sexta-feira, outubro 14

China e América Latina

As motivações da China na América Latina analisadas por Alvaro Vargas Llosa aqui. A Cuba e à Venezuela, diz o autor, os chineses preferem o Chile.

quinta-feira, outubro 13

Prémio Nobel da Literatura

Da literatura ou do politicamente correcto?
As peças que escreveu são de boa qualidade. Como os romances de Saramago. Mas ele há coincidências.

Mulheres em casa às 6 da tarde

É directiva recente do ministro da cultura do Irão. Depois das 6, a presença das mulheres nos locais de trabalho não é tolerada pelos actuais governantes.

terça-feira, outubro 11

Factor de impacto

História e comentários sobre uma ideia inocente tornada um bom negócio.

domingo, outubro 9

Resumo eleitoral

1. Conquistas e reconquistas: foi ocasião para recordar uma discurso aprendido na 4ª classe. X conquistou esta ou reconquistou aquela ou perdeu aqueloutra. Lembrei-me dos Afonsos e Sanchos, esses grandes conquistadores.

2. Quem verdadeiramente perdeu? Os eleitores castigaram, obviamente, a justiça portuguesa, elegendo Fátima e os outros.

3. Algumas intervenções da noite televisiva foram muito divertidas e dignas de passar na SIC-radical. Estou a lembrar-me de Avelino. Num outro estilo, mas muito fofinha, estava a esfuziante Odete.

4. A grande notícia é que chove em Lisboa há várias horas. Já posso deixar a torneira a correr ao lavar os dentes.

Adenda: Tenho que reconhecer que nem tudo foi desperdício nas despesas de campanha. Em viagem pelos arredores de Lisboa no fim de semana, pude ficar a saber facilmente onde me encontrava, apesar da defeituosa sinalização de estradas e localidades: bastava ir atento às caras que apareciam nos cartazes afixados pelas diversas forças e fraquezas políticas.

Teodiceia

Podemos descansar. Afinal parece que a citação sobre a comunicação de Deus com Bush não estava correcta. Se assim não fosse, dado o pronto desmentido de um porta voz do presidente e o facto meridianamente claro para a opinião culta ocidental de que Bush é mentiroso, poderíamos estar perante um verdadeira revolução no conhecimento: uma prova indirecta, mas muito sólida, da existência de Deus.

terça-feira, outubro 4

Enigmas e paradoxos

Daqui a poucos dias vamos votar. Com a classe profissional que melhor conheço - os professores de vários graus de ensino - como matéria de devaneio escrevinhante em roda livre, ocorre-me uma série de afirmações e perguntas. É claro que não tenho fundamentação para as primeiras e há uma grande arbitrariedade na escolha das segundas. Também por isso, onde se fala de professores poder-se-ia falar de outra classe. Vamos lá então:

Nas eleições de Fevereiro, pràí uns 80% de professores votaram em Sócrates.
Passados poucos meses, pràí uns 80% de professores, ou mais, começaram a ficar furiosos com Sócrates e a política do governo. Essa fúria não tem vindo a atenuar-se, pelo contrário. Trata-se de um caso de ingenuidade ou de falta de reflexão?

Por vezes diz-se, e acreditamos, que o povo sabe bem em quem votar, significando que tem perfeita consciência de quem é que defende melhor os seus interesses. Ora, um governo debilitado e escarnecido como era o de Santana Lopes não teria condições para tomar (nem as tímidas) iniciativas de Sócrates e que tanto têm aborrecido tantos. Os professores detestavam Santana mas não previram que ainda viriam a irritar-se mais com Sócrates.

Visto à distância, tudo isto poderia significar que o povéu vota, involuntariamente, na melhor solução para os problemas, mesmo que contra os seus próprios interesses a curto prazo. As medidas duras e necessárias passam melhor quando aplicadas por quem nos é pelo menos vagamente mais simpático. Um bébé que vai levar uma injecção chora menos se estiver ao colo da ama. "A História ensinou-nos que muitas vezes a mentira a serve melhor que a verdade" (Arthur Koestler). Estaríamos perante um mecanismo de salvação inconsciente? Ora, nem por sombras. Eu aposto no erro de avaliação.

