segunda-feira, outubro 31

Um rascunho escrito tem um poder explosivo

Ocupação selvagem de apartamentos em Granada, a pretexto de uma versão preliminar da Ley del Suelo da ministra de vivienda, Maria Antonia Trujillo.

domingo, outubro 30

4 pecados capitais

Luca Ricolfi, sociólogo, professor de Análise de Dados na Universidade de Turim, homem assumidamente de esquerda, entrevistado ontem no El Mundo sobre o seu recente livro Porque somos antipáticos? identifica quatro pecados capitais na esquerda contemporânea:

1) Abuso de esquemas secundários. Transforma-se uma evidência empírica por uma interpretação que lhe altera o sentido. O objectivo é falsear a realidade quando ela contraria as nossas expectativas. (Ex: para explicar as terríveis condições de trabalho dos operários nos países comunistas, a esquerda marxista começou por dizer: pois, mas lá as relações de produção são diferentes, os operários orgulham-se do seu trabalho, controlam os meios de produção, etc etc. Quem usa esquemas primários vê a realidade como é e diz apenas: as condições em que trabalham os operários nos paises comunistas são nocivas e produzem cancro.) A esquerda, quase por norma, diz que uma coisa não é importante em si mesma, mas no contexto. É o caso da guerra no Iraque. Mandar tropas para o Iraque não era algo que estivesse certo ou errado, mas dependia da bênção da ONU. Quando parecia que Kerry ia ganhar as eleições, chegou a dizer-se que a nossa presença no Iraque teria então outro significado.

2) Medo das palavras. Doença com 25 a 30 anos, importada dos EEUU. Não há cegos, há invisuais. A vigilância da linguagem no plano privado contrasta com uma linguagem crua de políticos e figuras públicas que começaram a dizer o que lhes dá na gana: Pertini, Wojtila, Berlusconi. As instituições podem transgredir, mas o cidadão que transgride é mal visto.

3) Linguagem codificada. "Economia social de mercado" ou "reformas estruturais" não dizem nada às pessoas normais. Estas doenças da linguagem afectam igualmente a direita. A Liga Norte e a Forza Italia estão imunes por serem partidos novos, sem tradição ideológica (comunista, democrata cristã ou fascista).

4) Complexo de superioridade moral, uma doença da alma. Os políticos de esquerda dizem representar a parte mais sã do país, os que pensam mais no bem comum e nos ideais do que nas conveniências próprias. No entanto o sentido cívico (pôr o bem comum em primeiro lugar) pode medir-se e desde 96 que há estudos sobre isso em Itália. A conclusão é que não há diferença de sentido cívico entre votntes de esquerda e de direita; se em alguns estudos há diferenças ligeiras, elas são a favor das pessoas de direita.

Afirma também que os políticos de direita não são tão hipócritas como os de esquerda e que os eleitores se apercebem disso. Que a esquerda com Prodi vai ganhar as eleições sem o merecer, embora o centro-direita o mereça ainda menos. "Ainda não sei se hei-de tapar o nariz [ao votar] ou se não votar. Creio que mal Berlusconi seja afastado muita gente recuperará o cérebro."

sábado, outubro 29

Hola! (crónica frívola para um dia de chuva)





1. As instalaçoes da Fundaçao Caixa Galicia nao estao preparadas para um acontecimento como a exposiçao de obras de Frida Kahlo. Os chapeus de chuva amontoam-se anarquicamente à entrada e podem já lá nao estar à saída (caso do meu). Felizmente a rua tem várias lojas onde se pode comprar outro. Frida Kahlo por 11 euros: nao posso dizer que é kahro. O enigma do sofrimento físico e moral está lá todo à vista, na Caixa Galicia.

2. Considero aquilo que faz determinadas pessoas aderir à cientologia (domínio inqualificável do pseudo-conhecimento) um dos grandes mistérios da natureza. O ex-casal Cruise/ Kidman é exemplo de devotos célebres. Parece que agora é a vez de Victoria e David Beckham.

sexta-feira, outubro 28

Realidades

Cheguei no domingo a uma pequena e agradável cidade espanhola para uma semana de trabalho. Aqui há vários filmes de língua espanhola em exibiçao: os americanos nao sao a maioria. Consultando as sinopses disponíveis, nenhuma me despertou grande interesse e resolvi ir ver o filme que nao tinha o resumo afixado - um filme argentino, produzido com o financiamento da tve: El aura. Nada de especial e um tanto pretensioso. Um sujeito envolve-se numa série de crimes praticamente sem motivaçao, como movido por piloto automático. O cinema, comercial ou nem por isso, está pela hora da morte. Já tudo foi contado e filmado. As boas surpresas sao raras.

