Daqui a poucos dias vamos votar. Com a classe profissional que melhor conheço - os professores de vários graus de ensino - como matéria de devaneio escrevinhante em roda livre, ocorre-me uma série de afirmações e perguntas. É claro que não tenho fundamentação para as primeiras e há uma grande arbitrariedade na escolha das segundas. Também por isso, onde se fala de professores poder-se-ia falar de outra classe. Vamos lá então:
Nas eleições de Fevereiro, pràí uns 80% de professores votaram em Sócrates.
Passados poucos meses, pràí uns 80% de professores, ou mais, começaram a ficar furiosos com Sócrates e a política do governo. Essa fúria não tem vindo a atenuar-se, pelo contrário. Trata-se de um caso de ingenuidade ou de falta de reflexão?
Por vezes diz-se, e acreditamos, que o povo sabe bem em quem votar, significando que tem perfeita consciência de quem é que defende melhor os seus interesses. Ora, um governo debilitado e escarnecido como era o de Santana Lopes não teria condições para tomar (nem as tímidas) iniciativas de Sócrates e que tanto têm aborrecido tantos. Os professores detestavam Santana mas não previram que ainda viriam a irritar-se mais com Sócrates.
Visto à distância, tudo isto poderia significar que o povéu vota, involuntariamente, na melhor solução para os problemas, mesmo que contra os seus próprios interesses a curto prazo. As medidas duras e necessárias passam melhor quando aplicadas por quem nos é pelo menos vagamente mais simpático. Um bébé que vai levar uma injecção chora menos se estiver ao colo da ama. "A História ensinou-nos que muitas vezes a mentira a serve melhor que a verdade" (Arthur Koestler). Estaríamos perante um mecanismo de salvação inconsciente? Ora, nem por sombras. Eu aposto no erro de avaliação.
Preocupação daqui decorrente: que grau de rigor se poderá atribuir à representação que fazemos das perspectivas de solução para o país, ou dos complexos problemas e ameaças à escala mundial mas que também nos tocam? Se nos equivocamos com a facilidade que agora se viu, que valor atribuir ao modo como encaramos, por exemplo, o problema do terrorismo, o futuro do estado social ou da União Europeia? Num referendo à questão de saber se Bush é burro, pràí 80% responderão sim. Terão razão? E, pior ainda: e se têm razão por motivos muito diferentes dos que os movem a responder que sim? Uma percentagem notável, embora menor, também há-de continuar a encontrar em Cavaco uma faceta desprezível que identificam com "cultura estreita". O homem nem sabia quantos cantos têm os Lusíadas. Quantos destes críticos se terão enfurecido com a substituição da literatura pelos regulamentos do big brother nos programas de Português? Temos opinião sobre a intervenção da NATO na questão balcânica, onde a fractura entre bons e maus não tem os contornos simplistas que parece ter em conflitos mais recentes? Sobre o modo como os aparentemente distantes China ou Irão poderão afectar as nossas próprias escolhas?
??? Que dor de cabeça.
terça-feira, outubro 4
Livrarias
Quando se sai de Portugal, mesmo as livrarias das pequenas cidades nos fazem inveja. Variedade, bom gosto editorial e preço fazem a grande diferença. Na Feltrinelli de Modena vi hoje tr^es dos meus favoritos: Tutti i nomi, 9,00eur; Il Paradiso è Altrove, 11,50eur; Scende la notte tropicale, 10eur. Ediçoes bonitas e bem impressas que apetecia trazer para casa outra vez.
terça-feira, setembro 27
Aqui ao lado
Para encontrar uma notícia relevante é necessário, neste momento trági-cómico português, olharmos para Espanha. Um tribunal julgou e condenou militantes e colaboradores da Al Qaeda, alguns com ligação ao atentado de 11/set. Questões importantes se colocam: está a justiça dos países democráticos preparada para lidar com uma ameaça tão grave e tão real como o terrorismo islâmico? Em França, novas medidas anti-terroristas estão em preparação e foram detidos elementos de células da Al Qaeda com conexão argelina. A propósito, a França manteve a posição que sabemos a respeito da intervenção americana no Iraque. Todo o ocidente é alvo.
domingo, setembro 25
sábado, setembro 17
Mais um problema resolvido
Tem causado muita apreensão a imposição aos professores de um horário fixo nas escolas, para além das aulas. Tanto quanto sei, as escolas básicas e secundárias não têm instalações que permitam a permanência dos docentes com boas condições de trabalho fora do horário lectivo. Por isso, a medida da Ministra pareceu-me sempre pouco sensata.
