Um telejornal de ontem deu-nos uma ideia de como vai o programa de formação contínua para professores de Matemática do 1º ciclo. O espectador desprevenido e afastado do assunto pode ter ficado a pensar que vai muito bem, que agora é que é. Eu fiquei um pouco desconfiado e alarmado, embora não surpreendido.
Uma das senhoras formadoras apareceu a dizer que era preciso mudar a avaliação, porque (cito de ouvido) ao resolver um problema de matemática o resultado não interessa, e pode chegar-se a concluir que o caminho seguido na resolução até é muito válido. Isto contém alguma verdade, mas conhecendo como conheço o mundo dos modernos pedagogos sei que se está principalmente a tentar relativizar o que é certo e o que é errado.
Outra senhora, formanda ou formadora, não me recordo, disse que (novamente cito de cor) o que era necessário era acabar com aquela matemática chata, toda à base de regras.
Fiquei a pensar que o programa está um pouco perdido e desorientado, pois a ideia que eu tenho é de que, dada a ausência de formação matemática de muitos professores do 1º ciclo, o que é necessário em primeiro lugar é ensinar-lhes matemática (a tal a que eles chamam chata, inclusivamente) a fim de que eles a possam contar às crianças numa linguagem adequada. Não creio que se trate de um problema de subtilezas pedagógicas: alguém pode contar a uma criança as mil e uma noites se não tiver lido bem o livro?
Fui à internet espiar sites das faculdades e institutos onde o programa funciona. Fiquei a saber que o programa tem 7 princípios-7, 5 objectivos-5 e uma comissão de acompanhamento com 6 competências-6. Nos enunciados repetem-se, entre princípios e competências, a valorização do trabalho colaborativo entre diferentes actores, a valorização de dinâmicas curriculares centradas na matemática, o desenvolver uma atitude positiva dos professores relativamente à matemática, promovendo a autoconfiança, etc... podem ser intenções óptimas, mas fico com a impressão de que com tanta filosofia prévia nunca mais se chega à matemática propriamente dita. E o pior é que por parte de alguns intervenientes a intenção pode ser mesmo essa.
Tudo bem, sejamos optimistas. Deixemos a matemática chata para os finlandeses, os chineses, os selvagens de Singapura, ou esses infelizes nascidos no leste europeu que quando chegam aqui só podem fazer trabalho de segunda. O resultado... verá-se.
terça-feira, outubro 18
Perguntem ao presidente
A BBC abriu um questionário online dirigido a Hugo Chávez, a que ele supostamente deverá responder. As perguntas são publicadas na página da BBC mas, a julgar pelo que se lê aqui, a BBC só publica, pelo menos por enquanto, as perguntas "fáceis", talvez para não maçar muito o presidente. Apetece colocar a pergunta: acha que a BBC é mais isenta do que os órgãos de informação do seu país? Chavez devia achar estimulante, tal como quando teve oportunidade de responder pela tv, há dias, a Sampaio.
domingo, outubro 16
Solidões (ou Pequenos anúncios III)
No teatro sempre se aprende alguma coisa. Há tempo que andava intrigado com a proliferação de anúncios "relax" onde se oferecem meninas ou senhoras licenciadas nisto ou naquilo. Ontem, uma fala de um dos personagens de Sangue no pescoço do gato abriu-me os olhos: muitas vezes a procura de uma prostituta tem como objectivo satisfazer a necessidade elementar de falar, e parece que nem todas se dispõem ou têm habilitações para isso. Aí está portanto um nicho de mercado que começa a ser preenchido.
sábado, outubro 15
Na livraria
Fui comprar um livro para oferecer a um familiar.
Na caixa, a menina começa por perguntar-me: É para oferecer? É sim, confirmo.
Com a senhora que me precedia e o senhor que me seguiu a cena foi igual: mesma pergunta, mesma resposta. Numa inferência pouco rigorosa mas alarmante, concluo que a maior parte dos livros que são comprados são para oferta. Pobres livros, quantos deles serão comprados por real vontade de os ler? Quantos não chegam a ser folheados?
Na caixa, a menina começa por perguntar-me: É para oferecer? É sim, confirmo.
Com a senhora que me precedia e o senhor que me seguiu a cena foi igual: mesma pergunta, mesma resposta. Numa inferência pouco rigorosa mas alarmante, concluo que a maior parte dos livros que são comprados são para oferta. Pobres livros, quantos deles serão comprados por real vontade de os ler? Quantos não chegam a ser folheados?
Lucas Cranach o Jovem
Em nome de Alá
Mulher adúltera condenada à morte por apedrejamento no Irão. Há a possibilidade de ser simplesmente enforcada ou de a pena ser comutada para chicotadas (costumam ser umas centenas).
sexta-feira, outubro 14
China e América Latina
As motivações da China na América Latina analisadas por Alvaro Vargas Llosa aqui. A Cuba e à Venezuela, diz o autor, os chineses preferem o Chile.
quinta-feira, outubro 13
Prémio Nobel da Literatura
Da literatura ou do politicamente correcto?
As peças que escreveu são de boa qualidade. Como os romances de Saramago. Mas ele há coincidências.
As peças que escreveu são de boa qualidade. Como os romances de Saramago. Mas ele há coincidências.
Mulheres em casa às 6 da tarde
É directiva recente do ministro da cultura do Irão. Depois das 6, a presença das mulheres nos locais de trabalho não é tolerada pelos actuais governantes.
terça-feira, outubro 11
domingo, outubro 9
Resumo eleitoral
1. Conquistas e reconquistas: foi ocasião para recordar uma discurso aprendido na 4ª classe. X conquistou esta ou reconquistou aquela ou perdeu aqueloutra. Lembrei-me dos Afonsos e Sanchos, esses grandes conquistadores.
2. Quem verdadeiramente perdeu? Os eleitores castigaram, obviamente, a justiça portuguesa, elegendo Fátima e os outros.
3. Algumas intervenções da noite televisiva foram muito divertidas e dignas de passar na SIC-radical. Estou a lembrar-me de Avelino. Num outro estilo, mas muito fofinha, estava a esfuziante Odete.
4. A grande notícia é que chove em Lisboa há várias horas. Já posso deixar a torneira a correr ao lavar os dentes.
Adenda: Tenho que reconhecer que nem tudo foi desperdício nas despesas de campanha. Em viagem pelos arredores de Lisboa no fim de semana, pude ficar a saber facilmente onde me encontrava, apesar da defeituosa sinalização de estradas e localidades: bastava ir atento às caras que apareciam nos cartazes afixados pelas diversas forças e fraquezas políticas.
2. Quem verdadeiramente perdeu? Os eleitores castigaram, obviamente, a justiça portuguesa, elegendo Fátima e os outros.
3. Algumas intervenções da noite televisiva foram muito divertidas e dignas de passar na SIC-radical. Estou a lembrar-me de Avelino. Num outro estilo, mas muito fofinha, estava a esfuziante Odete.
4. A grande notícia é que chove em Lisboa há várias horas. Já posso deixar a torneira a correr ao lavar os dentes.
Adenda: Tenho que reconhecer que nem tudo foi desperdício nas despesas de campanha. Em viagem pelos arredores de Lisboa no fim de semana, pude ficar a saber facilmente onde me encontrava, apesar da defeituosa sinalização de estradas e localidades: bastava ir atento às caras que apareciam nos cartazes afixados pelas diversas forças e fraquezas políticas.
Teodiceia
Podemos descansar. Afinal parece que a citação sobre a comunicação de Deus com Bush não estava correcta. Se assim não fosse, dado o pronto desmentido de um porta voz do presidente e o facto meridianamente claro para a opinião culta ocidental de que Bush é mentiroso, poderíamos estar perante um verdadeira revolução no conhecimento: uma prova indirecta, mas muito sólida, da existência de Deus.
terça-feira, outubro 4
Enigmas e paradoxos
Daqui a poucos dias vamos votar. Com a classe profissional que melhor conheço - os professores de vários graus de ensino - como matéria de devaneio escrevinhante em roda livre, ocorre-me uma série de afirmações e perguntas. É claro que não tenho fundamentação para as primeiras e há uma grande arbitrariedade na escolha das segundas. Também por isso, onde se fala de professores poder-se-ia falar de outra classe. Vamos lá então:
Nas eleições de Fevereiro, pràí uns 80% de professores votaram em Sócrates.
Passados poucos meses, pràí uns 80% de professores, ou mais, começaram a ficar furiosos com Sócrates e a política do governo. Essa fúria não tem vindo a atenuar-se, pelo contrário. Trata-se de um caso de ingenuidade ou de falta de reflexão?
Por vezes diz-se, e acreditamos, que o povo sabe bem em quem votar, significando que tem perfeita consciência de quem é que defende melhor os seus interesses. Ora, um governo debilitado e escarnecido como era o de Santana Lopes não teria condições para tomar (nem as tímidas) iniciativas de Sócrates e que tanto têm aborrecido tantos. Os professores detestavam Santana mas não previram que ainda viriam a irritar-se mais com Sócrates.
Visto à distância, tudo isto poderia significar que o povéu vota, involuntariamente, na melhor solução para os problemas, mesmo que contra os seus próprios interesses a curto prazo. As medidas duras e necessárias passam melhor quando aplicadas por quem nos é pelo menos vagamente mais simpático. Um bébé que vai levar uma injecção chora menos se estiver ao colo da ama. "A História ensinou-nos que muitas vezes a mentira a serve melhor que a verdade" (Arthur Koestler). Estaríamos perante um mecanismo de salvação inconsciente? Ora, nem por sombras. Eu aposto no erro de avaliação.
Preocupação daqui decorrente: que grau de rigor se poderá atribuir à representação que fazemos das perspectivas de solução para o país, ou dos complexos problemas e ameaças à escala mundial mas que também nos tocam? Se nos equivocamos com a facilidade que agora se viu, que valor atribuir ao modo como encaramos, por exemplo, o problema do terrorismo, o futuro do estado social ou da União Europeia? Num referendo à questão de saber se Bush é burro, pràí 80% responderão sim. Terão razão? E, pior ainda: e se têm razão por motivos muito diferentes dos que os movem a responder que sim? Uma percentagem notável, embora menor, também há-de continuar a encontrar em Cavaco uma faceta desprezível que identificam com "cultura estreita". O homem nem sabia quantos cantos têm os Lusíadas. Quantos destes críticos se terão enfurecido com a substituição da literatura pelos regulamentos do big brother nos programas de Português? Temos opinião sobre a intervenção da NATO na questão balcânica, onde a fractura entre bons e maus não tem os contornos simplistas que parece ter em conflitos mais recentes? Sobre o modo como os aparentemente distantes China ou Irão poderão afectar as nossas próprias escolhas?
??? Que dor de cabeça.
Nas eleições de Fevereiro, pràí uns 80% de professores votaram em Sócrates.
Passados poucos meses, pràí uns 80% de professores, ou mais, começaram a ficar furiosos com Sócrates e a política do governo. Essa fúria não tem vindo a atenuar-se, pelo contrário. Trata-se de um caso de ingenuidade ou de falta de reflexão?
Por vezes diz-se, e acreditamos, que o povo sabe bem em quem votar, significando que tem perfeita consciência de quem é que defende melhor os seus interesses. Ora, um governo debilitado e escarnecido como era o de Santana Lopes não teria condições para tomar (nem as tímidas) iniciativas de Sócrates e que tanto têm aborrecido tantos. Os professores detestavam Santana mas não previram que ainda viriam a irritar-se mais com Sócrates.
Visto à distância, tudo isto poderia significar que o povéu vota, involuntariamente, na melhor solução para os problemas, mesmo que contra os seus próprios interesses a curto prazo. As medidas duras e necessárias passam melhor quando aplicadas por quem nos é pelo menos vagamente mais simpático. Um bébé que vai levar uma injecção chora menos se estiver ao colo da ama. "A História ensinou-nos que muitas vezes a mentira a serve melhor que a verdade" (Arthur Koestler). Estaríamos perante um mecanismo de salvação inconsciente? Ora, nem por sombras. Eu aposto no erro de avaliação.
Preocupação daqui decorrente: que grau de rigor se poderá atribuir à representação que fazemos das perspectivas de solução para o país, ou dos complexos problemas e ameaças à escala mundial mas que também nos tocam? Se nos equivocamos com a facilidade que agora se viu, que valor atribuir ao modo como encaramos, por exemplo, o problema do terrorismo, o futuro do estado social ou da União Europeia? Num referendo à questão de saber se Bush é burro, pràí 80% responderão sim. Terão razão? E, pior ainda: e se têm razão por motivos muito diferentes dos que os movem a responder que sim? Uma percentagem notável, embora menor, também há-de continuar a encontrar em Cavaco uma faceta desprezível que identificam com "cultura estreita". O homem nem sabia quantos cantos têm os Lusíadas. Quantos destes críticos se terão enfurecido com a substituição da literatura pelos regulamentos do big brother nos programas de Português? Temos opinião sobre a intervenção da NATO na questão balcânica, onde a fractura entre bons e maus não tem os contornos simplistas que parece ter em conflitos mais recentes? Sobre o modo como os aparentemente distantes China ou Irão poderão afectar as nossas próprias escolhas?
??? Que dor de cabeça.
Livrarias
Quando se sai de Portugal, mesmo as livrarias das pequenas cidades nos fazem inveja. Variedade, bom gosto editorial e preço fazem a grande diferença. Na Feltrinelli de Modena vi hoje tr^es dos meus favoritos: Tutti i nomi, 9,00eur; Il Paradiso è Altrove, 11,50eur; Scende la notte tropicale, 10eur. Ediçoes bonitas e bem impressas que apetecia trazer para casa outra vez.
terça-feira, setembro 27
Aqui ao lado
Para encontrar uma notícia relevante é necessário, neste momento trági-cómico português, olharmos para Espanha. Um tribunal julgou e condenou militantes e colaboradores da Al Qaeda, alguns com ligação ao atentado de 11/set. Questões importantes se colocam: está a justiça dos países democráticos preparada para lidar com uma ameaça tão grave e tão real como o terrorismo islâmico? Em França, novas medidas anti-terroristas estão em preparação e foram detidos elementos de células da Al Qaeda com conexão argelina. A propósito, a França manteve a posição que sabemos a respeito da intervenção americana no Iraque. Todo o ocidente é alvo.
domingo, setembro 25
sábado, setembro 17
Mais um problema resolvido
Tem causado muita apreensão a imposição aos professores de um horário fixo nas escolas, para além das aulas. Tanto quanto sei, as escolas básicas e secundárias não têm instalações que permitam a permanência dos docentes com boas condições de trabalho fora do horário lectivo. Por isso, a medida da Ministra pareceu-me sempre pouco sensata.
Mas felizmente há quem pense por todos e venha generosamente descortinar soluções que estavam mesmo à nossa frente. Nem se percebe como não as víamos. Em artigo publicado hoje na XIS (o insulto ao PÚBLICO que temos de carregar com o jornal de sábado) Daniel Sampaio oferece sugestões de possíveis actividades docentes e respectivos locais de realização. Vou citar e juro que não vou inventar nada, até porque não pretendo os louros da descoberta:
Reunião do conselho de turma. Local: recanto da sala de professores
Atendimento de alunos. Local: refeitório
Apoio a alunos com dificuldades. Local: o mesmo do ponto anterior
Atendimento de pais: recanto do ginásio
Decoração da escola. Local: corredores mal pintados
Debates e recepção a personalidades na escola: recanto da sala de profs, recanto do ginásio
Conversa com os auxiliares de acção educativa: mesa do funcionário ou recanto do corredor
O INIMIGO PÚBLICO de ontem abriu concurso para novos colaboradores, encorajando a submissão de artigos com um humor de tipo novo. Terá havido troca nos suplementos a que o escrito era destinado?
NOTA. Em artigos sobre o início do ano escolar hoje insertos na XIS podem encontrar-se as seguintes expressões:
fichas de trabalho e auto-conhecimento
competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho que promovam uma maior autonomia das aprendizagens
estabelecimento de objectivos pessoais significativos e do desenvolvimento das concepções de si próprio
são os alunos os protagonistas do processo educativo, personagens que tomam nas suas mãos as rédeas do aprender
o estudante (…) munido de uma diversidade de conhecimentos e estratégias, exerce em pleno as suas capacidades de decisão e reflexão
cabe aos educadores orientar e monitorizar o aprender a aprender
Já lemos isto em algum sítio, ou não? Agora a XIS divulga extractos da produção ideológica do Ministério da Educação.
Mas felizmente há quem pense por todos e venha generosamente descortinar soluções que estavam mesmo à nossa frente. Nem se percebe como não as víamos. Em artigo publicado hoje na XIS (o insulto ao PÚBLICO que temos de carregar com o jornal de sábado) Daniel Sampaio oferece sugestões de possíveis actividades docentes e respectivos locais de realização. Vou citar e juro que não vou inventar nada, até porque não pretendo os louros da descoberta:
Reunião do conselho de turma. Local: recanto da sala de professores
Atendimento de alunos. Local: refeitório
Apoio a alunos com dificuldades. Local: o mesmo do ponto anterior
Atendimento de pais: recanto do ginásio
Decoração da escola. Local: corredores mal pintados
Debates e recepção a personalidades na escola: recanto da sala de profs, recanto do ginásio
Conversa com os auxiliares de acção educativa: mesa do funcionário ou recanto do corredor
O INIMIGO PÚBLICO de ontem abriu concurso para novos colaboradores, encorajando a submissão de artigos com um humor de tipo novo. Terá havido troca nos suplementos a que o escrito era destinado?