Preocupação daqui decorrente: que grau de rigor se poderá atribuir à representação que fazemos das perspectivas de solução para o país, ou dos complexos problemas e ameaças à escala mundial mas que também nos tocam? Se nos equivocamos com a facilidade que agora se viu, que valor atribuir ao modo como encaramos, por exemplo, o problema do terrorismo, o futuro do estado social ou da União Europeia? Num referendo à questão de saber se Bush é burro, pràí 80% responderão sim. Terão razão? E, pior ainda: e se têm razão por motivos muito diferentes dos que os movem a responder que sim? Uma percentagem notável, embora menor, também há-de continuar a encontrar em Cavaco uma faceta desprezível que identificam com "cultura estreita". O homem nem sabia quantos cantos têm os Lusíadas. Quantos destes críticos se terão enfurecido com a substituição da literatura pelos regulamentos do big brother nos programas de Português? Temos opinião sobre a intervenção da NATO na questão balcânica, onde a fractura entre bons e maus não tem os contornos simplistas que parece ter em conflitos mais recentes? Sobre o modo como os aparentemente distantes China ou Irão poderão afectar as nossas próprias escolhas?

??? Que dor de cabeça.

Livrarias

Quando se sai de Portugal, mesmo as livrarias das pequenas cidades nos fazem inveja. Variedade, bom gosto editorial e preço fazem a grande diferença. Na Feltrinelli de Modena vi hoje tr^es dos meus favoritos: Tutti i nomi, 9,00eur; Il Paradiso è Altrove, 11,50eur; Scende la notte tropicale, 10eur. Ediçoes bonitas e bem impressas que apetecia trazer para casa outra vez.

terça-feira, setembro 27

Aqui ao lado

Para encontrar uma notícia relevante é necessário, neste momento trági-cómico português, olharmos para Espanha. Um tribunal julgou e condenou militantes e colaboradores da Al Qaeda, alguns com ligação ao atentado de 11/set. Questões importantes se colocam: está a justiça dos países democráticos preparada para lidar com uma ameaça tão grave e tão real como o terrorismo islâmico? Em França, novas medidas anti-terroristas estão em preparação e foram detidos elementos de células da Al Qaeda com conexão argelina. A propósito, a França manteve a posição que sabemos a respeito da intervenção americana no Iraque. Todo o ocidente é alvo.

domingo, setembro 25

Carlo Crivelli



Madonna col Bambino

(Com muita Falta de Tempo!)

sábado, setembro 17

Mais um problema resolvido

Tem causado muita apreensão a imposição aos professores de um horário fixo nas escolas, para além das aulas. Tanto quanto sei, as escolas básicas e secundárias não têm instalações que permitam a permanência dos docentes com boas condições de trabalho fora do horário lectivo. Por isso, a medida da Ministra pareceu-me sempre pouco sensata.

Mas felizmente há quem pense por todos e venha generosamente descortinar soluções que estavam mesmo à nossa frente. Nem se percebe como não as víamos. Em artigo publicado hoje na XIS (o insulto ao PÚBLICO que temos de carregar com o jornal de sábado) Daniel Sampaio oferece sugestões de possíveis actividades docentes e respectivos locais de realização. Vou citar e juro que não vou inventar nada, até porque não pretendo os louros da descoberta:

Reunião do conselho de turma. Local: recanto da sala de professores

Atendimento de alunos. Local: refeitório

Apoio a alunos com dificuldades. Local: o mesmo do ponto anterior

Atendimento de pais: recanto do ginásio

Decoração da escola. Local: corredores mal pintados

Debates e recepção a personalidades na escola: recanto da sala de profs, recanto do ginásio

Conversa com os auxiliares de acção educativa: mesa do funcionário ou recanto do corredor


O INIMIGO PÚBLICO de ontem abriu concurso para novos colaboradores, encorajando a submissão de artigos com um humor de tipo novo. Terá havido troca nos suplementos a que o escrito era destinado?