Mas felizmente há quem pense por todos e venha generosamente descortinar soluções que estavam mesmo à nossa frente. Nem se percebe como não as víamos. Em artigo publicado hoje na XIS (o insulto ao PÚBLICO que temos de carregar com o jornal de sábado) Daniel Sampaio oferece sugestões de possíveis actividades docentes e respectivos locais de realização. Vou citar e juro que não vou inventar nada, até porque não pretendo os louros da descoberta:
Reunião do conselho de turma. Local: recanto da sala de professores
Atendimento de alunos. Local: refeitório
Apoio a alunos com dificuldades. Local: o mesmo do ponto anterior
Atendimento de pais: recanto do ginásio
Decoração da escola. Local: corredores mal pintados
Debates e recepção a personalidades na escola: recanto da sala de profs, recanto do ginásio
Conversa com os auxiliares de acção educativa: mesa do funcionário ou recanto do corredor
O INIMIGO PÚBLICO de ontem abriu concurso para novos colaboradores, encorajando a submissão de artigos com um humor de tipo novo. Terá havido troca nos suplementos a que o escrito era destinado?
NOTA. Em artigos sobre o início do ano escolar hoje insertos na XIS podem encontrar-se as seguintes expressões:
fichas de trabalho e auto-conhecimento
competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho que promovam uma maior autonomia das aprendizagens
estabelecimento de objectivos pessoais significativos e do desenvolvimento das concepções de si próprio
são os alunos os protagonistas do processo educativo, personagens que tomam nas suas mãos as rédeas do aprender
o estudante (…) munido de uma diversidade de conhecimentos e estratégias, exerce em pleno as suas capacidades de decisão e reflexão
cabe aos educadores orientar e monitorizar o aprender a aprender
Já lemos isto em algum sítio, ou não? Agora a XIS divulga extractos da produção ideológica do Ministério da Educação.
Mas felizmente há quem pense por todos e venha generosamente descortinar soluções que estavam mesmo à nossa frente. Nem se percebe como não as víamos. Em artigo publicado hoje na XIS (o insulto ao PÚBLICO que temos de carregar com o jornal de sábado) Daniel Sampaio oferece sugestões de possíveis actividades docentes e respectivos locais de realização. Vou citar e juro que não vou inventar nada, até porque não pretendo os louros da descoberta:
Reunião do conselho de turma. Local: recanto da sala de professores
Atendimento de alunos. Local: refeitório
Apoio a alunos com dificuldades. Local: o mesmo do ponto anterior
Atendimento de pais: recanto do ginásio
Decoração da escola. Local: corredores mal pintados
Debates e recepção a personalidades na escola: recanto da sala de profs, recanto do ginásio
Conversa com os auxiliares de acção educativa: mesa do funcionário ou recanto do corredor
O INIMIGO PÚBLICO de ontem abriu concurso para novos colaboradores, encorajando a submissão de artigos com um humor de tipo novo. Terá havido troca nos suplementos a que o escrito era destinado?
NOTA. Em artigos sobre o início do ano escolar hoje insertos na XIS podem encontrar-se as seguintes expressões:
fichas de trabalho e auto-conhecimento
competências que permitam a apropriação pelos alunos de métodos de estudo e de trabalho que promovam uma maior autonomia das aprendizagens
estabelecimento de objectivos pessoais significativos e do desenvolvimento das concepções de si próprio
são os alunos os protagonistas do processo educativo, personagens que tomam nas suas mãos as rédeas do aprender
o estudante (…) munido de uma diversidade de conhecimentos e estratégias, exerce em pleno as suas capacidades de decisão e reflexão
cabe aos educadores orientar e monitorizar o aprender a aprender
Já lemos isto em algum sítio, ou não? Agora a XIS divulga extractos da produção ideológica do Ministério da Educação.
Ver DVD é pós moderno e não linear
Na sua coluna de 14 de setembro no PÚBLICO, E. Prado Coelho mostra-se extasiado com o DVD: Com o DVD “transgredimos… a linearidade da leitura”; "É permitido parar, analisar, comentar. Leva a uma deslinearização da cultura, que é uma das características da pós-modernidade. Não há começo nem fim, estamos sempre no meio”
O DVD é bué de fixe, mas não sei se uma tal euforia teorizante se justifica. Ver e rever também se podia fazer antes do DVD, nos cinemas de sessões contínuas ou vendo os filmes mais de uma vez. Claro que se perdia mais tempo e as funcionalidades do DVD dão-nos opções novas, mas duvido que os projectistas desta maravilha técnica se sintam pós modernos lá por isso.
