-me que não vai dar nada
-Eu começo a ficar desesperado
-Também não é para tanto, ó
-Não será para ti, Dino, mas para mim o estágio é vital
-Por causa do teu pai?
-Do meu pai e de tudo... E agora com a doença da minha mãe as coisas estão piores. Não tenho pachorra para o meu pai e tenho que ficar mais vezes lá em casa.
-Ele já anda com outra?
-Acho que anda com duas, uma que dorme lá quase sempre e outra que deve ter engatado há pouco tempo.
-Porra, que pedalada, devias ter orgulho num pai desses
-Vai-te lixar. Olha que eu só te conto isto a ti, no último dia que lá estive descobri no computador um bocado de conversa de chat com uma tipa do norte.
-Velha ou nova?
-Pelo meu cálculo, bem nova.
-Fogo!
-Certo é que ele quando estava com a outra gaja as atenções eram todas para ela e depois de ela lhe por os palitos ficou tão desorientado que nem é capaz de fixar a uma frase minha, já te falei disto. Dá-me guito mas não me dá atenção. Em resumo, preciso de ficar independente o mais rápido possível
-Mas como? No estágio não costumam pagar nada que se veja!
-Depende... há sítios onde te pagam, lembras-te do caso da Isabel Alves, aquela que andava a repetir Penal II? Arranjou logo em Agosto um escritório onde lhe prometeram 700 euros à entrada.
-Eu se queres que te diga não acredito muito nessa gaja, mas pode ser... de qualquer modo é um caso que não serve de exemplo... É tão raro que até parece que houve camas pelo meio. Tu topas bem como ela se punha nas aulas do Andrade?
-Não sei, acho que estás a exagerar. Sei lá, não ponho as mãos no lume. Ainda ficas muito tempo aí na Guarda?
-Vou para Lisboa no fim de semana
-Óptimo, apitas para irmos tomar um copo?
-Não sei, quando for para aí vou ficar em casa da Sandra a Setúbal, os pais dela foram a um cruzeiro... tenho que aproveitar mas a gente depois combina
-Ah, ok, um abraço
-Xau
domingo, janeiro 29
Prova de vida
Eleições e terceiro-mundismo
Que caracteriza as eleições num país terceiro-mundista? Segundo Mario Vargas Llosa:
O protótipo de uma eleição terceiro-mundista é que nela tudo parece estar em questão e regressar ao zero, desde a própria natureza das instituições até à política económica e às relações entre poder e sociedade. E, em consequência, o país retrocede de imediato, perdendo da noite para o dia tudo o que ganhou ao longo de anos...
O protótipo de uma eleição terceiro-mundista é que nela tudo parece estar em questão e regressar ao zero, desde a própria natureza das instituições até à política económica e às relações entre poder e sociedade. E, em consequência, o país retrocede de imediato, perdendo da noite para o dia tudo o que ganhou ao longo de anos...
Greve em Teerão
Condutores de transportes públicos fizeram greve ontem em Teerão, apesar da forte repressão que teve como objecto activistas e as suas famílias. Esperam-se acusações falsas para legitimar condenações severas. (Via Publius Pundit)
sábado, janeiro 28
A mente não tão louca de Ahmadinejad
Nma lúcida análise de Victor Davis Hanson, traduzida em Libertad Digital, refere-se que a Europa, pelas piores razões, é um dos alvos do discurso de Ahmadinejad. Saliento:
...levantar dudas sobre ese genocidio es tan objetivo de Ahmadineyad, como apuntar sus armas al centro de Tel Aviv. La negación del Holocausto es un juego cansino pero su forma de abordarlo es distinta.
Ha estudiado la moderna mente postmoderna de Occidente, alimentada por la sagrada trinidad del multiculturalismo, la equivalencia moral y el relativismo. Como populista del Tercer Mundo, Ahmadineyad espera que su propio fascismo escape al escrutinio público si logra enumerar la suficiente cantidad de pecados pasados de Occidente. También entiende de victimismo. Así es que también sabe que para destruir a los israelíes, él –no ellos– debe convertirse en la víctima y que los europeos han de ser los que fuercen su mano. Citando a Ahmadineyad:
“De modo que les pregunto: Si en verdad ustedes cometieron ese gran crimen, ¿por qué la gente oprimida de Palestina debe ser castigada por ello? Si ustedes cometieron un crimen, son ustedes los que deberían pagar por ello.”
Ahmadineyad también comprende que hay millones de occidentales altamente educados pero cínicos, que no ven nada excepcional en su propia cultura. Si el democrático Estados Unidos tiene armas nucleares, ¿por qué no el Irán teocrático? “Los arsenales de Occidente rebosan a tope, sin embargo cuando es el turno de una nación como la mía para que desarrolle tecnología nuclear pacífica, ustedes objetan y recurren a las amenazas.”
Además, él sabe cómo funciona el relativismo occidental. De modo que, ¿quién puede decir que estos son “hechos”, o que esto es “verdad”, dada la tendencia de los poderosos a “construir” sus propias narrativas y llamar a ese resultado “Historia”? ¿No será que se exageró el Holocausto o que quizá hasta fue un invento, y que las simples cárceles se convirtieron en “campos de la muerte” gracias a un truco del lenguaje para apoderarse de tierra palestina?
Nos reímos pensando que todo esto es absurdo. Pero no deberíamos. El dinero, el petróleo y las amenazas han traído a los teócratas iraníes hasta el umbral mismo de un arsenal nuclear. Su extraordinario diagnóstico del malestar occidental los ha convencido ahora de que pueden fabricar cuidadosamente una realidad sin Holocausto en la cual los musulmanes son las víctimas y los judíos los agresores merecedores de castigo. Y por ende, el Irán moralmente agraviado (y nuclear) de Ahmadineyad podrá por fin, después de “cientos de años de guerra”, poner las cosas en su sitio en Oriente Medio.
Y entonces, a un mundo que desea continuar ganando dinero y conducir coches en paz no le importará mucho la forma cómo este hombre escogido por la divinidad termine finalmente con esa fastidiosa “guerra del destino”.
...levantar dudas sobre ese genocidio es tan objetivo de Ahmadineyad, como apuntar sus armas al centro de Tel Aviv. La negación del Holocausto es un juego cansino pero su forma de abordarlo es distinta.
Ha estudiado la moderna mente postmoderna de Occidente, alimentada por la sagrada trinidad del multiculturalismo, la equivalencia moral y el relativismo. Como populista del Tercer Mundo, Ahmadineyad espera que su propio fascismo escape al escrutinio público si logra enumerar la suficiente cantidad de pecados pasados de Occidente. También entiende de victimismo. Así es que también sabe que para destruir a los israelíes, él –no ellos– debe convertirse en la víctima y que los europeos han de ser los que fuercen su mano. Citando a Ahmadineyad:
“De modo que les pregunto: Si en verdad ustedes cometieron ese gran crimen, ¿por qué la gente oprimida de Palestina debe ser castigada por ello? Si ustedes cometieron un crimen, son ustedes los que deberían pagar por ello.”
Ahmadineyad también comprende que hay millones de occidentales altamente educados pero cínicos, que no ven nada excepcional en su propia cultura. Si el democrático Estados Unidos tiene armas nucleares, ¿por qué no el Irán teocrático? “Los arsenales de Occidente rebosan a tope, sin embargo cuando es el turno de una nación como la mía para que desarrolle tecnología nuclear pacífica, ustedes objetan y recurren a las amenazas.”
Además, él sabe cómo funciona el relativismo occidental. De modo que, ¿quién puede decir que estos son “hechos”, o que esto es “verdad”, dada la tendencia de los poderosos a “construir” sus propias narrativas y llamar a ese resultado “Historia”? ¿No será que se exageró el Holocausto o que quizá hasta fue un invento, y que las simples cárceles se convirtieron en “campos de la muerte” gracias a un truco del lenguaje para apoderarse de tierra palestina?
Nos reímos pensando que todo esto es absurdo. Pero no deberíamos. El dinero, el petróleo y las amenazas han traído a los teócratas iraníes hasta el umbral mismo de un arsenal nuclear. Su extraordinario diagnóstico del malestar occidental los ha convencido ahora de que pueden fabricar cuidadosamente una realidad sin Holocausto en la cual los musulmanes son las víctimas y los judíos los agresores merecedores de castigo. Y por ende, el Irán moralmente agraviado (y nuclear) de Ahmadineyad podrá por fin, después de “cientos de años de guerra”, poner las cosas en su sitio en Oriente Medio.
Y entonces, a un mundo que desea continuar ganando dinero y conducir coches en paz no le importará mucho la forma cómo este hombre escogido por la divinidad termine finalmente con esa fastidiosa “guerra del destino”.
O mundo ao contrário (lido nos jornais)
Luigi Cascioli acusou o padre Enrico Righi de abusar da credulidade popular ao apresentar Jesus Cristo como figura histórica. Esta notícia vem relatada no PÚBLICO de hoje e tinha já sido referida no Insurgente a partir de outra fonte. Mas a notícia diz também que o juiz do tribunal de Viterbo a quem a acusação foi apresentada vai ter "que ter tempo para reflectir se Jesus existiu ou não". Mais extraordinário do que a acusação é o facto de ela ter sido, ao que parece, aceite pelo juiz. No país onde Oriana Fallacci foi recentemente condenada por ofensas ao Islão, imagina-se um juiz a aceitar a queixa de alguém que pusesse em causa o facto de se propagar que Deus ditou o Corão a Maomé?
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Um polícia de 33 anos de Ronda (Málaga) assassinou a tiro a ex-namorada. O polícia era membro da Assembleia Local Contra a Violência de Género. Era considerado muito competente nos aspectos jurídico e policial, sendo por isso frequentemente elogiado pelas organizações de mulheres.
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Um polícia de 33 anos de Ronda (Málaga) assassinou a tiro a ex-namorada. O polícia era membro da Assembleia Local Contra a Violência de Género. Era considerado muito competente nos aspectos jurídico e policial, sendo por isso frequentemente elogiado pelas organizações de mulheres.
quinta-feira, janeiro 26
A Grande Muralha em versão Google
O Google entrou na China, mas deixa à porta temas cuja consulta não convém ao governo chinês (Amnesty, independência de Taiwan, Tiananmen, etc. etc.)
domingo, janeiro 22
Duas evidências
Primeira: "Esquerda" é uma ficção (como "Direita", aliás). Alguém imagina como se concretizaria um governo que juntasse Soares e Louçã, ou Louçã e Jerónimo, ou...?
Segunda: Sócrates seria o secretário geral ideal do PSD. O PS que está no governo actual já é, de resto, equivalente ao PSD em termos práticos.
Segunda: Sócrates seria o secretário geral ideal do PSD. O PS que está no governo actual já é, de resto, equivalente ao PSD em termos práticos.
Impressões do dia
Neste momento, o assunto eleitoral português é ainda tabu para efeitos de publicação. Tendo em conta o chorrilho de banalidades e insultos gratuitos que abundantemente nos matraqueram nos dias anteriores, pena é que o tabu se limite a estes dois dias.