NOTA. Em artigos sobre o início do ano escolar hoje insertos na XIS podem encontrar-se as seguintes expressões:

fichas de trabalho e auto-conhecimento

competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho que promovam uma maior autonomia das aprendizagens

estabelecimento de objectivos pessoais significativos e do desenvolvimento das concepções de si próprio

são os alunos os protagonistas do processo educativo, personagens que tomam nas suas mãos as rédeas do aprender

o estudante (…) munido de uma diversidade de conhecimentos e estratégias, exerce em pleno as suas capacidades de decisão e reflexão

cabe aos educadores orientar e monitorizar o aprender a aprender


Já lemos isto em algum sítio, ou não? Agora a XIS divulga extractos da produção ideológica do Ministério da Educação.

Ver DVD é pós moderno e não linear

Na sua coluna de 14 de setembro no PÚBLICO, E. Prado Coelho mostra-se extasiado com o DVD: Com o DVD “transgredimos… a linearidade da leitura”; "É permitido parar, analisar, comentar. Leva a uma deslinearização da cultura, que é uma das características da pós-modernidade. Não há começo nem fim, estamos sempre no meio”

O DVD é bué de fixe, mas não sei se uma tal euforia teorizante se justifica. Ver e rever também se podia fazer antes do DVD, nos cinemas de sessões contínuas ou vendo os filmes mais de uma vez. Claro que se perdia mais tempo e as funcionalidades do DVD dão-nos opções novas, mas duvido que os projectistas desta maravilha técnica se sintam pós modernos lá por isso.

Esqueceu EPC que o DVD pode também contribuir para a linearização da cultura. Se há filmes onde tempo e espaço são manuseados de forma inteligente e não trivial, acrescentando valor e significado à narração (exemplo no cinema recente: Jackie Brown, de Tarantino) outros há que baralham o tempo de forma arbitrária (exemplo: 21 gramas) transformando uma história banal num shuffle gratuitamente enigmático. O DVD seria útil, em casos como este, para repor a linearidade, isto é, ver as coisas por uma ordem mais razoável.

sexta-feira, setembro 16

Ser e não ser

Eu sei que sou muito chato com este assunto, mas se juízes podem ler na constituição que é normalíssimo eles próprios fazerem greve, não sei porque é que não há-de ser normal considerar simultaneamente que em 15 de setembro começa, e não começa, a nova sessão legislativa.

Ah! pois. Deve ser por isso que ontem um deputado do PS sugeriu que se pedisse um parecer ao Pai Natal.

quinta-feira, setembro 15

O perfil

"Eu penso que o dr. Cavaco Silva, que é um homem sério e respeitável, não tem, a meu ver, um perfil para Presidente da República, nem a formação humanista que deve ter".

Dito por Soares à Rádio Alfa, que afinal se verificou ontem ser também uma televisão (as declarações passaram com imagens num dos nossos telejornais).

Concordo absolutamente, sem ter a certeza de que Soares tenha querido dizer isto: um homem sério e respeitável corre o risco de destoar na peculiaríssima campanha recém iniciada. Ou talvez Soares tenha querido dizer simplesmente que Cavaco deveria ir tirar uma licenciatura em Direito antes de se candidatar a PR. Não sei. Mas tenho poucas dúvidas de que Soares acredita (como se diz agora nos jornais e rádios) que Cavaco tem perfil para candidato a PR, e que a ausência da candidatura de Cavaco mergulharia a pose de Soares num vazio sem sentido.