Esqueceu EPC que o DVD pode também contribuir para a linearização da cultura. Se há filmes onde tempo e espaço são manuseados de forma inteligente e não trivial, acrescentando valor e significado à narração (exemplo no cinema recente: Jackie Brown, de Tarantino) outros há que baralham o tempo de forma arbitrária (exemplo: 21 gramas) transformando uma história banal num shuffle gratuitamente enigmático. O DVD seria útil, em casos como este, para repor a linearidade, isto é, ver as coisas por uma ordem mais razoável.
O DVD é bué de fixe, mas não sei se uma tal euforia teorizante se justifica. Ver e rever também se podia fazer antes do DVD, nos cinemas de sessões contínuas ou vendo os filmes mais de uma vez. Claro que se perdia mais tempo e as funcionalidades do DVD dão-nos opções novas, mas duvido que os projectistas desta maravilha técnica se sintam pós modernos lá por isso.
Esqueceu EPC que o DVD pode também contribuir para a linearização da cultura. Se há filmes onde tempo e espaço são manuseados de forma inteligente e não trivial, acrescentando valor e significado à narração (exemplo no cinema recente: Jackie Brown, de Tarantino) outros há que baralham o tempo de forma arbitrária (exemplo: 21 gramas) transformando uma história banal num shuffle gratuitamente enigmático. O DVD seria útil, em casos como este, para repor a linearidade, isto é, ver as coisas por uma ordem mais razoável.
sexta-feira, setembro 16
Ser e não ser
Eu sei que sou muito chato com este assunto, mas se juízes podem ler na constituição que é normalíssimo eles próprios fazerem greve, não sei porque é que não há-de ser normal considerar simultaneamente que em 15 de setembro começa, e não começa, a nova sessão legislativa.
Ah! pois. Deve ser por isso que ontem um deputado do PS sugeriu que se pedisse um parecer ao Pai Natal.
Ah! pois. Deve ser por isso que ontem um deputado do PS sugeriu que se pedisse um parecer ao Pai Natal.
quinta-feira, setembro 15
O perfil
"Eu penso que o dr. Cavaco Silva, que é um homem sério e respeitável, não tem, a meu ver, um perfil para Presidente da República, nem a formação humanista que deve ter".
Dito por Soares à Rádio Alfa, que afinal se verificou ontem ser também uma televisão (as declarações passaram com imagens num dos nossos telejornais).
Concordo absolutamente, sem ter a certeza de que Soares tenha querido dizer isto: um homem sério e respeitável corre o risco de destoar na peculiaríssima campanha recém iniciada. Ou talvez Soares tenha querido dizer simplesmente que Cavaco deveria ir tirar uma licenciatura em Direito antes de se candidatar a PR. Não sei. Mas tenho poucas dúvidas de que Soares acredita (como se diz agora nos jornais e rádios) que só Cavaco tem perfil para candidato a PR, e que a ausência da candidatura de Cavaco mergulharia a pose de Soares num vazio sem sentido.
Dito por Soares à Rádio Alfa, que afinal se verificou ontem ser também uma televisão (as declarações passaram com imagens num dos nossos telejornais).
Concordo absolutamente, sem ter a certeza de que Soares tenha querido dizer isto: um homem sério e respeitável corre o risco de destoar na peculiaríssima campanha recém iniciada. Ou talvez Soares tenha querido dizer simplesmente que Cavaco deveria ir tirar uma licenciatura em Direito antes de se candidatar a PR. Não sei. Mas tenho poucas dúvidas de que Soares acredita (como se diz agora nos jornais e rádios) que só Cavaco tem perfil para candidato a PR, e que a ausência da candidatura de Cavaco mergulharia a pose de Soares num vazio sem sentido.
terça-feira, setembro 13
Enigma constitucional
Fala-se, e com razão, da questão militar; os exegetas esquadrinham a lei em busca de razões que lhes convenham; mas eu continuo mais intrigado com o caso do órgão de soberania que ameaça fazer greve.
domingo, setembro 11
Memória de Nova Orleães: os pobres

BLANCHE: Não vou ser hipócrita. Vou dizer honestamente o que penso e criticar. (Olha para o quarto.) Nunca poderia imaginar, nunca… nunca… nem nos piores sonhos. Poe… talvez Edgar Allan Poe pudesse admitir… (Aponta para a rua) E lá fora… o bosque assombrado, o domínio dos vampiros! (Ri)
STELLA: Não, minha querida, é apenas o caminho de ferro.