Em Espanha, entretanto, passam-se coisas que poderão ter impactos significativos no futuro - o nosso incluído:
1. O Estatut avança: o acordo parece ter sido conseguido à custa de mencionar o termo nação, com referência à Catalunha, apenas no preâmbulo e não no articulado, onde não se passa da palavra nacionalidade. Subtilezas determinantes que não conseguem esconder uma fractura.
2. Em Barakaldo, Arnaldo Otegi interveio ontem num comício desafiando a proibição do congresso de Batasuna e pediu a Espanha e França que respeitem a nação basca.
3. Uma sondagem do ABC revela hoje que, a meio da legislatura, o PSOE é ultrapassado (1%) pelo PP em intenção de voto.
4. Recorda-se que a poligamia está às portas de Europa e que, já a propósito do casamento de homossexuais, José Luis Requero, porta voz do Conselho Geral de juízes, se interrogava como se poderia, num futuro próximo, evitar reconhecer o casamento poligâmico. Problema difícil, resposta difícil, a exigir um cuidado extremo nas motivações da acção política e na clarificação dos princípios e valores que se pretende defender.
Em Espanha, entretanto, passam-se coisas que poderão ter impactos significativos no futuro - o nosso incluído:
1. O Estatut avança: o acordo parece ter sido conseguido à custa de mencionar o termo nação, com referência à Catalunha, apenas no preâmbulo e não no articulado, onde não se passa da palavra nacionalidade. Subtilezas determinantes que não conseguem esconder uma fractura.
2. Em Barakaldo, Arnaldo Otegi interveio ontem num comício desafiando a proibição do congresso de Batasuna e pediu a Espanha e França que respeitem a nação basca.
3. Uma sondagem do ABC revela hoje que, a meio da legislatura, o PSOE é ultrapassado (1%) pelo PP em intenção de voto.
4. Recorda-se que a poligamia está às portas de Europa e que, já a propósito do casamento de homossexuais, José Luis Requero, porta voz do Conselho Geral de juízes, se interrogava como se poderia, num futuro próximo, evitar reconhecer o casamento poligâmico. Problema difícil, resposta difícil, a exigir um cuidado extremo nas motivações da acção política e na clarificação dos princípios e valores que se pretende defender.
sábado, janeiro 21
O amor nos tempos de internet (6)
Na tarde de sexta feira saí mais cedo e arranquei para o Porto. Tinha ficado combinado que me encontraria com a Matilde às 10 de sábado no terminal rodoviário. Apesar do excelente ambiente no hotel e da macieza do colchão não dormi muito: acordei às cinco e a minha cabeça, cheia de Matilde, não permitiu a reentrada do sono.
Nos dias anteriores tinha sido delicado manejar a convivência com a Rita. Prudentemente, não tínhamos tomado nenhuma decisão, mas ela dormia frequentemente lá em casa. Olha, vou ter que ir de urgência a Barcelona. Há reunião do conselho da Ibervida no sábado, disse eu. Surgiu a oportunidade de uma fusão com a Ellos e é necessário fazer uma avaliação prévia da situação.
Ah, sim? disse ela, sem levantar os olhos do dossier em que estava a preencher dados. Mas de quem partiu a proposta? Percebia-se a incredulidade que ela
pretendia sublinhar. Eu estava relativamente tranquilo: a situação da Rita na Mundial não lhe permitia ter acesso ao conhecimento das grandes operações que se desenhavam no mundo dos seguros. É verdade, insisti. Vai ser um dia inteiro de reunião e não sei se não continuará ao domingo. Que stress, isto caiu-me em cima de repente.
Como eu calculava, conhecendo a grande discreção da Rita, ela aceitou implicitamente que na sexta feira regressaria à sua casa e só voltaríamos a ver-nos na minha volta. Também não se ofereceu para me conduzir ao aeroporto, o que me evitou a maçada de pôr em acção o plano B, e a hora de chegada que lhe anunciei, para a manhã de 2ª feira, era totalmente dissuasora de uma espera.
Na manhã de sábado o Porto acordou com aguaceiros e frio. Quando me aproximei de carro a chuva tinha parado. Reconheci a Matilde imediatamente: vestia um casaco bege grosso e fazia oscilar na mão um pequeno guarda chuva azul claro, a linha do olhar perpendicular à estrada e a boca entreaberta num sorriso. Virou-se como se adivinhasse a minha aproximação. Ao entrar pôs a mão nas minhas e mostrou-me o olhar mais luminoso que eu já tinha visto. Não era uma mulher, era um milagre. Matilde diz: olá!!!, disse-me. Depois de uma fracção de segundo compreendi e retribuí: L. diz: agora sim, vou-te beijar, e passei ao acto quando já de trás me businavam. Foi o início de dois dias que marcaram todos os dias que se seguiram.
Na segunda feira, quando a Rita chegou para o jantar, lá estava a minha mala de viagem displicentemente abandonada no chão do quarto, com a etiqueta de um voo anterior porque eu tinha a certeza de que não lhe passaria pela cabeça ir controlar a data. Detesto ter de descrever o meu cinismo e a minha capacidade de fazer jogo duplo. Não me agrada que o autor disto nos ponha a falar na primeira pessoa. Um narrador omnisciente e distanciado falaria muito melhor do meu lado sombrio.
Nos dias anteriores tinha sido delicado manejar a convivência com a Rita. Prudentemente, não tínhamos tomado nenhuma decisão, mas ela dormia frequentemente lá em casa. Olha, vou ter que ir de urgência a Barcelona. Há reunião do conselho da Ibervida no sábado, disse eu. Surgiu a oportunidade de uma fusão com a Ellos e é necessário fazer uma avaliação prévia da situação.
Ah, sim? disse ela, sem levantar os olhos do dossier em que estava a preencher dados. Mas de quem partiu a proposta? Percebia-se a incredulidade que ela
pretendia sublinhar. Eu estava relativamente tranquilo: a situação da Rita na Mundial não lhe permitia ter acesso ao conhecimento das grandes operações que se desenhavam no mundo dos seguros. É verdade, insisti. Vai ser um dia inteiro de reunião e não sei se não continuará ao domingo. Que stress, isto caiu-me em cima de repente.
Como eu calculava, conhecendo a grande discreção da Rita, ela aceitou implicitamente que na sexta feira regressaria à sua casa e só voltaríamos a ver-nos na minha volta. Também não se ofereceu para me conduzir ao aeroporto, o que me evitou a maçada de pôr em acção o plano B, e a hora de chegada que lhe anunciei, para a manhã de 2ª feira, era totalmente dissuasora de uma espera.
Na manhã de sábado o Porto acordou com aguaceiros e frio. Quando me aproximei de carro a chuva tinha parado. Reconheci a Matilde imediatamente: vestia um casaco bege grosso e fazia oscilar na mão um pequeno guarda chuva azul claro, a linha do olhar perpendicular à estrada e a boca entreaberta num sorriso. Virou-se como se adivinhasse a minha aproximação. Ao entrar pôs a mão nas minhas e mostrou-me o olhar mais luminoso que eu já tinha visto. Não era uma mulher, era um milagre. Matilde diz: olá!!!, disse-me. Depois de uma fracção de segundo compreendi e retribuí: L. diz: agora sim, vou-te beijar, e passei ao acto quando já de trás me businavam. Foi o início de dois dias que marcaram todos os dias que se seguiram.
Na segunda feira, quando a Rita chegou para o jantar, lá estava a minha mala de viagem displicentemente abandonada no chão do quarto, com a etiqueta de um voo anterior porque eu tinha a certeza de que não lhe passaria pela cabeça ir controlar a data. Detesto ter de descrever o meu cinismo e a minha capacidade de fazer jogo duplo. Não me agrada que o autor disto nos ponha a falar na primeira pessoa. Um narrador omnisciente e distanciado falaria muito melhor do meu lado sombrio.
quinta-feira, janeiro 19
Direitos humanos
A introdução do World Report 2006 do Human Rights Watch, escrita por Kenneth Roth, está dividida em 13 parágrafos. Os quatro primeiros ocupam-se demoradamente, a nível de artigo de opinião, das violações de direitos humanos em que os Estados Unidos estarão implicados. Dois parágrafos seguintes referem de modo crítico certos aliados dos Estados Unidos. O 7º parágrafo enuncia, veladamente, uma justificação: as anteriores violações poderão originar incremento da actividade terrorista. Já estamos a meio do texto, é por isso altura de fazer algumas referências de obrigação: Sudão, Coreia do Norte, China, Rússia e vários outros. Da Arábia Saudita, da Síria e do Vietname mencionam-se, por exemplo, "restrições apertadas à sociedade civil". No parágrafo 9 há ainda espaço para referir a diminuição de credibilidade dos EEUU na defesa de direitos humanos. Há meia linha para as atrocidades na Chechénia. O Irão não é mencionado.
Claro que o relatório não se reduz à introdução, mas é aqui que se sublinham pontos fortes. O texto parece mais motivado por ideologia do que por factos. Assim, há risco de diminuição de credibilidade do Human Rights Watch.
PS: Em artigo publicado hoje no Los Angeles Times, Shirin Ebadi e Muhammad Sahimi escrevem: Western nations should help the U.N. appoint a special human rights monitor for Iran. It would remind the General Assembly of Iran's human rights record annually, and strongly condemn it if the record keeps deteriorating. Contrary to the general perception, Iran's clerics are sensitive to outside criticism.
The World Bank should stop providing Iran with loans and, instead, work with nongovernmental organizations and the private sector to strengthen civil society. The West should support Iran's human-rights and democracy advocates, nominate jailed leaders for international awards and keep the cause in the public eye. Western nations should downgrade diplomatic relations if Iran continues violating basic human rights.
Claro que o relatório não se reduz à introdução, mas é aqui que se sublinham pontos fortes. O texto parece mais motivado por ideologia do que por factos. Assim, há risco de diminuição de credibilidade do Human Rights Watch.
PS: Em artigo publicado hoje no Los Angeles Times, Shirin Ebadi e Muhammad Sahimi escrevem: Western nations should help the U.N. appoint a special human rights monitor for Iran. It would remind the General Assembly of Iran's human rights record annually, and strongly condemn it if the record keeps deteriorating. Contrary to the general perception, Iran's clerics are sensitive to outside criticism.
The World Bank should stop providing Iran with loans and, instead, work with nongovernmental organizations and the private sector to strengthen civil society. The West should support Iran's human-rights and democracy advocates, nominate jailed leaders for international awards and keep the cause in the public eye. Western nations should downgrade diplomatic relations if Iran continues violating basic human rights.
segunda-feira, janeiro 16
Futilidades
Primeira. Uma sociedade agrícola de Estremoz lançou um tinto de 2004 com nome de desodorizante: ÍNTIMO. É gostoso e, tendo em conta o preço, uma boa compra. O rótulo é parco nos habituais adjectivos, limitando-se a mencionar com modéstia "algum corpo e estrutura".
Segunda. Na minha opinião há pelo menos um nicho de mercado à espera de iniciativa: filmes em versão abreviada para quem não quer passar três horas, e às vezes nem duas, na sala escura. Como quase todos os filmes da produção corrente mostram muito mais que o estritamente necessário, editar a versão abreviada deve ser um exercício banal e que na maior parte dos casos só beneficia o filme. Os cinemas multiplex teriam então encontrado a sua verdadeira razão de existir, com uma distinção entre salas para quem tem tempo e salas para quem tem falta de tempo. Fico à espera.