NOTA. Em artigos sobre o início do ano escolar hoje insertos na XIS podem encontrar-se as seguintes expressões:
fichas de trabalho e auto-conhecimento
competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho que promovam uma maior autonomia das aprendizagens
estabelecimento de objectivos pessoais significativos e do desenvolvimento das concepções de si próprio
são os alunos os protagonistas do processo educativo, personagens que tomam nas suas mãos as rédeas do aprender
o estudante (…) munido de uma diversidade de conhecimentos e estratégias, exerce em pleno as suas capacidades de decisão e reflexão
cabe aos educadores orientar e monitorizar o aprender a aprender
Já lemos isto em algum sítio, ou não? Agora a XIS divulga extractos da produção ideológica do Ministério da Educação.
Ver DVD é pós moderno e não linear
Na sua coluna de 14 de setembro no PÚBLICO, E. Prado Coelho mostra-se extasiado com o DVD: Com o DVD “transgredimos… a linearidade da leitura”; "É permitido parar, analisar, comentar. Leva a uma deslinearização da cultura, que é uma das características da pós-modernidade. Não há começo nem fim, estamos sempre no meio”
O DVD é bué de fixe, mas não sei se uma tal euforia teorizante se justifica. Ver e rever também se podia fazer antes do DVD, nos cinemas de sessões contínuas ou vendo os filmes mais de uma vez. Claro que se perdia mais tempo e as funcionalidades do DVD dão-nos opções novas, mas duvido que os projectistas desta maravilha técnica se sintam pós modernos lá por isso.
Esqueceu EPC que o DVD pode também contribuir para a linearização da cultura. Se há filmes onde tempo e espaço são manuseados de forma inteligente e não trivial, acrescentando valor e significado à narração (exemplo no cinema recente: Jackie Brown, de Tarantino) outros há que baralham o tempo de forma arbitrária (exemplo: 21 gramas) transformando uma história banal num shuffle gratuitamente enigmático. O DVD seria útil, em casos como este, para repor a linearidade, isto é, ver as coisas por uma ordem mais razoável.
O DVD é bué de fixe, mas não sei se uma tal euforia teorizante se justifica. Ver e rever também se podia fazer antes do DVD, nos cinemas de sessões contínuas ou vendo os filmes mais de uma vez. Claro que se perdia mais tempo e as funcionalidades do DVD dão-nos opções novas, mas duvido que os projectistas desta maravilha técnica se sintam pós modernos lá por isso.
Esqueceu EPC que o DVD pode também contribuir para a linearização da cultura. Se há filmes onde tempo e espaço são manuseados de forma inteligente e não trivial, acrescentando valor e significado à narração (exemplo no cinema recente: Jackie Brown, de Tarantino) outros há que baralham o tempo de forma arbitrária (exemplo: 21 gramas) transformando uma história banal num shuffle gratuitamente enigmático. O DVD seria útil, em casos como este, para repor a linearidade, isto é, ver as coisas por uma ordem mais razoável.
sexta-feira, setembro 16
Ser e não ser
Eu sei que sou muito chato com este assunto, mas se juízes podem ler na constituição que é normalíssimo eles próprios fazerem greve, não sei porque é que não há-de ser normal considerar simultaneamente que em 15 de setembro começa, e não começa, a nova sessão legislativa.
Ah! pois. Deve ser por isso que ontem um deputado do PS sugeriu que se pedisse um parecer ao Pai Natal.
Ah! pois. Deve ser por isso que ontem um deputado do PS sugeriu que se pedisse um parecer ao Pai Natal.
quinta-feira, setembro 15
O perfil
"Eu penso que o dr. Cavaco Silva, que é um homem sério e respeitável, não tem, a meu ver, um perfil para Presidente da República, nem a formação humanista que deve ter".
Dito por Soares à Rádio Alfa, que afinal se verificou ontem ser também uma televisão (as declarações passaram com imagens num dos nossos telejornais).
Concordo absolutamente, sem ter a certeza de que Soares tenha querido dizer isto: um homem sério e respeitável corre o risco de destoar na peculiaríssima campanha recém iniciada. Ou talvez Soares tenha querido dizer simplesmente que Cavaco deveria ir tirar uma licenciatura em Direito antes de se candidatar a PR. Não sei. Mas tenho poucas dúvidas de que Soares acredita (como se diz agora nos jornais e rádios) que só Cavaco tem perfil para candidato a PR, e que a ausência da candidatura de Cavaco mergulharia a pose de Soares num vazio sem sentido.
Dito por Soares à Rádio Alfa, que afinal se verificou ontem ser também uma televisão (as declarações passaram com imagens num dos nossos telejornais).
Concordo absolutamente, sem ter a certeza de que Soares tenha querido dizer isto: um homem sério e respeitável corre o risco de destoar na peculiaríssima campanha recém iniciada. Ou talvez Soares tenha querido dizer simplesmente que Cavaco deveria ir tirar uma licenciatura em Direito antes de se candidatar a PR. Não sei. Mas tenho poucas dúvidas de que Soares acredita (como se diz agora nos jornais e rádios) que só Cavaco tem perfil para candidato a PR, e que a ausência da candidatura de Cavaco mergulharia a pose de Soares num vazio sem sentido.
terça-feira, setembro 13
Enigma constitucional
Fala-se, e com razão, da questão militar; os exegetas esquadrinham a lei em busca de razões que lhes convenham; mas eu continuo mais intrigado com o caso do órgão de soberania que ameaça fazer greve.
domingo, setembro 11
Memória de Nova Orleães: os pobres

BLANCHE: Não vou ser hipócrita. Vou dizer honestamente o que penso e criticar. (Olha para o quarto.) Nunca poderia imaginar, nunca… nunca… nem nos piores sonhos. Poe… talvez Edgar Allan Poe pudesse admitir… (Aponta para a rua) E lá fora… o bosque assombrado, o domínio dos vampiros! (Ri)
STELLA: Não, minha querida, é apenas o caminho de ferro.
BLANCHE: Não, agora a sério. Porque não me disseste? Porque não me escreveste? Porque não me puseste ao corrente?
STELLA: Ao corrente de quê, Blanche?
BLANCHE: Oh! De quê. De que vivias numas condições destas.
STELLA: Não achas que exageras? Não é assim tão mau! É Nova Orleães… não é como outras cidades.
BLANCHE: Não tem nada a ver com Nova Orleães! Também poderias dizer… Oh! Desculpa, minha querida… não se fala mais nisso.
(Tennessee Williams, Um eléctrico chamado desejo)
Memória de Nova Orleães: os ricos

Mansão no estilo gótico-vitoriano do Garden District de Nova Orleães. Já não é verão, mas ainda não é outono. Jardim fantástico ao fundo, com floresta tropical, do período dos fetos gigantes.
SRA. VENABLE: O meu filho andava à procura de Deus, ou melhor: de uma imagem clara e nítida de Deus. No dia que lhe contei, um dia escaldante – o doutor conhece o sol do equador? – ele deixou-se ficar todo o dia no cesto da gávea a contemplar a praia. Só desceu quando estava escuro demais para ver. Já cá em baixo, disse-me: “Mãe, desta vez vi-o!” Depois teve febres e delirava com o que tinha visto…
DOUTOR CUKROWICZ: E era caso para isso, e até para perder a razão, se o seu filho pensava ter visto uma imagem de Deus nesse espectáculo a que assistiram nas Encantadas: criaturas do ar pairando e descendo sobre criaturas do mar, devorando as que tinham a pouca sorte de ter nascido em terra, de não ser suficientemente hábeis e rápidas rastejando até ao mar. Compreendo que tal espectáculo possa ser equacionado com vivência, experiência, sei lá… mas não com Deus! A senhora compreende?
SRA. VENABLE: Doutor Cukrowicz, embora membro razoavelmente leal da Igreja Episcopal Protestante, compreendi perfeitamente o que o meu filho quis dizer.
DOUTOR CUKROWICZ: Que nos devemos erguer acima do próprio Deus?
SRA. VENABLE: Não. Quis dizer que Deus nos mostra uma face hedionda e nos atira à cara palavras crueis. Que isso é tudo o que vemos e ouvimos dele.
(Tennessee Williams, Bruscamente no verão passado)
domingo, setembro 4
Coragens
Sarah Mendley, britânica de origem iraquiana, 23 anos, favorita no concurso de Miss England, quis mostrar que há mulheres britânicas atraentes de origem iraquiana que têm orgulho em serem tanto britânicas como iraquianas. (Também no PÚBLICO de hoje, sem link.) Está disposta a enfrentar as críticas dos chefes religiosos muçulmanos e tem o apoio da família. Havendo 2 milhões de muçulmanos no Reino Unido e sabendo-se que franjas dessa população propiciaram o aparecimento de células de militantes fanáticos, parece fora de dúvida que Sarah Mendley é, além de atraente, muito corajosa.
Mais corajosa, certamente, do que os participantes em marchas contra a guerra no Iraque e a chamar nomes a Bush (mesmo que se pense que a guerra e Bush merecem críticas). Vivemos em democracia e felizmente os autores desses protestos, tornados lugar comum normalmente pouco reflectido, não enfrentam qualquer risco. Mas eu desconfiaria sempre das manifestações públicas, realizadas entre nós, cujas palavras de ordem também poderiam ser autorizadas pelas actuais autoridades de Teerão e mereceriam a aprovação entusiástica do Hamas e dos Taliban.
Mais corajosa, certamente, do que os participantes em marchas contra a guerra no Iraque e a chamar nomes a Bush (mesmo que se pense que a guerra e Bush merecem críticas). Vivemos em democracia e felizmente os autores desses protestos, tornados lugar comum normalmente pouco reflectido, não enfrentam qualquer risco. Mas eu desconfiaria sempre das manifestações públicas, realizadas entre nós, cujas palavras de ordem também poderiam ser autorizadas pelas actuais autoridades de Teerão e mereceriam a aprovação entusiástica do Hamas e dos Taliban.
quinta-feira, setembro 1
A síndrome da Rolling Stone
1. A Rolling Stone publicou ontem a lista dos “500 melhores” albuns. Constato surpreendido que, apesar de ter deixado de seguir com atenção o género de música em causa há mais de 30 anos, nas primeiras dezenas de classificados, e em muitos outros lugares da lista consultados ao acaso, encontram-se LPs editados nos anos 60 e 70, que conheci e escutei naquele tempo. Publicando-se cada vez mais música de todos os géneros, parece-me que é enviesado afirmar que não surgiu nada melhor, digamos, nos últimos 10 anos. Tenho, aliás, a impressão contrária. Não me dei ao trabalho de ver como foi elaborada a lista, mas deduzo que os votantes são velhotes com o gosto congelado nos produtos dos anos 70.
2. O espectáculo da campanha para as presidenciais, já teve dois pontos altos: o da tristeza da candidatura semi-abortada de Alegre e o do alegre e animado anúncio de Soares. Alegre pensa que é alternativa a Soares, mas não me lembro de ele ter explicado onde estão as diferenças. Só me lembro de relatos sobre afectos magoados e traídos.
Quem se lembra de alguma posição política de Alegre distinta das de Soares? Soares afirma ter aprendido imenso nos últimos dez anos. Não duvido. Além disso tem vindo, quem sabe se conscientemente, a posicionar-se, ao adoptar uma postura mais à esquerda do que as que lhe conhecíamos, para esfarelar qualquer veleidade de outra candidatura na área. Alguns dizem que ele nem teve a delicadeza de mencionar Alegre. Não é assim: ele disse explicitamente que tinha avançado por constatar o vazio. Que petulância, arrogar-se a capacidade de competir nestes palcos; já teve a vice-presidência da A.R., esse prestigioso pilar da soberania, que mais quer a irrisória criatura? pensou, talvez.
De política propriamente dita Alegre disse quase nada e Soares enunciou generalidades politicamente correctas (com humor pelo meio, reconheça-se) e politicamente perigosas.
Alegre, Soares. Sem prejuízo de lhes reconhecer méritos, tanto um como outro parecem ter o pensamento político congelado no tal mundo dos anos 70. (Para não mencionar Jerónimo, é claro.) Não é normal que naquela área não tenha surgido nada de novo, para melhor. Alegre, Soares, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band: é a síndrome da Rolling Stone.
2. O espectáculo da campanha para as presidenciais, já teve dois pontos altos: o da tristeza da candidatura semi-abortada de Alegre e o do alegre e animado anúncio de Soares. Alegre pensa que é alternativa a Soares, mas não me lembro de ele ter explicado onde estão as diferenças. Só me lembro de relatos sobre afectos magoados e traídos.
Quem se lembra de alguma posição política de Alegre distinta das de Soares? Soares afirma ter aprendido imenso nos últimos dez anos. Não duvido. Além disso tem vindo, quem sabe se conscientemente, a posicionar-se, ao adoptar uma postura mais à esquerda do que as que lhe conhecíamos, para esfarelar qualquer veleidade de outra candidatura na área. Alguns dizem que ele nem teve a delicadeza de mencionar Alegre. Não é assim: ele disse explicitamente que tinha avançado por constatar o vazio. Que petulância, arrogar-se a capacidade de competir nestes palcos; já teve a vice-presidência da A.R., esse prestigioso pilar da soberania, que mais quer a irrisória criatura? pensou, talvez.
De política propriamente dita Alegre disse quase nada e Soares enunciou generalidades politicamente correctas (com humor pelo meio, reconheça-se) e politicamente perigosas.
Alegre, Soares. Sem prejuízo de lhes reconhecer méritos, tanto um como outro parecem ter o pensamento político congelado no tal mundo dos anos 70. (Para não mencionar Jerónimo, é claro.) Não é normal que naquela área não tenha surgido nada de novo, para melhor. Alegre, Soares, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band: é a síndrome da Rolling Stone.
segunda-feira, agosto 29
Cada macaco no seu galho
Por ter referido os anos 70 no post anterior, veio-me à memória um detalhe, que ainda me faz sorrir, dessa época que já parece tão longe.
No princípio dos anos 70 começaram a aparecer entre nós os grupos de teatro que queriam romper com as formas clássicas de actuação. A sua bandeira era estética e política. O aspecto anedótico a que quero referir-me é que começou a ser moda provocar a intervenção do espectador na representação. Este desígnio estava em consonância com teorias da arte de acordo com as quais todos têm capacidades que vale a pena mostrar e, em última análise, tudo é arte. Lembro-me de ter contactado com o fenómeno pela primeira vez num teatrinho dos arredores de Lisboa: às tantas os actores ficaram imóveis, deitados no palco, à espera de um estímulo vindo da plateia para continuarem (não me lembro como se desbloqueou a situação). Anos mais tarde, num espectáculo no Chapitô, a que pensava que ia assistir descansado, obrigaram-me volta e meia a levantar-me e agitar um lençol, em conjunto com outros espectadores, para simulação de ondas numa cena que se passava num barco. Noutros casos, cheguei a ser chamado ao palco para fazer já não me lembro o quê.
Como não me dá tranquilidade saber que provavelmente sou chamado à acção quando o que quero é simplesmente ver um espectáculo, passei a perguntar, sempre que ia comprar um bilhete, se alguém iria pedir-me para fazer alguma coisa, caso em que a compra seria imediatamente anulada. Quando pago um bilhete, não é para trabalhar.
É provável que ainda haja vestígios daquela moda, mas tanto quanto me apercebo ela foi desaparecendo, ou pelo menos foi-se tornando menos frequente. No entanto, o princípio subjacente sobreviveu noutras formas: no jargão dos modernos pedagogos, por exemplo, o professor é apenas um facilitador da aprendizagem e, no limite, dentro da sala de aula todos aprendem e todos ensinam. (Também gostam muito, aliás, de falar dos actores do processo de ensino-barra-aprendizagem.) Trata-se, claramente, de uma confusão deliberada de papéis, como no teatrinho de vanguarda.
No princípio dos anos 70 começaram a aparecer entre nós os grupos de teatro que queriam romper com as formas clássicas de actuação. A sua bandeira era estética e política. O aspecto anedótico a que quero referir-me é que começou a ser moda provocar a intervenção do espectador na representação. Este desígnio estava em consonância com teorias da arte de acordo com as quais todos têm capacidades que vale a pena mostrar e, em última análise, tudo é arte. Lembro-me de ter contactado com o fenómeno pela primeira vez num teatrinho dos arredores de Lisboa: às tantas os actores ficaram imóveis, deitados no palco, à espera de um estímulo vindo da plateia para continuarem (não me lembro como se desbloqueou a situação). Anos mais tarde, num espectáculo no Chapitô, a que pensava que ia assistir descansado, obrigaram-me volta e meia a levantar-me e agitar um lençol, em conjunto com outros espectadores, para simulação de ondas numa cena que se passava num barco. Noutros casos, cheguei a ser chamado ao palco para fazer já não me lembro o quê.
Como não me dá tranquilidade saber que provavelmente sou chamado à acção quando o que quero é simplesmente ver um espectáculo, passei a perguntar, sempre que ia comprar um bilhete, se alguém iria pedir-me para fazer alguma coisa, caso em que a compra seria imediatamente anulada. Quando pago um bilhete, não é para trabalhar.