Nos dias seguintes confirmei que, como de costume, a realidade se encarrega de nos evitar o tédio, pois está mais interessante que as ficçoes. Há debate político forte na imprensa e na rádio, por aqui. A COPE, uma rádio ligada à Igreja, ataca o PSOE 24 horas sobre 24 e motivos nao lhe faltam: o estatuto da Catalunha e um projecto de lei da ministra da vivienda, que inclui o objectivo de expropriar andares desocupados, têm servido de mote para os media de oposiçao. O PSOE responde com a mesma violência, atacando o PP e a COPE em especial. Na COPE há momentos de tele-evangelismo primário, o que nao quer dizer que as críticas nao tenham razao de ser. Nao temos nada do género em Portugal. (Exemplo: um relato de fútbol é cortado por jingles como "nos quieren quitar la constituicion!") Tambem foi muito criticada a intençao de Zapatero de participar na apresentacao, hoje, de uma fundaçao para a aliança das civilizaçoes, em companhia pouco recomendável: Tarik Ramadan, um islamista proibido de entrar nos EEUU e vigiado pela polícia francesa (mas, curiosamente, escolhido recentemente por Blair para o aconselhamento sobre como tratar com os jovens de origem islâmica na GB). Zapatero cancelou a sua participaçao. A fundaçao é impulsionada por Masud Zandi, milionário hispano-iraniano que enriqueceu vendendo cadeiras de rodas aos estropiados da guerra Irao-Iraque e conseguiu "surfar" incólume na crista de um recente escândalo financeiro (Gescartera).

A ficçao está, por isso, despedida com justa causa. Com esta realidade, quem precisa dela?

quinta-feira, outubro 27

Irao: situacao dos direitos humanos

Relatório de comissao das Nacoes Unidas, Outubro 2005: http://www.fidh.org/IMG/pdf/ir_un2005a.pdf

domingo, outubro 23

As contradiçoes iranianas no presente

No New York Review of Books, Timothy Garton Ash descreve as impressoes de uma recente visita ao Irao. A juventude da populaçao pode ser, segundo o autor, um elemento crucial na mudança do regime.

Também é interessante o artigo de Azar Nafisi (autora de "Ler 'Lolita' em Teerao"), mesmo se algumas das afirmaçoes nao parecem pacíficas.

Começa amanhã

Começa amanhã a formação em matemática para professores do 1º ciclo. Li o programa (suponho que elaborado pela comissão de acompanhamento; está disponível em alguns sites de instituições envolvidas). No que diz respeito aos conteúdos de matemática que explicitamente são enumerados, parece-me razoavelmente equilibrado. Mas não se conseguiu evitar o mau hábito, que denuncia a forte influência entre nós dos especialistas em "ciências da educação", de embrulhar tudo em muita conversa que potencialmente permite derivas fora dos objectivos com que o programa foi inicialmente traçado. De qualquer modo, espero que corra o melhor possível, e que muitos formadores e formandos consigam concentrar-se no essencial.

sábado, outubro 22

Direitos humanos

Onde a "esquerda" e a "direita" tropeçam, em comentário de Álvaro Vargas Llosa.

quinta-feira, outubro 20

Precioso é o tempo

Cavaco tomou-nos apenas 8 minutos para (não) dizer o mesmo que outros demoraram muito mais a não dizer. Pela sobriedade e economia de tempo, o Falta de Tempo fica desde já reconhecido.

terça-feira, outubro 18

Enigmas e paradoxos II

Nas intervenções, hoje na tv, de dirigentes sindicais de professores (agora em uníssono), pareceu-me ler que até de Manuela já têm saudades.

Essa coisa chata, cheia de regras

Um telejornal de ontem deu-nos uma ideia de como vai o programa de formação contínua para professores de Matemática do 1º ciclo. O espectador desprevenido e afastado do assunto pode ter ficado a pensar que vai muito bem, que agora é que é. Eu fiquei um pouco desconfiado e alarmado, embora não surpreendido.

Uma das senhoras formadoras apareceu a dizer que era preciso mudar a avaliação, porque (cito de ouvido) ao resolver um problema de matemática o resultado não interessa, e pode chegar-se a concluir que o caminho seguido na resolução até é muito válido. Isto contém alguma verdade, mas conhecendo como conheço o mundo dos modernos pedagogos sei que se está principalmente a tentar relativizar o que é certo e o que é errado.

