quinta-feira, junho 9
Monstruosidades
Na galeria de monstros do passado recente, Hitler e Estaline não estão sós. Não é novidade nenhuma. Mas parece ser interessante o livro Mao: The Unknown Story de Jung Chang e Jon Halliday, acabado de sair: talvez ainda haja aspectos da actuação deste ditador que são capazes de nos surpreender. Uma recensão do livro está aqui. Nela se recorda, em particular, uma faceta bem conhecida do terror instaurado por Mao, o incitamento à crítica, auto-crítica e delacção: The use of terror typified Mao's rule. Although he had his equivalent of the KGB, Mao's distinctive form of terror was to get people to use it against each other. This was the model that he perfected in Yenan, when everybody was coerced into the exercise of criticism and self-criticism by which they were forced to confess and implicate each other in terrible "wrongs". It was a method that was then extended to the whole of China, as people were confined to their work units in the cities and their villages in the countryside.
terça-feira, junho 7
Pequenos anúncios II
Parece que a coisa não é assim tão irrelevante. À atenção de Jorge Coelho, caso não consiga espremer suficientemente as seguradoras e os bancos.
domingo, junho 5
Pequenos anúncios
Os anúncios comerciais não parecem ser uma componente de grande peso no nosso principal diário de referência. No entanto, folhear as páginas de pequenos anúncios no caderno LOCAL não deixa de provocar alguma estranheza. Uma boa parte dos anúncios tem a ver com instituições ligadas ao estado (justiça, universidades...). A fatia dos comerciais propriamente dita tem, com poucas excepções (uma delas é a de clínicas espanholas onde se faz IVG), duas áreas dominantes: o imobiliário e a prostituição. Do imobiliário já sabemos que é a grande vocação do sector produtivo português: até ver, não parece ameaçado pela concorrência chinesa. Quanto aos anúncios "relax", não é a sua presença que surpreende, mas sim a quota com que figuram. Se as páginas de anúncios do dito jornal fossem representivas das tendências da oferta e procura de trabalho em Portugal, a conclusão seria deprimente. Este fenómeno não tem a ver com o actual clima de "crise": que eu me lembre, é assim já há anos. Nos últimos tempos noto, no entanto, uma alteração qualitativa nos tais anúncios de relax, para a qual não tenho interpretação. Desapareceram as senhoras "licenciadas" ou "universitárias"; agora são apenas "sensuais" ou "charmosas" ou simplesmente "lindas". Outra novidade é que uma empresa espanhola entrou recentemente no negócio, utilizando mensagens sms de contornos obscuros.
É claro que, mudando de jornal, as coisas mudam. Por exemplo, poderemos também encontrar anúncios de bruxos e videntes com grande destaque.
Se calhar nada disto é muito interessante. Mas não deixa de me intrigar.
É claro que, mudando de jornal, as coisas mudam. Por exemplo, poderemos também encontrar anúncios de bruxos e videntes com grande destaque.
Se calhar nada disto é muito interessante. Mas não deixa de me intrigar.
quarta-feira, junho 1
Ilustração exemplar...
...da última frase que eu tinha escrito neste post: artigos para um workshop universitário sobre papel higiénico e retretes, precisam-se (via The Guest of Time)
sexta-feira, maio 27
O défice é um número complexo!!!
Assistindo ao espectáculo que nos tem sido servido nos últimos dias e a tudo o que observadores colocados em diferentes ângulos já comentaram, há que dar espaço à hipótese de que se trata de uma encenação de alto calibre técnico. Refiro-me, claro, como o título faz prever, aos episódios de apresentação do famoso défice, das medidas que aí vêm para o ultrapassar (por excesso ou defeito, não é claro para já) e o que mais se verá, porque é também óbvio que ainda não vimos tudo. A milimétrica e paciente temporização da acção alimenta a minha convicção de que tudo foi desenhado com um cuidado extremo.
Ontem à noite, na SIC Notícias, Medina Carreira disse literalmente que todos os actores em cena, até ao momento, nos andam a mentir. Para me sossegar, dou já um salto em frente e imagino que, sendo o espectáculo em cena tão subtil, o número de Medina Carreira poderia estar previsto como parte da peça. (E eu não sou nada adepto de teorias de conspiração.) Mas logo fico novamente inquieto, porque então este número só poderia servir de intermezzo para anúncios ainda mais estarrecedores. O melhor é não pensar mais nisto.
(A partir daqui a habilitação mínima para ler o post é o 12º ano de matemática.) Uma coisa, apesar de tudo, é certa: ninguém mais me convencerá, daqui em diante, de que o défice é um número real. Eu aceito que a temperatura de um local ou a hora de partida de um comboio sejam representadas por por números reais; mas acho que, a bem da transparência, o défice deveria passar a ser expresso como um número complexo - isso mesmo, com uma parte real e outra imaginária. Se a comissão que fez o cálculo tivesse anunciado que o défice para 2005 é, por exemplo, 5,01+1,82i, penso que o caso seria muito menos controverso. Mais: suspeito de que a encenação pode ir ao ponto de isto mesmo ter sido descoberto pela comissão, e ser a verdadeira causa da surpresa de Sócrates (um engenheiro sabe muito bem a diferença entre os dois tipos de números). O Presidente nem fala sobre o assunto porque, como ele próprio já informou, a matemática não é o seu forte.
Ontem à noite, na SIC Notícias, Medina Carreira disse literalmente que todos os actores em cena, até ao momento, nos andam a mentir. Para me sossegar, dou já um salto em frente e imagino que, sendo o espectáculo em cena tão subtil, o número de Medina Carreira poderia estar previsto como parte da peça. (E eu não sou nada adepto de teorias de conspiração.) Mas logo fico novamente inquieto, porque então este número só poderia servir de intermezzo para anúncios ainda mais estarrecedores. O melhor é não pensar mais nisto.