Segunda. Na minha opinião há pelo menos um nicho de mercado à espera de iniciativa: filmes em versão abreviada para quem não quer passar três horas, e às vezes nem duas, na sala escura. Como quase todos os filmes da produção corrente mostram muito mais que o estritamente necessário, editar a versão abreviada deve ser um exercício banal e que na maior parte dos casos só beneficia o filme. Os cinemas multiplex teriam então encontrado a sua verdadeira razão de existir, com uma distinção entre salas para quem tem tempo e salas para quem tem falta de tempo. Fico à espera.
O racismo recuperado
Em artigo publicado hoje, a não perder, Mario Vargas Llosa faz notar que, apesar de ainda há poucos anos o racismo ter sido olhado como uma perigosa tara, ele está agora a recuperar protagonismo e respeitabilidade com a bênção de um sector irresponsável da esquerda, convertendo-se em valor que pode determinar a bondade e a maldade das pessoas, isto é, a sua correcção ou incorrecção política.
Figuras que têm vindo a contribuir para esta promoção: Chávez, Morales e agora também a família Humala no Peru.
Figuras que têm vindo a contribuir para esta promoção: Chávez, Morales e agora também a família Humala no Peru.
domingo, janeiro 15
Central Madeirense
É o nome de uma cadeia de supermercados na Venezuela, gerida por emigrantes madeirenses. Vem aqui referida a propósito da crescente escassez de alguns produtos alimentares e subida de inflacção.
sexta-feira, janeiro 13
Bem sei que ninguém perguntou...
... mas hoje vem a propósito responder: a listagem referida nesta "adivinha" obtém-se procurando no google (em português) sampaio preocupado. Se fosse hoje teria surgido um novo item:
escutas telefónicas
escutas telefónicas
quarta-feira, janeiro 11
O amor nos tempos de internet (5)
SOFIA
Sabia que ia fazer o L. sofrer muito, mas para mim também não tem sido fácil. Há cinco meses que saí da casa dele para viver com o Filipe e tenho frequentemente vontade de estar com ele. Como ele nunca mais me contactou, contenho-me. Um dia enviei-lhe um SMS: não quero incomodar-te só queria saber se estás bem. A resposta demorou três dias e tinha duas palavras: estou vivo.
É claro que não posso culpar-me de procurar o que a vida me pode dar. Seria hipocrisia estar com o L. e não me sentir completa. Os vinte e dois anos de diferença entre nós tinham começado a pesar um ano atrás. De repente tive a sensação de me descobrir aos trinta anos com a vida por viver. O Filipe devolveu-me uma boa parte do que me faltava. Mas tenho saudades da companhia e das conversas com o L. e até por vezes de fazer amor com ele. No trabalho, agora evitamo-nos um ao outro - o que não é problema, dantes é que tínhamos de fazer de propósito para nos encontrarmos. Um dia ele disse-me que agora andava com outra, mais ou menos da minha idade e que por coincidência trabalha na concorrência. Muito discreto nas informações, vê-se que não quer muita conversa comigo.
Por isso estranhei quando o L. me procurou certa manhã fria e nebulosa de dezembro. Por acaso, ou não, eu estava a pensar muito nele. Fiquei então a saber que havia um problema com o Eduardo. Preciso que me faças um grande favor: telefona ao teu amigo António, o advogado de Coimbra, e procura saber se ele estava em casa no sábado. Já te explico.
Conhecendo-o bem, percebi que estava transtornado. Eu sabia como o L. perdia a orientação quando havia um problema relacionado comigo ou com o filho.
RITA
Nunca percebi bem o que levou o L. a reatar comigo. Não entendo, pronto. Não sei o que diga mais. Aquela conversa de bem sabes que gostei muito de ti quando nos conhecemos mas nessa altura não era possível, mas agora que estou separado... Só sei que apesar do que muita gente pensa de mim, eu não sou parva, pelo menos não me considero. Quando estamos juntos é bom mas sinto no ar uma coisa esquisita, não sei o que diga mais. Há uma semana disse-me que tinha que ir a Barcelona em trabalho e nem me perguntou se eu queria ir com ele. Sim, eu podia pagar o bilhete de avião, mas ele nem me deu hipótese, desculpou-se com os aspectos profissionais da viagem. Mas para mim é esquisito, pronto, não sei o que diga mais. Agora de repente ficou muito preocupado com o filho. Durante anos e anos, desde o divórcio da primeira mulher, quase não lhe ligou. Para acordar agora é porque há sarilho com o Eduardo. Estúpida é que eu não sou.
Sabia que ia fazer o L. sofrer muito, mas para mim também não tem sido fácil. Há cinco meses que saí da casa dele para viver com o Filipe e tenho frequentemente vontade de estar com ele. Como ele nunca mais me contactou, contenho-me. Um dia enviei-lhe um SMS: não quero incomodar-te só queria saber se estás bem. A resposta demorou três dias e tinha duas palavras: estou vivo.
É claro que não posso culpar-me de procurar o que a vida me pode dar. Seria hipocrisia estar com o L. e não me sentir completa. Os vinte e dois anos de diferença entre nós tinham começado a pesar um ano atrás. De repente tive a sensação de me descobrir aos trinta anos com a vida por viver. O Filipe devolveu-me uma boa parte do que me faltava. Mas tenho saudades da companhia e das conversas com o L. e até por vezes de fazer amor com ele. No trabalho, agora evitamo-nos um ao outro - o que não é problema, dantes é que tínhamos de fazer de propósito para nos encontrarmos. Um dia ele disse-me que agora andava com outra, mais ou menos da minha idade e que por coincidência trabalha na concorrência. Muito discreto nas informações, vê-se que não quer muita conversa comigo.
Por isso estranhei quando o L. me procurou certa manhã fria e nebulosa de dezembro. Por acaso, ou não, eu estava a pensar muito nele. Fiquei então a saber que havia um problema com o Eduardo. Preciso que me faças um grande favor: telefona ao teu amigo António, o advogado de Coimbra, e procura saber se ele estava em casa no sábado. Já te explico.
Conhecendo-o bem, percebi que estava transtornado. Eu sabia como o L. perdia a orientação quando havia um problema relacionado comigo ou com o filho.
RITA
Nunca percebi bem o que levou o L. a reatar comigo. Não entendo, pronto. Não sei o que diga mais. Aquela conversa de bem sabes que gostei muito de ti quando nos conhecemos mas nessa altura não era possível, mas agora que estou separado... Só sei que apesar do que muita gente pensa de mim, eu não sou parva, pelo menos não me considero. Quando estamos juntos é bom mas sinto no ar uma coisa esquisita, não sei o que diga mais. Há uma semana disse-me que tinha que ir a Barcelona em trabalho e nem me perguntou se eu queria ir com ele. Sim, eu podia pagar o bilhete de avião, mas ele nem me deu hipótese, desculpou-se com os aspectos profissionais da viagem. Mas para mim é esquisito, pronto, não sei o que diga mais. Agora de repente ficou muito preocupado com o filho. Durante anos e anos, desde o divórcio da primeira mulher, quase não lhe ligou. Para acordar agora é porque há sarilho com o Eduardo. Estúpida é que eu não sou.
segunda-feira, janeiro 9
Odete e o tempo perdido
Tendo decidido ir ao cinema, escolhi Odete por ter duração de apenas uma hora e meia.
Alberto abandona Odete e informa-a de que isso é definitivo por sms que lemos em grande plano num nokiazinho. Duas frases em português ortograficamente impecável: um sinal de que não devemos levar o filme a sério.
Uma ideia potencialmente interessante é desbaratada por preguiça: o comportamento da personagem central (Odete?) parece inspirado não na vida mas numa qualquer vulgata freudiana estereotipada.
No final, após uma cena "fracturante" de mau gosto, surge a legenda "dedicado aos meus pais". Gargalhada geral na sala. O público não perdeu o juízo.
Alberto abandona Odete e informa-a de que isso é definitivo por sms que lemos em grande plano num nokiazinho. Duas frases em português ortograficamente impecável: um sinal de que não devemos levar o filme a sério.
Uma ideia potencialmente interessante é desbaratada por preguiça: o comportamento da personagem central (Odete?) parece inspirado não na vida mas numa qualquer vulgata freudiana estereotipada.
No final, após uma cena "fracturante" de mau gosto, surge a legenda "dedicado aos meus pais". Gargalhada geral na sala. O público não perdeu o juízo.
Contaminação
A TSF iniciou esta manhã uma série de curtos programas sobre o Padre Manuel Antunes. O primeiro depoimento foi de Barata Moura. Muitos elogios, o afloramento de uma dúvida a respeito da revolução de Abril logo esconjurado. Sobre o pensamento e a obra da figura recordada? Absolutamente nada: conteúdo zero. Talvez seja resultado da contaminação pelo discurso da campanha eleitoral.
domingo, janeiro 8
Humala no dominó de Chávez
...ou alargamento em perspectiva do eixo do bem ao Peru? artigo de Alvaro Vargas Llosa.
sexta-feira, janeiro 6
PRISA, um amigo
Evo Morales declarou ontem em Espanha que desde que el grupo mediático español Prisa se hizo con la participación en varios medios de comunicación bolivianos, estos han dejado de acosarlo, como hacían antes. Disse mesmo que o grupo PRISA parece o chefe de campanha do seu partido, o MAS.
quinta-feira, janeiro 5
Perguntar não ofende
Os grupos, partidos e blogs que se assumem defensores dos direitos dos homossexuais não têm nada que dizer acerca da história de Amir (uma entre muitas)?
Será por estarem entretidos com a homofobia do papa, ou com a falta de apoio explícito de Cavaco ao casamento gay? ou ainda porque o Irão é um pais amigo do eixo do bem?
Será por estarem entretidos com a homofobia do papa, ou com a falta de apoio explícito de Cavaco ao casamento gay? ou ainda porque o Irão é um pais amigo do eixo do bem?
quarta-feira, janeiro 4
O amor nos tempos de internet (4)
Recbi o teu mail. Liga-te agora. Ja te adicionei. Júlia
Enviado: 22-10-2004 21:58:03
L. diz:
olá Júlia!
Julia20 diz:
ola papá!
L. diz:
já fui e nao quero ser outra vez...
Julia20 diz:
tou a brincar ctg, fofo
Julia20 diz:
tá descansado k não tenho nenhum trauma com o pai nem inveja de penis
L. diz:
lol... fizeste-me rir
Julia20 diz:
nao era essa a ideia?
L. diz:
gostei mt da tua voz há bocado
Julia20 diz:
e eu da tua, nao parece de um homem da tua idd
L. diz:
e vais deixar-me ver-te agora?
L. diz:
eu dou o tiro de partida. aí estou eu, foi tirada há 4 meses
Julia20 diz:
uau, mt bem
L. diz:
és tu? isso é real?
Julia20 diz:
eu digitalizadinha
L. diz:
a rapaziada de guimaraes deve andar distraída, nao?