BLANCHE: Não, agora a sério. Porque não me disseste? Porque não me escreveste? Porque não me puseste ao corrente?
STELLA: Ao corrente de quê, Blanche?
BLANCHE: Oh! De quê. De que vivias numas condições destas.
STELLA: Não achas que exageras? Não é assim tão mau! É Nova Orleães… não é como outras cidades.
BLANCHE: Não tem nada a ver com Nova Orleães! Também poderias dizer… Oh! Desculpa, minha querida… não se fala mais nisso.
(Tennessee Williams, Um eléctrico chamado desejo)
Memória de Nova Orleães: os ricos

Mansão no estilo gótico-vitoriano do Garden District de Nova Orleães. Já não é verão, mas ainda não é outono. Jardim fantástico ao fundo, com floresta tropical, do período dos fetos gigantes.
SRA. VENABLE: O meu filho andava à procura de Deus, ou melhor: de uma imagem clara e nítida de Deus. No dia que lhe contei, um dia escaldante – o doutor conhece o sol do equador? – ele deixou-se ficar todo o dia no cesto da gávea a contemplar a praia. Só desceu quando estava escuro demais para ver. Já cá em baixo, disse-me: “Mãe, desta vez vi-o!” Depois teve febres e delirava com o que tinha visto…
DOUTOR CUKROWICZ: E era caso para isso, e até para perder a razão, se o seu filho pensava ter visto uma imagem de Deus nesse espectáculo a que assistiram nas Encantadas: criaturas do ar pairando e descendo sobre criaturas do mar, devorando as que tinham a pouca sorte de ter nascido em terra, de não ser suficientemente hábeis e rápidas rastejando até ao mar. Compreendo que tal espectáculo possa ser equacionado com vivência, experiência, sei lá… mas não com Deus! A senhora compreende?
SRA. VENABLE: Doutor Cukrowicz, embora membro razoavelmente leal da Igreja Episcopal Protestante, compreendi perfeitamente o que o meu filho quis dizer.
DOUTOR CUKROWICZ: Que nos devemos erguer acima do próprio Deus?
SRA. VENABLE: Não. Quis dizer que Deus nos mostra uma face hedionda e nos atira à cara palavras crueis. Que isso é tudo o que vemos e ouvimos dele.
(Tennessee Williams, Bruscamente no verão passado)
domingo, setembro 4
Coragens
Sarah Mendley, britânica de origem iraquiana, 23 anos, favorita no concurso de Miss England, quis mostrar que há mulheres britânicas atraentes de origem iraquiana que têm orgulho em serem tanto britânicas como iraquianas. (Também no PÚBLICO de hoje, sem link.) Está disposta a enfrentar as críticas dos chefes religiosos muçulmanos e tem o apoio da família. Havendo 2 milhões de muçulmanos no Reino Unido e sabendo-se que franjas dessa população propiciaram o aparecimento de células de militantes fanáticos, parece fora de dúvida que Sarah Mendley é, além de atraente, muito corajosa.
Mais corajosa, certamente, do que os participantes em marchas contra a guerra no Iraque e a chamar nomes a Bush (mesmo que se pense que a guerra e Bush merecem críticas). Vivemos em democracia e felizmente os autores desses protestos, tornados lugar comum normalmente pouco reflectido, não enfrentam qualquer risco. Mas eu desconfiaria sempre das manifestações públicas, realizadas entre nós, cujas palavras de ordem também poderiam ser autorizadas pelas actuais autoridades de Teerão e mereceriam a aprovação entusiástica do Hamas e dos Taliban.