(A partir daqui a habilitação mínima para ler o post é o 12º ano de matemática.) Uma coisa, apesar de tudo, é certa: ninguém mais me convencerá, daqui em diante, de que o défice é um número real. Eu aceito que a temperatura de um local ou a hora de partida de um comboio sejam representadas por por números reais; mas acho que, a bem da transparência, o défice deveria passar a ser expresso como um número complexo - isso mesmo, com uma parte real e outra imaginária. Se a comissão que fez o cálculo tivesse anunciado que o défice para 2005 é, por exemplo, 5,01+1,82i, penso que o caso seria muito menos controverso. Mais: suspeito de que a encenação pode ir ao ponto de isto mesmo ter sido descoberto pela comissão, e ser a verdadeira causa da surpresa de Sócrates (um engenheiro sabe muito bem a diferença entre os dois tipos de números). O Presidente nem fala sobre o assunto porque, como ele próprio já informou, a matemática não é o seu forte.
domingo, maio 22
Eles já estão aqui.
Não sendo um fã da Guerra das Estrelas (na realidade, não gostei nem do primeiro filme) resta-me esperar pela dos Mundos: eles já estão aqui.
Crueldade
Num anúncio que começou a passar há uns dias nos canais de tv, e que tem como alvo a prevenção e tratamento da obesidade infantil, é mostrado um miúdo chamado Luís, mas que apenas é reconhecido com a designação de "o gordo". O filmezinho tem certamente belíssimas intenções mas parece-me profundamente cruel: as pessoas que pretende atingir são crianças, culpabilizando-as por uma situação que não resultou, certamente, de uma escolha consciente e que pode até, em alguns casos, ter causas independentes da vontade própria. É quase como vir a público amesquinhar os coxos ou os estrábicos.
Surpreende-me que ainda não se tenham feito ouvir as vozes dos que clamam contra os possíveis efeitos negativos de determinadas práticas que me parecem muito menos aviltantes: por exemplo, avaliar os conhecimentos, na escola, classificar os alunos de uma forma honesta, ou proceder a sanções de tipo disciplinar, é hoje visto como como podendo afectar gravemente a "auto-estima" (dizia-se "amor próprio" antes da invasão de papers especializados que criaram o novo jargão técnico de pendor anglicista). Será distracção ou vem aí uma nova época de pesadelo? Os gordos já são suficientemente humilhados pela galhofa dos colegas de turma e pelos vizinhos de rua. Não era preciso que a tv viesse sublinhar o desprezo a que já são votados.
Compreende-se que os "responsáveis" queiram salvar as criancinhas: a obesidade pode trazer consigo sérios dissabores e até riscos de saúde ao longo da vida. Chegar ao fim de um ciclo escolar sem aproveitamento também pode acarretar grandes aborrecimentos no futuro. Por este andar, corre-se o risco de, através da televisão, vir insultar os meninos que reprovam. Bolas! Espero que acabem por reconhecer que é preferível afixar uma má nota na privacidade da vitrina da escola, do que vir chamar burras às crianças no intervalo do telejornal.
Surpreende-me que ainda não se tenham feito ouvir as vozes dos que clamam contra os possíveis efeitos negativos de determinadas práticas que me parecem muito menos aviltantes: por exemplo, avaliar os conhecimentos, na escola, classificar os alunos de uma forma honesta, ou proceder a sanções de tipo disciplinar, é hoje visto como como podendo afectar gravemente a "auto-estima" (dizia-se "amor próprio" antes da invasão de papers especializados que criaram o novo jargão técnico de pendor anglicista). Será distracção ou vem aí uma nova época de pesadelo? Os gordos já são suficientemente humilhados pela galhofa dos colegas de turma e pelos vizinhos de rua. Não era preciso que a tv viesse sublinhar o desprezo a que já são votados.
Compreende-se que os "responsáveis" queiram salvar as criancinhas: a obesidade pode trazer consigo sérios dissabores e até riscos de saúde ao longo da vida. Chegar ao fim de um ciclo escolar sem aproveitamento também pode acarretar grandes aborrecimentos no futuro. Por este andar, corre-se o risco de, através da televisão, vir insultar os meninos que reprovam. Bolas! Espero que acabem por reconhecer que é preferível afixar uma má nota na privacidade da vitrina da escola, do que vir chamar burras às crianças no intervalo do telejornal.
sexta-feira, maio 20
Sobressalto II
No PÚBLICO de hoje lê-se que o Ministério da Educação garante que não há qualquer programa curricular de educação sexual (e.s.). É preciso lata! Pagam a iluminados para elaborar as orientações para o assunto, imprimem um livro com as ditas orientações para a e.s., distribuem-no pelas escolas... que diferença há entre isto e um programa? (Também poderíamos dizer que não há programa de matemática para o secundário, porque o que há é tão vago e defeituoso que foi necessário complementá-lo com toda uma série de textos explicativos...)
De resto, o site do Júlio Machado Vaz confirma no essencial o teor das notícias sobre este caso ridículo. O livro, se não é manual destinado às futuras aulas de educação sexual, "pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação..."
Pobres crianças, querem estragar-lhes o prazer de descobrir a vida e possivelmente reduzir a masturbação a um trabalho de casa... Está tudo doido. E o pior é que muita gente não dá por isso.
De resto, o site do Júlio Machado Vaz confirma no essencial o teor das notícias sobre este caso ridículo. O livro, se não é manual destinado às futuras aulas de educação sexual, "pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação..."