Julia20 diz:
gosto mais com a rodagem feita... lol
Julia20 diz:
olha, o meu nome não é júlia
L. diz:
???
Julia20 diz:
sou matilde
L. diz:
matilde... the most beautiful sound i ever heard
Julia20 diz:
nao sabia k tambem eras poeta
L. diz:
nao é meu, depois explico. quando posso então ver-te ao vivo e a cores?
Julia20 diz:
vem kuando kiseres
L. diz:
e os papás, os verdadeiros?
Julia20 diz:
digo k vou passar o fim de semana em kasa de uma colega no porto
L. diz:
sabado evaporo aqui e chovo aí
Ainda teclámos mais de uma hora. O primeiro contacto telefónico, momentos antes, com a Matilde que para mim ainda se chamava Júlia, descarregara-me o saldo do cartão mas tinha-me posto em movimento todos os fluidos interiores pela primeira vez desde a fuga de Sofia.
Enviado: 22-10-2004 21:58:03
L. diz:
olá Júlia!
Julia20 diz:
ola papá!
L. diz:
já fui e nao quero ser outra vez...
Julia20 diz:
tou a brincar ctg, fofo
Julia20 diz:
tá descansado k não tenho nenhum trauma com o pai nem inveja de penis
L. diz:
lol... fizeste-me rir
Julia20 diz:
nao era essa a ideia?
L. diz:
gostei mt da tua voz há bocado
Julia20 diz:
e eu da tua, nao parece de um homem da tua idd
L. diz:
e vais deixar-me ver-te agora?
L. diz:
eu dou o tiro de partida. aí estou eu, foi tirada há 4 meses
Julia20 diz:
uau, mt bem
L. diz:
és tu? isso é real?
Julia20 diz:
eu digitalizadinha
L. diz:
a rapaziada de guimaraes deve andar distraída, nao?
Julia20 diz:
gosto mais com a rodagem feita... lol
Julia20 diz:
olha, o meu nome não é júlia
L. diz:
???
Julia20 diz:
sou matilde
L. diz:
matilde... the most beautiful sound i ever heard
Julia20 diz:
nao sabia k tambem eras poeta
L. diz:
nao é meu, depois explico. quando posso então ver-te ao vivo e a cores?
Julia20 diz:
vem kuando kiseres
L. diz:
e os papás, os verdadeiros?
Julia20 diz:
digo k vou passar o fim de semana em kasa de uma colega no porto
L. diz:
sabado evaporo aqui e chovo aí
Ainda teclámos mais de uma hora. O primeiro contacto telefónico, momentos antes, com a Matilde que para mim ainda se chamava Júlia, descarregara-me o saldo do cartão mas tinha-me posto em movimento todos os fluidos interiores pela primeira vez desde a fuga de Sofia.
terça-feira, janeiro 3
Adivinha
futuro da EDP
finanças públicas
pobreza em Portugal
abstenção
o Alqueva
questões de saúde
autarquias
futuro do interior
impacto internacional da pedofilia
precaridade laboral
assimetrias de desenvolvimento
economia nacional
prisões portuguesas
jornalistas
Que lista é esta? Por outras palavras, que há de comum a todos estes items? (Sugestão: a lista não é completa; quando se procura no google surgem 367 resultados.)
finanças públicas
pobreza em Portugal
abstenção
o Alqueva
questões de saúde
autarquias
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segunda-feira, janeiro 2
A devoção de Chávez
Pode parecer surpreendente, mas o presidente Hugo Chávez é um admirador e invocador de Cristo que quase se pode considerar um sério devoto. Se há dúvidas, leia-se aqui um seu discurso do passado 24 de Dezembro. Pelo meio escapou-lhe o trecho seguinte:
El mundo tiene para todos, pues, pero resulta que unas minorías, los descendientes de los mismos que crucificaron a Cristo, los descendientes de los mismos que echaron a Bolívar de aquí y también lo crucificaron a su manera en Santa Marta, allá en Colombia. Una minoría se adueñó de las riquezas del mundo, (…) del oro del planeta, de la plata, de los minerales, de las aguas, de las tierras buenas, del petróleo, de las riquezas, pues, y han concentrado las riquezas en pocas manos(…)
Os itálicos são meus. Tenho que fazer alguma coisa.
El mundo tiene para todos, pues, pero resulta que unas minorías, los descendientes de los mismos que crucificaron a Cristo, los descendientes de los mismos que echaron a Bolívar de aquí y también lo crucificaron a su manera en Santa Marta, allá en Colombia. Una minoría se adueñó de las riquezas del mundo, (…) del oro del planeta, de la plata, de los minerales, de las aguas, de las tierras buenas, del petróleo, de las riquezas, pues, y han concentrado las riquezas en pocas manos(…)
Os itálicos são meus. Tenho que fazer alguma coisa.
sexta-feira, dezembro 30
Perguntas do povo
Previsivelmente, no espaço Vox populi do PÚBLICO-LOCAL LISBOA de hoje, os quatro interrogados reagem em tom de não à demolição da casa onde morreu Garrett. Se o jornalista quisesse ter tido uma iniciativa menos primária poderia ter perguntado, com mais pertinência: Lembra-se da frase com que começa o Frei Luís de Sousa? ou, para contemporizar com os "novos saberes" e não envergonhar os inúmeros admiradores de Garrett recentemente surgidos entre nós, Acha que o título da novela ninguém como tu se pode considerar uma referência ao final do 2º acto?
Coragem e clarividência
Depois de Soares, Alegre faz a ronda das capelinhas. Ontem, na mesquita de Lisboa, disse-se preocupado com as recentes declarações do presidente do Irão a respeito de Israel e, na sinagoga de Lisboa, declarou que "é preciso fazer uma diferença entre a religião muçulmana e as derivas". Ou terei ouvido mal e troquei os dois lugares? Adivinhem. Já agora, atendendo a que lhe ofereceram um exemplar do Corão, e sabendo-se que a religião assume, por definição, um papel totalizante em todos os aspectos da vida numa sociedade islâmica, esperemos que venha explicar o que entende por "derivas" e se, em sua opinião, os actuais dirigentes do Irão se estão a afastar dos ensinamentos corânicos.
terça-feira, dezembro 27
O amor nos tempos de internet (3)
O encontro com a Margarida P. foi combinado para um domingo à tarde no átrio do Museu Gulbenkian. Já tinha recebido uma fotografia dela por e-mail e eu tinha retribuído, de modo que seria fácil reconhecer-nos. Quando a vi, percebi imediatamente porque é que na foto que me enviara aparecia quase de perfil: tinha uma borbulhagem extensa no lado esquerdo do rosto. Dermatite, explicou ela depois nervosamente, estava em tratamento. Engoli mentalmente em seco enguanto pronunciava o Olá, prazer da praxe. Mas fiquei logo a pensar que a foto devia ter alguns anos, pois a Margarida que estava na minha frente era razoavelmente diferente da Margarida de 35 anos que me tinha sido e-revelada.
Quer ver alguma exposição ou tomamos qualquer coisa? perguntei com delicadeza e formalidade. Margarida preferiu um passeio para tomar um sumo e partimos no meu carro para as docas. Em frente do rio fui assaltado por uma tristeza irreprimível: a memória dos momentos que ali passara com a Sofia e a crueza da humilhação que a vida parecia agora querer-me infligir fizeram-me sentir o mais desprezível dos homens. Já há tanto tempo que não vinha aqui, disse a Margarida entre muitas outras coisas que eu não ouvi. Estou separada há cinco anos e tenho saído muito pouco ultimamente. Falou-me da sua triste profissão (professora de história no ensino básico) e contou-me histórias da criançada enquanto ria muito. Contou-me também como quase ia caindo, inocentemente, no assédio de uma colega logo após a separação, até que um amigo gay lhe tinha aberto os olhos e lhe explicou que a outra era obviamente lésbica. Algumas das histórias até me podiam arrancar um sorriso noutras circunstâncias, mas se me dava vontade de alguma coisa era de chorar. Decorrida uma hora, eu sabia que este primeiro encontro com a Margarida era também o último. Ainda tenho que passar pela seguradora, disse. Até aos domingos me fazem trabalhar.
A minha cara deve ter-me denunciado o suficiente, porque Margarida despediu-se como quem sabia que o caso estava encerrado.
Com a Matilde as coisas foram diferentes logo de início, porque a distância obrigou a um período de muitos dias em que apenas contactámos por telefone. Comprei até um cartão de outro operador para poder falar com ela mais longamente sem me arruinar.
Quer ver alguma exposição ou tomamos qualquer coisa? perguntei com delicadeza e formalidade. Margarida preferiu um passeio para tomar um sumo e partimos no meu carro para as docas. Em frente do rio fui assaltado por uma tristeza irreprimível: a memória dos momentos que ali passara com a Sofia e a crueza da humilhação que a vida parecia agora querer-me infligir fizeram-me sentir o mais desprezível dos homens. Já há tanto tempo que não vinha aqui, disse a Margarida entre muitas outras coisas que eu não ouvi. Estou separada há cinco anos e tenho saído muito pouco ultimamente. Falou-me da sua triste profissão (professora de história no ensino básico) e contou-me histórias da criançada enquanto ria muito. Contou-me também como quase ia caindo, inocentemente, no assédio de uma colega logo após a separação, até que um amigo gay lhe tinha aberto os olhos e lhe explicou que a outra era obviamente lésbica. Algumas das histórias até me podiam arrancar um sorriso noutras circunstâncias, mas se me dava vontade de alguma coisa era de chorar. Decorrida uma hora, eu sabia que este primeiro encontro com a Margarida era também o último. Ainda tenho que passar pela seguradora, disse. Até aos domingos me fazem trabalhar.
A minha cara deve ter-me denunciado o suficiente, porque Margarida despediu-se como quem sabia que o caso estava encerrado.
Com a Matilde as coisas foram diferentes logo de início, porque a distância obrigou a um período de muitos dias em que apenas contactámos por telefone. Comprei até um cartão de outro operador para poder falar com ela mais longamente sem me arruinar.
segunda-feira, dezembro 26
A liberdade de expressão e a Europa
Dois casos recentes de intelectuais levados ao tribunal por delito de opinião põem em evidência as contradições europeias no que respeita à liberdade de expressão. Orhan Pamuk, escritor turco que denuncia o genocídio de arménios, corre o risco de ser condenado a prisão; a UE pressiona a Turquia no sentido de deixar Pamuk em paz. Na Áustria, David Irving, historiador britânico com pouco crédito fora de alguns círculos fascistoides, está preso por pôr em causa o holocausto. Sobre este caso, a UE, ou os intelectuais que habitualmente gostam de se fazer ouvir, não dizem uma palavra. As parcialidades ditadas pelo politicamente correcto pagam-se caro, pois retiram a autoridade moral indispensável para defender os valores em que acreditamos. E, no caso da liberdade de expressão, trata-se de uma questão de princípio, um tudo ou nada, como bem o expõe Brendan O'Neill neste artigo.
domingo, dezembro 25
Estorinha sem importância: Morales, Zapatero e a COPE
Há dias, um humorista da COPE (cadeia de rádio espanhola ligada à hierarquia católica) fez-se passar por Zapatero numa chamada telefónica, radiodifundida, ao recém eleito Evo Morales. Em animadíssima conversa e entre outras "bocas", "Zapatero" convidou Morales a fazer a sua primeira visita oficial a Espanha. Morales não detectou o logro. Agora o governo de Espanha exige à COPE desculpas públicas e certamente se esforçará por não ficar por aqui: com a discussão do estatuto da Catalunha a começar em breve, um pouco de censura viria bem a calhar.