É provável que ainda haja vestígios daquela moda, mas tanto quanto me apercebo ela foi desaparecendo, ou pelo menos foi-se tornando menos frequente. No entanto, o princípio subjacente sobreviveu noutras formas: no jargão dos modernos pedagogos, por exemplo, o professor é apenas um facilitador da aprendizagem e, no limite, dentro da sala de aula todos aprendem e todos ensinam. (Também gostam muito, aliás, de falar dos actores do processo de ensino-barra-aprendizagem.) Trata-se, claramente, de uma confusão deliberada de papéis, como no teatrinho de vanguarda.
domingo, agosto 28
Imobilidades
Nos últimos dias voltou a estar em causa o valor da coerência, a propósito da lamentável carta aberta (no PÚBLICO) de Maria João Seixas a Helena Matos. Ainda há pouco tempo, tendo o falecimento de Cunhal em pano de fundo, se tinha falado desta escorregadia qualidade e ela não saiu muito bem tratada da discussão.
Não vejo nada de extraordinário no percurso de Helena Matos. Por um lado, todos nós, que já tivemos 20 anos, sabemos que por vezes nessa idade se adoptam resoluções e atitudes por mero impulso ou por razões de afectividade, mais consciente ou menos consciente. Por outro, a informação de que se dispunha nos agitados anos de 74 e 75 não era, apesar de tudo, a que temos hoje e um punhado de importantes lições da história ainda estavam por nos esmagar com as suas evidências. A multiplicidade de projectos políticos que explodiram à luz do dia no final da “longa noite fascista” também ajudava à confusão.
Com a experiência e a reflexão, as pessoas mudam, e ainda bem. Ainda bem, em particular, no caso de Helena Matos, certamente uma das mais interessantes e lúcidas autoras de crónicas na nossa imprensa. Ela está a prestar um serviço bem mais importante do que o que prestaria se, por imobilismo intelectual, se limitasse a engrossar a coluna dos discursos previsíveis, como MJS gostaria.
De resto, as mudanças ao longo da vida são comuns e naturais, e não apenas no campo das preferências políticas. Não mudar parece mais estranho do que mudar.
Por exemplo: por volta dos 10-12 anos, lê-se as aventuras dos “cinco”, na casa dos 20 ouve-se e goza-se com a música pop ou rock do tempo, mas com certeza que MJS não achará normal que se fique agarrado a esses gostos toda a vida. Eu sei que há muitos cinquentões que vão aos concertos dos Rolling Stones e que Harry Potter e o Senhor dos Anéis são as delícias literárias quase exclusivas de alguns adultos. Não será o caso de toda a gente, mas há quem fique com os seus gostos congelados e reduzidos aos padrões da adolescência tardia. A falta de amadurecimento e reflexão pode explicar alguma dificuldade em compreender e analisar alguns aspectos da nossa realidade e marcar negativamente as escolhas individuais de que depende o futuro colectivo.
Não vejo nada de extraordinário no percurso de Helena Matos. Por um lado, todos nós, que já tivemos 20 anos, sabemos que por vezes nessa idade se adoptam resoluções e atitudes por mero impulso ou por razões de afectividade, mais consciente ou menos consciente. Por outro, a informação de que se dispunha nos agitados anos de 74 e 75 não era, apesar de tudo, a que temos hoje e um punhado de importantes lições da história ainda estavam por nos esmagar com as suas evidências. A multiplicidade de projectos políticos que explodiram à luz do dia no final da “longa noite fascista” também ajudava à confusão.
Com a experiência e a reflexão, as pessoas mudam, e ainda bem. Ainda bem, em particular, no caso de Helena Matos, certamente uma das mais interessantes e lúcidas autoras de crónicas na nossa imprensa. Ela está a prestar um serviço bem mais importante do que o que prestaria se, por imobilismo intelectual, se limitasse a engrossar a coluna dos discursos previsíveis, como MJS gostaria.
De resto, as mudanças ao longo da vida são comuns e naturais, e não apenas no campo das preferências políticas. Não mudar parece mais estranho do que mudar.
Por exemplo: por volta dos 10-12 anos, lê-se as aventuras dos “cinco”, na casa dos 20 ouve-se e goza-se com a música pop ou rock do tempo, mas com certeza que MJS não achará normal que se fique agarrado a esses gostos toda a vida. Eu sei que há muitos cinquentões que vão aos concertos dos Rolling Stones e que Harry Potter e o Senhor dos Anéis são as delícias literárias quase exclusivas de alguns adultos. Não será o caso de toda a gente, mas há quem fique com os seus gostos congelados e reduzidos aos padrões da adolescência tardia. A falta de amadurecimento e reflexão pode explicar alguma dificuldade em compreender e analisar alguns aspectos da nossa realidade e marcar negativamente as escolhas individuais de que depende o futuro colectivo.
sexta-feira, agosto 26
Dois pontos
O activismo de Cindy Sheenan está a revelar-se um embaraço significativo para Bush e para os defensores da invasão do Iraque. A constatação deste facto sugere duas reflexões. (Nenhuma delas tem a ver directamente com a situação no Iraque.)
Primeira: há um preconceito, não expresso, por detrás dos receios daqueles que colocam a posse de armamento de destruição maciça por parte dos EU, ou por parte de estados párias ou grupos terroristas, ao mesmo nível de perigosidade; alguém imagina um movimento de simpatizantes do Ocidente a ter uma tal expressão pública no Irão ou na coreia do Norte, por exemplo? A assimetria é demasiado evidente.
Segunda: o caso Sheenan é um exemplo de como a corrente mediática mainstream transmite a informação de forma superficial e parcial. Não há nada de estranho no facto de uma mãe chorar um filho, ou em nisso encontrar um impulso para o seu activismo político. Mas o caso é menos simples quando se aprofunda o curriculum da Sra. Sheenan. Por exemplo, em Abril, participando num meeting na Universidade de San Francisco,

Cindy Sheenan teceu fortes elogios a Lynne Stewart, defensora de terroristas. Lynne Stewart foi advogada do responsável pelo atentado ao WTC em 1993; foi recentemente condenada por conspiração e auxílio ao terrorismo e por passar mensagens do seu cliente, na prisão, para um grupo cúmplice no Egipto. Um colaborador de Stewart, igualmente condenado, trocava informações com a Al Qaeda. Os pormenores contados por Lee Kaplan aqui.
Primeira: há um preconceito, não expresso, por detrás dos receios daqueles que colocam a posse de armamento de destruição maciça por parte dos EU, ou por parte de estados párias ou grupos terroristas, ao mesmo nível de perigosidade; alguém imagina um movimento de simpatizantes do Ocidente a ter uma tal expressão pública no Irão ou na coreia do Norte, por exemplo? A assimetria é demasiado evidente.
Segunda: o caso Sheenan é um exemplo de como a corrente mediática mainstream transmite a informação de forma superficial e parcial. Não há nada de estranho no facto de uma mãe chorar um filho, ou em nisso encontrar um impulso para o seu activismo político. Mas o caso é menos simples quando se aprofunda o curriculum da Sra. Sheenan. Por exemplo, em Abril, participando num meeting na Universidade de San Francisco,

Cindy Sheenan teceu fortes elogios a Lynne Stewart, defensora de terroristas. Lynne Stewart foi advogada do responsável pelo atentado ao WTC em 1993; foi recentemente condenada por conspiração e auxílio ao terrorismo e por passar mensagens do seu cliente, na prisão, para um grupo cúmplice no Egipto. Um colaborador de Stewart, igualmente condenado, trocava informações com a Al Qaeda. Os pormenores contados por Lee Kaplan aqui.
quinta-feira, agosto 25
Leituras de Agosto
Em Memórias de duas jovens casadas, que, sem ser do melhor Balzac, é uma novela epistolar notável, há uma passagem deliciosa em que Louise descreve o choque que sente ao verificar que, na grande cidade, não é alvo de atenção, apesar de ser uma rapariga bonita:
Finalmente vi Paris! (...) Eu ia bem vestida, com ar melancólico mas disposta a rir, rosto calmo sob um chapéu lindíssimo, braços cruzados. Não obtive o menor sorriso, nem um só rapaz se dignou parar, ninguém se voltou para olhar para mim, e no entanto a lentidão da carruagem estava em harmonia com a minha pose. (...) Um homem examinou demoradamente a carruagem sem me prestar atenção. Esse lisongeiro devia ser cocheiro. Enganei-me na avaliação dos meus trunfos: a beleza, esse privilégio raro que só Deus concede, é, pois, mais frequente em Paris do que eu pensava.
Finalmente vi Paris! (...) Eu ia bem vestida, com ar melancólico mas disposta a rir, rosto calmo sob um chapéu lindíssimo, braços cruzados. Não obtive o menor sorriso, nem um só rapaz se dignou parar, ninguém se voltou para olhar para mim, e no entanto a lentidão da carruagem estava em harmonia com a minha pose. (...) Um homem examinou demoradamente a carruagem sem me prestar atenção. Esse lisongeiro devia ser cocheiro. Enganei-me na avaliação dos meus trunfos: a beleza, esse privilégio raro que só Deus concede, é, pois, mais frequente em Paris do que eu pensava.
terça-feira, agosto 23
O outro lado do problema
Por muito grave que tenha sido a morte trágica de Jean Menezes aos disparos da polícia britânica, por muito que se imponha apurar a verdade dos factos até ao fim, não se correrá o risco, com os fortes ataques de que a polícia vem sendo alvo, de enfraquecer a luta contra o terrorismo? Afinal, no dia 7 de Julho, 56 cidadãos foram mortos por assassinos saídos da sombra, disfarçados de pessoas como nós.
Convém não esquecer.
Convém não esquecer.
domingo, agosto 21
Camille Paglia sobre arte, academia, multiculturalismo, política...
Escreveu livros e artigos sobre arte, literatura, feminismo e política. Professora na University of the Arts in Philadelphia. Excertos de declarações em entrevista por Robert Birnbaun, 3 de Agosto
* * *
Para responder à grande arte, as pessoas de esquerda têm de aprender sobre o impulso religioso. Eu respeito o misticismo e a dimensão espiritual, embora não acredite em Deus. E afirmo que o humanismo secular actual, ao denegrir a religião, é meramente reaccionário, corrupto, ou o que se queira.
Os artistas, as universidades, as escolas, têm a obrigação de trazer a arte para primeiro plano. Em vez de 30 anos a dizer mal da cultura ocidental...
Sou pelo multiculturalismo. Tem a ver com as grandes tradições artísticas, sejam chinesas, hindus, seja o que for que percorremos em termos históricos – valor, grandeza, qualidade. (...) A ideia de qualidade tem sido afastada da discussão sobre a arte nas nossas universidades porque “Bem, não passa de uma máscara da ideologia. Não existe valor. É tudo subjectivo. Para quem quer manter o próprio poder.” É este lixo que se ouve.
Estamos a ter pior escrita, pior arte. O estilo da web(…) absorve-se informação sem ler frases completas. Email, blog, tudo é rápido, rápido, rápido. Por isso a qualidade da lingaugem degenerou.
Compete aos professores repor o equilíbrio a favor da arte e é aí que a educação na América está a falhar. Há uma espécie de mentalidade boazinha, humanitária, estilo “Vamos à nossa quota, vamos ler o poema tal do Africano-Americano, o poema tal do Nativo Americano.” De qualidade não se fala. (...) A extrema direita quer proibir o que tem a ver com sexo – nus na história da pintura. A esquerda quer proibir o que tem a ver com religião.
A maior parte das pessoas que são humanistas seculares crêem que estão a proceder bem. Estamos a proceder bem e o nosso único inimigo é a extrema direita ancorada na Bíblia. A razão por que é esta a ameaça é que eles têm a Bíblia. A Bíblia é uma obra prima. A Bíblia é uma das maiores obras já produzidas. Quem tem a Bíblia tem uma preparação para a vida. Não só dispõe de uma visão espiritual, como também goza de satisfação artística. Na Bíblia está tudo. A esquerda o que tem? Tem muita atitude.
Os esquerdistas supostamente falam pelo povo. Na verdade desdenham do povo.
O ponto é que as pessoas não estão a votar contra os seus interesses. O seu interesse é o capitalismo. É esta a minha objecção. Comparando a experiência do século 20, o socialismo numa nação acaba por arrastar a estagnação económica e do impulso criativo. O capitalismo, apesar de todos os seus defeitos, apesar de ser Darwiniano, fabricou uma qualidade de vida elevada. E, esta é para mim a questão principal como feminista: foi o capitalismo que permitiu a emergência da mulher independente moderna, liberta pela primeira vez de pais, irmãos e maridos – uma mulher que se basta a si própria.
É preciso varrer toda esta droga pós-modernista e estruturalista que não produziu nada a não ser postos académicos, promoções e salários de sucesso. Esta ingenuidade da imprensa alternativa a respeito da academia. A ideia de que gente que balbucia trivialidades esquerdistas é de esquerda. Conheci gente dessa na universidade. São apenas materialistas grosseiros, ok?
* * *
Para responder à grande arte, as pessoas de esquerda têm de aprender sobre o impulso religioso. Eu respeito o misticismo e a dimensão espiritual, embora não acredite em Deus. E afirmo que o humanismo secular actual, ao denegrir a religião, é meramente reaccionário, corrupto, ou o que se queira.
Os artistas, as universidades, as escolas, têm a obrigação de trazer a arte para primeiro plano. Em vez de 30 anos a dizer mal da cultura ocidental...
Sou pelo multiculturalismo. Tem a ver com as grandes tradições artísticas, sejam chinesas, hindus, seja o que for que percorremos em termos históricos – valor, grandeza, qualidade. (...) A ideia de qualidade tem sido afastada da discussão sobre a arte nas nossas universidades porque “Bem, não passa de uma máscara da ideologia. Não existe valor. É tudo subjectivo. Para quem quer manter o próprio poder.” É este lixo que se ouve.
Estamos a ter pior escrita, pior arte. O estilo da web(…) absorve-se informação sem ler frases completas. Email, blog, tudo é rápido, rápido, rápido. Por isso a qualidade da lingaugem degenerou.
Compete aos professores repor o equilíbrio a favor da arte e é aí que a educação na América está a falhar. Há uma espécie de mentalidade boazinha, humanitária, estilo “Vamos à nossa quota, vamos ler o poema tal do Africano-Americano, o poema tal do Nativo Americano.” De qualidade não se fala. (...) A extrema direita quer proibir o que tem a ver com sexo – nus na história da pintura. A esquerda quer proibir o que tem a ver com religião.
A maior parte das pessoas que são humanistas seculares crêem que estão a proceder bem. Estamos a proceder bem e o nosso único inimigo é a extrema direita ancorada na Bíblia. A razão por que é esta a ameaça é que eles têm a Bíblia. A Bíblia é uma obra prima. A Bíblia é uma das maiores obras já produzidas. Quem tem a Bíblia tem uma preparação para a vida. Não só dispõe de uma visão espiritual, como também goza de satisfação artística. Na Bíblia está tudo. A esquerda o que tem? Tem muita atitude.
Os esquerdistas supostamente falam pelo povo. Na verdade desdenham do povo.
O ponto é que as pessoas não estão a votar contra os seus interesses. O seu interesse é o capitalismo. É esta a minha objecção. Comparando a experiência do século 20, o socialismo numa nação acaba por arrastar a estagnação económica e do impulso criativo. O capitalismo, apesar de todos os seus defeitos, apesar de ser Darwiniano, fabricou uma qualidade de vida elevada. E, esta é para mim a questão principal como feminista: foi o capitalismo que permitiu a emergência da mulher independente moderna, liberta pela primeira vez de pais, irmãos e maridos – uma mulher que se basta a si própria.
É preciso varrer toda esta droga pós-modernista e estruturalista que não produziu nada a não ser postos académicos, promoções e salários de sucesso. Esta ingenuidade da imprensa alternativa a respeito da academia. A ideia de que gente que balbucia trivialidades esquerdistas é de esquerda. Conheci gente dessa na universidade. São apenas materialistas grosseiros, ok?
Sobre a complexa situação no Iraque
Carta aberta aos intelectuais europeus de Brendan O'Leary, professor de Ciência Política na Universidade de Pennsylvania.
sábado, agosto 20
Breve memória da estação idiota

Falta de estudo: foi anunciado, já não me lembro bem quando, que o governo iria gastar uns euros para dotar cada português de correio electrónico (ce), a começar pelos funcionários públicos. Ora, além de os funcionários públicos já disporem, normalmente, de ce nos respectivos locais de trabalho, o governo deveria estar informado de que, assim como cada famíla tem, normalmente, 2 casas, 2 carros, 6 aparelhos de tv e 6 telemóveis, cada português tem uns 3 ou 4 endereços de ce, que funcionam bem e são gratuitos. Pelo contrário, acesso à internet barato é que não. Certamente que não foi feito um "estudo" conveniente da situação.
Excesso de estudo: através de um anúncio para recrutamento de pessoal docente, fiquei a saber que na Universidade de Évora são leccionadas disciplinas com os seguintes nomes: Alojamento e desenvolvimento turístico, Práticas de operadores turísticos e Teorias do Turismo.