Pobres crianças, querem estragar-lhes o prazer de descobrir a vida e possivelmente reduzir a masturbação a um trabalho de casa... Está tudo doido. E o pior é que muita gente não dá por isso.
quarta-feira, maio 18
Sobressalto no encino aprendisajem
De acordo com algumas notícias recentes, o programa e os manuais de "educação sexual" estão a levantar algum escândalo e alarme.
Os factos relatados nessas notícias só poderão constituir surpresa para quem não esteja habituado a sofrer calafrios ao ler programas e manuais de outras disciplinas. O caso presente é apenas mais susceptível de inquietar os pais das crianças-cobaias desta "educação", porque toca ou pretende tocar (ao que parece, literalmente...) em zonas muito sensíveis que podem ter a ver com a formação da personalidade.
Ora, tendo presente que nem quando se trata de definir o que é razoável ensinar em Matemática no secundário (uma matéria mais que consolidada e que deveria ser mais ou menos consensual) o nosso ministério da educação consegue produzir um programa decente - influenciando pela negativa, à partida, os autores de manuais - como poderia esperar-se que viesse a produzir um programa razoável de educação sexual, matéria infinitamente mais controversa?
Parece que até há nomes sonantes de psicólogos da nossa aldeia associados `a iniciativa, o que não deve deixar-nos descansados sobre a qualidade da sua prática.
A raiz do problema é fácil de identificar: consiste na ideia peregrina, que grupos de pressão têm conseguido fazer passar com sucesso, de que tudo o que há para aprender na vida é ensinável na escola. As próprias universidades colaboram no embuste com frequência, legitimando com a concessão dos mais altos graus académicos o discurso dos arautos de certos novos "saberes" e atribuindo o estatuto de "ciência" a conhecimentos de almanaque.
Os factos relatados nessas notícias só poderão constituir surpresa para quem não esteja habituado a sofrer calafrios ao ler programas e manuais de outras disciplinas. O caso presente é apenas mais susceptível de inquietar os pais das crianças-cobaias desta "educação", porque toca ou pretende tocar (ao que parece, literalmente...) em zonas muito sensíveis que podem ter a ver com a formação da personalidade.
Ora, tendo presente que nem quando se trata de definir o que é razoável ensinar em Matemática no secundário (uma matéria mais que consolidada e que deveria ser mais ou menos consensual) o nosso ministério da educação consegue produzir um programa decente - influenciando pela negativa, à partida, os autores de manuais - como poderia esperar-se que viesse a produzir um programa razoável de educação sexual, matéria infinitamente mais controversa?
Parece que até há nomes sonantes de psicólogos da nossa aldeia associados `a iniciativa, o que não deve deixar-nos descansados sobre a qualidade da sua prática.
A raiz do problema é fácil de identificar: consiste na ideia peregrina, que grupos de pressão têm conseguido fazer passar com sucesso, de que tudo o que há para aprender na vida é ensinável na escola. As próprias universidades colaboram no embuste com frequência, legitimando com a concessão dos mais altos graus académicos o discurso dos arautos de certos novos "saberes" e atribuindo o estatuto de "ciência" a conhecimentos de almanaque.
sábado, maio 14
Fantasmas
Tem havido abundante e justificada indignação com a frase de um obscuro pároco a propósito da morte da menina maltratada por pai e avó. A declaração vem apenas confirmar que estupidez, insensibilidade e falta de bom senso foram por Deus distribuídas em doses ilimitadas. Os media martelaram-nos com o acontecimento todo um dia e os comentários estender-se-ão por mais algum tempo (este é mais um).
Ainda bem que surgiram críticas de todos os lados, até mesmo de vozes bem colocadas na Igreja portuguesa. Esta rejeição unânime mostra, afinal, que o episódio não tem a importância que lhe parece ter sido atribuída, circunstância provavelmente comum a muitos outros nos tempos que correm: uma rádio põe a boca no trombone com o volume no máximo e lá temos acontecimento.
Mais interessante do que esta "notícia" triste e doentia será a consideração das razões da sua insignificância. A mais importante, no meu entender, é que, se há forças que ameaçam a nossa liberdade e o modo de vida tal como os entendemos adquiridos, a Igreja Católica não é uma delas. Se podemos falar de um fundamentalismo cristão na sociedade "ocidental", ele não passa de uma excrecência quase marginal e sem credibilidade. A própria Igreja Católica tem hoje sobre os "crentes" uma autoridade pouco mais que simbólica. Abolido o Inferno e tendo-se verificado que o paraíso é na Terra (descoberta a pílula e os antibióticos, e viciados no consumo dos brinquedos electrónicos, é-nos difícil conceber um grau superior de bem estar e felicidade) a doutrina é, mesmo para os que se dizem católicos, apenas uma referência sem pressões incluídas. Há, é claro, um Vaticano, pode haver um papa com um desempenho de relevo na cena política internacional, mas não esqueçamos que, ao mesmo tempo, as mais altas instâncias políticas da Europa não reconhecem o papel civilizador do cristianismo na evolução que conduziu ao presente que somos.
Por estas mesmas razões não compreendo o clamor de receios registado com a recente eleição do papa. Estamos distraídos com fantasmas do passado e desvalorizamos ameaças bem mais reais.
Ainda bem que surgiram críticas de todos os lados, até mesmo de vozes bem colocadas na Igreja portuguesa. Esta rejeição unânime mostra, afinal, que o episódio não tem a importância que lhe parece ter sido atribuída, circunstância provavelmente comum a muitos outros nos tempos que correm: uma rádio põe a boca no trombone com o volume no máximo e lá temos acontecimento.