O telefonema emitido na COPE pode ser escutado aqui.
Post scriptum: Sobre Morales e o contexto da sua eleição vale a pena ler este artigo de Álvaro Vargas Llosa.
O telefonema emitido na COPE pode ser escutado aqui.
Post scriptum: Sobre Morales e o contexto da sua eleição vale a pena ler este artigo de Álvaro Vargas Llosa.
sábado, dezembro 24
quarta-feira, dezembro 21
O nível da fala
“Ele não tem cultura...”
“Ele foi a essas reuniões mas eu sei como é que as coisas se passaram... tenho uns amigos que me contaram...”
Com este nível de discurso, Soares alinha pelas falas de personagens intriguistas de novelas da tvi, género ninguém como tu. Frases feitas e com insinuações maldosas pelo meio, ao gosto de plateias sem padrão de exigência. Soares está consciente disso. Sabe que pode disparar o discurso da “cultura” precisamente porque os destinatários da sua mensagem não sabem bem o que isso é.
“Ele foi a essas reuniões mas eu sei como é que as coisas se passaram... tenho uns amigos que me contaram...”
Com este nível de discurso, Soares alinha pelas falas de personagens intriguistas de novelas da tvi, género ninguém como tu. Frases feitas e com insinuações maldosas pelo meio, ao gosto de plateias sem padrão de exigência. Soares está consciente disso. Sabe que pode disparar o discurso da “cultura” precisamente porque os destinatários da sua mensagem não sabem bem o que isso é.
Impregnação
O progresso tecnológico e a agressividade da indústria electrónica de entretenimento transformaram a música numa presença permanente, invasora e obsessiva nas nossas vidas. Há música no carro, no escritório, no supermercado, e até no elevador e no átrio de certos edifícios. Eu não digo que isto me desagrada: a possibilidade de ouvir Mozart, Shostakovich ou Cole Porter, em condições de facilidade e qualidade que ainda há alguns anos não existiam, é uma coisa boa. Não podendo deixar de pensar que a música não é - ou foi - feita para estar assim tão presente (não me refiro, claro está, ao lixo musical para consumo de massas que se escuta, por exemplo, em 99% do tempo de antena das rádios e tvs) tenho que considerar fantásticas as possibilidades que a época presente me dá em termos de fruição musical. Eu posso, por exemplo, passar dias a escutar uma Paixão de Bach ou de Penderecki até conhecer e prever todos os sons que vêm a seguir. Diferentemente de épocas em que só conhecíamos as obras em espectáculo público, agora a música pode entrar em nós. Essa absorção profunda aumenta o prazer da escuta.
No entanto, tudo tem os seus limites. Não gosto que me imponham um menu musical específico num período determinado, seja a que pretexto for. Recordo que as comemorações do bicentenário da morte de Mozart em 1991 me causaram um enjoo que determinou um abandono acentuado da audição de obras do compositor. Norman Lebrecht, detractor de Mozart, num artigo provocatório mas não destituído de sentido, adverte que vamos ter mais do mesmo em 2006, a pretexto do 250º aniversário do nascimento.
Nota: Em Portugal, o governo pretende substituir 1/4 do lixo musical que passa na rádio por lixo nacional. No Irão (estamos num outro plano, atenção!) também se pretende eliminar toda a música que não promova valores islâmicos; e até aí isso parece difícil de concretizar. A electrónica vencerá.
No entanto, tudo tem os seus limites. Não gosto que me imponham um menu musical específico num período determinado, seja a que pretexto for. Recordo que as comemorações do bicentenário da morte de Mozart em 1991 me causaram um enjoo que determinou um abandono acentuado da audição de obras do compositor. Norman Lebrecht, detractor de Mozart, num artigo provocatório mas não destituído de sentido, adverte que vamos ter mais do mesmo em 2006, a pretexto do 250º aniversário do nascimento.
Nota: Em Portugal, o governo pretende substituir 1/4 do lixo musical que passa na rádio por lixo nacional. No Irão (estamos num outro plano, atenção!) também se pretende eliminar toda a música que não promova valores islâmicos; e até aí isso parece difícil de concretizar. A electrónica vencerá.
sábado, dezembro 17
O Português de plástico
Reparem nesta beleza de prosa de Paulo Feytor Pinto (Asssociação de Professores de Português) em carta ao Director no PÚBLICO de hoje:
"Não nos parece aceitável que se considere que um exame nacional seja o instrumento que garante que todo o programa é ensinado (...) e (...) que mais programa é aprendido (...) Melhores garantias parece-nos poderem ser dadas pela diversificação dos instrumentos de avaliação (...), por uma formação inicial adequada baseada em perfis pré-definidos, por uma formação contínua de professores regulada pela avaliação das suas necessidades e pelo impacto dessa formação nas aprendizagens dos alunos, pela selecção de manuais complementada pela sua certificação prévia, pelo cumprimento dos programas, por melhores equipamentos (...)"
Duma coisa não parece haver dúvidas: o signatário teve uma formação baseada num molde pré-fabricado, pois para escrever este discurso basta ir aos manuais do pedagogicamente correcto profusamente difundidos pelo ministério da educação há anos e anos, e fazer copy-paste.
Reparem também que, segundo o autor, uma garantia de que o programa é cumprido é... o cumprimento do programa.
"Não nos parece aceitável que se considere que um exame nacional seja o instrumento que garante que todo o programa é ensinado (...) e (...) que mais programa é aprendido (...) Melhores garantias parece-nos poderem ser dadas pela diversificação dos instrumentos de avaliação (...), por uma formação inicial adequada baseada em perfis pré-definidos, por uma formação contínua de professores regulada pela avaliação das suas necessidades e pelo impacto dessa formação nas aprendizagens dos alunos, pela selecção de manuais complementada pela sua certificação prévia, pelo cumprimento dos programas, por melhores equipamentos (...)"
Duma coisa não parece haver dúvidas: o signatário teve uma formação baseada num molde pré-fabricado, pois para escrever este discurso basta ir aos manuais do pedagogicamente correcto profusamente difundidos pelo ministério da educação há anos e anos, e fazer copy-paste.
Reparem também que, segundo o autor, uma garantia de que o programa é cumprido é... o cumprimento do programa.
Tão cómico e tão triste como a vida
Professor assassinado por ensinar raparigas
Há dois dias, um comando taliban assassinou um professor na entrada da escola, frente aos alunos. O professor já tinha sido avisado de que deveria deixar de permitir a presença de alunas: os taliban entendem que educar mulheres contraria os princípios da sua religião.
É de presumir que este professor não seja um caso isolado: certamente muitos afegãos têm vontade e ânimo para resistir à imposição da barbaridade. Que pensarão estas pessoas, que não gostariam de regressar à idade de trevas do passado recente, das luminárias que no ocidente reclamam o fim do envio de tropas para o Afganistão?
É de presumir que este professor não seja um caso isolado: certamente muitos afegãos têm vontade e ânimo para resistir à imposição da barbaridade. Que pensarão estas pessoas, que não gostariam de regressar à idade de trevas do passado recente, das luminárias que no ocidente reclamam o fim do envio de tropas para o Afganistão?
quinta-feira, dezembro 15
Agradecimentos
Há dois dias houve por aqui um movimento anormal de entradas, motivado por uma recomendação de O Insurgente. Fica aqui o meu reconhecimento. E aproveito para agradecer também à Grande Loja do Queijo Limiano , ao Número Primo e ao Ávido referências feitas já há algum tempo. (Links ao lado.)
quarta-feira, dezembro 14
Eduquices
O artigo de Henrique Monteiro, publicado no último Expresso, sobre as concepções, a respeito do ensino da Matemática, de um dos nossos mais activos "especialistas em educação", é mais um de uma série longa em que se clama, sem que ninguém ouça, que o rei vai nu. O Público também incluiu, na passada segunda feira, uma opinião de Guilherme Valente no mesmo sentido. Eu envolvi-me nesta campanha, tendo escrito artigos críticos da situação a que se tinha chegado, em 1996 e em 1999. Visava questões muito concretas relacionadas com o ensino da Matemática. Os efeitos práticos destas intervenções parecem-me agora desprezáveis ou nulos, embora considere útil que a denúncia continue. A erosão do "eduquês" e das suas "teorias" tem sido lentíssima; de vez em quando aparece alguém que aparenta ter a vontade e o poder de inflectir caminho (primeiro Justino, e depois, em instantes fugazes, Maria de Lurdes) mas logo se descobre que o monstro é muito mais resistente, ou as vontades são mais fracas, do que se pensa.
O problema com a ideologia que os pedagogos pós-modernos infiltrados no ministério da educação e em pontos-chave do sistema escolar têm vindo a consolidar com fortes raizes, é que se trata de uma cantilena de embalar a que se adere sem necessidade de muito esforço nem espírito crítico. Desvia a necessidade do esforço intelectual para a rotina burocrática. Tenta suavizar o trabalho intelectual dos alunos, mas também dos professores (embora a estes crie uma infinidade de afazeres entediantes).
Um dos sintomas da narcotização produzida é o uso do jargão que estes pedagogos adoptaram como se fosse linguagem de gente. Enquanto as pessoas, para falar do ensino, se exprimirem usando o palavrão ensino/aprendizagem sem desatarem a rir, não há esperança de que as coisas verdadeiramente mudem.
O problema com a ideologia que os pedagogos pós-modernos infiltrados no ministério da educação e em pontos-chave do sistema escolar têm vindo a consolidar com fortes raizes, é que se trata de uma cantilena de embalar a que se adere sem necessidade de muito esforço nem espírito crítico. Desvia a necessidade do esforço intelectual para a rotina burocrática. Tenta suavizar o trabalho intelectual dos alunos, mas também dos professores (embora a estes crie uma infinidade de afazeres entediantes).
Um dos sintomas da narcotização produzida é o uso do jargão que estes pedagogos adoptaram como se fosse linguagem de gente. Enquanto as pessoas, para falar do ensino, se exprimirem usando o palavrão ensino/aprendizagem sem desatarem a rir, não há esperança de que as coisas verdadeiramente mudem.
terça-feira, dezembro 13
Protestos selectivos
Está no ar uma agitação enorme a propósito da tortura que os EEUU terão praticado sobre prisioneiros suspeitos de terrorismo e sobre os voos de aviões da CIA pela Europa. É uma vaga de excitação que sucede aos protestos recorrentes sobre as condições a que são submetidos os prisioneiros de Guantanamo. Em abstracto, o objecto destas preocupações é justo, mas a atitude enviesada da maioria das vozes que os proferem faz suspeitar de que a preocupação não tem nada a ver com direitos humanos, mas tem unicamente como fim atacar os EEUU e a actual admnistração.