Mais corajosa, certamente, do que os participantes em marchas contra a guerra no Iraque e a chamar nomes a Bush (mesmo que se pense que a guerra e Bush merecem críticas). Vivemos em democracia e felizmente os autores desses protestos, tornados lugar comum normalmente pouco reflectido, não enfrentam qualquer risco. Mas eu desconfiaria sempre das manifestações públicas, realizadas entre nós, cujas palavras de ordem também poderiam ser autorizadas pelas actuais autoridades de Teerão e mereceriam a aprovação entusiástica do Hamas e dos Taliban.
quinta-feira, setembro 1
A síndrome da Rolling Stone
1. A Rolling Stone publicou ontem a lista dos “500 melhores” albuns. Constato surpreendido que, apesar de ter deixado de seguir com atenção o género de música em causa há mais de 30 anos, nas primeiras dezenas de classificados, e em muitos outros lugares da lista consultados ao acaso, encontram-se LPs editados nos anos 60 e 70, que conheci e escutei naquele tempo. Publicando-se cada vez mais música de todos os géneros, parece-me que é enviesado afirmar que não surgiu nada melhor, digamos, nos últimos 10 anos. Tenho, aliás, a impressão contrária. Não me dei ao trabalho de ver como foi elaborada a lista, mas deduzo que os votantes são velhotes com o gosto congelado nos produtos dos anos 70.
2. O espectáculo da campanha para as presidenciais, já teve dois pontos altos: o da tristeza da candidatura semi-abortada de Alegre e o do alegre e animado anúncio de Soares. Alegre pensa que é alternativa a Soares, mas não me lembro de ele ter explicado onde estão as diferenças. Só me lembro de relatos sobre afectos magoados e traídos.
Quem se lembra de alguma posição política de Alegre distinta das de Soares? Soares afirma ter aprendido imenso nos últimos dez anos. Não duvido. Além disso tem vindo, quem sabe se conscientemente, a posicionar-se, ao adoptar uma postura mais à esquerda do que as que lhe conhecíamos, para esfarelar qualquer veleidade de outra candidatura na área. Alguns dizem que ele nem teve a delicadeza de mencionar Alegre. Não é assim: ele disse explicitamente que tinha avançado por constatar o vazio. Que petulância, arrogar-se a capacidade de competir nestes palcos; já teve a vice-presidência da A.R., esse prestigioso pilar da soberania, que mais quer a irrisória criatura? pensou, talvez.
De política propriamente dita Alegre disse quase nada e Soares enunciou generalidades politicamente correctas (com humor pelo meio, reconheça-se) e politicamente perigosas.
Alegre, Soares. Sem prejuízo de lhes reconhecer méritos, tanto um como outro parecem ter o pensamento político congelado no tal mundo dos anos 70. (Para não mencionar Jerónimo, é claro.) Não é normal que naquela área não tenha surgido nada de novo, para melhor. Alegre, Soares, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band: é a síndrome da Rolling Stone.
2. O espectáculo da campanha para as presidenciais, já teve dois pontos altos: o da tristeza da candidatura semi-abortada de Alegre e o do alegre e animado anúncio de Soares. Alegre pensa que é alternativa a Soares, mas não me lembro de ele ter explicado onde estão as diferenças. Só me lembro de relatos sobre afectos magoados e traídos.
Quem se lembra de alguma posição política de Alegre distinta das de Soares? Soares afirma ter aprendido imenso nos últimos dez anos. Não duvido. Além disso tem vindo, quem sabe se conscientemente, a posicionar-se, ao adoptar uma postura mais à esquerda do que as que lhe conhecíamos, para esfarelar qualquer veleidade de outra candidatura na área. Alguns dizem que ele nem teve a delicadeza de mencionar Alegre. Não é assim: ele disse explicitamente que tinha avançado por constatar o vazio. Que petulância, arrogar-se a capacidade de competir nestes palcos; já teve a vice-presidência da A.R., esse prestigioso pilar da soberania, que mais quer a irrisória criatura? pensou, talvez.
De política propriamente dita Alegre disse quase nada e Soares enunciou generalidades politicamente correctas (com humor pelo meio, reconheça-se) e politicamente perigosas.
Alegre, Soares. Sem prejuízo de lhes reconhecer méritos, tanto um como outro parecem ter o pensamento político congelado no tal mundo dos anos 70. (Para não mencionar Jerónimo, é claro.) Não é normal que naquela área não tenha surgido nada de novo, para melhor. Alegre, Soares, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band: é a síndrome da Rolling Stone.
segunda-feira, agosto 29
Cada macaco no seu galho
Por ter referido os anos 70 no post anterior, veio-me à memória um detalhe, que ainda me faz sorrir, dessa época que já parece tão longe.