Mais interessante do que esta "notícia" triste e doentia será a consideração das razões da sua insignificância. A mais importante, no meu entender, é que, se há forças que ameaçam a nossa liberdade e o modo de vida tal como os entendemos adquiridos, a Igreja Católica não é uma delas. Se podemos falar de um fundamentalismo cristão na sociedade "ocidental", ele não passa de uma excrecência quase marginal e sem credibilidade. A própria Igreja Católica tem hoje sobre os "crentes" uma autoridade pouco mais que simbólica. Abolido o Inferno e tendo-se verificado que o paraíso é na Terra (descoberta a pílula e os antibióticos, e viciados no consumo dos brinquedos electrónicos, é-nos difícil conceber um grau superior de bem estar e felicidade) a doutrina é, mesmo para os que se dizem católicos, apenas uma referência sem pressões incluídas. Há, é claro, um Vaticano, pode haver um papa com um desempenho de relevo na cena política internacional, mas não esqueçamos que, ao mesmo tempo, as mais altas instâncias políticas da Europa não reconhecem o papel civilizador do cristianismo na evolução que conduziu ao presente que somos.
Por estas mesmas razões não compreendo o clamor de receios registado com a recente eleição do papa. Estamos distraídos com fantasmas do passado e desvalorizamos ameaças bem mais reais.
Obfuscação
A ministra da Educação afinal pensa que os exames (do 9ºano) são importantes tanto para puxar pelos alunos como pelos professores. Vem no PÚBLICO de hoje. Por isso não vai suspendê-los. Mas o que é certo é que ainda há cerca de um mês anunciou intenção de acabar com esses exames a partir do próximo ano lectivo. Se calhar por achar que são inúteis ou nocivos. Parece que agora não acha. Ou há alguma coisa que me está a escapar? Ou cometo à partida o erro de tentar perceber? Que obfuscação (proponho este neologismo para substituir o desgastado trapalhada).
terça-feira, maio 10
Prurido musical
Este domingo, no PÚBLICO, o opinador musical Augusto M. Seabra dava-nos conta da sua impolutez ideológica criticando a programação pelo São Carlos, para o passado dia 8, de uma récita dos Carmina Burana. Confessou ele ter-se deslocado a Sintra, a um recital evocativo dos 60 anos do fim do Holocausto, com obras clandestinas no tempo do nazismo.
Não tenho dúvida de que a escolha do São Carlos é duplamente infeliz: por fazer coincidir o acontecimento com o aniversário que sabemos, mas também porque há muito mais música, para além da de Orff, em que seria útil investir. Os Carmina Burana não precisam de que o São Carlos os programe: empresários privados já os superproduziram duas vezes no Pavilhão Atlântico, certamente de casa cheia. (O opinador confia-nos, de resto, que não pôs, nem tenciona pôr, os pés em recinto algum onde se encene a dita obra. Eu também não: tenho duas boas versões em disco que oiço em casa em melhores condições.)
Os Carmina Burana, de Orff, constituem uma peça musical de grande inspiração, exaltante, certamente epidérmica, mas fascinante. Suspeito de que, em tempos recentes, já pôs mais gente a tomar atenção à música "clássica" (à falta de melhor uso este termo) do que sinfonias de Beethoven ou árias de Verdi. Os programadores do Pavilhão Atlântico não brincam em serviço. Uma instituição como o São Carlos tem obrigação de ser mais selectiva.
Os Carmina Burana estão mais do que integrados no nosso tempo. Quase uma dúzia de edições discográficas de altíssima qualidade, com intérpretes de grande prestígio, legitimaram a pertença da obra ao património cultural que fruimos sem complexos. A possibilidade de Orff ter andado próximo da órbita nazi é já irrelevante para o efeito.
O crítico e opinador confundiu o alvo. A questão que devia ter posto era a da necessidade de o São Carlos se ocupar de música já tão batida e com sucesso comercial. Os Carmina Burana são bons para fazer um intervalo entre a espiritualidade de Bach, a graça absoluta de Mozart ou Cole Porter e a profundidade de Mahler ou Shostakovich. Não têm estatuto que justifique o prurido ideológico em 2005.
De resto, a música vale o que vale, mas ainda bem que alguém arrancou aquela sequência de notas de onde quer que ela estivesse a aguardar o parto e a luz.
Não tenho dúvida de que a escolha do São Carlos é duplamente infeliz: por fazer coincidir o acontecimento com o aniversário que sabemos, mas também porque há muito mais música, para além da de Orff, em que seria útil investir. Os Carmina Burana não precisam de que o São Carlos os programe: empresários privados já os superproduziram duas vezes no Pavilhão Atlântico, certamente de casa cheia. (O opinador confia-nos, de resto, que não pôs, nem tenciona pôr, os pés em recinto algum onde se encene a dita obra. Eu também não: tenho duas boas versões em disco que oiço em casa em melhores condições.)
Os Carmina Burana, de Orff, constituem uma peça musical de grande inspiração, exaltante, certamente epidérmica, mas fascinante. Suspeito de que, em tempos recentes, já pôs mais gente a tomar atenção à música "clássica" (à falta de melhor uso este termo) do que sinfonias de Beethoven ou árias de Verdi. Os programadores do Pavilhão Atlântico não brincam em serviço. Uma instituição como o São Carlos tem obrigação de ser mais selectiva.
Os Carmina Burana estão mais do que integrados no nosso tempo. Quase uma dúzia de edições discográficas de altíssima qualidade, com intérpretes de grande prestígio, legitimaram a pertença da obra ao património cultural que fruimos sem complexos. A possibilidade de Orff ter andado próximo da órbita nazi é já irrelevante para o efeito.
O crítico e opinador confundiu o alvo. A questão que devia ter posto era a da necessidade de o São Carlos se ocupar de música já tão batida e com sucesso comercial. Os Carmina Burana são bons para fazer um intervalo entre a espiritualidade de Bach, a graça absoluta de Mozart ou Cole Porter e a profundidade de Mahler ou Shostakovich. Não têm estatuto que justifique o prurido ideológico em 2005.