Alguém se lembra, por exemplo, do nome de Akbar Ganji? É um jornalista iraniano preso há seis anos, torturado, e incomunicável, por delito de opinião. Fez greve da fome e encontra-se em débil estado de saúde. O advogado que pretendeu defendê-lo foi preso. Alguns amigos tê-lo-ão aconselhado a fazer declarações anti-bush para se tornar conhecido através dos media. Ganji tem recusado sistematicamente e o resultado está à vista. (Recorde-se que Shirin Ebadi, a advogada iraniana agraciada com o Nobel, cedeu a essa tentação, tendo no discurso de aceitação referido a situação de Guantanamo e calado a dos milhares de prisioneiros de consciência do seu país...)
Recentemente, a Foreign Press Association atribuiu a Ganji o prémio "Diálogo de Culturas 2005". Na cerimónia, a apresentação do prémio foi feita por Bianca Jagger, embaixatriz UNICEF, que afirmou que também não poderíamos esquecer Guantanamo e Abu Ghraib. Na visão distorcida dos novos iluminados, membros de bandos terroristas estão no mesmo plano dos que apenas pensam diferente e defendem as suas ideias escrevendo. Para já não falar, claro, da qualidade das ideologias de uns e outros.
Alguém se lembra, por exemplo, do nome de Akbar Ganji? É um jornalista iraniano preso há seis anos, torturado, e incomunicável, por delito de opinião. Fez greve da fome e encontra-se em débil estado de saúde. O advogado que pretendeu defendê-lo foi preso. Alguns amigos tê-lo-ão aconselhado a fazer declarações anti-bush para se tornar conhecido através dos media. Ganji tem recusado sistematicamente e o resultado está à vista. (Recorde-se que Shirin Ebadi, a advogada iraniana agraciada com o Nobel, cedeu a essa tentação, tendo no discurso de aceitação referido a situação de Guantanamo e calado a dos milhares de prisioneiros de consciência do seu país...)
Recentemente, a Foreign Press Association atribuiu a Ganji o prémio "Diálogo de Culturas 2005". Na cerimónia, a apresentação do prémio foi feita por Bianca Jagger, embaixatriz UNICEF, que afirmou que também não poderíamos esquecer Guantanamo e Abu Ghraib. Na visão distorcida dos novos iluminados, membros de bandos terroristas estão no mesmo plano dos que apenas pensam diferente e defendem as suas ideias escrevendo. Para já não falar, claro, da qualidade das ideologias de uns e outros.
domingo, dezembro 11
Até quando teremos liberdade de expressão?
O cineasta Theo van Gogh assassinado em 2004; Oriana Fallaci julgada em Itália por ofensas ao Islão; museus europeus que retiram de exibição obras eventualmente ofensivas (para o Islão, claro); nova legislação na Noruega e no Reino Unido para punir ofensas à religião... Tudo isto são sinais de que o mundo onde todos os pontos de vista têm direito à expressão está seriamente ameaçado. Ainda assim, há também sinais de resistência: artistas e editores do Jyllands Posten, na Dinamarca, não cederam às ameaças de morte e levaram por diante a publicação de cartoons relativos a Maomé e o Islão; Hervé Loichemol encena no Teatro de Carouge (Suiça) uma peça de Voltaire sobre Maomé, mas necessita de protecção policial. Os perigos que estes profissionais afrontam são bem reais. Eles demonstram uma coragem digna de admiração, tanto mais quanto ela está a tornar-se rara nas elites intelectuais e políticas, frequentemente envergonhadas e carregando complexos de culpa do próprio passado, mas prontas a ceder perante uma onda de retrocesso civilizacional.
Apesar da clareza com que a natureza da ameaça é discernível, para a ideologia dominante os perigos vêm sempre de outro lado. O discurso anticapitalista, reduzido a fórmulas simplificadas e tornado parte integrante da cultura de massas, anestesiou-nos colectivamente e impede a visão serena da realidade. (Só assim se explica, por exemplo, a atenção dada entre nós, recentemente, à questão dos crucifixos.)
Apesar da clareza com que a natureza da ameaça é discernível, para a ideologia dominante os perigos vêm sempre de outro lado. O discurso anticapitalista, reduzido a fórmulas simplificadas e tornado parte integrante da cultura de massas, anestesiou-nos colectivamente e impede a visão serena da realidade. (Só assim se explica, por exemplo, a atenção dada entre nós, recentemente, à questão dos crucifixos.)
sábado, dezembro 10
Riscando do mapa
Mahmoud Ahmadinejad veio declarar agora que se contenta com deslocar Israel para a Europa. Talvez porque se tenha apercebido de que, ao pretender apagar Israel do mapa, corre o risco de ver a prestigiosa ONU a antecipar-se-lhe. Em conferência de 29 de Novembro, de solidariedade com o povo palestiniano, a ONU exibiu publicamente um mapa onde o referido país (por acaso membro da ONU) não consta.
sexta-feira, dezembro 9
Ideias para uma novela sobre o amor nos tempos de informática (patrocínio: plano tecnológico)
A era da informática veio criar um problema adicional a quem sofre uma ruptura amorosa. Além dos objectos, lugares, músicas e mil e uma coisas que com toda a sua inocência se intrometem como um punhal em ferida aberta, despertando recordações tornadas insuportáveis, o amante rejeitado é confrontado brutalmente com um ou dois passwords, que tem de utilizar várias vezes ao dia, construídos com elementos inspirados na pessoa que perdeu. São bocadinhos de nome, são números que evocam datas, que de repente adquirem um poder agressor traumático. É preciso então mudá-los, desembaraçar-se deles, e nalguns casos não é fácil.
Proust analisou com minúcia infinita o sofrimento do amante abandonado em "Albertine disparue". É claro que não podia prever o trauma da password. Como não podia também prever que o próprio acto da traição amorosa poderia adquirir novos contornos de malvadez. Antigamente uma pessoa comprometida encontrava outra, apaixonava-se irremediavelmente e pronto, paciência, não havia nada a fazer senão romper o compromisso existente. Hoje a traição pode ser preparada no conforto de casa ou do escritório, através do email, dos sites de encontros ou de chat. Não se arrisca nada: se não resultar continua-se como está, se der certo logo se vê e o outro que se lixe. A traição não resulta agora do coup de foudre, mas de uma operação paciente, metódica e calculista, que pode demorar meses ou anos até à consumação, e a vítima é a última a saber. À atenção das escolas de escrita criativa e de Gabriel Garcia Márquez.
Proust analisou com minúcia infinita o sofrimento do amante abandonado em "Albertine disparue". É claro que não podia prever o trauma da password. Como não podia também prever que o próprio acto da traição amorosa poderia adquirir novos contornos de malvadez. Antigamente uma pessoa comprometida encontrava outra, apaixonava-se irremediavelmente e pronto, paciência, não havia nada a fazer senão romper o compromisso existente. Hoje a traição pode ser preparada no conforto de casa ou do escritório, através do email, dos sites de encontros ou de chat. Não se arrisca nada: se não resultar continua-se como está, se der certo logo se vê e o outro que se lixe. A traição não resulta agora do coup de foudre, mas de uma operação paciente, metódica e calculista, que pode demorar meses ou anos até à consumação, e a vítima é a última a saber. À atenção das escolas de escrita criativa e de Gabriel Garcia Márquez.
domingo, dezembro 4
Anything goes
Steven Guilbeault, director do Greenpeace movement no Quebec:
"Há dez anos pensávamos que tínhamos muito tempo, há cinco anos pensávamos que tínhamos muito tempo, mas a ciência diz-nos agora que já não temos muito tempo.
Aquecimento global pode querer dizer mais frio, pode querer dizer mais seco, pode querer dizer mais húmido, é a situação que temos."
Por este caminho, o aquecimento global arrisca-se a ultrapassar (injustamente) Bush na categoria dos bodes expiatórios de serviço.
"Há dez anos pensávamos que tínhamos muito tempo, há cinco anos pensávamos que tínhamos muito tempo, mas a ciência diz-nos agora que já não temos muito tempo.
Aquecimento global pode querer dizer mais frio, pode querer dizer mais seco, pode querer dizer mais húmido, é a situação que temos."
Por este caminho, o aquecimento global arrisca-se a ultrapassar (injustamente) Bush na categoria dos bodes expiatórios de serviço.
quarta-feira, novembro 30
Desventuras da Educação: a demissão forçada de Laurent Lafforgue
Laurent Lafforgue, eminente matemático, medalha Fields em 2002, é forçado a demitir-se do Haut Conseil à l'Education. As razões estão extensivamente explicadas aqui. Vale a pena ler na íntegra e não é difícil constatar que, na sua essência, as críticas de Lafforgue são aplicáveis ao que se tem passado entre nós no âmbito da educação nas últimas décadas.
Por exemplo, sobre a intenção do Presidente do HCE de apelar aos peritos da Educação nacional - inspecções gerais e direcções da administração central, em particular direcção da avaliação e da perspectiva e direcção do ensino - Lafforgue reage assim:
Para mim, é exactamente como se fôssemos um Alto Conselho dos Direitos do Homem e apelássemos aos Khmers Vermelhos para constituir um grupo de peritos para a promoção dos Direitos Humanos. (...) Cheguei à conclusão de que o nosso sistema educativo público está em vias de destruição total. Esta destruição é resultado de todas as políticas e reformas empreendidas por todos os governos desde o fim dos anos 60.
Estas políticas foram desejadas, aprovadas (...) e impostas por todas as instâncias dirigentes da Educação Nacional, quer dizer em particular: os famosos peritos da Educação Nacional, os corpos de inspectores (recrutados entre s professores mais dóceis e submissos aos dogmas oficiais) (...) os corpos de formadores (...) cheios dos famosos (...) especialistas das chamadas "ciências da educação", a maioria dos peritos de comissões de programas, numa palavra o conjunto da Nomenklatura da Educação Nacional. Estas políticas foram inspiradas a toda esta gente por uma ideologia que consiste em não valorizar o saber e que mistura (...) a crença em teorias pedagógicas delirantes (...) a aprendizagem de conteúdos vagos (...) a doutrina do aluno "no centro do sistema" que deve "construir os próprios saberes". Esta ideologia tomou conta igualmente dos dirigentes dos sindicatos maioritários.
Por exemplo, sobre a intenção do Presidente do HCE de apelar aos peritos da Educação nacional - inspecções gerais e direcções da administração central, em particular direcção da avaliação e da perspectiva e direcção do ensino - Lafforgue reage assim:
Para mim, é exactamente como se fôssemos um Alto Conselho dos Direitos do Homem e apelássemos aos Khmers Vermelhos para constituir um grupo de peritos para a promoção dos Direitos Humanos. (...) Cheguei à conclusão de que o nosso sistema educativo público está em vias de destruição total. Esta destruição é resultado de todas as políticas e reformas empreendidas por todos os governos desde o fim dos anos 60.