No princípio dos anos 70 começaram a aparecer entre nós os grupos de teatro que queriam romper com as formas clássicas de actuação. A sua bandeira era estética e política. O aspecto anedótico a que quero referir-me é que começou a ser moda provocar a intervenção do espectador na representação. Este desígnio estava em consonância com teorias da arte de acordo com as quais todos têm capacidades que vale a pena mostrar e, em última análise, tudo é arte. Lembro-me de ter contactado com o fenómeno pela primeira vez num teatrinho dos arredores de Lisboa: às tantas os actores ficaram imóveis, deitados no palco, à espera de um estímulo vindo da plateia para continuarem (não me lembro como se desbloqueou a situação). Anos mais tarde, num espectáculo no Chapitô, a que pensava que ia assistir descansado, obrigaram-me volta e meia a levantar-me e agitar um lençol, em conjunto com outros espectadores, para simulação de ondas numa cena que se passava num barco. Noutros casos, cheguei a ser chamado ao palco para fazer já não me lembro o quê.
Como não me dá tranquilidade saber que provavelmente sou chamado à acção quando o que quero é simplesmente ver um espectáculo, passei a perguntar, sempre que ia comprar um bilhete, se alguém iria pedir-me para fazer alguma coisa, caso em que a compra seria imediatamente anulada. Quando pago um bilhete, não é para trabalhar.
É provável que ainda haja vestígios daquela moda, mas tanto quanto me apercebo ela foi desaparecendo, ou pelo menos foi-se tornando menos frequente. No entanto, o princípio subjacente sobreviveu noutras formas: no jargão dos modernos pedagogos, por exemplo, o professor é apenas um facilitador da aprendizagem e, no limite, dentro da sala de aula todos aprendem e todos ensinam. (Também gostam muito, aliás, de falar dos actores do processo de ensino-barra-aprendizagem.) Trata-se, claramente, de uma confusão deliberada de papéis, como no teatrinho de vanguarda.
No princípio dos anos 70 começaram a aparecer entre nós os grupos de teatro que queriam romper com as formas clássicas de actuação. A sua bandeira era estética e política. O aspecto anedótico a que quero referir-me é que começou a ser moda provocar a intervenção do espectador na representação. Este desígnio estava em consonância com teorias da arte de acordo com as quais todos têm capacidades que vale a pena mostrar e, em última análise, tudo é arte. Lembro-me de ter contactado com o fenómeno pela primeira vez num teatrinho dos arredores de Lisboa: às tantas os actores ficaram imóveis, deitados no palco, à espera de um estímulo vindo da plateia para continuarem (não me lembro como se desbloqueou a situação). Anos mais tarde, num espectáculo no Chapitô, a que pensava que ia assistir descansado, obrigaram-me volta e meia a levantar-me e agitar um lençol, em conjunto com outros espectadores, para simulação de ondas numa cena que se passava num barco. Noutros casos, cheguei a ser chamado ao palco para fazer já não me lembro o quê.
Como não me dá tranquilidade saber que provavelmente sou chamado à acção quando o que quero é simplesmente ver um espectáculo, passei a perguntar, sempre que ia comprar um bilhete, se alguém iria pedir-me para fazer alguma coisa, caso em que a compra seria imediatamente anulada. Quando pago um bilhete, não é para trabalhar.
É provável que ainda haja vestígios daquela moda, mas tanto quanto me apercebo ela foi desaparecendo, ou pelo menos foi-se tornando menos frequente. No entanto, o princípio subjacente sobreviveu noutras formas: no jargão dos modernos pedagogos, por exemplo, o professor é apenas um facilitador da aprendizagem e, no limite, dentro da sala de aula todos aprendem e todos ensinam. (Também gostam muito, aliás, de falar dos actores do processo de ensino-barra-aprendizagem.) Trata-se, claramente, de uma confusão deliberada de papéis, como no teatrinho de vanguarda.
domingo, agosto 28
Imobilidades
Nos últimos dias voltou a estar em causa o valor da coerência, a propósito da lamentável carta aberta (no PÚBLICO) de Maria João Seixas a Helena Matos. Ainda há pouco tempo, tendo o falecimento de Cunhal em pano de fundo, se tinha falado desta escorregadia qualidade e ela não saiu muito bem tratada da discussão.