De resto, a música vale o que vale, mas ainda bem que alguém arrancou aquela sequência de notas de onde quer que ela estivesse a aguardar o parto e a luz.
sábado, maio 7
Tanto por tão pouco
Em face dos testemunhos de intenso júbilo que o coro dos vizinhos e as reportagens de tv me trazem, como aconteceu há dois dias e nas horas seguintes, não posso deixar de me sentir apreensivo e invejoso. Digo isto a sério, não quero que os meus 6 leitores pensem que é snobice. Vários jovens adultos declaravam na tv que estavam a sentir a maior alegria das suas vidas. Isto dá que pensar: tanta felicidade a tão baixo custo! Creio que não é preciso fazer mais do que sofrer duas horas em frente da tv e ter fé no clube ou algo assim. E tão intensa felicidade pode ser atingível mesmo que o resultado não seja uma vitória no jogo em causa - basta que contribua, pela aritmética das regras, para passar a uma etapa seguinte em boa posição.
A minha apreensão e inveja decorrem de uma manifesta insensibilidade, contra a qual nada posso fazer, a toda esta alegria. Claro que não estou só: tenho a certeza de que somos uma imensa minoria de prejudicados. É-nos negada a partilha da felicidade suprema (a julgar pelas descrições que ouvi).
O fenómeno do futebol tem interessado psicólogos, sociólogos e antropólogos, mas as suas metáforas pleonásticas não me tranquilizam. O que é preciso estudar é a anomalia de comportamento que consiste nesta frieza perante os sucessos(?) desportivos, que veda uma imensa fonte de prazer a milhões (atrevo-me a arriscar) de seres humanos. Espero que a genética entre em cena para detectar a verdadeira causa desta disfunção e, claro, para propor uma cura de que eu possa ainda beneficiar.
A minha apreensão e inveja decorrem de uma manifesta insensibilidade, contra a qual nada posso fazer, a toda esta alegria. Claro que não estou só: tenho a certeza de que somos uma imensa minoria de prejudicados. É-nos negada a partilha da felicidade suprema (a julgar pelas descrições que ouvi).
O fenómeno do futebol tem interessado psicólogos, sociólogos e antropólogos, mas as suas metáforas pleonásticas não me tranquilizam. O que é preciso estudar é a anomalia de comportamento que consiste nesta frieza perante os sucessos(?) desportivos, que veda uma imensa fonte de prazer a milhões (atrevo-me a arriscar) de seres humanos. Espero que a genética entre em cena para detectar a verdadeira causa desta disfunção e, claro, para propor uma cura de que eu possa ainda beneficiar.
quinta-feira, maio 5
Uma questão de estética
O actual Presidente da República está em funções há m anos e antes disso foi presidente da câmara de Lisboa n anos. Durante estes m+n anos construiu-se freneticamente em todos os bocadinhos de terreno onde cabia uma escavadora, até se chegar à situação em que existe praticamente o dobro dos apartamentos de habitação necessários à população que temos. O sistema desequilibrou a economia, canalizando o endividamento para um consumo não produtivo, ao mesmo tempo que empurrava as pessoas para emigrarem cá dentro, dos centros das cidades para as periferias manhosas. Financiam-se assim as autarquias, os bancos (já que o imobiliário assumiu o papel de canalizador de poupanças) e, claro está, os construtores. É claro que estes não tinham que estar preocupados com as condições de vida decorrentes das tristes urbanizações que os deixavam fazer. Na própria cidade de Lisboa, ainda assim um paraiso comparado com certos tenebrosos subúrbios, investiu-se pesadamente numa rede de metro que, resolvendo alguns problemas, deixa muitos outros sem solução; as linhas novas colocaram estações intermédias em áreas alvo de construção e sem segurança. Em zonas centrais, rasgaram-se estradas (não ruas), não tendo passado pela cabeça de nenhum responsável o gesto simpático de prever a sua utilização por peões. A cidade tornou-se propriedade dos carros e perigosa fora das horas de ponta.
Vir clamar contra a situação depois da casa arrombada, ainda por cima numa operação do tipo relâmpago mediático para esquecer na semana seguinte, não me parece que seja a função do PR. Ele devia salvaguardar a dignidade das suas funções recusando estes reality shows. Até por uma questão de estética.
Vir clamar contra a situação depois da casa arrombada, ainda por cima numa operação do tipo relâmpago mediático para esquecer na semana seguinte, não me parece que seja a função do PR. Ele devia salvaguardar a dignidade das suas funções recusando estes reality shows. Até por uma questão de estética.
quarta-feira, maio 4
A excepção
Não é original fazer a obervação de que a inveja é uma característica nacional. A inveja do sucesso material ou financeiro, ou simplesmente de um salário chorudo, impregna o pequeno mundo português, manifestando-se em todas as classes sociais. É mascarada pela aversão ao lucro, bem aceite por tudo o que se crê bem pensante, e convive bem com a aversão ao risco dentro de regras de jogo limpas, que também é muito nossa.
Há, no entanto uma excepção. Não recordo sinais de inveja relativamente ao mundo do futebol e às suas personagens fabulosas (neste momento estou a lembrar-me de Mourinho). Não há animosidade em relação aos nossos conterrâneos bem sucedidos no futebol, mesmo que ganhem rios de dinheiro, e ainda bem. A excepção pode atenuar os efeitos venenosos do pecado mortal.