A escola pública não veicula ideologia? A respeito de escola pública versus escola privada, trocaram-se argumentos (e também alguns insultos) no PÚBLICO, entre Mário Pinto e Vital Moreira. No artigo de Vital Moreira, publicado em 9 de Agosto, é referido o "impedimento... de o Estado programar o ensino público de acordo com quaisquer directivas filosóficas, ideológicas ou religiosas". Para o autor, este é "o grande argumento a favor da escola pública". Ora, se este considerando parece perfeitamente razoável em abstracto ele é origem de um tremendo equívoco quando se olha de perto a realidade que temos. Assim, julgo que a afirmação de que na escola pública "nem professores nem estudantes estão sujeitos a orientações nem a directivas ideológicas ou doutrinárias" é facilmente desmentida pelos factos.
Ao fazer esta observação não estou a pensar em matérias que podem ser fonte de polémica fácil, como certas disciplinas do âmbito das ciências humanas ou a educação sexual. Estou antes a pensar no ensino de uma disciplina que posso apreciar com bastante conhecimento de causa: a matemática. Basta examinar os programas oficiais, ou o modo como são concretizados em textos do ministério ou em alguns manuais disponíveis e utilizados nas escolas, para que identifiquemos traços de uma ideologia plasmada nas indicações metodológicas, que são mais desenvolvidas do que os póprios tópicos do programa e espartilhantes da liberdade e da iniciativa do professor. São exemplos: a recusa do domínio das técnicas de cálculo e da utilização da memória; a utilização de calculadoras em contextos onde isso não é recomendável; a ocultação deliberada de certas conexões lógicas entre matérias relacionadas, ferindo assim a essência da disciplina. As indicações são ricas em chavões como temas transversais, formas de organizar pensamento,desenvolvimento de atitudes e capacidades, construção de conceitos a partir da experiência de cada um, área de projecto...
À primeira vista, poderia julgarar-se que se trata de indicações recomendáveis por via de validação científica. Mas jamais foram exibidos estudos que suportassem tais escolhas. E seria surpreendente que eles existissem, pois o que mostra a realidade dos resultados de avaliações em anos recentes (com estas formulações de programas em vigor) estaria em profunda contradição com aqueles princípios. Por conseguinte, é de ideologia que se trata.
sexta-feira, julho 29
terça-feira, julho 26
Dos direitos em abstracto às políticas concretas
Há poucos dias escrevi sobre a Xis a brincar. Hoje volto a escrever motivado pela Xis, mas o assunto é sério.
No último sábado, a revista organizou uma série de artigos sobre homossexualidade. Incluiu declarações de Miguel Vale Almeida, com destaque para a frase: "Achei muito cedo que tinha todo o direito a ser homossexual."
Que há nisso de extraordinário, perguntará quem está a ler. À primeira vista nada, porque felizmente vivemos num lugar e num tempo em que é reconhecido a cada um o direito de viver a afectividade de acordo com o que sente por dentro e não segundo uma imposição social. Em segunda leitura, no entanto, chama-me a atenção a falta de rigor implícita ao omitir-se que um direito só existe ligado a um lugar e a um tempo. É útil e importante afirmar os direitos e lutar por eles mesmo quando parecem apenas utopias, mas na ausência de determinadas condições de evolução social eles permanecem isso mesmo - utopias. A bem da clareza, o Professor de Antropologia poderia ter dito: "Pude afirmar-me homossexual desde muito cedo porque tive a sorte de nascer na Europa ocidental, na segunda metade do século 20." Bem sabemos que continua a haver incompreensões, intolerâncias e até perseguições por parte de alguns grupos, mas o certo é que, exceptuados casos pontuais, a referida "afirmação" não envolve riscos significativos.
O autor da frase sabe muito bem que ela seria completamente desprovida de sentido se o lugar e o tempo fossem os da URSS, Cuba, certos países africanos, ou países muçulmanos nos nossos dias (o que se passou há uma semana no Irão é elucidativo)...
Na Europa, ou, se quisermos ser mais abrangentes, no "ocidente", onde a herança clássica e cristã moldou a civilização que porventura mais respeita o indivíduo (além de permitir acesso a bens materiais a uma larga maioria da população) é possível, felizmente, afirmar características pessoais que noutros sítios podem valer uma sentença de morte. Trata-se de uma circunstância, entre muitas, que deveriam ser suficientes para alinharmos na defesa do nosso modelo - mesmo que possamos reconhecer-lhe imperfeições e erros - em vez de o subestimarmos pela óptica multiculturalista em voga.
Só para dar um outro pequeno exemplo: em que outro mundo seria possível fazer carreira profissional investigando sobre género, sexualidade e corpo? Também aqui o lugar e o tempo não são indiferentes. Foram as universidades dos países anglo-saxónicos, de resto, que conferiram estatuto científico a tais matérias...
Estas omissões não me parecem inocentes. Elas são condicionadas por preconceitos ideológicos que se traduzem em atitudes políticas nocivas. Cada cidadão é livre de se posicionar ao lado das forças que criticam a necessidade da luta contra terroristas que pretendem transformar todo o mundo num imenso pesadelo islâmico; se o faz é porque desvaloriza completamente a ameaça. Paradoxalmente, a nossa sociedade gerou em si o melhor aliado do seu inimigo mais mortal: um aliado que até lhe fabrica argumentos. A Al-Qaeda forjou e tirou espectacular partido do 11 de Março não por Aznar ter apoiado a invasão do Iraque, mas principalmente porque no dia 14 ia a votos um grande partido que defendia posições que os terroristas souberam comprar e capitalizar como suas. Ao fazer o jogo do inimigo, colocamo-nos na sua mira.
Também por isso discordo do Professor por a candidatura de Soares lhe merecer apenas um bocejo: acho que é motivo de grande inquietação.
No último sábado, a revista organizou uma série de artigos sobre homossexualidade. Incluiu declarações de Miguel Vale Almeida, com destaque para a frase: "Achei muito cedo que tinha todo o direito a ser homossexual."
Que há nisso de extraordinário, perguntará quem está a ler. À primeira vista nada, porque felizmente vivemos num lugar e num tempo em que é reconhecido a cada um o direito de viver a afectividade de acordo com o que sente por dentro e não segundo uma imposição social. Em segunda leitura, no entanto, chama-me a atenção a falta de rigor implícita ao omitir-se que um direito só existe ligado a um lugar e a um tempo. É útil e importante afirmar os direitos e lutar por eles mesmo quando parecem apenas utopias, mas na ausência de determinadas condições de evolução social eles permanecem isso mesmo - utopias. A bem da clareza, o Professor de Antropologia poderia ter dito: "Pude afirmar-me homossexual desde muito cedo porque tive a sorte de nascer na Europa ocidental, na segunda metade do século 20." Bem sabemos que continua a haver incompreensões, intolerâncias e até perseguições por parte de alguns grupos, mas o certo é que, exceptuados casos pontuais, a referida "afirmação" não envolve riscos significativos.
O autor da frase sabe muito bem que ela seria completamente desprovida de sentido se o lugar e o tempo fossem os da URSS, Cuba, certos países africanos, ou países muçulmanos nos nossos dias (o que se passou há uma semana no Irão é elucidativo)...
Na Europa, ou, se quisermos ser mais abrangentes, no "ocidente", onde a herança clássica e cristã moldou a civilização que porventura mais respeita o indivíduo (além de permitir acesso a bens materiais a uma larga maioria da população) é possível, felizmente, afirmar características pessoais que noutros sítios podem valer uma sentença de morte. Trata-se de uma circunstância, entre muitas, que deveriam ser suficientes para alinharmos na defesa do nosso modelo - mesmo que possamos reconhecer-lhe imperfeições e erros - em vez de o subestimarmos pela óptica multiculturalista em voga.
Só para dar um outro pequeno exemplo: em que outro mundo seria possível fazer carreira profissional investigando sobre género, sexualidade e corpo? Também aqui o lugar e o tempo não são indiferentes. Foram as universidades dos países anglo-saxónicos, de resto, que conferiram estatuto científico a tais matérias...
Estas omissões não me parecem inocentes. Elas são condicionadas por preconceitos ideológicos que se traduzem em atitudes políticas nocivas. Cada cidadão é livre de se posicionar ao lado das forças que criticam a necessidade da luta contra terroristas que pretendem transformar todo o mundo num imenso pesadelo islâmico; se o faz é porque desvaloriza completamente a ameaça. Paradoxalmente, a nossa sociedade gerou em si o melhor aliado do seu inimigo mais mortal: um aliado que até lhe fabrica argumentos. A Al-Qaeda forjou e tirou espectacular partido do 11 de Março não por Aznar ter apoiado a invasão do Iraque, mas principalmente porque no dia 14 ia a votos um grande partido que defendia posições que os terroristas souberam comprar e capitalizar como suas. Ao fazer o jogo do inimigo, colocamo-nos na sua mira.
Também por isso discordo do Professor por a candidatura de Soares lhe merecer apenas um bocejo: acho que é motivo de grande inquietação.
domingo, julho 24
Acho que eles não estão a ver o problema
Com o país à beira da falência e a arder, e com o mundo à volta mergulhado em incerteza e insegurança, eles acham que o problema é que X esteja disponível para enfrentar Y, ou que Z venha afirmar o seu apoio a W. Como se as suas figurinhas é que determinassem o jogo. Têm um grande ego estes políticos. Os jornais e as rádios e tvs alimentam-nos. Ou lhes está a escapar alguma coisa a eles, ou me está a escapar a mim.
Cegueiras
Este ano passou o 30º aniversário da proclamação da República Democrática do Cambodja por Pol Pot. Nos quatro anos que se seguiram, o regime de terror que se instalou foi aniquilando metodicamente a população do país, que reduziu de praticamente 1/4.
O anti-americanismo era então galopante na Europa, particularmente em resultado da guerra do Vietname. Apesar dos testemunhos do horror, a imprensa saudou e apoiou o déspota e calou o genocídio. A universidade e alguns dos seus gurus, ainda hoje muito apreciados em certos meios políticos, deram o seu contributo para uma visão distorcida que se impôs durante mais tempo do que seria razoável, se uma cegueira colectiva não tivesse atacado em força as elites bem pensantes da Europa e também da América.
Hoje, as nossas rádios e jornais falam frequentemente de "resistentes" quando referem os grupos de criminosos que se dedicam a fazer ir pelos ares os seus próprios compatriotas no Iraque.
O anti-americanismo era então galopante na Europa, particularmente em resultado da guerra do Vietname. Apesar dos testemunhos do horror, a imprensa saudou e apoiou o déspota e calou o genocídio. A universidade e alguns dos seus gurus, ainda hoje muito apreciados em certos meios políticos, deram o seu contributo para uma visão distorcida que se impôs durante mais tempo do que seria razoável, se uma cegueira colectiva não tivesse atacado em força as elites bem pensantes da Europa e também da América.
Hoje, as nossas rádios e jornais falam frequentemente de "resistentes" quando referem os grupos de criminosos que se dedicam a fazer ir pelos ares os seus próprios compatriotas no Iraque.
quinta-feira, julho 21
falta de tempo entrevista Luarinda Elvas
Praí uns 20% dos leitores deste blog, isto é, 6, já terão notado que uma das nossas embirrações de estimação é a Xis, que somos obrigados a comprar com o PÚBLICO ao sábado. Andávamos por isso há muito tempo a tentar obter uma entrevista imaginária com a directora. Finalmente aconteceu.
FT: Luarinda, pode explicar ao FT como teve a ideia de pôr em causa o mito da importância da beleza física na felicidade e no sucesso?
LE: É todo um projecto de renovação editorial que temos em vista. Quer nos artigos de fundo quer nos que dedicamos aos cuidados com o sol e a pele vamos passar a valorizar a beleza interior, utilizando fotografias de gente bonita por dentro, apenas. Já abrimos concurso de casting.
FT: Isso é interessante.
LE: Sim, é um conceito totalmente novo que vai ter impacto noutras áreas. A produção de novelas para a TVI já nos comprou a ideia. A próxima telenovela já vai ser filmada com aparelhos de raios X em vez do vídeo convencional.
FT: Adiante. Que comentário faz sobre os boatos de que é a própria Luarinda que escreve as cartas das leitoras?
LE: É verdade. Eu costumo fazer tudo. Costumo escrever inclusivamente a coluna do Dr Çampaio, que por troca escreve o editorial.
FT: Não me diga que também escreveu o prefácio do Prof. Morcela para o seu livro.
LE: Por acaso escrevi. O que ele escreveu foi o livro, mas achou que era mais prestigiante aparecer como prefaciador, e o editor apoiou a ideia.
FT: Que nos vão proporcionar os próximos números da Xis?
LE: Além de muitas fotos de pulmões, colunas vertebrais e ilíacos, vamos incluir várias ecografias renais e prostáticas trans-rectais. Teremos um dossiê organizado pela Dra Ana Conivente sobre o ensino da auto-estima desde o 1º ciclo do básico, com a proposta de que as crianças aproveitem o recreio para lavar carros na área escola.
Não sei se fui clara.
FT: Como a luz do dia, Luarinda. Quer deixar alguma mensagem para os leitores do FT?
LE: Eu tenho tempo para tudo, tal como o Dr Çampaio e o Prof. Morcela. Por isso não tenho nada a dizer.
FT: Luarinda, pode explicar ao FT como teve a ideia de pôr em causa o mito da importância da beleza física na felicidade e no sucesso?
LE: É todo um projecto de renovação editorial que temos em vista. Quer nos artigos de fundo quer nos que dedicamos aos cuidados com o sol e a pele vamos passar a valorizar a beleza interior, utilizando fotografias de gente bonita por dentro, apenas. Já abrimos concurso de casting.
FT: Isso é interessante.
LE: Sim, é um conceito totalmente novo que vai ter impacto noutras áreas. A produção de novelas para a TVI já nos comprou a ideia. A próxima telenovela já vai ser filmada com aparelhos de raios X em vez do vídeo convencional.
FT: Adiante. Que comentário faz sobre os boatos de que é a própria Luarinda que escreve as cartas das leitoras?
LE: É verdade. Eu costumo fazer tudo. Costumo escrever inclusivamente a coluna do Dr Çampaio, que por troca escreve o editorial.
FT: Não me diga que também escreveu o prefácio do Prof. Morcela para o seu livro.
LE: Por acaso escrevi. O que ele escreveu foi o livro, mas achou que era mais prestigiante aparecer como prefaciador, e o editor apoiou a ideia.
FT: Que nos vão proporcionar os próximos números da Xis?
LE: Além de muitas fotos de pulmões, colunas vertebrais e ilíacos, vamos incluir várias ecografias renais e prostáticas trans-rectais. Teremos um dossiê organizado pela Dra Ana Conivente sobre o ensino da auto-estima desde o 1º ciclo do básico, com a proposta de que as crianças aproveitem o recreio para lavar carros na área escola.
Não sei se fui clara.
FT: Como a luz do dia, Luarinda. Quer deixar alguma mensagem para os leitores do FT?
LE: Eu tenho tempo para tudo, tal como o Dr Çampaio e o Prof. Morcela. Por isso não tenho nada a dizer.
quarta-feira, julho 20
Canção sobre a morte das crianças
Nun will die Sonn' so hell aufgeh'n
Als sei kein Ungluck die Nacht gesche'n.
Das Ungluck geschah nur mir allein;
Die Sonne, sie scheinet allgemein!
O sol acorda agora, brilhante
Como se a tragédia da noite não tivesse acontecido.
A tragédia caiu apenas sobre mim
Mas o sol continua a brilhar para todos!
Als sei kein Ungluck die Nacht gesche'n.
Das Ungluck geschah nur mir allein;
Die Sonne, sie scheinet allgemein!
O sol acorda agora, brilhante
Como se a tragédia da noite não tivesse acontecido.
A tragédia caiu apenas sobre mim
Mas o sol continua a brilhar para todos!
terça-feira, julho 19
domingo, julho 17
Deslocalização do medo
Pronto, já fui ver a Guerra dos Mundos. Resultado: Spielberg vai ser riscado da minha lista de favoritos. O texto inicial narrado por Morgan Freeman parece a antecâmara de uma cerimónia que se descobre não existir. Por muito competente que seja a produção de alguns efeitos especiais, o desastre do argumento afunda o projecto. Mais importante do que isso, o filme é vítima da deslocalização do medo no mundo e no tempo em que vivemos. O realizador não previu que os efeitos devastadores da realidade iriam transformar a sua fabricazinha de terror num brinquedo inocente. Como se os onzes de setembro e março não bastassem, King's Road, em 7 de Julho, dias depois da estreia do filme, veio tornar irrisórios os trípodes comilões que parecem saídos de um saldo de material concebido para um filme série B nos anos 80 ou 90. Em contraste com o medo que nos gela em 2005, Spielberg serve-nos maquinaria de pechisbeque e destruição apoiada no espalhafato do dolby digital 5.1.
sábado, julho 16
Ciência de noticiário
-Rotação de 360 graus no modo como encaramos o excesso de peso é a notícia de abertura deste jornal. Temos em directo o Dr. Gerónimo Maldade, que coordenou o estudo a que nos referimos, para nos ajudar a compreender em que medida peso e gordura estão relacionados de uma maneira inesperada na população portuguesa. Dr Maldade bom dia,
-Bom dia,
-Quer então falar-nos das conclusões principais do seu estudo?
-Bem, este estudo envolveu vários investigadores e técnicos do nosso instituto, que trabalham há mais de dois anos na observação e análise de dados de uma amostra muito significativa da população portuguesa e dos Açores. A conclusão mais relevante é que, ao contrário do que o senso comum poderia fazer crer, o peso dos indivíduos varia na proporção inversa da sua gordura. Por exemplo, mais de 83% de indivíduos com perímetro de cintura superior a 130cm apresentam peso inferior a 59kg.