Estas políticas foram desejadas, aprovadas (...) e impostas por todas as instâncias dirigentes da Educação Nacional, quer dizer em particular: os famosos peritos da Educação Nacional, os corpos de inspectores (recrutados entre s professores mais dóceis e submissos aos dogmas oficiais) (...) os corpos de formadores (...) cheios dos famosos (...) especialistas das chamadas "ciências da educação", a maioria dos peritos de comissões de programas, numa palavra o conjunto da Nomenklatura da Educação Nacional. Estas políticas foram inspiradas a toda esta gente por uma ideologia que consiste em não valorizar o saber e que mistura (...) a crença em teorias pedagógicas delirantes (...) a aprendizagem de conteúdos vagos (...) a doutrina do aluno "no centro do sistema" que deve "construir os próprios saberes". Esta ideologia tomou conta igualmente dos dirigentes dos sindicatos maioritários.
segunda-feira, novembro 28
Aliança ou confusão de civilizações?
A pergunta vem num editorial do ABC de hoje:
Por ejemplo, ¿qué puede tener en común Rodríguez Zapatero, que como una de sus primeras medidas de gobierno quiso aprobar el matrimonio entre personas del mismo sexo, con un personaje como el ex presidente iraní Mohamed Jatamí, que representa a un país donde a una persona se le puede llegar a ahorcar por el hecho de ser homosexual?
Por ejemplo, ¿qué puede tener en común Rodríguez Zapatero, que como una de sus primeras medidas de gobierno quiso aprobar el matrimonio entre personas del mismo sexo, con un personaje como el ex presidente iraní Mohamed Jatamí, que representa a un país donde a una persona se le puede llegar a ahorcar por el hecho de ser homosexual?
Alguém tenta resistir
Ontem foi dia de manifestações de estudantes na Universidade de Teerão, contra a nomeação de um religioso como responsável máximo da institução.
quarta-feira, novembro 23
Nascimento de um novo Hitler
Excerto de um artigo de Carlos Alberto Montaner:
(...)El presidente Ahmadinejad, con una desfachatez que debemos agradecerle, puesto que no deja la menor duda sobre cuáles son sus intenciones, ha declarado dos cosas que son para echarse a temblar. La primera es que ''Israel debe ser borrado del mapa''. La segunda es que ''el mundo debe darse cuenta de que Israel no es el único objetivo de Irán, sino, simplemente, el primero''. Algo que no ignoran los argentinos que en 1994 sufrieron un brutal atentado en pleno Buenos Aires, cuando los servicios iraníes destruyeron con una poderosa bomba el edificio de la Asociación Mutual Israelita (AMIA), y que sufren todos los días los habitantes de Israel, árabes y judíos, con los atentados perpetrados por los asesinos-suicidas financiados, entre otras capitales, desde Teherán.
El asunto es muy claro: ante nuestros azorados ojos, sin pausa ni tregua, uno de esos nefastos personajes de los que inevitablemente conducen a la humanidad al matadero va desplegando sus peores rasgos. Es un fanático convencido de que está destinado a cambiar la historia del mundo y tiene en su memoria colectiva la remota grandeza de Persia. Se siente víctima de no se sabe qué extraños agravios ancestrales. Posee y defiende una causa sagrada (el restablecimiento planetario de la supremacía del islam) y atesora los recursos para perseguir sus planes tozuda y violentamente. Lo único que le falta es un ridículo bigotillo de mosca bajo la nariz.
(...)Tampoco es difícil predecir el resultado final: Irán no logrará su objetivo final, pero la destrucción dejada por ese conflicto será infinitamente mayor que la provocada por la Segunda Guerra Mundial. Si a Churchill le hubieran hecho caso en el año 1935, cuando pidió detener a los nazis a cualquier costo, la humanidad se habría ahorrado sesenta millones de cadáveres y la mayor devastación causada por el hombre que recuerda la historia. Es la hora de releer sus discursos. Y, sobre todo, es la hora de actuar.
(...)El presidente Ahmadinejad, con una desfachatez que debemos agradecerle, puesto que no deja la menor duda sobre cuáles son sus intenciones, ha declarado dos cosas que son para echarse a temblar. La primera es que ''Israel debe ser borrado del mapa''. La segunda es que ''el mundo debe darse cuenta de que Israel no es el único objetivo de Irán, sino, simplemente, el primero''. Algo que no ignoran los argentinos que en 1994 sufrieron un brutal atentado en pleno Buenos Aires, cuando los servicios iraníes destruyeron con una poderosa bomba el edificio de la Asociación Mutual Israelita (AMIA), y que sufren todos los días los habitantes de Israel, árabes y judíos, con los atentados perpetrados por los asesinos-suicidas financiados, entre otras capitales, desde Teherán.
El asunto es muy claro: ante nuestros azorados ojos, sin pausa ni tregua, uno de esos nefastos personajes de los que inevitablemente conducen a la humanidad al matadero va desplegando sus peores rasgos. Es un fanático convencido de que está destinado a cambiar la historia del mundo y tiene en su memoria colectiva la remota grandeza de Persia. Se siente víctima de no se sabe qué extraños agravios ancestrales. Posee y defiende una causa sagrada (el restablecimiento planetario de la supremacía del islam) y atesora los recursos para perseguir sus planes tozuda y violentamente. Lo único que le falta es un ridículo bigotillo de mosca bajo la nariz.
(...)Tampoco es difícil predecir el resultado final: Irán no logrará su objetivo final, pero la destrucción dejada por ese conflicto será infinitamente mayor que la provocada por la Segunda Guerra Mundial. Si a Churchill le hubieran hecho caso en el año 1935, cuando pidió detener a los nazis a cualquier costo, la humanidad se habría ahorrado sesenta millones de cadáveres y la mayor devastación causada por el hombre que recuerda la historia. Es la hora de releer sus discursos. Y, sobre todo, es la hora de actuar.
terça-feira, novembro 22
Blá-blá hertziano
Nas manhãs durante a semana, os portugueses, ou talvez um grupo de habituados, discutem um assunto das notícias do dia no forum da TSF. À tarde, o mesmo tema ou outro é discutido entre mulheres: é o forum mulher, na mesma rádio. Não se percebe bem o que levou os programadores a criar este espaço: como as mulheres podem intervir (intervêm efectivamente) no da manhã e os temas são essencialmente os mesmos, a existência do forum dedicado à intervenção das mulheres poderia ser considerada uma iniciativa reaccionária e retrógrada. No forum mulher é uma jornalista que faz o papel de moderadora, para que aquele espaço não seja contaminado nem ao de leve pela presença masculina. Tratar-se-ia, à primeira impressão, de matar saudades do gineceu ou dos lavores femininos de antigamente, ou simplesmente de dar rédea larga a paleio de mulherio, mas não é nada disso: as discussões são como as outras (as da manhã). Não se percebe, pois, porque é que o forum da tarde não se chama simplesmente forum da tarde e porque é interdita a participação masculina.
Aqui chegados, estamos a um passo de concluir que a TSF discrimina os homens e ficamos a pensar se não deveríamos exigir um forum homem, já. Ora bem, a conclusão seria apressada e a reivindicação supérflua, porque todos os ouvintes atentos sabem muito bem que o androceu em forma de forum já existe há muito tempo: é a bancada central, em horário nocturno. E aí, sim, temos um espaço que não só está na prática vedado às mulheres como devotado a conversa domem, que oscila entre o elogio enternecido ao moderador, ou à equipa ou ao jogador que cada um leva no coração, e o insulto suave. Afloram-se os problemas do tratamento dado ao Ricardo, das atitudes do Sr Pinto da Costa, e chega a filosofar-se em tom desafiante sobre as assimetrias norte-sul e sobre as virtudes do berço de Portugal quando comparado com terras de mouros. O Sr Fernando Correia distribui agradecimentos e concilia os participantes, demonstrando uma eficácia apaziguadora que é característica de espaços muito dados à emoção, como este. Por vezes intervém também uma figura respeitada que é referida como o professor e até declama poemas.
Não, a TSF pode ser excessivamente politicamente correcta mas não se pode dizer que esteja a humilhar excessivamente as mulheres, pelo menos enquanto não criar a bancada-central-mulher.
Aqui chegados, estamos a um passo de concluir que a TSF discrimina os homens e ficamos a pensar se não deveríamos exigir um forum homem, já. Ora bem, a conclusão seria apressada e a reivindicação supérflua, porque todos os ouvintes atentos sabem muito bem que o androceu em forma de forum já existe há muito tempo: é a bancada central, em horário nocturno. E aí, sim, temos um espaço que não só está na prática vedado às mulheres como devotado a conversa domem, que oscila entre o elogio enternecido ao moderador, ou à equipa ou ao jogador que cada um leva no coração, e o insulto suave. Afloram-se os problemas do tratamento dado ao Ricardo, das atitudes do Sr Pinto da Costa, e chega a filosofar-se em tom desafiante sobre as assimetrias norte-sul e sobre as virtudes do berço de Portugal quando comparado com terras de mouros. O Sr Fernando Correia distribui agradecimentos e concilia os participantes, demonstrando uma eficácia apaziguadora que é característica de espaços muito dados à emoção, como este. Por vezes intervém também uma figura respeitada que é referida como o professor e até declama poemas.
Não, a TSF pode ser excessivamente politicamente correcta mas não se pode dizer que esteja a humilhar excessivamente as mulheres, pelo menos enquanto não criar a bancada-central-mulher.
sábado, novembro 19
quinta-feira, novembro 17
Le cauchemar
Hélène Carrère d'Encausse, reputada historiadora e secretária da Academia Francesa, deu o seu ponto de vista sobre a crise à NTV (uma cadeia de tv russa)
Par exemple, tout le monde s'étonne : pourquoi les enfants africains sont dans la rue et pas à l'école ? Pourquoi leurs parents ne peuvent pas acheter un appartement ? C'est clair, pourquoi : beaucoup de ces Africains, je vous le dis, sont polygames. Dans un appartement, il y a trois ou quatre femmes et 25 enfants. Ils sont tellement bondés que ce ne sont plus des appartements, mais Dieu sait quoi !
e à revista Moskovskie Novosti
Oui, la télévision russe ne fait que suivre Poutine pas à pas. Mais la télévision française est tellement politiquement correcte que cela en est un cauchemar. Nous avons des lois qui auraient pu être imaginées par Staline.
O Libération não apreciou.
Par exemple, tout le monde s'étonne : pourquoi les enfants africains sont dans la rue et pas à l'école ? Pourquoi leurs parents ne peuvent pas acheter un appartement ? C'est clair, pourquoi : beaucoup de ces Africains, je vous le dis, sont polygames. Dans un appartement, il y a trois ou quatre femmes et 25 enfants. Ils sont tellement bondés que ce ne sont plus des appartements, mais Dieu sait quoi !
e à revista Moskovskie Novosti
Oui, la télévision russe ne fait que suivre Poutine pas à pas. Mais la télévision française est tellement politiquement correcte que cela en est un cauchemar. Nous avons des lois qui auraient pu être imaginées par Staline.