A mesma excepção explica que, a par de censuras frequentes à camada difusa de ricos e empresários que escapam aos impostos, estejamos sempre prontos a esquecer as dívidas quando se trata dos clubes, eventualmente disfarçadas de dívidas da "liga" ou outra invenção dessas. A possibilidade de pôr em risco uma temporada de futebol lançar-nos-ia numa depressão que faria com que a seca, a estagnação económica ou o índice de desemprego parecessem brincadeiras irrelevantes.
Há, no entanto uma excepção. Não recordo sinais de inveja relativamente ao mundo do futebol e às suas personagens fabulosas (neste momento estou a lembrar-me de Mourinho). Não há animosidade em relação aos nossos conterrâneos bem sucedidos no futebol, mesmo que ganhem rios de dinheiro, e ainda bem. A excepção pode atenuar os efeitos venenosos do pecado mortal.
A mesma excepção explica que, a par de censuras frequentes à camada difusa de ricos e empresários que escapam aos impostos, estejamos sempre prontos a esquecer as dívidas quando se trata dos clubes, eventualmente disfarçadas de dívidas da "liga" ou outra invenção dessas. A possibilidade de pôr em risco uma temporada de futebol lançar-nos-ia numa depressão que faria com que a seca, a estagnação económica ou o índice de desemprego parecessem brincadeiras irrelevantes.
domingo, maio 1
Domingo no PÚBLICO
Destaques: António Barreto sobre a China. Razões a favor de exames nacionais, pelo leitor Jorge Carreira Maia. Entrevista com Paul Auster, atormentado com o "momento negro" e o "fundamentalismo cristão" na América.
A PÚBLICA é um produto de notável qualidade no âmbito das revistas light. Funciona talvez como lenitivo pela humilhação que nos infligem ao sábado ao termos que comprar a execrável XIS juntamente com o jornal. Entre outros temas interessantes, inclui hoje um artigo-entrevista com António Nóvoa à volta da história da educação em Portugal e da publicação mais recente deste investigador.
A PÚBLICA é um produto de notável qualidade no âmbito das revistas light. Funciona talvez como lenitivo pela humilhação que nos infligem ao sábado ao termos que comprar a execrável XIS juntamente com o jornal. Entre outros temas interessantes, inclui hoje um artigo-entrevista com António Nóvoa à volta da história da educação em Portugal e da publicação mais recente deste investigador.
sábado, abril 30
Matemática ainda
O Governo mostrou nos últimos dias intenções de actuar e mudar coisas. Os campos de intervenção escolhidos foram o do ensino da matemática (curiosa peculiaridade nacional) e o da justiça. Não me considero suficientemente dentro do assunto para comentar as medidas anunciadas para a justiça, embora me pareçam coisas pequenas que talvez não justifiquem o destaque que lhes foi dado. Em relação aos problemas com a matemática, sou um observador melhor posicionado. Por isso mantenho uma reserva pessimista até ver o que se vai passar de concreto. As iniciativas prometidas podem ser positivas, mas quando vão produzir efeitos? É bom saber que a ministra está preocupada com a formação dos professores do 1º ciclo do básico em funções. Mas estou curioso de saber duas coisas: a primeira é em que moldes e com que programas vai ser feita a formação; a segunda é como vão ser os professores no activo motivados (forçados?) a frequentar essa formação.
Nas acções em vista irão ser envolvidos departamentos de matemática universitários e outras instituições: tudo bem, mas tratando-se de acções ad hoc que requerem um desenho próprio, quantas discussões serão necessárias antes de as coisas poderem arrancar? Haverá a coragem de confiar a leccionação a professores do secundário ou 3º ciclo escolhidos de acordo com a sua competência científica e pedagógica?
E irá o resultado dessas acções ser aferido por avaliação credível, e terá esse resultado consequências nas carreiras de onde, como se sabe, é quase impossível arredar alguém? (Convém não esquecer que de acções de formação tem andado este inferno cheio há décadas.) Por outras palavras, receio que estas medidas, que seria importante terem reflexos a curto prazo, possam vir a reduzir-se a um modelo gasto e praticamente inútil. E, sabendo-se como nos últimos dez anos os ministérios da educação (PSD, PS) têm vindo a publicar textos inacreditáveis a que chamam "programas de matemática oficiais" (refiro-me aos do secundário) é pertinente ter dúvidas sobre o que nos espera.
Depois há ainda a considerar que nem a mobilização dos professores vai estar garantida: apesar de haver muitos com horário zero ou reduzidos, os sindicatos já tiveram a lata de vir mencionar que não há condições para pôr em prática alguns dos objectivos...
Não quero dizer que não se avance com estas medidas. Espero que venham a ser realizadas com o sucesso possível. Mas julgo que seria muito mais eficiente, no curto prazo, dar um sinal de rigor mantendo os exames externos no 9º ano e não anunciando a sua extinção.
NOTA. O Bom Senso observa, com razão (a propósito do inquérito sobre a tabuada, na sic) que saber matemática é muito mais do que saber a tabuada. Mas desconhecer em alto grau a tabuada não ajuda muito a avançar no estudo da disciplina. É importante criar familiaridade com os números, a sua ordem de grandeza e as relações entre eles. É igualmente importante desenvolver a capacidade de utilizar automatismos que acabam por nos economizar tempo ao elaborar raciocínios complexos. As ideologias pedagógicas em moda têm desvalorizado muito estes aspectos na aprendizagem, com resultados negativos evidentes.
Nas acções em vista irão ser envolvidos departamentos de matemática universitários e outras instituições: tudo bem, mas tratando-se de acções ad hoc que requerem um desenho próprio, quantas discussões serão necessárias antes de as coisas poderem arrancar? Haverá a coragem de confiar a leccionação a professores do secundário ou 3º ciclo escolhidos de acordo com a sua competência científica e pedagógica?