Outra senhora, formanda ou formadora, não me recordo, disse que (novamente cito de cor) o que era necessário era acabar com aquela matemática chata, toda à base de regras.

Fiquei a pensar que o programa está um pouco perdido e desorientado, pois a ideia que eu tenho é de que, dada a ausência de formação matemática de muitos professores do 1º ciclo, o que é necessário em primeiro lugar é ensinar-lhes matemática (a tal a que eles chamam chata, inclusivamente) a fim de que eles a possam contar às crianças numa linguagem adequada. Não creio que se trate de um problema de subtilezas pedagógicas: alguém pode contar a uma criança as mil e uma noites se não tiver lido bem o livro?

Fui à internet espiar sites das faculdades e institutos onde o programa funciona. Fiquei a saber que o programa tem 7 princípios-7, 5 objectivos-5 e uma comissão de acompanhamento com 6 competências-6. Nos enunciados repetem-se, entre princípios e competências, a valorização do trabalho colaborativo entre diferentes actores, a valorização de dinâmicas curriculares centradas na matemática, o desenvolver uma atitude positiva dos professores relativamente à matemática, promovendo a autoconfiança, etc... podem ser intenções óptimas, mas fico com a impressão de que com tanta filosofia prévia nunca mais se chega à matemática propriamente dita. E o pior é que por parte de alguns intervenientes a intenção pode ser mesmo essa.

Tudo bem, sejamos optimistas. Deixemos a matemática chata para os finlandeses, os chineses, os selvagens de Singapura, ou esses infelizes nascidos no leste europeu que quando chegam aqui só podem fazer trabalho de segunda. O resultado... verá-se.

Perguntem ao presidente

A BBC abriu um questionário online dirigido a Hugo Chávez, a que ele supostamente deverá responder. As perguntas são publicadas na página da BBC mas, a julgar pelo que se lê aqui, a BBC só publica, pelo menos por enquanto, as perguntas "fáceis", talvez para não maçar muito o presidente. Apetece colocar a pergunta: acha que a BBC é mais isenta do que os órgãos de informação do seu país? Chavez devia achar estimulante, tal como quando teve oportunidade de responder pela tv, há dias, a Sampaio.

domingo, outubro 16

Solidões (ou Pequenos anúncios III)

No teatro sempre se aprende alguma coisa. Há tempo que andava intrigado com a proliferação de anúncios "relax" onde se oferecem meninas ou senhoras licenciadas nisto ou naquilo. Ontem, uma fala de um dos personagens de Sangue no pescoço do gato abriu-me os olhos: muitas vezes a procura de uma prostituta tem como objectivo satisfazer a necessidade elementar de falar, e parece que nem todas se dispõem ou têm habilitações para isso. Aí está portanto um nicho de mercado que começa a ser preenchido.

sábado, outubro 15

Na livraria

Fui comprar um livro para oferecer a um familiar.

Na caixa, a menina começa por perguntar-me: É para oferecer? É sim, confirmo.

Com a senhora que me precedia e o senhor que me seguiu a cena foi igual: mesma pergunta, mesma resposta. Numa inferência pouco rigorosa mas alarmante, concluo que a maior parte dos livros que são comprados são para oferta. Pobres livros, quantos deles serão comprados por real vontade de os ler? Quantos não chegam a ser folheados?

Lucas Cranach o Jovem



Cristo e a adúltera

"A lei de Moisés ordena que a apedrejemos; mas tu o que dizes?" "Aquele de vós que não tiver pecado que atire a primeira pedra." E os que isto ouviram, condenados pela própria consciência, sairam um a um.

Em nome de Alá

Mulher adúltera condenada à morte por apedrejamento no Irão. Há a possibilidade de ser simplesmente enforcada ou de a pena ser comutada para chicotadas (costumam ser umas centenas).

sexta-feira, outubro 14

China e América Latina

As motivações da China na América Latina analisadas por Alvaro Vargas Llosa aqui. A Cuba e à Venezuela, diz o autor, os chineses preferem o Chile.

quinta-feira, outubro 13

Prémio Nobel da Literatura

Da literatura ou do politicamente correcto?
As peças que escreveu são de boa qualidade. Como os romances de Saramago. Mas ele há coincidências.

Mulheres em casa às 6 da tarde

É directiva recente do ministro da cultura do Irão. Depois das 6, a presença das mulheres nos locais de trabalho não é tolerada pelos actuais governantes.

terça-feira, outubro 11

Factor de impacto

História e comentários sobre uma ideia inocente tornada um bom negócio.