-Não se observaram variações dependentes de sexo ou idade?
-Posso garantir-lhe categoricamente que não. Esta correlação inversa é absolutamente transversal. Temos agora a certeza de que é uma característica genética nacional.
-Tem alguma interpretação teórica para este resultado tão surpreendente?
-Estamos a elaborar fundamentos para uma explicação. Não entro em detalhes de natureza técnica que seria complicado expor aqui, mas posso avançar que o facto parece estar relacionado com o excesso de auto-estima.
-Como assim?
-Assim mesmo: demasiada atenção dada ao automóvel e menos exercício físico acarretam rarefacção e aumento de porosidade dos tecidos.
-E como se poderá explicar que as coisas tenham até agora sido percebidas completamente às avessas?
-Temos outra teoria para isso e estamos a trabalhar nela. Há experiências que revelam anomalias no modo como percebemos e interpretamos dados numéricos. Estamos convencidos de que o caso do défice terá uma explicação análoga.
-Obrigado, Dr Maldade. 6,72 incêndios continuam a consumir floresta, vamos actualizar as informações, Esteves Caramelo.
-Bom dia,
-Quer então falar-nos das conclusões principais do seu estudo?
-Bem, este estudo envolveu vários investigadores e técnicos do nosso instituto, que trabalham há mais de dois anos na observação e análise de dados de uma amostra muito significativa da população portuguesa e dos Açores. A conclusão mais relevante é que, ao contrário do que o senso comum poderia fazer crer, o peso dos indivíduos varia na proporção inversa da sua gordura. Por exemplo, mais de 83% de indivíduos com perímetro de cintura superior a 130cm apresentam peso inferior a 59kg.
-Não se observaram variações dependentes de sexo ou idade?
-Posso garantir-lhe categoricamente que não. Esta correlação inversa é absolutamente transversal. Temos agora a certeza de que é uma característica genética nacional.
-Tem alguma interpretação teórica para este resultado tão surpreendente?
-Estamos a elaborar fundamentos para uma explicação. Não entro em detalhes de natureza técnica que seria complicado expor aqui, mas posso avançar que o facto parece estar relacionado com o excesso de auto-estima.
-Como assim?
-Assim mesmo: demasiada atenção dada ao automóvel e menos exercício físico acarretam rarefacção e aumento de porosidade dos tecidos.
-E como se poderá explicar que as coisas tenham até agora sido percebidas completamente às avessas?
-Temos outra teoria para isso e estamos a trabalhar nela. Há experiências que revelam anomalias no modo como percebemos e interpretamos dados numéricos. Estamos convencidos de que o caso do défice terá uma explicação análoga.
-Obrigado, Dr Maldade. 6,72 incêndios continuam a consumir floresta, vamos actualizar as informações, Esteves Caramelo.
Mau desempenho em português
Como se não bastasse já a humilhação nacional que constitui a divulgação de maus resultados nos exames de matemática, temos ainda de aguentar o mau português com que o fenómeno costuma ser descrito, nas rádios e nos jornais. Expressões como "más notas a matemática" não são correctas: a preposição a só está verdadeiramente bem empregue quando seguida por um verbo. Experimente-se comparar com uma frase menos caída na rotina, como "o tipo é mau a futebol", para observar que o uso da proposição em é que seria correcto.
As meninas que escrevem sobre educação no PÚBLICO repetem sistematicamente este pequeno erro. Na edição de hoje lá se encontra: "o mau desempenho dos alunos a esta disciplina..."
As meninas que escrevem sobre educação no PÚBLICO repetem sistematicamente este pequeno erro. Na edição de hoje lá se encontra: "o mau desempenho dos alunos a esta disciplina..."
sexta-feira, julho 15
Seis vírgula nove
Não entremos em pânico: não é o défice revisto em alta nem aproximado a décimas. É a média do exame nacional de matemática do 12º ano.
quinta-feira, julho 14
Os desastres da matemática
Os desastres a que se tem feito referência em relação com resultados de exames de matemática não têm nada de extraordinário. Pelo contrário, eram perfeitamente previsíveis.
Tanto quanto podemos inferir pelo enunciado do teste, que, de acordo com a insuspeita APM, respeita o espírito do programa, se os alunos tivessem adquirido os conhecimentos que supostamente lhes terão sido transmitidos até ao 9º ano, não assistiríamos, ano após ano, aos outros desastres a que estamos habituados: alta taxa de abandono no 10º ano e más notas no exame do 12º ano para aqueles que conseguem lá chegar.
Ao efeito pernicioso das ideologias pedagógicas que campeiam no nosso ensino desde há uns 30 anos, é preciso adicionar o carácter pouco sério da avaliação constituída por estes exames (apesar de constituirem já um passo ousado! ao que chegámos). Se eles tivessem uma importância comparável aos do 12º ano, por um lado os professores teriam um maior empenho em cumprir os programas, e por outro os alunos teriam maior motivação para se prepararem.
Os apóstolos das modernas ideologias pedagógicas, os tais que se exprimem em eduquês ( e que têm prudentemente "baixado a bola" perante a dimensão do desastre) não vão desistir. Preparemo-nos para as suas justificações: eles vão começar a dizer que se as coisas correram mal é porque as medidas que preconizavam não chegaram a ser efectivamente postas em prática, por falta de apoio de todos e mais alguém. É só esperar.
NOTA. Não é demais sublinhar o escândalo de vir essa obscura organização com o nome inacreditável de instituto da inteligência (mas de onde esta parece ausente) impingir uma "explicação" genética para o desastre. Pensem só no burburinho que se levantaria se em vez da raça portuguesa fosse a raça negra o objecto do "estudo". E meios de comunicação, habitualmente tão politicamente correctos, debitam e calam.
Tanto quanto podemos inferir pelo enunciado do teste, que, de acordo com a insuspeita APM, respeita o espírito do programa, se os alunos tivessem adquirido os conhecimentos que supostamente lhes terão sido transmitidos até ao 9º ano, não assistiríamos, ano após ano, aos outros desastres a que estamos habituados: alta taxa de abandono no 10º ano e más notas no exame do 12º ano para aqueles que conseguem lá chegar.
Ao efeito pernicioso das ideologias pedagógicas que campeiam no nosso ensino desde há uns 30 anos, é preciso adicionar o carácter pouco sério da avaliação constituída por estes exames (apesar de constituirem já um passo ousado! ao que chegámos). Se eles tivessem uma importância comparável aos do 12º ano, por um lado os professores teriam um maior empenho em cumprir os programas, e por outro os alunos teriam maior motivação para se prepararem.
Os apóstolos das modernas ideologias pedagógicas, os tais que se exprimem em eduquês ( e que têm prudentemente "baixado a bola" perante a dimensão do desastre) não vão desistir. Preparemo-nos para as suas justificações: eles vão começar a dizer que se as coisas correram mal é porque as medidas que preconizavam não chegaram a ser efectivamente postas em prática, por falta de apoio de todos e mais alguém. É só esperar.
NOTA. Não é demais sublinhar o escândalo de vir essa obscura organização com o nome inacreditável de instituto da inteligência (mas de onde esta parece ausente) impingir uma "explicação" genética para o desastre. Pensem só no burburinho que se levantaria se em vez da raça portuguesa fosse a raça negra o objecto do "estudo". E meios de comunicação, habitualmente tão politicamente correctos, debitam e calam.
sábado, julho 9
"Então os órgãos de soberania podem fazer greve?"
Uma das perguntas que deixei aqui é repetida, hoje, no PÚBLICO, por Jorge Miranda.
Teatrinho radiofónico (com homenagem a Saramago)
Investimentos Loucos bom dia, Bom dia, era por causa de um pedido novo, Então que proposta de investimento nos traz, É pouca coisa, queria um aeroporto novo para Lisboa, Um aeroporto novo, então o velho já não lhe serve, Não, prevejo que vou ficar saturado dele até 2010, Ah, pois, caprichos seus, e é só isso, Bem, se fosse possível queria também um TGV para ir passar os fins de semana a Vigo, Então, mas tem uma autoestrada tão boa, Pois, mas o trânsito em Vigo dá-me cabo da cabeça, detesto levar o carro, Estou a ver, outro capricho, vamos então ao questionário propriamente dito, o seu nome, Tertuliano Minimáximo, Profissão, Primeiro ministro, Ah, bem me parecia que reconhecia o seu tom de voz, mas o seu nome não é esse, Como sabe, eu nunca disse até quando o outro nome seria válido, e estou em condições de prometer que manterei este até ao fim deste ano, Temos aí um problema, só aceitamos propostas cujo titular mantenha o nome durante pelo menos 18 meses, Não está a perceber, daqui a 18 meses já não vou querer nada disto.
PS: A rádio portuguesa é, de um modo geral, tão desinteressante, que alguns spots publicitários estão entre o melhor que lá se ouve. A sério.
PS: A rádio portuguesa é, de um modo geral, tão desinteressante, que alguns spots publicitários estão entre o melhor que lá se ouve. A sério.
sexta-feira, julho 8
Quiz
(com a vénia ao ARMAVIRUMQUE)
Below are assembled nine quotes taken from two sources. The first source is the press office of Nazi Germany with statements issued on June 22, 1940 upon the surrender of France to Axis powers. The second source is the press office of The Secret Organization of al-Qaida in Europe with statements issued on July 7, 2005 upon the terror attacks on the transportation system of London. Take this quiz and see if you can tell the difference between these two organizations (answers below):
1) "There is only one remaining foe to world peace ... and that is the naked and brutal power politics of Britain. Of this the peace-loving nations of the world are fully aware."
2) "We warned the British government and the British people repeatedly."
3) "The time has come for vengeance against the Zionist crusader government of Britain in response to the massacres Britain committed."
4) "It is now the business of Europe to liquidate the running war that England ... [has] been waging."
5) "Our aim is to achieve a genuine and lasting peace."
6) "We continue to warn the governments of Denmark ... and all crusader governments that they will receive the same punishment if they do not withdraw their troops."
7) "All of Europe emerges a victor."
8) "Rejoice, Islamic nation. Rejoice, Arab world."
9) "We thank our Fuehrer."
ANSWERS: 1) Nazis, 2) Islamicists, 3) Islamicists, 4) Nazis, 5) Nazis, 6) Islamicists, 7) Nazis, 8) Islamicists, 9) Nazis.
So, who still thinks we defeated Fascism fifty years ago?
Below are assembled nine quotes taken from two sources. The first source is the press office of Nazi Germany with statements issued on June 22, 1940 upon the surrender of France to Axis powers. The second source is the press office of The Secret Organization of al-Qaida in Europe with statements issued on July 7, 2005 upon the terror attacks on the transportation system of London. Take this quiz and see if you can tell the difference between these two organizations (answers below):
1) "There is only one remaining foe to world peace ... and that is the naked and brutal power politics of Britain. Of this the peace-loving nations of the world are fully aware."
2) "We warned the British government and the British people repeatedly."
3) "The time has come for vengeance against the Zionist crusader government of Britain in response to the massacres Britain committed."
4) "It is now the business of Europe to liquidate the running war that England ... [has] been waging."
5) "Our aim is to achieve a genuine and lasting peace."
6) "We continue to warn the governments of Denmark ... and all crusader governments that they will receive the same punishment if they do not withdraw their troops."
7) "All of Europe emerges a victor."
8) "Rejoice, Islamic nation. Rejoice, Arab world."
9) "We thank our Fuehrer."
ANSWERS: 1) Nazis, 2) Islamicists, 3) Islamicists, 4) Nazis, 5) Nazis, 6) Islamicists, 7) Nazis, 8) Islamicists, 9) Nazis.
So, who still thinks we defeated Fascism fifty years ago?
quinta-feira, julho 7
terça-feira, julho 5
segunda-feira, julho 4
Estética e bom senso

O pavilhão temporário de Vieira e Moura para a galeria Serpentine, mostrado ontem num jornal de tv, parece aliar qualidade estética e funcionalidade. A elegante e luminosa cadeira de Rietveld é um exemplo simples de criação de beleza aliada a um objecto utilitário.
Infelizmente, nem sempre as obras dos arquitectos aliam arte e bom senso. Quando trabalham para o patrão sem rosto das obras públicas podem dar largas ao desprezo pelos futuros utilizadores. Daí, por exemplo, o enorme desconforto que espera os passageiros da belíssima estação do oriente. E também o incómodo, na instituição onde trabalho, de ter de percorrer enormes distâncias entre um determinado edifício e outros, por terem sido colocados muros cuja única função é não permitir a utilização do caminho mais curto, sem benefício estético. E ainda (já disse isto noutro sítio, mas não me canso de desabafar sobre o assunto) o enorme desrespeito pelos passageiros do metro de Lisboa, que nas estações mais recentes são obrigados a um percurso absurdo entre as carruagens e a zona de bilheteira.
domingo, julho 3
falta de tempo
Com os rendimentos de classe média desafogada podem comprar-se livros, discos, gravadores para ensacar os filmes favoritos. Com as ocupações profissionais a crescer desenfreadamente, o que é verdadeiramente difícil é ter a disponibilidade para ler, ouvir e ver. E nem na classe alta há a possibilidade de comprar tempo.
sexta-feira, julho 1
Verbo assumido
Uma breve reflexão para continuar a que iniciei aqui a respeito dos curiosos usos de um verbo português. Agora estou a pensar no modo não reflexo. Repare-se como o dito verbo tem um significado obviamente mais assumido em usos como
"meter atestado", "meter um artigo 4º" (não sei se ainda existe), "meter uma cunha, "Se continuam a chatear-me vou mas é meter baixa."
"meter atestado", "meter um artigo 4º" (não sei se ainda existe), "meter uma cunha, "Se continuam a chatear-me vou mas é meter baixa."
domingo, junho 26
Perguntas
Nos tempos heróicos em que havia classe operária a greve era um meio de pressão sobre a entidade patronal. Prejudicar a produção levaria os patrões a negociar.
Nas democracias modernas, a greve foi transformada num direito regido por leis. Na situação portuguesa do presente a greve é uma instituição claramente doente: na prática só é utilizada pelos trabalhadores que vivem directamente do orçamento do estado. Por conseguinte o sentido que a greve tem como confronto com a entidade patronal fica pervertido. Essa entidade é demasiado abstracta para que o confronto com ela seja a sério. O confronto é com os outros cidadãos, sejam eles utentes de escolas, transportes, hospitais ou repartições públicas. Normalmente são os mais pobres que saem prejudicados, a não ser em casos como o que poderia ter sido a greve aos exames: aí "comeriam" todos pela mesma medida (grande).
As iniciativas de greve dos sindicatos beneficiam, ainda assim, de uma ampla dose de simpatia entre as populações, como se vê pelo facto de estas tolerarem razoavelmente os profundos incómodos causados. Mas este estado de tolerância pode ser desequilibrado pela insistência em atitudes afrontosas e de claro desprezo por quem é a razão de ser do trabalho de um grupo profissional (caso dos exames...). Ainda mais quando o cidadão comum, menos privilegiado em termos de situação laboral que os do dito grupo, encara as reivindicações subjacentes ao protesto como manifestação de arrogância e futilidade.
Parece que a próxima investida, já anunciada por diversas vezes, é a dos juizes e magistrados. O protesto tem como motivo a questão dos dois meses de férias. Mas o que mais me choca neste caso está muito para além da circunstancial futilidade. Eu não compreendo como é que um órgão de soberania pode fazer greve. Então os juizes e magistrados não são independentes? Não respondem apenas perante eles próprios? Não estão ao mesmo nível que o Governo, a Assembleia da República e o Presidente da República? Os membros do Governo e da Assembleia também poderão um dia organizar-se em sindicatos e embarcar em greves? A quem se dirigirá então a ameaça de confronto?
Nas democracias modernas, a greve foi transformada num direito regido por leis. Na situação portuguesa do presente a greve é uma instituição claramente doente: na prática só é utilizada pelos trabalhadores que vivem directamente do orçamento do estado. Por conseguinte o sentido que a greve tem como confronto com a entidade patronal fica pervertido. Essa entidade é demasiado abstracta para que o confronto com ela seja a sério. O confronto é com os outros cidadãos, sejam eles utentes de escolas, transportes, hospitais ou repartições públicas. Normalmente são os mais pobres que saem prejudicados, a não ser em casos como o que poderia ter sido a greve aos exames: aí "comeriam" todos pela mesma medida (grande).
As iniciativas de greve dos sindicatos beneficiam, ainda assim, de uma ampla dose de simpatia entre as populações, como se vê pelo facto de estas tolerarem razoavelmente os profundos incómodos causados. Mas este estado de tolerância pode ser desequilibrado pela insistência em atitudes afrontosas e de claro desprezo por quem é a razão de ser do trabalho de um grupo profissional (caso dos exames...). Ainda mais quando o cidadão comum, menos privilegiado em termos de situação laboral que os do dito grupo, encara as reivindicações subjacentes ao protesto como manifestação de arrogância e futilidade.