E irá o resultado dessas acções ser aferido por avaliação credível, e terá esse resultado consequências nas carreiras de onde, como se sabe, é quase impossível arredar alguém? (Convém não esquecer que de acções de formação tem andado este inferno cheio há décadas.) Por outras palavras, receio que estas medidas, que seria importante terem reflexos a curto prazo, possam vir a reduzir-se a um modelo gasto e praticamente inútil. E, sabendo-se como nos últimos dez anos os ministérios da educação (PSD, PS) têm vindo a publicar textos inacreditáveis a que chamam "programas de matemática oficiais" (refiro-me aos do secundário) é pertinente ter dúvidas sobre o que nos espera.
Depois há ainda a considerar que nem a mobilização dos professores vai estar garantida: apesar de haver muitos com horário zero ou reduzidos, os sindicatos já tiveram a lata de vir mencionar que não há condições para pôr em prática alguns dos objectivos...
Não quero dizer que não se avance com estas medidas. Espero que venham a ser realizadas com o sucesso possível. Mas julgo que seria muito mais eficiente, no curto prazo, dar um sinal de rigor mantendo os exames externos no 9º ano e não anunciando a sua extinção.
NOTA. O Bom Senso observa, com razão (a propósito do inquérito sobre a tabuada, na sic) que saber matemática é muito mais do que saber a tabuada. Mas desconhecer em alto grau a tabuada não ajuda muito a avançar no estudo da disciplina. É importante criar familiaridade com os números, a sua ordem de grandeza e as relações entre eles. É igualmente importante desenvolver a capacidade de utilizar automatismos que acabam por nos economizar tempo ao elaborar raciocínios complexos. As ideologias pedagógicas em moda têm desvalorizado muito estes aspectos na aprendizagem, com resultados negativos evidentes.
quarta-feira, abril 27
Matemática II
Ouvi há pouco a ministra da educação na SIC. Das medidas a que se referiu há uma que me parece fazer sentido: melhorar a formação de professores do ensino básico (1º ciclo) que, como é sabido, podem estar a ensinar sem ter tido formação em matemática. Parece que tenciona confiar a tarefa às ESEs. Não sei se a ministra está a par da ideologia pedagógica que impregna uma parte considerável das ESEs e, consequentemente, da possibilidade bem real de, após levada a cabo a iniciativa, as massas estudantis continuarem a entupir quando lhes perguntam quanto é 6x7, 6x8 ou 6 ao quadrado (como a SIC mostrou, há pouco mais de uma hora).
A Matemática só nos dá preocupações
A ministra que acha que os exames no 3º ciclo do básico são uma coisa execrável, e por isso devem ser extintos, está preocupada com as más prestações dos alunos em Matemática. Para isso, propõe uma série de medidas originalíssimas. De modo também originalíssimo, a presidente da Associação de Professores de Matemática vem dizer que está de acordo, mas.
segunda-feira, abril 25
Livros e leituras
O O.N. (Prozacland) desafiou-me a responder a um inquérito que, como me apercebi, tem circulado na net nas últimas semanas. Eu não consigo responder porque acho que a primeira pergunta está mal formulada, e a partir daí creio que tudo perde o sentido. Mas, sem ser uma resposta, posso dizer que o último livro que li foi o Traité des Excitants Modernes de Balzac. E o penúltimo foi a Memória das Putas Tristes do... vocês sabem quem. E o antepenúltimo foi Un Amour de Jeanne de Michel Ragon. De momento entretenho-me com os textos de El Lenguaje de la Pasión, de Vargas Llosa (2000). E quando olho para a pilha de livros em fila de espera hesito sempre entre iniciar um novo ou reler um daqueles que me surpreenderam ou maravilharam. Até agora a escolha tem sido quase sempre a primeira, mas também é verdade que não têm sido poucas as leituras que deixo incompletas: umas vezes porque decididamente a qualidade não satisfaz, mas em grande parte dos casos porque me apercebo de que "já li aquilo noutro lugar" - no sentido em que intuo que prosseguir a leitura não me vai proporcionar prazeres novos. E, sendo sabido que tenho falta de tempo, sou obrigado a economizar este mais escasso dos bens.
Haverá vida inteligente no Instituto da Inteligência?
(via Blasfémias, link ao lado:) Esta curiosa notícia suscita dúvidas muito pertinentes. Os progressos na educação vão dar passos de gigante, dizem eles! Presunção e água benta...
quarta-feira, abril 13
A ANTENA 2
A Antena 2 é um luxo. Uma estação de rádio que emite sobretudo música de qualidade 24 horaspor dia! (Com os acontecimentos deprimentes do dia, como as manifestações de estudantes amestrados, não tenho outro remédio senão pensar em coisas insignificantes como a Antena 2.) Dizia eu que nem sabemos dar o verdadeiro valor ao tesouro que é a A2 e que nos dão de bandeja. Bom, mas nem tudo é exactamente assim bom, preto no branco. É que além da música há por lá umas pessoas que falam! Claro que ouvir uma boa conversa é um prazer, e ocasionalmente issso consegue-se (cada vez menos). A rádio portuguesa está cheia de conversa de chacha (será com x? só conheço a palavra pela oralidade) e a A2, ao contrário do que poderia pensar-se, não é excepção. Os animadores dos programas mais informais (Despertar a 2 e Ritornello, por ex.) ou falam demasiado, sem conteúdo que se oiça, ou exibem fraquíssima capacidade de articulação de um discurso interessante, ou limitam-se a tentar inocular-nos doses maciças de gostos pessoais e entrevistas a amigalhaços irrelevantes. Quando oiço aquelas conversas insípidas e trôpegas, como a desta manhã no início do Acordar (gerando um impulso para desligar o rádio apesar da alta qualidade da música que estavam a passar) ocorre-me sempre como é frequente andarmos no mundo com os papéis trocados. Quem estaria bem na A2 seria o António Guterres. Pelo menos as frases sairiam direitinhas e com sintaxe irrepreensível, eventualmente com arquitectura requintada. E ali não prejudicaria o país nem o mundo. O auditório da A2 deve caber numa sala pequena do CCB.
domingo, abril 10
No PÚBLICO de hoje...