Não vejo nada de extraordinário no percurso de Helena Matos. Por um lado, todos nós, que já tivemos 20 anos, sabemos que por vezes nessa idade se adoptam resoluções e atitudes por mero impulso ou por razões de afectividade, mais consciente ou menos consciente. Por outro, a informação de que se dispunha nos agitados anos de 74 e 75 não era, apesar de tudo, a que temos hoje e um punhado de importantes lições da história ainda estavam por nos esmagar com as suas evidências. A multiplicidade de projectos políticos que explodiram à luz do dia no final da “longa noite fascista” também ajudava à confusão.
Com a experiência e a reflexão, as pessoas mudam, e ainda bem. Ainda bem, em particular, no caso de Helena Matos, certamente uma das mais interessantes e lúcidas autoras de crónicas na nossa imprensa. Ela está a prestar um serviço bem mais importante do que o que prestaria se, por imobilismo intelectual, se limitasse a engrossar a coluna dos discursos previsíveis, como MJS gostaria.
De resto, as mudanças ao longo da vida são comuns e naturais, e não apenas no campo das preferências políticas. Não mudar parece mais estranho do que mudar.
Por exemplo: por volta dos 10-12 anos, lê-se as aventuras dos “cinco”, na casa dos 20 ouve-se e goza-se com a música pop ou rock do tempo, mas com certeza que MJS não achará normal que se fique agarrado a esses gostos toda a vida. Eu sei que há muitos cinquentões que vão aos concertos dos Rolling Stones e que Harry Potter e o Senhor dos Anéis são as delícias literárias quase exclusivas de alguns adultos. Não será o caso de toda a gente, mas há quem fique com os seus gostos congelados e reduzidos aos padrões da adolescência tardia. A falta de amadurecimento e reflexão pode explicar alguma dificuldade em compreender e analisar alguns aspectos da nossa realidade e marcar negativamente as escolhas individuais de que depende o futuro colectivo.
Não vejo nada de extraordinário no percurso de Helena Matos. Por um lado, todos nós, que já tivemos 20 anos, sabemos que por vezes nessa idade se adoptam resoluções e atitudes por mero impulso ou por razões de afectividade, mais consciente ou menos consciente. Por outro, a informação de que se dispunha nos agitados anos de 74 e 75 não era, apesar de tudo, a que temos hoje e um punhado de importantes lições da história ainda estavam por nos esmagar com as suas evidências. A multiplicidade de projectos políticos que explodiram à luz do dia no final da “longa noite fascista” também ajudava à confusão.
Com a experiência e a reflexão, as pessoas mudam, e ainda bem. Ainda bem, em particular, no caso de Helena Matos, certamente uma das mais interessantes e lúcidas autoras de crónicas na nossa imprensa. Ela está a prestar um serviço bem mais importante do que o que prestaria se, por imobilismo intelectual, se limitasse a engrossar a coluna dos discursos previsíveis, como MJS gostaria.
De resto, as mudanças ao longo da vida são comuns e naturais, e não apenas no campo das preferências políticas. Não mudar parece mais estranho do que mudar.
Por exemplo: por volta dos 10-12 anos, lê-se as aventuras dos “cinco”, na casa dos 20 ouve-se e goza-se com a música pop ou rock do tempo, mas com certeza que MJS não achará normal que se fique agarrado a esses gostos toda a vida. Eu sei que há muitos cinquentões que vão aos concertos dos Rolling Stones e que Harry Potter e o Senhor dos Anéis são as delícias literárias quase exclusivas de alguns adultos. Não será o caso de toda a gente, mas há quem fique com os seus gostos congelados e reduzidos aos padrões da adolescência tardia. A falta de amadurecimento e reflexão pode explicar alguma dificuldade em compreender e analisar alguns aspectos da nossa realidade e marcar negativamente as escolhas individuais de que depende o futuro colectivo.
sexta-feira, agosto 26
Dois pontos
O activismo de Cindy Sheenan está a revelar-se um embaraço significativo para Bush e para os defensores da invasão do Iraque. A constatação deste facto sugere duas reflexões. (Nenhuma delas tem a ver directamente com a situação no Iraque.)
Primeira: há um preconceito, não expresso, por detrás dos receios daqueles que colocam a posse de armamento de destruição maciça por parte dos EU, ou por parte de estados párias ou grupos terroristas, ao mesmo nível de perigosidade; alguém imagina um movimento de simpatizantes do Ocidente a ter uma tal expressão pública no Irão ou na coreia do Norte, por exemplo? A assimetria é demasiado evidente.