Parece que a próxima investida, já anunciada por diversas vezes, é a dos juizes e magistrados. O protesto tem como motivo a questão dos dois meses de férias. Mas o que mais me choca neste caso está muito para além da circunstancial futilidade. Eu não compreendo como é que um órgão de soberania pode fazer greve. Então os juizes e magistrados não são independentes? Não respondem apenas perante eles próprios? Não estão ao mesmo nível que o Governo, a Assembleia da República e o Presidente da República? Os membros do Governo e da Assembleia também poderão um dia organizar-se em sindicatos e embarcar em greves? A quem se dirigirá então a ameaça de confronto?
sábado, junho 25
Verbo expiatório
Uma das peculiaridades que mais me fascina no uso corrente da língua portuguesa é a riqueza de significado que o verbo "meter" adquire quando conjugado na forma reflexa. Exemplos:
"Eu bem gostaria de lhe dar o documento pronto na semana que vem, mas olhe que mete-se o carnaval."
"Tanto que eu precisava de fazer uma grande arrumação lá em casa, mas agora mete-se o natal e claro que não vou conseguir."
"Olhe que o sr doutor na quinta feira não tem consulta e a seguir metem-se os feriados. Pode ser para o fim do mês?"
"Eu posso ir lá fazer o orçamento, mas olhe que agora mete-se o verão e se calhar só lhe consigo ter isso pronto em setembro."
Como já todos viram, a palavrinha é aplicável a todo o tipo de actividades, das mais públicas às mais privadas, e parece tão nossa como pensamos que a saudade o é. Aquele singelo "se", afastando o sujeito da acção para bem longe de quem a (não) pratica, é um milagre da linguagem que transfere culpas, que nos deixa tranquilos ao justificar o adiamento do que urge fazer.
"Eu bem gostaria de lhe dar o documento pronto na semana que vem, mas olhe que mete-se o carnaval."
"Tanto que eu precisava de fazer uma grande arrumação lá em casa, mas agora mete-se o natal e claro que não vou conseguir."
"Olhe que o sr doutor na quinta feira não tem consulta e a seguir metem-se os feriados. Pode ser para o fim do mês?"
"Eu posso ir lá fazer o orçamento, mas olhe que agora mete-se o verão e se calhar só lhe consigo ter isso pronto em setembro."
Como já todos viram, a palavrinha é aplicável a todo o tipo de actividades, das mais públicas às mais privadas, e parece tão nossa como pensamos que a saudade o é. Aquele singelo "se", afastando o sujeito da acção para bem longe de quem a (não) pratica, é um milagre da linguagem que transfere culpas, que nos deixa tranquilos ao justificar o adiamento do que urge fazer.
sexta-feira, junho 24
Visionária
Ana Drago sustenta, segundo o PÚBLICO de hoje, que o arrastão se reduziu a um bando de jovens a fugir da polícia e que, das 400 ou 500 pessoas referenciadas, apenas 30 ou 40 terão praticado delitos. Ana Drago "esquece" que os delitos são facilitados pela retaguarda constituída pelos outros 360 ou 460. Assim, ganha sentido a minha proposta para enfrentar este tipo de problemas...
domingo, junho 19
A respeito do post anterior...
...aqui encontram-se respostas parciais a algumas questões que levantei.
Lata e agit prop
Sindicatos de professores apelam a uma greve (de professores e educadores) nos próximos dias, pelo que a realização de vários exames nacionais poderá ser afectada. Sindicatos de juizes e magistrados (!!!), mencionam a possibilidade de uma greve que poderá afectar a constituição formal de listas para as autárquicas (o que poderia até ser um subproduto positivo). Queixam-se de trabalharem mais horas do que as que lhes são exigidas.
Juizes são juizes e professores são professores. As responsabilidades são distintas. Mas as reivindicações despropositadas são comuns. Ainda recentemente professores se queixavam do acréscimo de trabalho representado pela correcção dos exames!
Por acaso ficamos também a saber hoje, através do PÚBLICO, que este ano, nas escolas do 3º ciclo, os professores se esforçaram por cumprir os programas porque há exames nacionais. E que, no Tribunal Constitucional, um documento de jurisprudência de uma (1) página demorou mais de dois anos a ser produzido.
Para falar de um grupo profissional com conhecimento de causa, consideremos o caso dos professores universitários. O cumprimento das várias funções que deles se esperam exige, obviamente, muitas horas de trabalho para além das que passam nas aulas ou nos seus gabinetes. Exige frequentemente a ocupação de fins de semana, feriados, pontes e férias. Mas, dado o salário que auferem, seria imoral que se limitassem ao cumprimento burocrático de um horário de presença. (Claro que estou a escrever em abstracto; sei bem que há professores em certas faculdades que nem se preocupam em ter disponibilidade para atendimento e orientação de estudantes.) Os profissionais pagos pelo orçamento de estado, com estatutos mais ou menos privilegiados e salários por vezes muito distanciados do que recebe o trabalhador português médio, deviam ter pudor em falar de horários exigentes e em pronunciar a palavra greve.
Os jornais, rádios e tvs costumam ter uma atitude comodista ao abordar as reivindicações destas e outras classes sacrificadas. Seria interessante, embora raramente ou apenas ao de leve isso seja aflorado, confrontar o caso português com o de outros países europeus: quantos destes ou daqueles profissionais existem em relação com o número de habitantes? como se acede à carreira ou a escalões superiores ou como é avaliado o desempenho? como se comparam os valores do salário? Talvez houvesse algumas surpresas no confronto com estes dados. Talvez a vulgata dos coitadinhos e mal pagos ficasse comprometida. Ou não. Mas seria interessante conhecer.
No caso dos professores, até compreendo a frustração de muitos cujos planos de reforma estão agora gravemente comprometidos. Mas a sua ira e surpresa perante as medidas de Sócrates não abona muito a favor das "competências" (como muitos gostam de dizer) que supostamente deveriam ter para compreender e interpretar sinais no mundo em que vivem.
Juizes são juizes e professores são professores. As responsabilidades são distintas. Mas as reivindicações despropositadas são comuns. Ainda recentemente professores se queixavam do acréscimo de trabalho representado pela correcção dos exames!
Por acaso ficamos também a saber hoje, através do PÚBLICO, que este ano, nas escolas do 3º ciclo, os professores se esforçaram por cumprir os programas porque há exames nacionais. E que, no Tribunal Constitucional, um documento de jurisprudência de uma (1) página demorou mais de dois anos a ser produzido.
Para falar de um grupo profissional com conhecimento de causa, consideremos o caso dos professores universitários. O cumprimento das várias funções que deles se esperam exige, obviamente, muitas horas de trabalho para além das que passam nas aulas ou nos seus gabinetes. Exige frequentemente a ocupação de fins de semana, feriados, pontes e férias. Mas, dado o salário que auferem, seria imoral que se limitassem ao cumprimento burocrático de um horário de presença. (Claro que estou a escrever em abstracto; sei bem que há professores em certas faculdades que nem se preocupam em ter disponibilidade para atendimento e orientação de estudantes.) Os profissionais pagos pelo orçamento de estado, com estatutos mais ou menos privilegiados e salários por vezes muito distanciados do que recebe o trabalhador português médio, deviam ter pudor em falar de horários exigentes e em pronunciar a palavra greve.
Os jornais, rádios e tvs costumam ter uma atitude comodista ao abordar as reivindicações destas e outras classes sacrificadas. Seria interessante, embora raramente ou apenas ao de leve isso seja aflorado, confrontar o caso português com o de outros países europeus: quantos destes ou daqueles profissionais existem em relação com o número de habitantes? como se acede à carreira ou a escalões superiores ou como é avaliado o desempenho? como se comparam os valores do salário? Talvez houvesse algumas surpresas no confronto com estes dados. Talvez a vulgata dos coitadinhos e mal pagos ficasse comprometida. Ou não. Mas seria interessante conhecer.
No caso dos professores, até compreendo a frustração de muitos cujos planos de reforma estão agora gravemente comprometidos. Mas a sua ira e surpresa perante as medidas de Sócrates não abona muito a favor das "competências" (como muitos gostam de dizer) que supostamente deveriam ter para compreender e interpretar sinais no mundo em que vivem.
quarta-feira, junho 15
Entoações
Há já alguns anos que a entoação dos locutores de rádio, ao fazer a leitura de noticiários, me chama a atenção. Não consigo definir com precisão quando se operou a mudança: há quinze anos, talvez? Refiro-me a uma forma de entoar, de colocar uma "música" e a pontuação, ao longo das frases, que se tornou uniforme e previsível, com muito poucas excepções. O fenómeno denuncia, provavelmente, a existência de um padrão no ensino do jornalismo, que deve ter tido uma explosão em anos recentes. Isto é ainda mais conspícuo na leitura de comentários aos pequenos filmes que ilustram notícias nos jornais da televisão. Aí, a música é invariavelmente a mesma, com uma estranha combinação de notas no final das frases. O público provavelmente nem se aperceberá disso, dado que a repetição transforma o insólito em norma. Suspeito de que a entoação que nos servem foi aprendida por imitação dos locutores britânicos (ouçam a bbc e a skynews e comparem). Julgo que o tipo de entoação que resulta em inglês não é o melhor para a língua portuguesa.
É claro que fenómenos deste tipo tendem a passar despercebidos. É curioso observar uma banalização semelhante, na entoação do discurso falado, em declarações públicas dos políticos. Com atenção, podemos até detectar que estes tendem a adquirir e a repetir a entoação característica do leader. Isso foi muito evidente no PCP, quando ouvíamos na boca de outros dirigentes não só o discurso, mas também a música, de Cunhal. Ainda há vestígios desse modo de colocar a voz em Jerónimo de Sousa. No PS, também muitos se exprimiam com a música de Soares. Os exemplos podem ser multiplicados fora da política. Claro que, de vez em quando, surgem excepções. Poderemos conjecturar inúmeras razões para que a entoação do discurso de uma dada figura política não seja objecto de imitação. Eu dou três exemplos de uma música própria que não tem seguidores: Santana, Portas, Sócrates.
Um caso também interessante é o do teatro, do cinema, ou da ficção na tv. Muita gente pode achar, por exemplo, que nas novelas brasileiras os actores falam de uma maneira "natural". Ora, eles falam é todos da mesma maneira: fechando os olhos, nem os distinguimos. Isso denuncia a existência de uma escola de actores que é levada muito a sério, e que tende a uniformizar o desempenho. O mesmo sucedia no cinema clássico americano e o mesmo sucede no actual. Com o poder de indústrias massificadoras, a imposição às palavras de determinadas "músicas" leva-nos a confundir o artificial com o espontâneo. No limite, a ilusão torna-se realidade: talvez no discurso da nossa "vida real" já imitemos, inconscientemente, o que ouvimos na tv e no cinema.
É claro que fenómenos deste tipo tendem a passar despercebidos. É curioso observar uma banalização semelhante, na entoação do discurso falado, em declarações públicas dos políticos. Com atenção, podemos até detectar que estes tendem a adquirir e a repetir a entoação característica do leader. Isso foi muito evidente no PCP, quando ouvíamos na boca de outros dirigentes não só o discurso, mas também a música, de Cunhal. Ainda há vestígios desse modo de colocar a voz em Jerónimo de Sousa. No PS, também muitos se exprimiam com a música de Soares. Os exemplos podem ser multiplicados fora da política. Claro que, de vez em quando, surgem excepções. Poderemos conjecturar inúmeras razões para que a entoação do discurso de uma dada figura política não seja objecto de imitação. Eu dou três exemplos de uma música própria que não tem seguidores: Santana, Portas, Sócrates.
Um caso também interessante é o do teatro, do cinema, ou da ficção na tv. Muita gente pode achar, por exemplo, que nas novelas brasileiras os actores falam de uma maneira "natural". Ora, eles falam é todos da mesma maneira: fechando os olhos, nem os distinguimos. Isso denuncia a existência de uma escola de actores que é levada muito a sério, e que tende a uniformizar o desempenho. O mesmo sucedia no cinema clássico americano e o mesmo sucede no actual. Com o poder de indústrias massificadoras, a imposição às palavras de determinadas "músicas" leva-nos a confundir o artificial com o espontâneo. No limite, a ilusão torna-se realidade: talvez no discurso da nossa "vida real" já imitemos, inconscientemente, o que ouvimos na tv e no cinema.
A morte e a tv
A uma pessoa sem forte notoriedade pública é poupada pelo menos uma angústia: a de imaginar, quando a morte se sabe próxima, os homens da tv a vasculhar a sua vida nos arquivos para terem os documentários prontos a sair em cima do momento...
sábado, junho 11
sexta-feira, junho 10
junho,10
João Botelho? Joaquim Leitão? Catarina Furtado? Fátima Campos Ferreira? Luís Represas?
Quem a torto e a direito agracia
o valor das graças deprecia.
Quem a torto e a direito agracia
o valor das graças deprecia.
quinta-feira, junho 9
Monstruosidades
Na galeria de monstros do passado recente, Hitler e Estaline não estão sós. Não é novidade nenhuma. Mas parece ser interessante o livro Mao: The Unknown Story de Jung Chang e Jon Halliday, acabado de sair: talvez ainda haja aspectos da actuação deste ditador que são capazes de nos surpreender. Uma recensão do livro está aqui. Nela se recorda, em particular, uma faceta bem conhecida do terror instaurado por Mao, o incitamento à crítica, auto-crítica e delacção: The use of terror typified Mao's rule. Although he had his equivalent of the KGB, Mao's distinctive form of terror was to get people to use it against each other. This was the model that he perfected in Yenan, when everybody was coerced into the exercise of criticism and self-criticism by which they were forced to confess and implicate each other in terrible "wrongs". It was a method that was then extended to the whole of China, as people were confined to their work units in the cities and their villages in the countryside.
terça-feira, junho 7
Pequenos anúncios II
Parece que a coisa não é assim tão irrelevante. À atenção de Jorge Coelho, caso não consiga espremer suficientemente as seguradoras e os bancos.
domingo, junho 5
Pequenos anúncios
Os anúncios comerciais não parecem ser uma componente de grande peso no nosso principal diário de referência. No entanto, folhear as páginas de pequenos anúncios no caderno LOCAL não deixa de provocar alguma estranheza. Uma boa parte dos anúncios tem a ver com instituições ligadas ao estado (justiça, universidades...). A fatia dos comerciais propriamente dita tem, com poucas excepções (uma delas é a de clínicas espanholas onde se faz IVG), duas áreas dominantes: o imobiliário e a prostituição. Do imobiliário já sabemos que é a grande vocação do sector produtivo português: até ver, não parece ameaçado pela concorrência chinesa. Quanto aos anúncios "relax", não é a sua presença que surpreende, mas sim a quota com que figuram. Se as páginas de anúncios do dito jornal fossem representivas das tendências da oferta e procura de trabalho em Portugal, a conclusão seria deprimente. Este fenómeno não tem a ver com o actual clima de "crise": que eu me lembre, é assim já há anos. Nos últimos tempos noto, no entanto, uma alteração qualitativa nos tais anúncios de relax, para a qual não tenho interpretação. Desapareceram as senhoras "licenciadas" ou "universitárias"; agora são apenas "sensuais" ou "charmosas" ou simplesmente "lindas". Outra novidade é que uma empresa espanhola entrou recentemente no negócio, utilizando mensagens sms de contornos obscuros.
É claro que, mudando de jornal, as coisas mudam. Por exemplo, poderemos também encontrar anúncios de bruxos e videntes com grande destaque.
Se calhar nada disto é muito interessante. Mas não deixa de me intrigar.
É claro que, mudando de jornal, as coisas mudam. Por exemplo, poderemos também encontrar anúncios de bruxos e videntes com grande destaque.
Se calhar nada disto é muito interessante. Mas não deixa de me intrigar.
quarta-feira, junho 1
Ilustração exemplar...
...da última frase que eu tinha escrito neste post: artigos para um workshop universitário sobre papel higiénico e retretes, precisam-se (via The Guest of Time)
sexta-feira, maio 27
O défice é um número complexo!!!
Assistindo ao espectáculo que nos tem sido servido nos últimos dias e a tudo o que observadores colocados em diferentes ângulos já comentaram, há que dar espaço à hipótese de que se trata de uma encenação de alto calibre técnico. Refiro-me, claro, como o título faz prever, aos episódios de apresentação do famoso défice, das medidas que aí vêm para o ultrapassar (por excesso ou defeito, não é claro para já) e o que mais se verá, porque é também óbvio que ainda não vimos tudo. A milimétrica e paciente temporização da acção alimenta a minha convicção de que tudo foi desenhado com um cuidado extremo.
Ontem à noite, na SIC Notícias, Medina Carreira disse literalmente que todos os actores em cena, até ao momento, nos andam a mentir. Para me sossegar, dou já um salto em frente e imagino que, sendo o espectáculo em cena tão subtil, o número de Medina Carreira poderia estar previsto como parte da peça. (E eu não sou nada adepto de teorias de conspiração.) Mas logo fico novamente inquieto, porque então este número só poderia servir de intermezzo para anúncios ainda mais estarrecedores. O melhor é não pensar mais nisto.