Guilherme Valente, preocupado com o que irá ser a política de educação no curto prazo. Assino por baixo. António Barreto escreve sobre os dilemas do PSD.
Ana Sá Lopes, que às vezes tem piada no papel de Vanessa, hoje espalha-se ao comprido. É que só se pode continuar a ridicularizar Santana Lopes por preguiça intelectual.
Ana Sá Lopes, que às vezes tem piada no papel de Vanessa, hoje espalha-se ao comprido. É que só se pode continuar a ridicularizar Santana Lopes por preguiça intelectual.
sábado, abril 9
O nome e o prenome
Em Portugal cultivamos um uso exorbitante de títulos académicos. Digo exorbitante porque é com grande frequência que, em situações que não têm a ver com a vertente profissional associada, precisamos do dr. ou eng. para referir determinada personagem pública do mundo da política. Até os sarcásticos, pessimistas e impiedosos críticos do nosso pequeno mundo caem no vício: Vasco Pulido Valente escreve frequentemente "dr. Cavaco". O vírus da doutorite-engenheirite é transversal na nossa sociedade, mas os jornalistas constituem claramente um grupo de risco com elevado potencial de infecção. (E até os ouvintes do forum da TSF chamam por vezes "dr..." ao jornalista de serviço!)
Um momento de reflexão basta para nos darmos conta de que nunca ouvimos as expressões dr Blair ou dr Chirac ou dr Aznar ou eng Zapatero ou...
Provincianos e pequeninos, julgamos que tratar alguém, fora de uma situação profissional em que isso se justifique, por "senhor" ou "senhora", é sinal do desprezo e sobranceria com que nos dirigiríamos ao canalizador ou ao marido da nossa empregada doméstica (pessoas que, de resto, podem ser competentíssimas nas respectivas profissões).
Quando todos acharmos natural dizer e escrever "sr. Cavaco", "sr. Sócrates" ou "sra Ana Gomes" teremos feito progressos no domínio das nossas próprias referências.
Um momento de reflexão basta para nos darmos conta de que nunca ouvimos as expressões dr Blair ou dr Chirac ou dr Aznar ou eng Zapatero ou...
Provincianos e pequeninos, julgamos que tratar alguém, fora de uma situação profissional em que isso se justifique, por "senhor" ou "senhora", é sinal do desprezo e sobranceria com que nos dirigiríamos ao canalizador ou ao marido da nossa empregada doméstica (pessoas que, de resto, podem ser competentíssimas nas respectivas profissões).
Quando todos acharmos natural dizer e escrever "sr. Cavaco", "sr. Sócrates" ou "sra Ana Gomes" teremos feito progressos no domínio das nossas próprias referências.
quinta-feira, abril 7
Mau tempo na educação...
... com o abandono do objectivo de validar os manuais escolares por alguns anos. E com o anúncio da supressão dos exames no 9º ano.
segunda-feira, abril 4
POSITIVO NEGATIVO
Há poucos dias foi distribuída com o Público uma revista intitulada País Positivo. Uma primeira parte era dedicada a 2005 ano internacional da Física e era pretexto para umas fotografias de presenças de Sampaio em sessões relacionadas com o evento. Havia também uma entrevista com o presidente da FCT, Ramoa Ribeiro. Seguiam-se páginas dedicadas a publicidade de empreendimentos turísticos. A terminar, entrevistas com vários autarcas focavam as suas grandes iniciativas no sentido do progresso das regiões onde são poder.
Sabem como se fazem estas revistas? Os promotores enviam propostas aos potenciais interessados em publicidade, juntamente com a tabela de preços. Quem quer ser "entrevistado" paga.
Trata-se de pura publicidade mascarada de jornalismo. Honestamente, que interesse pode suscitar este tipo de publicação? Para além da sensaboria do objecto há um aspecto que me desagrada: saber que é com dinheiro público que alguns empoleirados vêm anunciar as suas grandiosas realizações (estou a pensar sobretudo nos autarcas).
Há poucos dias foi distribuída com o Público uma revista intitulada País Positivo. Uma primeira parte era dedicada a 2005 ano internacional da Física e era pretexto para umas fotografias de presenças de Sampaio em sessões relacionadas com o evento. Havia também uma entrevista com o presidente da FCT, Ramoa Ribeiro. Seguiam-se páginas dedicadas a publicidade de empreendimentos turísticos. A terminar, entrevistas com vários autarcas focavam as suas grandes iniciativas no sentido do progresso das regiões onde são poder.
Sabem como se fazem estas revistas? Os promotores enviam propostas aos potenciais interessados em publicidade, juntamente com a tabela de preços. Quem quer ser "entrevistado" paga.
Trata-se de pura publicidade mascarada de jornalismo. Honestamente, que interesse pode suscitar este tipo de publicação? Para além da sensaboria do objecto há um aspecto que me desagrada: saber que é com dinheiro público que alguns empoleirados vêm anunciar as suas grandiosas realizações (estou a pensar sobretudo nos autarcas).
quinta-feira, janeiro 20
EXPERIÊNCIA
Como não tenho tempo, aproveito para dizer que acho péssimo que o CCB faça publicidade a espectáculos (por ex., concertos) sem fazer qualquer referência ao conteúdo do programa. Como se todo o público se movesse apenas pela fama dos intérpretes!
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