Segunda: o caso Sheenan é um exemplo de como a corrente mediática mainstream transmite a informação de forma superficial e parcial. Não há nada de estranho no facto de uma mãe chorar um filho, ou em nisso encontrar um impulso para o seu activismo político. Mas o caso é menos simples quando se aprofunda o curriculum da Sra. Sheenan. Por exemplo, em Abril, participando num meeting na Universidade de San Francisco,

Cindy Sheenan teceu fortes elogios a Lynne Stewart, defensora de terroristas. Lynne Stewart foi advogada do responsável pelo atentado ao WTC em 1993; foi recentemente condenada por conspiração e auxílio ao terrorismo e por passar mensagens do seu cliente, na prisão, para um grupo cúmplice no Egipto. Um colaborador de Stewart, igualmente condenado, trocava informações com a Al Qaeda. Os pormenores contados por Lee Kaplan aqui.
Primeira: há um preconceito, não expresso, por detrás dos receios daqueles que colocam a posse de armamento de destruição maciça por parte dos EU, ou por parte de estados párias ou grupos terroristas, ao mesmo nível de perigosidade; alguém imagina um movimento de simpatizantes do Ocidente a ter uma tal expressão pública no Irão ou na coreia do Norte, por exemplo? A assimetria é demasiado evidente.
Segunda: o caso Sheenan é um exemplo de como a corrente mediática mainstream transmite a informação de forma superficial e parcial. Não há nada de estranho no facto de uma mãe chorar um filho, ou em nisso encontrar um impulso para o seu activismo político. Mas o caso é menos simples quando se aprofunda o curriculum da Sra. Sheenan. Por exemplo, em Abril, participando num meeting na Universidade de San Francisco,

Cindy Sheenan teceu fortes elogios a Lynne Stewart, defensora de terroristas. Lynne Stewart foi advogada do responsável pelo atentado ao WTC em 1993; foi recentemente condenada por conspiração e auxílio ao terrorismo e por passar mensagens do seu cliente, na prisão, para um grupo cúmplice no Egipto. Um colaborador de Stewart, igualmente condenado, trocava informações com a Al Qaeda. Os pormenores contados por Lee Kaplan aqui.
quinta-feira, agosto 25
Leituras de Agosto
Em Memórias de duas jovens casadas, que, sem ser do melhor Balzac, é uma novela epistolar notável, há uma passagem deliciosa em que Louise descreve o choque que sente ao verificar que, na grande cidade, não é alvo de atenção, apesar de ser uma rapariga bonita:
Finalmente vi Paris! (...) Eu ia bem vestida, com ar melancólico mas disposta a rir, rosto calmo sob um chapéu lindíssimo, braços cruzados. Não obtive o menor sorriso, nem um só rapaz se dignou parar, ninguém se voltou para olhar para mim, e no entanto a lentidão da carruagem estava em harmonia com a minha pose. (...) Um homem examinou demoradamente a carruagem sem me prestar atenção. Esse lisongeiro devia ser cocheiro. Enganei-me na avaliação dos meus trunfos: a beleza, esse privilégio raro que só Deus concede, é, pois, mais frequente em Paris do que eu pensava.
Finalmente vi Paris! (...) Eu ia bem vestida, com ar melancólico mas disposta a rir, rosto calmo sob um chapéu lindíssimo, braços cruzados. Não obtive o menor sorriso, nem um só rapaz se dignou parar, ninguém se voltou para olhar para mim, e no entanto a lentidão da carruagem estava em harmonia com a minha pose. (...) Um homem examinou demoradamente a carruagem sem me prestar atenção. Esse lisongeiro devia ser cocheiro. Enganei-me na avaliação dos meus trunfos: a beleza, esse privilégio raro que só Deus concede, é, pois, mais frequente em Paris do que eu pensava.
terça-feira, agosto 23
O outro lado do problema
Por muito grave que tenha sido a morte trágica de Jean Menezes aos disparos da polícia britânica, por muito que se imponha apurar a verdade dos factos até ao fim, não se correrá o risco, com os fortes ataques de que a polícia vem sendo alvo, de enfraquecer a luta contra o terrorismo? Afinal, no dia 7 de Julho, 56 cidadãos foram mortos por assassinos saídos da sombra, disfarçados de pessoas como nós.
Convém não esquecer.
Convém não esquecer.
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