(A partir daqui a habilitação mínima para ler o post é o 12º ano de matemática.) Uma coisa, apesar de tudo, é certa: ninguém mais me convencerá, daqui em diante, de que o défice é um número real. Eu aceito que a temperatura de um local ou a hora de partida de um comboio sejam representadas por por números reais; mas acho que, a bem da transparência, o défice deveria passar a ser expresso como um número complexo - isso mesmo, com uma parte real e outra imaginária. Se a comissão que fez o cálculo tivesse anunciado que o défice para 2005 é, por exemplo, 5,01+1,82i, penso que o caso seria muito menos controverso. Mais: suspeito de que a encenação pode ir ao ponto de isto mesmo ter sido descoberto pela comissão, e ser a verdadeira causa da surpresa de Sócrates (um engenheiro sabe muito bem a diferença entre os dois tipos de números). O Presidente nem fala sobre o assunto porque, como ele próprio já informou, a matemática não é o seu forte.
Ontem à noite, na SIC Notícias, Medina Carreira disse literalmente que todos os actores em cena, até ao momento, nos andam a mentir. Para me sossegar, dou já um salto em frente e imagino que, sendo o espectáculo em cena tão subtil, o número de Medina Carreira poderia estar previsto como parte da peça. (E eu não sou nada adepto de teorias de conspiração.) Mas logo fico novamente inquieto, porque então este número só poderia servir de intermezzo para anúncios ainda mais estarrecedores. O melhor é não pensar mais nisto.
(A partir daqui a habilitação mínima para ler o post é o 12º ano de matemática.) Uma coisa, apesar de tudo, é certa: ninguém mais me convencerá, daqui em diante, de que o défice é um número real. Eu aceito que a temperatura de um local ou a hora de partida de um comboio sejam representadas por por números reais; mas acho que, a bem da transparência, o défice deveria passar a ser expresso como um número complexo - isso mesmo, com uma parte real e outra imaginária. Se a comissão que fez o cálculo tivesse anunciado que o défice para 2005 é, por exemplo, 5,01+1,82i, penso que o caso seria muito menos controverso. Mais: suspeito de que a encenação pode ir ao ponto de isto mesmo ter sido descoberto pela comissão, e ser a verdadeira causa da surpresa de Sócrates (um engenheiro sabe muito bem a diferença entre os dois tipos de números). O Presidente nem fala sobre o assunto porque, como ele próprio já informou, a matemática não é o seu forte.
domingo, maio 22
Eles já estão aqui.
Não sendo um fã da Guerra das Estrelas (na realidade, não gostei nem do primeiro filme) resta-me esperar pela dos Mundos: eles já estão aqui.
Crueldade
Num anúncio que começou a passar há uns dias nos canais de tv, e que tem como alvo a prevenção e tratamento da obesidade infantil, é mostrado um miúdo chamado Luís, mas que apenas é reconhecido com a designação de "o gordo". O filmezinho tem certamente belíssimas intenções mas parece-me profundamente cruel: as pessoas que pretende atingir são crianças, culpabilizando-as por uma situação que não resultou, certamente, de uma escolha consciente e que pode até, em alguns casos, ter causas independentes da vontade própria. É quase como vir a público amesquinhar os coxos ou os estrábicos.
Surpreende-me que ainda não se tenham feito ouvir as vozes dos que clamam contra os possíveis efeitos negativos de determinadas práticas que me parecem muito menos aviltantes: por exemplo, avaliar os conhecimentos, na escola, classificar os alunos de uma forma honesta, ou proceder a sanções de tipo disciplinar, é hoje visto como como podendo afectar gravemente a "auto-estima" (dizia-se "amor próprio" antes da invasão de papers especializados que criaram o novo jargão técnico de pendor anglicista). Será distracção ou vem aí uma nova época de pesadelo? Os gordos já são suficientemente humilhados pela galhofa dos colegas de turma e pelos vizinhos de rua. Não era preciso que a tv viesse sublinhar o desprezo a que já são votados.
Compreende-se que os "responsáveis" queiram salvar as criancinhas: a obesidade pode trazer consigo sérios dissabores e até riscos de saúde ao longo da vida. Chegar ao fim de um ciclo escolar sem aproveitamento também pode acarretar grandes aborrecimentos no futuro. Por este andar, corre-se o risco de, através da televisão, vir insultar os meninos que reprovam. Bolas! Espero que acabem por reconhecer que é preferível afixar uma má nota na privacidade da vitrina da escola, do que vir chamar burras às crianças no intervalo do telejornal.
Surpreende-me que ainda não se tenham feito ouvir as vozes dos que clamam contra os possíveis efeitos negativos de determinadas práticas que me parecem muito menos aviltantes: por exemplo, avaliar os conhecimentos, na escola, classificar os alunos de uma forma honesta, ou proceder a sanções de tipo disciplinar, é hoje visto como como podendo afectar gravemente a "auto-estima" (dizia-se "amor próprio" antes da invasão de papers especializados que criaram o novo jargão técnico de pendor anglicista). Será distracção ou vem aí uma nova época de pesadelo? Os gordos já são suficientemente humilhados pela galhofa dos colegas de turma e pelos vizinhos de rua. Não era preciso que a tv viesse sublinhar o desprezo a que já são votados.
Compreende-se que os "responsáveis" queiram salvar as criancinhas: a obesidade pode trazer consigo sérios dissabores e até riscos de saúde ao longo da vida. Chegar ao fim de um ciclo escolar sem aproveitamento também pode acarretar grandes aborrecimentos no futuro. Por este andar, corre-se o risco de, através da televisão, vir insultar os meninos que reprovam. Bolas! Espero que acabem por reconhecer que é preferível afixar uma má nota na privacidade da vitrina da escola, do que vir chamar burras às crianças no intervalo do telejornal.
sexta-feira, maio 20
Sobressalto II
No PÚBLICO de hoje lê-se que o Ministério da Educação garante que não há qualquer programa curricular de educação sexual (e.s.). É preciso lata! Pagam a iluminados para elaborar as orientações para o assunto, imprimem um livro com as ditas orientações para a e.s., distribuem-no pelas escolas... que diferença há entre isto e um programa? (Também poderíamos dizer que não há programa de matemática para o secundário, porque o que há é tão vago e defeituoso que foi necessário complementá-lo com toda uma série de textos explicativos...)
De resto, o site do Júlio Machado Vaz confirma no essencial o teor das notícias sobre este caso ridículo. O livro, se não é manual destinado às futuras aulas de educação sexual, "pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação..."
Pobres crianças, querem estragar-lhes o prazer de descobrir a vida e possivelmente reduzir a masturbação a um trabalho de casa... Está tudo doido. E o pior é que muita gente não dá por isso.
De resto, o site do Júlio Machado Vaz confirma no essencial o teor das notícias sobre este caso ridículo. O livro, se não é manual destinado às futuras aulas de educação sexual, "pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação..."
Pobres crianças, querem estragar-lhes o prazer de descobrir a vida e possivelmente reduzir a masturbação a um trabalho de casa... Está tudo doido. E o pior é que muita gente não dá por isso.
quarta-feira, maio 18
Sobressalto no encino aprendisajem
De acordo com algumas notícias recentes, o programa e os manuais de "educação sexual" estão a levantar algum escândalo e alarme.
Os factos relatados nessas notícias só poderão constituir surpresa para quem não esteja habituado a sofrer calafrios ao ler programas e manuais de outras disciplinas. O caso presente é apenas mais susceptível de inquietar os pais das crianças-cobaias desta "educação", porque toca ou pretende tocar (ao que parece, literalmente...) em zonas muito sensíveis que podem ter a ver com a formação da personalidade.
Ora, tendo presente que nem quando se trata de definir o que é razoável ensinar em Matemática no secundário (uma matéria mais que consolidada e que deveria ser mais ou menos consensual) o nosso ministério da educação consegue produzir um programa decente - influenciando pela negativa, à partida, os autores de manuais - como poderia esperar-se que viesse a produzir um programa razoável de educação sexual, matéria infinitamente mais controversa?
Parece que até há nomes sonantes de psicólogos da nossa aldeia associados `a iniciativa, o que não deve deixar-nos descansados sobre a qualidade da sua prática.
A raiz do problema é fácil de identificar: consiste na ideia peregrina, que grupos de pressão têm conseguido fazer passar com sucesso, de que tudo o que há para aprender na vida é ensinável na escola. As próprias universidades colaboram no embuste com frequência, legitimando com a concessão dos mais altos graus académicos o discurso dos arautos de certos novos "saberes" e atribuindo o estatuto de "ciência" a conhecimentos de almanaque.
Os factos relatados nessas notícias só poderão constituir surpresa para quem não esteja habituado a sofrer calafrios ao ler programas e manuais de outras disciplinas. O caso presente é apenas mais susceptível de inquietar os pais das crianças-cobaias desta "educação", porque toca ou pretende tocar (ao que parece, literalmente...) em zonas muito sensíveis que podem ter a ver com a formação da personalidade.
Ora, tendo presente que nem quando se trata de definir o que é razoável ensinar em Matemática no secundário (uma matéria mais que consolidada e que deveria ser mais ou menos consensual) o nosso ministério da educação consegue produzir um programa decente - influenciando pela negativa, à partida, os autores de manuais - como poderia esperar-se que viesse a produzir um programa razoável de educação sexual, matéria infinitamente mais controversa?
Parece que até há nomes sonantes de psicólogos da nossa aldeia associados `a iniciativa, o que não deve deixar-nos descansados sobre a qualidade da sua prática.
A raiz do problema é fácil de identificar: consiste na ideia peregrina, que grupos de pressão têm conseguido fazer passar com sucesso, de que tudo o que há para aprender na vida é ensinável na escola. As próprias universidades colaboram no embuste com frequência, legitimando com a concessão dos mais altos graus académicos o discurso dos arautos de certos novos "saberes" e atribuindo o estatuto de "ciência" a conhecimentos de almanaque.
sábado, maio 14
Fantasmas
Tem havido abundante e justificada indignação com a frase de um obscuro pároco a propósito da morte da menina maltratada por pai e avó. A declaração vem apenas confirmar que estupidez, insensibilidade e falta de bom senso foram por Deus distribuídas em doses ilimitadas. Os media martelaram-nos com o acontecimento todo um dia e os comentários estender-se-ão por mais algum tempo (este é mais um).
Ainda bem que surgiram críticas de todos os lados, até mesmo de vozes bem colocadas na Igreja portuguesa. Esta rejeição unânime mostra, afinal, que o episódio não tem a importância que lhe parece ter sido atribuída, circunstância provavelmente comum a muitos outros nos tempos que correm: uma rádio põe a boca no trombone com o volume no máximo e lá temos acontecimento.
Mais interessante do que esta "notícia" triste e doentia será a consideração das razões da sua insignificância. A mais importante, no meu entender, é que, se há forças que ameaçam a nossa liberdade e o modo de vida tal como os entendemos adquiridos, a Igreja Católica não é uma delas. Se podemos falar de um fundamentalismo cristão na sociedade "ocidental", ele não passa de uma excrecência quase marginal e sem credibilidade. A própria Igreja Católica tem hoje sobre os "crentes" uma autoridade pouco mais que simbólica. Abolido o Inferno e tendo-se verificado que o paraíso é na Terra (descoberta a pílula e os antibióticos, e viciados no consumo dos brinquedos electrónicos, é-nos difícil conceber um grau superior de bem estar e felicidade) a doutrina é, mesmo para os que se dizem católicos, apenas uma referência sem pressões incluídas. Há, é claro, um Vaticano, pode haver um papa com um desempenho de relevo na cena política internacional, mas não esqueçamos que, ao mesmo tempo, as mais altas instâncias políticas da Europa não reconhecem o papel civilizador do cristianismo na evolução que conduziu ao presente que somos.
Por estas mesmas razões não compreendo o clamor de receios registado com a recente eleição do papa. Estamos distraídos com fantasmas do passado e desvalorizamos ameaças bem mais reais.
Ainda bem que surgiram críticas de todos os lados, até mesmo de vozes bem colocadas na Igreja portuguesa. Esta rejeição unânime mostra, afinal, que o episódio não tem a importância que lhe parece ter sido atribuída, circunstância provavelmente comum a muitos outros nos tempos que correm: uma rádio põe a boca no trombone com o volume no máximo e lá temos acontecimento.
Mais interessante do que esta "notícia" triste e doentia será a consideração das razões da sua insignificância. A mais importante, no meu entender, é que, se há forças que ameaçam a nossa liberdade e o modo de vida tal como os entendemos adquiridos, a Igreja Católica não é uma delas. Se podemos falar de um fundamentalismo cristão na sociedade "ocidental", ele não passa de uma excrecência quase marginal e sem credibilidade. A própria Igreja Católica tem hoje sobre os "crentes" uma autoridade pouco mais que simbólica. Abolido o Inferno e tendo-se verificado que o paraíso é na Terra (descoberta a pílula e os antibióticos, e viciados no consumo dos brinquedos electrónicos, é-nos difícil conceber um grau superior de bem estar e felicidade) a doutrina é, mesmo para os que se dizem católicos, apenas uma referência sem pressões incluídas. Há, é claro, um Vaticano, pode haver um papa com um desempenho de relevo na cena política internacional, mas não esqueçamos que, ao mesmo tempo, as mais altas instâncias políticas da Europa não reconhecem o papel civilizador do cristianismo na evolução que conduziu ao presente que somos.
Por estas mesmas razões não compreendo o clamor de receios registado com a recente eleição do papa. Estamos distraídos com fantasmas do passado e desvalorizamos ameaças bem mais reais.
Obfuscação
A ministra da Educação afinal pensa que os exames (do 9ºano) são importantes tanto para puxar pelos alunos como pelos professores. Vem no PÚBLICO de hoje. Por isso não vai suspendê-los. Mas o que é certo é que ainda há cerca de um mês anunciou intenção de acabar com esses exames a partir do próximo ano lectivo. Se calhar por achar que são inúteis ou nocivos. Parece que agora não acha. Ou há alguma coisa que me está a escapar? Ou cometo à partida o erro de tentar perceber? Que obfuscação (proponho este neologismo para substituir o desgastado trapalhada).
terça-feira, maio 10
Prurido musical
Este domingo, no PÚBLICO, o opinador musical Augusto M. Seabra dava-nos conta da sua impolutez ideológica criticando a programação pelo São Carlos, para o passado dia 8, de uma récita dos Carmina Burana. Confessou ele ter-se deslocado a Sintra, a um recital evocativo dos 60 anos do fim do Holocausto, com obras clandestinas no tempo do nazismo.
Não tenho dúvida de que a escolha do São Carlos é duplamente infeliz: por fazer coincidir o acontecimento com o aniversário que sabemos, mas também porque há muito mais música, para além da de Orff, em que seria útil investir. Os Carmina Burana não precisam de que o São Carlos os programe: empresários privados já os superproduziram duas vezes no Pavilhão Atlântico, certamente de casa cheia. (O opinador confia-nos, de resto, que não pôs, nem tenciona pôr, os pés em recinto algum onde se encene a dita obra. Eu também não: tenho duas boas versões em disco que oiço em casa em melhores condições.)
Os Carmina Burana, de Orff, constituem uma peça musical de grande inspiração, exaltante, certamente epidérmica, mas fascinante. Suspeito de que, em tempos recentes, já pôs mais gente a tomar atenção à música "clássica" (à falta de melhor uso este termo) do que sinfonias de Beethoven ou árias de Verdi. Os programadores do Pavilhão Atlântico não brincam em serviço. Uma instituição como o São Carlos tem obrigação de ser mais selectiva.
Os Carmina Burana estão mais do que integrados no nosso tempo. Quase uma dúzia de edições discográficas de altíssima qualidade, com intérpretes de grande prestígio, legitimaram a pertença da obra ao património cultural que fruimos sem complexos. A possibilidade de Orff ter andado próximo da órbita nazi é já irrelevante para o efeito.
O crítico e opinador confundiu o alvo. A questão que devia ter posto era a da necessidade de o São Carlos se ocupar de música já tão batida e com sucesso comercial. Os Carmina Burana são bons para fazer um intervalo entre a espiritualidade de Bach, a graça absoluta de Mozart ou Cole Porter e a profundidade de Mahler ou Shostakovich. Não têm estatuto que justifique o prurido ideológico em 2005.
De resto, a música vale o que vale, mas ainda bem que alguém arrancou aquela sequência de notas de onde quer que ela estivesse a aguardar o parto e a luz.
Não tenho dúvida de que a escolha do São Carlos é duplamente infeliz: por fazer coincidir o acontecimento com o aniversário que sabemos, mas também porque há muito mais música, para além da de Orff, em que seria útil investir. Os Carmina Burana não precisam de que o São Carlos os programe: empresários privados já os superproduziram duas vezes no Pavilhão Atlântico, certamente de casa cheia. (O opinador confia-nos, de resto, que não pôs, nem tenciona pôr, os pés em recinto algum onde se encene a dita obra. Eu também não: tenho duas boas versões em disco que oiço em casa em melhores condições.)
Os Carmina Burana, de Orff, constituem uma peça musical de grande inspiração, exaltante, certamente epidérmica, mas fascinante. Suspeito de que, em tempos recentes, já pôs mais gente a tomar atenção à música "clássica" (à falta de melhor uso este termo) do que sinfonias de Beethoven ou árias de Verdi. Os programadores do Pavilhão Atlântico não brincam em serviço. Uma instituição como o São Carlos tem obrigação de ser mais selectiva.
Os Carmina Burana estão mais do que integrados no nosso tempo. Quase uma dúzia de edições discográficas de altíssima qualidade, com intérpretes de grande prestígio, legitimaram a pertença da obra ao património cultural que fruimos sem complexos. A possibilidade de Orff ter andado próximo da órbita nazi é já irrelevante para o efeito.