Robert Wise, 1914-2005

terça-feira, setembro 13

Enigma constitucional

Fala-se, e com razão, da questão militar; os exegetas esquadrinham a lei em busca de razões que lhes convenham; mas eu continuo mais intrigado com o caso do órgão de soberania que ameaça fazer greve.

domingo, setembro 11

Memória de Nova Orleães: os pobres




BLANCHE: Não vou ser hipócrita. Vou dizer honestamente o que penso e criticar. (Olha para o quarto.) Nunca poderia imaginar, nunca… nunca… nem nos piores sonhos. Poe… talvez Edgar Allan Poe pudesse admitir… (Aponta para a rua) E lá fora… o bosque assombrado, o domínio dos vampiros! (Ri)

STELLA: Não, minha querida, é apenas o caminho de ferro.

BLANCHE: Não, agora a sério. Porque não me disseste? Porque não me escreveste? Porque não me puseste ao corrente?

STELLA: Ao corrente de quê, Blanche?

BLANCHE: Oh! De quê. De que vivias numas condições destas.

STELLA: Não achas que exageras? Não é assim tão mau! É Nova Orleães… não é como outras cidades.

BLANCHE: Não tem nada a ver com Nova Orleães! Também poderias dizer… Oh! Desculpa, minha querida… não se fala mais nisso.

(Tennessee Williams, Um eléctrico chamado desejo)

Memória de Nova Orleães: os ricos


Mansão no estilo gótico-vitoriano do Garden District de Nova Orleães. Já não é verão, mas ainda não é outono. Jardim fantástico ao fundo, com floresta tropical, do período dos fetos gigantes.



SRA. VENABLE: O meu filho andava à procura de Deus, ou melhor: de uma imagem clara e nítida de Deus. No dia que lhe contei, um dia escaldante – o doutor conhece o sol do equador? – ele deixou-se ficar todo o dia no cesto da gávea a contemplar a praia. Só desceu quando estava escuro demais para ver. Já cá em baixo, disse-me: “Mãe, desta vez vi-o!” Depois teve febres e delirava com o que tinha visto…

DOUTOR CUKROWICZ: E era caso para isso, e até para perder a razão, se o seu filho pensava ter visto uma imagem de Deus nesse espectáculo a que assistiram nas Encantadas: criaturas do ar pairando e descendo sobre criaturas do mar, devorando as que tinham a pouca sorte de ter nascido em terra, de não ser suficientemente hábeis e rápidas rastejando até ao mar. Compreendo que tal espectáculo possa ser equacionado com vivência, experiência, sei lá… mas não com Deus! A senhora compreende?

SRA. VENABLE: Doutor Cukrowicz, embora membro razoavelmente leal da Igreja Episcopal Protestante, compreendi perfeitamente o que o meu filho quis dizer.

DOUTOR CUKROWICZ: Que nos devemos erguer acima do próprio Deus?

SRA. VENABLE: Não. Quis dizer que Deus nos mostra uma face hedionda e nos atira à cara palavras crueis. Que isso é tudo o que vemos e ouvimos dele.

(Tennessee Williams, Bruscamente no verão passado)

domingo, setembro 4

Rafaello Santi



Madonna com menino

Coragens

Sarah Mendley, britânica de origem iraquiana, 23 anos, favorita no concurso de Miss England, quis mostrar que há mulheres britânicas atraentes de origem iraquiana que têm orgulho em serem tanto britânicas como iraquianas. (Também no PÚBLICO de hoje, sem link.) Está disposta a enfrentar as críticas dos chefes religiosos muçulmanos e tem o apoio da família. Havendo 2 milhões de muçulmanos no Reino Unido e sabendo-se que franjas dessa população propiciaram o aparecimento de células de militantes fanáticos, parece fora de dúvida que Sarah Mendley é, além de atraente, muito corajosa.

Mais corajosa, certamente, do que os participantes em marchas contra a guerra no Iraque e a chamar nomes a Bush (mesmo que se pense que a guerra e Bush merecem críticas). Vivemos em democracia e felizmente os autores desses protestos, tornados lugar comum normalmente pouco reflectido, não enfrentam qualquer risco. Mas eu desconfiaria sempre das manifestações públicas, realizadas entre nós, cujas palavras de ordem também poderiam ser autorizadas pelas actuais autoridades de Teerão e mereceriam a aprovação entusiástica do Hamas e dos Taliban.