O Libération não apreciou.
domingo, novembro 13
Para ler
Em Polemia, análise e interpretação - com certeza muito diferente da que passa diariamente nas tvs e jornais - da crise dos subúrbios em França. Um excerto da conclusão politicamente incorrectíssima:
O que precisa de mudar é o discurso dominante dos últimos 30 anos: mesmo que isso não agrade a Bernard Stasi, que lhe deve 20 anos de carreira política e mediática, " a imigração (não) é uma oportunidade para a França", mas um encargo económico e social; não, a integração não funciona, pelo menos para massas tão numerosas provenientes de certas áreas civilizacionais; não, o anti-racismo não facilita a integração, pelo contrário, torna-a mais difícil ao desencadear um racismo ao contrário e a diabolização da identidade francesa; não, o estado-providência e a autarquia assistencial não podem acorrer a todos os problemas económicos e sociais, antes os enraizam e prolongam.
O que precisa de mudar é o discurso dominante dos últimos 30 anos: mesmo que isso não agrade a Bernard Stasi, que lhe deve 20 anos de carreira política e mediática, " a imigração (não) é uma oportunidade para a França", mas um encargo económico e social; não, a integração não funciona, pelo menos para massas tão numerosas provenientes de certas áreas civilizacionais; não, o anti-racismo não facilita a integração, pelo contrário, torna-a mais difícil ao desencadear um racismo ao contrário e a diabolização da identidade francesa; não, o estado-providência e a autarquia assistencial não podem acorrer a todos os problemas económicos e sociais, antes os enraizam e prolongam.
Insensibilidade e falta de senso
Duas notícias dos últimos dias reforçam a minha convicção de que a introdução, na escola, de educação sexual é uma oportunidade ímpar para libertar doses maciças de falta de bom senso que deveriam estar sossegadas a hibernar nas mentes mais diversas.
Por um lado, soubemos que o Grupo de Trabalho para a Educação Sexual, talvez incapaz de decidir se a dita ES deve ser uma disciplina transversal, longitudinal ou oblíqua, põe agora a tónica na participação dos pais. Eles querem dizer participação activa dos pais na "planificação e execução desta área, numa perspectiva de colaboração com a escola responsável". Excelentes intenções! Estou já a ver milhares de pais a correr para as escolas. É que é já a seguir!!!
Estamos claramente diante da confissão de que a matéria é um alçapão com perigos escondidos e ninguém se quer queimar muito sozinho. Quem sabe se até o Grupo já se apercebeu de que os professores não têm necessariamente mais bom senso do que outros comuns mortais. E, se alguns nem dominam bem as próprias matérias convencionais da sua especialidade, quanto à ES é melhor nem pensar...
A actuação de um professor e um elemento do conselho executivo da escola António Sérgio, em Gaia, que em reacção à homossexualidade de duas estudantes comunicaram os factos aos respectivos encarregados de educação, é um exemplo verdadeiramente chocante de falta de sensibilidade para fazer face a um problema tão delicado. O episódio ilustra, a priori, riscos que deveriam ser avaliados com a maior prudência.
Por um lado, soubemos que o Grupo de Trabalho para a Educação Sexual, talvez incapaz de decidir se a dita ES deve ser uma disciplina transversal, longitudinal ou oblíqua, põe agora a tónica na participação dos pais. Eles querem dizer participação activa dos pais na "planificação e execução desta área, numa perspectiva de colaboração com a escola responsável". Excelentes intenções! Estou já a ver milhares de pais a correr para as escolas. É que é já a seguir!!!
Estamos claramente diante da confissão de que a matéria é um alçapão com perigos escondidos e ninguém se quer queimar muito sozinho. Quem sabe se até o Grupo já se apercebeu de que os professores não têm necessariamente mais bom senso do que outros comuns mortais. E, se alguns nem dominam bem as próprias matérias convencionais da sua especialidade, quanto à ES é melhor nem pensar...
A actuação de um professor e um elemento do conselho executivo da escola António Sérgio, em Gaia, que em reacção à homossexualidade de duas estudantes comunicaram os factos aos respectivos encarregados de educação, é um exemplo verdadeiramente chocante de falta de sensibilidade para fazer face a um problema tão delicado. O episódio ilustra, a priori, riscos que deveriam ser avaliados com a maior prudência.
sábado, novembro 12
Também os tigres podem ser compreendidos
Pode ler-se hoje no PÚBLICO- LOCAL Lisboa: uma jovem de 24 anos ficou com um braço destruído ao tentar acariciar um tigre na sua jaula, num circo acampado na margem sul. Para a Liga dos Direitos dos Animais, o episódio vem mostrar "o stress permanente em que os animais vivem nos circos". A Presidente da Liga disse que iria solicitar aos grupos parlamentares uma tomada de posição sobre a matéria.
sexta-feira, novembro 11
O rigor e a falta dele
Se eu afirmar:
A causa dos tumultos em França é a imensa disponibilidade dos compreendedores e justificadores de serviço. Os "jovens" sabem que eles acorrem sem demora a desculpar tudo, ou melhor, já estavam a desculpá-los antes de eles terem começado
é natural que me acusem de simplismo e de falta de rigor intelectual. Apesar disso creio que são ainda menos rigorosas determinadas asserções repetidíssimas nestes dias:
A causa dos tumultos em França foi uma frase proferida por Sarkozy.
A causa dos tumultos em França está no falhanço da integração de certa comunidade.
Os que advogam a primeira afirmação estão a um passo de achar justo que, após uma discussão entre dois automobilistas A e B, em que A chama filho da p... a B, B dispara um tiro sobre A.
A segunda afirmação é um soundbite simplista ou com mensagem subliminar escondida. A comunidade de onde emanam os "jovens" não é conhecida pelo anseio de integração, mas, pelo contrário, pelo desígnio de dominar um território onde possa fazer valer as leis dos seus países de origem. Por outro lado, os activistas que comandam os tumultos nem por um segundo tentam dissimular um ódio profundo à Europa. Isso até nas declarações dos tais "jovens" que passam aqui e ali na tv se tem percebido. Portanto, quando se fala de integração neste contexto está-se, com certeza, a dar música aos ouvidos da plateia.
A causa dos tumultos em França é a imensa disponibilidade dos compreendedores e justificadores de serviço. Os "jovens" sabem que eles acorrem sem demora a desculpar tudo, ou melhor, já estavam a desculpá-los antes de eles terem começado
é natural que me acusem de simplismo e de falta de rigor intelectual. Apesar disso creio que são ainda menos rigorosas determinadas asserções repetidíssimas nestes dias:
A causa dos tumultos em França foi uma frase proferida por Sarkozy.
A causa dos tumultos em França está no falhanço da integração de certa comunidade.
Os que advogam a primeira afirmação estão a um passo de achar justo que, após uma discussão entre dois automobilistas A e B, em que A chama filho da p... a B, B dispara um tiro sobre A.
A segunda afirmação é um soundbite simplista ou com mensagem subliminar escondida. A comunidade de onde emanam os "jovens" não é conhecida pelo anseio de integração, mas, pelo contrário, pelo desígnio de dominar um território onde possa fazer valer as leis dos seus países de origem. Por outro lado, os activistas que comandam os tumultos nem por um segundo tentam dissimular um ódio profundo à Europa. Isso até nas declarações dos tais "jovens" que passam aqui e ali na tv se tem percebido. Portanto, quando se fala de integração neste contexto está-se, com certeza, a dar música aos ouvidos da plateia.
quinta-feira, novembro 10
É a demografia, estúpido
Mark Steyn no Spectator:
‘If you outlaw guns, only outlaws will have guns.’ Likewise, if you marginalise religion, only the marginalised will have religion. That’s why France’s impoverished Muslim ghettos display more cultural confidence than the wealthiest enclaves of the capital.
‘If you outlaw guns, only outlaws will have guns.’ Likewise, if you marginalise religion, only the marginalised will have religion. That’s why France’s impoverished Muslim ghettos display more cultural confidence than the wealthiest enclaves of the capital.
quarta-feira, novembro 9
Todos os pretextos são bons para recordar uma obra prima


ACTION
Dear kindly Sergeant Krupke,
You gotta understand,
It's just our bringin' up-ke
That gets us out of hand.
Our mothers all are junkies,
Our fathers all are drunks.
Golly Moses, natcherly we're punks!
ACTION AND JETS
Gee, Officer Krupke, we're very upset;
We never had the love that ev'ry child oughta get.
We ain't no delinquents,
We're misunderstood.
Deep down inside us there is good!
ACTION
There is good!
ALL
There is good, there is good,
There is untapped good!
Like inside, the worst of us is good!
SNOWBOY: (Spoken) That's a touchin' good story.
ACTION: (Spoken) Lemme tell it to the world!
SNOWBOY: Just tell it to the judge.
ACTION
Dear kindly Judge, your Honor,
My parents treat me rough.
With all their marijuana,
They won't give me a puff.
They didn't wanna have me,
But somehow I was had.
Leapin' lizards! That's why I'm so bad!
DIESEL: (As Judge) Right!
Officer Krupke, you're really a square;
This boy don't need a judge, he needs an analyst's care!
It's just his neurosis that oughta be curbed.
He's psychologic'ly disturbed!
ACTION
I'm disturbed!
JETS
We're disturbed, we're disturbed,
We're the most disturbed,
Like we're psychologic'ly disturbed.
DIESEL: (Spoken, as Judge) In the opinion on this court, this child is depraved on account he ain't had a normal home.
ACTION: (Spoken) Hey, I'm depraved on account I'm deprived.
DIESEL: So take him to a headshrinker.
ACTION (Sings)
My father is a bastard,
My ma's an S.O.B.
My grandpa's always plastered,
My grandma pushes tea.
My sister wears a mustache,
My brother wears a dress.
Goodness gracious, that's why I'm a mess!
A-RAB: (As Psychiatrist) Yes!
Officer Krupke, you're really a slob.
This boy don't need a doctor, just a good honest job.
Society's played him a terrible trick,
And sociologic'ly he's sick!
ACTION
I am sick!
ALL
We are sick, we are sick,
We are sick, sick, sick,
Like we're sociologically sick!
A-RAB: In my opinion, this child don't need to have his head shrunk at all. Juvenile delinquency is purely a social disease!
ACTION: Hey, I got a social disease!
A-RAB: So take him to a social worker!
ACTION
Dear kindly social worker,
They say go earn a buck.
Like be a soda jerker,
Which means like be a schumck.
It's not I'm anti-social,
I'm only anti-work.
Gloryosky! That's why I'm a jerk!
BABY JOHN: (As Female Social Worker)
Eek!
Officer Krupke, you've done it again.
This boy don't need a job, he needs a year in the pen.
It ain't just a question of misunderstood;
Deep down inside him, he's no good!
ACTION
I'm no good!
ALL
We're no good, we're no good!
We're no earthly good,
Like the best of us is no damn good!
DIESEL (As Judge)
The trouble is he's crazy.
A-RAB (As Psychiatrist)
The trouble is he drinks.
BABY JOHN (As Female Social Worker)
The trouble is he's lazy.
DIESEL
The trouble is he stinks.
A-RAB
The trouble is he's growing.
BABY JOHN
The trouble is he's grown.
ALL
Krupke, we got troubles of our own!
Gee, Officer Krupke,
We're down on our knees,
'Cause no one wants a fellow with a social disease.
Gee, Officer Krupke,
What are we to do?
Gee, Officer Krupke,
Krup you!
Music by Leonard Bernstein, lyrics by Stephen Sondheim.
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