O crítico e opinador confundiu o alvo. A questão que devia ter posto era a da necessidade de o São Carlos se ocupar de música já tão batida e com sucesso comercial. Os Carmina Burana são bons para fazer um intervalo entre a espiritualidade de Bach, a graça absoluta de Mozart ou Cole Porter e a profundidade de Mahler ou Shostakovich. Não têm estatuto que justifique o prurido ideológico em 2005.
De resto, a música vale o que vale, mas ainda bem que alguém arrancou aquela sequência de notas de onde quer que ela estivesse a aguardar o parto e a luz.
sábado, maio 7
Tanto por tão pouco
Em face dos testemunhos de intenso júbilo que o coro dos vizinhos e as reportagens de tv me trazem, como aconteceu há dois dias e nas horas seguintes, não posso deixar de me sentir apreensivo e invejoso. Digo isto a sério, não quero que os meus 6 leitores pensem que é snobice. Vários jovens adultos declaravam na tv que estavam a sentir a maior alegria das suas vidas. Isto dá que pensar: tanta felicidade a tão baixo custo! Creio que não é preciso fazer mais do que sofrer duas horas em frente da tv e ter fé no clube ou algo assim. E tão intensa felicidade pode ser atingível mesmo que o resultado não seja uma vitória no jogo em causa - basta que contribua, pela aritmética das regras, para passar a uma etapa seguinte em boa posição.
A minha apreensão e inveja decorrem de uma manifesta insensibilidade, contra a qual nada posso fazer, a toda esta alegria. Claro que não estou só: tenho a certeza de que somos uma imensa minoria de prejudicados. É-nos negada a partilha da felicidade suprema (a julgar pelas descrições que ouvi).
O fenómeno do futebol tem interessado psicólogos, sociólogos e antropólogos, mas as suas metáforas pleonásticas não me tranquilizam. O que é preciso estudar é a anomalia de comportamento que consiste nesta frieza perante os sucessos(?) desportivos, que veda uma imensa fonte de prazer a milhões (atrevo-me a arriscar) de seres humanos. Espero que a genética entre em cena para detectar a verdadeira causa desta disfunção e, claro, para propor uma cura de que eu possa ainda beneficiar.
A minha apreensão e inveja decorrem de uma manifesta insensibilidade, contra a qual nada posso fazer, a toda esta alegria. Claro que não estou só: tenho a certeza de que somos uma imensa minoria de prejudicados. É-nos negada a partilha da felicidade suprema (a julgar pelas descrições que ouvi).
O fenómeno do futebol tem interessado psicólogos, sociólogos e antropólogos, mas as suas metáforas pleonásticas não me tranquilizam. O que é preciso estudar é a anomalia de comportamento que consiste nesta frieza perante os sucessos(?) desportivos, que veda uma imensa fonte de prazer a milhões (atrevo-me a arriscar) de seres humanos. Espero que a genética entre em cena para detectar a verdadeira causa desta disfunção e, claro, para propor uma cura de que eu possa ainda beneficiar.
quinta-feira, maio 5
Uma questão de estética
O actual Presidente da República está em funções há m anos e antes disso foi presidente da câmara de Lisboa n anos. Durante estes m+n anos construiu-se freneticamente em todos os bocadinhos de terreno onde cabia uma escavadora, até se chegar à situação em que existe praticamente o dobro dos apartamentos de habitação necessários à população que temos. O sistema desequilibrou a economia, canalizando o endividamento para um consumo não produtivo, ao mesmo tempo que empurrava as pessoas para emigrarem cá dentro, dos centros das cidades para as periferias manhosas. Financiam-se assim as autarquias, os bancos (já que o imobiliário assumiu o papel de canalizador de poupanças) e, claro está, os construtores. É claro que estes não tinham que estar preocupados com as condições de vida decorrentes das tristes urbanizações que os deixavam fazer. Na própria cidade de Lisboa, ainda assim um paraiso comparado com certos tenebrosos subúrbios, investiu-se pesadamente numa rede de metro que, resolvendo alguns problemas, deixa muitos outros sem solução; as linhas novas colocaram estações intermédias em áreas alvo de construção e sem segurança. Em zonas centrais, rasgaram-se estradas (não ruas), não tendo passado pela cabeça de nenhum responsável o gesto simpático de prever a sua utilização por peões. A cidade tornou-se propriedade dos carros e perigosa fora das horas de ponta.
Vir clamar contra a situação depois da casa arrombada, ainda por cima numa operação do tipo relâmpago mediático para esquecer na semana seguinte, não me parece que seja a função do PR. Ele devia salvaguardar a dignidade das suas funções recusando estes reality shows. Até por uma questão de estética.
Vir clamar contra a situação depois da casa arrombada, ainda por cima numa operação do tipo relâmpago mediático para esquecer na semana seguinte, não me parece que seja a função do PR. Ele devia salvaguardar a dignidade das suas funções recusando estes reality shows. Até por uma questão de estética.
quarta-feira, maio 4
A excepção
Não é original fazer a obervação de que a inveja é uma característica nacional. A inveja do sucesso material ou financeiro, ou simplesmente de um salário chorudo, impregna o pequeno mundo português, manifestando-se em todas as classes sociais. É mascarada pela aversão ao lucro, bem aceite por tudo o que se crê bem pensante, e convive bem com a aversão ao risco dentro de regras de jogo limpas, que também é muito nossa.
Há, no entanto uma excepção. Não recordo sinais de inveja relativamente ao mundo do futebol e às suas personagens fabulosas (neste momento estou a lembrar-me de Mourinho). Não há animosidade em relação aos nossos conterrâneos bem sucedidos no futebol, mesmo que ganhem rios de dinheiro, e ainda bem. A excepção pode atenuar os efeitos venenosos do pecado mortal.
A mesma excepção explica que, a par de censuras frequentes à camada difusa de ricos e empresários que escapam aos impostos, estejamos sempre prontos a esquecer as dívidas quando se trata dos clubes, eventualmente disfarçadas de dívidas da "liga" ou outra invenção dessas. A possibilidade de pôr em risco uma temporada de futebol lançar-nos-ia numa depressão que faria com que a seca, a estagnação económica ou o índice de desemprego parecessem brincadeiras irrelevantes.
Há, no entanto uma excepção. Não recordo sinais de inveja relativamente ao mundo do futebol e às suas personagens fabulosas (neste momento estou a lembrar-me de Mourinho). Não há animosidade em relação aos nossos conterrâneos bem sucedidos no futebol, mesmo que ganhem rios de dinheiro, e ainda bem. A excepção pode atenuar os efeitos venenosos do pecado mortal.
A mesma excepção explica que, a par de censuras frequentes à camada difusa de ricos e empresários que escapam aos impostos, estejamos sempre prontos a esquecer as dívidas quando se trata dos clubes, eventualmente disfarçadas de dívidas da "liga" ou outra invenção dessas. A possibilidade de pôr em risco uma temporada de futebol lançar-nos-ia numa depressão que faria com que a seca, a estagnação económica ou o índice de desemprego parecessem brincadeiras irrelevantes.
domingo, maio 1
Domingo no PÚBLICO
Destaques: António Barreto sobre a China. Razões a favor de exames nacionais, pelo leitor Jorge Carreira Maia. Entrevista com Paul Auster, atormentado com o "momento negro" e o "fundamentalismo cristão" na América.
A PÚBLICA é um produto de notável qualidade no âmbito das revistas light. Funciona talvez como lenitivo pela humilhação que nos infligem ao sábado ao termos que comprar a execrável XIS juntamente com o jornal. Entre outros temas interessantes, inclui hoje um artigo-entrevista com António Nóvoa à volta da história da educação em Portugal e da publicação mais recente deste investigador.
A PÚBLICA é um produto de notável qualidade no âmbito das revistas light. Funciona talvez como lenitivo pela humilhação que nos infligem ao sábado ao termos que comprar a execrável XIS juntamente com o jornal. Entre outros temas interessantes, inclui hoje um artigo-entrevista com António Nóvoa à volta da história da educação em Portugal e da publicação mais recente deste investigador.
sábado, abril 30
Matemática ainda
O Governo mostrou nos últimos dias intenções de actuar e mudar coisas. Os campos de intervenção escolhidos foram o do ensino da matemática (curiosa peculiaridade nacional) e o da justiça. Não me considero suficientemente dentro do assunto para comentar as medidas anunciadas para a justiça, embora me pareçam coisas pequenas que talvez não justifiquem o destaque que lhes foi dado. Em relação aos problemas com a matemática, sou um observador melhor posicionado. Por isso mantenho uma reserva pessimista até ver o que se vai passar de concreto. As iniciativas prometidas podem ser positivas, mas quando vão produzir efeitos? É bom saber que a ministra está preocupada com a formação dos professores do 1º ciclo do básico em funções. Mas estou curioso de saber duas coisas: a primeira é em que moldes e com que programas vai ser feita a formação; a segunda é como vão ser os professores no activo motivados (forçados?) a frequentar essa formação.
Nas acções em vista irão ser envolvidos departamentos de matemática universitários e outras instituições: tudo bem, mas tratando-se de acções ad hoc que requerem um desenho próprio, quantas discussões serão necessárias antes de as coisas poderem arrancar? Haverá a coragem de confiar a leccionação a professores do secundário ou 3º ciclo escolhidos de acordo com a sua competência científica e pedagógica?
E irá o resultado dessas acções ser aferido por avaliação credível, e terá esse resultado consequências nas carreiras de onde, como se sabe, é quase impossível arredar alguém? (Convém não esquecer que de acções de formação tem andado este inferno cheio há décadas.) Por outras palavras, receio que estas medidas, que seria importante terem reflexos a curto prazo, possam vir a reduzir-se a um modelo gasto e praticamente inútil. E, sabendo-se como nos últimos dez anos os ministérios da educação (PSD, PS) têm vindo a publicar textos inacreditáveis a que chamam "programas de matemática oficiais" (refiro-me aos do secundário) é pertinente ter dúvidas sobre o que nos espera.
Depois há ainda a considerar que nem a mobilização dos professores vai estar garantida: apesar de haver muitos com horário zero ou reduzidos, os sindicatos já tiveram a lata de vir mencionar que não há condições para pôr em prática alguns dos objectivos...
Não quero dizer que não se avance com estas medidas. Espero que venham a ser realizadas com o sucesso possível. Mas julgo que seria muito mais eficiente, no curto prazo, dar um sinal de rigor mantendo os exames externos no 9º ano e não anunciando a sua extinção.
NOTA. O Bom Senso observa, com razão (a propósito do inquérito sobre a tabuada, na sic) que saber matemática é muito mais do que saber a tabuada. Mas desconhecer em alto grau a tabuada não ajuda muito a avançar no estudo da disciplina. É importante criar familiaridade com os números, a sua ordem de grandeza e as relações entre eles. É igualmente importante desenvolver a capacidade de utilizar automatismos que acabam por nos economizar tempo ao elaborar raciocínios complexos. As ideologias pedagógicas em moda têm desvalorizado muito estes aspectos na aprendizagem, com resultados negativos evidentes.
Nas acções em vista irão ser envolvidos departamentos de matemática universitários e outras instituições: tudo bem, mas tratando-se de acções ad hoc que requerem um desenho próprio, quantas discussões serão necessárias antes de as coisas poderem arrancar? Haverá a coragem de confiar a leccionação a professores do secundário ou 3º ciclo escolhidos de acordo com a sua competência científica e pedagógica?
E irá o resultado dessas acções ser aferido por avaliação credível, e terá esse resultado consequências nas carreiras de onde, como se sabe, é quase impossível arredar alguém? (Convém não esquecer que de acções de formação tem andado este inferno cheio há décadas.) Por outras palavras, receio que estas medidas, que seria importante terem reflexos a curto prazo, possam vir a reduzir-se a um modelo gasto e praticamente inútil. E, sabendo-se como nos últimos dez anos os ministérios da educação (PSD, PS) têm vindo a publicar textos inacreditáveis a que chamam "programas de matemática oficiais" (refiro-me aos do secundário) é pertinente ter dúvidas sobre o que nos espera.
Depois há ainda a considerar que nem a mobilização dos professores vai estar garantida: apesar de haver muitos com horário zero ou reduzidos, os sindicatos já tiveram a lata de vir mencionar que não há condições para pôr em prática alguns dos objectivos...
Não quero dizer que não se avance com estas medidas. Espero que venham a ser realizadas com o sucesso possível. Mas julgo que seria muito mais eficiente, no curto prazo, dar um sinal de rigor mantendo os exames externos no 9º ano e não anunciando a sua extinção.
NOTA. O Bom Senso observa, com razão (a propósito do inquérito sobre a tabuada, na sic) que saber matemática é muito mais do que saber a tabuada. Mas desconhecer em alto grau a tabuada não ajuda muito a avançar no estudo da disciplina. É importante criar familiaridade com os números, a sua ordem de grandeza e as relações entre eles. É igualmente importante desenvolver a capacidade de utilizar automatismos que acabam por nos economizar tempo ao elaborar raciocínios complexos. As ideologias pedagógicas em moda têm desvalorizado muito estes aspectos na aprendizagem, com resultados negativos evidentes.
quarta-feira, abril 27
Matemática II
Ouvi há pouco a ministra da educação na SIC. Das medidas a que se referiu há uma que me parece fazer sentido: melhorar a formação de professores do ensino básico (1º ciclo) que, como é sabido, podem estar a ensinar sem ter tido formação em matemática. Parece que tenciona confiar a tarefa às ESEs. Não sei se a ministra está a par da ideologia pedagógica que impregna uma parte considerável das ESEs e, consequentemente, da possibilidade bem real de, após levada a cabo a iniciativa, as massas estudantis continuarem a entupir quando lhes perguntam quanto é 6x7, 6x8 ou 6 ao quadrado (como a SIC mostrou, há pouco mais de uma hora).
A Matemática só nos dá preocupações
A ministra que acha que os exames no 3º ciclo do básico são uma coisa execrável, e por isso devem ser extintos, está preocupada com as más prestações dos alunos em Matemática. Para isso, propõe uma série de medidas originalíssimas. De modo também originalíssimo, a presidente da Associação de Professores de Matemática vem dizer que está de acordo, mas.
segunda-feira, abril 25
Livros e leituras
O O.N. (Prozacland) desafiou-me a responder a um inquérito que, como me apercebi, tem circulado na net nas últimas semanas. Eu não consigo responder porque acho que a primeira pergunta está mal formulada, e a partir daí creio que tudo perde o sentido. Mas, sem ser uma resposta, posso dizer que o último livro que li foi o Traité des Excitants Modernes de Balzac. E o penúltimo foi a Memória das Putas Tristes do... vocês sabem quem. E o antepenúltimo foi Un Amour de Jeanne de Michel Ragon. De momento entretenho-me com os textos de El Lenguaje de la Pasión, de Vargas Llosa (2000). E quando olho para a pilha de livros em fila de espera hesito sempre entre iniciar um novo ou reler um daqueles que me surpreenderam ou maravilharam. Até agora a escolha tem sido quase sempre a primeira, mas também é verdade que não têm sido poucas as leituras que deixo incompletas: umas vezes porque decididamente a qualidade não satisfaz, mas em grande parte dos casos porque me apercebo de que "já li aquilo noutro lugar" - no sentido em que intuo que prosseguir a leitura não me vai proporcionar prazeres novos. E, sendo sabido que tenho falta de tempo, sou obrigado a economizar este mais escasso dos bens.
Haverá vida inteligente no Instituto da Inteligência?
(via Blasfémias, link ao lado:) Esta curiosa notícia suscita dúvidas muito pertinentes. Os progressos na educação vão dar passos de gigante, dizem eles! Presunção e água benta...
quarta-feira, abril 13
A ANTENA 2
A Antena 2 é um luxo. Uma estação de rádio que emite sobretudo música de qualidade 24 horaspor dia! (Com os acontecimentos deprimentes do dia, como as manifestações de estudantes amestrados, não tenho outro remédio senão pensar em coisas insignificantes como a Antena 2.) Dizia eu que nem sabemos dar o verdadeiro valor ao tesouro que é a A2 e que nos dão de bandeja. Bom, mas nem tudo é exactamente assim bom, preto no branco. É que além da música há por lá umas pessoas que falam! Claro que ouvir uma boa conversa é um prazer, e ocasionalmente issso consegue-se (cada vez menos). A rádio portuguesa está cheia de conversa de chacha (será com x? só conheço a palavra pela oralidade) e a A2, ao contrário do que poderia pensar-se, não é excepção. Os animadores dos programas mais informais (Despertar a 2 e Ritornello, por ex.) ou falam demasiado, sem conteúdo que se oiça, ou exibem fraquíssima capacidade de articulação de um discurso interessante, ou limitam-se a tentar inocular-nos doses maciças de gostos pessoais e entrevistas a amigalhaços irrelevantes. Quando oiço aquelas conversas insípidas e trôpegas, como a desta manhã no início do Acordar (gerando um impulso para desligar o rádio apesar da alta qualidade da música que estavam a passar) ocorre-me sempre como é frequente andarmos no mundo com os papéis trocados. Quem estaria bem na A2 seria o António Guterres. Pelo menos as frases sairiam direitinhas e com sintaxe irrepreensível, eventualmente com arquitectura requintada. E ali não prejudicaria o país nem o mundo. O auditório da A2 deve caber numa sala pequena do CCB.
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